— [...] Se as partes estiverem de acordo e não desejarem arguir sobre nenhum assunto relativo ao processo, passarei a sentença.

O juiz proclamou em tom decisivo após mais uma das discussões de Draco e Cho Chang a respeito da justiça ou não do pedido da acusação contra Brown. A japonesa argumentava que a causa de pedir – o modo como Granger havia sido prejudicada pelas declarações da amante de seu marido – eram “pífias” e “trapaceiras”, pois, supostamente, toda a questão envolvendo Granger, o Ministério por parte do QG dos Aurores e os jornais sensacionalistas eram parte do processo como um todo.

Tratava-se de um absurdo atrás do outro — e não apenas porque Granger era sua cliente. Prejudicar a vida alheia, de forma geral, não fazia parte dos objetivos do processo e, devido a isso, utilizar-se do mesmo como desculpa para praticar calúnia e difamação era inaceitável. Além disso, a castanha sequer estava sendo processada quando as acusações não fundamentadas começaram, segundo provava um artigo de jornal com declarações de Brown que motivaram toda a investigação ministerial.

Assim, sentou-se novamente, desabotoando o terno em meio a um suspiro fatigado por estar voltando a questão da necessidade daquela ação. Porém, Chang fizera o dever de casa, era visto, e estava preparada para utilizar-se de todo o armamento jurídico a sua disposição para tentar convencer o juiz Lancelyn a seu favor. Ela não se utilizava mais da face amistosa que adotara nas outras audiências, pois ali estava a última chance de tentar garantir a vitória, além do fato de que sua cliente grávida, que deveria aparentar boa índole, não estava presente dessa vez e não poderia ser tão associada a seu comportamento.

Granger, por sua vez, sem a presença indesejada da outra, ocupava novamente o lugar à sua esquerda. Suas expressões encontravam-se tranquilas, dessa maneira, confiante em sua defesa e no julgamento do juiz. Ela relatara, a caminho do Ministério, que o juiz Lancelyn havia sido bastante convergente com suas ideias a respeito de certa lei que regia a importação de produtos bruxos internacionais, a qual confeccionaram pelo Departamento de Execução das Leis da Magia. Podia-se dizer que o detestável juiz conhecia Granger e seu caráter, supostamente, o que, se soubesse e fosse da acusação, certamente faria com que o tornasse suspeito para julgar a questão – além do fato óbvio de que não se gostavam. Entretanto, se deixaria caminhar vantajosamente mais uma vez. Ninguém lhe dissera que estar do mesmo lado de Hermione Granger o canonizaria.

— Meritíssimo, antes de nos acomodarmos para ouvir a sentença, gostaria de pedir desculpas por parte de minha cliente e justificar sua ausência na audiência de hoje lendo uma carta que ela escreveu e assinou de próprio punho.

— Meritíssimo, Lilá Brown sequer é obrigada a estar presente. – Protestou mais do que rápido ao perceber que a japonesa em roupas sociais caras não se sentara e possuía um estranho brilho no olhar. – Sinceramente, não vejo necessidade de perdermos tempo nos atendo a esse tipo de detalhe pequeno e desimportante.

Ele desdenhou, como era de seu costume. Viu Granger encarar Chang de forma pensativa, seu cérebro trabalhando astutamente para tentar entender o que a colega de profissão tinha em mente com aquela fajuta demonstração de civilidade. Porém, o juiz não era seu maior fã e as palavras de uma das partes lhe pareceram interessantes demais para serem descartadas sem a devida atenção àquela altura.

— Eu gostaria de ouvir o que a Srta. Brown tem a dizer a respeito da própria ausência. – Ele acomodou-se melhor na cadeira e Draco ouviu Granger suspirar contidamente. – Se estamos em um processo que lida com a honra das partes, nada mais justo do que ouvir todos os lados.

Isso porque Hermione aceitara depor, disposta a responder às perguntas constrangedoras de Cho Chang, do juiz e do próprio Draco. Passaram várias horas preparando-a para tanto, portanto, pois não faria aquele tipo de coisa sem prever tudo que poderia atingi-los por todos os lados, dependendo do tipo de abordagem que conseguiu supor que a defesa faria. Blásio elaborara as perguntas que Chang, supostamente, faria, pois estava um pouco mais afastado e poderia enxergar com mais clareza qualquer brecha que Draco pudesse ter deixado em sua acusação enquanto colocara Locke para pesquisar processos que tivessem da mesma natureza que tivessem sido julgados por Lancelyn para que pudessem ter uma ideia do comportamento do juiz.

Montara um verdadeiro plano de guerra, pois sabia que vencer aquela etapa seria um degrau a mais pavimentado em direção à vitória no processo de homicídio. Granger, aliás, não tinha muita experiência com processos que envolviam calúnia e difamação, pois, ainda que sua área fosse a criminal, como funcionária do Ministério da Magia era um tanto difícil lidar com aquele tipo de ação. O órgão julgava casos administrativos internos, mas a castanha não era juíza e, quando Promotora, não era de sua alçada processar em defesa da honra alheia, visto a quantidade de processos mais robustos e decisivos que tinha em mãos no cargo que possuía.

— Que fique constatado nos autos do processo que a acusação não concorda com a lida de uma carta que não pode ser contestada com antecedência. – Ele insistiu. – Caso a mesma prejudique minha cliente, de alguma forma, terei base para recurso, Senhor Meritíssimo.

— É uma carta de retratação e respeito ao juízo, Senhor Malfoy. – Chang deu de ombros, os dedos acariciando distraidamente o pedaço amarelo de papel. – Mas se a parte contrária se sente ameaçada por isso, Meritíssimo...

— Sem mais indiretas neste tribunal. – O juiz disse de má vontade, certamente cansado dos joguinhos entre as partes, voltando-se a ele. — Sua observação será constada em ata, Senhor Malfoy. Leia a carta para que possamos seguir em frente, Senhorita Chang.

— Como quiser, Meritíssimo.

Ela abriu o papel e abaixou os olhos enquanto, ao seu lado, a castanha empertigou-se na cadeira, claramente contrariada por ser dada tal regalia a Brown. Ainda tivera tempo de ouvir a porta de vidro ser aberta apressadamente e de Blásio adentrar o recinto com feições preocupadas, os olhos passando pela japonesa de pé até Granger sentada de pernas cruzadas à espera das palavras da inimiga. Ele quisera dizer algo com aquele olhar, insistira que algo estava errado, o sabia apenas pela forma como aprenderam a se comunicar sem a necessidade de palavras desde a faculdade. Contudo, a voz de Chang se fizera presente, ganhado sua atenção imediata.

Ao Senhor Meritíssimo Juiz Ministerial S. Lancelyn

Expresso sinceras desculpas pela ausência na decisão de uma questão de suma importância para que eu possa seguir em frente com minha vida dedicando meu olhar ao que me espera, não a um passado tempestuoso e indesejado.Porém, uma questão ainda mais importante demandara minha atenção, não podendo ser negada em qualquer esfera, ainda que este não seja meu objetivo em momento algum. Entrara em trabalho de parto na tarde de ontem, antes do esperado, mas certamente alegre por agora poder dizer que meu filho finalmente está entre nós, ruivo e tão guloso quanto o pai. Ronald estaria orgulhoso sobre como se parecem. Esperando que entenda o apelo e sincero pedido de desculpas de uma mãe que ainda está aprendendo e precisa de tempo para descobrir como sê-lo sozinha.

