New Life
4 Capítulo 3 - You never really can fix my heart
Notas iniciais
Era difícil de acreditar o que estava acontecendo... Damon, depois de tudo que havia acontecido, havia ido me procurar na loja e estava me esperando para que fossemos passar meu intervalo juntos... Aquilo não podia ser verdade. Enquanto pegava minhas coisas, imaginei milhões de coisas diferentes sobre o que ele queria falar e inventei várias desculpas para não passar aquele intervalo com ele, mas nenhuma me parecia cabível àquela situação. Minha vontade era me trancar naquele estoque até Damon ficar cansado de me esperar e ir embora, mas pelo que havia percebido, ele estava convicto de que queria falar comigo e que não iria embora até conseguir.
Não sabia dizer qual sentimento que passava por mim naquele momento, não sabia ao certo se ficava feliz por ele estar ali ou triste, não sabia se ficava ansiosa para ficar com ele ou se deveria mesmo me trancar no meio das roupas para não encara-lo novamente, tinha a consciência de que aquele encontro não iria acabar bem e isso era algo que me assustava, não estava preparada para outra discussão com Damon mas infelizmente, não iria poder adiar e eu tinha apenas uma hora para conversar com ele e acabar com a curiosidade que estava me corroendo por dentro. Sinceramente, aquilo não poderia estar acontecendo...
Peguei minhas coisas e sem demorar muito e sem pensar muito na situação em que me encontrava, eu volto para a loja para encontrar com ele.
- Então, quer ir a algum lugar em especial? – perguntei a ele evitando manter contato visual.
- Tem sim e não é longe, duas quadras mais ou menos, topa? – assenti sem demonstrar muito interesse e então saímos da loja lado a lado – Então, como está o trabalho por aqui?
- Está ótimo... – respondi dando de ombros – Mesmo que esteja aqui em véspera de ano novo, eu adoro a loja e tudo mais...
- Que bom ouvir isso... – ele abriu um sorriso sincero e eu desviei o olhar dele – Espero não estar atrapalhando alguma coisa, quando cheguei você parecia meio ocupada...
- Não tem problema, eu iria ter que sair para o intervalo mesmo – respondi friamente o fazendo soltar um suspiro alto.
Nós caminhamos em silencio, lado a lado até o lugar que Damon queria ir, eu andava com os braços cruzados e encolhida em meu casaco para que não corresse risco de nos relarmos. Os três quarteirões foram feitos em um silêncio constrangedor e incomodo e assim que chegamos, Damon abriu a porta para que eu passasse. Escolhi uma mesa reservada aos fundos do lugar e assim que me sentei na cadeira estofada, que parecia um sofá, Damon se sentou ao meu lado extremamente próximo a mim, ao invés de ficar em minha frente como imaginei que fosse fazer. Encolhi-me novamente em meu casaco ficando longe dele o máximo que consegui e antes que conseguíssemos voltar a conversar, uma atendente chegou a nossa mesa para anotar o pedido.
- Nós vamos querer um cappuccino e um expresso extra forte e sem açúcar, por favor – Damon olhou para mim e piscou o olho com um ar de cumplicidade, adivinhando o que eu iria pedir – E para ela, uma torta alemã... – ele sorriu presunçosamente me fazendo olhá-lo indignada.
- Mais alguma coisa? – a garçonete perguntou educadamente e no mesmo instante tratei de me manifestar.
- Sem a torta, eu não quero! – disse rispidamente.
- Mantenha a torta, por favor...
- Eu não quero, Damon! – continuei com o mesmo tom ríspido enquanto o fuzilava com o olhar.
- Ela quer sim, pode trazer, moça! – Damon disse pela ultima vez e então a garçonete assentiu, indo providenciar os nossos pedidos.
- Porque você fez isso? Eu disse que não queria!
- Mas eu sei que você vai comer, é a sua preferida... Lembro-me de uma vez quando estava grávida que você teve desejo de comer torta alemã e assim que te levei para comer, você me disse que sua mãe, toda vez que você ficava doente e tinha que ir ao médico, ela te levava para comer essa torta depois da consulta... – Damon sorriu daquele seu jeito habitual encolhendo os ombros e eu suspirei alto, rolando os olhos. Sinceramente, qual era o seu proposito com tudo isso? O que ele pretendia fazer além de aprofundar minha ferida e jogar um pouco de ácido nela?
