New Siege

5 Capítulo 5 - Sem saída (parte II)


Notas iniciais
No capítulo anterior:
Durante a caçada na pirâmide, Hanne serviu de isca para que as amigas escapassem de uma situação perigosa. Agora, elas aguardam seu retorno para prosseguirem a jornada.

Yuvia e Heda já haviam atravessado a porta de saída do pavimento inferior, cujas inscrições da superfície continham um encantamento que selava as criaturas em seu próprio local. Ficaram alguns minutos sentadas num canto próximo, em silêncio, descansando dos combates anteriores. Volta e meia, Aprendizes passavam pelos corredores, gritando ou gargalhando em grupo, e a cada novo ruído, ambas olhavam esperançosas para a porta...

– Bom, eu ainda não conheço Hanne muito bem, mas me parece ser o tipo de pessoa que cumpre suas promessas – disse Yuvia. – Se ele disse que ia nos encontrar aqui, então devemos acreditar!

– Sim... Hanne é assim mesmo... – disse Heda, assumindo um semblante mais confiante. – Afinal, ele é o cara que falhou 14 vezes no teste para Gatuno e não desistiu! Definitivamente, ele vai voltar!

– Ei, Heda, estava pensando... Hanne disse que ainda aguardava uma resposta sua, sobre fazer parte da guilda... – lembrou-se Yuvia. – Por que você ainda não respondeu? Se recusou uma oferta da Guilda Oficial de Alberta, justamente pra permanecer em Morroc, com ele...

– Shhh! Fala baixo! – pediu Heda, checando com os olhos se não havia ninguém próximo a elas. – Só você sabe dessa oferta que eu recusei! E não foi por causa dele... As guildas oficiais exigem dedicação em tempo integral, eu teria que voltar a morar em Alberta, e mal poderia vender minhas coisinhas... Além disso, em Morroc a minha loja é soberana há cinco anos; em Alberta, seria apenas mais uma entre tantas...

Yuvia sorria ao perceber que o tom de voz de Heda se tornava cada vez mais gentil.

– Sabe, desde que ele me revelou seu sonho de criar a própria guilda, me sinto mais determinada a me tornar uma Ferreira...

– Uma Ferreira... – disse Yuvia. – Ainda lembro como meus tios ficaram surpresos quando você, pequenininha, disse que não ia se tornar uma Alquimista, como eles. Na verdade, foi uma surpresa para todos da família! Achei que fosse rever sua decisão, mas fico feliz que tenha escolhido seu caminho com tanta segurança!

– Uhum! – sorriu Heda. – Confesso que esse desejo nasceu de uma birra, porque sempre era excluída das caçadas por ser baixinha e fraca... Via meus pais sempre estudando, fazendo experimentos, não pareciam ser fortes... era o que eu pensava... Aí pensei em ser uma Ferreira de batalha, só pra conseguir o reconhecimento das pessoas...

– Mas você nem gosta tanto de caçadas assim, né? – perguntou Yuvia.

– Apesar de estar sempre com Hanne em suas aventuras, eu realmente não sinto muita empolgação em lutar – confirmou Heda, corando ainda mais. – Mas é tão bom estar do lado dele, que as batalhas não incomodam... Quando ele disse sobre a guilda, vi que poderia ficar com ele e ainda ser útil, mesmo se isso não envolvesse combates! Seria a Ferreira da guilda, iria fabricar armas poderosas para ele... e para os outros membros também...

– Hm... Então você já tem uma resposta pra dar! – disse Yuvia, em tom insinuante. – O que está esperando pra contar logo?

– É que eu antes queria... Confessar... Pra ele... – disse Heda, tropeçando nas próprias palavras.

Antes que Yuvia pudesse se manifestar à respeito, a porta de pedra do pavimento inferior começou a se mover. As duas então interromperam a conversa e foram até a porta.

– Hanne! – disseram as garotas, aliviadas.

– Oi! – disse o Gatuno sorrindo. – Fechem isso logo, que tem um bando de Isis muito nervosas ali atrás!

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Heda forneceu poções brancas a todos, que beberam para se curar dos ferimentos e do cansaço. Seu carrinho estava cheio de itens dos monstros derrotados, incluindo as belas Stilettos utilizadas pelos Esqueletos Soldados e o principal: sua Essência.

O trio seguia em direção às escadas que levavam ao pavimento da próxima missão. No caminho, Hanne contava o que tinha acontecido desde o momento que eles se separaram. Explicou como utilizara sua técnica de invisibilidade temporária para atrair a atenção dos demônios, cuja capacidade de sentir presenças ocultas era de conhecimento geral no reino. Imaginara que, se o bando de Isis sentisse um invasor escondido, dariam atenção apenas a ele, não percebendo a presença de suas amigas ao longe; exatamente o que se sucedeu.

– ...Então vi que não conseguiria derrotar as Isis naquele espaço estreito, e escapar dos esqueletos atrás de mim... – disse Hanne, continuando seu relato. – Daí eu fugi.

– Por Odin! E como conseguiu? – perguntou Heda, parando de andar.

