Notas iniciais
Oláaaaaaaa, gracinhas! Olha quem está de volta? Em primeiro lugar, quero pedir desculpas por atrasar tando de novo. Sabem como é, o fim de ano chega, viajar e tal.... Desculpa mesmo! Vou tentar ser mais pontual da próxima vez. Nessa quarta tem mais! Estive olhando as estatísticas de acesso dessa fic e, bem, são desanimadoras, mas eu já esperava por isso. Os dois últimos capítulos tiveram um acesso cada. Queria saber quem é você, meu único leitor fiel. Tenho três leitores no total. Queria conhecer vocês. Por favor, comentem para a gente poder conversar! Quero saber o que estão achando, se estão gostando, se querem alguma coisa a mais, o que acham que pode melhorar. Quero ouvir vocês. Até as notas finais!

Diário de bordo: Sol 31

por Watney

*risos*

*risos*

Hoje, a gente estava plantando e a Jessica vomitou por causa do cocô.

Eu também quase vomitei muitas vezes. Mas ela vomitou mesmo. E quase vomitou de novo pra limpar. Sim, eu sei que devia ter oferecido minha ajuda, mas, qual é. Eu ia vomitar também.

Era isso que queriam dizer na parte na saúde e na doença? Preciso rever esse contrato.

...

— E aí, Delícia? O que tá fazendo? – perguntou Carter se encostando de braços cruzados na haste que dava entrada para a cozinha do Hab. Tinha um sorriso infantil e animado no rosto.

Watney parou o que estava fazendo e virou-se de costas para olhá-la.

— Construindo o bebedouro das plantas – respondeu.

— Definição interessante. Quer alguma ajuda? Tem alguma coisa pra mim?

— Na verdade, não – ele disse, voltando a construir e mexer em coisas que Carter não exatamente entendia. – Isso aqui exige muita precisão. A um par de mãos eu posso fazer um trabalho melhor.

— Entendi. Deve ser legal, isso. Saber construir coisas complexas. Meu conhecimento de Engenharia Mecânica é básico. Engenharia Civil é fácil pra mim, mas mecânica é mais complicado.

— É mesmo? – disse Watney, ainda trabalhando. Estava em seu modo automático; não tinha ouvido uma palavra do que Carter dissera.

— É, mas eu acho bem legal. Eu quase fiz Engenharia Mecânica na faculdade.

— Quase fez Engenharia Mecânica na faculdade? – Repetição das últimas palavras era uma das características de seu modo automático.

— Quase, mas foi mais ou menos na época em que eu descobri Star Trek – contou Carter, com um sorriso divertido no rosto. – Assisti a série original em três dias. Três temporadas em três dias. Depois, assisti Star Trek: Voyager, e achei fantástico. Era uma capitã mulher! Pra mim, era a coisa mais incrível do mundo. Depois vi The Next Generation, Enterprise, a série animada... O espaço me parecia uma coisa fantástica e maravilhosa. Você sabe, eu fui pra faculdade com 13 anos, qualquer coisa me influenciava facilmente. Então eu decidi que tinha que trabalhar com o espaço de qualquer jeito. Daí, veio a ideia: meu cérebro é uma calculadora e queria trabalhar com o espaço. Astrofísica! Por que não? Tudo se encaixava. Queria ser o mais próximo possível de um Spock da vida real e encontrei isso em Astrofísica.

— Encontrou isso em Astrofísica. – Outra resposta automática. Carter estava percebendo; conhecia Watney. Decidiu se divertir.

— É, encontrei. Aí, na primeira semana de faculdade eu com 13 anos transei com o reitor que era um padre gay e tinha uma clínica de aborto como segunda renda, vendi meus óvulos no mercado negro e escrevi 800 páginas de um artigo sobre por que não devemos permitir a entrada de mexicanos nos Estados Unidos enquanto me masturbava.

— Você transou com o... Espera aí, você o quê?— disse Watney, virando-se ao processar o que Carter havia dito. A capitã gargalhou alto.

