Neurótica
22 Capítulo 22
A lua ficou tão triste
com aquela história de amor
que até hoje a lua insiste:
— Amanheça, por favor! — Paulo Leminski
Assim que chegou ao Ministério, Draco encaminhou-se diretamente para o QG dos Aurores tendo a presença ofegante de sua tia Andrômeda em seu encalço. Havia tentado dissuadi-la da ideia de acompanhá-lo até lá Ministério com o argumento de que ela nada poderia fazer, mas sabia que ela era determinada e teimosa – uma combinação que em nada lhe parecia boa, aliás – e não houve acordo.
Estava temeroso, pois não havia motivo suficiente para que Teddy tivesse sido detido da forma brusca como sua avó descrevera. Quando não o encontraram em casa, os Aurores não hesitaram em buscá-lo na famosa Toca, onde estava com sua namorada Victoire, e o fato de Draco ainda não saber a razão da prisão o deixava ansioso.
Quando chegou a Sessão onde ficava o QG pôde perceber que os trabalhadores do local alimentavam certa inquietação incomum. Alguns caminhavam de um lado a outro conversando freneticamente ao passo que outros pareciam preocupados enquanto analisavam documentos que tinham em mãos. Viu a Promotora substituta Parvati Patil discutindo de forma quase histérica com a Auror Flynn à porta da sala da última, mas não tinha tempo para descobrir o motivo – embora suspeitasse que isso muito lhe interessasse -, pois precisava falar com qualquer pessoa capacitada o suficiente para lhe dar detalhes da prisão de Teddy.
Não precisou sequer procurar muito, pois não demorou para que Potter surgisse em seu campo de visão parecendo esbaforido e um pouco nervoso. Ele os cumprimentou com pressa, lançando-lhe um olhar questionador sobre por que Andrômeda também estava ali, mas logo lhes deu às costas pedindo que o acompanhassem até sua sala, onde o menino estava.
— Que bom que veio rápido. Eles queriam interrogá-lo o mais rápido possível, para desestabilizá-lo, mas não deixei que o fizessem sem um advogado. Ele já está um pouco mais calmo. – Ele abriu a porta, dando espaço para entrassem.
— Pelo menos conseguiu deixar de lado suas estimadas regras éticas sobre misturar trabalho e vida pessoal. – Disse enquanto observava Andrômeda abraçar Teddy parecendo aliviada por perceber que ele estava sendo bem tratado, provavelmente por ser afilhado do Chefe dos Aurores, ainda que estivesse um pouco pálido por toda a situação.
— Não iria deixar que tratassem Teddy como um criminoso, Malfoy.
— Mas deixou os Aurores conduzirem como bem quisessem o caso de Granger.
Potter apertou a mandíbula engolindo qualquer argumento que lhe surgiu. De qualquer forma, seria insuficiente para Draco, pois nada o convenceria de que Potter havia sido negligente com o inquérito de sua melhor amiga por outro motivo que não fosse culpa. Culpa por ter traído a esposa; culpa por não poder ter feito nada para salvar o amigo, pois no momento que este precisava estava traçando a mulher dele; culpa por ter querido abrir mão, ainda que por alguns instantes, da suposta vida perfeita que levava. Ele também devia sentir culpa pelo fato de ter deixado Granger de lado no momento em que ela mais necessitava de apoio apenas por que era um covarde que tinha medo de Ginny Weasley, essa era a opinião de Draco e o que mais desejava.
Não simpatizara com Harry Potter em momento algum de sua vida e, com o passar dos anos, seu conceito sobre o mesmo pareceu decair cada vez mais em contraste, veja só, com suas ligações que aumentavam. Primeiro Sirius Black, primo de Draco e padrinho do outro, depois Andrômeda, tia de Draco e avó do afilhado de Potter, além do próprio Teddy. E Granger, amiga de Potter e cliente de Draco, embora a coisa toda tivesse evoluído tanto nas últimas semanas ao ponto de não saber como denominar essa ligação especificamente, pois Granger havia passado a ser mais que uma simples cliente – visto que quase transaram – e a relação da mesma com Potter não era mais de amizade – visto que ambos não sabiam superar o fato de terem transado. Era complicado.