Lavender Brown

A sala ficou em silêncio por um minuto completo. Ninguém parecia saber o que dizer a respeito das palavras de “desculpas” da loira, nem mesmo Lancelyn. Seu olhar voltou a Zabine, vendo-o dar de ombros, pois agora era claro que aquilo era o que sabia de antemão e Draco não, mas não tiveram tempo. Ao seu lado direito, enquanto Chang sentava-se satisfeita por deitar aquele efeito sobre todos, Locke encolhia-se sabendo perfeitamente, tanto quanto todos ali o significado daquela carta.

Seu olhar recaiu sobre a castanha, sentada a seu lado, ainda um pouco em transe pela notícia. Pela provocação. Sua face agora se encontrava pálida, a respiração presa e os ombros tensos, como era de seu costume. Lilá Brown e Cho Chang podiam não ter ideia, mas sua ainda perda era muito recente. Uma semana após perder o próprio filho, a amante de seu marido fizera questão de jogar na sua cara o fato de que o filho de ambos nascera. Ele não poderia decidir se se tratava de uma completa baixeza ou pura e simples maldade.

Por um momento, Draco temeu que ela fosse levantar e sair correndo à procura do banheiro mais próximo a fim de colocar para fora tudo que ingerira no café da manhã. Assim, apertou seu pulso com uma mão, despertando-a à realidade de que estavam em um local público e que ainda esperavam uma sentença favorável. Granger o encarou com olhos doloridos por um instante, mas fez questão de apertar seu pulso ainda mais, a ponto de sentir a pulsação rápida e forte por baixo da pele fria que a dela se tornara em questão de segundos após absorver a notícia.

Ninguém disse nada sobre o copo d’água que Locke colocara à frente da mesma, despertando-a, cortando o contato visual que mantinham enquanto tentava lhe dizer que aquilo não era necessário. Iam vencer Brown ali e no próximo processo e Hermione não teria que lamentar ser menos mulher por não dar um filho ao marido enquanto a amante conseguira, pois essa era exatamente a intenção da outra. Conscientemente, a castanha sabia disso, mas sua mente ainda estava nublada pelo recente aborto. Ainda assim, com as mãos trêmulas, ela alcançara o copo e tomara um gole, respirando fundo.

— Podemos continuar?

Granger concordou sem palavra alguma e Draco voltou-se ao juiz, sua expressão mais impertinente e furiosa praticamente gritando que estivera certo desde o início. O próprio Lancelyn parecia arrependido de ter permitido a leitura pública de uma carta que ele poderia ter lido em sua própria câmara. Enquanto isso, Chang encarava a tudo da forma mais inexpressiva possível, como se o que fizera em nome de Brown não tivesse sido golpe baixo. Felizmente, contudo, a audiência estava sendo assistida e ouvida pelos repórteres amontoados do lado de fora e já podia ver Blásio, acompanhado da namorada Fawcett, conversando energicamente com alguns deles, gesticulando e argumentando contra o que acabara de acontecer ali.

— Vamos dar prosseguimento à audiência. – O juiz declarou, pigarreando de forma desconfortável, abrindo o envelope que continua a própria sentença, pronta desde que entrara ali e perguntara às partes se tinham novos argumentos ou provas. Não demorou, então, a que estivesse lendo as partes mais formais da declaração. – [...] Daí, de acordo com as provas apresentadas pelas partes fica claro que a ré, Senhora Lavender Brown, aproveitou-se de situações aquém de sua função para atacar a honra da requerente, Hermione Jean Granger, em esferas caluniosas e difamatórias. Em relação ao crime de calúnia, proferiu acusações infundadas sobre a outra parte, classificando-a como responsável pela morte do marido quando a justiça sequer debruçou-se sobre o assunto, sendo influenciada pura e simplesmente por emoções que não davam conta da realidade fática da época a que foram proferidas tais acusações. Quanto a difamação, denegrindo a honra e a imagem da demandante Hermione Granger, comprovadamente prejudicando-a pessoal e profissionalmente. Tendo em vista tais fundamentos, condeno a ré culpada ao pagamento das custas processuais-ministeriais, assim como aos honorários advocatícios fixados no valor de 10.000 galeões, além de conceder a requerente o pedido de retratação pública por parte da Sra. Brown.

O ruído do martelo ecoou pelo tribunal e todos começaram a se levantar, mas Draco voltou-se a uma Granger imóvel e um pouco fora da realidade, encarando o tampo da mesa com cenho franzido. Era uma vitória, mas não soava com uma. Não após a provocação que Brown propositalmente soltara, ainda que ausente. Ela sabia que, independente do resultado do processo, venceria com aquele trunfo. Tiraria à castanha e qualquer um que passara por um aborto indesejado dos eixos. A maldita tinha certeza.

Assim, seus olhos recaíram sobre a figura de Chang, a qual terminava de juntar os próprios materiais de trabalho, mas não parecia nem um pouco abalada pela derrota. Foi então que percebeu: elas haviam antecipado a derrota em juízo, mas Brown não deixaria passar tão barato. Ela avisara, afinal de contas. Seu objetivo era atingir Granger. Draco, tão concentrado estava em, mera e simplesmente, vencer não previra que as mulheres pudessem estar indo além do processo para tanto.

— Eu... Preciso ir para casa.

A voz rouca de Hermione o despertou de seus devaneios furiosos a respeito da própria falta de atenção. Ela já arrastava a cadeira, levantando-se lentamente, ainda um tanto anestesiada pelo que houvera. Do lado de fora, os jornalistas já pareciam em polvorosa pelo acontecido. Era a primeira vitória de Granger no que dizia respeito aos problemas jurídicos. Por outro lado, uma cartada de Brown, claramente, a pegara desprevenida e eles queriam uma reação a isso.

Os flashes disparavam desordenadamente contra o vidro, Blásio tentava contê-los em suas especulações, Locke dizia algo, Chang saía pela sala, porém, seus olhos não saíram da morbidez pessoal de sua cliente. Eles não tinham ideia, mas Draco não podia ignorar, simplesmente. Os olhos castanhos encontravam-se inexpressivos como há uma semana, quando a encontrara na banheira de seu quarto na Mansão Black. Ela não parecia ter absorvido tudo que havia para absorver ali; ou, basicamente, absorvera, mas não soubera como reagir há tanto porque era mais do que apenas o filho de seu marido e da amante. Tratava-se da criança que ela não pudera ter.

— Vou acompanhá-la.

Os olhos dela recaíram sobre Draco pela primeira vez após a lida da carta, mas não tinham muita vontade ou assimilação ali. Ainda, Granger conservava certa noção de onde estavam e sabia que precisava sair dali antes que um colapso se tornasse público e proclamasse a vitória não anunciada de Brown. A menos isso a mulher parecia perceber com clareza, afinal sua natureza competitiva nunca entrava em pane.

