Nevoeiro
27 Jacob - Revelações
— Eu e Olivia estamos apenas cogitando a possibilidade — comecei tentando manter o tom calmo, mas Leah já tinha cruzado os braços, um olhar cético no rosto.
— Se ela for esperta, vai pular fora disso — Leah retrucou, seu tom afiado. — A menos que ela queira ser a próxima Clearwater abandonada no altar.
Olivia franziu o rosto, claramente aborrecida. — Só porque aconteceu com você, Leah, não significa que vai acontecer comigo. Eu não sou uma loba.
— Você tem o gene — Leah rebateu. — E nunca se sabe.
Seth, percebendo a tensão crescente, interveio. — Vamos parar com isso.
Eu, no entanto, já estava perdendo a paciência. — Isso não é assunto para você, Leah. Já fazem quase vinte anos que Sam e Emily estão juntos. Você já deveria ter superado isso.
Leah não se deixou intimidar. — Superar, eu já superei. Mas apesar de minha irmã ser burra, eu não posso simplesmente cruzar os braços e deixá-la cometer esse erro. Pode até não acontecer agora, mas um dia uma garota pode entrar na porta de Jacob Black e, kabum, ela se torna a razão da sua existência.
Olivia me lançou um olhar ferido antes de se virar e sair abruptamente. Leah, sem perceber ou sem se importar com o impacto de suas palavras, ficou onde estava. Senti uma raiva crescente. Leah sempre soube como acabar com um momento feliz.
— Você sabe como estragar qualquer alegria, Leah — murmurei, antes de seguir Olivia. Precisava resolver isso antes que as coisas ficassem ainda piores.
Encontrei Olivia não muito longe, caminhando rapidamente para se afastar da fogueira. Chamei seu nome e, ao alcançá-la, segurei seu braço, puxando-a para um lugar mais reservado.
— Ignora a Leah — pedi, olhando nos olhos dela, tentando encontrar um ponto de reconciliação.
Olivia balançou a cabeça, visivelmente abalada. — Não posso ignorar, Jake. Sue disse a mesma coisa para mim. Eu amo Sue como uma segunda mãe. Quando minha mãe morreu e Sue soube que Harry Clearwater tinha uma filha fora do casamento, ela não me culpou, ela me acolheu. Mas agora, mesmo que eu te ame, sei que Leah e Sue têm razão. E se acontecer? E se acontecer depois de sermos casados e termos uma família?
Eu apertei as mãos de Olivia, tentando transmitir confiança. — Não vai acontecer, Olivia.
Ela me olhou, sua expressão desafiadora misturada com insegurança. — Você conhece o poder do imprinting, Jake?
Suspirei, sabendo que a resposta não seria fácil. — Sim, eu sei. Sinto isso quando meus pensamentos se conectam com os dos outros lobos que já encontraram seus imprints.
— E há como lutar contra isso? — A voz dela era suave, quase como se já soubesse a resposta.
— Não. — A verdade saiu pesada, a realidade do imprinting inescapável.
Olivia esboçou um sorriso triste, aproximando-se para selar seus lábios nos meus em um beijo cheio de resignação. — Então, é melhor deixar tudo como está.
Ela se afastou lentamente, deixando o peso da conversa pairar no ar. Fiquei parado por um momento, observando-a se juntar aos outros em volta da fogueira, tentando processar o que isso significava para nós dois. O futuro, de repente, parecia mais incerto do que nunca.
Nas semanas que se seguiram, Olivia começou a se distanciar de mim. Enviava algumas mensagens, mas o retorno era mínimo ou inexistente. Parte de mim entendia o motivo. O peso do imprinting sempre foi uma sombra sobre qualquer relação que eu tentasse construir. Mas isso não fazia a ausência dela doer menos.
Enquanto isso, Seth continuava sua investigação sobre o que realmente estava acontecendo com Ayla e os misteriosos pagamentos no cartão dela. Ele vinha me atualizando sempre que possível, mas as respostas continuavam escassas. Segundo ele, tudo parecia estar bem na superfície. Nada indicava que Marco estivesse usando o cartão de Ayla, mas algo não se encaixava.
— Talvez uma pessoa possa ajudar — Seth comentou uma noite, durante uma de nossas conversas.
Levantei a sobrancelha, interessado. — Quem?
— Renesmee Biers — respondeu Seth, o tom sugerindo que ele já havia pensado bastante sobre isso. — Ayla gosta muito dela. Ela meio que se tornou uma irmã mais velha para Ayla. Às vezes, quando elas estão juntas, até me sinto sobrando.
O nome fez minhas memórias darem um estalo, mas ainda era vago.
— Biers? Esse sobrenome não me é comum. Já ouvi antes, mas não lembro de onde — comentei, tentando puxar da memória.
Seth parecia compartilhar da mesma sensação. — Tive a mesma impressão.
Então, a lembrança surgiu com clareza. — Não é o mesmo sobrenome daquele vampiro que a matilha enfrentou para ajudar Bella?
— Riley? — Seth confirmou, e a expressão dele ficou séria quando a associação foi feita.
