Notas iniciais
Olá!! Aqui é a invisibleJu, e eu gostaria de dizer, em primeiro lugar, que estou muito contente em finalmente poder postar esta one! Me foi divertido escrevê-la (apesar de uma certa falta de tempo e um inconveniente bloqueio criativo...), e eu espero que vocês gostem! ♥ Alguns pontos importantes que prefiro dizer aqui nas notas iniciais mesmo: - como aparece nas notas iniciais, a minha one é FRUKUS - um triângulo amoroso entre as meus três div—digo, loiros favoritos! - me inspirei um pouco em Ratatouille; foi meio sem querer, na verdade: vi o filme tempos atrás, e lembrei dele quando tive a ideia, então... As coisas aconteceram, lol. - UA, porque sim. - (sinopse) A one é centrada em Alfred, um lavador de pratos que possui uma paixonite pelo dono do restaurante em que trabalha, Arthur, que, por sua vez, ao que tudo indica, aos olhos de Alfred, tem um caso com o insuportável chef Francis Bonnefoy. Boa leitura!! :D

O burro e o cachorrinho

“E então?!” o rapaz loiro, vestindo luvas, avental e óculos (estes com alguns respingos de água com os quais ele não parecia se importar), indagou com um tom ansioso e empolgado. Ele sabia perfeitamente que, dentre todas as pessoas que se encontravam naquela cozinha no momento, ele era a que menos o que dizia naquela critica no jornal iria impactar, mas ainda assim, não conseguia evitar sentir-se ansioso. Afinal de contas, Arthur, segurando o jornal e com os olhos correndo rapidamente pelas linhas, parecia ansioso. E ele, Alfred, como seu funcionário mais dedicado, estava ansioso também.

“Vamos, Arthur, querido, agora não é hora para suas pausas dramáticas!”, disse um terceiro loiro, também ansioso. Ao ouvi-lo, Alfred momentaneamente virou o rosto na direção dele. Os dois estavam próximos um do outro, e igualmente próximos de Arthur, no centro do circulo de funcionários, todos esperando pelo veredicto. Alfred reparou na expressão ansiosa de Francis Bonnefoy, em seus olhos, como os seus, azuis, mas os dele com um tom diferente, transmitindo, mesmo que Alfred não percebesse isso, um ar mais maduro, adulto. Francis tinha sempre aquelas olheiras debaixo dos olhos, mas de alguma forma, isso, somado a sua rala barba sempre por fazer e seus cabelos que iam até um pouco abaixo do pescoço e presos frequentemente em um rabo de cavalo baixo, davam a ele um ar charmoso que Alfred não entendia, mas admirava. Claro, talvez isso se devesse ao fato de Francis, quando não estava vestindo seu uniforme de trabalho, estar sempre com roupas de marca. Alfred também usaria roupas de marca, se tivesse dinheiro suficiente para compra-las. Mas ele sabia que era bonito, de qualquer forma, mesmo sem tais roupas. Arthur mesmo já havia dito para Alfred que ele tinha, apesar de uma ou outra espinha, uma pele macia e bonita e ponderou se o americano não era popular com as garotas. Alfred lembrava-se de rir e dizer que a sua “praia” eram garotos, e Arthur lhe sorriu.

Alfred não pensou tudo isso ao momentaneamente virar seu rosto na direção de Francis, claro. Ele simplesmente deu uma olhada de canto na direção do chef antes de voltar toda a sua atenção para Arthur.

E então, também não naquele exato momento, claro, mas posteriormente... Alfred ponderou que, assim como Francis era charmoso e assim como o próprio Alfred era bonito, Arthur Kirkland tinha alguma coisa... Alfred não tinha certeza do quê exatamente, mas ele tinha alguma coisa que atraía Alfred. No começo o americano ponderou se não eram aquelas sobrancelhas enormes e negras dele, que não tinham absolutamente nada a ver com aquele cabelo loiro que ele tinha. Após um tempo, Alfred também pensou se o que o atraía tanto em Arthur não era o fato de ele ser seu chefe, dono do restaurante onde trabalhava... E por fim Alfred concluiu que o que ele adorava em Arthur era Arthur: era tudo, desde a aparência encantadora e natural (ouvira já muitas vezes Arthur dizendo que detestava qualquer tipo de maquiagem ou produtos de beleza que não fossem sabonete e xampu) até sua personalidade, que conseguia ser boba e séria ao mesmo tempo.

