Neurótica
28 Capítulo 28
CASO GRANGER-WEASLEY: CHO CHANG COLOCA MAIS UMA PROVA EM EVIDÊNCIA
Na tarde de ontem (17), pouco antes de fecharmos a edição de hoje do jornal, o Profeta Diário recebeu um envelope do escritório de advocacia Chang, Goldstein e Selwyn contendo a cópia de um pedido de divórcio em nome de Ronald Weasley.
Segundo Chang, em entrevista posterior, o documento comprova aquilo que sua cliente, Lilá Brown, sempre alegou em suas declarações desde que o Sr. Weasley foi encontrado morto no banheiro de sua casa tendo os pulsos cortados por si mesmo devido a uma Maldição Imperius: Ronald realmente pediria o divórcio naquela noite.
Há ainda um pequeno bilhete escrito pelo Sr. Weasley rascunhado de próprio punho, avisando que iria passar no escritório para pegar os documentos com a própria Srta. Chang, quem estava gerindo seu divórcio e, agora, também é responsável pelas ações cíveis que garante que moverá contra Granger em nome de Lilá Brown: “é completamente injusto o que minha cliente está passando devido às ações impensáveis e inaceitáveis de Hermione Granger. Sabendo o que sei, estou certa de que o QG tem toda a razão em tê-la como principal suspeita”.
Cho Chang, contemporânea da Srta. Granger em Hogwarts, embora um ano mais nova, diz que a outra costumava se estressar com facilidade quando as coisas fugiam ao seu controle: “estive em um rápido relacionamento com Harry Potter nessa época e tentei fazer com que ele passasse mais tempo comigo em detrimento de sua amiga por que ela o monopolizava completamente, mas tenho certeza de que Granger está por trás de nosso término. Não tem uma explicação lógica a não ser sua má influência por estar perdendo espaço para mim”.
Assim, a advogada de Lilá Brown acha completamente plausível que Hermione Granger esteja, de alguma forma, envolvida na fatídica morte de Weasley, ainda que a varinha da outra não tenha indicado sinais de ter produzido a maldição Imperius após um feitiço comprobatório: “Granger é imprevisível, você pode observar isso ao vê-la atuando em seus casos. Além disso, ela conhece todos os meios de fazer com que isso aconteça sem que a culpa recaia sobre si. Quer dizer, eu sou só uma advogada cível! O que a gente sabe é: eles estavam em crise, Weasley tinha a posse dos documentos de divórcio, Granger mentiu naquela noite sobre seus horários... Ou seja, algo aconteceu”.
Cho Chang, entretanto, não quis entrar em mais detalhes sobre a investigação alegando não ser da área criminal e não estar atualizada quanto aos avanços dos aurores, preferindo focar no atual estado de sua cliente, a qual acaba de adentrar os cinco meses de gravidez e recentemente travou um embate público e não planejado com Hermione Granger em uma famosa casa de chás no Beco Diagonal: “Lilá poderia ter sofrido sérias consequências após a briga. Granger ultrapassou todos os limites do bom senso a ofendendo das piores formas possíveis. Ela [Brown] ficou muito nervosa. Tudo que Granger lhe falou... Foi de uma baixeza intolerável”.
A advogada ainda reiterou o que foi dito por sua cliente durante a discussão com Granger: “eu acho, sim, que Granger se ressente pelo fato de Brown estar grávida. A meu ver, apenas piorou a visão que já tinha do próprio marido. Quer dizer, não havia mais amor naquela relação e o respeito... Pode restar algum respeito ao outro após saber que este mantém um caso extraconjugal?”.
Chang afirma que não culpa Granger por seu ressentimento, pois o considera “compreensível”, segundo suas próprias palavras, mas exige respeito a sua cliente e ao estado em que encontra: “é inadmissível que todas aquelas coisas seja ditas a uma mulher grávida, sendo ela minha cliente ou não, por que se trata de uma pessoa que já se encontra mais sensível que as demais, que sofre com mudanças drásticas de humor a todo o instante! Granger sabe, ela fez de propósito com que Lilá perdesse o controle e as coisas terminaram daquela maneira lastimável”.
