Nevoeiro
32 Jacob - Crise Familiar
As últimas semanas tinham sido um verdadeiro turbilhão. Ayla decidiu ficar na reserva, e eu não poderia estar mais de acordo. Seattle estava carregada de memórias dolorosas para ela, e era evidente que precisava de um tempo longe de tudo aquilo. Rebecca, apesar de relutante no início, concordou que a mudança temporária seria o melhor para nossa filha. A cada viagem que eu fazia para a cidade, levava Ayla comigo para que ela continuasse suas sessões com a psicóloga, algo que, aos poucos, estava ajudando-a a lidar com a tragédia que havia enfrentado.
Contudo, a convivência com Olivia era outro assunto. Não era fácil. Ayla a tratava com uma indiferença cortante sempre que podia, e quando eu estava presente, fazia um esforço notável para ser minimamente educada, provavelmente consciente de que eu não apoiaria qualquer grosseria.
Cheguei em casa pela manhã, após uma noite de rondas com a matilha. Havia um vampiro desconhecido rondando por perto, e isso nos deixava em alerta. Mas, por enquanto, tudo parecia calmo. Quando entrei em casa, senti o cheiro do café da manhã. Olivia estava de costas, ocupada com o preparo, e a visão dela ali, em minha casa, trouxe uma sensação de conforto. Caminhei até ela em silêncio, abraçando-a por trás e beijando-a na nuca.
Olivia sorriu, um sorriso tímido, e se virou para me encarar.
— Como foi a noite? — Perguntou, os olhos dela buscando os meus.
Mas algo estava diferente. O rosto dela estava inchado, os olhos levemente avermelhados. Não foi difícil deduzir que algo havia acontecido. Tentei manter a calma enquanto respondia.
— Normal. — Mentira. Nada sobre a nossa vida era "normal" ultimamente. — Mas por que você estava chorando?
Olivia desviou o olhar, tentando se afastar, mas a segurei gentilmente pelos ombros, forçando-a a me encarar.
— Não foi nada. — Ela insistiu, mas sua voz traía a verdade.
— Olivia, me diga. — Pedi, tentando manter a calma.
Ela respirou fundo, como se estivesse reunindo coragem, e então disse:
— Acho que é melhor eu voltar para a casa de Sue... Está insuportável conviver com Ayla. E nesse momento ela precisa muito mais de você do que eu.
A raiva cresceu dentro de mim, não contra Olivia, mas contra a situação. Eu amava minha filha, mas ela não era mais uma criança. Estava prestes a completar 15 anos, e já passava da hora de começar a agir como uma adulta. Respirei fundo antes de responder.
— Não, Olivia. — Disse com firmeza. — Já passou da hora de Ayla aceitar a nossa relação. Assim como ela precisa de mim, você também precisa. E agora, mais do que nunca. Está esperando um filho meu, e por isso, não vai a lugar algum.
Antes que Olivia pudesse responder, uma voz cortou o ar, nos paralisando.
— O quê?
Me afastei de Olivia e me virei para ver Ayla parada na entrada da cozinha, os olhos arregalados, fixos em mim.
Ela deu alguns passos em nossa direção, o olhar dela passando de mim para Olivia, em choque.
— Eu ouvi direito? — Ayla perguntou, a voz tingida de incredulidade. — Olivia está grávida?
Aborrecido e cansado dessa situação, decidi que já era hora de ser direto.
— Sim, você ouviu direito, Ayla. — Disse com firmeza. — Você terá um irmão ou uma irmã. E Olivia vai continuar morando com a gente, quer você goste ou não. É bom que você comece a tratá-la melhor.
Ayla piscou, claramente atordoada com a informação, e eu só pude esperar e ver como ela reagiria. Era um momento delicado, mas eu sabia que fugir não era mais uma opção.
Ayla marchou em direção à sala, os passos rápidos e determinados. Eu e Olivia seguimos atrás dela, minha mente ainda rodando com as palavras que minha filha acabara de dizer. Quando chegamos à sala, Ayla se virou para nós, os olhos faiscando de raiva e dor.
— Eu não aceito isso, pai! — Ela gritou, o rosto vermelho de frustração.
— Você não tem que aceitar, Ayla! — Rebati, tentando controlar a raiva que subia dentro de mim. — Mas você precisa me respeitar e respeitar a Olivia.
Olivia, tentando apaziguar a situação, se aproximou de Ayla com um tom calmo e paciente.
— Ayla, por favor... — Ela começou, a voz suave. — Eu realmente quero saber o que eu fiz para você. Por que você não gosta de mim? O que eu fiz para você sentir tanto ódio?
Ayla deu um passo para trás, cruzando os braços sobre o peito, como se quisesse se proteger.
— Eu vou voltar para a casa da mamãe. — Ela anunciou, a voz firme, mas seus olhos traiam o medo e a incerteza.
Isso foi o suficiente para me fazer perder a paciência.
— Você não vai a lugar nenhum, Ayla! — Respondi, minha voz saindo mais dura do que eu pretendia. — Você precisa explicar essa situação. Eu quero que você fique bem com a Olivia, porque ela está esperando um irmão ou irmã seu.
