Never Gonna Be Alone
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Diário de bordo: Sol 24
por Watney
*aceno*
O grampo soltou.
Diário de bordo: Sol 25
por Watney
Esse trabalho é de matar.
O primeiro dia foi o pior. Em seis horas de atividades extra-veiculares, as AEVs, Jessica e eu conseguimos cobrir um cantinho da base do Hab, mais ou menos 5m². Ela descansou por um tempo e depois voltou com mais ideias. O raciocínio dela parecia estar funcionando a pleno vigor e foi um pouco mais produtivo. No fim do dia, tínhamos coberto, de acordo com ela, 23,7m². Ainda tem bastante trabalho pela frente. Precisamos de um determinado número de calorias pra sobreviver aos próximos quatro anos e, pra atingir esse número, vamos ter que cobrir o chão do Hab todo. Jessica não ficou exatamente feliz quando eu expliquei, mas entendeu. Ela tem aceito muitas condições estranhas sem reclamar, tenho que dar um pouco de crédito. Mas, bem... Sobrevivência, não é?
Vinte e três vírgula sete metros quadrados...
Às vezes, me pergunto se esses valores tão precisos são verdadeiros ou se ela só fala valores aleatórios pra parecer mais inteligente. Conheço a Jess, ela vive mais da imagem do que aparenta.
Agora que falei dela, acho importante mencionar que vivemos um momento estranho e embaraçoso ontem. Lembra de como o grampo que estava segurando o meu corte soltou enquanto eu trabalhava? Então. Chamei a Jessica pra me ajudar, peguei a anestesia local e o grampeador, mas, ela ficou sutilmente indignada e me disse que o grampeador é pra preguiçosos: pessoas cuidadosas que prezam pela saúde fazem suturas. Acontece que, pra grampear, eu só precisava levantar a camisa e resolvido. Mas a sutura é um pouco mais precisa e exige mais tempo e paciência. Aí vem a parte que realmente estava me deixando sem graça: pra suturar, eu ia ter que tirar a camisa.
Concordo. É um pensamento muito idiota.
Me senti como um garoto de doze anos que fica sem graça pra tirar a camisa na frente dos amigos porque o tanquinho está crescendo e fica com medo de ser zoado.
Sei lá, a ideia de ela encostar na minha barriga me deixou estranhamente tenso. Não é que eu não quisesse que ela encostasse, talvez eu quisesse mais do que gostaria de admitir.
Momento estranho número dois: ela começou a suturar mas parecia incomodada com alguma coisa. E não era por estar encostando em mim sem camisa, pode crer. Ela ficou tentando se ajeitar, posições diferentes e tal, mas não estava satisfeita. Foi aí que ela simplesmente virou pra mim e perguntou como se fosse a coisa mais natural do mundo:
— Mark, eu posso sentar no seu colo pra te suturar direito?
Tá aí uma pergunta que não se ouve todo dia.
Como já deve ter imaginado, eu fiquei mais tenso ainda, mas deixei. Ela sentou e começou a suturar, o que acabou me revelando uma coisa estranha: ela sutura muito bem. A mão dela é delicada e precisa, foi louco. Por acaso cheguei a mencionar que descobri que ela desenha? E muito bem, por sinal. Também foi louco, porque eu não tinha a menor ideia de que ela se interessava por isso; achava que sabia tudo sobre ela, e agora descobrir que ela tem não um, mas dois talentos ocultos é estranho. Entende? Porque Jessica é a minha melhor amiga, por mais que eu não goste de admitir. O que mais eu posso não saber sobre ela? Será que ela abandonou a religião? Não, muito improvável. Ela é muito apegada a Deus.
Acho que me desviei completamente do que estava falando. Onde eu estava? Ah, sim. Descobri que ela sutura muito bem. Ela ficou calma o tempo todo, enquanto eu estava tenso. Acho que esqueci de mencionar que ela estava com o cabelo preso com um rabo de cavalo bem malfeito com um monte de fios soltos o que eu acho extremamente sexy. Além de estar usando o traje espacial com a parte de cima do tronco arrancada, o que fazia com que ela parecesse uma mecânica que trabalhou o dia inteiro e ainda sabe suturar e, confie em mim, não tem nada mais sexy nesse mundo pra um engenheiro mecânico que uma mulher bonita que põe as mãos na massa.
