Neurótica
37 Capítulo 37
Tranquilamente, observou como as mãos dela espalmaram a madeira da escrivaninha que os separava em um acesso de fúria latente e compreensível. O rosto, sempre tão bem cuidado, encontrava-se contorcido pela raiva e a incredulidade que a dominavam naquele instante. Porém, tudo que fez foi arquear uma das sobrancelhas e, simplesmente, esperar.
— Isso é baixo até mesmo para os seus níveis, Malfoy!
— Então, acho que estamos, finalmente, jogando no mesmo patamar. — Deu de ombros, distraidamente. — Todos sabemos como os jogos medíocres são os seus favoritos.
Dippet arregalou os olhos levemente, mas logo voltou a semicerrá-los enquanto pressionava a boca em uma linha reta, os olhos o analisando em busca do objetivo final que o levara até o escritório da Editora-Chefe do Profeta Diário. Deixara que ela o recebesse de forma agradável, oferecendo-lhe uma dose de conhaque, declinada educadamente, antes de sentar-se e questioná-lo sobre o “favor da vez”.
Draco gostava de ser um canalha durante a maior parte do tempo, mas nessa ocasião, em particular, vinha tendo um apreço maior pela coisa. Evangeline era uma interesseira de mão cheia no que se referia a encontrar brechas para exercer seu direito à liberdade de expressão, sem preocupar-se em exceder-se o quanto fosse possível. Como boa cria da própria profissão, ela almejava o furo jornalístico, as fontes anônimas, as palavras distorcidas e, por fim, o resultado de tudo isso.
Costumeiramente, não se importava minimamente com seus métodos, até mesmo o agradara em diversas e convenientes ocasiões. Entretanto, o acordo quebrado que anunciara ao mundo o drama de Granger em relação ao seu primeiro aborto ainda não havia sido satisfatoriamente resolvido da forma como gostaria. Afinal, um de seus prazeres pessoais sempre foi manusear as peças do tabuleiro para que elas trabalhassem da forma como bem entendesse.
— Eu quero que saia, agora, do meu escritório. — O tom dela foi controlado, mas era possível ouvir cada nota de raiva contida ali. — Ou chamarei a segurança e esse é um escândalo que terá desejado não ter criado.
— Não se preocupe, nós não vamos fazer escândalo. — Desdenhou preguiçosamente, levantando-se e preparando calmamente a própria dose de conhaque, que lhe fora oferecida minutos antes de a expressão dela transformar-se em fúria devido a ele. — Vamos sentar e conversar, como duas pessoas educadas e dispostas a chegar em um acordo. Um novo acordo. Do tipo que você não estará apta a fazer objeções ou tentar burlar. E eu não estou me referindo a um voto perpétuo ou qualquer artifício mágico que possa manter sua palavra. Então, sente-se.
O ruído do gelo contra o vidro do copo arredondado tilintou pesadamente sobre o silêncio da sala e as expressões gritantes dos olhos femininos. Obviamente, a mulher não era estúpida o suficiente para imaginar que ele, simples e leigalmente, lhe jogasse informações soltas, captadas aqui e ali em boatos crescentes durante certa época de ascensão. Dessa forma, lentamente, a mulher deixou-se acomodar na cadeira, ainda que de forma rígida, com as mãos juntas sobre a mesa e as costas retas.
— Os boatos que correram naquela época eram absurdos. Não tinham e não têm cabimento. Me intriga muito que você...
— Evangeline, poupe a nós dois do seu discurso de redenção. — Draco também sentou-se, encarando-a com atenção. — Sutter caiu fora há muito tempo, você conseguiu o que queria, lide com isso, para bem ou para mal. Podemos jogar as cartas na mesa sem medo ou desculpas esfarrapadas.
— Lidar com o que, especificamente? — Ela aumentou o tom, mas controlou-se antes que chamassem a atenção. — Tudo que fez até agora foi se apropriar do que inventaram e jogar na minha cara que o que eu tenho não foi conquistado por merecimento.
— Isso quem está dizendo é você. Acredito no seu potencial, acredito que tem… Como vocês falam, o instinto. — Sorriu petulante, revirando os olhos levemente. — O que fez foi genial, não estou negando, aprecio pessoas que passam por cima do que for para alcançar os fins que colimam. É o que dizem, instinto.
—Eu não sei do que está falando.
A fase da negação sempre fora a sua favorita. Geralmente, vinha acompanhada do óbvio sentimento de defesa, o momento em que a guarda está erguida em uma alta muralha de atenção e argumentos favoráveis. Negar conhecimento completo a respeito do questionamento quase sempre o levava a uma rendição ainda mais satisfatória. Lutar pela conquista do que queria tornava a vitória mais saborosa.
Assim, calmamente, tirou a varinha do bolso e recitou o feitiço de conjuramento que materializou a conhecida pasta de conteúdo jurídico sobre a escrivaninha de Evangeline. Primeiramente, ela encarou o objeto de forma desconfiada, quase como se contivesse uma azaração, trapaça ou algo do gênero, mas com seu incentivo, a mulher pegou a pasta com emblema do Ministério da Magia Britânico e a abriu, correndo os olhos pelas letras que Draco sabia preencher as folhas amarelas. Ela não precisava de muito, além de Sutter vs. Dippet.