– Quando eu roubei o arco de um dos esqueletos e vi que só tinham flechas sombrias, resolvi usá-las para abrir caminho entre as Isis... E então escapei! – respondeu Hanne, tentando encerrar logo o assunto.

– Demônios não deveriam sofrer danos de objetos encantados com o elemento sombrio... – murmurou Yuvia, intrigada. – Você conseguiu derrubá-las com essas flechas?

– Não exatamente... – respondeu Hanne, coçando a cabeça. – Mas deu certo, eu escapei!

– Ai! Conta logo o que aconteceu! – esbravejou Heda, sacudindo os braços. – Já começo a me perguntar se você realmente escapou ou é um Doppelganger se fazendo passar pelo verdadeiro Hanne!

– Bah, eu acertei duas flechadas nas Isis da frente! Sabia que não ia causar grande dano, mas ao menos ia perfurar a pele delas o suficiente pra ficarem cravadas. Acertei uma flecha no ventre de uma delas, e outra mirei na altura do ombro, pra fazer degraus e poder pular sobre elas... – disse Hanne, ficando sem graça.

– Olha! Então você também tem seus talentos com o arco... Não sabia! – disse Yuvia.

– Nem eu tava sabendo que você tinha melhorado nisso, Hanne... – completou Heda surpresa.

– Bem... eu realmente não melhorei tanto... Mirei o ombro, mas acertei o... Esquerdo... Bem... Vocês sabem – disse Hanne, desviando o olhar enquanto fazia gestos com as mãos à frente do tórax.

Yuvia não se segurou, e começou a gargalhar. Heda corou tanto quanto Hanne e virou o rosto de forma abrupta, fazendo sinal para que continuassem a caminhada.

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Minutos depois, desceram as escadas que davam acesso direto ao pavimento desejado, o quinto abaixo do deserto. Era semelhante aos anteriores, exceto que as paredes eram bastante espaçadas umas das outras; logo descobriram que não era por acaso...

Um imenso minotauro, de olhos vermelhos e vazios, tentou acertar Hanne, à frente do trio. A marreta de aço maciço passou a centímetros da cabeça do Gatuno.

– Vamos precisar de tudo que temos nesses grandalhões! – disse Hanne, com os olhos faiscando. – Tomem cuidado!

O Minorous partiu para a ofensiva novamente. Bufava e brandia sua marreta, antes de desferir cada ataque. Era lento, mas suas investidas eram extremamente potentes, a ponto de causar rachaduras nas paredes e no chão do pavimento. Hanne se desviava com certa facilidade, porém seus contra-ataques não estavam sendo efetivos... A lâmina de sua adaga não atravessava a pele do gigante, como se estivesse cega.

– Droga... – disse Hanne, lembrando-se de algo.

– Se afasta dele, Hanne! – berrou Heda, percebendo o que ocorria. – Minorous são filhos do fogo. Sua Damascus Flamejante não vai surtir efeito contra ele!

O minotauro, alheio à conversa dos humanos, continuava atacando com todas as forças. Hanne não tinha maiores problemas em se esquivar, e Heda tentava se aproveitar da movimentação do gatuno para golpear a besta. Uma oportunidade surgiu clara, e a Mercadora não hesitou em usar toda sua força em uma machadada certeira no abdomen desprotegido. Para seu espanto, o golpe deixou apenas um arranhão na cintura do monstro, e muita raiva em seus olhos, que se voltaram para ela.

O minotauro brandiu novamente sua marreta, agora encarando a pequena humana. Mas antes que pudesse desferir um ataque, Yuvia interviu, disparando várias flechas e atraindo a atenção para si. As flechas de gelo feriam o tronco da criatura, mas não o suficiente para serem mortais, e a cada golpe recebido, o Minorous ficava mais furioso, aumentando o vigor de seus ataques.

Yuvia retirou outra flecha, pôs em riste, e fechou os olhos por alguns segundos, como se reunisse em si toda a concentração e maestria dos arqueiros de Midgard...

Double Strafe! – gritou a Arqueira, ao disparar novamente.

A flecha seguiu certeira, mirando novamente o coração do Minorous. No entanto, algo estava diferente. O disparo da Arqueira estava envolto por uma aura azulada, que intensificava seu poder na trajetória, como que duplicando o projétil. Heda ficou maravilhada, ao ver duas flechas cravarem no peito da criatura: uma encantada com o elemento gelo, como outras que Yuvia já havia disparado, e a outra feita de pura energia espiritual.

A criatura soltou um urro ensurdecedor, que foi perdendo intensidade à medida que seus olhos vermelhos também perdiam o brilho e a sede de sangue. Seu corpo foi ao chão, sem vida. O sangue negro jorrava ao redor, fazendo uma poça de líquido espesso e fumegante, que Hanne e as garotas tomaram cuidado para evitar.

– Ufa! – surpirou Heda, limpando o suor da testa. – Agora me lembrei exatamente o porque de termos recuado daquela vez que estivemos aqui... Esses bichos são muito fortes!

– Heda, me vê uma daquelas Stilettos que pegamos dos esqueletos? – pediu o Gatuno, preocupado com a ineficiência de sua estimada adaga flamejante perante os minotauros.