— Você está mesmo bem? – Quebrou o contato visual que mantinha com o Auror quando a senhora perguntou para o neto enquanto segurava e examinava o rosto do menino, o qual tinha os cabelos completamente negros demonstrando que seu humor não estava dos melhores.
— Sim, vovó, isso tudo é um engano!
— Não é engano que esteve praticando magia fora da escola, Teddy. – Retrucou Potter em tom cansado ao sentar-se atrás de sua escrivaninha.
— Teddy está detido e causou todo este reboliço apenas pelo fato de ter realizado um feitiço antes da maioridade? – Draco repetiu quase em tom de escárnio já sentindo a bolha de estresse que o mantinha em alerta estourar enquanto Potter se empertigava do outro lado da mesa. – Se bem lembro, Potter, não foi diferente com você...
— Os tempos eram outros e fui a julgamento, além disso... – Potter empertigou-se na cadeira parecendo resignado. – Teddy não está detido apenas por isso.
— O que mais aconteceu? Teddy estava na escola e... – Andrômeda estava ficando desorientada e o neto segurou sua mão com força para que se acalmasse, embora fosse visível que não estava adiantando muita coisa.
— As digitais não identificadas que foram encontradas na casa de Ron e Hermione no dia... – O auror precisou respirar fundo. – No dia em que ele morreu... Batem com as de Teddy.
Draco ainda se forçou a digerir a notícia por alguns segundos, tentando encaixar essa nova informação com todas as outras que já tinha em sua mente, mas não parecia fazer sentido algum. Teddy não estava na escola no dia do assassinato de Weasley, mas sugerir que ele fizesse parte disso, que fosse responsável de alguma forma era completamente absurdo.
Então era por isso que o resultado do inquérito não havia saído e eles estiveram no escuro durante todo o tempo. O surgimento de uma nova evidência podia mudar tudo, Draco tinha consciência disso, mas era inconcebível que Potter considerasse meramente possível Teddy estar de alguma estar forma ligado ao assassinato de Weasley.
— Teddy é uma criança, Potter, os Aurores e a Promotoria só estão à procura de alguém para acusar e até você tem de admitir isso. – Disse entre dentes, levantando-se e puxando o menino para que este fizesse o mesmo. – Se ele está detido apenas para depor, estamos indo embora. Não irá colher seu depoimento de boa fé por que esse preceito não existe neste lugar.
— Estamos querendo elucidar o caso, tonar o que aconteceu naquela noite mais claro.
— Está praticamente acusando de homicídio seu próprio afilhado, Potter! – Quase gritou, indignado pela dissimulação do suposto herói e bom moço. Potter estava ficando obcecado por encontrar um culpado e ele economizava esforços para proteger Granger e até mesmo o afilhado que tanto dizia prezar. – Continue suas investigações da forma que bem entender, mas eu esperarei uma intimação para trazê-lo aqui ou levá-lo ao tribunal.
Abriu a sala de Potter bruscamente e saiu à frente de Andrômeda levando Teddy consigo, conduzindo-o com uma mão firme no ombro direito em direção a uma das lareiras do Ministério. O garoto encontrava-se respirando pesadamente e seu rosto estava estranhamente pálido, como jamais o havia visto. Certamente, nem em sonhos mais remotos, imaginara que sua técnica de praticar feitiços sem varinha pudesse ser rastreada pelo Ministério e ainda o levasse a uma encrenca ainda maior que envolvia assassinato.
Entretanto, parou abruptamente ao ver a figura morena e de feições tipicamente indianas passar logo ao seu lado de forma distraída enquanto lia alguns documentos que tinha em mãos. O cenho estava franzido e seu rosto, emoldurado pelos cabelos negros e lisos, demonstrava que estava muito absorta com o conteúdo. Pelo modo como a vira discutindo com a Auror Flynn quando chegara, não duvidava que aquilo estivesse relacionado com o inquérito da morte de Weasley. O QG inteiro parecia funcionar em torno disso naquele dia, afinal de contas.
— Espere sua avó e vá para casa... Ou melhor, vá para a Mansão Black. – Disse, sem tirar os olhos da figura da mulher baixa e esguia que parou para falar com um auror que a abordou. – É melhor Granger saber disso o quanto antes ou teremos problemas.