— Bom, já que você sequer se deu ao trabalho de folhear os documentos… — Alcançou a pasta, que ela fechara bruscamente antes de passar para a segunda página, e a guardou em sua pasta. — A última parte contém um acordo homologado pelo juiz Hurtz entre as partes do processo, Evangeline Dippet vs. Hellbert Sutter, o qual teve como causa o crime de chantagem, movido pelo último. Segundo a transcrição, foi determinado o fim da ação por falta de provas suficientes de ambas as partes e…
— É o suficiente, Malfoy! — Ela levantou, claramente secando o suor das mãos contra o tecido do vestido claro que moldava seu corpo. Viu como os músculos dos braços finos à mostra se contraíram pela raiva, a qual, de costas e apoiada contra um aparador metalizado em prata adornado por floreios em alto relevo, respirou fundo e continuou em tom mais brando. — Tudo que eu conquistei até aqui, cada passo milimetricamente pensado, cada decisão tomada... Essa merda pode acabar com a minha carreira. E você sabe. Porque está fazendo isso?
— Sabe, temos isso em comum. Digo, a sensação de ser detentor do poder de controlar carreiras, vidas, é… Intensa, não é? Satisfatória. — Ele levantou-se, aproximando-se da mulher, que meramente o encarou com olhos frios, apesar de tentar manter a postura dominadora de sempre com sua cabeça erguida, nariz empinado e feições que deveriam ser desafiadoras, mas que não obtinham tanto sucesso assim. — Você faz isso todos os dias, ao sentar aqui e definir com a vida de quem vai acabar dessa vez, aos interesses de quem irá atender… Talvez esteja até mesmo acostumada a trabalhar com uma lâmina tão afiada assim. Mas hoje? Hoje eu posso sentir esse deleite. Pode ser um pouco viciante, admito. A vejo tremer em cólera seca por mim e não consigo deixar de pensar por um segundo em como merecemos essa situação. Eu, e meu óbvio poder de jogá-la na lama com apenas algumas cartas enviadas às pessoas certas, e você, pronta para me dar qualquer coisa em troca de… Um acordo.
— Sutter está em seu devido lugar. — Ela declarou baixo, mas de forma determinada. — Não me arrependo de ter sido eu a colocá-lo lá. Ele estuprou aquela mulher, da forma mais vil possível. A assediou constantentemente, aproveitando-se de sua posição de liderança dentro dessa redação. Eu presenciei cada constrangimento, cada lágrima que ela derramou pelo abuso que sofria todos os dias, cada acesso de raiva pelo qual ela passava, todo o transtorno que ele a fez passar, então não admito que isso esteja em discussão aqui.
— Não está. Aliás, não duvido que isso tudo tenha realmente acontecido. — A conversa corria rápido e particular. — Mas você não é essa alma benevolente que quer fazer parecer. Tudo pelo bem de Triny Waltzman e de toda e qualquer mulher que tenha sido vítima de Sutter? Não seja tão ordinária! Você viu uma oportunidade para chegar onde queria e a usou descaradamente. Afastá-lo dessas mulheres foi apenas um efeito colateral positivo.
A questão era bem mais profunda do que ele imaginara quando decidiu que precisava estar de posse do processo Dippet vs. Sutter. À època, quando a última herdeira do aclamado ex-diretor de Hogwarts Armando Dippet fora inesperadamente alçada ao cargo de editora-chefe do Profeta Diário, os boatos eram de que a mesma mantinha um caso com o antigo dono do cargo, Hellbert Sutter, e, com isso, o estava chantageando para alcançar uma posição melhor no jornal.
Portanto, com a desculpa de uma aposentadoria há muito almejada, o senhor de 60 e poucos anos cedera a posição à jovem “talentosa, de inestimável valor e bastante ambiciosa”, segundo palavras do próprio homem. Todavia, o limitado mundo bruxo, devido a fonte anônima e interna, tivera conhecimento de que o ex-editor movera ação contra a editora-atual, reforçando ainda mais a hipótese de que Sutter fora chantageado pela mulher ambiciosa que ele mesmo descrevera.
Com o tempo, o assunto foi esquecido, embora jamais tivesse abandonado o imaginário popular. Resultado disso, Evangeline ficara conhecida como uma vadia trapaceira, indigna de confiança, ainda que ocupasse um lugar de grande renome na sociedade bruxa moderna. Com o processo em mãos, porém, Draco tivera a confirmação concreta e rubricada pelo Ministério: a mulher era uma vadia trapaceira, mas a fama lhe viera por motivo incorreto. Bom, de qualquer forma, nenhum dos motivos para chantagem lhe soaria favorável, afinal ela, meramente, trocara a denúncia de estupro e assédio sexual no trabalho, ainda que de terceira pessoa envolvido, por um cargo.
— Não vejo como isso pode ser condenado por você.
Evangeline ainda encontrou algum desdém para olhá-lo, mas Draco apenas forçou um sorriso tranquilo. O sangue frio corria por seu corpo de forma cadenciada, como normalmente acontecia, impossibilitando que perdesse a calma por motivos esdrúxulos. Tinha uma situação ali e ela estava sob controle.
— Na verdade, eu evito fazer julgamentos dessa natureza. — Draco deu de ombros. — Errados ou não, tenho meus interesses e luto por eles. É o que estou fazendo agora.
— Qual é o seu ponto, Draco? — A mulher perguntou pausadamente, no que, finalmente, pôde avistar a vitória abstrata caminhando para si em largas passadas.
