Nevoeiro

39 Renesmee - Papo de amigas


Duas semanas haviam se passado desde que eu recebi alta hospitalar. Ainda me recuperava, os pontos da cirurgia permaneciam, mas eu já me sentia bem melhor. Sentada à minha mesa, tentava me concentrar em organizar alguns arquivos no notebook, buscando uma distração para os pensamentos turbulentos que insistiam em me rondar. Enquanto navegava pelas pastas, encontrei um vídeo de Seth. Meu coração acelerou, mas decidi não abrir. Sem hesitar, deletei o arquivo, desejando que aquela loucura ficasse para trás, onde eu pudesse tentar esquecer.

Lily entrou no quarto com uma bandeja nas mãos, um sorriso acolhedor no rosto.

— Você só tomou o café da manhã, querida. Precisa se alimentar — ela disse, colocando a bandeja na cama.

Sorri de volta, agradecendo silenciosamente pela preocupação. Lily se sentou na beira da cama, observando-me com um olhar carinhoso, mas atento.

— Alguma coisa está te preocupando? — Ela perguntou.

Girei a cadeira para encará-la, sentindo o peso de tudo o que estava acontecendo.

— Me sinto perdida, tia Lily — confessei, a voz mais fraca do que eu gostaria.

Ela segurou minha mão, oferecendo o conforto que só ela sabia dar.

— Eu e Matt vamos te apoiar em qualquer decisão que tomar — disse ela, seus olhos cheios de sinceridade.

Suspirei, as palavras entaladas na garganta. — Passei os últimos anos procurando por algo que nunca encontrei. E quando finalmente decido me desapegar e viver a vida... ela me tira algo de novo.

Lily me olhou com ternura, sua voz suave. — Talvez a vida não tenha tirado de propósito. É difícil para nós, humanos, vivermos com a perda, mas sempre há um propósito, mesmo que não consigamos ver agora.

— Ayla está longe, Aaron se foi, e eu me afastei de Eliot... — Minha voz vacilou ao lembrar de tudo que havia mudado tão rapidamente.

— Não há chance de você conversar com Eliot? — Lily perguntou com cuidado.

Balancei a cabeça, um gesto decidido.

— Não quero falar sobre isso — respondi, tentando afastar a dor que aquele nome trazia.

Ela apertou minha mão de novo, seus olhos fixos nos meus. — Você não pode viver o resto da sua vida presa ao que ficou para trás. Espero que encontre seu caminho, seja ele qual for.

Ela se inclinou e beijou minha testa, o gesto cheio de carinho. Quando Lily saiu do quarto, suspirei, olhando para a bandeja sobre a cama. Peguei o copo de suco e o bebi devagar, refletindo sobre suas palavras.

— Não posso me prender ao passado — repeti a mim mesma, como um mantra.

Voltei a olhar para o computador, abrindo uma pasta com fotos. Meu coração apertou ao ver a foto minha com Ayla e Aaron, um sorriso largo nos rostos. Sorri também, um sorriso pequeno, mas sincero, guardando a memória de um momento feliz em meio à turbulência.

Depois de organizar o notebook e tentar colocar meus pensamentos em ordem, decidi descer as escadas e ir para a sala. O tédio parecia me consumir enquanto eu trocava os canais da TV, sem realmente prestar atenção em nada. O som da campainha tocando me trouxe de volta à realidade, e, sem pensar muito, presumi que fosse meu tio Matt, que como sempre, devia ter esquecido a chave.

— Eu atendo, Lily! — gritei em direção à cozinha enquanto me levantava do sofá, ainda com os movimentos um pouco lentos pela cirurgia recente.

Abri a porta e, para minha surpresa, não era Matt, mas Ayla, que praticamente pulou em cima de mim com um abraço apertado.

— Nessie! — Ela gritou, visivelmente animada.

Uma onda de felicidade me invadiu ao ver Ayla. Parecia que minha semana finalmente tinha melhorado um pouco. Lily, atraída pelo barulho, saiu da cozinha e veio até a sala.

— Ayla, que bom te ver! Talvez você consiga melhorar o humor da Nessie — disse Lily, com um sorriso afetuoso.

— Exagero da Lily — respondi, fazendo uma careta, mas sabendo que ela estava parcialmente certa.

— Tenho tantas coisas para te contar! — Disse Ayla, os olhos brilhando de excitação.

Sem pensar duas vezes, a puxei pela mão, e subimos as escadas devagar, as duas animadas para colocar a conversa em dia.