Minha preocupação aumentou. — Ayla mencionou que Renesmee anda com o Eliot.
Seth assentiu, mas tentou me tranquilizar. — Sim, mas o garoto é do bem. Foi Leah quem encheu a cabeça de Ayla com essas coisas. Eliot é basicamente um super-humano.
Eu não estava convencido. — Super-humano? Seth, ele bebe o líquido vermelho.
Houve uma pausa, Seth pareceu considerar suas palavras com cuidado antes de responder. — Estou de olho, Jake. E posso te garantir que Renesmee nem imagina que vampiros existem.
Suspirei, tentando processar tudo isso. — Você tem razão. A família de Riley, até o próprio Riley, foram vítimas. Mas isso não quer dizer que não devemos ficar atentos.
Seth assentiu, entendendo minha preocupação. — Nesse final de semana, vou sair com Ayla e Renesmee. Vou tentar pedir a ajuda de Nessie para entender o que está acontecendo.
O apelido me fez sorrir. — Nessie? — Ri, o som escapando antes que pudesse controlar. — Por acaso a menina é tão feia que a chamam de monstro do lago Ness?
Seth soltou uma gargalhada alta, o riso relaxando a tensão. — Não, Jake. Renesmee é a garota mais linda da faculdade. Não é à toa que o Cullen tá de quatro pneus arriados por ela.
A imagem de Eliot Cullen, um vampiro ou algo próximo disso, caindo de amores por uma humana chamada Renesmee Biers, era algo que eu ainda precisava processar. Mas, de certa forma, o humor de Seth aliviou parte do peso que vinha carregando. A preocupação ainda estava lá, firme como uma rocha, mas ao menos não estava sozinho nisso.
— Certo, Seth. Fique de olho. E qualquer coisa estranha, me avise imediatamente.
Ele assentiu, o sorriso ainda presente, mas o olhar determinado. Eu sabia que Seth cuidaria de Ayla como sempre fez. E, por enquanto, isso teria que ser o suficiente.
O domingo tinha sido monótono, para dizer o mínimo. Enquanto retornava de mais um turno em minha forma lupina, o cheiro da floresta familiar de La Push preenchia minhas narinas. Havia indicativos de que sanguessugas estavam por perto, mas, como de costume, a maioria dos rastros não levava a lugar algum. Era apenas mais um dia de patrulha sem grandes incidentes.
Enquanto corria de volta para a reserva, minha mente estava ocupada com o incessante zumbido dos pensamentos de Embry, que estava se divertindo às minhas custas. Ele continuava me lembrando da aposta que fiz com Leah e da surra que levei ao tentar vencê-la em uma corrida depois de discutir sobre minha relação com Liv.
— Você realmente perdeu, Jake! — Embry enviava, o tom zombeteiro em sua mente quase tangível.
— E ainda por cima tomou uma surra, hein, Jake? — Leah adicionou, sua voz mental cheia de satisfação. — O famoso e milionário Black perdeu a forma e ainda engordou!
Paul não conseguia conter a gargalhada. O som ecoava em minha cabeça, aumentando minha irritação. Já era ruim o suficiente perder para Leah, mas o fato de ela ser tão boa em provocar tornava tudo pior.
— Leah, você tem sorte de ser mulher! — Rosnei, a irritação evidente em meus pensamentos.
— Sorte sua que sou, Jake. — Ela respondeu, sua voz mental afiada como uma faca. — Senão, teria te feito comer poeira de novo.
O embate mental foi interrompido quando percebi Olivia à minha espera na trilha. Seu cheiro suave e familiar misturava-se com os aromas da floresta. A matilha começou a se dispersar, mas não antes de Leah me lançar um último golpe, chamando Olivia de "Anta mitológica" em sua mente.
Eu ignorei a provocação, concentrando-me em Olivia. Quando estava perto o suficiente, voltei à forma humana, sentindo a familiar transformação ocorrer enquanto minhas patas se convertiam em mãos e pés. Peguei uma calça de moletom da sacola presa ao meu tornozelo e comecei a vesti-la, tentando não deixar transparecer o quanto as palavras de Leah ainda me incomodavam.
— Oi. — Liv disse, a voz suave, enquanto eu terminava de me vestir.
— Oi. — Respondi, um sorriso cansado surgindo no canto dos meus lábios. — Senti sua falta.
Olivia sorriu e deu um passo à frente, envolvendo-me em um abraço caloroso. Senti seu corpo se apertar contra o meu, a familiaridade do gesto aquecendo algo dentro de mim que eu nem percebia que estava esfriando.
— Também senti sua falta. — Ela murmurou contra meu peito, a sinceridade em sua voz quase me desarmando.
Por um momento, ficamos ali, apenas sentindo a presença um do outro. O peso das últimas semanas, das preocupações com Ayla, do distanciamento de Liv, tudo parecia menos avassalador quando ela estava ali, em meus braços.
— Como foi o turno? — Ela perguntou, finalmente se afastando o suficiente para me olhar nos olhos.
— Tranquilo demais para o meu gosto — admiti, com um suspiro. — Mas entediante. Nada que valha a pena mencionar. Só algumas provocações de Leah e Embry.