— O tribunal do júri irá começar e eu não quero nenhum movimento do Profeta Diário contra Granger. Nada de traçar perfis de sua vida com Weasley a partir das provas do julgamento, nada de enaltecimentos a Lilá Brown e sua nova rotina de mãe solteira e filho órfão, nada de especulações sobre a relação de Granger com os Potter… Especialmente a Potter. Ginevra não tem espaço neste jornal, não tem uma primeira página dedicada a ela e às merdas que profere sem filtro apenas por ressentimento. Ginevra não é uma esposa ressentida e não tem que parecê-lo apenas para satisfazer a imaginação popular. — Recitou em um só fôlego, no que ela expressou incredulidade instantânea.
— Isso é repressão e sabe muito bem disso.
— Você não publicará nada sobre Granger antes de passar pelo meu crivo ou sem que eu lhe mande. — Ele terminou ignorando, completamente, o protesto da mulher em nome de seu maldito jornalismo corrupto e fajuto. Não se importava, nem minimamente, com seu suposto ato de repressão se fosse levar em consideração os absurdos já publicados no Profeta Diário. — É um acordo bom o suficiente para você, dessa vez?
Lentamente, ponderando a situação, a mulher umedeceu os lábios secos pelo nervosismo e abaixou os olhos até o espaço de chão entre eles. Um ato incomum para mulheres como Evangeline Dippet, acostumada a ter todas as suas ordens e vontades satisfeitas, e Hermione Granger, sendo elas semelhantes em muitos aspectos. Então, quando não o respondeu, levou uma das mãos ao queixo pontudo, mas delicado e macio, forçando-a a encará-lo, sem pressionar além da conta.
— Eu não sei quando e não sei de que forma, mas não tenho pressa. — A voz dela não passava de um murmúrio raivoso, assim como os olhos flamejantes de ódio. — Ainda irei acabar com você.
Draco forçou um sorriso superior, refletido pelos lábios bem feitos e desdenhosos da outra, mas soltou o maxilar da mulher, afastando-se. A um canto da sala, buscou e vestiu o casaco pendurado, o olhar recaindo sobre o copo de conhaque, esquecido sobre a mesa de madeira nobre, agora manchada pela água do gelo derretido. Uma dose não surtiria nenhum efeito sobre sua atuação na corte aquele dia, mas sua consciência ainda o lembrava que sempre faria diferença a Granger, especialmente próximos como se encontravam naqueles dias.
— Bom saber que pudemos chegar a um acordo sem maiores problemas. — Ele abriu a porta. — Tenha um dia produtivo, Evangeline.
Do lado de fora, Locke esperava em uma postura ansiosa, os pés adornados por botas negras de couro batendo insistentemente contra o chão. Porém, a garota colocou-se de pé assim que o viu, os cachos dourados balançando acima dos ombros. Draco simplesmente passou por ela e esperou ser seguido, repassando mentalmente tudo que havia sido dito até então.
— Aquilo foi… Intenso. — Ela classificou em tom duvidoso pelo adjetivo.
Podendo acompanhar toda a movimentação interna da sala pelas janelas de vidro, a garota certamente percebeu como o clima dentro da sala da Editora-Chefe do Profeta Diário exalava tensão, assim como os demais funcionários subordinados da redação do jornal, apesar de que as possibilidades de um deles estar tão atento àquilo quanto sua estagiária fossem mínimas.
— É o que faz os meus dias melhores, você sabe.
Adentraram um elevador cuidado por um ascensorista uniformizado e de olhos moles que, imediatamente à seu comando, os levou até o primeiro andar, onde se dirigiram a uma pequena sala de estar com quatro grandes lareiras que os levaria ao Ministério da Magia. Não havia contado a Granger suas providências em relação a Evangeline, encarava aquilo como algo mais pessoal. Dippet agira contra ele e o acordo deles, a questão da revelação do aborto fora apenas um efeito. Como bom Sonserino, portanto, jamais poderia deixar aquilo barato. O único resultado indesejado de tudo era: estava atrasado.
A primeira audiência do julgamento de Granger estava marcada para aquela tarde, mas sua nova negociação com Evangeline fora além do previsto. Os corredores que levavam ao Décimo Tribunal encontravam-se vazios, certamente todos já estavam acomodados, confortavelmente ou não, a fim de acompanhar o início de um dos julgamentos mais históricos dos últimos anos. Não eram todos os dias que uma heroína, modelo da sociedade bruxa, recebia em sua porta uma acusação de homicídio qualificado. Por um lado, poderia ter paz para pensar por um instante.
Assim, a passos largos, finalmente chegaram à porta de madeira que os separava do alvoroço que a ocasião prometera desde o início. Soubera por alto que algumas pessoas estavam apostando o destino de sua cliente. Inocente. Culpado. 10 galões. 5 galeões. Milhares de bruxos com um mesmo objetivo: garantir um conforto a mais por algum tempo às custas da sorte de Granger e da competência de Draco. Merlin, realmente detestava o proletariado!
Contudo, com uma das mãos rodeando a maçaneta e a outra apertando a alça da própria pasta entre os dedos, hesitou. Sentiu os olhares dos dois policiais uniformizados do Ministério sobre si, assim como a inclinação de Locke para tentar entender o que estava acontecendo com ele, mas não lhes dedicara especial atenção, apenas concentrava-se em controlar as batidas aceleradas do próprio coração.
Draco só hesitara uma vez diante daquela porta e ainda lembrava-se claramente. Junho de 2004. Acabara de completar vinte e quatro anos. Era a primeira vez que enfrentaria sua ex-colega Hermione Granger (Weasley) no Tribunal. Não sentia nada especial sobre ela, mas estava consciente o suficiente da mulher brilhante que se tornara — todos estavam. Era uma visita ao passado, apesar de claramente demonstrarem como haviam amadurecido naquele espaço de tempo, principalmente a castanha. Então, ele tremeu, ela ganhou.