- Pois é, eu não sei se você se lembra mas eu não estou mais grávida – olhei para meu ventre vazio e abri os braços para que ele visse minha barriga lisa – E as coisas mudaram, Damon! – completei a frase friamente querendo que ele entendesse o segundo sentido no que havia dito. “E as coisas mudaram, Damon” realmente elas haviam mudado e eu não iria me deixar levar por ele, mesmo que ainda o amasse da mesma forma que antes. Damon continuava ocupando o espaço principal em meu coração, mas isso não mudava o fato de que ele havia me machucado e ele ter ido me procurar e ter me convidado para tomar um café com ele não iria me fazer confiar nele novamente.
- Tudo bem, a torta está vindo de qualquer maneira... – ele suspirou alto, um tanto cabisbaixo dando-se por vencido – Perceba como isso é irônico, você se lembra de que estivemos aqui, nesse mesmo café, há alguns meses quando nos conhecemos? Você estava com Caroline no shopping e acabamos nos encontrando, então...
- Não, eu não me lembro... – o interrompi rapidamente com descaso. Era obvio que me lembrava de que já havíamos ido ali, lembrava-me até da roupa que ele usava, mas não iria dizer isso a ele, não queria demonstrar o quão importante aquele dia tinha sido para mim. Não sabia o porquê de estar reagindo daquela forma, mas ao mesmo tempo em que meu estômago estava inquieto por estar tão próximo a ele, meu emocional insistia em lembrar-me o quanto ele havia me magoado e com isso, não conseguia ser a mesma Elena de antes com ele – Na verdade, nem sabia que já tinha vindo aqui antes de começar a trabalhar na loja... – dei de ombros e ele soltou um riso anasalado.
Damon estava tão inquieto quanto eu... Ele balançava a perna, passava a mão em seus cabelos naquele gesto típico que denuncia nervosismo e suspirava fundo, pensativo, enquanto eu encarava minhas mãos sobre a mesa apenas escutando meu coração bater descompensado e recusando-me a olhá-lo. Era como nós fossemos dois completos estranhos que tinham sido obrigados a se sentar um do lado do outro em uma cafeteria por algum motivo e agora precisavam conversar, nem quando nos encontramos no hospital o clima tinha ficado tão pesado quanto estava naquele momento.
- O que fazia aquele dia no hospital? – Damon perguntou após longos minutos em silêncio me fazendo virar para olhá-lo.
- Caroline estava em trabalho de parto e Claire nasceu...
- Sério? E como elas estão? Ocorreu tudo bem no parto?
- Foi tudo bem, elas estão ótimas... Caroline está radiante com a filha e Claire é a coisa mais perfeita do mundo, estamos todos muito felizes com ela e eu acho que não poderia estar fazendo melhor o papel de “tia coruja”, ela é linda demais! – um sorriso de admiração e a empolgação ao falar e lembrar-se de minha “sobrinha” fora impossível de ser contidos.
- Eu imagino! – ele sorriu me encarando tagarelar sobre Claire e no momento em que ergui o olhar para olha-lo e vi aquele sorriso branco extremamente perfeito, senti como se tivesse perdido o foco, como se meu coração tivesse começado a bater mais lenta e pausadamente, não conseguia desviar meu olhar dele nem por um sequer – Você vai ser uma boa tia, Elena, e obviamente será uma ótima mãe... – Damon disse sutilmente e pegou minha mão, que estava sob a mesa.
Eu apenas suspirei fundo, fechei os olhos e mentalmente contei até cinco... “e obviamente será uma ótima mãe” isso se eu conseguisse ser mãe um dia... Mas afinal, porque ele estava fazendo aquilo comigo? Será que Damon havia decidido que não tinha me magoado o suficiente e decidira me procurar para fazer aquilo mais um pouco?
Sua mão ainda estava segurando a minha e eu sentia meu corpo reagir por aquele pequeno contato com a sua pele macia e quente. Ele acariciava de leve minha mão com o polegar e antes que eu começasse a me familiarizar com aquele carinho e que me acostumasse com aquilo, eu retirei minhas mão e a coloquei em minha nuca sutilmente.
- E você o que fazia no hospital aquele dia? – perguntei desviando o assunto.
- Eu estou trabalhando lá agora, depois do que... – ele franziu o cenho e repensou o que iria dizer – Depois de tudo o que aconteceu com Mason, eu decidi procurar outro hospital para trabalhar...
- Hmm e é melhor lá?