“Bem...” Arthur disse finalmente, com um tom duvidoso, como se não tivesse certeza de como dizer aquilo; querendo dizer logo, mas pensando ainda em formas de fazê-lo. Ele fez uma pausa e olhou para todos os seus funcionários, que o rodeavam. Seus olhos correram desde Francis, o cozinheiro sem o qual nada daquilo seria possível, até o lavador de pratos que contrata após muita insistência por parte do mesmo. Aquele pessoal todo, por mais que muitas vezes se desentendessem e brigassem, era sua família.

“Eu disse nada de pausas dramáticas!”, Francis resmungou.

“Vou jogar essa frigideira na sua cabeça se você não desembuchar logo!”, berrou Elizabeta, uma das cozinheiras, do meio do grupo. Algumas outras vozes se fizeram presentes além destas, é claro, mas Arthur rolou os olhos, como se estivesse criticando todo o pessoal por não ter paciência, e não prestou atenção no que elas estavam dizendo.

“Bem...” Arthur recomeçou, e todos ficaram em silêncio. Por fim ele sorriu, um sorriso discreto e contido, mas ainda assim um sorriso, e Alfred soube mesmo antes do britânico abrir a boca. “Ele adorou. O crítico nos adorou.”

As exclamações e vivas fluíram por todo o grupo reunido na cozinha, somados de aplausos e assovios. Mais rápido do que qualquer outro – na verdade, um dos únicos a pensar no assunto – Francis, com um sorriso imenso no rosto, aproximou-se de Arthur e, sem esperar por nenhum sinal positivo, abraçou-o apertadamente, como se não o visse há muito, muito tempo. Ele sussurrou alguma coisa ao pé do ouvido de Arthur, coisa esta que Alfred não conseguiu obviamente ouvir, mas que fez com que seu sangue de apenas 19 anos de idade fervesse irritadamente em suas veias. Sobretudo quando, após isso, Arthur retribuiu o abraço e sussurrou alguma coisa de volta para Francis.

Alfred ainda sorria, mas qualquer um que prestasse alguma atenção nele poderia ver o quanto seus olhos estavam fuzilando Francis naquele momento.

(...)

Kirkland’s era um restaurante que pertencia a família de Arthur já há muitas gerações. No começo, não passava de uma lanchonetezinha numa esquina qualquer nas redondezas de Londres, que servia café, às vezes chá, e peixe & fritas para uma pequena, mas contínua, clientela. A mãe de Arthur vivia dizendo que seu sonho era fazer daquele lugar um grande e importante restaurante, e ela, apesar de seu vício em bebidas alcoólicas, se esforçou muito para realizar tal desejo. Infelizmente, ela ficou doente antes de concretizar seu sonho. Seu plano era, como de costume, passar o estabelecimento para o seu filho mais velho (ela tinha três filhos e uma filha), mas este deixou muito claro que não pretendia seguir aquele ramo. O único que se mostrou disposto a administrar a lanchonete/restaurante fora Arthur, que na época tinha seus vinte anos de idade e estava ainda deixando para trás a sua fase revoltada com o mundo e com a vida. Arthur prometeu no leito de morte da mãe que faria o possível para que os negócios florescessem, e ele o fez.

Fora difícil.

Ele sabia que não era o melhor cozinheiro do mundo, e na época não tinha como pagar outro funcionário. Ele estava pensando em quebrar a promessa que havia feito para sua falecida mãe quando seu ex-colega do ensino médio e ainda atual melhor amigo (por mais que ele nunca fosse admitir isso) voltou da França com um diploma de gastronomia nas mãos. Foi como se Francis tivesse caído do céu. Bonnefoy aceitou ajudar Arthur, e em pouco tempo eles transformaram aquela pequena lanchonete em um restaurante de verdade. Contrataram novos funcionários, reformaram o prédio e passaram a usar também o segundo andar do mesmo. Arthur era muito grato a Francis por tudo.

Alfred ficou sabendo de tudo isso em sua entrevista de emprego (a qual ele só conseguiu depois de contar sobre sua situação financeira e de dizer “Por favor, por favor, por favor!” enquanto lançava a Arthur um olhar de filhote de cachorro abandonado). Arthur contou-lhe esta história e em seguida perguntou a Alfred se ele se comprometeria com seu emprego, se seria um funcionário dedicado. Alfred respondeu que sim – por mais que não tivesse prestado atenção em nenhuma daquelas palavras porque, chegado o final da narrativa de Arthur, um pouco antes até, o americano já estava encantado demais pela voz rouca e sexy de Arthur para se importar com o que ele estava falando, contanto que ele continuasse a faze-lo. Eles então apertaram as mãos e Arthur disse que Alfred poderia começar na segunda-feira seguinte.