E não queria ter de lidar com o emocional abalado da mulher pelo fato de o QG dos Aurores, sob o consentimento implícito de Potter, estar envolvendo uma criança – uma das pessoas mais próximas a ela, além disso – no assassinato de seu marido. Se contassem do jeito certo, ela aguentaria.
Não demorou que Andrômeda aparecesse novamente, lançando-lhe um olhar de agradecimento. Draco informou que tinha algo a fazer ali, mas que iria encontrá-los na Mansão Black o mais rápido possível. Não tinha mesmo planos para demorar mais do que o necessário naquele lugar. Ela passou um dos braços pelos ombros de Teddy e o direcionou a um das lareiras para que pudessem aparatar, visto que este parecia em estado de choque com os últimos acontecimentos.
Draco, por outro lado, encaminhou-se rapidamente em direção à figura da Promotora substituta que parecia tomar o caminho dos elevadores. Apertou o passo, então, e forçou-se a chegar logo após ela pressionando o botão para que a porta se fechasse apenas com ambos lá dentro e pudessem ser levados até o átrio do Ministério.
— Como vai, Patil? – Ela só percebeu quem estava em sua companhia assim que levantou os olhos dos papéis que tinha em mãos e o examinou por um momento antes de responder de forma brusca.
— O que você quer, Malfoy?
— Me parece que seus planos foram um pouco frustrados hoje. – Forçou um tom ameno que não desejava e viu os olhos negros e profundos semicerrarem-se ao encará-lo.
— Não tenho ideia sobre a quais planos exatamente pode estar se referindo.
Ele sorriu com desdém e aproximou-se, obrigando-a a abraçar os documentos enquanto colava às costas a parede e prendia a respiração. Draco não se aproximou o suficiente para que a proximidade sugerisse algo mais, mas tinha um dos braços apoiados na parede logo ao lado do ombro dela, deixando-a encurralada visto que o que havia do outro lado era uma parede.
— Não é preciso ser um gênio para saber que não está medindo esforços para levar sua colega Granger ao tribunal. – A mulher abriu a boca para contestá-lo, mas Draco não permitiu. – Compreendo perfeitamente seus motivos e até a apoiaria, como um favor que ficaria me devendo, se estivéssemos em outras circunstâncias, mas... Veja bem, estamos em lados opostos e nessas circunstâncias eu preciso ser um obstáculo muito empenhado em atrapalhá-la.
— Está me ameaçando? – Patil perguntou contida, mas era possível perceber a raiva palpável que aflorava de seus olhos e das mandíbulas rigidamente presas.
— Não, estou lhe afirmando que o preço que irá pagar por tentar surrupiar o cargo de Granger por meio de um golpe de estado barato será bem alto.
— Granger me entregou a Promotoria numa bandeja de prata, Malfoy, isso é tudo.
— Ela não entregou o cargo, você é apenas a substituta, é diferente. – Ela expirou nervosa, incomodada pelo fato de Draco jogar-lhe na cara que era apenas a reserva. Ele meneou a cabeça lembrando-se que Granger informara que não tinha certeza se queria voltar ao seu trabalho no Ministério. – Mas se conseguir chegar lá tentando passar por cima da minha cliente, Patil, lhe garanto que manter-se como Promotora vai se tornar bastante complicado.
Viu como a mulher apertou ainda mais o maço de papéis contra o corpo, mas ao mesmo tempo levantou o queixo em sinal de orgulho enquanto analisava meticulosamente o que dizia. Nunca havia precisado enfrentar Parvati Patil tão empenhadamente, nem mesmo em Hogwarts, pois esta sempre lhe aparentara uma figura neutra. Na época, o fato de fazer parte de uma poderosa família indiana de sangue-puro ajudava que a ignorasse sem maiores problemas. Entretanto, ela se revelara ambiciosa ao extremo, uma qualidade que apreciava quando usada a seu favor, mas que precisava ser rapidamente neutralizada quando jogada contra.