— Sr. Malfoy, Waterby o espera no escritório. – A voz eficiente de Locke despertou a ambos e Granger aceitou a bolsa que a estagiária a oferecia, ajustando-a ao ombro, de maneira desconfortável e pensativa ao perceber o tumulto jornalístico do lado de fora para que fosse conseguido o melhor ângulo para uma foto e o lugar mais propício para metralhá-la com perguntas. – E... Os jornais querem uma declaração, uma nota, qualquer coisa.

Waterby estava se tornando um empecilho inconveniente. Não podia deixá-lo na mão pela segunda vez e o tom de Locke demonstrava a mesma linha de pensamento. Além disso, Blásio vinha desenvolvendo um ingrato labor ao atendê-lo sem que o homem o quisesse com seu advogado, com este ininterruptamente demonstrando má vontade devido à sua ausência. Porém, ao encarar Granger novamente temeu que ela não pudesse ficar sozinha sem sucumbir a uma de suas fraquezas genéticas. A mulher não deixara de frequentar seus especialistas trouxas, mas lhe parecia simplesmente demais para uma só pessoa lidar e não podia evitar que a desconfiança a respeito do controle que ela mantinha sobre o próprio estado mental crescesse.

— Faça o necessário. – Ela declarou sem muita convicção. – Eu vou ficar bem. Andrômeda escreveu que queria notícias o mais rápido possível, de qualquer forma.

Assim, sem muito a poder discutir para mantê-la sob sua vista, com muito custo, observou-a desaparecer entre a multidão de repórteres eriçados, sendo ladeada por Zabine e Locke, que fora ordenada a acompanhar a castanha à casa de sua tia e garantir sua segurança e bem-estar. Tinha de admitir que elas não se conhecessem exatamente bem, mas a garota ao menos lhe traria notícias confiáveis sobre a castanha. A estagiária ficara muito empolgada em conhecer Granger, apesar da última não lhe demonstrar especial atenção, não a tratando diferente do que era esperado profissionalmente. Talvez fosse exatamente isso o que a estudante esperava, mas ele não dedicara muito de seu tempo mental a pensar sobre o assunto.

Então, forçou-se a prestar atenção ao presente e focar no que deveria fazer a partir dali para tentar reverter a inesperada e indesejada vitória de Brown. Não deveria ser iniciante o suficiente para iludir-se: ela ocuparia os jornais por alguns dias, daria algumas entrevistas, as pessoas iriam se solidarizar com sua nova condição de mãe-solteira e com a criança ruiva órfã de pai, mas sortuda em número de parentes também ruivos, que era seu filho. Contudo, não podia passar disso. Os efeitos e simpatias em relação àquele nascimento deveriam ser minimizados ao máximo. Precisava encontrar uma alternativa, colocar em voga algo que desviasse o foco e chamasse ainda mais a atenção da sociedade.

Com tal pensamento, então, encaminhou-se à porta e estacou perante os jornalistas, que se voltaram à ele, bombardeando-o com perguntas parecidas com as que tinham sido dirigidas a Granger. Entretanto, o tumulto foi silenciando-se à medida que, simplesmente, esperava por tanto. Eles perceberiam que tinha algo a dizer a respeito do assunto, diferentemente do que vinha fazendo há alguns dias, evitando-os ao máximo para manter o interesse sempre aguçado, sempre à espera e à expectativa do que poderia sair de sua boca. Enfim, não demorou.

— Como vocês puderam perceber, às vezes, o justo se faz certo. – Ele observou as feições ávidas e pesou suas palavras. – Lilá Brown torna-se uma pária à medida que suas ações são colocadas sob o escrutínio correto. E não estou dizendo que o é apenas devido à posição ocupada por tanto tempo em relação a Granger na família Weasley, a família de minha cliente, mas por todas as ações que vieram depois disso. O veredicto de hoje condenando-a só prova como tudo que fez foi tão entranhado pelo ódio que sentia por minha cliente que estava cega, não percebendo um palmo além do nariz, além do próprio ciúme e inveja. E ela sabia... Sabe! Lilá Brown não é uma adolescente estúpida que fala com voz nasalada e inventa apelidos estúpidos, ou ao menos não mais. Estamos diante de uma mulher que é capaz de tudo para atingir outra pelo que nem é sua culpa, pelo que homens e mulheres casados passam todos os dias. Granger e Weasley estavam em crise, sim, mas minha cliente não merece ser culpada pelas escolhas de outrem. Granger e Weasley ultrapassariam, sim, essa crise não fosse o impasse de Weasley e Brown. Um obstáculo que ela não procurou e que, mesmo agora, depois de tudo, Lilá tenta atribuir a ela quando deveria, como mesma escreveu, estar cuidando do resultado disso. Aquela carta? Foi mais baixa do que posso mensurar a vocês e o motivo é bastante sabido. Brown não tinha o direito! Ela sabia que perderia, mas fez o que muitos não sabem, cumprindo uma promessa estapafúrdia feita a Granger sobre acabar com sua vida. Bem, vocês viram o estado em que minha cliente saiu do tribunal, apesar de ter comprovado como as atitudes da outra foram mesquinhas, hipócritas e absurdas.

Ele saiu antes que pudessem perguntar qualquer outra coisa e tomou o rumo de seu próprio trabalho sem dar atenção a ninguém que não fosse minimamente importante, mas, ainda assim, gastando boa parte de sua educação para atender quem precisava. Estava atolado de trabalho no escritório, Locke fizera questão de lembrá-lo ao colocar Waterby na equação, mas precisava admitir que sua mente estava mesmo em Granger.

Assim, quando chegou ao escritório, disparando ordens à todos sem distinção, inclusive Henry, o estagiário esnobe de Blásio. Se Draco estava estressado, seu egoísmo dizia que todos deveriam ficar, atormentar quem pudesse era o objetivo do dia. O resultado era que o detestavam no fim do dia, mesmo Waterby, o qual considerou seu comportamento o ideal para representar sua energia superior em tribunal, exatamente o que estava procurando para tornar mais belo ou, minimamente, apresentável o sujo – como descobrira ser o seu negócio.

A noite já caía lá fora no momento em que, finalmente, dispensou Locke, a última a sair, exausta por fazê-la procurar todo tipo de precedente possível em relação a um caso de separação turbulenta de sociedade que resultara em tentativa de homicídio, onde obviamente ele representava o sujeito ativo. O status de ódio da loira deveria estar nas alturas, embora ele não se importasse o suficiente para retratar-se ao vê-la bufar e pisar duro ao buscar o casaco e encaminhar-se em direção a saída com um até “logo” bastante seco a seu ver.

Era de se esperar que estivesse de bom humor devido à vitória que tornaria sua vida bem mais fácil dali em diante, mas a carta de Brown estragara tudo e sua cabeça doía pesadamente devido a isso, pois a loira não atingira apenas Granger. Ela estava grávida dele e, embora não soubesse à época, ter conhecimento disso lhe trazia um sentimento estranho à tona. Estranho, afinal Hermione Granger gestava um filho dele e o perdera. Era quase um aviso do destino ou de qualquer que fosse a entidade de que aquilo que tinham, embora não tivesse parado para pensar exatamente o que era, acabaria, apesar dos laços que os uniam. Porque laços sempre são quebráveis, mesmo o de sangue, e nem isso puderam ter.

