— Ele não quer falar com ninguém. – Declarou uma Andrômeda de feições preocupadas assim que Draco chegou à sua casa.

— Como você está? – Desconversou para que ela parasse de focar sua atenção apenas no neto quando se encontrava claramente pálida demais e com grandes olheiras sob os olhos. A senhora possivelmente ainda não estava se alimentando direito, o que poderia ser um reflexo do estado de espírito do próprio Teddy.

— Digerindo tudo isso, é claro. Quando poderia imaginar que Teddy seria... – Ela suspirou e fechou os olhos por alguns segundos, recobrando a linha de raciocínio com algum esforço. – Ele é incapaz de algo assim, ele... Não tem nada de Black, Draco.

Como ele, pensou quando a tia argumentou dessa maneira. Draco nunca havia conseguido matar ninguém, nunca havia conseguido olhar nos olhos de alguém, pronunciar o feitiço da morte e sentir evidente prazer nisso, como sua tia Bellatrix, por exemplo. É claro que, se não conseguira matar um trouxa desarmado e completamente indefeso em um ataque de Comensais à uma vila, como acontecia no auge da Grande Guerra, não teria coragem o bastante para matar Alvo Dumbledore, o bruxo mais poderoso de sua época, o homem que mesmo fraco por algum motivo emanava uma aura de poder que era quase possível sentir nos poros. Assim, fazer com que Teddy parecesse intimamente ligado ao assassinato de Weasley era inconcebível, do mesmo modo que a missão dada a Draco anos atrás, pois quem o conhecia realmente sabia que ele não seria capacitado para realizar tal ato.

— Eu sei, tia.

Num rompante, Andrômeda o abraçou, apertando-o contra si com mais força do que era realmente necessário, mas não se afastou. Pelo contrário, com um suspiro resignado, pois sabia que, no momento, ela não tinha mais ninguém com quem contar, passou um dos braços sobre o ombro dela e descansou a bochecha contra sua cabeça. A Guerra havia deixado muita gente na mesma situação de Andrômeda, a qual havia perdido o marido, a filha e o genro, deixando na figura de Teddy um consolo, fazendo com que os laços afetivos que os ligavam fossem ainda mais fortes do que de costume, pois tinham apenas uma ao outro. Entendia perfeitamente o desespero da senhora ao ver a vida do neto sendo ameaçada de forma tão definitiva e ter consciência de que nada podia fazer parar mudar isso.

Foi nessa situação que Granger os encontrou quando a porta da cozinha foi aberta abruptamente. Ambos se afastaram e encararam a figura da mulher alta revestida de roupas caras, a qual instantaneamente o lembrou da Promotora que o afrontara por tanto tempo no Décimo Tribunal. Não havia cogitado a hipótese de Granger apresentar-se naquele dia vestida em seus trajes mais profissionais, entretanto, pensou que poderia ter a ver com seu comprometimento em demonstrar que levaria o que iriam fazer a sério.

A questão é que Draco, ainda que houvesse imposto uma condição para que ela o ajudasse na construção de uma possível defesa de Teddy, não havia imaginado que poderia ser diferente. Ela gostava do garoto tanto quanto ele e sabia que se esforçaria ao máximo para que o mesmo não fosse atingido por um mal entendido, o fato de obrigá-la a procurar ajuda médica para tratar de seu problema pessoal e específico de depressão e alcoolismo era para ajudá-la, para que quando tudo terminasse ela estivesse melhor. Isso não era sobre Teddy. Ela aceitaria se tratar por ele, é claro, essa era sua melhor chance de convencê-la, astuciou rápida e espertamente quando a mulher lhe procurou de forma solicita para que trabalhassem juntos. Além disso, Granger estaria disposta a qualquer coisa para sair de seu atual e revoltante estado de inércia atual. Havia sido uma forma de manipulação um tanto quanto barata e grotesca para seus padrões, Draco admitia, mas não estava minimamente arrependido sobre seu feito. Não costumava arrepender-se pelo que acreditava estar certo e, na maioria das vezes, estava sempre certo.