Ayla parecia irredutível, as lágrimas brilhando em seus olhos, mas ainda assim, ela mantinha a postura firme.
— Eu não vou ficar bem com isso, pai. Eu simplesmente não posso.
Olivia respirou fundo e deu outro passo em direção a Ayla.
— Ayla, por que você não quer que eu fique com seu pai? — Ela perguntou novamente, a voz cheia de um desespero contido. — O que está realmente te incomodando?
Eu cruzei os braços, tentando segurar minha impaciência, e reforcei a pergunta.
— Sim, Ayla. Responda. Por que você está agindo assim? O que realmente está acontecendo?
Ayla olhou para mim, depois para Olivia, e parecia estar em um beco sem saída. Ela hesitou, a expressão em seu rosto mudando rapidamente de raiva para algo mais profundo, mais doloroso. Finalmente, depois de um momento que pareceu durar uma eternidade, ela sussurrou:
— Eu... Eu não posso vê-la com você, pai. Porque eu não consigo esquecer o que vi. Não consigo esquecer que ela estava com o tio Alex...
Ayla parou de falar, a voz quebrando, e de repente a sala ficou em silêncio, o peso da revelação pairando sobre todos nós.
— Ayla, eu... — Olivia tentou dizer algo, mas sua voz falhou, e ela olhou para mim com olhos cheios de lágrimas.
Eu estava dividido entre a raiva, a confusão e o desespero de querer entender tudo o que estava acontecendo.
Fiquei parado no meio da sala, tentando processar o que Ayla acabara de dizer. Olivia e Alex? Meu irmão? Era difícil acreditar, mas o silêncio de Olivia e o olhar desesperado em seu rosto tornaram tudo dolorosamente real.
Fixei meus olhos em Ayla, sentindo-me completamente perdido.
— Isso é uma brincadeira, Ayla? — Perguntei, a voz mais grave do que eu pretendia.
Ayla balançou a cabeça, olhando para Olivia como se estivesse esperando que ela negasse.
— Não é, pai. — Ela respondeu, firme, mas com um tom de tristeza.
Voltei meu olhar para Olivia, esperando alguma explicação, qualquer coisa que pudesse fazer isso fazer sentido. Ela, no entanto, permaneceu em silêncio, os olhos abaixados, incapaz de me encarar.
— O que significa isso, Olivia? — Minha voz saiu mais alta do que eu pretendia, o nervosismo me dominando.
— Vou voltar para a casa de Sue. — Ela murmurou, já se afastando em direção à porta.
— Não. — Falei, tentando manter o controle. — Você precisa responder.
Ayla, vendo a tensão crescer, nos interrompeu.
— Eu os vi juntos na casa do vovô Billy, no seu aniversário, há alguns meses. Eles estavam...ela fechou os olhos com uma semblante de nojo...transando na mesa na cozinha. Mas eles não me viram.
Minha mente rodava, tentando juntar as peças. Aquela revelação me atingiu como um soco no estômago. Olhei novamente para Olivia, e a dor em seus olhos me confirmou o que eu mais temia.
— Ayla, vá para o quarto. — Pedi, com a voz controlada, tentando manter um mínimo de calma.
Ayla assentiu e saiu, deixando-nos sozinhos. Esperei até que ela estivesse fora de vista antes de voltar a encarar Olivia.
— O que a Ayla disse... é verdade? — Perguntei, quase sem fôlego.
— Sim. — Ela respondeu, mal conseguindo falar.
Senti um aperto no peito e me afastei dela, tentando controlar a raiva e a dor que surgiam em ondas.
— Por que você não me contou, Olivia? — Perguntei, minha voz quebrando um pouco.
— Eu... Eu estava com medo, Jake. Eu conheci Alex antes de vir para a reserva. Em Nova York. Quando nos reencontramos aqui, ele me surpreendeu. E... foi naquela semana que nós brigamos. Eu estava chateada com você. — Ela tentou se explicar, a voz dela soando fraca.
Eu não conseguia acreditar no que estava ouvindo. A mulher que eu amava tinha traído minha confiança com meu próprio irmão.
— E você não achou que deveria me contar? — Perguntei, tentando entender.
— Eu senti medo, Jake. Eu... eu te amo. — Ela disse, tentando se aproximar de mim, mas eu recuei, sentindo que precisava de espaço.
— Eu preciso ficar sozinho. — Disse, a voz firme, embora por dentro eu estivesse desmoronando.
Sem olhar para ela, subi as escadas em direção ao meu quarto. Fechei a porta, tirei a calça de moletom e entrei debaixo do chuveiro, deixando a água quente escorrer pelo meu corpo. Enquanto a água caía, tentei processar tudo o que havia acontecido. As palavras de Ayla ecoavam na minha mente, a confissão de Olivia... Como eu deixei chegar a esse ponto?
A sensação de traição era sufocante. A dor de saber que Olivia havia estado com Alex, alguém que deveria ser meu irmão, era insuportável. A água não era capaz de lavar essa dor, mas eu precisava de um momento, só um momento, para entender como seguir em frente.
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