— Você entrou no modo automático. Quando repete o final da última frase do que eu disse, quer dizer que não está ouvindo mais nada. Eu só quis testar a profundidade disso.

Watney riu também, divertindo-se e voltando ao trabalho.

— Pode repetir qual foi a sua aventura na primeira semana de faculdade? – pediu.

— Transei com o reitor que era um padre gay e tinha uma clínica de aborto como segunda renda e escrevi um artigo de 800 páginas sobre por que não devemos deixar mexicanos entrarem nos Estados Unidos enquanto me masturbava. Ah, e vendi meus óvulos no mercado negro, é claro. Devo ter algum filho traficante de nove anos por aí do qual não sei.

Watney parou de apertar as porcas e parafusos porque precisava rir. O trabalho exigia uma precisão que não podia atingir enquanto ria daquele jeito.

— Faz todo o sentido porque eu sei que você é muito transante – ironizou.

— Sou muito transante. Pode-se até dizer que eu sou uma sexter. – disse Carter, piscando e enfatizando a palavra como se fosse um cavalheiro dos anos 20 contando uma piada suja.

— Uma sexter? – repetiu Watney, tentando entender.

— Uma sexter. – disse Carter, lentamente. – É uma pessoa muito transante.

— Acho que eu tinha entendido. – Ele se esforçou para segurar as risadas: precisava terminar o equipamento o mais rápido possível, mas o diálogo estava muito engraçado. – Aí, nas conquistas do anuário no fim do ano letivo, estava escrito Jessica Carter: sexter?

– Certamente. – disse Carter, balançando a cabeça no mesmo ritmo em que falava. Então, soltou uma gargalhada também. – O Cal já fez isso uma vez, no Dia de Ação de Graças. Foi em 2008, acho, ele tinha acabado de arrumar um emprego e sair de casa, quase não tínhamos mais notícias dele. Aí, você conhece a tradição dos Carter de gratidão no Dia de Ação de Graças, não é mesmo?

Reconheça o que aconteceu de bom no seu ano e seja grato!— disse Watney, com uma animação irônica. – Seus pais são ótimos.

— Então, a gente começou a falar. Toda a minha família, meus pais, meus sobrinhos pequenos, minhas cunhadas... Todos reunidos. Eu ia ser depois do Cal, porque era em ordem de idade. Aí, chegou a vez dele. Minha mãe perguntou: “O que aconteceu de bom no seu ano, Cal?” E ele respondeu: “Transei muito.”

Watney precisou parar outra vez, mas desta para gargalhar alto.

— Na frente da sua família toda? – perguntou, ainda rindo.

— Na frente da minha família toda. – confirmou Carter, também rindo. – Eu fiquei até meio sem graça porque a gente tinha acabado de começar a namorar e estava planejando falar isso, mas diante daquele comentário eu não podia falar que estava namorando, iam pensar que eu tinha transado muito também.

Watney riu mais. Encontrara diversão em um momento no qual realmente não esperava. Carter sempre conseguia entretê-lo de maneiras inesperadas em momentos inesperados. Todo momento com ela era inusitado e surpreendente. Tirava piadas do nada e criava um ambiente gracioso muito subitamente. Era muito bom ter ficado preso em Marte com uma mulher tão engraçada. E bonita. Engraçada e bonita. Carter era um pacote completo, podia-se dizer. Espontânea e atraente, remoldava todo o ambiente de solidão e tristeza e...

O quê?

Que merda era aquela que estava pensando?

Sentiu seu rosto corando ao pensar naquilo. Precisava sair de sua mente com urgência.

— Então... – começou. – Cal é um sexter. Como sua família ficou diante disso?