- Sim, é mesma carga horaria, eu ganho mais e até consigo passar mais tempo com Emily...
- Que bom, então Emily deve estar radiante em ser o centro das atenções novamente – disse sarcasticamente o fazendo encolher os ombros e franzir o cenho. Novamente o silencio reinou entre nós e eu aproveitei a deixa para encarar as horas no relógio grande em minha frente... Havia se passado apenas vinte minutos e eu teria mais quarenta pela frente para aguentar aquilo, pela primeira vez, desde que eu conheci Damon, eu queria que o tempo passasse rápido para me despedir dele. Toda aquela situação, sua presença e aquele clima estavam me sufocando de tal maneira que meus pulmões nem chegavam a se encher.
- Você já tem planos para essa noite? – Damon se virou novamente para mim.
- Sim, tenho sim... – respondi mecanicamente. Eu tinha planos para essa noite? – Vou para uma festa com Mike e Marcos e você?
- Annabelle organizou uma festa para a família essa noite em seu apartamento, iremos todos para lá... – ouvir o nome daquela mulher fez meu estômago contorcer e eu não pude deixar de revirar os olhos mentalmente por isso. Detestável, só isso que eu tinha para falar dela... – E como foi o seu... – Damon começou a falar, mas logo foi interrompido pela garçonete com os nossos pedidos.
A moça colocou os cafés sobre a mesa e em minha frente a torta alemã, eu sorri educadamente para ela e assim que ela saiu, afastei o prato, sem me importar que aquilo fosse um gesto bem birrento. Damon suspirou fundo bagunçando o cabelo nervosamente me fazendo sorrir presunçosa internamente, eu não iria comer a torta mesmo que ela continuasse a ser minha preferida e que ela parecesse deliciosa, eu não iria ceder e se Damon estivesse pensando que iria conseguir me seduzir com alguns toques e alguns atos gentis, ele estava muito enganado. Peguei meu copo e comecei a bebericar meu café enquanto Damon tirava com a colher um pedaço da torta e oferecia para mim, suspirei fundo e neguei com a cabeça.
- Elena, é só uma torta... – insistiu sutilmente.
- Eu não quero, Damon, eu disse que não queria, você deveria ter respeitado, aliás, não só agora, mas sempre! – disse rispidamente em um tom que nunca imaginei que fosse chegar a usar com ele.
- Por favor, Elena, por mim...
- Sinceramente, Damon, qual é o seu problema? – suspirei fundo me dando por vencida, não aguentava mais ficar naquele lugar – De verdade, me fale o que você quer porque até agora eu não entendi. Fale logo o que você tem para falar porque eu quero ir embora! – a compostura do homem em minha frente desmoronou e ele ficou me encarando sério, foi como se uma máscara tivesse caído e agora eu via um Damon triste e acabado que estava escondido atrás daquela imagem pensativa e nervosa.
- Eu sinto sua falta, Elena... – admitiu baixinho. Não sei por que mas não acreditava naquilo que ele estava dizendo, para mim aquilo era uma piada da qual eu estava lutando para não gargalhar alto.
- Ah sim, sente falta de mim ou do meu corpo? Aliás, você sente falta da Elena ou da Nina? – o olhei séria o desafiando e sem que ele respondesse, eu prossigo – Olha, Damon, achei que você soubesse que eu não faço mais esse tipo de coisa então, por favor, não me procure novamente, você sabe onde encontrar o que quer e mulheres que façam isso então foi uma perda de tempo você ter vindo até mim – meu corpo inteiro tremia de raiva e eu simplesmente despejei as palavras nele sem ao menos medi-las ou formula-las. As lágrimas ardiam em meus olhos e eu me levantei para ir embora antes que começasse a chorar em sua frente, mas Damon foi mais rápido e segurou meu braço, me mantendo sentada ao seu lado.
- É de você, Elena, é da Elena que eu sinto falta... – assumiu olhando em meus olhos.
- Ok, conte outra piada – respondi com sarcasmo. Minha mente insistia em rir alto daquilo, lembrando-me de todas suas palavras quando brigamos e convencendo-me de que aquilo era uma grande mentira, embora visse em seus olhos que havia um pouco de sinceridade no que ele dizia. Nós nos olhávamos fixamente, um no olho do outro, Damon estava ofegante e continuava me segurando pelo braço, aquele contato físico e seus olhos profundamente azuis estavam sendo a combinação perfeita para me entorpecer e deixar meu coração inquieto. Eu não podia me render aos seus encantos, não podia me hipnotizar pelas tentações que eram seus olhos, não podia!
