Nevoeiro

23 (Especial Eliot - Noticiário)


Notas iniciais
Olá amores. Esses capítulos especiais são para entenderem melhor os sentimentos de Eliot.

Nos primeiros três dias, eu desapareci. Não queria ver ninguém, nem minha própria família. A ideia de enfrentar qualquer um deles, de ouvir suas palavras de consolo ou censura, era insuportável. Então, me afastei de tudo e de todos, refugiando-me no anonimato que apenas uma cidade como Nova York poderia oferecer.

Eu estava sentado em uma mesa de canto em um bar chamado "The Blind Monk," um lugar obscuro e pouco iluminado em Manhattan, conhecido por atrair um público que preferia o silêncio à conversa. As paredes de tijolos expostos, a luz baixa e o som sutil de jazz criavam uma atmosfera que se encaixava perfeitamente com meu estado de espírito.

O garçom, um homem de meia-idade com um olhar cansado, se aproximou pela terceira vez, esperando meu pedido.

— Apenas mais um copo de bourbon — murmurei, empurrando o copo vazio em sua direção.

Ele assentiu sem dizer uma palavra, enchendo o copo antes de se afastar. Eu o segurei entre os dedos, observando o líquido âmbar se mover suavemente. Tentei me perder na bebida, no ambiente ao meu redor, mas nada parecia sufocar os pensamentos que me assombravam.

As imagens de Annastasia, Riley, e Nessie dançavam na minha mente, um tormento constante. A raiva que sentia ainda era palpável, mas estava misturada agora com uma sensação esmagadora de vazio. Mesmo o desejo de vingança que eu havia cultivado tão intensamente começava a parecer... sem propósito.

Manhattan estava viva com sua agitação habitual, mas aqui dentro, no meu pequeno canto do bar, o tempo parecia suspenso. Eu podia ouvir o som dos carros passando na rua, o murmúrio de conversas distantes, mas tudo parecia abafado, como se eu estivesse observando de dentro de uma bolha.

Olhei ao redor, tentando encontrar algo que pudesse me distrair, mas tudo o que vi foram estranhos vivendo suas vidas, sem ideia de quem eu era ou do que eu estava passando. E de certa forma, isso me deu uma pequena dose de alívio. Aqui, eu era apenas mais um rosto na multidão, sem passado, sem futuro. Apenas o presente, com sua dor constante.

Mas mesmo naquela escuridão, sabia que não podia fugir para sempre. Eventualmente, teria que voltar, encarar tudo o que havia deixado para trás e decidir o que fazer com o ódio e a dor que ainda queimavam em mim. Mas, por enquanto, me permiti mais um momento de fuga, levando o copo de bourbon aos lábios e bebendo lentamente, tentando adiar o inevitável por apenas mais alguns minutos.

No segundo dia, minha raiva ainda não havia diminuído. O bourbon não foi suficiente para apagar as memórias, então decidi buscar alívio na única coisa que sempre acalmava minha mente: a caçada. Saí de Manhattan logo ao amanhecer e segui para as montanhas Adirondacks, onde a natureza selvagem oferecia um refúgio perfeito para alguém que queria desaparecer.

O ar era fresco e cortante, a floresta densa e cheia de vida. O som dos meus passos sobre as folhas caídas era abafado pela vastidão das árvores, e a adrenalina começou a pulsar em minhas veias. Encontrei rastros de um cervo, seguindo-os silenciosamente, deixando que meu instinto predador tomasse conta. A fome estava lá, mas não era o meu verdadeiro desejo. Era a necessidade de controle, de sentir algo palpável enquanto tudo o mais parecia desmoronar.

Enquanto avançava pela floresta, meu celular vibrou no bolso. Eu sabia quem era antes mesmo de verificar. Renesmee. Mais uma mensagem. Mais uma tentativa dela de me alcançar, de entender por que eu havia sumido. Mas naquele momento, eu não estava disposto a enfrentá-la. Precisava de mais tempo, mais espaço. Sem olhar para a tela, ignorei a mensagem e guardei o celular de volta no bolso.