Assim que chegamos ao meu quarto, me joguei na cama, me sentindo mais à vontade do que em qualquer outro lugar.

— Como estão as coisas na casa do seu pai? — Perguntei, tentando esconder minha curiosidade.

O semblante de Ayla mudou de imediato, ficando mais sombrio.

— Não andam muito bem... — ela começou, hesitante.

Minha preocupação cresceu, e perguntei diretamente:

— O que aconteceu?

Ayla suspirou, parecendo se arrepender do que ia dizer. — Acho que acabei falando demais... sobre a Olivia.

Meus olhos se arregalaram. — Você contou para o seu pai sobre o que viu?

Ayla assentiu, visivelmente desconfortável. — Sim, mas não contei tudo. Eu vi Olivia com meu tio Alex mais de uma vez, inclusive em Seattle.

Senti um frio na espinha. Esse era um assunto muito delicado, e Ayla se meteu num terreno perigoso. — Ayla, isso é complicado demais. Acho que você deveria ter conversado com Olivia antes de contar qualquer coisa. Seu pai é adulto, ele precisa resolver essas coisas sozinho.

Ela suspirou, parecendo ainda mais pesada com o que havia feito. — Eu sei, mas agora já falei. Vamos mudar de assunto?

Percebi que insistir nisso não a ajudaria em nada, então concordei. Ayla rapidamente mudou de expressão, voltando a ser a amiga alegre de sempre.

— Vou passar o fim de semana em Seattle com minha mãe. Isso significa que teremos bastante tempo para conversar! — Disse ela, puxando uma sacola que trazia consigo.

Curiosa, peguei a sacola e, ao abri-la, comecei a rir ao ver o conteúdo. Tirei de dentro uma fantasia, completamente surpresa.

— O que é isso? — Perguntei, rindo.

— É sua fantasia para o meu aniversário de 15 anos! E eu espero que você esteja presente. — Ayla sorriu, esperando minha resposta.

Sorri de volta, sentindo o peso dos últimos dias diminuir um pouco. — Eu não perderia por nada, mas infelizmente preciso de autorização médica para viajar por horas com pontos de uma cirurgia.

Ayla balançou a cabeça com um sorriso esperançoso.

— Vou torcer para que o médico te libere para ir à minha festa. Vai ser a melhor de todas se você estiver lá!

Eu sorri, tentando me contagiar com o entusiasmo dela. — Vou conversar com ele. Não quero perder isso por nada.

Passamos o resto da tarde jogando conversa fora. Ayla falava animadamente sobre seus planos para o restante do ano em La Push, e eu a ouvia, sorrindo e concordando. Mas em algum momento, meu sorriso deve ter falhado, porque Ayla parou e me olhou com preocupação.

— E você, Nessie? Quais são seus planos?

Suspirei, sentindo o peso da incerteza. — Ainda não sei. Talvez procure um trabalho... algo para me ocupar.

Ayla pareceu pensar por um momento, e então sugeriu, com aquele jeito animado de sempre: — Por que você não vem para a reserva? Poderíamos passar mais tempo juntas.

Ri, meio sem jeito. — O que eu faria na reserva, Ayla? Não conheço ninguém lá além de você e o Seth.

Ela soltou uma risada leve. — Como se isso fosse um problema! Você é super famosa em Seattle, logo, logo estaria conhecendo todo mundo.

Acabei rindo com ela. — Quem sabe... Talvez eu pense nisso.

Ayla continuou com suas ideias. — Meu pai poderia conseguir um emprego para você lá, sabia? Ele conhece muita gente.

Eu fiquei surpresa com a oferta, mas recusei gentilmente. — Agradeço, Ayla. Seu pai já fez muito por mim. Mas vou pensar com carinho nas suas propostas.

Ayla sorriu, satisfeita com a minha resposta, e logo voltamos a rir juntas, esquecendo por um tempo as incertezas e as preocupações. Aquela tarde foi exatamente o que eu precisava — um momento de leveza, de amizade, que me fazia esquecer, mesmo que por algumas horas, todo o caos que havia sido minha vida nas últimas semanas.

Enquanto o sol se punha lá fora, o quarto parecia um pouco menos sombrio, e eu me senti grata por ter alguém como Ayla ao meu lado. Passamos o resto da tarde relembrando momentos, rindo de piadas antigas e compartilhando novas histórias. Foi uma daquelas tardes que, mesmo depois de tudo que aconteceu, me fez sentir que ainda havia coisas boas no mundo.