— Minha mãe ficou horrorizada. – contou Carter com um sorriso natural no rosto. Inocente, não tinha ideia do dilema que acabara de acontecer ali. – Sabe como ela é, as pessoas não eram tão abertas na época dela. Meu pai e meus irmãos ficaram todos sem reação. A Patty ficou bufante, somos todos hereges pra ela. Meus sobrinhos não entenderam nada, mal prestaram atenção. Eu tive que ficar me segurando pra não rir enquanto olhava pra Laura, nós duas com a garganta entupida de risadas. Ah! Perigoso mesmo foi o Daniel que ouviu e perguntou pro Casey o que era “transar”.

— E o que o Casey respondeu?

— Disse que era quando um cara gostava muito de uma mulher e mostrava isso pra ela com um beijinho no rosto.

— Isso não se chamaria “beijinho no rosto”?

— Se chama, mas, Mark, o Daniel só tinha seis anos, ainda não podíamos explicar o ato sexual pra ele.

— Agora ele já conhece o ato sexual?

— Conhece, eu que expliquei pra ele ano passado. Contei tudo direitinho. Menos sexo oral, ele ainda não conhece isso. Mais pra frente.

— Cara, por que a sua mãe fica tão ofendida com sexo? – perguntou Watney, ainda sorrindo.

— Eu não sei! – respondeu Carter, indignada. – A minha mãe é tipo a maior sexter de todos os tempos! Por que as outras pessoas não podem mencionar nem nada? Lembra no nosso casamento quando eu te encoxei?

— Não posso dizer que sei a qual vez você está se referindo, me encoxou várias vezes em vários momentos diferentes.

— O importante é que você lembra. Velho, ela nunca ficou tão horrorizada na vida. Como pode? Ela é tão conservadora! Nem faz sentido.

— Seu pai é menos conservador, não é?

— Meu pai engravidou uma universitária com 18 anos, ele já aceitou que não tem nada de conservador. Mas eles ainda são velhos e ainda são menos à vontade falando abertamente sobre isso.

Chegando a uma conclusão, Watney riu mais. Disse:

— Sabe, naquelas famílias de séries da TV, sempre tem algum parente estranho com uma peculiaridade. Na sua família, todos tem uma peculiaridade.

Carter deu de ombros.

— Somos os Carter. Somos uma família de 23 pessoas. A peculiaridade já começa aí. Quer dizer, a filha mais nova está em Marte. Marte. É bem peculiar.

— Mais peculiar, impossível.

— Acho que Marte é mais uma peculiaridade específica dos Carter-Watney. – ela disse, naturalmente.

Watney conseguiu não parar de trabalhar para se surpreender. Carter falava o nome com tanta naturalidade. Não tinha mais de ter medo daquele nome: Jessica Carter-Watney. Era quem ela era. Era sua esposa.

— É, acho que é. Podemos povoar Marte. – ele sugeriu.

— Sim, podemos! – concordou Carter, animando-se com a ideia. A excitação estava em seu olhar. – Podemos encher esse planeta vazio de Carter-Watneys. Nós, Carter, somos muito bons nisso, reprodução é o nosso lance.

— Além de serem sexters.

— Sim, somos sexters, somos muito transantes.

Watney gargalhou novamente. Carter sorriu, acompanhando-o.

Se os dois morressem, ela sabia que seria culpa dela por ter atrapalhado o trabalho dele. Pelo menos, teriam se divertido.

Diário de bordo: Sol 36

por Watney e Carter

Praticamente encontramos uma solução pro problema da água. Bem, ela encontrou.

É o meu trabalho. Além de que a gente ia morrer se eu não encontrasse.

Criamos 246m² de solo. Mas cada metro cúbico de solo requer 40 litros de água pra ser cultivável. Que bom que conhecemos a receita. É só pegar hidrogênio, acrescentar oxigênio e queimar. Acontece que temos centenas de litros de hidrazina do Veículo de Descida para Marte. Se passarmos hidrazina por um catalisador de irídio ele vai separar o nitrogênio do hidrogênio. Depois é só direcionar o hidrogênio a uma pequena área e queimar. Sorte que na história da humanidade nada de ruim já aconteceu por atear fogo em hidrogênio.