— Andrômeda. Como passaram de ontem? – Ela abraçou a mulher antes mesmo de desfazer-se do cachecol branco que rodeava seu pescoço fino e do sobretudo negro que utilizava sobre um vestido justo de camurça bordô de mangas curtas, mas sem decote algum, como pôde notar quando ela tirou as peças de inverno assim que Andrômeda afastou-se, além das meias-calças pretas que protegiam as pernas longas do frio.

— Foi tudo bem, principalmente por que Teddy não quer falar sobre o assunto. – Ela suspirou e lhes serviu o chá previamente preparado em uma chaleira vermelha no fogão.

— Desculpe não ter aparecido ontem... – Granger o encarou Draco com um olhar matador enquanto pendurava seu casaco no encosto da cadeira, pois não havia permitido que ela o acompanhasse até o Ministério para saber por qual motivo Teddy fora preso. – Mas, de qualquer forma, acho que minha presença lá causaria mais problemas do que soluções e... Já temos problemas demais com que lidar, não é?

Porém, o diálogo naquele dia não fluiu, como de costume, mesmo que Andrômeda houvesse aparentado estar satisfeita por Granger mencionar que consultaria um psicólogo naquele dia, mais tarde. Assim, após terminar o chá, ambos levantaram-se para ir ao quarto de Teddy, de onde o mesmo havia se recusado a sair desde a hora do almoço. A mulher informou que esperaria na sala, pois talvez eles obtivessem mais sucesso em fazer Teddy se abrir sem sua presença lá. Andrômeda lhe pareceu um tanto rancorosa sobre isso, mas entendia que o neto podia se sentir mais a vontade com alguém que não fosse seu responsável direto. Coisas de adolescente.

Os ruídos dos sapatos de Draco e Hermione soaram altos contra o piso de madeira polida quando eles encaminharam-se pelo corredor em direção ao quarto do menino. A casa de sua tia era pequena, mas suficientemente espaçosa para acomodar a ela e o neto com conforto, era típica de subúrbio, ainda que possuísse mais a aparência de um lar do que a enorme e imponente mansão que dividia com Narcissa. Porém, tinha a impressão de que a casa se tornava grande demais para Andrômeda quando Teddy ia para Hogwarts. Ela tentava se ocupar com qualquer coisa que pudesse distraí-la e costumava receber muitas visitas, mas era claro que vivia para Teddy e não escondia a empolgação pelo fato de que os anos de estudo do garoto estavam finalmente chegando ao fim.

Assim, com um olhar compartilhado com Granger, bateu à porta do quarto do menino e adentrou o espaço cuidadosamente quando ouviu que podia fazê-lo. O cômodo era espaçoso e organizado, apesar de haver vários objetos, tanto bruxos quanto trouxas, espalhados por todo o local. A parede onde ficava a escrivaninha era completamente coberta de pôsteres sobre coisas que Teddy gostava, não fazendo distinção entre os que se mexiam ou não. A cama de casal se encontrava completamente arrumada, apesar de seu dono ter passado a maior parte do tempo por ali. Entretanto, suspeitava – pelo olhar cansado; as olheiras tão profundas quanto às da avó; e a palidez na pele – que o garoto estava acordado há um bom tempo.

Sentado em uma poltrona de frente para a janela aberta e sem utilizar nenhuma roupa adequada para protegê-lo da brisa fria que adentrava o quarto e açoitava o rosto de Draco implacavelmente, fazendo com que sua pele ardesse pelo frio, Teddy parecia estar com a mente completamente longe dali. Talvez expor-se à friagem do início de novembro fosse uma distração um tanto quanto eficiente para esquecer-se dos problemas que o engoliram no dia anterior e estavam surtindo efeito em seu psicológico até o presente momento.

— Teddy. – Granger chamou e se aproximou, os pelos de seus braços claramente arrepiados, embora não aparentasse estar incomodada por isso. Observou-a de forma cautelosa passar uma das mãos pelos cabelos do menino, que se mantinham negros desde o dia anterior, e abaixar-se ao seu lado, pegando uma de suas mãos para que pudesse enfim ter sua atenção. – Pode falar conosco agora?