Gostaria de recuar, imensamente. Voltar ao ponto de partida e dizer ao maldito Potter que não postularia em nome dela, pois, dessa forma, não passaria a conhecê-la tão profundamente quanto o fizera ou, se não pudesse dizer que a conhecia (como bem suspeitava), talvez não representá-la evitasse aquele tipo de aproximação que, futuramente, a levaria dizer que o amava. Draco nunca se preparara para tanto e, mesmo sabendo que qualquer relação que tivessem poderia se romper a qualquer instante, como aquele feto pelo qual sequer sentia algo e que se fora, apenas aceitara sem que tivesse forças para tão merecido e quase inalcançável recuo. Granger era uma parasita que se instalara contra ele, sobre ele, tão fortemente que parecia impossível tentar se afastar e, a cada vez que considerava fazê-lo, lhe parecia cada vez mais difícil.

— Esse olhar concentrado, essa feição fechada... – A voz de Patil o puxou de volta a realidade. Parada à porta em roupas sociais, uma bolsa pendurada ao redor dos ombros e uma pasta azul às mãos. — Espero que não esteja pensando a respeito de um processo, Malfoy. Quem quer que seja, perderá feio.

Locke devia tê-la deixado entrar e Patil não era muito de se ater às formalidades, constatou ao vê-la adentrar a sala efetivamente, descartar a bolsa e acomodar-se à sua frente, as pernas cruzadas em falsa tranquilidade e a postura relaxada como bem sabia que a mulher não se encontrava. Sabia muito bem o que significava a pasta com a insígnia do Ministério que fora colocada à sua frente. Porém, apenas correu os olhos do objeto à mulher, sem mover-se para tocá-lo.

— Fofo vê-la cumprindo horários, Patil. — Deu de ombros sob o olhar fatigado da mesma. – Ser proletariado pode ser bastante cansativo.

— Fala como se não trabalhasse até altas horas.

— Faço porque gosto, não luto por horas extras. – Ela revirou os olhos, claramente indisposta a declarar-se sobre o assunto, no que Draco parou de rodear o assunto. – Sutter vs. Dippet?

— Como você queria. – Ela remexeu-se incomodada. – Precisei prometer alguns favores por isso, então espero que esteja pronto para me ajudar quando precisar pagá-los.

— Nossa vida é uma rede sórdida de favores e corrupção, Patil, aceite e siga em frente. – Ele pegou a pasta, abrindo-a satisfeitamente pela primeira vez no dia ao perceber que ali tinha, realmente, tudo que precisava.

— Não estou aqui para discutirmos a respeito das mazelas públicas que nos cercam.

Sorrindo prepotente, sem uma palavra e com um toque de varinha, fez com que os documentos desaparecessem instantaneamente, despachados para o cofre enfeitiçado que mantinha ali mesmo. Então, abrindo uma das gavetas da escrivaninha, pegou um pequeno vidro transparente, mas repleto de um líquido brilhante e viscoso, que continha as lembranças a respeito do que descobrira sobre Patil, assim como o envelope, que levava as provas concretas.

— Este assunto morre aqui, como pediu.

Ela meneou a cabeça, os cabelos escuros caindo lisos pelos ombros e costas ao se levantar. Pela forma como enfiou os objetos dentro da bolsa, constatou, a mulher trataria de livrar-se daquilo o mais rápido possível. A viu dirigir-se à porta sem muitas palavras, não eram amigos, de qualquer maneira, eram apenas negócios e Patil, obviamente, o detestava no momento. Mas não tanto assim, pensou ao vê-la voltar a ele com feições pensativas.

— Ei, irei a um pub mais tarde, The Red Lion, bastante famoso entre os funcionários do Ministério. Quer me acompanhar?

Ela deu de ombros, descontraída, mordendo os lábios cheios, deixando claro o que tinha em mente, o que o fez sorrir minimamente. Draco poderia ser detestável, mas era suportável o suficiente para que o sexo compensasse. Patil era linda – e quente – e em outros tempos, certamente, teria aceitado o convite sem considerar duas vezes. Então, apenas o fato de estar considerando o assustava terrivelmente e o colocava em alerta, empurrando-o a ficar cada vez mais próximo de não declinar e deixar todas aquelas questões de lado. Entretanto, Granger, assim como os problemas deles, não saía de sua mente.

— Seria ótimo, mas tenho um compromisso.

— Claro. – Ela sorriu, aparentemente, sem se abalar. – Fofo como se importa com o bem-estar de Granger, aliás.

Patil devolveu seu insulto na mesma moeda e foi-se sem esperar mais, pois, realmente, achava que ela não se importava com sua recusa mais do que o necessário. Enquanto ele, porém, continuava remoendo a própria decisão, saboreando um amargo gosto de derrota na boca. Não em relação à indiana, mas a si mesmo e a própria Granger. Se aquilo era uma competição, ela o derrotara e se deixara ser derrotado, lenta e vergonhosamente, como se aquilo fosse um jogo de dominó e, na última partida, ela tivesse derrubado todas as peças com apenas um ‘eu te amo’.

Revirou os olhos, levantando-se, e negando a si mesmo uma dose de conhaque, precisava controlar-se para não perder ele o controle ali. Logo, encontrava-se atravessando o jardim dos fundos da casa de sua tia, estranhando as luzes acesas e a aparente movimentação. O inverno já não era tão assolador quanto nos primeiros meses do ano, mas uma brisa fria ainda ultrapassava insistentemente suas vestes, fazendo-o amaldiçoar-se por esquecer o próprio cachecol e as luvas, principalmente.

Dessa forma, adentrou, sem realmente bater, e atravessou a cozinha em direção às vozes vindas da sala, embora, ao reconhecê-las, pensasse fortemente em mudar a rota e ir embora, sem deixar que Andrômeda e suas visitas percebessem que estivera ali. Contudo, seu instinto afrontoso parecia ter encontrado seu auge naquele dia. Assim, quando chegou a sala seu nariz se encontrava empinado como de costume e suas feições esnobes ainda mais acentuadas e irritantes – como bem percebeu ao ver seu reflexo em um dos espelhos do corredor. Bem, era o que todos ali esperavam.

Aparentemente, Molly e Ginny Weasley já estavam de saída, mas interromperam-se ao perceber sua presença. Viu como a ruiva mais nova empertigou-se incomodada, olhando-o desafiadoramente, enquanto a mãe simplesmente o observava sob os óculos de meia-lua que traziam uma corrente para mantê-los em volta do pescoço. Sua tia, entretanto, aquém da reação nada calorosa das duas mulheres, sorriu e o abraçou.

— Boa noite, senhoras. – Cumprimentou descaradamente. – Como vai, tia?

— Hermione me contou sobre hoje. – Ela sorriu, ajeitando seu cabelo, empolgadíssima a respeito da vitória sobre Lilá. – As coisas teriam que se ajeitar e darem certo para ela em algum momento, não é?