Agora, não se importava com a vitória dela à época, mas condenara-se por tempo suficiente para que a competição velada se iniciasse e ultrapassase os anos. Porém, importava-se com a vitória. Seria a vitória de sua vida. Até o segundo de hesitação, não se permitira pensar na derrota, mas, mais do que em qualquer outro momento, a possibilidade lhe pesara sobre os ombros.
Apesar de tudo, passara a se importar com ela em nível que jamais chegara com outra pessoa. Ela era a heroína que deveria defender da melhor forma que podia e o faria, estava determinado e confiante, mas então a castanha disse que o amava. Granger tornara tudo real e palpável e intenso de tal forma que via-se, simplesmente, anuindo ao que eles eram. Não muito, mas realmente o eram. E só então, diante daquela porta, o medo real de que isso se esfarelasse entre seus dedos se fez presente.
Embora outros pudessem denominar por otimismo, sempre fora muito confiante. Ele garantia a si mesmo, sabia que tinha talento e, principalmente, o alimentava com estudos diários, o que o levara aonde estava naquele instante. Entretanto, nada disso parecia importar diante da possibilidade de não ser capaz o suficiente para defendê-la de forma satisfatória. Porque ela se declarara e agora era tudo maior, assim como sua responsabilidade pela cliente que, longe do ideal, ia além do profissional.
— Sr. Malfoy? — A voz de Locke o tirou dos devaneios de forma educada. — Achei que estivéssemos atrasados.
As palavras dela o lembraram do momento claro em que dissera não ser capaz de defendê-la se aquilo se tornasse maior. Porém, Draco, em hipótese alguma queria ser o responsável pelo fim do que eles eram e, principalmente, pela condenação de Granger a Azkaban, devido a erro esdrúxulo. Ele não confiava em mais ninguém além de si mesmo, era Malfoy, por isso estava prestes a defender o caso de sua vida, sem se permitir errar. Ou hesitar.
Dessa forma, viu como em câmera lenta seus dedos apertando-se ao redor da maçaneta dourada, torcendo-a ao ruído alto e intimidante da fechadura sendo destravada. Olhos curiosos voltaram-se à ele, os murmúrios sobre seu atraso inundando a Corte no primeiro dia do julgamento de Granger — fato nada promissor, aliás, pois sempre abominara atrasos. Entretanto, empinando o nariz levemente, fez de suas expressões as mais impertinentemente confiantes possíveis enquanto descia a ladeira pouco inclinada de piso amadeirado em direção ao centro do espaçoso cômodo.
Satisfatoriamente, percebera que Zabine tomara seu lugar como advogado principal, suprindo sua momentânea ausência, pois a audiência já estava em andamento. Diferentemente de casos similares, o julgamento de Granger seria decidido por um Tribunal do Júri, semelhante aos trouxas, pois tratava-se de um dos membros máximos da Suprema Corte Bruxa. O pedido do advogado substituto de Patil, Charlie Edgecombe sustentava-se na tese de que Granger não poderia ser julgada por seus próprios colegas, com quem já possuía certa afinidade, afinal, supostamente, o julgamento não seria baseado apenas nas evidências apresentadas pelas partes. Gostaria de saber quem ele gostaria de enganar com tal discurso, todos sabiam que aquilo seria sobre quem daria o melhor espetáculo.
Em um estratégia traçada por eles dias antes, deixaram para usar a substituição de jurados, caso percebessem estar em desvantagem. Àquele ponto, todavia, Charlie Edgecombe fazia perguntas a algumas das dezoito pessoas presentes, dispensando alguns e esperando pacientemente que o Escriba convocasse o próximo. Enquanto Zabine cedia seu lugar, a juíza o encarou com olhos reprimidos devido à movimentação inevitavelmente causada por sua chegada, mas apenas meneou a cabeça em um pedido silencioso de desculpas.
— Onde estava? — Perguntou Granger um pouco indignada ao inclinar-se em sua direção. Não parecia realmente brava, apenas chateada e curiosa, embora devesse saber que não se atrasaria não fosse uma boa causa.
— Resolvendo algumas pendências. — Sussurrou de volta enquanto abria a pasta e ajeitava-se na cadeira.
Viu o questionamento em seus olhos castanhos, centímetros de distância os separando, mas foi justamente no momento em que o júri levantou-se para prometer julgar o caso com imparcialidade e parcimônia. Era um procedimento rotineiro para Draco, apesar de certa mudança em relação às pessoas que ali estavam, por isso enquanto Edgecombe fazia seu discurso de abertura rodeou sua cadeira para encarar as pessoas que ali estavam, não surpreso ao ver vários rostos conhecidos.
A família Weasley, certamente, era a mais característica. Carregavam semblantes agoniados e ansiosos, sendo a primeira vez que podiam participar do tribunal que, supostamente, traria alguma justiça à morte de seu filho, irmão e cunhado. Não podia deixar de explicitar sua criticidade sobre o quanto aquela gente tinha fé em um sistema criminal tão corrompido e manipulável. Às vezes, alguns casos se sobressaíam por conterem decisões consideradas justas. Porém, sua crença era única: advogados podiam ser santos e demônios, dependendo do ponto de vista, e eles raramente lutavam por justiça.