Ele não demorou a responder afirmativamente e fez com que sua poltrona se voltasse para a cama, podendo assim estar de frente para Draco e Granger que se acomodaram a escrivaninha e sobre a cama, respectivamente. Sacou um bloco de notas e uma pena de repetição rápida, enfeitiçando-a com habilidade para que entrasse em ação assim que Teddy começasse a falar.

— Você não precisa ficar nervoso, isso... Não é um depoimento oficial, nem mesmo uma preparação de testemunha, certo? Além disso, também não será divulgado de forma alguma em nenhum veículo midiático. – Teddy concordou e Draco apoiou os próprios cotovelos contra os joelhos, inclinando-se na direção do menino enquanto juntava as mãos. — Vamos começar por algo simples. Qual a sua relação com Granger?

— Somos próximos. – Ele começou após um suspiro resignado, provavelmente por ter de responder a perguntas óbvias feitas por alguém que já sabia todas as respostas. – Nos vemos quando estou em casa e trocamos cartas no período escolar.

— Qual o tipo de conteúdo dessas cartas?

— Er... Falamos sobre nosso dia-a-dia? – Draco meneou a cabeça.

— Acha que podem soar comprometedoras fora de contexto? – Teddy franziu o cenho e foi obrigado a refazer. – O conteúdo das cartas pode incriminar um de vocês?

— Não.

— Falamos sobre Ronald. – Granger interrompeu quando Teddy pareceu inseguro. – Mas nada que pudesse soar como se estivéssemos planejando um crime.

— A considera tão próxima quanto seu padrinho Potter? – O garoto afirmou. – E essa proximidade se estendia a Weasley?

— Tivemos uma boa relação pela maior parte da minha vida. – Respondeu ele após pensar por alguns instantes. – Mas... Isso mudou há mais ou menos um ano.

— Por quê?

— Por que percebi que ele só fazia mal a tia Hermione. – Dessa vez, Teddy falou com convicção e Draco correu os olhos para a figura de Granger, a qual encarava o menino ternamente. Definitivamente, não sabia que eles eram próximos a tal ponto.

— Em que sentido você se refere?

— Ela... Estava sempre triste e dava a entender que voltar pra casa era algo que evitava ao máximo. – Ele encarou Granger. – Por isso sempre trabalhava até tarde, não é? Além disso, não era natural que ela aparentasse tanto desgosto por ainda estar com tio Ron quando na frente de todos tudo parecia tão... Normal, como se eles não tivessem nenhum problema.

— Ah, Teddy...

— E você chegou a uma conclusão sobre isso. – Não foi uma pergunta por que, assim como Granger, a qual parecia se sentir culpada enquanto encarava Teddy, não precisava de muita imaginação para saber a que conclusão ele havia chegado.

— Eu só queria ajudá-la. – Ele murmurou, desviando os olhos para o chão logo em seguida. — Queria que ficasse longe de alguém que, definitivamente, estava fazendo-a infeliz.

— Eu entendo, querido.

Granger sentou-se no braço da poltrona onde o menino estava e o abraçou pelos ombros, apertando-o contra si ao mesmo tempo em que evitava encarar Draco. Imaginava que depois do depoimento ela iria se autorresponsabilizar por algo, mas ter a consciência concreta de que era responsável pelo fato de Teddy pensar que Ronald a estava obrigando a permanecer no casamento e, por isso, vivia em depressão, iria desequilibrá-la em algum nível.

— Então... O que você fez? – Draco recomeçou quando todos se ajeitaram em seus devidos lugares. – Como suas digitais foram parar na cena do crime?

— Na noite anterior a morte de tio Ron, tia Hermione veio pra cá após uma briga. Ela disse que precisava de um lugar pra ficar e tentar esfriar a cabeça. Eu... A ouvi falando com a minha avó. – Teddy mordeu os lábios. – Era algo sobre privilegiar o trabalho e não ter tempo para os Weasley. Bem, não demorou muito e ouvi que ela iria para a Toca, minha avó a havia acalmado e a encorajado a ir para que evitasse comentários.

