New Siege
4 Capítulo 4 - Sem saída (parte I)
Notas iniciais
Hanne e Heda ajudaram Yuvia a obter a Essência que procurava, e a Arqueira aceitou fazer parte da futura guilda.
Eles se preparam para uma nova caçada, na misteriosa pirâmide.
Os primeiros raios de sol invadiam o quarto de Hanne. Estava especialmente animado, tanto quanto estivera no dia em que finalmente se tornara um Gatuno. A caçada do dia anterior trouxe uma sensação empolgante, tornando ainda mais forte seu desejo de construir a própria guilda.
Levantou rápido, tomou meia garrafa de leite e se vestiu. Dessa vez usava um Traje de Gatuno, um manto leve que cobria todo o tronco, sem limitar a mobilidade. Fora um presente de aniversário dado por Heda há poucos meses, quando nenhum deles esperava que um mísero cogumelo-venenoso não coletado adiaria, novamente, a formação de Hanne. Embainhou sua Damascus Flamejante e deixou o casebre de dois cômodos, a sudoeste da cidade.
Não muito distante dali, num dos quartos do segundo andar da hospedaria, a jovem Mercadora também se preparava para partir. Ainda de cabelos soltos, se dividia entre terminar o pedaço de pão e vestir a blusa, que teimava em não descer corretamente pelo seu corpo. Heda se esforçava para não se atrasar para a caçada, queria surpreender Hanne, chegando antes que todos no local combinado. Mal sabia que sua prima já estava a caminho. Yuvia levantava muito cedo. Deixava suas roupas e equipamentos preparados na noite anterior e ganhava tempo para alimentar seu Lunático de estimação: Fluffy, um animal semelhante a um coelho, branco e roliço, com tantos pêlos que não se via o que estava por baixo deles. Yuvia o afagou e apertou contra o próprio colo, antes de pegar seu arco, sua aljava e sair. Seguiu pelo corredor em direção às escadas, passando em frente ao quarto alugado por Heda, onde pôde escutar a confusão que sua prima aprontava.
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A caçada do dia tomaria lugar na pirâmide do deserto de Sograt, ao norte de Morroc. O prédio era tão ou mais antigo que a esfinge visitada no dia anterior, e igualmente habitado por criaturas centenárias. Mas ao contrário da esfinge, aquela pirâmide era constantemente visitada por Aprendizes; por isso, suas paredes eram iluminadas diariamente por tochas, acesas por Mercenários experientes – e prestativos – que frequentavam seus pavimentos.
Hanne ia na frente, mostrando o caminho; Heda, de cara amarrada por ter sido a última a chegar novamente, vinha logo atrás puxando seu carrinho, seguida de perto por Yuvia, sempre atenta com seu Arco de Rudra.
– Vai levar algum tempo até alcançarmos a entrada pro segundo pavimento... – avisou Hanne, ligeiramente entediado pela quietude do lugar. – Mas ainda é preferível ir direto nos Esqueletos Soldados. Eles são mais rápidos, porém muito mais frágeis que os Minorous do outro pavimento...
– É melhor – concordou Heda. – Vamos garantir uma Essência, pelo menos. Depois tentamos a outra.
– Aquilo me lembra dos tempos de iniciação como Arqueira – disse Yuvia, chamando a atenção para um grupo de Aprendizes que passava por eles. – Nós costumávamos formar grupos com Noviços vindos de Prontera, para irmos às cavernas de Payon... Eram tardes bem divertidas!
As duas trocaram histórias sobre suas aventuras, principalmente as dos últimos anos em que não se viram. Hanne, sempre presente nas histórias de Heda, limitou-se a ouvi-las conversarem e rirem. Seu humor foi melhorando aos poucos com isso.
O percurso foi tranquilo, apesar de longo. Hanne conhecia o lugar muito bem, treinou ali várias vezes quando ainda era um Aprendiz inexperiente; muitas delas, acompanhado por Heda. Lembrava dos morcegos azulados, os Familiars; apesar da agressividade, eram facilmente abatidos. Os Poporings, criaturas redondas, verdes e gelatinosas, pouco maiores que uma melancia, saltitavam felizes e lerdos, sem dar atenção ao trio de aventureiros, que também os ignorava.
– Chegamos – disse Hanne, parando em frente à porta para o pavimento inferior. – Daqui pra adiante, atenção máxima!
– Nunca veio aqui também, né, prima? – perguntou Heda, entregando para os amigos a milagrosa poção de aumento de agilidade.
