Nevoeiro
26 Jacob - Reunião da fogueira
Sentado no escritório em casa, rodeado por papéis e a luz suave do abajur, eu estava concentrado nas contas e pagamentos mensais. Tudo estava correndo como de costume, até que comecei a notar algo estranho nos extratos bancários. Os valores nos cartões de crédito de Ayla eram significativamente altos, mais do que o habitual. Meu coração acelerou um pouco, uma sensação de preocupação se formando no fundo da mente.
Sem perder tempo, puxei os extratos detalhados no aplicativo do banco e fui analisando cada transação. Conforme eu lia, minha expressão mudou de leve desconforto para uma preocupação crescente. Decidi ligar para Ayla imediatamente.
— Oi, pai! — Ayla atendeu com sua voz animada, como sempre.
— Oi, filha. Está tudo bem por aí? — Perguntei, tentando manter a voz calma.
— Tudo ótimo! E você? Conseguiu falar com a tia Rachel sobre a festa?
— Consegui, sim. Ela vai te ajudar com tudo — respondi, enquanto minha mente ainda estava nos números no meu monitor. — Mas olha, Ayla, você vai precisar gastar um pouquinho a mais para a festa? Sem problemas, só queria saber.
— Ah, talvez um pouco. Só alguns detalhes que preciso ajustar — ela respondeu, um pouco evasiva.
— Tudo bem. Só queria me certificar de que está tudo certo com você, filha. Notei que os gastos no seu cartão aumentaram bastante. Está tendo algum problema financeiro?
— Não, não... tá tudo bem, pai — ela respondeu, mas havia algo em seu tom que não me convenceu.
— Seu cartão de crédito tá com você agora? Preciso confirmar um pagamento — pedi, querendo tirar a dúvida.
Houve um silêncio do outro lado da linha, seguido de uma hesitação evidente.
— Hm... sim, só um minuto, deixa eu procurar.
Eu soube na hora que ela estava mentindo, mas não quis pressionar. Em vez disso, mantive meu tom carinhoso.
— Tá bom, Ayla. Quando você encontrar, me avisa, tá? Ah, e Seth vai te ver amanhã.
Ela comemorou ao ouvir isso, e nós encerramos a ligação. Soltei um suspiro longo, sentindo o peso da preocupação sobre os ombros. Peguei o telefone e liguei para o banco, decidido a obter mais informações sobre esses pagamentos.
Enquanto eu estava ao telefone, Olivia entrou no escritório, notando a tensão no meu rosto.
— O que houve, Jake? Algum problema?
— Acho que sim. Tô preocupado com a Ayla. Os gastos no cartão dela aumentaram e ela pareceu estar escondendo algo de mim — expliquei, ainda meio absorto nos meus pensamentos.
— Você já tentou falar com Seth? — Ela sugeriu, se aproximando. — Afinal, ela se abre com ele, talvez ele saiba de algo.
— É, eu vou falar com ele na reunião da fogueira — concordei, lembrando que a reunião estava marcada para em breve.
Olivia ergueu as sobrancelhas, inclinando-se casualmente contra a mesa ao meu lado.
— Reunião da fogueira? Tem algo mais acontecendo, além da Ayla?
— Não, nada demais — respondi, mas percebi a curiosidade nos olhos dela. — Por que a pergunta?
— Essas reuniões geralmente são para organizar os turnos na reserva. Pelo que eu sei, faz tempo que não acontece nada de anormal por lá.
— Houveram dois incidentes em Forks... mochileiros. Mas o Sam não entrou em detalhes — expliquei, tentando aliviar sua preocupação.
Ela assentiu lentamente, mas o olhar de preocupação dela não desapareceu completamente. E eu, ainda imerso nas minhas próprias preocupações, fiquei pensando no que mais poderia estar acontecendo, tanto com Ayla quanto na reserva.
A noite estava escura e tranquila quando saí de casa, o ar fresco da reserva de La Push me envolvendo enquanto eu pegava a trilha que levava ao centro da reserva, perto da casa do meu pai. As reuniões ao redor da fogueira sempre traziam uma sensação de pertencimento, um laço que nos conectava não só como membros de uma matilha, mas como uma família, guardiões de um legado que ultrapassava gerações.
Ao chegar, vi Olivia já sentada perto da fogueira, ao lado de Sue, Seth e Leah. Ela sorriu ao me ver, e eu retribuí com um aceno e uma piscada. Aquele gesto simples me fez lembrar da noite anterior, do pedido que havia feito. Não tinha sido oficial, mas ainda assim, o peso daquela decisão começou a se fazer sentir.
Caminhei até o velho Billy, que estava ao lado de sua cadeira de rodas, sua presença sempre imponente e carregada de sabedoria. Me sentei ao lado dele, observando os outros membros da matilha que estavam presentes. Paul estava com Rachel, como sempre, inseparáveis. Jared e Kim, Sam e Emily, Quill e Claire, Embry com Jully, que ele tinha recentemente tido um imprinting. Brad e Collin, os dois mais jovens da matilha, completavam o círculo.
Enquanto olhava para todos, uma estranha sensação de desajuste se apoderou de mim. Com exceção de Brad e Collin, eu era o único dos antigos membros da matilha que ainda não havia tido um imprinting. E isso me fez questionar se não havia me precipitado com Olivia. Ela era importante para mim, sempre foi, mas e se... e se o destino me reservasse algo que eu não pudesse evitar?