“Então, no dia seguinte, eu fui a casa deles. Pensando agora, vejo que foi precipitado e infantil. Mas eu queria que ele percebesse como ela estava sofrendo com todas aquelas brigas! Passei as férias inteiras ouvindo-a contar a minha avó sobre suas desavenças, suas traições ininterruptas... É claro que tio Ron não gostou e acabamos discutindo... Foi mais feio do que achei que seria. Ele disse que uma criança não tinha o direito de se intrometer em seus problemas e que tudo seria resolvido naquela noite, de qualquer forma. Disse ainda que eu não conhecia a tia Hermione como ele e que ela estava fazendo minha cabeça contra ele, como havia feito com tio Harry. Enfim, dissemos várias coisas um ao outro, mas... Ele foi embora. Saiu pela porta fingindo não me ouvir.”

Teddy contou tudo de forma resignada, realmente parecendo amaldiçoar cada um de seus atos e decisões na tarde da morte de Weasley. Draco julgou que não era para menos, visto que uma discussão como essa, principalmente se ambos houvessem se exaltado, poderia complicá-lo ainda mais caso houvesse testemunhas. Granger, entretanto, parecia comovida pelo relato enquanto encarava o garoto. Certamente, assim como Draco, nunca havia pensado que ele se importasse com sua pessoa ao ponto de comprar uma briga com seu marido.

— E o que aconteceu depois que ele foi embora?

— Não me restava mais nada a fazer, usei o Flu que havia lá mesmo e vim para casa pela lareira, assim como havia ido.

— Isso aconteceu por volta de que horas, Teddy? – Granger manifestou-se demonstrando estar intrigada.

— Er... Pouco antes do pôr do sol, eu acho, quando cheguei aqui já havia anoitecido. – Respondeu o garoto com o cenho franzido.

Então, Teddy não era a pessoa de capa que havia visitado Weasley naquela tarde. Os horários não batiam, além do fato de que ele não havia entrado pela porta, como a testemunha Helena McLearn relatava, mas pela lareira. Mais alguém visitara Weasley naquela tarde e poderia ser qualquer um ligado intimamente a ele. Draco viu Granger voltar o olhar para ele, parecendo concordar em seguir a mesma linha de raciocínio que desenvolvia, e suspirou ao encarar o mais novo, que parecia ainda mais apreensivo do que quando chegaram.

— Se não se tiver mais perguntas para Teddy, Malfoy, pode nos dar licença? Acho que... Temos algumas para conversar?

Draco ainda correu os olhos para ambos por um minuto e, finalmente, recolheu suas coisas. Realmente esperava que Granger formulasse uma bela bronca ao garoto, mas sabia que ela estava comovida demais pelo fato dele ter tentado defendê-la. Enquanto fechava a porta do quarto, realizou, desgostosamente, que, pela primeira vez na vida, concordava com Ronald Weasley – embora não fizesse questão alguma de externar tal constatação: Teddy realmente não deveria ter se metido.

Não apenas pelos problemas que tê-lo feito lhe acarretou posteriormente, divagou, mas por que Granger era crescida o suficiente para decidir sozinha sobre sua vida. Se ainda estava com Weasley é por que queria assim, não fazia parte de sua personalidade manter algo que estivesse fora de seus planos milimetricamente traçados, ainda que expressasse sua insatisfação por isso. Por isso, homem nenhum a manteria presa a um casamento, como Teddy pensou, a menos que ela quisesse. Além disso, era claramente capaz de defender-se sozinha, sem precisar que qualquer homem fizesse isso por ela.

Revirou os olhos pela falta de percepção de Teddy e acomodou-se na sala para esperá-la, visto que queria acompanhá-la até o consultório do psicólogo para que pudesse ter certeza de que realmente estava disposta a fazer tratamento que mais lhe adequasse.

Não muito depois, Andrômeda se fez presente, trazendo em um dos braços um pequeno baú de aparência antiga, o qual muito lhe lembrava o estilo das relíquias da família Black e onde sabia que ela colocava seus pertences de costura, e sentou-se ao seu lado. Viu como a senhora retirou duas agulhas grandes e dois novelos de lã nas cores amarelo e preto. Lufa-lufa. Provavelmente faria algo para Teddy nas cores da casa para a qual ele tivera orgulho de ir desde o primeiro instante, a mesma que a de sua mãe, Tonks.

— Você... Não quer saber o que ele contou? – Perguntou lentamente, observando-a.