- Não tem piada nenhuma, Elena, eu te procurei porque sinto muito sua falta e porque estou arrependido. Por favor, me dê mais uma chance, vamos sair, vamos, vamos... – Damon suplicava para mim e ainda que tivesse uma parte bem pequena de mim que acreditasse naquilo o restante continuava forte e decidido a não ceder.
“Para mim chega Elena, eu não consigo fazer mais isso, é demais para mim, seu passado é um fardo pesado demais para eu conseguir superar feliz e contente, sorrindo e agindo como se estivesse sabendo lidar com o fato de você ter dormido com meia Nova Iorque.”
“– Olhe só para nós, estamos brigando de novo, é só isso que sabemos fazer; brigar e transar, já percebeu isso, Elena?”
As palavras ditas naquela noite ainda estavam frescas em minha mente, ver seu rosto e encarar seus olhos perfeitamente azuis que eu tanto amava enquanto nossa briga no meio da rua passava em minha mente, só aumentava minha mágoa e meu ódio. Eu queria chorar, meus olhos imploravam para que eu deixasse as lágrimas escorrerem, mas meu ego insistia que eu me mantivesse forte. Eu queria batê-lo o mais forte que conseguisse, queria descontar tudo o que sentia nele para que ele entendesse a dor que havia me causado, mas sabia que nunca seria capaz de machuca-lo de tal forma, eu o amava demais para isso...
- Damon, qual é a sua? Se você pensa que pode me procurar quando quiser, dizer algumas palavras e mostrar que se importa com algumas coisas que aconteceram entre nós vai me fazer voltar correndo para os seus braços novamente e sem pensar duas vezes, você está muito enganado! – eu puxei meu braço para si e nos afastei – Eu te disse para nunca mais me procurar, disse para esquecer-se de mim e disse também que não ia te perdoar e eu não vou te perdoar. Lembro-me de tudo o que disse para mim naquela noite e você não faz ideia o quanto aquilo me magoou, fico me perguntando o que passa em sua cabeça para ter me procurado depois daquela humilhação que você me fez passar...
“Tudo o que você faz é me machucar, Damon, será que não percebe o quanto acaba comigo toda vez que você fala as coisas sem pensar e depois vem correndo atrás de mim arrependido? Foi assim da primeira vez que brigamos por Stefan e está sendo assim agora que estamos brigando por Mason, olhe para trás e veja todas as coisas horríveis que me disse... Eu estava grávida de um filho seu, Damon, eu perdi nosso bebê e quando pensei que estava conseguindo voltar a viver depois da morte do meu segundo filho, você fala para mim que não acreditava que eu estava grávida de ti... Sinceramente, Damon, se você pensa que eu vou correr para os seus braços no momento de fraqueza ou quando você decidir nos trancar em um quarto até que nos acertemos, acho bom ir embora porque isso não vai acontecer...”
Damon me olhava perplexo e eu tentava distinguir qual era o outro sentimento estampado em seu rosto. Seus olhos encheram-se de lágrimas e eu mordi forte meu lábio para conter a enorme vontade que eu estava de aconchega-lo em meu peito e de me acabar em lágrimas também.
- Elena...
- Por favor, Damon, não me procure mais... – eu disse séria e me levantei da mesa sem ser impedida dessa vez, rapidamente abri minha bolsa, peguei minha carteira para deixar o dinheiro do meu café sobre a mesa e em passos largos, me distanciei e Damon.
Não foi nem preciso que eu chegasse à loja para que minhas lágrimas começassem a rolar, assim que sai da cafeteria e senti o vento gelado da rua em meu rosto, percebi que minha face estava banhada em lágrimas. Eu não queria chorar por ele, não deveria chorar por ele, mas simplesmente não consegui me controlar, as lágrimas escorriam involuntariamente e meu peito chiava pelos soluços que se formavam pelo choro intenso. Depois de ter passado meses sem derrubar uma lágrima sequer por ele, depois de ter prometido a mim mesma que não iria mais chorar por ele e que não iria deixa-lo mexer daquela forma comigo, ali estava eu, caminhando na rua e me debulhando em lágrimas por ele...