— Está bastante empenhado em defender uma pessoa que jurava odiar até algumas semanas atrás. – Os lábios bem delineados e pintados de vermelhos abriram-se num sorriso e ela levantou uma sobrancelha forçadamente despreocupada. – O que pode fazer para me tirar quando chegar lá, Malfoy? Devo dizer que sua opinião não é levada em consideração na Promotoria quando é preciso designar um novo Promotor. Você não trabalha lá, apesar de andar pelos corredores como se fosse dono do lugar, preciso lhe lembrar?
— E preciso lhe lembrar de que deve haver um motivo para que eu haja assim e para que Granger seja uma fervorosa rival? – O sorriso morreu na boca dela e nasceu na de Draco, que sentiu o elevador parar com um baque mais forte que o desejado. Cedo demais. Ele levou a mão para que este travasse e a porta não fosse aberta, sem quebrar o contato visual com Patil, a qual também não fez questão de se mexer. Ela era uma boa jogadora. – Se tentar sair dos trilhos com Granger, Patil, irei vasculhar cada canto de sua vida pessoal e profissional, cada acontecimento interessante ou não, cada caso que passou pela sua mão... E se encontrar, e tenho certeza que vou, uma mísera derrapada irei acabar com sua brilhante carreira recém-iniciada de Promotora Oficial começando com um processo por litigância de má fé contra Granger.
— Seu cretino! – A mão feminina e certeira acertou sua face esquerda com força, provavelmente deixando uma marca vermelha e instantânea em sua pele claríssima, mas Draco não se importou com a ardência considerando que até merecia pelo que estava fazendo com ela. Olhando-a, entretanto, percebeu que não havia lágrimas em seus olhos, como esperava, mas um ódio visível e palpável que estampava toda sua face bonita. – Você é baixo como uma cobra mesmo.
— Isso... É um elogio?
Ele foi descarado e Patil finalmente desencostou da parede e passou por ele, encontrando seu ombro de forma proposital ao encaminhar-se para a porta. Antes de apertar o botão para abri-la, porém, ainda voltou-se para ele.
— Não pense que acabamos aqui, Malfoy.
Ela desapareceu a passos rápidos pela porta e Draco ainda ficou do lado de dentro por mais alguns segundos analisando em que consistia a ameaça velada da mulher, mas concluiu que se baseava apenas na raiva que sentia por ele no momento e na vontade de fazer algo para atingi-lo. Algumas pessoas adentraram o elevador e lhe encararam, como que perguntando se continuaria ali e só então percebeu que já estavam no átrio do Ministério e Patil possivelmente havia saído apenas para se vir livre dele visto que não era sua intenção ir embora e seu escritório não ficava ali.
Respirou fundo e, ajeitando o terno com um olhar superior e desdenhoso aos trabalhadores assalariados, retirou-se em direção a uma das várias lareiras do Ministério. Evitou alguns repórteres que pediam uma declaração para o fato de Teddy Lupin ter sido detido pelos aurores – embora não soubesse como estes haviam descoberto isso – e aparatou de dentro da lareira mentalizando a Mansão Black.
A sala de visitas estava silenciosa e escura, não tinha certeza se Andrômeda e Teddy teriam realmente ido para lá ao sair do Ministério, mas ao chegar ao vestíbulo percebeu que a luz da cozinha no porão estava acesa e havia um ruído baixo de conversa. Desceu as escadas sem pressa, respirando fundo para tentar colocar os pensamentos em ordem quanto a tudo que havia acabado de acontecer, mas ao abrir a porta de duas folhas e descer mais um degrau para encontrar-se no mesmo patamar da comprida mesa de madeira que havia ali percebeu que não só sua tia e Teddy estavam lá, como também a namorada do garoto Victoire, seus pais, Fleur e Gui Weasley, além de Molly e Arthur Weasley.
Draco passou os olhos para Granger, a qual pacientemente servia chá às inesperadas visitas e deu de ombros discretamente ao entender sua pergunta silenciosa. Evitou um revirar de olhos. Por que sua vida estava se entrelaçando a dos Weasley com tanta facilidade nos últimos tempos?! Não era algo com que estivesse satisfeito, observou mentalmente enquanto os cumprimentava formalmente e Granger buscava mais uma xícara na prateleira de madeira e colocava no tampo de madeira envernizado à sua frente, servindo-o sem pronunciar uma palavra antes de acomodar-se ao seu lado do mesmo modo. Ela também não parecia à vontade com a presença de todas aquelas cabeças ruivas ali, entrelaçando as mãos ansiosamente e remexendo-se a todo o instante no banco que dividiam.