Estranhava o comportamento da tia, que sempre lhe parecera psicologicamente mais forte em relação às duas irmãs, até mesmo Bellatrix, com quem tinha tantas semelhanças quanto à aparência. Entretanto, entendia suas reservas, afinal ela nunca imaginara que a paz pela qual pagara tanto seria novamente ameaçada, que o motivo, em parte, dessa paz poderia lhe ser tirado. Desse modo, viu Andrômeda expirar, os olhos presos no carpete da sala, e baixar as mãos que sustentavam o tricô recém-iniciado, antes de encará-lo algum tempo depois tendo certo brilho de determinação no olhar.

— Ele irá falar comigo quando estiver pronto. – Ela deu de ombros e voltou-se para seu trabalho. – Nós somos assim, quando pressionados tendemos a não nos abrirmos. Acredite ou não, é a única coisa que temos em comum. Precisamos absorver o que está nos acontecendo antes de... Externar isso, independente do nível que amamos um ao outro.

Draco não contestou, pois entendia perfeitamente o elo que envolvia avó e neto, além de que ela certamente tinha razão. Era uma característica bastante comum dos Black. Após isso, Andrômeda não o abordou mais sobre o assunto. Era uma clara demonstração de que confiava em sua competência para manter Teddy longe de encrencas, não precisava que isso lhe fosse garantido a todo instante, como se tal ato fosse aumentar as chances de acontecer. De qualquer modo, apreciava a relação que mantinha com as pessoas que lhe eram próximas.

Não demorou a que Granger reaparecesse e anunciasse que estava pronta para sair, pois sua primeira sessão seria dali meia hora. Andrômeda a desejou boa sorte quando todos se despediram e ambos tomaram a rua, dessa vez pela porta da frente e devidamente agasalhados contra o frio. O psicólogo que Granger consultaria era próximo a casa de sua tia. Na verdade, a senhora havia indicado o homem quando a outra exigiu um especialista trouxa. Ela teria que tomar cuidado para não mencionar nada relacionado ao mundo mágico, mas ao menos teria certeza que este não seria capaz de “vazar propositalmente” qualquer coisa que dissesse em consulta por interesse ou dinheiro. Embora isso acontecesse raramente, ela não gostaria de arriscar.

Caminharam em silêncio por algum tempo enquanto divagava sem muito interesse que toda a cidade já estava colorida pelos tons monocromáticos do inverno. Logo seria Natal e os últimos meses pareceram ter se passado em tão poucas semanas que sequer notara. A presença de Granger lhe ocupava completamente a mente, constatou ao encará-la quase de forma mal educada. Viu como ela franziu os lábios e levantou uma sobrancelha antes de fazer o mesmo, olhando-o com irritação. Imaginou o que ela poderia ter em comum com Teddy, sobre o que tanto falavam em suas várias cartas e, principalmente, que tipo de conversa teriam tido quando os deixara a sós, mas evidentemente nunca perguntaria. Ela falaria, se o quisesse.

Por fim, cansados da luta travada por olhares, menearam a cabeça e voltaram suas atenções ao caminho enquanto contornavam uma esquina. O lugar onde estavam ladeava uma praça grande que, no momento, se encontrava repleta de crianças correndo de um lado a outro, tentando aproveitar ao máximo a possibilidade de brincar fora de casa enquanto o tempo estivesse bom. Ouviu – atento como realmente estava aos movimentos de Granger ao seu lado – o suspiro quase rendido e não demorou a ouvi-la.

— Temos que adiar ao máximo um depoimento de Teddy.

— Há alguém que conhece alguém e que me deve um favor... – Ela franziu o cenho, dessa vez, possivelmente irritada por seus métodos. – Ele fará uma intimação ser adiada com facilidade, não se preocupe.

— O juiz precisará expedir uma intimação se a Promotoria tiver provas o suficiente para convencê-lo. – Granger constatou o óbvio, afinal de contas Draco não fazia milagres em seu trabalho, embora isso fosse um infortúnio muito grande.