Ela ficou o tempo todo super concentrada com uma sobrancelha erguida e fazia piadas pra quebrar o clima, apesar de não estar nem um pouco desconfortável. Mas ela me conhece, sabe bem reconhecer os meus sinais de tensão. Acho que a melhor parte foi que ficou séria, enquanto fazia as piadas o tempo todo. Vez ou outra, um sorrisinho de canto, tudo extremamente sedutor.
Faz muito tempo que não vejo uma mulher, você deve ter reparado. Apenas uma observação.
Quando terminou de suturar, me mandou ficar descansando o resto do dia e fez o trabalho sozinha, o que acabou rendendo um pouco mais da metade do que nós dois faríamos juntos, porque se esforçou mais um pouco. Hoje, pela necessidade, eu voltei à ativa, e terminamos a cozinha rapidamente. O progresso está ótimo. Vamos levar menos tempo do que eu pensei pra terminar, se continuar dessa forma.
Estou todo dolorido. As pás que temos são feitas para colher amostras, e não para escavações pesadas. Minhas costas estão me matando. Vasculhei os suprimentos médicos e encontrei um pouco de analgésico. Tomei há uns dez minutos, portanto, deve começar a fazer efeito logo.
De todo modo, é bom ver progresso. Está na hora de fazer as bactérias trabalharem com esses minerais. Mas só amanhã, porque quero jantar agora, ou seja, não é uma boa hora pra mexer com cocô. Nada de três quartos da ração hoje. Mereço uma refeição completa.
Diário de bordo: Sol 27
por Watney
Hoje outra notícia ruim me atingiu como uma bala.
Estava trabalhando na duplicação do solo da parte que já estava coberta, o que acabava envolvendo cocô. Cocô nojento de outras pessoas. Então, você deve imaginar que eu já não estava lá com o melhor dos humores.
Foi aí que a Princesa das Más Notícias que estava cobrindo mais chão do Hab com terra virou e, motivada pela simples curiosidade que todos os malditos astrofísicos insistem em ter, arruinou o meu dia com algumas palavras:
— Mark, de quanta água os metros cúbicos de terra precisam pra gente conseguir plantar?
Eu meio que demorei um tempo pra responder porque, quando ela perguntou, fiquei raciocinando sobre como a água não seria o suficiente para nós dois e a plantação. Ela ficou me olhando o tempo inteiro, me pressionando! Não conseguia pensar daquele jeito.
*respira fundo*
Estou sendo rude com ela. Jessica tem passado por um bocado aqui, faz tudo o que eu digo e não reclamou nenhuma vez de ter que andar em um chão coberto de terra por cima de cocô. Tem sido ótima. É até estranho ver como consegue ser tão ela em meio a tudo isso.
O Hab tem um excelente reaproveitador de água. A melhor tecnologia disponível na Terra. Então, a NASA pensou: “Por que mandar um monte de água pra lá? Basta mandar o suficiente pra uma emergência.” Os seres humanos precisam de 3 litros de água por dia para ficarem confortáveis. Eles enviaram 50 litros pra cada um, totalizando 300 litros no Hab. Nem se dedicássemos toda a água à causa seria suficiente. Como Calculadora Humana, Jessica se ofereceu pra pensar em uma forma de arrumar mais água. É o lance dela, o que ela sabe fazer.
Mudando de assunto, revirei as coisas da Comandante Lewis e achei o pen drive pessoal dela. Todo mundo podia trazer o entretenimento digital que quisesse e eu estava cansado de ouvir os álbuns dos Beatles da Johanssen e não me atreveria a mexer no pen drive da Jessica. Estava na hora de ver o que Lewis tinha.
Programas de TV ruins. Temporadas inteiras de seriados do tempo da onça.
Bem, a cavalo dado não se olham os dentes.
O quê? Que raio de expressão é essa? Você nasceu o quê, em 1910?
Vai cuidar da sua vida! Posso ter cinco minutos de privacidade com a câmera?
Não tem privacidade aqui. Supera.
Então, pelo menos, não me interrompe! Me deixa terminar a maldita frase!