Como ele conseguia ser tão frio? Tão insensível? Depois de ter visto meu sofrimento, depois de ter me feito sofrer, ele volta como se nada tivesse acontecido, como se fossemos bons amigos que apenas se distanciaram por alguns meses por nenhum motivo sério... Será que não passava em sua mente que eu era um ser humano e que eu tinha sentimentos? Será que não passava em sua mente que ele tinha me feito sofrer e que aquela sua visitinha só piorava minha situação?
Eu o amava demais, mas, naquele momento, nada que ele dissesse e fizesse iria me fazer perdoá-lo ou voltar para ele, minha magoa e meu orgulho era grande demais para me fazer esquecer e passar por cima do que havia acontecido, se Damon realmente quisesse me conquistar de novo, o que eu julgava ser improvável, ele iria ter que se esforçar para conseguir.
Assim que cheguei à loja, agradeci mentalmente por Cassie estar atendendo e por Cristina já ter ido embora para que elas não vissem meu estado deplorável, ainda faltava muito tempo para o meu intervalo acabar então fui direto para o banheiro para tentar me recompor um pouco e estar no mínimo decente para retomar com meus afazeres.
Não sabia ao certo o motivo de eu estar chorando daquela forma, meu coração e minha consciência me diziam que eu tinha feito o certo, eu estava tranquila e mais leve por tudo que havia dito a ele e não me arrependia de uma palavra sequer, mas ainda assim, meu peito fora tomado por um vazio, por uma agonia imensa e tudo o que eu conseguia fazer era chorar... Porque diabos eu estava chorando? Meu corpo tremia de raiva e quanto mais eu lutava contra as lágrimas mais elas surgiam...
Porque diabos eu estava chorando?
Trinquei meus dentes que força e soquei a parede do banheiro em uma tentativa falha de descontar minha raiva e antes que eu me machucasse fazendo aquilo, eu me debruço sobre a pia e lavo meu rosto com a água gelada da torneira. Contei mentalmente até dez três vezes seguidas e suspirei fundo a cada intervalo. “Cadê seu autocontrole, Elena? Se controle! Ele não merece essas malditas lágrimas, se controle, vamos lá...” Eu repeti isso seguidas vezes mentalmente encarando minha imagem refletida no espelho e não sei exatamente como, fui me acalmando aos poucos e quando tive a certeza de que não iria derramar uma lágrima a mais, retoquei minha maquiagem para continuar a trabalhar.
Eu tinha mais algumas horas até ir embora então tinha que manter a compostura, o estoque estava uma bagunça e eu precisava me manter concentrada para arrumar as mercadorias novas que tinham chego. Ainda não conseguia acreditar que Damon havia acabado com meu dia daquela forma, estava me odiando no momento por ter me deixado influenciar por ele e por ter jogado no lixo todo o esforço que fiz durante meses para não pensar na existência daquele homem cujo olhar fazia meu corpo inteiro padecer e meu coração acelerar...
Eu precisava fazer alguma coisa para me distrair naquele dia porque caso ao contrario, iria acabar em casa, sozinha, chorando e assistindo algum filme que passava na televisão enquanto me enchia de chocolate ou alguma coisa relativamente gordurosa que fizesse eu me sentir menos vazia... Talvez Marcos realmente estivesse certo e aquela festa de ano novo iria mesmo me fazer bem, eu precisava me distrair e depois daquela tarde caótica, não tinha programa melhor do que uma festa.
Concentrei-me ao máximo que consegui no que fazia e depois de ter terminado, voltei para a loja para ajudar Cassie com os clientes. O dia estava tranquilo e mesmo que não tivéssemos atendido muito, o tempo passou mais rápido do que esperávamos.
...
- Hey Marcos – encostei-me à soleira da porta de seu quarto e fiquei o assistindo se vestir – A festa de hoje a noite ainda está de pé, não é?
- Mais de pé impossível, querida.
- Ótimo, preciso me distrair, meu dia não foi fácil... – suspirei fundo e fui para o meu quarto.
- Ohoh, conte-me sobre isso... – Marcos pegou sua camisa de cima da cama e me seguiu enquanto a vestia.
- Te conto enquanto tomo banho, ok? Que horas é a festa?
- Começa às nove e meia, temos tempo ainda e você tem tempo o suficiente para se arrumar como uma diva para começar bem o ano e arrasar nessa festa – ele comentou me olhando pelo reflexo do espelho com um olhar semi cerrado como se tentasse me seduzir e então bagunçou meus cabelos, os jogando para o lado como fosse um cabelereiro me fazendo um penteado. Rindo dele, eu pego minha toalha de banho do armário e sigo para o banheiro – Pronto, agora me conte o que aconteceu.