– Vocês estão bem? – perguntou Yuvia.

– Sim... – disse Hanne, esboçando um sorriso. – Bela técnica! Vamos montar uma estratégia de combate que a favoreça, daqui pra frente!

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O trio avançou pelos corredores à procura das criaturas cujos coraçôes eles deveriam conseguir, os Verits. Encontraram mais alguns Minorous no caminho, mas estes foram vencidos com certa facilidade, graças à estratégia de Hanne: ele e Heda atraíam a atenção do monstro, para que este abrisse a guarda e desperdiçasse enegia atacando a dupla; e Yuvia usava suas flechas nos pontos vitais, pondo fim à criatura.

Hanne desembainhou novamente a Damascus Flamejante e correu em direção ao primeiro Verit que finalmente encontraram. Eram cães infernais, mumificados e com olhos dourados. Seus dentes pareciam de aço, e sequer cabiam em suas mandíbulas, ficando à mostra. Apesar da aparência bizarra, não eram agressivos. E com isso, Hanne massacrou o primeiro Verit visto, sob os olhares tristes de Heda e Yuvia.

– Temos mesmo que atacar esses bichos? – perguntou Heda, pesarosa. – Qualquer coisa, eu posso pechinchar uns Corações Imortais, conheço alguns Mercadores que me devem favores...

– Eles não são bichos, são cadáveres ambulantes – retrucou Hanne. – Não sentem nada, sequer tem consciência. Não precisa hesitar!

Yuvia avistara outro Verit ao longe, e usando uma flecha flamejante, derrubou a criatura, que dissolveu no ar. Seu coração permaneceu envolto pelas cinzas, pulsando intacto.

Continuaram a missão até coletar a quantidade pedida pelo anúncio do folheto. Combateram ainda algumas múmias, mas como outrora, elas não deram trabalho.

– Vamos voltar? – perguntou Yuvia, já preocupada com a quantidade de flechas restantes em sua aljava e no carrinho da prima.

– Vamos – disse Hanne. – Já deve ser noite, e já conseguimos os Corações Imortais que precisávamos.

– E eu tô doida pra tomar um banho bem quentinho! – disse Heda.

O olhar prateado da Mercadora fitava Hanne, acompanhado de um sorriso inocente, mas belo o bastante para desviar sua atenção da sombra que crescia atrás dela.

– Heda, cuidado, atrás de você! – gritou Yuvia, pêga de surpresa pela aparição da criatura, enquanto contava as flechas restantes em sua aljava.

Hanne percebeu a marreta do gigante atrás de Heda se aproximar perigosamente. Por reflexo, desequilibrou a amiga com uma rasteira e se jogou para trás, puxando-a pelo braço para junto de si. Seus rostos ficaram próximos, muito próximos. Heda podia sentir a respiração acelerada de Hanne perto de seus lábios. Os olhos dela encontraram os dele, num misto de ânsia e perigo.

– Aff! Hanne! Po-por quê fez isso? – esbravejou Heda, ruborizada.

Sua atenção foi então tomada pelo som da marreta se chocando contra a parede a seu lado; no que olhou para cima, viu a imagem monstruosa do minotauro, que parecia um titã. A marreta se ergueu novamente para o ataque seguinte, obrigando que os dois rolassem para longe para não serem esmagados. Yuvia mirou o arco nos olhos do Minorous e disparou seu Double Strafe, arrancando um urro gutural da criatura. Hanne e Heda, que já haviam se levantado, atacaram a criatura em conjunto com golpes nas articulações do joelho. Assim que ela tombou, Hanne deu o golpe de misericórdia, cravando a Stiletto boca adentro do Minorous.

Mal tiveram tempo de respirar, uma dupla daqueles minotauros apontou na curva atrás deles.

– Voltar está fora de questão – disse Hanne. – Rápido, vamos por ali!

Ele apontou o caminho e as garotas o seguiram. Chegaram a um beco sem saída, onde havia somente um Verit. Como já haviam completado a missão, e Heda demonstrava pesar em combater tais criaturas, deixaram-na ali.

De volta à entrada daquele largo beco, se depararam com uma cena surreal: vários pares de chifres amontoados pisoteavam o chão, como se à procura de algo, ou alguém. Hanne e Heda não conseguiam contar os inimigos; Yuvia calculou serem 12 ou 13 monstros. O chão tremia a cada passo de um deles. Os Minorous pareciam ignorar a presença da trupe, pois seguiam na direção contrária.

O trio sequer respirava, afim de não atrair atenção indesejada. Por um instante, os três acreditaram que passariam despercebidos... Até um Minorous virar a cabeça, graças a um uivo solitário do Verit que o trio havia poupado. A argola de prata presa às narinas do Minorous ficou incandescente, com o ar quente que descia furioso. O terror tomava o rosto dos aventureiros, que via a multidão de Minorous olhando fixamente para aquela direção.

– Por Odin... – balbuciou Heda, paralisada.

– Não tenho flechas suficientes! – constatou Yuvia.

– Argh! Fiquem atrás de mim! – disse Hanne, suando frio.