*bramido ao fundo*
Bem, agora eu vou, totalmente fora do clima, assistir a Um é pouco, dois é bom, três é demais.
...
— Odeio o Biff. Ele é um bosta. – disse Carter, sem desgrudar os olhos da tela.
Watney também não parou de olhar. Não importava quantas vezes assistissem De Volta pro Futuro 2, todas as vezes seriam tão emocionantes quanto a primeira.
— É o vilão. – observou Watney. – É natural que seja um bosta.
Carter encontrava-se sentada em seu colo sobre a cadeira giratória, onde tinha se sentado há pouco mais de dois minutos, quando vira que Biff estava fugindo com o Almanaque de Esportes. Marty e o Dr. Brown tentavam desesperadamente recuperar o almanaque e Carter nunca resistia àquela cena, portanto, sentou-se no colo de Watney com a intenção de não assistir muito mais que a perseguição, mas De Volta pro Futuro 2 sempre a envolvia. Ele tentou agir naturalmente da forma que ela agia, não era nada que já não tivessem feito um milhão de vezes antes. Mas, não! Tinha que ser um garoto de 12 anos tendo sua primeira ereção. Tinha que ser.
Pegou outra garfada de sua comida que exalava fumaça. Estava pronto pra colocá-la na boca mas algo o interrompeu.
ATCHOO!
Que merda!
Carter havia espirrado. A reação de seu corpo foi levantar as pernas violentamente, de forma que, quando elas voltaram para o chão, ela acabou empurrando a cadeira giratória para trás o que, no susto, fez com que Watney arremessasse a garfada. Para finalizar com chave de ouro, a comida quente foi parar nas costas de Carter.
— Ai! — ela disse, entredentes, levantando-se em um impulso. – Cacete, cacete, cacete!
Em menos de um segundo, Carter livrou-se da fina camiseta que estava usando.
Virou-se de frente para ele novamente, ofegante.
— Por que você gosta de comida tão excessivamente quente, Mark?
Watney não respondeu. Estava meio... hipnotizado. Meio não, estava mesmo. Não conseguia tirar os olhos.
Mas não era sua culpa! Eram tão redondinhos. Cheinhos. Estufados. Mesmo cobertos pelo sutiã ortopédicos da NASA, eram... lindos!
E então percebeu que já estava encarando a algum tempo. Girou na cadeira, ficando de costas para Carter.
A capitã franziu o cenho.
— Tá... tudo bem, Mark? Tem alguma coisa errada?
— O quê? Errado? Não, não tem nada de errado! Tá tudo bem, não poderia estar melhor! Exceto que eu perdi uma garfada cheia de ketchup, tá tudo bem, nunca esteve melhor! – ele rebateu, falando mais rápido do que planejava.
Carter, em sua inocência, não entendia nada.
Ah!
Sim, entendia, sim.
Carter gargalhou ao perceber.
— Ah, é sério? Por favor. Esse é o seu primeiro par de peitinhos? – perguntou, sussurrando a última palavra como se fosse proibida.
— Pode se vestir, por favor?
— Não é nem como se eu estivesse mostrando tudo, eu ainda tô de sutiã. – Carter argumentou, enquanto ia buscar uma camiseta limpa em seu armário. Não conseguia não sorrir da situação boba. – Mesmo que não estivesse, não tem nada aqui que você já não tenha visto antes, vai se ferrar. O que é, a coisa tá tão feia assim?
— Não tem nada a ver com isso. – disse Watney, falando por cima de seu ombro. – A coisa está linda, na verdade, é esse o problema. Puxa, você é linda. Por que você ainda não vestiu a maldita camiseta?
— Huuuuuum. – murmurou Carter, com um sorriso malicioso no rosto. Andou lentamente na direção de Watney e aproximou as garotas do rosto dele. – Eu sou linda, não é? – disse, mexendo seus ombros sensualmente.
— SAI DAQUI, JESSICA! – gritou ele, desesperado.
Carter riu abertamente enquanto vestia a camiseta limpa.