Continuei minha perseguição, meus sentidos aguçados concentrados no rastro. Finalmente, avistei o cervo, um belo exemplar, de pelagem castanha e olhos escuros. Ele estava em uma clareira, pastando tranquilamente, alheio à minha presença. Avancei com cautela, mantendo-me na sombra das árvores, até estar perto o suficiente para atacar. Saltei sobre ele com precisão, terminando a caça rapidamente. O calor do sangue fresco em minhas mãos trouxe um breve alívio à minha tensão, mas a paz que eu esperava não veio.

No terceiro dia, acordei com uma sensação de cansaço que ia além do físico. As palavras de Anna, a traição de Riley, e a confusão em torno de Renesmee continuavam a me atormentar. Decidi que precisava de algo mais do que uma caçada ou bebida para colocar minha mente em ordem. Precisava de alguém que sempre me dera conselhos sábios, alguém que me entendesse sem julgamentos: meu avô Charlie, em Forks.

Dirigi por horas, cruzando estados até chegar à pequena cidade que sempre me trouxe uma sensação de tranquilidade. A floresta ao redor de Forks era familiar, acolhedora. Quando estacionei o carro, senti um pequeno alívio ao ver a casa modesta de Charlie, cercada por árvores altas e o silêncio típico da região.

Eu o encontrei no bosque atrás da casa, cortando lenha como fazia todas as manhãs. Observá-lo, com seus movimentos firmes e constantes, me trouxe uma sensação de nostalgia. Era como se, por um momento, as complicações da minha vida fossem algo distante, quase irreais.

— Sabe, dizem que cortar lenha aquece duas vezes — falei, enquanto me aproximava.

Charlie parou, ergueu o olhar, e um sorriso caloroso se espalhou em seu rosto ao me reconhecer. Ele largou o machado e caminhou até mim.

— Eliot, garoto! — exclamou, enquanto me puxava para um abraço forte. — Faz tempo que não vejo você por aqui.

Senti o calor do abraço de Charlie e, por um momento, pude soltar a respiração que nem percebi estar segurando. Nos afastamos, e ele me olhou com aquele olhar de quem sabia que algo estava errado, mas esperava que eu fosse o primeiro a falar.

— Parecia que estava precisando de um lugar para pensar — disse ele, voltando a pegar o machado.

— É, acho que sim. — Respondi, olhando para as toras de madeira empilhadas ao lado. — Às vezes, a vida nos joga umas curvas difíceis de desviar.

— Você pode me dizer o que está acontecendo, ou podemos ficar em silêncio e cortar lenha juntos. — Ele deu um golpe firme em outra tora, partindo-a ao meio com facilidade.

Eu sorri, um sorriso verdadeiro que há muito tempo não surgia em meu rosto. — Talvez um pouco dos dois.

Enquanto cortávamos lenha, o som rítmico do machado partindo a madeira enchia o ar, proporcionando uma trilha sonora quase meditativa para nossos pensamentos. A força que eu colocava em cada golpe parecia aliviar parte da tensão que carregava. Charlie, por outro lado, trabalhava com a calma de quem já havia vivido e superado muitos desafios.

Depois de um tempo, enquanto limpava o suor da testa, decidi tocar no assunto que me trouxe ali.

— Vovô, como você se sentiu ao se separar de Renée? — perguntei, tentando soar casual, mas sabendo que a pergunta carregava um peso maior.

Charlie parou por um momento, encostando o machado no chão e passando a mão no queixo. Seus olhos ficaram distantes, como se estivesse voltando no tempo, revisitando memórias que ele raramente compartilhava.

— Foi difícil, Eliot — começou ele, sua voz carregada de sinceridade. — Renée e eu éramos jovens, apaixonados, mas éramos diferentes. Ela tinha sonhos que não cabiam em uma cidade pequena como Forks, e eu... bem, eu sou daqui. No início, a distância parecia algo que poderíamos superar, mas aos poucos, percebemos que estávamos nos afastando mais e mais. Quando finalmente nos separamos, senti como se uma parte de mim tivesse sido arrancada, mas sabia que era o certo. Às vezes, o amor não é suficiente para manter duas pessoas juntas, especialmente quando seus caminhos estão destinados a ser diferentes.

Eu absorvi as palavras dele, sentindo uma estranha conexão com a situação que ele descrevia.

— E o nome da garota que partiu seu coração? — Charlie perguntou, cortando meus pensamentos.

Respirei fundo antes de responder. — Annastasia.