Mesmo não tendo prestado atenção nas perguntas finais que Arthur lhe fizera, Alfred tentava ao máximo ser um ótimo funcionário, porque, cara, ele queria impressionar Arthur. Não era muito fácil de fazer tal coisa, claro, uma vez que tudo que ele tinha que fazer era lavar pratos, varrer o chão e esse tipo de coisa... Mas Alfred tentava fazer isso bem, e sempre se oferecia para ajudar em outras funções, como carregar sacos de batata ou outras coisas pesadas. E era com uma satisfação imensa que Alfred sorria quando Arthur o elogiava ou agradecia.

O único problema era Francis.

Arthur vivia dizendo que era muito grato a Francis e que eles eram amigos – quando dizia tal coisa – mas Alfred sabia que tinha alguma coisa entre eles. Algo a mais. E isso ficava ainda mais explícito por parte de Francis – ele não perdia a oportunidade de deixar claro o quanto Arthur era adorável, quando e como eles se conheceram, quanto tempo passaram juntos quando eram adolescentes, o quanto ele ajudara – e ainda ajudava – Arthur com praticamente tudo... Alfred achava aquilo insuportável. E Francis parecia saber disso.

Alfred não tinha certeza se odiava Francis ou se gostaria de estar em seu lugar. Talvez os dois.

(...)

Certa tarde de terça-feira, Alfred chegou atrasado no serviço. Ele deveria chegar lá às 10h da manhã, mas se atrasou uns vinte minutos. Era a primeira vez que Alfred se atrasava, e embora ninguém parecesse se importar com isso quando colocou os pés na cozinha, ele estava realmente incomodado com o atraso – passara o caminho todo pensando em uma desculpa para dar a Arthur, quando este perguntasse o motivo de seu atraso: diria que a senhora que morava no apartamento ao lado do seu pediu sua ajuda para levar as compras até seu apartamento quando ele estava de saída (o que era verdade), e que ele, como bom moço, não teve alternativa se não ajuda-la com isso (o que era mentira). Afinal de contas, Alfred não poderia dizer que passara a noite em claro jogando videogame e que não vira seu despertador tocar na manhã seguinte. Arthur certamente ficaria decepcionado consigo e Alfred não queria uma coisa dessas, não. Seria o fim.

Após vestir seu avental, Alfred pegou no armário vassoura, balde e esfregão para limpar o salão do segundo andar. Ele pretendia estar com seu material de serviço em mãos ao passar pelo escritório de Arthur para se desculpar. Entretanto, não encontrou quem procurava no escritório, nem em lugar nenhum da cozinha ou da recepção.

“Se está procurando Arthur, saiba que ele não está.”, Francis disse com um tom sério. “Por que você se atrasou, a propósito, Alf?”.

“Não? Onde ele tá?” Alfred perguntou, ignorando a pergunta do francês.

“Ele não estava se sentindo bem e resolveu ficar em casa.”, Francis respondeu com um ar preocupado, embora estivesse sorrindo. Alfred não percebeu isso.

“O quê? O que ele tem? Ele ligou?”

“Ah, não. Eu passei lá, como faço todos os dias pela manhã.” Francis piscou o olho direito para Alfred, colocando as mãos nos bolsos de sua calça jeans branca. “Mas, se conheço Arthur Kirkland tão bem quanto acho que conheço, ele vai dar as caras ainda hoje.”.

E o que mais irritou Alfred naquele dia era que Francis estava certo, Arthur apareceu no restaurante um pouco depois do meio-dia, um tanto pálido, mas aparentemente bem.

(...)

Que Arthur e Francis tinham alguma coisa, Alfred não duvidava. Ele só não tinha certeza do que era: Arthur nunca falava nada a respeito de Francis que não fosse algum tipo de implicância ou sobre ser grato a ele. Francis costumava igualmente implicar com Arthur, mas havia algo diferente no modo como ele fazia essas implicâncias, sobretudo quando Arthur não estava presente. Alfred reparava no tom de voz dele, volte e meia, quando falava sobre alguma coisa a respeito de Arthur, ou quando contava algo da adolescência deles, ficar mais suave.