Diário de bordo: Sol 28
por Carter
Tenho pensado muito na minha família. Fico chateada quando me lembro deles porque são muitos e acham que eu morri. Tenho seis irmãos e nove sobrinhos, sem contar as minhas cinco cunhadas, sendo que, na verdade, só quatro delas realmente se importam com a minha morte. Minha cunhada, Patty, só deve querer que meu irmão, Casey, pare de chorar e encher o saco dela de uma vez. Isso dá 21 pessoas de luto por mim: meus pais, meus seis irmãos, meus nove sobrinhos e minhas quatro cunhadas que se importam. E aí, quando conto esse enorme número de pessoas que está triste por minha causa, fico meio abalada. Minha mãe não queria de jeito nenhum que eu viesse pra Marte, tinha pânico do perigo e sempre foi contra, sempre achou uma ideia ridícula. Meu pai apoiou muito a ideia, achou fantástico, mas agora não deve estar achando mais. Minha mãe deve estar triste em algum lugar, desejando que não estivesse certa. Tenho orado pela minha família e peço a Deus a oportunidade de vê-los de novo pra me redimir por fazê-los passarem por isso.
Pra uma pessoa que tem uma família de 22 membros, mais os pais do Mark que são maravilhosos pra mim, você deve imaginar que sinto muita saudade de todos. Até alguns dias atrás, eu podia mandar mensagens pra eles e dizer que está tudo bem, além de saber como eles estão, mas agora não posso mais. Isso me deixa triste.
Pelas minhas contas, hoje deve ser o Dia de Ação de Graças na Terra, ou seja, toda a minha família deve estar reunida na casa dos meus pais, em Chicago. Mas todos estarão tristes, porque Mark e eu morremos há dez dias. Ele tinha muita amizade com meus irmãos mais velhos também, porque têm idades próximas. De qualquer forma estão todos tristes. Eu queria ir pra casa dos meus pais, ver meus irmãos. Queria conversar com a Laura. Laura é minha sobrinha mais velha. Quando ela nasceu, meu irmão, James, tinha 21, e eu só tinha 3, portanto, Laura foi minha primeira amiga menina. Só não foi minha primeira amiga da vida porque meu irmão Cal é só dois anos mais velho que eu mas, sabe como é. O irmão mais velho de idade próxima sempre rejeita a irmã caçula. Pobre irmã caçula.
Sabe que eu nem lembro de quando a Laura nasceu? Só lembro de ela estar comigo. Acho que é esperável que eu não me lembre de antes dos três anos.
*dá de ombros*
Não tem ideia do quanto eu me sinto desanimada ao saber que posso nunca mais ver meus pais e, se eu vir, será daqui a pelo menos 4 anos. Minha mãe é minha melhor amiga, de certa forma. Minha mãe, Laura, Johanssen, minha cunhada Danielle... Eu tenho várias melhores amigas.
Quero falar um pouco da minha família pra aumentar a tristeza e solidão que estou sentindo e ficar me afogando na minha própria autopiedade a qual me concedi o direito levando em consideração que fui deixada pra trás em Marte. Se alguém pode sentir pena de si próprio e alimentar isso, sou eu. O Mark também, mas principalmente eu.
Por onde começo? Acho que devo começar pelos meus pais e pelo momento em que a minha existência foi garantida. Ok, meus pais estavam na faculdade. Meu pai tinha 18 anos e estava no primeiro ano; minha mãe estava terminando e tinha 21. Foi aí que ela engravidou do meu irmão, James, que é o mais velho. Meu pai tinha 18 anos quando se tornou pai. Dezoito anos que, coincidência ou não, é a minha diferença de idade com o Mark. Eu sou tipo uma novinha interesseira e ele é o velho tarado. Maneiro. Bem, aí o James nasceu e os dois casaram. Como minha mãe, Alicia, terminou a faculdade grávida, depois de parir ela ia trabalhar e o meu pai tinha um trabalho mais leve de garçom pra poder cuidar do James. Quando ele tinha três anos, minha mãe engravidou de novo, dessa vez veio o Liam. Como ela já estava estabilizada no emprego de professora de Química Avançada da faculdade, tirou licença tranquilamente. Quando Liam já tinha alguns meses, meu pai arrumou um emprego de verdade na administração de uma fábrica na cidade de onde éramos, Springfield.
Foi aí que eles decidiram que, se iam ter filhos, iam ter filhos mesmo.