Teve de notar que Ginny não estava entre os seus, pois era um dos nomes mais gritantes da lista de testemunhas, assim como Harry Potter, Lilá Brown e os demais que serviriam para embasar diferentes teses, afinal eles não poderiam acompanhar o processo efetivamente em uma precaução a possíveis manipulações de seus depoimentos. O trabalho de Draco era tirar-lhes todas as informações possíveis e relevantes, dar muito que pensar ao Júri para deixá-los confusos, dando espaço a uma ponta salvadora de dúvida em relação a culpa quase certa de sua cliente.
— [...] Estamos aqui, Senhoras e Senhores, porque uma família tão bem estruturada como é a Weasley, a qual por tantos anos contribuiu com nossa sociedade em busca do melhor para todos, ainda que enfrentando preconceito por parte de alguns, não pode passar por isso sem um julgamento razoável, adequado à pessoa que matou Ronald. Um julgamento justo, meus caros! Um julgamento que não deve ser levado às favas, simplesmente, porque a mulher que o matou, sua própria esposa, um dia foi uma de nossas heroínas. — Edgecombe, na altura de seus 40 e tantos anos, era um homem enérgico. Draco estreitou os olhos em direção a figura alta e grisalha do homem de cabelos compridos que utilizava uma capa preta e comprida, característica dos Promotores Ministeriais, assim como o chapéu de copa quadrada. Se o júri fosse formado por membros da Suprema Corte, estariam vestidos de forma idêntica. — Hermione Granger não é mais aquela garota simpática e inocente que um dia andou por esses corredores sendo a promessa de futuro do Ministério da Magia, a mulher que foi minha colega por muitos anos, uma das preferidas do próprio Ministro Kingsley. Não! Hermione Granger é a pária que matou seu marido a sangue frio, simplesmente, por não concordar com uma separação que, todos sabemos, poderia ter ocorrido com muita tranquilidade e sem muito alarde. Essa é a Hermione Granger que nos foi revelada, alguém que desprezou o sobrenome que utilizara por tantos anos ao livrar-se do mesmo, tal qual livrou-se daquele que o dera a ela. Ronald Weasley, por sua vez, só tinha uma coisa em mente: constituir uma nova família com Lilá Brown e a criança que estava chegando. É um crime, senhoras e senhores? Divórcio é um crime nessa sociedade? Weasley estava em busca de algo maior do que um casamento que já demonstrara ter suas estruturas mais do que abaladas, embora Granger o negue enquanto pode. No entanto, as provas sempre estiveram entre nós para quem quiser ver. Granger não tinha medo de demonstrar em jornais e revistas o quanto sua vida era perfeita, mas… Após a morte de seu marido, a verdade veio à tona por meio de Brown. A vida de alguém que divide o marido com uma amante não é perfeita, a vida de alguém que luta para manter um casamento à força? Não é perfeita! Foi com a morte de Weasley que todos nós descobrimos o quanto fomos enganados por alguém que demonstrava ser um modelo a ser seguido por todos. Estou me incluindo entre vocês, pois… Estamos mais do que indignados, todos nós, e queremos mais do que certamente exigiram dela até agora. — O homem apoiou-se na bancada que os separava dos jurados, ganhando a atenção de todos, envolvendo-os. — Aquela mulher anda entre nós como se fosse digna de estar entre os bons quando tem consciência da crueldade do que fez ao próprio marido. Como representante do interesse de todos nós, durante este processo, espero que me auxiliem a alcançar uma sentença que seja justa e correspondente aos atos dessa senhora. Hermione Granger não merece menos do que Azkaban.
Edgecombe era o tipo de advogado que conquistava os jurados lhes dizendo o que os mesmos gostariam de ouvir e, por isso, tinha sua simpatia. Reparou, incisivamente, como alguns dos mesmos o encararam com aquele ar infinitamente irritante de concordância, os olhos acompanhando-o com a indignação que o próprio invocara, semicerrados ao voltarem-se para a figura presente do início de um possível ódio. Era sua hora de começar a virar o jogo, entretanto.
— A defesa tem seu tempo para o discurso inicial.
A juíza deu o aval após o agradecimento de praxe do outro advogado e Draco levantou-se, andando tranquilamente até o púlpito amadeirado que o separava dos jurados. Enfiando as mãos no bolso, encarou-os sem pressa, intimidando-os e tomando sua atenção sem uma palavra. Então, com satisfação, viu a palpável curiosidade alcançando-os de forma eficiente. Não precisava de muito, após Edgecombe, eles apenas queriam ouvi-lo.