— De qualquer forma, temos mesmo que torcer para não encontrarem uma testemunha em um buraco qualquer para dizer que Teddy e Weasley brigaram naquele dia. – Com as mãos no bolso, Granger concordou sem mais delongas. – Vou entrevistar alguns de seus vizinhos, verificar se alguém viu algo diferente no dia em questão, o que não deve ser difícil num vilarejo como Godric’s Hollow.

— Eu vou ignorar o seu tom de desprezo ao falar do lugar onde eu moro, Malfoy. – Draco conteve um riso ao encará-la.

Realmente desprezava vilarejos como Godric’s Hollow, onde tudo e todos pareciam sair de um livro que retratava a vida perfeita de pessoas perfeitas que se esforçavam para parecer perfeitas. As coisas não eram bem assim, sabia por experiência própria – crescera em Wiltshire—, além de acompanhar de perto a prova viva que evitava veemente encará-lo, no momento.

— Não ignore, é de propósito!

— Merlin, como você é implicante. – Ela revirou os olhos, sem realmente estar nervosa e parecendo relaxar um pouco, percebeu, pois não demorou muito a emendar um assunto totalmente diferente. — Foi realmente esperto de sua parte mandar a Sra. Smith hoje.

— Não mandei a Sra. Smith, apenas confirmei que estaria em casa em determinado horário depois de mencionar que iria ao psicólogo. – Explicou insatisfatoriamente, mas ao mesmo tempo sem importar-se pela obviedade com que havia arranjado as coisas. – Achei que teriam muito a falar.

— Tinha razão. Pude pensar em algumas coisas. – Granger mordeu o lábio inferior claramente insegura. – Ela lhe contou sobre o marido?

— Não, descobri por outros meios. – Ela lhe lançou um olhar recriminador, embora Draco entendesse que ela não deveria lhe julgar, afinal não poderia contratar alguém para ser sua secretária, alguém desempenhar um papel de total confiança em sua vida, sem deixar de investigar essa pessoa. – Há um acordo tácito entre nós para nunca falarmos sobre isso.

O vento fazia com que seus cabelos fossem jogados para trás e Granger com os olhos meio cerrados contra o frio lhe parecia ainda mais pensativa do que realmente estava. Viu quando ela balançou a cabeça negativamente, e soltou um impropério demonstrando ainda sua contrariedade. Draco sabia por quê.

— Não quero acabar como ele, Malfoy. – Ela declarou em tom baixo enquanto tinha os ombros encolhidos, as mãos bem aquecidas dentro dos bolsos do casaco e os olhos presos ao chão. – Essa hipótese me deixa... Enojada.

O marido da Sra. Smith era alcoólatra, como Granger, mas conseguiu manter um casamento estável por muitos anos, apesar de tudo. Segundo suas fontes, ele não bebia sempre, mas perdia o controle de seus atos quando em contato com álcool. Nestas ocasiões, ele sempre se mantinha afastado da esposa, como se soubesse que era capaz de fazer algo para machucá-la, como se algo lhe avisasse para manter a distância.

Entretanto, houve uma vez que ele perdeu o controle, uma única vez que culminou na destruição silenciosa e excruciante de tudo que havia construído com Emily ao longo dos anos. Ela não o expulsou de casa após ser agredida, ela não queria que ele afastasse, sabia que ele jamais lhe machucaria estando em sã consciência, mas ainda assim o Sr. Smith se sentia culpado pelo que fizera e, por isso, passou a evitá-la. O acontecimento pairou entre eles, não por querer, não por necessidade de acusar, apenas... Estava sempre lá incomodando, tornando-os cada dia mais infelizes. De acordo com o investigador, ele se tornou cada vez mais triste, ranzinza, por que não conseguia encará-la sem se lembrar do que fizera. Por fim, quando o Sr. Smith morreu por overdose de remédios antidepressivos e álcool eles sequer dormiam no mesmo quarto, apesar de se amarem.

— Não é a mesma história que a sua, Granger. – Porém, Draco entendia por que a Sra. Smith havia achado necessário e insistido tanto em procurá-la para conversar. Ela tinha algo a acrescentar, algo para fazer com que pensasse a respeito de sua própria situação, apesar de tratar-se de histórias completamente diferentes.