James, Liam, Casey, os gêmeos Jonathan e Preston. Ok. Depois de 14 anos intensivos tendo filhos, decidiram dar uma pausa. Vocês devem pensar que meus pais eram loucos maníacos por sexo mas, quando eu era criança, minha mãe sempre dizia que, cada vez que tinha outro filho, descobria que tinha mais amor de mãe no coração, e queria mais alguém pra receber esse amor. Acho que esse é o jeito dela de dizer pra crianças que é uma louca maníaca por sexo.
Nessa pausa de filhos, os dois ficaram um tempo quietos com seus cinco filhos. James era muito bom, então, ajudava a cuidar dos mais novos. Ele tinha problemas em arrumar namoradas porque tinha quatro irmãos mais novos pra cuidar. Aí, ele passou por essa fase solitária e ficava em casa cuidando dos irmãos pra preencher o tempo. Meus pais aproveitaram essa deixa e tiveram o Cal. Aí, decidiram parar, porque, qual é, eles já tinham seis filhos. Penso que ficaram um tempo em abstinência. Quando o Cal tinha pouco mais de um ano, a irmã da minha mãe sugeriu que os seis fossem passar uns dias na casa dela. Meus pais ninfomaníacos tiveram o primeiro tempo sozinhos em um tempo e, bem... Aqui estou eu. Eu nasci em uma cesariana porque minha mãe quis operar e cortar as trompas dos ovários. Coitada, né? Pra uma ninfomaníaca que teve seis filhos a xana dela devia estar bem arrebentada. Eu também faria uma cesariana no lugar dela. Talvez, àquele ponto, ela já tivesse dez centímetros de dilatação naturalmente, nem precisava entrar em trabalho de parto. Era só espirrar e, bem vinda ao mundo, Jessica Carter!
*risadas estrondosas ao fundo*
*risadas muito estrondosas mesmo*
*risadas tímidas*
Parece que o Mark gostou da minha teoria sobre a xana arrebentada da minha mãe, ele tá claramente se divertindo bastante. Ele tá almoçando. Eu aproveitei esse intervalo de espalhar cocô pelo Hab pra me livrar de uma coisa nojenta e acabei falando de outra. E parece que falar sobre a xana arrombada da minha mãe entreteve o Mark. O que é um pouco estranho.
Estamos plantando. Ontem percebemos que a água não seria suficiente para nós e para a plantação, então, preciso pensar em uma forma de fazer água. Parece louco. Mas eu consigo.
*suspiro*
Que azia.
Diário de bordo: Sol 29
por Watney
Disco music? Puta merda, Lewis.
Disco music?!
...
— Jessie.
— Hum. – murmurou Carter em resposta sem desviar os olhos do computador onde assistia interessadíssima um episódio de Grey's Anatomy com um monte de comida enfiada na boca.
— Já pensou em como vamos fazer a água?
Carter pausou o episódio e lembrou-se de que tinha de mastigar. Virou-se para Watney enquanto retomava essa atividade.
— Na verdade, ainda não. – disse de boca cheia. Engoliu toda aquela comida, o que acabou sendo um pouco doloroso, levando em consideração que era uma quantidade volumosa. – Mas posso fazer o lance agora, se quiser.
Watney estendeu a mão, como que passando a palavra para ela.
— Faça o lance.
— Tá. Cada metro cúbico de solo requer quarenta litros de água pra ser cultivável. Mandaram três litros de água para cada um de nós por dia graças ao reaproveitador de água mais cinquenta litros caso algo desse errado. Ou seja, pra sete pessoas, temos 371 litros de água. Devemos levar em consideração que criamos 24,6m³ de solo, ou seja, precisamos de 984 litros de água. Faltam 613 litros pra chegarmos a isso. A ideia de conseguir isso até que parece simples, já que conhecemos a receita.
— Pegar um pouco de hidrogênio, acrescentar oxigênio e queimar. – disse Watney.
— Ok, o oxigênio é até fácil; a atmosfera de Marte é 95% formada por CO². E, por acaso, temos uma... pode pegar uma lousa pra mim?
Watney franziu o cenho.
— Pra quê?
— Acho que eu raciocino melhor se fizer cálculos. Só pega. Quando se trabalha fazendo algo, tem que desenvolver técnicas pra melhorar.