Pensei em Leah, que havia sofrido quando Sam teve seu imprinting com Emily. Olivia merecia mais do que ser uma segunda Clearwater, uma mulher que perderia seu noivo para uma força maior que ninguém poderia controlar. A ideia de magoá-la, de ser responsável por essa dor, me atormentava mais do que eu gostaria de admitir.
Billy começou a falar, sua voz rouca e cheia de respeito ao mencionar nossos antepassados. Ele fez uma homenagem singela ao velho Quill, que havia nos deixado há poucos meses. As palavras do meu pai eram um chamado para a unidade, para a lembrança de quem éramos e do que defendíamos. Mas, enquanto ele falava, minha mente vagava.
Eu estava dividido, lutando entre o coração de Jacob Black e o dever do Alpha Black. Como Jacob, queria encontrar paz e felicidade, talvez até com Olivia, construir uma família sólida, algo que pudesse sustentar o peso dos anos e do legado. Mas, como Alpha, sabia que o imprinting era uma possibilidade sempre presente, uma força que não poderia ser ignorada, e eu não queria arriscar ferir alguém que já significava tanto para mim.
A fogueira crepitava, e o calor que ela emanava parecia refletir o turbilhão dentro de mim. Olhei para Olivia, que ria de algo que Seth havia dito, sua expressão tão despreocupada, alheia ao que se passava na minha mente. Senti o peso da responsabilidade aumentar, não apenas como Alpha, mas como homem. Precisava tomar uma decisão que, no fim, poderia definir o caminho para nós dois.
Me perguntei se o destino já estava traçado ou se eu ainda tinha uma escolha. E essa dúvida me consumia, me afastando das palavras do meu pai e me lançando em um mar de incertezas.
A reunião terminou como sempre, com bebidas e comidas compartilhadas ao redor da fogueira. O calor das chamas iluminava os rostos dos presentes, enquanto conversas e risadas preenchiam o ar. Todos falavam sobre as expectativas para o retorno das rondas, uma tradição que nunca perdia sua importância entre nós. Mesmo com a aparente paz que reinava na reserva, a presença de vampiros em Forks era um assunto que exigia nossa atenção.
Sam e eu nos afastamos um pouco do grupo, cada um com uma garrafa de cerveja na mão. Ele estava sério, e eu sabia que o que ele tinha a dizer não seria nada agradável.
— Charlie encontrou alguns rastros — começou Sam, olhando para mim. — Houve presença de vampiros em Forks no último mês.
Minha expressão endureceu ao ouvir aquilo. — A única certeza que temos é que não são os Cullen. Bella jamais colocaria o pai em perigo.
Sam assentiu. — Eles estiveram em Forks justamente para proteger Charlie. Mas o que não sabemos é se há alguma relação com os outros vampiros que passaram por lá.
Olhei para Sam, tentando avaliar a gravidade da situação. — Isso é algo que só os Cullen podem nos dizer.
Antes que pudéssemos continuar a conversa, fomos interrompidos por Seth. Ele parecia um pouco tenso, o que não era típico dele.
— Jake, preciso falar com você sobre a Ayla — disse Seth, olhando para Sam como se pedisse um momento a sós.
Sam, compreendendo a urgência, deu um tapinha no meu ombro e se afastou. Ele sabia que, para mim, Ayla sempre seria prioridade.
— O que houve? — perguntei a Seth, já sentindo um aperto no peito.
— Liv me contou sobre sua preocupação com Ayla. — Seth começou, sua voz mais baixa, como se estivesse medindo as palavras. — Eu também percebi que ela tem agido de forma diferente nos últimos meses, desde as férias quando Rebecca e o marido a trouxeram para cá.
Meu coração acelerou. — Você desconfia de algo?
Seth hesitou antes de continuar. — Ela fica nervosa na presença do padrasto, Jake.
A fúria que subiu dentro de mim foi instantânea. Minha mandíbula se apertou, e as palavras saíram quase como um rosnado. — Marco… esse desgraçado. Tem algo mais, Seth. Eu vi alguns pagamentos estranhos nos cartões de Ayla, e esses valores... foram compras feitas por um homem adulto.
Seth franziu a testa, compreendendo a gravidade do que eu estava dizendo. — Vou conversar com ela, Jake. Precisamos ter certeza.
— Vou cancelar os cartões — respondi, minha voz firme. — Mas se eu descobrir que foi Marco, não respondo por mim.
Seth assentiu, solidário com a minha raiva, mas antes que pudéssemos continuar, Olivia se aproximou, sorrindo enquanto selava os lábios nos meus.
— Quando os lobos da matilha vão liberar o Alpha para mim? — perguntou ela, com uma pitada de provocação.
Seth riu, quebrando um pouco da tensão. — Fiquei sabendo que em breve teremos um casamento.
Leah, que estava perto o suficiente para ouvir, parou de repente, sua expressão de choque evidente.
— Espere, foi isso mesmo que eu ouvi? — Leah perguntou, sua voz carregada de surpresa. — Jake e Olivia vão se casar?
A pergunta dela pairou no ar, e eu senti todos os olhares se voltarem para mim. O assunto que até então era só entre mim e Olivia, agora se tornava público, e a responsabilidade do que isso significava pesava sobre meus ombros.
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