Se você perguntasse a qualquer engenheiro da NASA qual seria a pior hipótese para o Hab, eles responderiam... ?

Incêndio.

Se perguntasse qual seria o pior resultado, eles diriam “morte por combustão”. A NASA detesta fogo.

Por causa da história de que fogo faz todo mundo morrer no espaço. Então, tudo o que mandaram pra cá resiste a fogo. Tudo foi projetado como anti inflamável. Até os fios das nossas roupas.

Todas as nossas roupas foram feitas pela NASA. Isso é muito legal. Pedi pra eles fazerem uma camisa xadrez branca e vermelha pra mim. E a melhor parte é que ela não pega fogo! Cara, muito incrível.

O ponto é que nada aqui pode ser usado para acender o fogo com a ilustre exceção dos pertences do Martinez.

Martinez e eu somos cristãos. Eu sou luterana liberal e ele é católico Romano. É um católico fervoroso. Então, na minha concepção, nós não precisamos de “amuletos da sorte” ou coisa assim, não precisamos de objetos físicos ou coisas palpáveis pra garantir nossa relação com Deus ou a presença dEle na nossa vida. Mas o Martinez é muito fervoroso e tem uma concepção diferente. Então, ele trouxe esse crucifixo de madeira.

*aponta*

Provavelmente, a NASA pegou muito no pé dele por trazer isso, mas sabemos que é teimoso como uma mula. Mais uma vez, Martinez está salvando as nossas vidas. Tanto por ter economizado a hidrazina quanto por trazer isso.

Agora, nos desculpe, Martinez, mas se não queria que mexêssemos nas suas coisas, não devia ter nos deixado em Marte. Mas acho que não vai se importar devido à nossa atual situação.

*olha pro crucifixo*

Eu conto com você.

Diário de bordo: Sol 41

por Watney

Pois é. Eu me explodi junto.

Meu palpite é que eu esqueci de levar em conta o oxigênio excedente que eu exalo quando eu fiz os cálculos porque eu sou uma besta.

A boa notícia é que a Jessica é ainda mais besta que eu, porque também não lembrou disso.

Que merda, ela vai ficar remoendo isso um tempão. Ela tá lá fora porque ficou muito tensa com medo de algo dar errado. Quem diria.

É, eu vou voltar ao trabalho assim que meu ouvido parar de zumbir.

*contorce o maxilar*

...

O clima no Hab era pesado. Carter olhava para o horizonte marciano fixamente com uma expressão sombria. Seu iPad tinha rabiscos de desenhos que não fluíram. Não conseguia parar de se culpar. Não tinha o hábito de errar. Era a Calculadora Humana! Ela não errava. E seu erro por pouco não custou a vida de Watney. Que merda tinha feito de errado?

Watney a observou de longe. Ela já estava havia algum tempo sentada na cadeira naquela mesma posição, olhando na mesma direção. Sentia-se chateado por ela, sabia que não estava acostumada a errar e sabia que deveria estar se condenando repetidamente, principalmente por ele ter se machucado. Ele não ligava; era parte da vida de um engenheiro/astronauta/abandonado em Marte. Mas sabia que Carter via de outra forma: de seu ponto de vista, ela tinha errado. Ela o tinha machucado. Ela o tinha prejudicado.

Não podia deixar que ela se sentisse assim.

— Ei. – chamou. – Jessie.

Carter voltou seu olhar para Watney, sem desmanchar a expressão de decepção consigo própria.

— Para com isso. – disse Watney.

— Não tô fazendo nada. – ela rebateu.

— Sim, tá. Tá se culpando. Não foi culpa sua.

— Foi, sim. – discordou, voltando a olhar pela pequena janela do Hab. – Não tem o que falar.

— Não foi, Jess...