— Draco? – Andrômeda chamou, após Arthur afirmar que aquilo era um engano. – O que acontecerá agora? O modo como saímos de lá... Não parece ter ajudado muito.
— O QG irá retomar as investigações tentando dar algum sentido às evidências que têm. Como devem ter percebido, Teddy só não foi investigado antes por que não tinha suas digitais nos registros criminais do Ministério e estas foram parar lá por causa da realização de magia fora da escola. – Fuzilou o garoto com os olhos e o viu encolher os ombros ainda mais, parecendo muito arrependido. – De qualquer forma, espero que não possam encontrar muita coisa que o incrimine, ou seja, que dê motivos a ele para ter o cometido o crime, apesar do fato de ter omitido ter estado na casa de Granger no dia do crime.
— É claro que Teddy não fez isso! – Andrômeda protestou, indignada por sua insinuação, mas sabia que Granger havia entendido o que disse e olhava para o garoto parecendo pensativa.
— Isso é um absurdo. – Murmurou Victoire lado do menino e pôde ver seus pais empertigando-se incomodados com a confiança quase cega que a filha tinha no namorado. Podia apostar que essa confiança também fora dirigida da parte deles à figura de Hermione e de Teddy antes de estes se tornarem alvos do inquérito que investigava a morte de Weasley, mas agora essa certeza estava abalada.
— Não estou dizendo que fez, tia, também não acredito nisso. A questão é que podem colher provas e evidências que sugerem que havia um motivo, entende? – Ele uniu as mãos e respirou fundo, encarando a todos. – É necessária uma boa acusação para que o juiz considere, mas a Promotoria irá se empenhar. É um grande caso e eles não querem que arquive sem encontrar um culpado. Será da mesma forma que fizeram com Granger ou pior.
— Por que disse que Teddy não irá dar seu depoimento? Isso poderia ajudá-lo. – Perguntou Fleur Weasley em tom ameno, tão loira e bonita quanto na adolescência, apesar de ser alguns anos mais velha do que Draco.
— Tanto quanto atrapalhá-lo. – Deu de ombros. – Os Aurores e a Promotoria podem utilizar os depoimentos do modo como lhes convém e não irei dar material para eles trabalharem. Teddy só deporá com uma ordem judicial e vou garantir que Patil não consiga isso com facilidade.
Todos pareceram satisfeitos com seu trabalho naquela noite e a Sra. Weasley sugeriu que era hora de ir por que estava tarde. Eles se levantaram e houve uma discussão de família sobre Victoire ir para a casa de Teddy ou não, mas seus pais ganharam e ela também precisou despedir-se do namorado, o qual não pareceu animado o suficiente para ficar do lado da menina no pequeno desentendimento.
— Teddy. – Chamou quando o mesmo foi despedir-se dele, pois o havia liberado para dormir em paz mais uma noite antes de interrogá-lo no dia seguinte. O menino estava estranhamente calado e mantinha a cabeça baixa quase o tempo todo, até mesmo quando os Weasley se despediram e manifestaram seu apoio incondicional. – Não se preocupe, iremos derrotá-los e eles sequer verão por onde foram atingidos, afinal... Você não fez isso, não é?
Ele concordou e o abraçou apertado antes de Granger seguir seu exemplo e murmurar algo extremamente baixo em seus cabelos, enquanto passava os dedos pelos mesmos na tentativa de arrumar os fios irregulares. Despediu-se de Andrômeda e os acompanhou até a porta enquanto Granger ficava na cozinha lavando e arrumando a louça que seus visitantes haviam utilizado — e dizia “seus” por que era ela a única habitante ali. Por fim, voltou à cozinha, encontrando-a já sentada à cabeceira da mesa, os braços cruzados sobre a mesma, olhando-o decididamente, embora as expressões em seu rosto fossem neutras.