Alfred gostava de acreditar que aqueles dois tinham algum tipo de relacionamento voltado só para o lado sexual: talvez Arthur só saísse com Francis para agradecê-lo. Aquilo fazia sentido e Alfred sentia-se mais confiante ao pensar assim: dessa forma, tinha chances de fazer Arthur gostar de si e eventualmente terminar o que quer que tinha com Francis.

E para isso, Alfred fazia tudo que estava ao seu alcance no trabalho, até mais que isso: se prontificava para buscar ternos para Arthur na lavanderia, quando ele resmungava que precisava faze-lo; buscava encomendas nas agências dos Correios; ia até o banco pagar uma ou outra conta, quando Arthur não tinha tempo (e se sentia contente em saber que Arthur confiava tanto assim em si para tal); uma vez até emprestou um casaco para o inglês, numa situação em que ele precisava sair mais cedo e tinha esquecido de pegar um agasalho mais quente. O casaco, quando foi devolvido, mantinha ainda um pouco do perfume de Arthur, e Alfred levou mais de uma semana para lavá-lo.

O que incomodava Alfred era que, apesar disso tudo, ele não sentia estar avançando muito em direção ao canto confortável do coração de Arthur que tanto almejava. Conseguia um elogio a mais, às vezes um sorriso mais largo... mas era só.

Alfred algumas vezes reparava um rubor suave nas bochechas constantemente pálidas pela falta de sol de Arthur quando estava junto dele, mas Alfred não tinha como saber se aquilo era alguma coisa positiva – afinal, Arthur também corava quando estava irritado, ou por ter pegado uma brisa gelada no rosto, ou depois de conversar com Yao, outro cozinheiro do restaurante... Havia tantas possibilidades, como ele poderia ter certeza?

(...)

E, claro, Alfred também tentara ser direto.

“Hum... Arthur, eu tava pensando... O que você acha da gente fazer alguma coisa qualquer dia desses?”, ele perguntara certa vez, depois de seu expediente.

“Ahn... Como assim?”, Arthur piscou, sem entender, segurando alguns papeis aparentemente importantes, mas fitando Alfred.

“Ah, sabe... A gente podia comer alguma coisa fora, ou, sei lá, só passear.”, Alfred deu de ombros, tentando soar o mais natural e descontraído possível, por mais que suas mãos estivessem suando e seu rosto, escarlate.

Arthur franziu a testa, e continuou a olhar para Alfred com um olhar incerto, confuso, como se ainda não tivesse entendido o que Alfred queria dizer.

Foi aí que Francis, o maldito, entrou em cena e, rindo, passou o braço pelos ombros de Arthur, dando-lhe um beijo estalado na bochecha.

“Querido, aquilo que nós tínhamos marcado pra hoje... Ainda de pé?”, disse ele, e seus olhos voltaram-se na direção de Alfred.

No breve momento em que seus olhos se cruzaram, Alfred assassinou o francês em pensamento diversas vezes, e ele nunca ficou sabendo, mas o francês fez o mesmo em relação a si.

Arthur bateu, de leve, com os papeis no rosto de Francis, para que ele se afastasse. “Eu já tinha respondido antes, sapo. Se tivesse mudado de ideia diria.”, ele resmungou e, tomando alguns centímetros de distância de Francis, dirigiu-se a Alfred, “Ah, Alfred, sobre o que você estava falando... Nós conversamos outra hora.”

“Certo.” Alfred disse, visivelmente descontente. “Até amanhã”, ele acenou brevemente, e saiu.

O problema era que eles não “conversaram outra hora”, porque sempre que Alfred pretendia retomar o assunto, como que atraído pelas palavras do americano, Francis, o demônio, surgia das trevas, na concepção de Alfred, e ocupava Arthur para que Alfred não tivesse como continuar o que tinha para falar.

(...)

Sem camisa e vestindo apenas uma bermuda que usava para dormir, Alfred parou diante do único espelho de seu apartamento. Não era um grande espelho, mas era suficientemente grande para que ele pudesse ver seu busto. A expressão no seu rosto não era a mais feliz do mundo: ele estava irritado.