Na mesma ocasião, Lilá Brown agrediu fisicamente Hermione Granger com um tapa no rosto em um local público, sendo crucificada pela maioria dos meios bruxos de comunicação. A sociedade bruxa, claramente conversadora escandalizou-se com o ato e Brown voltou ao posto daquela que tentava invadir o paraíso dos Weasley. Chang caracteriza isso como “compreensível”, mas não admissível quando se sabe todos os fatos que envolvem a história completa: “Granger queria esse casamento tanto quanto um goleiro quer uma goles em seus arcos. Ela não era a esposa machucada que quer fazer parecer. Esposa conformada, sim. Se Ronald estivesse vivo, tenho certeza de que teria dado um jeito de estarem juntos até hoje, o que é egoísta, por que ela não se importava com ele”.
Cho Chang, então, finaliza avisando que irá entrar com uma ação contra danos morais contra Hermione Granger antes mesmo que o inquérito termine para que sua cliente seja indenizada de forma justa pelo constrangimento público pelo qual passou devido aos ataques da outra na única vez em que ambas se encontraram pessoalmente. O Profeta Diário irá continuar acompanhando o desenrolar dessa questão e se compromete em informar o leitor, estando, inclusive, à disposição de Granger e de seu advogado, Draco Malfoy, para que possam rebater as palavras de Chang.
Evangeline Dippet
Draco soltou um riso de escárnio assim que passou os olhos pelas últimas linhas da matéria escrita especialmente pela editora-chefe do jornal. Esperava que o Profeta Diário fosse parcial, mas não tão abertamente quanto Evangeline colocou. O jornal fora o único que não dera muito espaço a discussão pública das duas mulheres de Weasley, claramente para que a imagem de Brown não fosse tão desgastada após a agressão contra Granger. Entretanto, dias depois uma desculpa fora rapidamente arranjada para que Brown pudesse ser defendida.
Descartou o jornal calmamente, pensando que mais um fato apontando para Granger era tudo de que precisavam para que apenas ela fosse indiciada pelo QG de Aurores, em detrimento de Teddy, visto que o pedido de divórcio coincidia com sua aparente falta de controle emocional devido à depressão assumida combinada com a aversão de ver seu castelo de cartas desmoronar pela lufada de ar da jogada de Chang.
Tinha de admitir, a japonesa fora esperta. Ela esperara o momento certo para soltar o pedido de divórcio e a prova de que Granger o tinha em mãos naquela noite, apesar de não ter sido encontrado. Ele estava com Hermione Granger? Weasley mudara de ideia e o guardara em outro lugar? Granger destruíra o documento? O público jamais poderia ter certeza, ao menos que a castanha confessasse tê-lo destruído propositalmente. Porém, era demais que o fizesse, pois, então, estaria realmente jogando contra si. E não era esse o plano. Porém, sua linha de raciocínio foi completamente perdida assim que Blásio abriu a porta em um rompante, sem se preocupar em bater, como era realmente de seu costume, tendo o semblante aturdido.
— O sobrenome Fitzgerald te lembra algo? – Perguntou ele ao sentar-se na cadeira e Draco não demorou a buscar na mente do que se tratava.
— Zach Fitzgerald, o garoto de Godric’s Hollow. – Estreitou os olhos ao outro. – O que ele fez?
— Ele não fez nada, mas a mãe dele parece estar determinada a causar problemas a Granger. – O negro ajeitou-se na cadeira. – A Sra. Fitzgerald procurou o QG dos Aurores ontem para testemunhar sobre uma briga entre Granger e o marido dois dias antes da morte dele, provavelmente no último dia em que se viram antes de tudo. Ela relata agressividade de ambas as partes e diz que não soube identificar o real motivo da briga, mas diz que não duvida que ambos seriam capazes de machucar seriamente um ao outro... Como aconteceu.
— É uma retaliação por querermos envolver o filho dela de maneira negativa. – Constatou Draco distraidamente, considerando que Granger não havia lhe mencionado essa última briga. – De alguma maneira, descobriu nossos planos.
— Bem, por um lado ela está contribuindo para construir uma imagem também negativa de Granger antes do fim do inquérito. – Draco não discordou. – Mas, Draco, se essa mulher não for contida, ela pode nos prejudicar de verdade durante o processo...
— Vou dar um jeito nisso. – Levantou-se impaciente e vestiu o terno rapidamente. O expediente estava terminando, de qualquer forma, e sua ausência não seria sentida fortemente por ninguém. – Mande a Mansão Black qualquer novidade que tiver sobre.