Ainda não conformado, ele se esticou e alcançou a lousa e o canetão. Carter se preparou.
— Tá, a atmosfera é 95% formada por CO² e temos uma máquina cujo único propósito é liberar oxigênio do CO².
— Viva o oxigenador! – acrescentou Watney.
— É, viva. – Carter disse, seca. Continuava escrevendo enquanto falava. – O problema é que a atmosfera é muito rarefeita; tem menos de 1% da pressão da Terra. Portanto, é difícil de coletar. Fazer o ar lá de fora entrar é impossível, o único objetivo do Hab é evitar que isso aconteça.
— Então, o que...
— Cala a boca, eu tô raciocinando! Podemos usar a fantástica central de produção de combustível do VAM que, por meio de um belo conjunto de reações químicas com a atmosfera daqui, produz, a cada quilo de hidrogênio que trazemos pra Marte, 13 quilos de combustível. Aí, podemos coletar CO² e armazenar em um recipiente sob alta pressão. Conectando à energia do Hab, a central de produção de combustível vai nos dar 0,5 litro de CO² líquido por hora. Após dez sóis, ela terá produzido 125 litros de CO², que vão se tornar 125 litros de O² depois de passar pelo oxigenador. Vai ser suficiente pra produzir 250 litros de água. – Assim que terminou o raciocínio, finalmente ergueu os olhos da lousa e olhou para Watney. – É, acho... que temos um plano pro oxigênio. O hidrogênio vai ser mais difícil. – Ao retomar o raciocínio, foi falando mais rápido ainda: – Podemos saquear as células de combustível de hidrogênio... Não, precisamos dessas baterias pra manter energia à noite. Sem elas, vai ficar frio demais. Mas poderíamos nos agasalhar. Não, as plantas morreriam. Fora de cogitação. Uh! Acaba de me ocorrer uma coisa. Eu gostaria de te lembrar, meu caro Mark, dos 23 minutos mais aterrorizantes da sua vida no Veículo de Descida para Marte, o amado VDM.
— Da minha vida? – ele questionou. – Você também se cagou de medo.
— Não, você estava bem pior. Capitães não sentem medo. Como eu estava dizendo, depois de atingirmos a atmosfera, passamos por meio que uma secadora de roupas enquanto você e quatro dos seus colegas da tripulação...
— Cinco – corrigiu Watney.
— Quatro... tentavam não cagar de medo. Ah, os reles mortais que acham turbulências em aviões comerciais a 720km/h perigosas realmente deveriam testar a 28 mil km/h. Os paraquedas se abriram em vários estágios para frear a descida e o Major Rick Martinez, nosso brilhante piloto, nos conduziu até o solo usando os propulsores para diminuir a velocidade da descida e controlar nosso deslocamento lateral. Ele passou por anos de treinamento pra isso, sua vida inteira girou em torno desse momento e executou a tarefa de forma extraordinária. Pousamos a apenas 9m do alvo. Foi fantástico. Mas a melhor parte é que, por ter sido tão fantástico, ele economizou um monte de combustível.
— Claro! Centenas de litros de hidrazina!
— Exato! – Carter tinha um largo sorriso no rosto. – Cada molécula de hidrazina tem quatro átomos de hidrogênio. Portanto, cada litro de hidrazina contém hidrogênio suficiente para dois fucking litros de água. Pelos meus cálculos, devem ter sobrado mais ou menos 300 litros de hidrazina, o que será suficiente para... – Fez uma pausa escrevendo velozmente na lousa, a tamanha velocidade que assustaria alguém que não conhecesse seu processo de raciocínio. Por sorte, Watney era quem melhor conhecia. – 600 litros de água! BIIIIIIIIIIIRRRRRRRRRLLLL!— Carter se levantou da cadeira e imitou um homem musculoso fazendo um arco com os braços e aproximando suas mãos. – Vai se ferrar, Marte.
Watney não conseguiu segurar as risadas perante a reação da capitã. Constantemente se esquecia do quanto se divertia com ela, de seus atos espontâneos.
— Só tem um problema. – observou, o sorriso indo sutilmente embora de seu rosto. – Liberar o hidrogênio da hidrazina é... Bem, é assim que os foguetes funcionam. Se fizermos isso em uma atmosfera cheia de oxigênio o hidrogênio vai explodir. Vai ter muita água, mas nós não vamos poder aproveitar porque estaremos mortos.