— Temos que conversar. – Draco levantou uma sobrancelha, mas não fez questão de sentar-se e apenas encostou-se a um dos armários baixos de madeira que havia ali, cruzando os braços sobre o peito quase do mesmo modo que ela.
— Pensei que fosse demorar um pouco mais para... Digerir o que aconteceu. – Ela meneou a cabeça por um instante, tendo os olhos castanhos semicerrados em sua direção, e entendeu rapidamente a que ele estava se referindo. – Mulheres normalmente precisam disso, não é?
— Não. – Ela respondeu como se fosse óbvio e levantou-se, suspirando enquanto parecia impaciente pelo rumo que a conversa estava tomando. – Quero falar sobre Teddy, não sobre o que aconteceu entre nós mais cedo.
— O que há para falar sobre Teddy, primeiramente? – Afinal, era um caso apenas seu. Ela revirou os olhos, incrédula, e passou por ele tomando o caminho da saída enquanto resmungava. – Há algum detalhe envolvendo-o que não havia me contado antes? Por que não me surpreenderei se houver.
— Você é completamente irritante! Não sei como pude imaginar... Por um segundo... Que nós... – Granger subiu as escadas batendo os pés audivelmente contra a madeira do piso e com a respiração alterada. – Argh!
Draco sorriu alteradamente, imaginando o que Granger poderia querer falar, e quando percebeu já havia cedido à curiosidade e a estava alcançando no fim das escadas. Tinha de admitir que não estivesse sendo nada educado com ela. Não tinha motivos para tratá-la mal, afinal de contas, e levando em consideração o que havia acontecido antes da chegada de Andrômeda estava agindo como um cretino.
— Sobre o que quer falar, Granger? – Perguntou pausadamente segurando um de seus braços, obrigando-a a parar e voltar-se para ele de má vontade. Viu como ela ainda remoeu alguns impropérios, mas por fim, com um suspiro contrariado, decidiu falar.
— Quero trabalhar com você. – Draco quase sentiu seus olhos saltarem do rosto quando ela declarou sua vontade de forma altiva. – Segundo a lei, posso representar a mim mesma no tribunal se for acusada, mas não é esse o caso. Sinto-me responsável por Teddy estar envolvido nessa investigação, poderia lidar facilmente com tudo quando se tratava apenas sobre mim, mas... Ele é uma criança, Malfoy. Quero ajudar em tudo que for possível neste caso. Estou afastada do Ministério e não impedida de exercer minha profissão.
— Granger...
— Você continuará sendo o advogado principal, nada mudará. – Ela suspirou e fechou os olhos por alguns segundos. – Estou cansada de ficar presa nessa casa, com as mãos atadas, Malfoy. Quero me sentir útil e não vejo melhor momento para me envolver, ainda que extraoficialmente, se não agora que Teddy está sendo ameaçado.
Obrigou-se a morder a língua, a qual já preparava um sonoro e instintivo “não” e passou a examiná-la. Hermione parecia decidida a convencê-lo, o que poderia não ser fácil para ela. Podiam estar trabalhando juntos, do mesmo lado, e até mesmo terem se beijado algumas vezes, mas a convivência não havia se tornado tão mais fácil ao longo das semanas. Estavam apenas acostumados a presença constante um do outro, Draco julgava, porém suas personalidades continuavam idênticas e difíceis, o que o fez lembrar que estas não se batiam.
A possibilidade de trabalhar em parceria com ela nunca lhe passara pela cabeça. Não concretamente, devia dizer, pois já havia realizado que seriam uma dupla imbatível caso um dia se vissem do mesmo lado. Este dia parecia ter chegado, ele constatou. Sentir-se útil, Granger havia dito, poderia fazer bem a ela, inclusive acelerar sua recuperação. Então, Draco semicerrou os olhos e rapidamente revisou uma ideia que lhe ocorreu enquanto a observava esperar sua decisão. Poderia dar certo.
— Tenho uma condição, Granger. – Ela apenas levantou as sobrancelhas, esperando. – Não é nada que o Ministério não exigiria quando e se voltasse, é claro. Enquanto estivermos trabalhando juntos, quero que procure um especialista para tratar seu problema de depressão e alcoolismo.
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