– Não... – respondeu Yuvia. – Mas durante o treinamento, eu estudei um pouco sobre as criaturas do reino, bem como suas propriedades. Trouxe todos os tipos necessários de flechas.
– Tomem cuidado se aparecer alguma Isis! – alertou Hanne, apesar do tom de sua voz demonstrar empolgação com a idéia...
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Desceram ao segundo pavimento, e na entrada, a trupe teve idéia do que estava por vir. Um grupo de Esqueletos Soldados os recepcionara de maneira nada amigável. Eram esqueletos altos e de tom azulado. Vestiam trapos de pano, corroídos pelo tempo, e cada um empunhava duas Stilettos, adagas de lâminas ligeiramente curvadas para trás.
Hanne sacou sua Damascus e bloqueou os primeiros ataques. Os esqueletos eram rápidos e conseguiam fazer o Gatuno recuar um pouco. Várias flechadas vieram em apoio, acertando em cheio os inimigos à sua frente. O ranger de seus ossos aumentavam a cada ataque sofrido, indicando a fúria dos mortos-vivos. Eles partiram para alcançar a autora dos disparos, mas Heda não permitiu, dando um só golpe que partiu dois deles ao meio. Os dois restantes foram decapitados pela lâmina de Hanne, já incandescente. O último esqueleto não recuou e empunhou suas armas contra a dupla que protegia Yuvia; mas antes que pudesse atacar, uma flecha de prata atravessou certeira sua fronte. Poeira e panos podres dispersaram no ar, num silvo, antes de ir ao chão, marcando o fim do ciclo daquele Esqueleto Soldado.
– Vocês estão bem? – perguntou Hanne.
– Sim, estamos – disse Heda, percebendo o sinal positivo que Yuvia fez com a cabeça. – Se precisarem, tenho poções de cura no carrinho... Não hesitem em pedir!
– Quanto mais nos aproximarmos do centro desse lugar, piores as coisas ficarão – disse Hanne.
As palavras do Gatuno se confirmaram sábias. Drainliars se lançavam em vôos rasantes, vindos da escuridão; mais esqueletos, agora de arco e flecha em riste, miravam os três à distância, protegidos pelos seus semelhantes que combatiam corpo-a-corpo; e também por múmias, que arrastavam suas bandagens com pesar, em direção ao trio.
Hanne tentava se concentrar em interceptar as flechas inimigas disparadas contra ele e suas amigas, ao mesmo tempo em que golpeava as múmias e esqueletos que se aproximavam, abusando de socos e pontapés. Yuvia mirava os morcegos e seus rivais, arqueiros mortos-vivos, enquanto Heda cuidava daqueles com adagas, usando seu pesado machado de duas lâminas.
– Até agora... estamos nos saindo bem – disse Hanne, ainda ofegante, ao olhar a pilha de poeira, bandagens e asas de morcego espalhadas pelo corredor.
– Acho melhor você beber um pouco da poção branca... – disse Heda, preocupada ao notar alguns cortes de raspão e hematomas em Hanne.
– São apenas arranhões – disse Hanne, com um leve sorriso. – Melhor não desperdiçar.
Yuvia olhou com surpresa para o Gatuno. Mesmo sendo um recém formado, demonstrava a tranquilidade e a confiança de um veterano. Começava a achar que tinha feito uma ótima escolha ao concordar fazer parte de sua guilda.
Prosseguiram a jornada por entre os corredores tortuosos, enfrentando mais hordas de inimigos; com esforço, continuavam firmes. Quando se aproximavam de outra porta, Yuvia notou algo brilhando nas cinzas do último cadáver derrotado.
– Conseguimos! – disse a Arqueira, com um largo sorriso. – Uma Essência de Esqueleto Soldado!
Hanne e Heda se entreolharam, sorrindo. Estavam mortos de cansaço, mas havia valhido a pena. Yuvia entregou a Essência para a Mercadora guardar em seu carrinho e se escorou na parede. Sacodia os braços para aliviar o desconforto nas articulações, bastante exigidas na execução das centenas de disparos que fizera até ali. Heda se encostou ao lado dela, repousando o machado a seu lado.
– Primeira missão: concluída! – disse Hanne, se escorando na parede oposta às garotas. – Vamos descansar uns instantes e partir pra próxima... Lá, sim, vai ser um desafio daqueles...
Em meio ao momento de tranquilidade, pôde-se ouvir um chacoalhar no corredor ao lado. Não apenas um, vários, que se misturavam, formando uma melodia sinistra e ameaçadora.
– Isis! – disse Hanne, fazendo sinal para não fazerem barulho.