Charlie assentiu, como se já soubesse. — Haverá muitas Annas na sua vida, garoto. E todas elas vão deixar uma marca. Mas um dia, você vai encontrar alguém que vai ser diferente. Vai perceber que tudo o que veio antes era necessário para preparar você para esse amor verdadeiro. A vida nem sempre é como a do Edward e da Bella, cheia de certezas desde o início. Às vezes, é mais complicada, cheia de reviravoltas e decepções. Mas isso não significa que não vá valer a pena no final.

Suas palavras, tão simples e diretas, me atingiram de uma forma que eu não esperava. Ele estava certo. Talvez eu estivesse cometendo um erro, deixando que minha dor e minha raiva me cegassem para o que realmente importava. Renesmee não merecia ser o alvo da minha vingança. Ela era inocente em tudo isso, e eu não tinha o direito de descontar meus sentimentos nela.

Passamos o resto do dia juntos, conversando sobre a vida e compartilhando histórias. Charlie, com sua sabedoria calma, conseguiu me dar uma perspectiva que eu não conseguia ver sozinho. Ele me lembrou que a dor, por mais intensa que seja, eventualmente passa, e que o verdadeiro desafio é não deixar que ela defina quem você é.

Quando o sol começou a se pôr, despedi-me de Charlie com um abraço apertado. Agradeci silenciosamente por sua presença e seus conselhos, sabendo que aquele dia havia mudado algo dentro de mim. Enquanto dirigia de volta para Seattle, as sombras do crepúsculo se alongando na estrada à minha frente, senti uma nova determinação se formar.

Eu precisava acertar as coisas com Renesmee. Não era justo com ela, nem comigo, continuar alimentando essa raiva, ela merecia alguém melhor do que eu, alguém que não trouxesse dor e riscos a sua vida.

Na manhã seguinte, as notas suaves do piano preenchiam a sala com uma melodia melancólica enquanto meus dedos se moviam automaticamente pelas teclas. A música era meu refúgio, o único lugar onde eu podia organizar meus pensamentos caóticos. Mas, mesmo assim, a paz era efêmera. Eu sentia Renesmee se aproximando da casa, seus pensamentos insistentes invadindo os meus, implorando por uma resposta que eu havia decidido não dar.

Carlisle estava na sala com Esme, e eu ouvi sua voz tentando afastá-la.

— Ele não está — disse Carlisle, sua voz calma e controlada. Mas eu não ia deixar que ele me escondesse.

Levantei-me do piano e caminhei em direção à sala, ignorando o olhar preocupado do meu pai, que me interceptou no corredor. Ele sabia o que eu estava prestes a fazer, e mesmo assim, não podia me impedir.

— Não faça mal a Renesmee — ele pediu, sua voz carregada de uma preocupação que eu sabia ser genuína.

— Vou apenas acabar com isso — respondi, mantendo minha voz fria. Edward assentiu, embora relutante, e me deixou passar.

— Eu estou aqui — interrompi, minha voz firme cortando o silêncio que se seguiu às palavras de Carlisle. Os olhos de todos se voltaram para mim, mas eu estava focado apenas em Renesmee.

— Preciso conversar com Renesmee a sós — declarei, sem espaço para discussão.

Bella e Edward apareceram logo em seguida, trocando olhares preocupados. Eu sabia o que eles estavam pensando, mas ignorei. Carlisle e Esme assentiram, e comecei a descer as escadas, cada passo calculado. Parei ao lado de Renesmee, que parecia aliviada ao me ver. Mas ela não tinha ideia do que estava prestes a acontecer.

— Me siga — pedi, mantendo minha voz neutra, mas firme. Senti o peso do meu olhar sobre ela, notando a confusão e a preocupação em seus olhos. Quando ela hesitou, lancei-lhe um olhar que não deixava espaço para dúvidas, e ela imediatamente me seguiu, saindo da casa comigo.

Assim que estávamos fora, o frio da manhã se misturando ao ar tenso entre nós, eu me virei para ela, minha expressão impassível.

— O que você está fazendo aqui? — perguntei, minha voz carregada de uma frieza que me senti obrigado a usar.

— Eu deveria fazer essa pergunta — ela respondeu, tentando esconder a insegurança em sua voz. — Passamos a noite juntos e depois você desapareceu.

Ri de forma irônica, embora por dentro, sentisse algo se quebrando.

— Pensei que você fosse mais esperta — disse, a ironia pingando em cada palavra.