Marcos se sentou na bancada do banheiro e enquanto me despi e tomei banho, contei a ele tudo o que havia acontecido. Não sei como, mas narrei minha conversa com Damon sem derrubar uma lágrima sequer, sem ao menos sentir meus olhos encherem-se de lágrimas ou minha voz tremer, era como se eu estivesse contando uma história que tinha ouvido ou lido sobre, sem demonstrava nenhum sentimento sobre o assunto. Talvez fosse pelos comentários hilários que Marcos fazia ou provavelmente eu havia gastado meu estoque de lágrimas e chorado tudo o que me restava naquela tarde assim que o deixei sozinho na cafeteria...
Para minha sorte, Marcos não opinou em nada, apenas escutou e fez seus habituais comentários e isso acabou me deixando mais leve com o assunto, sabia que se estivesse contando a Caroline o que havia acontecido, a situação estaria sendo muito diferente. Marquinhos sabia como eu me sentia em relação a Damon e eu sabia qual era sua posição perante aquilo então não persistíamos em discutir, mesmo que meu amigo fosse pró de minha felicidade e em sua mente minha felicidade se resumia a “Damon Salvatore”, ele não me julgou ou disse que eu deveria ter o dado uma chance, até porque ele presenciou meu sofrimento... Mas o que importava era que eu estava tranquila e meu coração dizia que havia feito a coisa certa.
Após ter tomado um longo banho, eu me arrumei cautelosamente na companhia de Marcos, aos poucos enquanto conversávamos, consegui distrair minha mente do que havia acontecido e estava começando a realmente me animar para aquela festa.
- E então, como estou? – sorri para meu amigo, colocando a mão na cintura para que ele me avaliasse. Eu usava um vestido curto e colado ao corpo, cheio de paetês que puxavam para um tom dourado escuro, meus cabelos estavam soltos e levemente enrolados formando ondas e cachos amassados e havia feito uma maquiagem forte, que marcava e realçava bem meus olhos. Fazia tanto tempo que não me arrumava daquele jeito que até havia me esquecido de como gostava de me valorizar e como costumava a ser vaidosa.
- Uau, Eleninha... Digo, Elenão, porque né, mulher você já é um arraso, agora então até me deixou sem ar... uau
- Que pena que você está comprometido e que eu sou louca por Mike porque senão eu iria mesmo te deixar sem ar... – pisquei e passei a língua em meus lábios maliciosamente.
- Mas é uma vadia mesmo, continua a mesma biscate do pole dance... – Marcos revirou os olhos bufando alto e eu beijei sua bochecha, deixado marca de batom – Você está muito gananciosa para o meu gosto, isso é pecado sabia?
- Decidi deixar a luxúria de lado e me apegar a outro pecado, aos poucos vou cometendo um pouco de todos... – pisquei para ele novamente comecei a arrumar algumas coisas em uma pequena bolsa.
- E que historia é essa de ser louca pelo meu bofe? Não estou gostando disso não, daqui a pouco você me troca pelo meu namorado e eu vou acabar ficando sem namorado e sem amiga, já estou até vendo.
- Egoísmo também é pecado, você não sabia disso, não? E realmente o risco de isso que disse acontecer é bem grande... – ri ironicamente – Já falei que vou ser madrinha do casamento e do filho de vocês e você não acredita, Marcos, se livrar de mim não será uma matéria fácil...
- Casamento? Filho? Ainda bem que eu tenho tempo de fugir até isso acontecer... – ele comentou fingindo estar sufocado e eu ri alto – Mas enfim, vamos logo antes que a festa do ano que vem comece...
-Vamos! – concordei pegando um sobretudo de couro e a bolsa-carteira que havia arrumado – Vamos que eu estou precisando de uma dose de amnésia e duas de desapego, para já!
- Vai uma de amor também? – ele brincou.
- Não, isso deixa para outro dia... – ri alto e entrelacei meu braço com o dele para sairmos juntos de casa.
Nós seguimos para o seu carro e juntos, fomos para a festa nos encontrar com Mike. O lugar estava lotado e uma musica alta e agitada tocava. A decoração era toda em branco e prata e luzes fortes e tipicamente de festa piscavam no local, no lado de fora, a piscina tinha bexigas com as cores usadas na decoração e os convidados já estavam animados dançando e bebendo. Marcos pegou uma mesa para nós deixarmos nossas coisas e sem esperar mais, pedimos a primeira rodada de bebida e nós três, seguimos para a pista de dança.