Naquela tarde, vira, após o termino de expediente, Arthur aproximar-se de Francis e dizer alguma coisa para ele. Alfred não conseguiu ouvir o que era, obviamente, mas tinha quase certeza que fora uma pergunta. Observara Francis sorrir e pousar a mão no ombro de Arthur, fazendo um sinal positivo com a cabeça, como se estivesse concordando. Em seguida eles se abraçaram – Francis abraçou Arthur, na verdade, e eles se recolheram para o escritório de Arthur. Alfred borbulhou de raiva com aquela cena. Porque, poxa, ele fazia tudo que estava ao seu alcance, e ainda assim era para Francis que Arthur corria no final? Era não injusto!

Alfred não sabia o que mais podia fazer para virar o jogo.

Ele tentou enumerar as coisas que ele e Francis tinham de diferença. Ok, havia a questão da idade – enquanto Alfred tinha acabado de entrar na casa dos 20, Francis já devia estar na metade dos 30. E também Francis era amigo de infância de Arthur. Obviamente o francês tinha uma situação financeira melhor que Alfred... (o que era temporário, afinal Alfred estava juntando o dinheiro que faltava para poder bancar seu estudo superior; seus pais tiveram alguns problemas ao longo dos anos e acabaram gastando um pouco da poupança destinada aos estudos do filho, mas Alfred entendia os motivos deles, então tudo bem).

Foi aí que Alfred ponderou... Talvez... Talvez se ele fizesse algo que Francis sabia fazer de uma forma melhor que Francis, tipo cozinhar, que era basicamente a única coisa que Alfred tinha certeza que Francis fazia bem, Arthur perceberia que Alfred era o melhor partido?

Alfred continuou encarando a sua imagem no espelho por alguns segundos antes de se decidir.

Então sorriu, animado.

Não custava tentar.

(...)

Alfred assistiu alguns filmes de culinária nos dias que se seguiram. Eles estavam longe de ficar entre seus filmes favoritos, mas ele conseguiu absorver alguma coisa deles... Pelo menos era o que achava. Alfred sabia que cozinhava bem: verdade que ele só cozinhava para si mesmo, mas nos últimos dias estivera tentando alguns pratos novos, experimentando alguns temperos e inventando umas receitas, e, francamente, o resultado foi melhor do que ele estava esperando! Uma semana depois, com uma pequena lista de filmes sobre restaurantes ou cozinheiros e receitas do Google em seu histórico, ele estava se sentindo tão apto a se proclamar chef quanto Francis o era.

Quando Alfred ouviu que um outro crítico culinário, um sujeito austríaco, iria ao Kirkland’s, ele percebeu que aquele era o momento perfeito para colocar seu plano em pratica.

O plano, por sinal, era bem simples: ele colocaria um tempero especial que criara no prato principal, e quando o critico provasse e elogiasse o prato, Alfred aparecia e mostraria o vidrinho com o tempero, dizendo que ele o criara. Ele seria elogiado e Arthur o aplaudiria, deixando Francis para sempre e ficando consigo.

No caminho para o trabalho, Alfred sorriu.

O plano era perfeito.

(...)

... Certo, não tão perfeito assim...

Na verdade, possuía alguns defeitos...

Ok, quem ele estava querendo enganar... O plano era uma completa catástrofe.

Pena que ele percebeu isso tarde demais.

A questão era que Alfred estivera tão obcecado com a ideia de que Arthur sairia consigo no final, que ele não se deu ao trabalho de olhar um pouco mais em volta e perceber coisas ridiculamente simples, como, não o único, mas um dos mais importantes detalhes: como diabos iria colocar um tempero no prato principal sem que ninguém percebesse? Ele tentou, mas não teve sucesso. Alfred não era personagem de nenhum de seus filmes favoritos, em que o mocinho consegue, fácil e magicamente, fazer coisas quase – quando não – impossíveis. Assim sendo, um dos assistentes o pegou em flagrante enquanto colocava seu tempero mágico no prato que seria levado ao crítico.

Houve um imenso tumulto, mas uma reunião urgente foi convocada, no centro de todo o pessoal, entre Alfred, o culpado, Arthur, o gerente, e Francis, o chef.

“Alfred...”, Arthur disse com um tom de voz que fez o peito de Alfred doer, “O que você estava tentando fazer? Nos sabotar?”