— Foi! – Carter disse, virando-se abruptamente. – Foi culpa minha, Mark! Pode ter sido sem querer, mas foi! Porque eu errei. Eu não erro! Eu sou uma calculadora, eu sou a Calculadora Humana, Mark! E errei um cálculo e te explodi por causa disso! Como eu posso ter me esquecido de que você exala dois átomos de oxigênio quando expira? É exatamente o tipo de coisa que sou programada pra não esquecer. Então, por mais que não tenha sido de propósito, por mais que não vá mudar o passado, foi culpa minha. Isso é incontestável.

Watney suspirou. Já sabia que aquilo seria difícil.

Andou até a cadeira onde Carter estava sentada e puxou a cabeça dela para si, apoiando-a em seu peito. Usou a mão livre para afagar seus cabelos.

— Agora que a culpa foi estabelecida como sua, o que vai fazer com ela? – perguntou, em forma de reflexão. – Não tem como mudar. Não aconteceu nada muito ruim, podia ter sido bem pior. Tá, você errou. E daí? Errar é humano e, Jessica Carter-Watney, vou te contar um segredo: você é humana. Você não é um robô com uma calculadora no lugar do cérebro programado para lembrar de tudo o que as pessoas esqueceram que tiveram de aprender na escola. Relaxa. Errei tanto quanto você. De tudo o que vamos fazer aqui, a maior parte não vai dar certo na primeira. Nem na segunda. Até porque é tudo, em sua maioria, perigoso. Então, a primeira vez deu errado. Vamos pra segunda, ok?

Carter comprimiu os lábios, tensa. Ainda não tinha se convencido, apesar de ter sido um discurso lindo.

— Ah, sei lá. – disse. Levantou sua cabeça, apesar de estar muito confortável. – É que eu causei isso. Não consigo parar de pensar que te explodi.

— E daí? – disse Watney, não dando a mínima. – Se tivesse sido com você, estaria tranquila. Estaria fazendo piadas de si mesma. Por que comigo é diferente?

Carter baixou o olhar.

— Sabe bem por quê.

Watney abriu a boca para falar mas desistiu. Lhe ocorreu que não sabia o que falar. É claro que sabia o porquê. Só tinha dificuldade em admitir. Mais dificuldade que ela.

— Jess... – tentou intervir.

— Não, Mark. É isso. Não tem o que fazer! Eu estou fadada a ficar mal por qualquer coisa ruim que te acontecer pra sempre. – Carter se levantou da cadeira, tensa. – É exatamente por isso que eu estou aqui! Em Sol 18, eu... eu não ia conseguir sair desse planeta sem você! Eu mandei a Lewis embora com o resto da tripulação, eu fiquei segurando o VAM aqui por mais tempo que devia pra te achar! Eles quase tombaram por isso! Você me perguntou por que eu voltei e eu disse que era a capitã, era minha obrigação e eu venho pensando em formas de chutar a minha própria bunda desde então. É óbvio que eu voltei porque eu te amo. Eu te amo! – declarou e riu, aliviada. – Cara! É claro que eu te amo. Ai, é muito bom colocar isso pra fora! Me desculpa por não ter dito antes. Não tenho ideia de quando foi o momento em que eu decidi aceitar que você não me queria mais e fingir que não era mais loucamente apaixonada por você, mas eu sou! Eu sou. Eu amo você, Mark Watney. E eu não espero que me perdoe mas peço desculpas por ter te deixado. Peço desculpas por ter colocado o trabalho acima de você. Peço desculpas por ter dado a entender que não te amava tão intensamente quanto você me amava. Por ter sido uma esposa horrível enquanto você sempre foi um marido maravilhoso. Peço desculpas por tudo o que eu te causei. Eu amo você, Mark. Se você realmente quiser se divorciar de mim, eu assino os papéis. Eu te livro de mim. Não quero ser a sua prisão, não quero ser a solitária pra você. Mas se existir uma mínima chance de você me perdoar, se você achar que em algum momento vai estar pronto pra me perdoar, eu vou esperar. Eu vou esperar por você, vou fazer tudo o que puder pra me redimir. Se você quiser, eu largo a NASA! Quer dizer, não é exatamente o que eu quero, eu vou ficar bem insatisfeita, mas, por você, eu tô disposta! Eu faço o que você quiser. Puxa, eu acabei de retroceder uns 50 anos no feminismo – disse rindo. – Mas eu não tô nem aí. Eu amo você, Mark Watney. Eu não consigo parar de falar isso! Eu amo você pra cacete.