— Sabe, às vezes, penso que nossa sociedade se tornou completamente deturpada durante este período de paz. Penso que estavam procurando desesperadamente por algo que os tirasse dessa irritante monotonia dos últimos anos. Queremos o caos, gostamos dele, o fabricamos e o alimentamos. Milhares de guerras foram travadas ao longo dos séculos porque essa é a natureza do ser humano. E Hermione Granger é o caos. — Ele olhou ao redor, percebendo que todos o encaravam com atenção, tentando entender a linha de raciocínio que seguiria. — Essa Hermione Granger descrita com tanta inescrupulosidade por meu colega Edgecombe não é nada além daquilo que vocês criaram em busca do caos para separá-los entre mocinhos e vilões. Minha cliente sobreviveu ao julgamento da própria sociedade que a criou. Vocês a colocaram neste patamar alto e quase inatingível, onde heróis de guerra devem ser um modelo a ser seguido, vocês se aproveitaram e consumiram tudo que ela tinha para lhes dar, exigindo cada vez mais e mais. — Ele já não falava ao júri, mas a toda a Corte. — Então, quando Granger caiu, do auge do que deveria ser a vida perfeita que vocês exigiam e estimulavam, ficaram desapontados. Compreensivelmente, eu diria. Afinal, ela tinha a vida que vocês sempre desejaram: o emprego, a casa, o marido… Sua própria história! Vocês descobriram, da pior forma, que sua heroína tinha defeitos. Humanos e, a seus olhos, irreparáveis. Por isso, escolheram puni-la da pior forma que poderiam. Granger teve seu perfil traçado de variadas formas nos últimos meses. Assassina, manipuladora, louca… Foram só alguns dos adjetivos. — Ele deu de ombros. — Vocês buscaram se vingar porque se sentiram enganados? A julgaram porque ela não lhes suprira a expectativa? Ou, simplesmente, se aproveitaram de seu drama pessoal para, finalmente, tentar derrubá-la? Não se preocupem, eu lhes direi: o objetivo era colocar ordem no caos. Hermione Granger estava se tornando maior do que qualquer um pudesse prever e vocês não podiam lidar com isso, porque sempre desejaram estar no seu lugar. Hermione Granger estar aqui hoje é o início do fim dessa tentativa tácita de pará-la, puni-la por ser imperfeita. É genial, realmente acho, não fosse o fato de que existem aqueles que acreditam que ela não deveria estar aqui. Aqueles que sabem que Hermione Granger, aquela Hermione Granger que tanto idolatraram durante os anos, seja por sua atuação na Guerra, seja pelo seu trabalho no Ministério, está aqui, sentada perante todos vocês, à espera do julgamento lhe devem, porque, lá no fundo, vocês sabem que ela jamais seria capaz de matar o próprio marido, o amigo de infância com o qual lutou uma guerra. — Propositalmente, se voltou ao púlpito pertencente ao Júri. — Por isso, espero que deixem de lado essa visão que tentaram lhes impor de vilões contra mocinhos, pois isso não existe. Existem humanos e as qualidades e defeitos que pertencem a cada um. Hermione Granger, aquela que conhecem, tem muitas qualidades e, ainda que não seja o que esperavam, milhares de defeitos. Mas, acima de tudo isso… Hermione Granger não é uma assassina, nunca mereceu ser tratada da forma como foi, assim como também não merece Azkaban.
Ao terminar, respirou fundo, percebendo que seu discurso inicial fora muito além do que planejara. Porém, o júri o encarava com tal atenção que, se fosse outro, invejaria. Podia ver em seus olhos que os fizera pensar e que as palavras de Edgecombe já se confundiam com as suas, o que era satisfatório para seu primeiro contato com aquelas pessoas. Demonstrara indignação, humanidade e conhecimento a respeito de sua cliente, tentando criar uma linha de confiança entre si, a mesma e os jurados.
A seu ver, ainda que exaltasse o fato da mesma ter seus defeitos, era uma linha de defesa muito mais eficiente do que tentar torná-la perfeita. Depois de tudo, seria um tipo de argumento que eles não comprariam com facilidade, afinal Granger admitira conviver com uma depressão, confessara um aborto e uma crise quase insuperável no casamento, além do último fato a respeito de um caso com o melhor amigo do casal. Seu ponto era: a vida dela não era perfeita, assim como a de todos ali. O objetivo? Esperar que os jurados se identificassem com sua história.
Apesar da confiança que fazia questão de aparentar exalar de cada poro seu, sentia o sangue pulsando rapidamente em seu pescoço, tornando sua respiração um pouco mais acelerada que de costume, ao acomodar-se novamente ao lado de Granger. Ela lhe sorriu minimamente, como em agradecimento, mas percebeu que os olhos encontravam-se mais escuros, um tanto desprovidos de emoção. E Granger costumava ser um turbilhão de emoções.
Então, o contato visual foi interrompido pela voz da juiza Griswold, dando espaço a que Edgecombe começasse sua acusação e ficasse à vontade para chamar qualquer das testemunhas que constasse da lista entregue à Corte com antecedência. Entretanto, o homem de olhos claros não parecia ter pressa alguma, pois antes fizera uma descrição detalhada sobre a cena do crime.
— Como vocês puderam ver no relatório do processo, o Sr. Weasley fora encontrado morto em seu próprio banheiro, o que sugere a confiança de Weasley em relação a pessoa que fizera isso, afinal…
— Protesto, Meritíssima, especulação. — Ele não faria aquilo fácil para Edgecombe. — Não há nenhuma forma de o senhor Promotor Substituto supor esse laço de confiança.
— Meritíssima, é uma dedução lógica. — O outro rebateu como se fosse óbvio. — Não havia nenhum sinal de arrombamento na casa…
— Weasley pode simplesmente ter recebido o próprio algoz. — Deu de ombros.