Ele encarou a mulher de cabelos negros e cacheados, branqueados nas raízes devido à idade, as rugas chamando atenção ao redor dos olhos. Ela que parecia não conhecer toda a história. Lhe soava estranho que a castanha não tivesse tocado no assunto. Não como uma surpresa, a mulher era conhecida por esconder seus sentimentos sobre várias camadas para demonstrar estar tudo bem, o que não estava e tinha certeza disso.

— Ginny e eu já estávamos de saída. – A Sra. Weasley anunciou. – Arthur nos espera para o jantar.

— Porque tão cedo, Sra. Weasley? – Encarou a mais nova, a qual estreitou os olhos. – Podemos nos sentar e conversar, como pessoas civilizadas costumam fazer de vez em quando. Vamos até fingir que sua filha é uma delas!

— Draco. – O tom de aviso de Andrômeda não o fez desviar os olhos de Ginny.

— Eu não preciso ficar aqui ouvindo seus insultos, Malfoy. – Ela buscou a bolsa. – Estou cansada, como você bem sabe, minha vida não é um mar de rosas. Tenho três filhos para cuidar, sozinha, graças à sua cliente.

— Você se engana assim de propósito ou acha que culpar os outros por seus próprios erros é, simplesmente, mais fácil?

Casualmente, andou até à estante de madeira que ocupava uma parede inteira da sala, abrindo uma das portas onde sabia estarem os exemplares de jornal que sua tia guardava desde sempre. Com auxílio mágico, não demorou a ter em mãos o que gostaria, estendo-o a ela, que o pegou de má vontade. Ela não precisava olhar, ele não precisava olhar, da mesma maneira que as duas outras mulheres da sala. Ler novamente as palavras ali descritas era desnecessário para todos, mas colocar sal em feridas quase cicatrizadas era um de seus passatempos favoritos, principalmente se envolviam o sobrenome Weasley.

— É engraçado como você tomou as dores de Hermione, não? – Ela deu de ombros. – Até uns tempos atrás vocês se detestavam e agora estamos aqui discutindo, justamente, porque você a está defendendo tão... Empenhadamente.

— É o meu trabalho defendê-la de tudo que pode ser prejudicial a ela no processo. O que você fez passou de todos os limites.

Era a primeira vez que se encontravam desde que ela concedera a entrevista que desencadeara uma série de outras entrevistas ou declarações que ele, assim como Potter, tiveram de dar para justificar as palavras da ruiva. Isso porque entraram em um consenso sobre a própria Granger, a grande envolvida, manter-se calada a respeito. Qualquer coisa que dissesse deixaria as pessoas mais aguçadas por mais, daria mais crédito às palavras de Ginny e colocaria sua raiva pela castanha nas alturas. O silêncio não consintiu nenhuma verdade absoluta e o assunto morreu sem muito alarde, em uma comprovação de que a máxima “quem cala consente” não era real, pois quem cala apenas não diz nada.

— Tudo que disse era verdade! – Ela aumentou o tom, as bochechas já coradas de raiva. – Hermione sabe disso ou teria, neste exato momento, um processo batendo à minha porta exatamente como fizeram com Lilá. Acha que eu sou burra? Vocês, simplesmente, não querem nenhuma atenção sobre essa história porque “seria prejudicial a ela”.

— Eu não acho que seja burra, eu tenho certeza que o é! Granger jamais a trataria como estamos tratando Brown, pois, por incrível que pareça, ela ainda tem certo senso de família em relação aos Weasley, o que, a meu ver... É estúpido e ingênuo! – Declarou sem remorsos, ouvindo um suspiro de Andrômeda e vendo a Sra. Weasley remexer desconfortavelmente. – Se eu fosse Granger, acabaria com você. A trataria exatamente como a tratou durante todos esses meses e me esforçaria ao máximo para fazer pior porque é o que merece. É o que você pediu. Mas não se preocupe, ela não o fará. Não porque é boa demais e não porque está com medo do que pode dizer sobre ela, mas porque costumava ser família.

A castanha pedira que ele não colocasse em prática qualquer plano que estivesse pensando para descontar o que a ruiva fizera, estava cansada de lidar com retaliações o tempo todo. Além de tudo, obviamente, Granger se sentia culpada por ter transado com Potter e não queria atrapalhar um possível reatamento, se estivessem ensaiando um, é claro, nenhum dos dois se interessava o suficiente para buscar as respostas para isso.

— Ela não pareceu considerar isso quando resolveu levar o meu marido para a cama, não é? Quando resolveram me trair! – Ela descartou o jornal com desprezo. – Isso é muito menos do que o que ela merece e fique sabendo que eu faria e diria tudo novamente.

Então, a mulher anunciou que iria embora e despediu-se de Andrômeda e, embora pudesse ouvi-las, seus olhos ainda estavam sobre o maldito exemplar do Profeta Diário que colocava tudo que menos gostaria em voga, ainda mais no momento delicado porque passava Granger.

FAMÍLIA POTTER DESABA: O DIVÓRCIO DE UM DOS CASAIS MAIS PODEROSOS DO PAÍS

Hermione Granger apontada como pivô por Ginny Weasley

Recentemente, Ginny Potter procurou a redação do Profeta Diário para anunciar algo que pode chocar a comunidade bruxa: a separação de seu marido, Harry Potter, o herói de uma geração. Segundo ela, eles vinham passando por uma crise inesgotável desde o assassinato de seu irmão, Ron Weasley, e, mais especialmente, desde que descobrira a infidelidade do marido.

Ginny nos conta que o próprio Harry lhe confessara a respeito do caso extraconjugal que mantivera com a melhor amiga do casal, Hermione Granger, até à época do acontecido, também uma Weasley. Culpado demais, mas também muito mexido pelo que fizera, de acordo com suas palavras, o que a motivou a aceitar o divórcio pedido por Potter.

“Eu não vou negar que ainda havia resquícios daquela paixão que sentia no começo, mas... Quando ele me comunicou que iria embora percebi como era infantil manter isso dentro de mim, sabe? Ronald está morto e a mulher com quem ele me traiu completamente livre para que fizessem o que bem entendesse, eu... Me vi sendo enganada em minha ingenuidade por achar que tudo voltaria a ser como antes se eu o perdoasse”.

A ruiva, que foi jogadora do Harpias de Hollyhead por anos e abdicou da carreira para cuidar da família enquanto Potter alçava sua meteórica carreira como Auror do Ministério da Magia e estrela do mundo bruxo, disse que o principal gatilho para não tentar manter o casamento foi, realmente, Hermione Granger. Depois disso, ela conta, Potter viu-se muito abalada com tudo que estava acontecendo:

Eu nunca pensei que eles pudessem agir de forma tão baixa, mas, em uma dessas noites após o assassinato de Ron, lá estava Harry me confessando tudo. As coisas estavam acontecendo rápido demais e, então, de uma hora para outra, o que era meu porto seguro tornou-se um estranho. Eu nunca esperei isso de Harry e não podia ou queria lidar com isso agora. Quer dizer, meu irmão está morto e eu tenho que processar o fato de que sua esposa e possível assassina esteja tendo um caso com meu marido?! Eu não estava preparada”.