— Não. Mas eu já machuquei e afastei as pessoas que amo, que sempre amei. – Ela emitiu em tom embargado, olhando fixamente o caminho a sua frente. – Não quero acabar longe dessas pessoas, tendo desapontados a todos como se não tivessem a mínima importância quando sei que são essenciais pra... Eu ser quem sou. Entende?

Draco entendia – embora não estivesse inclinado a apoiar tal linha de pensamento – e exatamente por isso fechou a boca que já preparava um argumento contrário. Granger sentia que não havia cumprido seu dever de agradar aqueles a quem amava pelo fato de não ter suprido as expectativas que estes mantinham sobre sua figura e, por isso, tivessem se afastado. Eles queriam mais do que ela podia oferecer, mais do que oferecera nos últimos anos e ela desapontara a todos por que, supostamente, não era a mulher perfeita que esperavam.

A questão é que isso não tinha nada a ver com seu problema relacionado ao álcool, mas com o que pensavam sobre ela e isso Granger não podia mudar com sua mera força de vontade. A história da Sra. Smith era o exemplo perfeito: apesar de dedicar grande parte da sua vida para tentar fazer com que o marido voltasse a tocá-la sem nutrir qualquer tipo de culpa, Emily não tivera esse poder, não fora capaz de tanto sozinha. Para Draco, a mudança dependeria de cada indivíduo e não adiantaria de nada Granger se esforçar para encaixar-se novamente, para agradar a todos – “as pessoas a quem amava” – se estes não mudassem suas convicções sobre a figura do que ela era ou deveria ser.

— Talvez apenas precise parar de se culpar por eles terem se afastado. – Soltou antes que pudesse se conter, apesar de realmente não querer. – Foi uma escolha deles, não?

— Eles acham que matei um membro da família, Malfoy, e mexer com a família é inadmissível. – Ela deu de ombros expressando com o gesto que não poderia fazer nada a respeito quanto a isso.

— Certo, então me responda algo: há quanto tempo convive com os Weasley? – Granger deu a entender que iria responder, pois este era seu instinto natural, mas apenas o olhou, esperando-o terminar seu raciocínio. – Eles a conhecem desde criança, não? Sabem de sua índole, de seu caráter, sabem que lutou em uma guerra tanto quanto eles. Foi por isso que se casou com um, não? Conheciam-na bem o suficiente para entrar para a família com facilidade, como aconteceu com Potter. Você também é da família, Granger, e ainda assim eles não pensaram duas vezes antes de lhe virar as costas. Os Weasley fizeram essa escolha e você não é culpada disso, apesar de os motivos deles serem... Compreensíveis.

— O problema, Malfoy, é que eu não tenho cabelos ruivos. – Ela declarou após parecer digerir o que havia dito por tempo suficiente para que pudesse ter sua própria opinião sobre o assunto, Draco julgou.

— Obrigada!

Ela finalmente soltou um riso breve, dando uma leve tapa em seu braço antes de voltarem a caminhar normalmente e em um silêncio confortável dessa vez até encontrarem-se perante uma casa vermelha de aparência antiga e janelas estreitas dispostas em fileiras de sete que se estendiam por três andares. Não havia portão para separar a entrada da calçada, a qual ficava a pelo menos cinco degraus da porta negra e reluzente ladeada por dois vasos de plantas que precisavam urgentemente de sol.

— Suponho que esse é um dos assuntos que devo mencionar a psicóloga, não? – Granger disse ao voltar-se para ele. – Minha vontade de sempre agradar a todos, digo, e... Sua resistência em aceitar isso. Surpreendentemente, sei reconhecer alguns dos meus defeitos.

Draco apenas concordou com um aceno de cabeça, satisfeito por Granger não ter se perdido a ponto de não ser capaz de fazer uma autoanálise de seus defeitos, e a observou subir os degraus em direção à entrada do consultório. Porém, antes que pudesse dizer que se veriam no dia seguinte, ela se virou encarando-o novamente e analisando-o por alguns segundos antes de abrir a boca.

— Disse que precisávamos conversar para... Manter-nos trabalhando juntos. – Uma brisa mais forte fez com que seus cabelos fossem tocados em direção ao rosto feminino e ela retirou uma das mãos do bolso para colocar os fios cacheados de volta aos seus lugares. – Se Andrômeda não tivesse chegado, iríamos até o fim, não é?