— Se o Sr. Malfoy permitir, irei continuar uma linha de acusação aqui, Meritíssima. — A juíza o encarou por cima dos óculos e negou a intervenção, como esperava. — Não é qualquer um que tinha acesso a um cômodo tão privado. Ainda, quem fez isso, conhecia o Sr. Weasley como ninguém, afinal utilizou-se de uma Maldição Imperdoável a fim de forçar uma aparência de suicídio a um assassinato cruel, premeditado a sangue frio por alguém que sabia o quanto Weasley sofreria no processo. Um artifício assim só poderia ser usado por alguém que o conhecesse extremamente bem. Isso porque Granger imaginara que Weasley tentaria resistir a Maldição, que tomava conta de sua mente, no intuito de tentar não seguir suas ordens. — Com varinha em mãos, o homem fez com que uma folha de papel ilustrado com o brasão de Hogwarts flutuasse até eles. — Esses são os registros da passagem do ex-Auror Alastor Moody por Hogwarts. Em uma de suas aulas como Professor de Defesa Contra as Artes das Trevas, um impostor chamado Bartô Crouch Jr. ensinara seus alunos a resistir a uma Maldição Imperius… Coincidentemente, o melhor amigo de Weasley, Harry Potter, fora um dos chegaram mais perto disso. Ou seja, Granger sabia ser possível que bruxos com grande força de vontade conseguissem não ser tomados pela Maldição. Que grande força de vontade poderia motivar Weasley mais do que a criança que estava esperando, a nova vida que planejava com a Srta. Brown? Não havia nenhum sinal de luta além da óbvia falta de vontade com que tirava a própria vida. — Ele encarou os jurados, como um ator desapontado. — Agora, o que vão encarar pode ser um pouco chocante, mas será necessário para determinar como, de fato, Granger tinha a intenção de punir o próprio marido por não lhe fazer as vontades, consciente dos requintes de crueldade utilizados para castigá-lo.
Então, antes que pudesse protestar, Edgecombe movimentou a varinha bruscamente e, poucos metros acima de suas cabeças, uma réplica em tamanho grande de uma das fotografias periciais da cena do crime flutuava para todos verem, como uma imagem de telão, mas para sempre paralisada naquilo que Weasley se tornara: nada mais do que um corpo vazio.
O ruído na plateia foi ensurdecedor no momento em que perceberam que o choque inicial se fora. Comentava sobre como a pele pálida de Weasley contrastava com o sangue espalhado pelo banheiro, completamente maculado pelo líquido vermelho que antes caía tão bem àquele homem. Ninguém anteriormente tivera acesso às imagens da perícia, por isso a surpresa e a repulsa por quem era o responsável — Hermione Granger, para muitos.
Ouvia o nome dela em meio a outros, mas percebera que ela não tivera coragem de encarar ninguém a seu redor. Nunca a acusação fora tão real, nunca a sensação de ser considerada uma pária pela sociedade fora tão palpável. Com a respiração calma, ela mantinha os olhos sobre o colo, também incapaz de encarar a imagem de seu marido morto. Porém, era possível perceber as manchas avermelhadas que lhe subiam o pescoço pelo nervosismo, ainda que seus cachos estivessem soltos, tapando-lhe parcialmente a visão.
Seus olhos voaram até onde os Weasley encontravam-se, mais especificamente analisando a matriarca mais velha aos prantos, tentando ser consolada pelo marido, o qual, claramente, já não tinha mais forças para tanto. Parecia-lhe que Arthur Weasley envelhecera 10 anos em apenas alguns meses, assim como sua senhora, visivelmente mais magra e cansada.
Evangeline aproximou-se, já com sua pose recuperada, pelo mesmo corredor que passara minutos antes. Os olhos triunfantes pelo fato de a acusação estar alcançando o intuito inicial de comover o público e o Júri, embora não tivesse muito a ver com isso. Muitos jurados, de fato, estavam desviando os olhos da cena, enojados pela imagem forte, alguns contendo lágrimas, afinal Ronald Weasley era uma pessoa querida na comunidade bruxa, tornara-se um comerciante prestigiado, tinha contato com todos os tipos de pessoas e, de modo geral, estas gostavam dele.
— Ordem do Tribunal ou a sessão será suspensa até que os guardas retirem todos! — Griswold ainda chamou a atenção algumas vezes, o martelo soando alto sobre a desorganização das vozes exaltadas da plateia.
— Meritíssima, essa é uma clara estratégia da defesa de tentar distrair e comover o público e o Júri. — Levantou-se, seu tom incisivo. — Pois até o momento, o Sr. Promotor não foi capaz de produzir nenhuma prova que ligue minha ciente à morte de seu marido, o que só deixa mais evidente sua inocência. Além do fato de ser uma afronta a família Weasley, que também se encontra no recinto.
Blásio e Granger o encararam imediatamente, um pouco surpresos com sua repentina preocupação com a família arqui-rival da sua. Realmente, não importava-se com o quão chocante era a cena de Ronald Weasley completamente sem vida, mesmo que de forma tão brutal. Não conseguia sentir absolutamente nenhuma empatia pelo que ele fora. Não gostava do ruivo, era um fato imutável e perfeitamente aceitável, ao menos a Draco. Porém, não era o momento de alimentar certas rixas.
— Sr. Edgecombe, peço que retire essa imagem da Corte, deixando-a restrita aos autos do processo, aos quais apenas o Júri terá acesso.
— Meritíssima, com todo o respeito, a minha linha de defesa irá se utilizar dessas imagens durante todo o processo…
— Sei como funciona o processo, Sr. Promotor. — A Senhora Juiza o cortou antes de continuar, afinal não era raro que homens conservadores tentassem desafiar sua autoridade ali. — Além disso, li este em específico atentamente e conheço as evidências apontadas pela Promotoria. Estou lhe ordenando para retirar essa específica imagem da Corte Pública, pois sei que ela não é necessária à sua linha de raciocínio.
Draco sentou-se satisfeito, tendo esperando que uma foto como aquela continuaria realmente sendo utilizada a cada vez que Edgecombe quisesse aproveitar-se da empatia do público. Enquanto isso, o outro voltou à sua mesa, após fazer com que a imagem sumisse, reorganizando suas anotações para dar continuidade a audiência, o que não demorou a acontecer, embora fosse claro o incômodo dos jurados pela demora. A expectativa era corroía a todos uniformemente.