Não esperou a concordância de Blásio e adentrou a lareira para que pudesse aparatar diretamente na Mansão Black. Não sabia exatamente por que, mas estava suando, apesar do frio intenso ter se instalado de vez na Inglaterra. As calçadas agora estavam sempre cobertas por uma fina camada de gelo traiçoeira que caía todas as noites e provavelmente as roupas pesadas de inverno o deixavam quase duas vezes maior do que realmente era, embora a casa estivesse sempre aquecida por um feitiço permanente.
Procurou Granger por todos os cômodos, inclusive a biblioteca, entretanto, não havia sinais da castanha em lugar algum, apesar de o banheiro de seu quarto estar molhado, indicando que ela tomara banho antes de sair para sabe-se lá onde. Revirou os olhos, detestando que o tivesse feito sem avisá-lo, mas parou por um instante, encostado ao batente da porta, lembrando-se que Granger era adulta o suficiente para cuidar sozinha de si mesma. Ela conseguira se mantiver estável, mesmo à mercê de adversidades que quase a fizeram perder o controle. Além disso, o mais importante: ela era dona de si mesma.
Com um suspiro resignado e o início de uma dor de cabeça em sua têmpora, Draco olhou ao redor, percebendo que o quarto encontrava-se mais organizado que o normal. Os cobertores foram estendidos na cama, não havia sequer uma peça de roupa espalhada pelo quarto, nem mesmo pratos e copos já usados. Tudo, aparentemente, em seu devido lugar.
Assim, sem cerimônia, sentou-se a cama e tirou os sapatos e o terno, deixando-se encostar-se a cabeceira de madeira e fechando os olhos por alguns minutos. A imagem de Granger agindo no tribunal lhe veio à mente e todos os adjetivos que direcionava a ela nessa época também, assim como suas percepções. Gostava de observar o modo como a mente dela funcionava, todas as ideias se encaixando de forma lógica sem aparente esforço enquanto a castanha as expunha com empenho diante do tribunal. Porém, gostava ainda mais de ter suas ideias em confronto direto com as dela por que queria ver a solução que ela daria a tudo que ele defendia.
Era claro como cristal que se detestavam, mas aprendera sobre Granger quando nenhuma outra pessoa se dera ao trabalho de fazê-lo. A observava para que pudesse enfrentá-la enquanto construía sua carreira, entretanto, percebia que não estava utilizando nenhum de seus conhecimentos no momento, pois estava se acostumando muito facilmente ao fato de tê-la dependente de si, sádica e inconscientemente apreciando que Granger precisasse de sua ajuda em alguns aspectos de sua vida ao passo que ela era muito mais do que isso e sabia.
Ambos sabiam. Apertou as mãos em punho, soltando-as lentamente, tentando aliviar a tensão que se instalava enquanto chegava às próprias conclusões de forma progressiva. Granger detestava sua atual situação, não pelo fato de ser suspeita de um crime, mas por depender dele de variadas formas e, sem planejar, Draco a colocava cada vez mais nessa posição quando a tratava como uma adolescente que devia prestar explicações aos pais cada vez que saía de casa ou quando se achava no direito de saber cada detalhe sobre sua vida recente, afinal ele não o tinha, não quando não estava diretamente relacionado ao caso que defendia.
Compreendeu, dessa forma, que sua mais recente preocupação em relação à briga entre Weasley e Granger relatada pela Sra. Fitzgerald não dizia respeito ao caso, pois apenas o fato de eles terem brigado encaixava-se na tese do casamento em crise assumido por ela e nada deveria ser acrescentado a isso em favor da castanha. Ao contrário, uma parte irracional de si queria apenas saber o motivo da briga por que queria saber mais sobre Granger em si – como se tudo que já soubesse não fosse o suficiente; por que a Sra. Fitzgerald precisava ser realmente controlada, mas não representava um perigo iminente e nem mesmo a tal discussão misteriosa, mas, ainda assim, Draco estava ali pelas satisfações, como se a mulher as devesse, o que era ridículo.
Não se tratava de sexo, não tinha nenhum sentimento de posse em relação a ela após terem transado pela primeira vez há dois dias. Começara antes disso, no exato momento em que percebera que a mulher era humana como jamais se permitira demonstrar, não a ele. Porém, se esquecera parcialmente de que ela ainda era ainda era aquela que ele enfrentava com exultação nos tribunais, que sua personalidade em nada mudara desde então e, portanto, devia tratá-la como tal, apesar de essa mesma mulher precisar de sua ajuda, pois, afinal era sua “sanidade”.