Eu me sentia bem quando estava com eles, mesmo que os dois fossem um casal, eu não me via como um empecilho e eles não eram aquele tipo de casal que ficavam juntos o tempo todo e esqueciam-se de que tinham companhia. Depois de tanto tempo que eu não saia se casa, ver gente, luzes, som e a balada estavam me deixando mais aliviada e só assim para que eu conseguisse esquecer o encontro o encontro com Damon havia causado em mim.
Nós três dançávamos juntos e bebíamos juntos aproveitando a festa, era engraçado como Mike se parecia com nós dois, ele nem se importava de que estávamos no quarto copo em tão pouco tempo e mesmo assim continuava bebendo como se o álcool fosse água e dançando no nosso meio sem se importar com nada. Minha visão já estava começando a ficar turva, meus pensamentos estavam longe e meu corpo já não se importava com os comandos do meu cérebro. A bebida estava fazendo o efeito esperado e isso era bom... Qualquer vestígio que ela tirasse de Damon me faria melhor e estar sóbria era o que eu menos queria naquela noite.
- Elena? – ouvi uma voz conhecida e senti alguém segurando meu braço, ao olhar para trás, me deparo com alguém que realmente não esperava encontrar ali.
- Matt ?! – perguntei surpresa e o abracei forte.
- Lena, quanto tempo! Céus, você está ótima! – ele sorriu me avaliando.
- E você também não está nada a mal – ri baixinho piscando para ele – Está sozinho aqui?
- Não, estou aqui com alguns amigos de Londres e você?
- Estou com Marcos e Mike...
Aquela era a quinta vez que eu me encontrava com Matt após minha briga com Damon, nós tínhamos nos reaproximado bastante com a reviravolta que minha vida tinha sofrido e apesar de ele ter se tornado um homem sério e ocupado com todos seus compromissos do trabalho e viagens, nós tínhamos criado um laço de amizade muito forte e nos encontrávamos sempre que possível. Nossa relação era algo muito proto cooperativo e tinha se restabelecido no momento exato em nossas vidas, ele realmente havia desistido de sua garota britânica e se entregou de cabeça ao trabalho, Matt estava se definhando aos poucos e mesmo que tentasse negar, eu entendia e percebia que ele não estava bem e não sabendo lidar com a separação, então, além de nos entender, apoiamos um ao outro e acabávamos nos distraindo juntos.
- Como você está? – ele me perguntou sorrindo abertamente.
- Eu estou bem, de verdade! E você?
- Por incrível que pareça, eu estou ótimo! – ele sorriu suspirando.
- Como é bom ouvir isso, Matt, fico feliz por ti. Você me parece ótimo mesmo, apesar de um pouco cansado...
- Ah nem me fale, eu cheguei agora de tarde de Londres, não aguento mais viajar desse jeito, mas assim que me lembrei dessa festa, não pude deixar de vir e agora vejo que valeu a pena ter vindo mesmo...
- Eu também não estava muito animada em vir, mas agora fiquei realmente feliz por ter vindo. Vai ficar quanto tempo por aqui, Matt?
- Por muito tempo, assim espero, estou de férias...
- Ah que ótimo, acho que temos que comemorar isso... Venha! – eu peguei a mão dele e o puxei em direção para o bar.
- Duas tequilas, por favor – Matt pediu ao garçom e piscou para mim, retirando sua comanda do bolso de sua jaqueta de couro – Por minha conta e não insista! – ele apertou meu nariz delicadamente e eu sorri encolhendo os ombros. O homem do outro lado do balcão colocou nossos copos de tequila em nossa frente e os completou com a bebida – Feliz ano novo! – Matt piscou para mim pegando sua dose e eu fiz o mesmo.
- A um novo começo... – assenti e então, juntos, descemos a bebida de uma vez só.
Já havia perdido a conta de quantas daquela havia descido naquela noite, fora as outras bebidas que eu e Marcos pedimos em nossa mesa, mas pouco me importava, sabia que era fraca quando o assunto era álcool e me lembrava da ultima vez que exagerei na bebida, mas pouco me importei com aquele meu lado responsável e racional que gritavam comigo. Eu estava ali para me divertir e me distrair, então iria aproveitar a oportunidade sem sequer me preocupar com o dia seguinte e com os futuros arrependimentos.