Ao terminar seu monólogo, Carter inspirou profundamente e expirou, satisfeita. Finalmente, aquilo estava fora dela. Finalmente, ela tinha dito. Finalmente, ele sabia.

Entretanto, Watney não reagiu. Apenas abaixou o olhar, respirando ruidosamente.

— Isso foi... revelador. – ele finalmente disse.

— É, foi. – falou Carter com um sorriso de canto. – Desculpa por ser tão romântica.

— Tudo bem. – disse Watney, concordando com a cabeça.

Mais silêncio se estabeleceu. Muitos considerariam aquele um silêncio desconfortável, um caso em que nenhum dos dois saberia o que falar, mas Carter não estava desconfortável. Não estava mesmo. Além disso, não era que não sabia o que falar; já não tinha mais nada para falar. Havia falado tudo o que precisava.

— Seus ouvidos já pararam de zumbir? – Carter perguntou, natural e espontaneamente. Tinha uma expressão alegre e aliviada no rosto. Não conseguia parar de se sentir bem por ter colocado tudo pra fora.

— Já – respondeu Watney. – Já pararam.

— Se quiser, posso fazer dessa vez. – ela ofereceu, dando de ombros.

— Não precisa. Pode deixar.

— Você que sabe. – O sorrisinho não deixava seu rosto. Em um curto período de tempo, vestiu o traje espacial novamente. Enquanto pegava o capacete, acrescentou: – Não esquece de colocar o seu capacete, tá?

— Tá. – respondeu Watney, inexpressivo.

Assoviando, Carter fechou a Eclusa de Ar 1, onde havia acabado de entrar.

Watney não tinha ideia de como reagir.

Diário de bordo: Sol 41 (2)

por Watney

Bem, não morri.

Não me explodi nem nada parecido. Vesti o capacete e a segunda tentativa ocorreu conforme planejado. Agora, temos uma central de produção de água, senhoras e senhores. Vamos torcer para as coisas continuarem não dando errado.

Preciso aproveitar que a Jessica ainda não entrou da segunda vez que saiu para contar isso: quando ela entrou na primeira vez ficou muito chateada por ter dado errado. Ela tem algum tipo de síndrome de capitã em que qualquer coisa que acontecer com a tripulação é culpa dela naquela cabecinha perturbada. Nisso, ficou o dia inteiro remoendo. Eu tentei consolar mas aí ela meio que colocou tudo pra fora num surto e... Bem, ela se declarou pra mim. Pois é. Ela...

*risos*

Desculpa, é que eu ainda não digeri direito. Jessica se declarou pra mim e disse que me ama. Disse que está arrependida por um monte de coisas... Me pediu desculpas por tudo, ela... disse que não espera que eu a perdoe mas, que se existir uma chance, vai fazer de tudo pra se redimir. E... Eu não soube como reagir. Não sei até agora. Você pode até achar que houve um momento desconfortável depois disso, mas não houve. Ela ficou muito tranquila de ter dito isso. Nunca a vi tão confortável, acho. Ficou sorridente e acho que aliviada. Provavelmente, não se arrepende.

Jessica se declarou pra mim. A Jessica. Jessica Ann Carter-Watney. Capitã Carter. Minha esposa, Jessica, disse que me ama. Loucamente. Disse que me ama pra cacete, na verdade.

Não tenho a menor ideia de como reagir.

Notas finais
Puuuuuuuuuxa! Que revelador, hein? Nada, por acaso alguém tinha dúvida de que a Jess ama o Mark? Nunca foi segredo, huehuehue. Tem mais Cartney vindo por aí! Não esqueçam de comentar! Até o próximo capítulo! Mamain ama vcs ♥