Abriu os olhos, finalmente, avaliando, não pela primeira vez, que não sabia o que realmente sentia sobre isso. A dinâmica do relacionamento entre eles não mudara em muita coisa após o sexo. Não havia um toque carinhoso a mais, não havia nada que remetesse a uma intimidade que não tinham além da cama, mas a declaração dela martelava em sua mente com um demônio que parecia querer soprar em seu ouvido algo que estava bem à sua frente, mas não conseguia ver.
Negou com a cabeça, decidindo não adentrar nessas questões enquanto tudo ainda se encontrava na seara da atração latente e confortável que sentiam um pelo outro. Por isso, decidiu desviar sua atenção a qualquer coisa que nada tivesse a ver com Granger, considerando até mesmo conjurar do escritório alguns processos paralelos com os quais teria de lidar futuramente, mas seus olhos recaíram sobre um livro grosso e de aparência antiga com capa de couro vermelho que se encontrava na mesinha de cabeceira ao seu lado.
Folheando, surpreendeu-se com o gosto literário da outra. Nunca imaginara que ela fosse do tipo que lia romances policiais. Não sabia muito sobre literatura trouxa, mas era possível que Granger lesse apenas os melhores. Todavia, o que lhe chamou a atenção foi o pequeno papel que ela usava como marcador, onde havia o trecho de um poema ou canção escrito de próprio punho na caligrafia espremida da castanha:
Quando fecho os olhos / Eu o vejo / Quando fecho os olhos / É uma sombra difusa / Acima de tudo / Quando fecho os olhos / Eu o chamo / Ou ele me chama / Em desespero / Em prazer / Quando fecho os olhos
Havia tantas interpretações para aquela nota de Granger. Não tinha ideia se era apenas um pensamento que lhe ocorreu e resolveu anotar ou algo que viu ou ouviu em um lugar qualquer. Não sabia se se tratava da morte de Weasley, de sua reação, da reação do próprio marido morto ou do que tiveram; poderia tratar-se da transa que tiveram há dois dias, mas duvidava muito disso. Todavia, era claro que algo a afligia da maneira retratada ali, algo tirava seu sono e a perturbava.
Subitamente, então, fechou o livro, deixando o pequeno rascunho exatamente onde estava, apesar de seus olhos nunca o deixarem, sempre pensando nos últimos dias e, principalmente, na frase dita por ela ao pé de seu ouvido: você é minha sanidade. Definitivamente, não seria aquele o momento em que Draco começaria a traçar uma linha entre o pessoal e o profissional, como provavelmente era o indicado. Ela precisava de alguém em quem se apoiar, pois passara tempo demais sem tê-lo e agarrara a primeira oportunidade de reverter isso quando se mostrou aberto o suficiente para tanto. Era tarde demais. Cruel demais.
Então, um ruído no andar abaixo chamou sua atenção, desviando-o de suas divagações. Porém, por um momento ficou exatamente onde estava, nada ansioso para vê-la. Curiosidade não tinha nada a ver com profissionalismo, lembrou a si mesmo admitindo também que só queria saber sobre a discussão com Weasley um dia antes de sua morte para continuar com a empreitada de desvendar Hermione Granger. E isso não era nada bom após o sexo, pois sugeria interesse, além do físico, e Draco não costumava se interessar. Precisava de limites.
O som dos passos dela subindo de forma rápida a escada e atravessando o corredor lhe disseram que estava sóbria, visto que não se mostravam imprecisos, mas firmes e decididos. Ainda era uma preocupação mantê-la sóbria e estável, apesar disso só depender dela na maioria dos aspectos. Não demorou, portanto, a que Granger adentrasse o quarto em um rompante, surpreendendo-se ao vê-lo sentado pacificamente na cama, surpreso pela aparência em que ela se encontrava.
A mulher estava completamente encharcada, os cachos caindo indefinidamente pelos ombros e as roupas coladas ao corpo. Seu rosto estava inchado e os olhos se encontravam vermelhos pelo choro. Ela parecia completamente derrotada, ainda que estivesse sob um salto enorme e desfrutasse das melhores vestimentas de inverno que o dinheiro podia comprar, o que, de certa forma, chegava a ser poético.
— Ottery St. Catchpole estava chuvoso. – Respondeu diante de seu olhar indagador.
