Nevoeiro

38 Renesmee - Visita Inesperada


Os três dias que se passaram desde que acordei no hospital foram um borrão, como se eu estivesse presa em um pesadelo sem fim. As memórias do que aconteceu na faculdade surgiam como sombras sombrias nos meus sonhos, transformando minhas noites em tormento. Em meio à tragédia, a imagem de Aaron, meu amigo morto, aparecia com clareza cruel, lembrando-me da dor que agora fazia parte de mim. As conversas com a psicóloga ajudavam, mas eu sabia que levaria tempo, talvez uma vida inteira, para apagar tudo da minha mente—se é que algum dia conseguiria.

Naquela manhã, estava sozinha no quarto, tentando me distrair com um livro que Ayla havia deixado. A cicatrização da minha cirurgia avançava mais rápido do que o esperado, e eu aguardava ansiosa a visita do médico, torcendo para que ele me desse alta. Eu precisava voltar para casa, retomar minha vida, embora não fizesse ideia de como fazer isso. Não pretendia voltar à universidade, e meus tios me apoiaram nessa decisão. Mas, como a universidade havia sido o ponto de partida para a nova vida que eu havia escolhido, após anos de busca por respostas sobre a morte dos meus pais e dos irmãos que nunca conheci, eu me sentia perdida.

Fechei o livro, refletindo por um instante. Nos últimos quatro meses, minha vida havia se transformado em uma montanha-russa. Entrei em uma universidade, fiz amigos, me apaixonei, me desiludi e perdi um amigo. Minha mente estava um caos que precisava de tempo para se reorganizar.

Meus pensamentos foram interrompidos por uma voz que eu não esperava ouvir tão cedo.

— Posso entrar? — Eliot Cullen estava na porta, e meu coração acelerou, me paralisando por um instante.

Eu o olhei por alguns segundos, a lembrança do que aconteceu um dia antes do incidente na universidade invadindo minha mente. Lily, que folheava uma revista no sofá próximo à janela, sorriu largamente e olhou para mim, esperando uma resposta. Depois de um momento de silêncio, sacudi a cabeça e sussurrei um “sim”.

Eliot entrou e se aproximou da cama, segurando um buquê de flores. Lily pegou as flores de suas mãos, elogiando-as e dizendo que ia procurar um vaso, antes de sair do quarto, nos deixando a sós.

— Fiquei preocupado, mas disseram que você não podia receber visitas — ele começou, com um tom de voz carregado de culpa.

— Agradeço a preocupação, mas, como você pode ver, eu sobrevivi — respondi, tentando manter a voz firme.

— Eu me sinto culpado por não ter ido à aula naquele dia… — Eliot começou a dizer, mas eu o interrompi.

— E o que você teria feito, Eliot? — Perguntei, meu tom mais duro do que eu pretendia.

— Qualquer coisa para protegê-la. Eu preciso pedir desculpas.

Eu sorri, um sorriso amargo que não alcançou meus olhos. — Não é um buquê de flores e um pedido de desculpas que vai apagar como você me fez sentir.

Ele suspirou, balançando a cabeça. — Eu fui um idiota.

— Não, você foi um babaca cretino — corrigi, minha voz cheia de mágoa. — Você me fez acreditar que me amava, mas transou comigo e depois desapareceu por quase uma semana.

— Precisamos conversar, eu posso explicar… — Eliot começou, mas eu o interrompi novamente.

— Não precisa explicar nada. Nos últimos dias, eu quase morri e perdi um dos meus melhores amigos. Neste momento, a última coisa que quero é pensar em qualquer coisa além de mim mesma.

Eliot ficou em silêncio por um instante, absorvendo minhas palavras.

— Compreendo — ele finalmente disse, a voz baixa. — Mas... é verdade aquilo que você disse na noite em que estivemos juntos? Que você me ama?

Eu fechei os olhos, lutando contra as lágrimas. — Até aquele dia, sim. Mas agora... eu não sei mais o que sinto. Por favor, Eliot, vá embora. Eu não quero vê-lo. Respeite isso.

Ele assentiu, o rosto cheio de tristeza. — Se um dia você se sentir pronta, estarei esperando para conversarmos.

Fiquei em silêncio, sem conseguir olhar para ele. Quando finalmente percebi, Eliot já não estava mais no quarto. As lágrimas que eu havia tentado segurar começaram a escorrer pelo meu rosto. Fechei os olhos e chorei, sentindo o peso de tudo o que havia perdido.

Enxuguei as lágrimas ao ver Ayla entrar no quarto, tentando esconder o que havia acabado de acontecer. Forçando um sorriso, olhei para ela, que se aproximou da cama com uma expressão de preocupação.

— Vi Eliot lá fora — ela disse suavemente.

Não consegui segurar a emoção. Desabei em lágrimas novamente, e Ayla se aproximou para me abraçar.

— Eliot Cullen não merece as suas lágrimas — ela murmurou, acariciando meus cabelos.

Concordei com a cabeça, absorvendo suas palavras de conforto.

— Você está certa — consegui dizer, a voz ainda embargada.

Ayla se afastou um pouco, um sorriso triste no rosto. — Eu vou pegar a estrada para La Push agora. Queria te ver antes de ir, mas vou vir te visitar durante a semana com Seth.

— Vou sentir saudades — falei, ainda com a voz tremendo, — mas estou feliz em saber que você vai morar com seu pai e está livre do Marco.

Ayla sorriu, aliviada. — O Marco não vai mais incomodar. Meu pai deu uma lição nele. E, falando em Jacob Black, ele está lá fora, mas não pode entrar, então mandou um presente.

Ela entregou-me uma sacolinha marrom. Curiosa, abri a sacola e encontrei um lobo de pelúcia dentro. Ao lado do brinquedo, havia um pequeno cartão. Abri o cartão com cuidado e comecei a ler a mensagem carinhosa escrita por Jacob.

— "Para você, Renesmee. Que este lobo de pelúcia te traga um pouco de conforto e lembranças boas. Estou ansioso para te conhecer melhor. Cuide-se. Jacob Black." — Li em voz alta.

Ayla riu, seu olhar carregado de humor. — Meu pai sabe como seduzir uma mulher, hein?

Eu ri alto, mas logo uma expressão de dor passou pelo meu rosto devido à cirurgia.

— E por acaso você está tentando unir eu e seu pai? — Perguntei, brincando, apesar da dor.

Ayla sorriu, com um brilho nos olhos. — Quem me dera.

Agradeci pelo presente, tocada pela gentileza de Jacob, e mencionei que era uma pena não poder conhecê-lo mesmo ele estando lá fora.

— Talvez não seja ainda o momento — Ayla disse com um tom de mistério. — Vai que o destino decide casá-los e você vira minha madrasta.

Dei uma gargalhada, mas a dor fez com que eu logo ficasse séria. Ayla se levantou para se despedir, e eu a abracei fortemente.

— Tenha uma boa viagem e não se esqueça de mim — pedi, meus olhos brilhando.

— Jamais esqueceria — ela respondeu, antes de sair do quarto.

Fiquei sozinha novamente, olhando para o lobo de pelúcia. Suspirei e sussurrei o nome que estava em meus pensamentos desde que recebi o presente.

— Jacob Black.

Eu realmente estava curiosa para conhecê-lo, ansiosa para descobrir mais sobre o homem que havia sido tão gentil comigo em um momento tão difícil.