Granger não especificou por que não era necessário. Ambos sabiam que iriam “até o fim”, independentemente da relação profissional que os envolvia e do momento um tanto confuso pelo qual ela estava passando. Draco seria egoísta assim, tinha certeza de que não pararia e, apesar de saber que não era o ideal, que não lhes daria nada além do prazer, queria fazê-lo sem pensar nas consequências. Estava a ponto de esquecer todas as consequências, aliás, quando foram obrigados a parar.

— Sim, iríamos.

— Sabe, não espero que tenha todas as respostas, nem eu as tenho, mas... Eu preciso saber. – Ela remexeu-se parecendo incomodada por insistir no assunto, mas continuou lentamente, escolhendo as palavras certas. – O que aconteceu nos levará um dia... Não hoje, não amanhã... A algum lugar?

Draco entendeu que Granger não estava exigindo nada e, se estivesse – pois as mulheres tinham certa mania de exigir sem que demonstrassem estar fazendo-o -, se saíra muito bem por que não havia notado nada que o sugerisse. De qualquer modo, achava justo que pudessem esclarecer “onde” estavam ou que tipo de relação era aquela que estavam desenvolvendo com tanta paciência – pelo menos, era o que ela demonstrava. Semicerrou os olhos e desviou-os por alguns segundos, observando rapidamente os carros que passavam pela rua sem realmente enxergá-los enquanto refletia sobre.

Soltou um ligeiro riso quando o pensamento de que, em outros tempos, jamais os imaginaria tendo essa conversa e voltou a olhá-la. Cinco degraus acima de si, as faces coradas pelo frio, enquanto examinava-o em busca das respostas, assim como o próprio Draco, já que mesmo Granger não esperava que ele as tivesse.

— Você sabe que sim. – Ela tombou a cabeça levemente para o lado, imaginando o que poderia tê-lo motivado a ser sincero ao menos uma vez, mas Draco não estava disposto a se colocar sob análise ali.– Está atrasada, Granger.

Ela ainda o olhou por alguns momentos antes de repuxar os cantos dos lábios em um sorriso pequeno e acenar com a mão ao voltar-se para entrar no consultório. Não hoje, não amanhã... Parecia um bom acordo. Bem, ninguém tinha pressa. Concluiu enquanto a via fechar a porta tranquilamente e sumir do lado de dentro do prédio.

Notas finais
Oieee!!! Tenho que dizer, gente, esse capítulo foi um sufoco pra postar! Primeiro, eu já tava com ele quase que inteiramente escrito quando pensei "os leitores merecem saber o que aconteceu com Teddy já neste capítulo". Daí, o apaguei inteiro e recomecei, então... Espero muito que gostem!! Vimos um pouco mais também da relação de Andrômeda com Teddy, a visão de Draco sobre como ela ficou sozinha, a relação que ele faz de si com o próprio Teddy... Já deu pra perceber que ele se compara com várias pessoas de sua família? Acho que é algo intrínseco dele, para mostrar que está numa situação diferente, que é melhor ou pior... Bem, espero que gostem disso por que não poupo palavras para um monólogo de Draco kkkkkkk Me digam, eu gosto de saber o que acham!! Esse capítulo ficou bem grande né?!!! Sei que muita gente gosta e quem não gosta, por favor, fale por que realmente só coloquei o que era necessário. Exagero? Talvez, mas... kkkkkk Então, gostaria de agradecer a todos os comentários do capítulo anterior e aos novos leitores que surgiram e que agora não sei em que ponto da fic estão, mas... kkkkkk Obrigada!! Gente, realmente não precisa ter vergonha de comentar por que só sorrio enquanto leio o que vocês escrevem, seja elogio, seja crítica construtiva ^^ :D Apareçam, peoples!! :)) P.S. Deem uma passadinha de cinco minutinhos em minha one chamada Ensaio sobre Defeitos!! Um comentário e/ou recomendação também são sempre bem vindos, assim como aqui, sempre respondo ^^ https://fanfiction.com.br/historia/675950/Ensaio_sobre_defeitos/ Até o próximo, gente!! Beijinho ;)