“Não! Eu nunca faria isso!”, Alfred se defendeu o mais rápido que pôde. Ele foi então atingido pela súbita realização que uma pergunta seria feita para si dentro de alguns segundos, uma pergunta que ele não poderia responder com honestidade (não na frente daquela gente toda!) a menos que desejasse ser ridicularizado. Sim, Arthur – provavelmente Arthur – perguntaria qual o seu objetivo em colocar alguma coisa na comida do crítico, e Alfred não conseguiria responder: como poderia dizer para Arthur, que estava ali na sua frente o encarando com aquelas lindas e preciosas pedras verdes que eram seus olhos, que o que o levara a se meter naquele assunto era o fato de estar perdida e incondicionalmente apaixonado por ele, de modo que queria eliminar seu – Alfred rapidamente olhou na direção de Francis – terrível concorrente? Não! Francis se meteria e colocaria pensamentos horríveis sobre Alfred na cabecinha de Arthur. Não, Alfred não queria isso.

“É mesmo?!”, disse Francis, o cretino, “Por que, moleque, eu não sei o que diabos você colocou naquele frasco, mas conseguiu ficar pior do que qualquer coisa que o Arthur aqui é capaz de fazer!”

“Francis!”, Arthur reclamou, com razão.

“Desculpe, não resisti.” Francis se desculpou com um sorriso sem graça.

“Eu só queria ajudar!”, Alfred disse então, incerto do que mais poderia verbalizar, “Vi... Ahn, vi que todo mundo estava tão preocupado com a opinião do crítico, então pensei...”

“... Em matar ele?”, Arthur concluiu, magoado. “Alfred, você era só o lavador de pratos, . O seu trabalho era simples assim, você não tinha que se meter em algo tão sério! Se esse crítico não gostar de nós... Se ele não... Você tem ideia do quanto isso seria prejudicial para a nossa imagem? Seria o fim!”, ele exclamou, exasperado, o que deixou Alfred se sentindo mais culpado.

“Calma, Arthur,”, disse Francis, o imbecil, “eu posso concertar tudo, ok? Felizmente Alfred só colocou... o que quer que haja naquele frasco em um prato. Me dê alguns minutos.”, ele bagunçou os cabelos de Arthur e se retirou, para fazer seu trabalho – e Alfred percebeu, pela primeira vez, algo que sempre esteve presente nos olhos de Francis quando ele olhava para Arthur: uma relutante conformidade; naquele exato instante, entretanto, Alfred não foi capaz de dizer sobre o quê, mas não demorou muitos dias para que ele, deitado de barriga para cima em sua cama, percebesse. Arthur e Francis de fato não tinham nada.

“Arthur, eu só... Eu juro, eu só...”, Alfred começou – ignorando a multidão de funcionários que se afastava, como se o assunto tivesse se encerrado com a saída de Francis, o paspalho – mas as palavras lhe fugiam e ele não tinha certeza de como – ou o que – dizer.

Arthur respirou fundo, parcialmente abraçando o próprio tronco. “Não importa. Você fez, está feito. Foi ridículo da sua parte, mas está feito. Felizmente Francis tem como—“

“Você está sempre falando do Francis! Francis, Francis, Francis!”, Alfred deixou escapar, e Arthur o fitou com um olhar abismado; um olhar, Alfred comparou, de quem estivera tentando ajudar um sem-teto, mas que fora repelido e percebera que sua ajuda não era bem-vinda.

Arthur balançou então a cabeça, e com aquele simples gesto, foi como se ele estivesse colocando um ponto final – o último dos pontos finais – naquilo (em Alfred). Alfred convivera com aquele Arthur Kirkland tempo o suficiente para saber que ele nunca levava um desaforo para casa, que ele gostava de ser sempre o último a falar, e constantemente o fazia de forma a ser lembrado. Arthur Kirkland não era do tipo de pessoa que se calava, e foi com espanto que Alfred percebeu que, sobre aquele assunto, nem uma palavra final de Arthur ele merecia.

“... Vá, Alfred. Saía da minha frente. Providenciarei que você receba pelos dias que trabalhou esse mês...”

“Arthur, não, espera você não pode, eu não...!”

“... então, por favor, vá embora agora.”, Arthur concluiu, e virou as costas em direção a onde Francis, concentrado em fazer um novo prato, estava.

Alfred ainda ficou mais alguns – três, no máximo – minutos parado ali, feito uma estátua. Ele sentia-se ridículo (sobretudo com raiva, mas ridículo). Então, silenciosamente carregando o vazio que se instalara em si, saiu.

Moral da fábula: É burrice tentar ser uma coisa que não se é.

Notas finais
E... é isso! Espero que tenham gostado!! Eu tinha colocado o título provisório da one como "Kirkland's" - tanto pelo nome do restaurante, quanto por ser uma metáfora e... heh. Enfim. Fico por aqui. ♥