– Não temos como sair daqui sem dar de cara com elas! – sussurrou Heda, fazendo força para controlar o tom de voz, apesar do nervosismo. – Não tem saída após a curva no final desse corredor. Assim que passarem por aquela abertura, vão nos ver e estaremos encurralados!
– E se corrermos por aquela porta? – sugeriu Yuvia, apontando a passagem a alguns metros dali.
– Seria suicídio – disse Hanne, com o semblante sério ao encarar a porta de pedra.
Heda percebeu de imediato aquele olhar. A ameaça que se aproximava não devia ser nada para Hanne, se comparada à simples idéia de ultrapassar novamente aquela porta. Ela sabia que as terríveis memórias daquele lugar estavam profundamente cravadas na alma do amigo... Ela própria ainda tinha pesadelos com aquilo.
– É o pavimento dos Mímicos... – disse a Mercadora, olhando com apreensão para a passagem.
– Fiquem juntas e vão pra trás da curva. Vou atraí-las pro mais longe possível, e então vocês correm pra fora daqui, seguindo o mesmo caminho por onde viemos, ok? – propôs Hanne.
– Mas, e você? – perguntou Heda.
– Eu ficarei bem – respondeu Hanne, mantendo a firmeza. – Consigo me esquivar delas por alguns instantes, até que vocês tomem distância. Depois eu dou um jeito de escapar... fugas são uma das especialidades dos Gatunos... Agora, vão e me aguardem do outro lado da porta! Eu as alcançarei, com certeza!
As guerreiras não ficaram satisfeitas com a idéia de partir sem Hanne, mas esgotadas como estavam, sabiam que ficando ali apenas se tornariam alvo e dificultariam as ações do amigo. Seguir o plano era a melhor chance que tinham de todos escaparem com vida.
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Quatro silhuetas se aproximavam. Se vistas da cintura para cima, podiam se passar por belas mulheres, com seus cabelos escarlates, e olhos lilases atrevidos; desfilavam o tronco inteiramente nu, sem pudor algum. Mas a parte inferior de seus corpos denunciava a raça: eram demônios serpentes, com escamas vermelhas viscosas que cobriam toda a extensa cauda.
Os demônios se aproximavam cada vez mais da curva que fatalmente as levaria até Heda e Yuvia. Mas de forma súbita, pararam. Seus chocalhos se agitavam frenéticos, até que uma delas desferiu um ataque no vão a seu lado. O que parecia um movimento sem propósito, fez com que Hanne reaparecesse, numa cambalhota para escapar do ataque.
– Oh... não achei que fossem demorar tanto pra detectar meu Hiding... – disse Hanne com os olhos cintilantes, enquanto sacava sua Damascus. – Pois então, venham me pegar, cobrinhas!
As Isis tentaram golpear o Gatuno com suas caudas e unhas afiadas, sem sucesso. Notando que sua presa escapava, sibilavam irritadas, iniciando uma perseguição pelos corredores empoeirados da pirâmide. O plano funcionava.
– Será mesmo que ele vai ficar bem? – perguntou Yuvia, verificando que o corredor já estava seguro.
– Sim – disse Heda, com as mãos juntas ao peito. – Vamos confiar nele!
Rapidamente, as duas seguiram todo o caminho de volta até o pavimento térreo, onde aguardariam a volta do companheiro.
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Hanne parou de correr, percebendo que já dera distância suficiente para que suas amigas escapassem. Porém, com isso, o próprio passou a estar ao alcance dos ataques rápidos que as Isis desferiam. Elas golpeavam com fúria, porém sem muita coordenação. Hanne conseguia bloquear a maioria das investidas com sua Damascus, e quando preciso, saltava para trás para evitar golpes mais perigosos. Atacava visando o ventre das Isis, mas elas conseguiam se esquivar com movimentos serpentuosos.
Dois Esqueletos Arqueiros apontaram no final daquele corredor, cuja largura não caberia mais que duas pessoas lado a lado. Hanne se desvencilhou da cauda de uma das Isis, que havia prendido sua perna direita, e correu na direção dos mortos-vivos, evitando as flechas disparadas em sua trajetória. Com golpes rápidos, o Gatuno venceu os dois inimigos e roubou o arco de um deles, mas ao checar suas aljavas, constatou que só haviam flechas negras, encantadas com magias das sombras; certamente não causariam grandes danos a um demônio.
Mais arqueiros surgiram de trás, disparando flechas que, por pouco, erraram o alvo e foram cravar na parede. As Isis se aproximavam pela frente, sibilando como nunca. Hanne estava completamente cercado. Talvez o destino tivesse outros planos para o jovem Gatuno.
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