Assim, com os ombros caídos, Granger adentrou o quarto, desfazendo-se do casaco lentamente e sendo sacudida por uma saraivada de espirros. Em completo silêncio, então, buscou roupas secas e quentes no armário e encaminhou-se ao banheiro, de onde logo ouviu a água caindo contra a cerâmica.
A castanha lhe revelara o desejo de ir à casa dos Weasley desde o tempestuoso encontro com Brown. Ela gostaria de se explicar ao Sr. e Sra Weasley sobre tudo que falara publicamente sobre seu filho, mas Draco não a incentivara. Eles precisavam dos pais do ruivo ao seu lado e tentar explicar-se só fazia com que as coisas piorassem, mas a visão de Hermione enxergava que, caso ela não os enfrentasse, seria considerada indigna de ter seu apoio, pois não era do tipo que fugia às suas batalhas.
Dessa forma, não demorou a que ela surgisse utilizando um conjunto de moletom negro e estando com os cabelos já penteados e secos por um feitiço ao qual ele desconhecia, mas sabia ser útil às mulheres. Sem uma palavra, ela sentou-se ao seu lado, encostando-se à cabeceira de madeira escura e abraçando as pernas com um suspiro derrotado.
— Foi uma droga. – Disse após perceber que Draco estava lhe dando o tempo que fosse necessário para se manifestar sem que precisasse lhe perguntar diretamente. – A Sra. Weasley? Ela me olhou daquela forma... Com aquele olhar cheio de indignação, para não dizer outra coisa, que nunca antes havia sido direcionado a mim. E eu precisei aguentar tudo calada... Sentada e encolhida como uma criança que cometeu uma arte.
— O que ela disse? – Granger engoliu em seco, desviando o olhar para a janela na direção oposta a que o loiro estava.
— Basicamente que, se eu for para Azkaban, talvez tenha merecido. Que seria a consequência de minhas ações. – Draco a ouviu bufar em um riso irônico que não costumava estampar seu rosto com muita frequência. – Não que ela acredite que eu tenha matado Ron, apesar de tudo.
Draco ajeitou-se na cama, encarando o modo como os cabelos caíam em cachos por seus ombros, mas pensando em um panorama sem a Sra. Weasley, mãe da vítima, para depor a favor da acusada. Não era o pior dos cenários, mas as chances diminuíam drasticamente, uma vez que possivelmente Ginny Potter seria a principal testemunha de acusação da Promotoria.
— Ao menos, sabemos que não precisamos nos preocupar que ela deponha contra você. – Afinal, a mulher ainda era o retrato da justiça grifinória que todos diziam.
— Mas fez questão de deixar claro que não moveria um dedo para me ajudar. – Ela lhe revirou os olhos, mas logo deixou os ombros caírem enquanto analisava distraidamente as próprias mãos. – Eu a entendo, Malfoy, juro que a entendo. Ela é uma mãe protegendo a memória de seu filho morto, seu segundo filho morto, que não está aqui para defender-se deste... Teatro que montamos. Apenas... É tão injusto que tenha que aguentar todas aquelas palavras sem poder me defender, sem chances de lhe dizer de volta que Ronald era exatamente tudo aquilo que disse a Brown.
Granger considerava os Weasley como sua família muito antes de assinar seu sobrenome oficialmente. Eles eram a representação perfeita do mundo bruxo e, sendo trouxa, ela os admirava. Porém, Ronald era aquele que, agora, sempre seria passível de defesa imediata, pois não estava ali para fazê-lo por si mesmo. Era compreensível que a visita não tivesse sido favorável a ela.
— Haverá um momento em que ter isso internalizado em si mesma será o suficiente. – Ele disse, encarando pensativo o teto escuro e forrado. – Não sentirá a necessidade de afirmar e reafirmar a todos em uma constante justificação que Weasley era ruim, ainda que continuem especulando.
— Acha mesmo? – Perguntou ela com a voz fanha devido a exposição a chuva e ao frio. – Acha que irei me conformar em ver as pessoas que considero família me tratando como a responsável por tudo de mal que aconteceu em minha vida, em nossas vidas?
— O que acontece é que... – Ele não a encarava, não quando percebia que tudo que falava não se tratava apenas da castanha. — Simplesmente passa a preocupar-se com si mesmo, pois percebe que está deixando que os outros tirem sua sanidade, comandem sua vida.