Perguntada se considerava Granger a responsável pela morte do irmão em um plano mirabolante para ficar com seu marido, após tantos anos de amizade, a mulher não duvida: “é uma possibilidade bastante plausível, se pararmos para pensar. Sempre achei que pudesse acontecer algo entre eles, não sou inocente, mas nunca realizei que pudesse resultar na morte de Ron”.

Contudo, Ginny ainda diz que tentou salvar seu casamento, perdoando o erro do marido em nome de sua família e tentado recomeçar: “tentei... Eu, realmente, tentei passar por cima do que ele fez, da situação humilhante em que ele me colocou como mulher, pois as crianças mereciam. Harry é um bom pai e sempre fomos ótimos juntos, como uma família, achei... Que pudéssemos resgatar isso, entende? Em partes, eu queria que minha terceira filha vivesse a mesma infância de seus irmãos, repleta de brincadeiras e com a família toda reunida em volta de uma mesa farta aos domingos, mas... Algumas coisas são impossíveis, apesar de querermos muito”.

A – ainda – Sra. Potter reitera que é impossível uma reconciliação, pois o fato de Harry tê-la traído com a melhor amiga da família, alguém em que todos confiavam, foi um baque forte demais para se recuperar. Entretanto, diz que a vida, agora que não precisa ver o ex-marido todos os dias, parece ter se tornado mais leve: “eu não digo fácil, mas menos complicada. Harry vinha trazendo um peso a minha vida que eu não deveria carregar. Sempre que o encarava, ficava imaginando se ele teve algo a ver com o que aconteceu com Ronald e eu, simplesmente, não queria aceitar que estava pensando isso a respeito do meu próprio marido, do pai dos meus filhos e do homem que salvou o mundo bruxo quando ainda era apenas um menino. Vai contra a ordem natural das coisas, certo? Ele dormia ao meu lado todas as noites, deveria ser aquele em que eu mais confiava, mas... Não havia nem mesmo essa consideração”.

A herdeira mais nova do casal Weasley, ainda, informa que voltou a morar na casa dos pais, por não querer tirar a icônica casa de Godric’s Hollow de Potter, mas garante que por tempo determinado. Além disso, o vilarejo “está repleto de lembranças desagradáveis”, segundo suas próprias palavras, o que vai de encontro com seu objetivo de reconstruir e suas estruturas sem Potter “e a presença indesejável de Hermione Granger como vizinha”.

Evangeline Dippet

— Isso era mesmo necessário?

Draco levantou os olhos do papel amarelado, deparando-se com Andrômeda julgando-o com suas expressões mais duras. Descartou o jornal sem muito cuidado, levando uma das mãos à testa para tentar conter a dor e o nervosismo que praticamente escorria por cada poro seu. Não era a primeira vez que lia aquela matéria, semanas atrás praticamente decorara as palavras de Ginny e seu ódio latente por Granger. Ele gostaria muito que esta raiva se estendesse ao próprio marido, porém, aparentemente, ela tentava fazer de tudo para chamar sua atenção, elogiando-o, apesar do adultério, deixando claro, ao menos para Draco, que aquela era mais uma de suas aventuras.

Aliás, não, aquela discussão não havia sido nem um pouco necessária, mas fazia bem a seu ego constatar que dissera tudo que gostaria à ruiva quando não podia fazer mais que isso devido à estúpida consideração que Granger ainda tinha pela antiga família, principalmente em relação à Molly Weasley. Um tipo de culpa deturpado e desnecessário que ele não conseguia entender, que parecia estar além do natural, e que detestava porque ela não precisava deles de forma alguma.

— Weasley precisa perceber que sua vida não é um conto de fadas. – Ela revirou os olhos e ele a seguiu em direção à cozinha, servindo-se de um copo d’água. — Como Hermione estava quando saiu da audiência?

— Parecia um tanto distraída. Mas estava feliz com o veredicto favorável hoje, todos sabem que isso irá ajudá-la muito no julgamento por homicídio. – Andrômeda suspirou e remexeu a varinha para que todas as louças sujas começassem a ser instantaneamente lavadas. – Ainda não acredito que Hermione será julgada por isso.

— Ela não se encontrou com Weasley...?

— Oh não, Ginny e Molly chegaram bem mais tarde. – Ela lhe ofereceu uma xícara de chá, a qual declinou educadamente. – Seria um desastre, não?

— Exatamente. – Já o havia sido apenas com sua presença, Hermione e a Weasley mais nova se encontrarem depois de todas as acusações da outra seria uma catástrofe.

— Como Hermione está lidando com tudo? – Draco levantou os olhos pensativos em direção à mulher acomodada na mesa, consciente a que ela estava se referindo. – Conversam sobre o que aconteceu? Ela... Está superando?

Pensou um minuto a respeito, lembrando-se de todas as vezes em que Hermione se aconchegava como uma criança junto à ele, encolhida e frágil, sem dizer uma palavra. E de como, quando o silêncio se fazia presente por muito tempo, a recordação do aborto recente pairava sobre eles como um abutre, pronto para arruiná-los. Sim, a ambos, não somente a ela. Ele sentia como a mulher se abalava por isso e, também, como o sentir dela sobre o alcançava. Então, entendia porque abraçá-lo de madrugada e apertá-lo contra si mesma era necessário.

— Não falamos. – Mordeu a parte interna dos lábios. – Em algum momento, ela seguirá em frente, tia. Falando sobre isso ou não.

— Quando Hermione perdeu a primeira criança, uma menina, perguntou qual a minha reação à perda de Nymphadora. – Começou a mulher, encarando o tampo escuro da mesa com olhos perdidos. – Eu não soube o que respondê-la porque... Sabia que tive algo em que me apoiar. Teddy. A consciência de que, assim como Lupin e meu Ted, Tonks havia contribuído com sua vida para que meu neto vivesse em um mundo melhor era um consolo. Eles se sacrificaram por ele. Minha filha fez exatamente o que eu teria feito por ela, se tivesse a chance. A questão é... Saber disso nunca dirimiu a dor. Eu sinto falta dela todos os dias. Vejo seus traços em Teddy, a personalidade leve que ela carregava consigo, que mais lhe parecia ser um lema. Lembro-me qual a exata reação diante de acontecimentos simples e cotidianos, desde tirar a poeira dos móveis com magia, pois ela detestava fazê-lo do jeito trouxa, até cometer um desastre na cozinha. Merlin, ela era tão desastrada!

A viu menear a cabeça e fechar os olhos, já marejados por lágrimas. Eram raros os momentos que a senhora, tão Black em sua personalidade fechada e contida, se permitia falar da filha que tanto idolatrava de maneiras tão específicas. Andrômeda gostava de lembrar-se de Tonks em seus momentos mais descontraídos, falar sobre as qualidades da garota eram seu hobby e, quando Teddy fazia algo errado, dizia que o garoto havia puxado o defeito da mãe, pois Nymphadora Tonks não era um exemplo. Contudo, para sua tia, as imperfeições a faziam perfeita de um jeito muito peculiar e isso bastava.