— Como assim, mais esperta? — Ela perguntou, o medo e a dor começando a transparecer.

Eu me aproximei, deixando que a distância entre nós quase desaparecesse, encarando-a com uma dureza que me custava manter.

— Se eu sumi e não respondi suas ligações, é porque não desejo vê-la ou falar com você.

Vi o choque em seus olhos, seguidos pelas lágrimas que começaram a se formar. Ela estava magoada, e eu sabia que tinha conseguido o que queria. Mas ao mesmo tempo, o peso dessa decisão começou a cair sobre mim.

— Você está brincando comigo? — Ela perguntou, a voz trêmula, cheia de dor.

Ri novamente, embora por dentro a culpa já estivesse crescendo.

— Você pensou que só porque passamos a noite juntos eu ficaria preso a você?

O silêncio que se seguiu foi sufocante. Vi dentro de sua mente como ela se desmoronava, como suas defesas se quebravam diante de mim. Ela parecia tão pequena, tão vulnerável, e por um breve momento, quase cedi. Mas não podia. Não depois de tudo que tinha acontecido.

— Pare de me procurar — finalizei, a ordem saindo mais fria do que eu pretendia. Sem olhar para trás, virei-me e comecei a caminhar, sentindo o peso do que acabara de fazer me esmagar a cada passo que eu dava para longe dela.

......

Na manhã seguinte eu acordei com o som do volume da TV, os pensamentos de Rosalie e Alice me atormentaram e em questão de segundos eu estava na sala ao lado delas.

"Interrompemos nossa programação para trazer uma notícia urgente. Uma tragédia abalou a Universidade de Seattle nas primeiras horas da manhã. Um atentado violento deixou vários estudantes gravemente feridos e outros em estado crítico. As autoridades ainda estão tentando identificar os responsáveis por esse ato cruel e desumano."

A imagem na tela muda para uma visão aérea da universidade, com ambulâncias e carros de polícia em todo o campus. O repórter continua:

"Segundo testemunhas, os tiros começaram por volta das 8 horas da manhã, causando pânico entre os alunos que estavam indo para as aulas. Equipes de resgate e forças policiais foram imediatamente deslocadas para o local, mas infelizmente, várias vidas foram perdidas. Entre as vítimas, estão muitos jovens que tinham um futuro promissor pela frente."

A imagem muda para uma sequência de fotos de estudantes feridos e levados às pressas para o hospital. O repórter, com um tom grave, prossegue:

"Estamos recebendo agora as primeiras imagens das vítimas. As autoridades locais pedem que as famílias dos estudantes entrem em contato com a linha direta de emergência para obter informações sobre seus entes queridos."

E então, uma foto aparece na tela, congelando o sangue de Eliot. Era Renesmee. A imagem mostrava-a sendo carregada em uma maca, seu rosto pálido e manchado de sangue, os olhos fechados, e um curativo cobrindo parte de seu abdômen.

O repórter continua, sem saber que cada palavra era uma lâmina perfurando o coração de Eliot:

"Entre as vítimas confirmadas está Renesmee Biers, estudante de biologia. A jovem foi uma das muitas que ficaram gravemente feridas no ataque. Ela foi levada para o Hospital Central de Seattle, onde se encontra em estado crítico. Nossas orações estão com as famílias e amigos dos estudantes afetados por essa tragédia."

—--

Ao ver a imagem de Renesmee na TV, meu corpo congelou. Tudo ao meu redor desapareceu, como se o tempo tivesse parado. A melodia triste do piano que eu havia tocado na noite anterior parecia agora ecoar na minha mente, cada nota reverberando como uma sentença. Eu havia dito que seu sofrimento passaria, mas nunca imaginei que esse tipo de dor a alcançaria.

Alice e Rosalie estavam imóveis, seus olhares fixos na tela, cheios de desespero. E então, de repente, eu soube. Soube que não era apenas ela quem estava sofrendo. Era eu também.

Minhas palavras cruéis, minha frieza, tudo se desfez diante da realidade brutal do que havia acontecido. Eu sabia que precisava fazer algo, precisava estar lá por ela, mas a culpa me pesava como uma âncora.

Mas naquele momento, a única coisa que eu podia sentir era o medo esmagador de perdê-la.

Notas finais
Próximo capítulo, o lobão vai chegar.