Granger ficou em silêncio por muito tempo e podia sentir os olhos dela sobre seu rosto, examinando-o detidamente, absorvendo as palavras que acabara de dizer e que, supostamente, deveriam ser para consolá-la. Exceto que não eram. Era apenas um breve relato de sua situação durante a guerra, uma pequena exposição de como se sentia massacrado por todos e qualquer um que tivessem algum mínimo interesse, além da pequena recordação de que defender-se dos interesses de seu pai por muito fora o mais difícil e de como isso era injusto. Por que Lucius era seu pai, seu verdadeiro pai, não alguém que escolhera aleatoriamente para tratar como família, como Granger fizera. E não fora nada simples admitir que precisasse dar um jeito de se livrar de seu “dever familiar” após perceber que este o estava levando ao fundo do poço. Bem, ele não o fez. Por covardia, pela inconveniência do momento, não por que não fosse egoísta o suficiente para tanto, pois, no fundo, todas as pessoas o são.
— E... Quanto tempo demora pra adquirir essa percepção? – Draco deu de ombros.
— As coisas ficam mais fáceis a partir do momento que você clareia a mente para alguns fatos. Por exemplo, que... – Ele jogou as pernas para fora da cama. – Você não é família, Weasley é. Nada mudará isso. Lidar com verdades assim faz parte do processo.
Draco recolocou os sapatos, passou os braços pelas mangas do terno e saiu do quarto, a alertando para não esperá-lo acordada. Agora que ela estava ali, sã e sóbria, percebia que não tinha cabeça naquele dia para ter de encarar mais uma história sobre Weasley, sua vida de casada e todas as desilusões pelas quais Granger passara. Era apenas... Demais para um só dia. Precisava ir para casa, tomar banho em seu banheiro, descansar em sua própria cama e desfrutar da companhia de sua mãe, ainda que ela fosse intragável e inconveniente, às vezes. Tentar voltar à normalidade de sua vida era um limite necessário. Entretanto, nada do que pensava parecia estar ao seu alcance agora que o inquérito estava chegando ao fim, que se aproximara o suficiente de Granger para que ela se sentisse a vontade para se abrir, agora que se preocupava com ela.
Assim, enquanto descia as escadas e abotoava o terno com pressa por cima do colete, a campainha soou de forma alta e imponente fazendo-o revirar os olhos. Após esse caso, tiraria férias. Era o cúmulo que precisasse lidar com tantos problemas ao mesmo tempo quando não precisava sequer trabalhar. A pessoa do outro lado, entretanto, parecia apressada e impaciente, visto que não se contentara em tocar apenas uma vez e até mesmo socara a porta algumas vezes antes que Draco a alcançasse.
Mas a explicação para tanto estava bem à sua frente encarando-o furiosamente, com as bochechas vermelhas pelo frio e os cabelos ruivos e curtos bagunçados pelo vento. Levantou uma sobrancelha e olhou ao redor a fim de verificar se não havia fotógrafos do lado de fora, constatando que o frio deveria tê-los espantado definitivamente.
— Você não sabe ser civil?
— Onde ele está? – Ginny Potter o empurrou sem cerimônia e passou para dentro do hall de entrada sem permissão, encaminhando-se rapidamente a sala e voltando ao corredor principal enquanto o loiro ainda se ocupava em fechar a porta de forma calma. – Onde ela está?
— Suponho que esteja falando de Potter e Granger? – Questionou, vendo-a sumir na escada que levava a cozinha no porão. O que raios aquela mulher estava fazendo ali? E fazendo todas aquelas perguntas? Porém, logo ela estava de volta com os saltos de sua bota ecoando alta e irritantemente por toda a casa.
— Onde ela está, Malfoy? Hermione. Escondê-la aqui não vai levá-los nada.
Potter começou a subir as escadas em direção ao segundo andar, praticamente obrigando-o a revirar os olhos por sua falta de controle. Entretanto, sequer terminou a empreitada, pois não demorou que Granger houvesse percebido toda a movimentação estranha no ambiente e surgisse no topo da escada, fazendo a ruiva estancar abruptamente em um dos degraus e apoiar-se no corrimão.
— Por que está aqui? – Questionou Granger incisivamente.
— Vim buscar Harry, levá-lo de volta ao lugar onde pertence, de onde nunca deveria ter saído. – Ela subiu mais um degrau e gritou pelo marido, como o mesmo estivesse presente. – Harry!