— Enfim, eu pude ter tudo isso com minha filha, eu pude ser mãe efetivamente. Posso recordar momentos sobre Tonks que ninguém mais é capaz, lembranças que agora existem apenas na minha memória e que quero levar comigo por todo o tempo que me resta. Mas Hermione? – Ela o encarou, agora balançando a cabeça negativamente, levando-o a entender.

— Granger tem... Nada.

— Assim como não tinha há três anos. – Concordou abaixando a cabeça, considerando como Granger deveria se sentir vazia por sentir tanto por fetos que sequer se desenvolveram e dos quais sequer podia se considerar próxima, pois não fora além. Não havia personalidades das quais ela se lembraria com carinho ou reações previstas por uma mãe atenciosa, embora ele não duvidasse que a castanha fosse sê-lo. Ainda, mais importante, sequer havia um túmulo onde pudesse colocar flores para se sentir mais próxima dos filhos que não pudera ter. Ela se sentia uma mãe, mas incompleta, quebrada, vazia, sem nenhuma outra opção exceto aquela onde flutuava num mar de desilusões devido a tais sentimentos, sem nenhum farol como norte. – Eu espero que seja bom o suficiente para ajudá-la, Draco, porque, pela primeira vez, eu não me sinto tão apta a tanto.

Pelo tom da mulher, podia perceber como acompanhar Granger durante aqueles dias lhe fora um sacrifício, como lhe exigira mais do que podia, mais do que o necessário, fazendo-a reviver lembranças e sentimentos sobre a morte da própria filha enquanto fingia estar bem o suficiente para reerguer Hermione. Andrômeda tinha olheiras fundas ao redor dos olhos e feições cansadas, era visto como o estado da castanha a abalava e ele condenou-se por submetê-la a tal situação, mas não se impediu de admirá-la ao mesmo tempo. Granger aparentava satisfação, ela dissera, mas era boa o suficiente para notar que não havia apenas isso, para perceber coisas sobre Hermione que se percebia, normalmente, apenas em filho que se conhecia bem.

Entretanto, o que ela o mandava, agora mais expressamente do que nunca, soava como uma carga pesada demais a seus ombros. Identificava-se com a dor de Hermione e, às vezes, a consciência de que estava grávida dele o afetava imensamente, mas não passava disso, pois em momento algum se ligara a um feto do qual nem tivera conhecimento. Não podia experimentar essa perda como ela porque ele não se sentia um pai, apenas a palavra lhe soava estranha aos ouvidos. Sentia muito, sim, mas por Hermione, ele via, não pelo feto que não vingara, por sequer pudera desfrutar da expectativa de esperá-lo e querê-lo.

— Vou cuidar disso.

Percebeu-se tomando a tarefa para si, sem pestanejar. Porque ela não podia superar isso sozinha, porque era tão responsável quanto e, talvez, ele esperava que sim, fosse bom ser menos afetado pela situação em si, pois uma das partes dessa equação merecia estar sã. Ele era o único apto o suficiente para ajudá-la, como desejava Andrômeda, a qual pareceu dar-se por satisfeita pela resposta vaga ao pedido.

Assim, após alguns tópicos mais amenos em relação à Narcissa e sua nova obsessão por flores raras, assim como sua “simpática nova estagiária”, nas palavras dela, não demorou a que estivesse seguindo caminho por Grimmauld Place em direção ao n. 12. As ruas de Londres já não estavam tão frias e as poucas pessoas que vira no caminho até as escadas que levavam à porta de madeira escura, pareciam bem mais felizes com a leve, mas muito esperada, alta da temperatura.

A Mansão Black estava internamente aquecida, ocasionando no arrepio instantâneo de seus poros, ainda que se desfizesse dos agasalhados. Completamente iluminada no primeiro andar, Draco seguiu pelo corredor até chegar à sala de estar, onde se surpreendeu ao encontrar Granger sentada no chão, sobre uma das almofadas macias do sofá clássico, escrevendo freneticamente em um bloco de notas sobre a mesinha de centro, rodeada por livros, uma xícara grande de chocolate quente e uma tigela de marshmallows.

Depositando a maleta executiva em uma das poltronas ao seu lado, assim como o terno, encostou-se a parede silenciosamente para observá-la, um tanto desconcertado pela forma com que aparentemente contornara a carta de Brown. Os cachos, que normalmente lhe caíam volumosos até a altura dos ombros, estavam presos, mas algumas mechas se soltavam, o que sabia irritá-la pelo modo como os colocava desajeitadamente atrás das orelhas. O pescoço se encontrava virado em um ângulo torto enquanto percorria a caneta trouxa pelo papel e, de tempos em tempos, os lábios se contorciam em desgosto, o que a levava a rapidamente rabiscar o que acabara de escrever.

Ela ainda tinha muito da garota sabe-tudo que passava horas na biblioteca de Hogwarts, sempre com deveres adiantados e lendo livros enormes apenas por diversão, percebeu. Os olhos percorriam apressadamente as linhas dos livros à sua frente, mas ela não se detinha aos mesmos e lhe parecia um tanto agitada. A agitação, contudo, não faziam parte da Granger criança, sempre centrada e organizada. Hermione Granger adulta não carregava consigo nenhum desses adjetivos – não depois de tudo; mas ela estava tentando, devia reconhecer. O fato de estar se reaproximando e se reencontrando no trabalho era bom, mantinha sua mente ocupada. Apenas devia verificar que não estivesse afundando-se em qualquer coisa que proporcionasse uma fuga dos problemas que, inevitavelmente, deveria resolver. Seu papel era lembrá-la disso.

— Ainda espero ser creditado neste artigo. – Comentou aproximando-se, tirando-a da linha de raciocínio que a mantinha distraída. – Todos esses livros espalhados pela casa, os post-it pregados no banheiro, as xícaras intermináveis de café, chá, o chocolate quente, o maior estoque de pipoca que já vi...

— Talvez nas letras miúdas. – Ela o encarou seriamente, mas deu de ombros ao considerar mais. – Mas não garanto nada.

— Além de todas essas madrugadas em que a ouço sussurrando teorias jurídicas e preciso estar acordado para concordar. – Sem cerimônia, Draco acomodou-se ao lado dela no chão, pegando um dos blocos que já tinha sido completamente preenchido com sua letra miúda. Porém, rapidamente a castanha o tirou de suas mãos. – Eu quero uma dedicatória.

— “Obrigada pelas madrugadas fingindo me ouvir”? É o que eu lhe dedicaria. — Ela guardou o bloco perto do vaso de flores, que estava afastado, onde não pudesse alcançar. – E você não concorda, apenas solta muxoxos incompreensíveis, Malfoy.

Em compensação, porém, lhe entregou a xícara de chocolate quente, sem contestação, pois aprendera a dividir o chocolate quente e ele não pudera se impedir de apreciar a bebida por algum tempo, vendo-a voltar aos escritos que ele não tinha permissão para ver, ainda que a ouvisse tagarelar quase ininterruptamente sobre o assunto.