— Faz sentido – Carter acrescentou. – O que fazemos, então?
— Passamos por um catalisador de irídio que vai decompor a hidrazina em nitrogênio e hidrogênio. Aí, redirecionamos o nitrogênio pra sair do Hab, o que é essencial. O hidrogênio vai ser direcionado para o oxigênio coletado e aí, queimamos. Um passo errado e explodimos. Se o nitrogênio escapar, explodimos. Se o hidrogênio escapar, só vai sobrar a “Cratera em Memória de Mark e Jessica Watney” onde um dia foi o Hab.
Zing.
Carter até gostava daqueles zings.
— Hum. – murmurou, rindo consigo mesma. – Faz tempo que não ouço isso.
— A possibilidade de explodir? – sugeriu Watney.
— Não. – disse, com a voz esganiçada, estranhando. – Esse nome.
— Cratera?
— Jessica Watney. – explicou.
— Ah. — disse Watney rapidamente, sem graça. Realmente, já havia tempo que não eram Sr. e Sra. Watney. Já estava acostumado de novo a chamá-la de capitã ou Carter. O nome que ela já há muito não usava escapou muito naturalmente de sua boca. – Tem... algum problema?
— Não – ela respondeu, dando de ombros, indiferente. – É o meu nome.
O clima ficou estranho. Nenhum dos dois sabia o que falar. Carter sentiu-se explodindo por dentro, mas mostrava-se indiferente por fora. Watney continuava sem entendê-la.
— Então... – começou ela tentando quebrar o gelo. – Amanhã a gente faz uma AEV até o suporte do VAM pra buscar a hidrazina e o catalisador.
— Ok, parece... uma boa ideia.
Carter concordou com a cabeça.
— E como está a sua série? – perguntou, com um sorriso bobo. Já estava espontânea e alegre de novo, o clima ruim tinha acabado.
— Chrissy foi substituída por Cindy, acredita?
— Não.— ironizou Carter. – Não pode ser.
— Parece absurdo, não é? Não consigo acreditar.
— Minhas condolências pra você.
— Obrigado. E Grey’s Anatomy, como vai?
— Uma loucura! O Alex contou pra todos os internos que o George é repetente. Fiquei nervosa, foi bem babaca da parte dele. A única coisa que o George ainda tinha era a fama de ser um astro do rock entre os internos. E agora, já era.
— Puxa, o Alex realmente é um babaca.
— É, não é? Altamente desnecessário. Ele é cheio dessas. Mas ainda o amo.
— Ele deve ser bem gato.
— Ele é. Sabe, é até engraçado você estar envolvido e familiarizado com os personagens da minha série. Não que eu tenha nada contra.
— Você é mulher, é bem cheia de personalidade e é minha única companhia. É natural que eu me familiarize.
— Tem razão. Já reparou em como temos usado muito verbos conjugados na primeira pessoa do plural?
Watney estranhou a mudança súbita de assunto.
— Ainda não tinha percebido, na verdade. – comentou. – Acho que é porque temos feito tudo juntos. Estamos tentando sobreviver juntos. Enquanto estivermos aqui, somos parceiros.
Carter sorriu. Gostara daquele termo.
— É. – disse, segurando a sílaba de forma maliciosa. – Gostei disso. Somos parceiros.
Watney estendeu uma mão para Carter, com a outra no bolso e um sorriso de canto.
— Parceiros?
Carter apertou sua mão, com um sorriso pretensioso.
— Parceiros.
— Sabe que podemos ser parceiros de uma forma um pouco mais íntima se você quiser. – sussurrou Watney com uma voz grave e sensual, à qual Carter tinha dificuldade em resistir. Ficou perturbada.
— Aaaaaaaaah, tá bom, eu não preciso disso – tentou convencer a si mesma. –, já tem bastante insinuação sexual na minha vida vindo do mundo de Grey’s Anatomy para o qual eu vou voltar, obrigada.
Risadas internas em Watney.