— Harry não está aqui, Ginny.
— Eu duvido. – Podia ouvir o desprezo escorrendo no tom da Weasley mais nova. – Duvido que ele não tenha corrido para se enfiar entre as suas pernas assim que saiu de casa.
— Espere um minuto, Potter saiu de casa? – Perguntou Draco em tom duvidoso. – Simplesmente saiu?
— Simplesmente, saiu. – Respondeu como se o estivesse mandando se calar, mas voltou sua atenção a outra. – Você é a responsável por tudo de ruim que aconteceu em nossas vidas, Hermione, você... Você fez com que tudo fosse por água abaixo...
— Pare! – A castanha quase gritou, interrompendo os lamentos da outra e descendo as escadas até estar apenas um degrau acima da ruiva. – Pare de me culpar pela merda de vida que levava achando que estava vivendo um sonho!
— Eu não admito que fale assim comigo, não quando deveria estar chorando arrependida por ter matado Ron e me tirado Harry...
Dessa vez, quem apanhou foi a Potter, tão surpresa pelo ato que logo encarou Granger de forma assustada, segurando o lado do rosto agredido com uma das mãos e tendo os olhos vermelhos de lágrimas não derramadas. Draco não julgou necessário, pois, no momento, Ginny Potter mostrava-se completamente fora de si. A ruiva não oferecia perigo algum, mas supôs que a castanha estivesse com todas as palavras contra a mãe da mesma entaladas em sua garganta e encontrar alguém em quem descontar toda a frustração sobre isso provavelmente era um alívio.
— Você é a responsável pelo fim de seu casamento. – Disse Granger com ênfase sem abalar-se aparentemente. – Você e seus joguinhos fúteis, infantis e desnecessários.
— Ele era meu marido, não tinha o direito de intrometer-se, Hermione.
— Exatamente. Ele era seu marido, ele era apaixonado por você e ele cansou. – A castanha já havia voltado a seu tom de voz normal e Draco apenas observava tudo, decidido a não intervir e deixar com que elas resolvessem a rixa estranha em relação ao Potter. – Cansou de ter você brincando com seus sentimentos, de levar uma vida instável quando tinha três filhos com quem ele se preocupava...
— Ah sim, Harry cansou coincidentemente na mesma época em que resolveu que transar com ele era uma boa ideia! – Gritou Ginny Potter, apertando tanto o corrimão ao seu lado esquerdo que os nós dos dedos já estavam brancos. – Você era minha amiga mais antiga, minha família, madrinha de um dos meus filhos, Hermione, eu confiava em você e agora... Agora tudo parece ter sido tirado dos eixos por você. Não soa irônico?
— As coisas já tinham desandado há muito tempo, você é quem não admitia.
— Não, tudo estava no lugar! Você acabou com meu casamento, com a minha família... – A ruiva engasgou, sua voz embargou e no instante seguinte as lágrimas finalmente escorreram, mas ela continuou. – Você arruinou tudo que havia de bom em minha vida, tudo pelo que eu vivia, Hermione... Você, você...
Então, Ginny Potter não encontrou mais palavras para culpar Granger, pois estava ocupada demais em seu próprio lamento alto e depreciativo. Entretanto, por pior que pudesse parecer, realmente a entendia. Em um dia, tudo estava perfeito, as engrenagens da vida estavam girando da forma como ela as comandava, n’outro o desabamento veio de forma turbulenta, levando o irmão e, agora, o marido.
Era mais doloroso para a Sra. Potter do que para a própria mãe, era ela quem teria de explicar aos filhos que o pai saíra de casa indefinidamente, era ela quem lidaria sozinha com a morte do irmão. Feia e brutal, como que para quebrar o encantamento que era sua vida, cruel na medida certa para acordá-la. Por isso, era compreensível que buscasse um culpado por seus fracassos que não ela mesma, afinal as pessoas tem certa tendência a isso, e igualmente compreensível que essa pessoa fosse Granger. Seria simples e certeiro, pois não era a única a fazê-lo, sua consciência não pesaria, visto que iria contar mentiras a si mesma a fim de justificar a decisão de culpar a outra. Entretanto, exatamente devido a isso, era injusto: fácil demais culpar alguém que já estava sendo constantemente condenado, quase como se estivesse querendo derrubar alguém que já estava no chão apenas por sua vingança medíocre e pessoal.