Granger tinha uma proposta que revolucionaria o Direito Mágico, mas só conhecia os primeiros esboços. Ela nunca se aprofundava o suficiente no assunto para que descobrisse e, além de tudo, não poderia prever o que a mente conhecidamente genial para assuntos jurídicos da mulher estava planejando. Poderiam trabalhar juntos, mas seus métodos eram bem diferentes, então sequer imaginava que rumo o artigo dela tomaria a partir do que ela contava.

Todavia, apesar de gostar de vê-la trabalhando, presenciara a forma como ela saíra do Ministério, abalada pela notícia do nascimento do filho de seu marido. Além disso, Andrômeda lhe dissera que, apesar da animação, não havia só isso e o próprio Draco percebia uma constante sombra em seus olhos castanhos. Ainda, apesar da conversa distraída e do modo como o recebera tranquilamente, a forma como ela mantinha-se séria praticamente lhe gritava que não estava bem, afinal haviam acabado de dar um grande passo em direção à comprovação de sua inocência e ela sequer se mostrava animada como estava antes de adentrarem o tribunal. Era bastante compreensível visto o que acontecera, mas queria uma reação.

— Hermione?

Ela percebera apenas por seu tom que mudara o assunto, vira como seus músculos se contraíram em tensão e como a caneta estacou sobre o papel, logo sendo descartada sem muita vontade, deixando os ombros caírem em um suspiro chateado. Ninguém falou por alguns minutos e Draco apenas deixou que ela tivesse seu tempo para decidir o que externaria, afinal não fingia que sabia tudo sobre a castanha. Ela lhe dava migalhas do que sentia, do que passava em seu interior, o que significava que sua dedução e observação tinham de funcionar o tempo todo. Do contrário, não teria nada.

— Se estiver perguntando se estou bem, a resposta é não. E se a questão é como estou, digo que me esforçando. Mas... – Granger, finalmente, declarou em tom baixo, meneando a cabeça em negação, lentamente. – Sinto que nunca conseguirei superar isso. Em meu íntimo, a batalha está muito perdida para mim. O que percebi hoje é: ainda que eu saia por cima de tudo isso, tudo está despedaçado, inclusive eu. E... Não importa o quanto tente, ela sempre será e terá mais do que eu por que... Não faço ideia de como colocar tudo no lugar e... Não posso nem pensar...

Ela se interrompeu antes que pudesse dizer, antes que tivesse a voz, já embargada, cortada pelo choro. Ela não queria ceder dessa vez e Draco entendia. Hermione estava cansada de se deixar levar por emoções incontidas, de não ter controle sobre si mesma. Queria seguir em frente, dar um passo adiante naquele caminho tortuoso que já lhe parecia longo demais. Contudo, algo sempre a puxava para trás. Primeiro, o aborto e então o nascimento da criança de Lilá e Weasley. Era cansativo ter de estar alerta, lutando o tempo todo contra a corrente.

Ainda de costas para si, a deixou se recompor enquanto a frase inacabada quase ecoava pelo ambiente silencioso. “Não posso nem pensar em ter um filho”, é o que ela diria, sem dúvida alguma. Tratava-se do maior problema que Brown trazia à equação e não era segredo, o fato de poder ter um filho que Granger não tivera — não porque ele fosse filho de seu marido adúltero — e, não importasse a situação, a castanha se sentiria menosprezada por isso.

Pacientemente, segurou-a pela cintura e a acomodou entre suas pernas, ainda que com alguma má vontade. Entregou a xícara de chocolate, o que sabia ser infalível em agradá-la, e conjurou um cobertor grosso para esquentar a ambos, visto que os braços desnudos da castanha estavam gelados devido à blusa sem mangas, embora usasse meias e uma calça de moletom confortável.

Granger forçou-se a descansar a cabeça contra seu ombro, tentando relaxar, e não demorou que seus dedos se entrelaçassem embaixo da manta, sobre a barriga lisa. Foi então que uma ideia até então impossível lhe passara pela mente, uma ideia que não lhe seria concebível até certo tempo atrás, mas que lhe fazia muito sentido após a confissão da mulher sobre querer estar grávida dele, muito além da declaração sobre amá-lo: Draco poderia lhe dar um filho, se ela realmente o desejasse.

Já haviam ultrapassado todos os limites possíveis quando ela expusera seus sentimentos e, ainda que não soubesse se a amava da forma como a mulher gostaria, pois nunca se deixara fazê-lo, percebeu ser capaz de tanto. Porque, mais do que qualquer uma, Hermione merecia e, contra todas as expectativas que o rodeavam, contra o que a própria castanha tinha em mente quando lhe dissera sem sequer esperar ouvir de volta – porque era madura o suficiente para isso — Draco não fugiria disso.

— Vamos colocar tudo no lugar. – Ele murmurou contra seu ouvido, sentindo-a encolher-se, confortavelmente, cada vez mais contra si. – Eu prometo.

Homens sábios dizem

Que só os tolos se apaixonam

Mas eu não consigo evitar

Me apaixonar por você

— Elvis Presley

Notas finais
OIIIII!! Nossa, tanta coisa aconteceu nesse capítulo né? Teve a matéria de Ginny (e muitos acertaram o que poderia ser), teve Lilá/Cho (e sei que vão querer me matar por deixá-las serem vadias a esse ponto), teve Andrômeda novamente (pois fazia muito tempo que eu queria colocá-la abordando a falta de Tonks), teve Patil indo a negócios... Bom, vê-se que essa é uma história de mulheres e Draco só se mantem na maré né? kkkkkkkkkkk Brincadeiras à parte, tem gente que está mesmo disposto a ajudar Hermione a se recuperar né?? Eu disse que Draco poderia surpreendê-los nesse capítulo. Bom, ele ainda está assustado e ainda não sabe muito bem o que sentir a respeito do aborto e a respeito da declaração de Hermione, mas como vocês sabem é DRACO, então as coisas tem que ser super processadinhas né? A vantagem é que ele não fugiu, como as apostas diziam. Enfim, espero que tenham gostado desse capítulo assim como gostei de escrever. Demorou? Demorou, mas sempre sai! Além disso, muito obrigada pelos comentários no anterior, eu acho que Hermione se declarando surpreendeu bastante gente! *_* Por isso, os quero aqui novamente pra agora comentar essa decisão de Draco! Eu acho que é mais do que esperavam hem! Além disso, estamos falando do maior capítulo da fic!! ENTÃO, vamo falar de coisa séria? A 4º parte de Black and Blue foi postada, então quem acompanha a série de song's, corre pra lá porque tá uma gracinha, tem aquele drama amamos e aqueles momentos de casal que não podem faltar!! Espero os comentários/recomendações de vocês lá pra me incentivar a escrever a continuação :D https://fanfiction.com.br/historia/733378/Soon_Well_Be_Found/ AINDA, me aventurei em escrever uma UA com tema na música Hotel California e que segue a mesma linha meio misteriosa também, cheia de referências! O comentário construtivo de vocês lá também será muito importante, assim como possíveis recomendações ;) vai que surgem outras histórias nesse estilo. Também é narrada por Draco! https://fanfiction.com.br/historia/734711/Hotel_California/ Bom, por hoje é só, até o próximo!! ♥