Nevoeiro

40 Renesmee- Memórias


Enquanto eu olhava para o conhecido teto do hospital, ouvi atentamente as explicações do médico que retirava os pontos da minha cirurgia. A sensação era estranha, mas não dolorosa. Ele falava em um tom calmo e experiente, como se estivesse explicando algo simples.

— Renesmee, os pontos estão completamente cicatrizados, mas lembre-se de que a área ainda está sensível. Evite levantar peso ou fazer movimentos bruscos nas próximas semanas. Caminhadas leves estão liberadas, mas nada de exercícios intensos. E, claro, evite torções ou qualquer coisa que exija muito do abdômen. Qualquer dor ou desconforto que você sentir, entre em contato conosco imediatamente.

Eu assenti, memorizando cada detalhe. Não estava com pressa de me machucar novamente.

A enfermeira me ajudou a vestir minha roupa, e logo me vi na recepção do hospital, onde meus tios me esperavam. O médico, ao nosso lado, deu um sorriso amistoso e desejou:

— Boa sorte, Renesmee. E, por favor, nada de imprudências por algumas semanas.

Aproveitei a oportunidade para perguntar algo que vinha matutando.

— Doutor, eu posso fazer uma viagem? — Meus tios, surpresos, trocaram olhares.

Ele ponderou por um momento e, em seguida, assentiu.

— Desde que siga todas as recomendações, não vejo problema algum. Mas seja cuidadosa, ok?

— Obrigada, doutor — respondi, me despedindo dele.

Enquanto nos dirigíamos ao carro, meu tio Matt me olhou curioso.

— Então, você pretende viajar?

Eu dei de ombros, pensando nas possibilidades, mas antes que pudesse responder, avistei Eliot do outro lado do estacionamento. Meus tios trocaram olhares e, percebendo a tensão, Matt disse:

— Vamos te esperar no carro.

Assenti enquanto eles se afastavam, e cruzei os braços, tentando me proteger do frio e da presença inesperada de Eliot.

Ele se aproximou lentamente, com aquele olhar que eu conhecia tão bem.

— Estava passando por aqui quando te vi... Você está bem?

— Sim, acabei de retirar os pontos. — Respondi, tentando soar despreocupada. — E você, como está?

— Estou bem. As aulas voltaram na SU, e alguns colegas perguntaram por você.

— Recebi algumas ligações, mas tranquei o curso — respondi, tentando manter a conversa casual.

Eliot deu um passo à frente, parecendo mais vulnerável do que o habitual. — Você faz falta.

Eu respirei fundo, sentindo o peso das suas palavras. — Eu preciso ir.

Tentei me afastar, mas ele segurou meu braço, me impedindo de prosseguir.

— Renesmee, eu preciso que você me perdoe.

Olhei para ele, sentindo uma mistura de emoções. — Eu preciso de um tempo, Eliot.

Ele soltou meu braço, e eu me despedi com um aceno, caminhando em direção ao carro onde meus tios me aguardavam. Ao entrar, Matt olhou para mim, a preocupação evidente em seus olhos.

— Está tudo bem?

Assenti, tentando esconder o tumulto interno. — Está sim. Só preciso ir para casa.

— Que tal fazermos algo diferente hoje? — Matt sugeriu, enquanto ligava o carro.

Olhei para ele, surpresa. — Diferente como?

Ele sorriu, enigmático. — É surpresa.

Virei-me para Lily, buscando alguma pista, mas ela apenas deu de ombros, com um sorriso de cumplicidade.

— Não sei de nada — disse ela, rindo. Ri junto, intrigada, enquanto o carro começava a se mover pelas ruas de Seattle.

Durante o percurso, o silêncio no carro era confortável, com a cidade passando por nós como um borrão. Tentava adivinhar o destino, mas Matt estava determinado a manter o mistério. O caminho, familiar e ao mesmo tempo desconhecido, me fez relaxar um pouco. Estava curiosa, mas também gostava da ideia de ser surpreendida.

Após alguns minutos, tio Matt fez uma curva, e o carro entrou em uma estrada ladeada por árvores que se tornavam mais densas à medida que avançávamos. Foi então que reconheci o lugar, um sorriso instantâneo se espalhando pelo meu rosto. Finalmente, o carro parou diante do Woodland Park, um parque que sempre me trazia lembranças da infância.

— Woodland Park! — Exclamei, olhando para tio Matt. — Vocês sempre me traziam aqui quando eu era criança.

Tio Matt sorriu, satisfeito com minha reação. — Exatamente. Pensei que talvez você precisasse de um pouco de nostalgia. Depois que seus pais morreram, te trouxe aqui e, pela primeira vez em semanas, você sorriu.

Olhei para ele, sentindo uma onda de gratidão. O carinho deles, o esforço em me ajudar a encontrar meu caminho novamente, sempre me tocava profundamente.

— Obrigada por me trazer aqui, tio Matt. Isso significa muito.

Sentamo-nos em um dos bancos de madeira, o som distante das crianças brincando e o vento suave passando pelas árvores criando uma atmosfera de paz. Tio Matt me observava com atenção, como se estivesse esperando por algo.

Respirei fundo, decidindo que era o momento certo. — Eu tomei uma decisão.

Lily e tio Matt se entreolharam, a curiosidade brilhando em seus olhos.

— Vou viajar — continuei vendo tio Matt sorrir de imediato.

— Isso é uma excelente ideia. Você precisa se distrair, se afastar um pouco de tudo.

Balancei a cabeça, já sabendo que o que ia dizer a seguir mudaria as coisas. — Não é uma viagem de férias. Vou fazer vinte anos em dois meses e decidi que preciso cuidar da minha vida. Finalmente, ter juízo.

Matt me olhou, surpreso, mas com um brilho de orgulho nos olhos. — Isso... é inesperado, mas acho que você amadureceu muito nos últimos meses.

Senti um calor no peito ao ouvir aquilo. — Isso é graças a vocês dois. — Segurei as mãos deles, sentindo a conexão entre nós. — O dinheiro que meus pais deixaram vai me ajudar nessa nova vida.

Lily, sempre prática, perguntou: — Para onde você vai?

Sorri, já tendo a resposta em mente. — Vou para La Push.

Matt ficou momentaneamente surpreso, enquanto Lily parecia aliviada.

— Bem, ao menos não é muito longe — disse ela. — Poderemos vê-la sempre.

— Não era exatamente o que eu imaginava, mas se isso te faz feliz, então você tem meu apoio — Matt acrescentou. — Só quero te ver feliz.

Sorrimos juntos, um gesto de cumplicidade que sempre compartilhávamos em momentos importantes. Matt, sempre disposto a celebrar, disse:

— Acho que precisamos comemorar!

E assim passamos o restante do dia juntos, explorando o parque, relembrando memórias e criando novas. Eu sabia que o futuro me reservava muitos desafios, mas naquele momento, sentia que estava no caminho certo.

Já em casa, à noite, organizava algumas coisas em minha gaveta quando encontrei a peruca ruiva que havia usado tantas vezes para disfarces. Ao lado dela, a fantasia que Ayla havia me dado. Sorri, lembrando da promessa de estar presente no aniversário dela.

Peguei meu celular e fiz uma ligação. Após alguns toques, a voz familiar de Seth atendeu.

— Alô, Seth? É a Nessie. Preciso de uma carona para La Push!