Liv sorriu, um brilho de compreensão em seus olhos. — Eles nunca mudam, não é?
— Não, e acho que nunca vão mudar — concordei, minha voz leve, mas havia algo de pesado em meu peito. Não era só a patrulha, ou Leah, ou Embry. Havia mais em jogo, e ela sabia disso tanto quanto eu.
Mas por agora, naquele momento, tudo o que importava era que Olivia estava ali. E isso, por si só, já era um alívio que eu não sabia que precisava.
Enquanto caminhávamos de mãos dadas de volta para minha casa, a tranquilidade da noite se instalava ao nosso redor. O ar estava fresco, e o som suave das folhas sussurrando ao vento parecia acompanhar o ritmo de nossos passos. Ao chegar à porta, olhei para Olivia, vendo a hesitação em seus olhos, mas sem querer dar espaço para mais dúvidas, a puxei pela cintura e a beijei, profundo e urgente, como se aquele fosse o único modo de afastar a incerteza que pairava entre nós.
Liv respondeu ao beijo, mas logo colocou as mãos no meu peito, interrompendo o momento. — Jake, nós não podemos continuar assim — disse ela, os olhos evitando os meus, cheios de uma confusão que eu não queria enfrentar.
— Liv, nós não precisamos nos afastar um do outro se nossos corações pertencem um ao outro. — Minhas palavras saíram mais suaves do que eu esperava, mas havia uma convicção firme nelas. Eu não estava disposto a deixar essa distância crescer entre nós.
Ela hesitou, os olhos passando dos meus para o chão, como se estivesse lutando contra um conflito interno. Finalmente, Liv cedeu. Eu a levantei, segurando-a firme em meus braços enquanto nossos lábios se encontravam novamente. O beijo foi mais profundo dessa vez, sem as reservas de antes. Caminhei com ela até o sofá, onde a deitei com cuidado, nossos corpos se movendo com a familiaridade de quem já se conhecia bem demais.
Depois de alguns minutos de reconciliação, estávamos ambos deitados, Liv aninhada contra meu peito enquanto eu acariciava suas costas. O silêncio era confortável, mas havia algo que ainda pairava no ar.
— Por que você não respondeu minhas mensagens? — Perguntei, quebrando o silêncio, minha voz baixa, mas carregada de curiosidade.
Liv suspirou, suas mãos brincando distraidamente com a borda da almofada que cobria seu corpo. — Eu estava com medo, Jake. E agora, estou confusa.
— Por causa do que Sue e Leah pensam? — Perguntei, já sabendo que as opiniões delas pesavam na mente de Olivia.
Ela assentiu, mas havia mais. Algo que eu não tinha percebido antes. — Sim, por causa delas, mas também por outro motivo.
Liv se sentou, segurando a almofada contra si como um escudo. Seus olhos encontraram os meus, e havia algo mais lá. Algo que parecia aumentar a tensão no ar. — Jake... minha menstruação está atrasada há três meses.
Senti meu coração parar por um segundo antes de disparar. A confusão e o choque deram lugar a uma sensação de euforia. Um sorriso largo se espalhou pelo meu rosto antes que eu pudesse contê-lo. — Liv, você está me dizendo que... que você está esperando um filho nosso?
Ela assentiu lentamente, os olhos brilhando com uma mistura de medo e esperança. — Sim, Jake. Eu estou grávida.
A felicidade que me invadiu foi instantânea. Eu a cobri de beijos, cada um mais cheio de emoção do que o último, antes de finalmente deitar minha cabeça sobre sua barriga, sentindo uma onda de ternura que eu já tinha experimentado antes. O futuro parecia cheio de possibilidades, e pela primeira vez em muito tempo, tudo parecia estar se encaixando.
Mas o momento foi interrompido pelo som insistente do meu celular. Ignorei-o, focado apenas em Liv e no que acabara de descobrir. Mas ela colocou a mão no meu ombro, a voz calma, mas insistente. — Jake, pode ser importante.
Relutantemente, estiquei o braço e peguei o aparelho. Quando vi o nome de Seth no display, senti um peso se instalar no meu estômago. Atendi a ligação, o tom de Seth do outro lado da linha imediato e grave.
— Jake, temos um problema — disse Seth, sem rodeios. — Eu descobri por que Marco estava usando o cartão de Ayla.
Minha alegria se dissipou num instante, substituída por uma tensão crescente. Meu corpo se enrijeceu com a confirmação de Seth. — O que o desgraçado do Marco fez com Ayla? — Minha voz saiu baixa, quase um rosnado.
— Com Ayla, nada... Mas ele sabe, Jake. Ele sabe sobre o nosso segredo. O segredo dos lobos.
A revelação de Seth foi como um soco no estômago. Senti o chão desaparecer sob meus pés enquanto a gravidade da situação se instalava. O que significava que Marco sabia? Que ele poderia usar isso contra nós? Contra Ayla? Mil perguntas surgiram em minha mente, mas uma coisa era certa: eu não podia deixar isso passar.
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