Uma musica agitada começou e sem pensar duas vezes, puxei Matt pela mão até a pista de dança. Nós começamos a dançar de acordo com o ritmo agitado e de corpos colados como costumávamos a fazer anos atrás, Matt segurava minha cintura me mantendo bem próxima a ele enquanto eu mantinha meus braços em volta de seu pescoço com nossas pernas entrelaçadas e nós dançávamos sem nos importar com as pessoas em nossa volta.
Era algo que há tempos eu precisava, gente, dança, bebida, balada e obvio, um corpo masculino junto ao meu... Tudo aquilo fazia com que eu me sentisse mais viva, mais eu mesma... Matt passava as mãos pelo meu corpo e eu acariciava os cabelos de sua nuca, aproveitando da proximidade, qualquer um que nos visse poderia jurar que erámos um casal, mas incrivelmente, não havia segundas intenções naquilo, pelo menos por minha parte. Ele me separou de seu corpo para me virar mais uma vez e meu corpo ficar novamente bem próximo ao seu, nossos olhares se encontraram e eu quebrei o contato visual fechando os meus olhos e dançando no ritmo da musica.
Nada foi possível de nos separar naquela noite, nem mesmo a contagem regressiva especial que eles faziam na festa. Eu havia me perdido de Marcos e Mike e Matt nem se lembrava de que havia ido para a festa com seus amigos. Nós rimos, bebemos, conversamos e dançamos muito como há tempos não fazíamos, era como se estivéssemos vivendo os velhos tempos de novo, naquele momento, nós erámos dois jovens livres, irresponsáveis e sem juízo que tentavam superar a dor do coração partido.
- Preciso beber alguma coisa... – disse me desvencilhando de seus braços com muita dificuldade e cambaleei um pouco devido a grande quantidade de álcool que havia ingerido.
- Não, não, se for para beber que seja água e nada mais, mocinha... – Matt me puxou de volta para si me apertando com força em seus braços e eu tentei me soltar, mas estava completamente sem forças.
- Me deixe, Matt, por favor, só mais uma e eu paro – fiz beicinho e levantei o indicador.
- Não e não adianta fazer esse biquinho porque você já conseguiu três com essa história de mais uma, você já está quase dando pt, Elena, não te quero em coma alcóolico...
- Pff que coma alcóolico o que?! Eu estou ótima, bem longe de dar pt! – o empurrei mais uma vez mas ele apertou com mais força em seus braços – Matt...
- Elena, você está bêbada e não está mais raciocinando direito, venha, vamos que eu vou te levar embora antes que você faça uma besteira...
- Eu? Bêbada? Eu nem bebi tanto assim, me solta Matt, eu não quero ir embora, quero ficar aqui dançando, você está muito chato, sabia? Cadê aquele Matt festeiro e que bebia todas nas festas e me levava para o banheiro para fazer besteirinhas no ultimo reservado?
- Isso é covardia, Elena, não me lembre desses nossos momentos quando você está tão perto de mim assim... E sim, você está bêbada, olha só o que acabou de me falar... – ele riu e então foi caminhando comigo em seus braços até a mesa onde Marcos e Mike estavam juntos – Vamos, vou te levar embora...
- Não, eu não quero ir embora...
- Quer sim, vamos... – Matt pegou minhas coisas de cadeira e me vestiu com meu sobretudo.
Eu não fazia ideia como, mas quando percebi já estávamos em seu carro, Matt dirigia em silencio com um sorriso nos lábios enquanto fiquei o caminho inteiro emburrada e lutando contra o sono. Eu estava tão zonza que nem percebi o caminho que ele fazia, na verdade, sequer me importava para onde ele estava me levando e só me dei conta de que não estava em casa quando saímos do elevador e entramos em uma sala que era um tanto familiar, mas não me lembrava de quando havia estado ali...
- Matt, essa não é minha casa...
- Sério? Se você não tivesse me dito eu não teria percebido... – ele riu e jogou nossos casacos no sofá – Vou te preparar um café e um banho...
- Não! – relutei.
- Venha, Elena, é para te ajudar com a ressaca amanha, venha... – Matt pegou minha mão me puxando para si e antes que eu pudesse relutar, ele já havia retirado meu vestido e eu estava nua em seus braços.
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