— Como eu vinha dizendo e iria demonstrar pela imagem, a crueldade aqui chegou a pontos inimagináveis, mas também devemos ressaltar como Hermione Granger foi cética em relação a autoridade do Ministério da Magia. Talvez porque fosse uma funcionária de longa data e, devido a seu passado dourado, jamais acreditou que pudesse ser incriminada. Mas eu não a colocaria como descuidada. Uma mulher como Granger não pode ser rotulada como descuidada. As digitais dela, Senhoras e Senhores, puderam ser encontradas por todo o banheiro, inclusive na varinha que ordenou a Maldição Imperius. — Com mais um feitiço não verbal, a varinha encontrava-se entre eles, flutuando perante os jurados, ainda que num saco transparente para protegê-la de qualquer deturpação. — Eu lhes pergunto: porque a impressão digital da Srta. Granger estava na varinha de Weasley, quando a própria confessara abertamente que eles não era mais um casal? Não soa estranho a seus ouvidos? Você emprestaria sua varinha a alguém que já não considera mais íntimo?
— Meritíssima, minha cliente não se pronunciou em nenhum momento a respeito disso, a acusação está fazendo suposições, colocando palavras em sua boca. — Draco argumentou sem levantar-se.
— Estou meramente expondo o único motivo plausível para Granger ter estado com a varinha da vítima àquela noite, minhas testemunhas corroboram tal tese.
— Continue de onde parou, Sr. Edgecombe. — A juíza determinou.
— Se continuar assim, teremos que seguir para o plano B. — Zabine inclinou-se sobre Granger para murmurar. — O júri está muito incomodado com tantas interrupções. Contestar cada argumento de Edgecombe dessa forma soa como se estivéssemos tentando atrapalhar a acusação porque temos algo a esconder. A cooperação é um instituto superestimado, mas…
Draco anuiu, os olhos recaindo sobre Granger, que negava com a cabeça. De pernas cruzadas, ela mantinha as mãos entre as mesmas, provavelmente tentando inutilmente aquecê-las. Sabia por experiência que as mãos da castanha poderiam ser delicadas, mas eram quase que constantemente frias, assim como os pés, e o nervosismo as tornava ainda mais geladas.
— [...] Por algum motivo, não foi identificado nenhum registro de feitiço ilegal na varinha de Granger, mas a varinha de Weasley, a arma utilizada no crime, estava infectada por suas impressões de qualquer forma.- Edgecombe continuava ironicamente. — Lembrem-se: a varinha de uma pessoa que, segundo os depoimentos de Lilá Brown, queria manter distância de Granger. Certamente, o Sr. Weasley estava se sentindo ameaçado o bastante para tentar sair de casa e, no processo, ser impedido por Granger…
— Novamente, a declaração do Sr. Edgecombe é repleta de suposições. — Draco levantou-se novamente. — Como os depoimentos de Lilá Brown podem provar os atos de Weasley naquela noite? Ele estava em sua própria casa, sozinho, no momento do acontecido, é impossível deduzir seus passos.
— Bom, então, deixe que Lilá Brown lhe explique como pode ter tanta certeza que Weasley iria sair de casa naquela noite.
— A ligação do destino que os unia é a prova principal? — Retrucou irônico, no que ambos encararam a juíza.
— Invoque sua testemunha e deixe as deduções de lado, Sr. Edgecombe.
Para o desgosto de todos de sua bancada, o Promotor escolhera iniciar a oitiva com Lilá Brown. Era claro que ele não queria fechar sua sessão de depoimentos com a amante da vítima, sabia que Draco jogaria todos os jurados mais conservadores contra a loira e toda a situação de transtorno inadmissível em que Granger fora submetida pela casal. Era uma jogada esperta, pois, de qualquer forma, ele se utilizaria de Brown para emocionar os jurados com sua história, mas não daria foco à ela.
— Vamos mudar. — Murmurou, considerando como os jurados remexeram-se desconfortáveis com sua interrupção anterior, além da mudança de cenário pela qual passavam.
— Não. — A castanha foi incisiva em negar, o plano B não fazia seu estilo e não era lhe era nada agradável, pessoalmente falando.
— Granger, sem Brown como última testemunha, é desvantajoso manter Potter. Os jurados ficariam com uma péssima impressão sua…
Ela não iria concordar, estava em seus olhos castanhos e implacáveis, ainda que Blásio utilizasse todo os seus melhores argumentos. Granger não queria depor como ré e fizera um documento alegando-o antecipadamente, o qual fora colocado junto aos autos no prazo correto. Ela sabia como as perguntas poderiam ser invasivas e mais dolorosas do que já haviam sido até então, afinal ela não poderia mentir, sob pena de perjúrio.
— Meritíssima, gostaria de fazer uma espécie de aditamento no processo. Bom, talvez a palavra certa fosse retificação. — Edgecombe o encarou sob os óculos de grau em uma carranca descontente por interromper a convocação de sua testemunha.
— Desenvolva, Sr. Malfoy. — Comandou a senhora com a desconfiado.
— Consta dos autos que minha cliente não irá depor como ré no processo, gozando do direito de manter-se calada e não produzir prova contra si mesma, mas iremos mudar sua estratégia de defesa. — Apoiou-se contra a mesa e correu os olhos por cada um até chegar ao Júri. — Hermione Granger irá se submeter a depoimento juramentado, contar tudo que sabe e tudo que viu na noite da morte de seu marido.
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