Viu a Potter sentar-se em um dos degraus da escada, sem forças para sustentar o próprio corpo, escondendo a cabeça entre as mãos enquanto o choro corria livre e os soluços faziam com que seu corpo balançasse. Supôs que a ruiva ainda não tivesse chegado aquele estágio da raiva até então, afinal não estaria rendendo-se daquela forma perante Granger, a suposta grande inimiga, responsável por suas desgraças. Assim, voltou o olhar para a castanha, que lhe fez o mesmo, olhando-o como se o mandasse resolver o problema antes de lhes dar as costas e encaminhar-se de volta aos seus aposentos.
Semicerrou os olhos, encarando resignadamente a mulher de Potter enquanto considerava se a deixava ali chorando e tentando se acalmar e ia para a casa fazer o mesmo ou se a ajudava e a enxotava dali da maneira mais educada que conseguia, considerando o estado deplorável que se encontrava. Por fim, encostou-se a parede e cruzou os braços, a encarando descaradamente até o choro diminuir visivelmente dali alguns minutos.
— Diga-me uma coisa. – A mulher o olhou com os olhos raivosos e inchados, como se estivesse atrapalhando seu momento de desabafo. – Você não cansa de humilhar-se?
— Eu não pedi a sua opinião.
— No entanto, está em minha casa, chorando como se o mundo houvesse acabado apenas por que Potter resolveu tirar um tempo para pensar.
Como se o auror fosse mesmo se separar da ruiva, pensou com desprezo considerando que conhecia o outro o suficiente para saber que ainda era preso pelas amarras familiares da esposa devido ao fato de não ter convivido com seus pais e, então, não ter tido uma família de verdade. Escolher não viver isso, ainda que tivesse de lidar com tantos problemas causados pela Weasley, não era o que se podia esperar de Harry Potter. Sua mulher não deveria ter a mínima consciência sobre, do contrário não faria joguinhos para mantê-lo.
— Você não me conhece, não conhece Harry ou tudo que vivemos...
— Convenhamos, sua vida medíocre não me interessa nem um pouco. – Sorriu desdenhoso, no que ela colocou-se de pé após agarrar a bolsa pequena e quase inútil, provavelmente lembrando-se que estava em posição desvantajosa sentada perdedoramente na escada.
— Não se dê ao trabalho de elucidar uma tese sobre mim, Malfoy, eu já estou de saída. – No entanto, quando a ruiva encaminhou-se a porta e passou ao seu lado após tentar tornar o rosto digno após o choro, estendeu a mão para segurar o braço fino.
— Eu não irei. – Ela encarou a mão que a segurava próxima e levantou o olhar, parecendo mais irritada ainda pela ousadia. – Concentre-se em recuperar essa merda de casamento falido e deixe Granger em paz. Afinal, eu não a vejo culpando seu santo marido por ter, voluntariamente, se enfiado entre as pernas dela.
— Solte-me. Agora. – Weasley disse em um tom de voz baixo, mas carregado de fúria e Draco resolveu não alongar sua estadia ali, observando-a finalmente dirigir-se a porta de saída, mas voltar em sua direção antes de abri-la. – Harry não está envolvido na morte de Ron, é por isso que não me vê culpando-o. Pelo contrário, aliás, tudo que fiz foi acolhê-lo, mesmo sabendo que resolveu correr para ela, como eu sempre imaginei que aconteceria na primeira oportunidade que surgisse. Eu conheço Hermione, essa Hermione, e sei que ela não teria escrúpulos em usar a transa com meu marido como álibi para seu crime.
— Não se envolva mais em meu caso, Weasley. – Ele avisou ao vê-la abrir a porta. – Ou farei questão de vazar para a imprensa o episódio de Granger e Potter, assim como você fez com o aborto que minha cliente sofreu.
— Você não teria coragem! – Exclamou a mulher indignada, não negando o que para Draco, até então, era apenas uma suposição óbvia. – Isso apenas prejudicaria a imagem de Hermione e você é seu advogado.
— Pague pra ver.
Deu de ombros, sorrindo tranquilamente ao encarar as feições delicadas, mas revoltadas da outra antes de ver relancear em direção a saída e a porta ser batida estrondosamente. Seu sorriso forçado morreu e Draco encarou o teto cansadamente, como se pudesse ver Granger lamentando em seu próprio quarto enquanto constatava a si mesmo que seus problemas estavam longe de ter fim.
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