Diário de bordo: Sol 30
por Carter
Estou descobrindo David Bowie. Ele parece fantástico. Acho ótimo que Lewis tenha álbuns inteiros dele na coleção pessoal, porque estou adorando. Eu jamais teria fuçado as coisas da Lewis se não tivesse ficado aqui. Parece que, cara, se ficar em Marte foi um sacrifício necessário para que eu descobrisse a qualidade de David Bowie, valeu a pena ficar em Marte.
Nisso, eu estou absolutamente perturbada com a semelhança da música Life on Mars? com a minha vida. Não, você não está entendendo: é absurdo. Eu fico até meio enjoada de pensar. A música fala sobre uma garota que teve seus planos destruídos. A mãe dela disse que não deveria fazer isso, mas o pai dela a disse pra ir e ela foi. E deu e errado. E aí a música pergunta se existe ou não vida em Marte.
Viu? Perturbador. Até meio que me dá um arrepio.
Argh, que horror. Chega de pensar nisso.
Outra coisa perturbadora é que a Lewis tem uma quantidade absurda de conteúdo dos anos 70 além de Bowie. Muita discoteca. Também estou descobrindo que gosto de discoteca, mas o Mark tem estado muito perturbado, detesta discoteca mais que tudo na vida atualmente. Ele também está assistindo os seriados dela, só coisa velha. Agora que terminou Um é pouco, dois é bom, três é demais, começou Os gatões e não está detestando, o que é bom. Mas, na moral, Lewis tem algum tipo de obsessão pelos anos 70. Mas é muito estranho. Ela precisa de tratamento psiquiátrico. Gostaria de lembrar que ela nasceu em 1979, então, esse conhecimento todo exige uma certa pesquisa, já que ela não viveu esse tempo. Não são lembranças de uma infância feliz nem nada assim. Ajudem a comandante em meu nome, por favor.
Lembra que eu tinha que pensar em um jeito de fazer água? É, eu pensei. Vai ser complicado e o Mark vai lidar com a parte de fazer coisas, pôr as mãos na massa porque, cá entre nós, eu sou um lixo em tudo que envolve usar as... mãos. É, parece idiota. Mas os meus desenhos são bons, por incrível que pareça.
Se alguma coisa der errado, por menor que seja, a gente morre. Mark foi buscar a hidrazina que vamos precisar no Veículo de Descida para Marte, o VDM. É basicamente um VAM que desce ao invés de subir. Também vamos precisar do catalisador de irídio que ficou no estágio final do VAM e da central de produção de combustível. Essa central é uma coisa fantástica, ela meio que absorve a atmosfera de Marte e a transforma em combustível. Meio que, não, é realmente isso. Mas é um processo muito demorado, leva 24 meses para encher o tanque. O VAM da Ares 4 já está aqui, em Marte, mas na Cratera Schiaparelli que é bem longe daqui. Ele precisou vir bem adiantado pra começar o processo. A NASA não brinca em serviço, tem cada coisa científica que parece impossível, é tudo muito louco. Tem gente muito inteligente lá.
Mark pediu pra ir sozinho buscar os negócios. Eu disse que iria sem problemas, mas ele insistiu e eu estava muito querendo cochilar. Fazer o quê, né? O que tem que acontecer, acontece. Além disso, a gente realmente passa muito tempo junto e, apesar de ele ter demonstrado menos, sei que ainda está bravo comigo. Algum dia, eu vou tomar vergonha na cara e pedir desculpas, deixar de ser tão orgulhosa. Esse dia não é hoje. Portanto, é realmente bom passarmos umas duas horas separados.
Agora eu quero aproveitar o tempo em que ele não estar aqui pra entrar na conta dele e ver o que ele tem falado nos diários. É bem fácil pra mim, a senha dele é a palavra password ao contrário. Criativo, né?
Ai, minha nossa! Que merda! Não acredito que falei isso. Bosta, se algum dia isso for a público, ele vai ter que mudar a senha de tudo. Apesar de que, se um dia isso for a público, ele vai saber de qualquer jeito que eu entrei na conta dele. O lado bom é que o sistema da Ares 3 é fechado, então, não vai ser invadido por quaisquer pessoas que vão mudar o login dele pra pinto_mole ou liberar projetos secretos nem nada parecido.
Tomara que o Martinez nunca assista isso.
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