Neurótica
20 Capítulo 20
DRACO MALFOY PROMOVE COLETIVA DE IMPRENSA
Três dias antes de o QG dos Aurores finalizar o inquérito que investiga a morte do Sr. Ronald Weasley, Draco Malfoy, advogado de Hermione Granger – viúva apontada como principal suspeita de ter realizado a maldição imperdoável que levou o próprio marido a morte –, promoveu uma coletiva de imprensa em seu escritório no Beco Diagonal com o objetivo de falar sobre o caso que vem movimentando a sociedade bruxa nas últimas semanas e afirmou categoricamente que sua cliente é completamente inocente de todas as acusações atribuídas a ela.
“Granger não tinha a vida perfeita e acho que isso ficou bastante claro para todos, mas, do mesmo modo, era e é incapaz de machucar alguém daquela forma”, disse Malfoy referindo-se ao modo como Weasley foi encontrado no banheiro de sua própria casa com os pulsos cortados devido à Maldição Imperdoável Imperius, a qual faz com que a pessoa aja contra a própria vontade.
Parecendo muito tranquilo atrás de sua imponente escrivaninha enquanto a secretária escolhia quem fazia as perguntas, Malfoy voltou a se referir a Lilá Brown, amante de Weasley, como interesseira e oportunista: “Para mim está muito claro que Brown tenta tirar proveito da situação maculando a imagem de minha cliente. Agora, é possível notar também o desespero dela ao tentar manipular uma sociedade que é consciente da integridade e competência de Hermione Granger”.
O advogado, entretanto, ainda completa em tom um tanto indignado: “Talvez o problema esteja todo aí, entende? Granger lutou em uma guerra, uma heroína, todos conhecem sua história... Enfim, é natural que invejosos apareçam, ela sabe disso. E quanto a Brown? Ela é aquela que tentou tirar o marido de Granger e inventou uma gravidez para tentar alcançar seus objetivos. Qual o peso que a palavra dela tem para acusar minha cliente e criar um estardalhaço em torno de provas completamente inconclusivas. Não vejo a mínima coerência na atitude do QG dos Aurores em dar créditos a uma mulher como esta”.
Porém, todos os leitores do Profeta Diário sabem que a gravidez de Brown é real e não apenas “inventada”, como afirma Draco Malfoy, e este foi questionado quanto a isso e a reação de sua cliente, a qual é cercada de rumores sobre um possível aborto acidental sofrido alguns anos atrás: “A gravidez pode até ser real, mas seus motivos... Eu duvido muito! Posso admitir que acidentes acontecem, mas as chances são um pouco remotas em se tratando de uma mulher adulta e experiente como Brown. Ela evitaria uma gravidez com facilidade, se realmente o quisesse. Entretanto, talvez o fato de se ver grávida de um homem rico e bem sucedido tenha feito com que sonhasse alto demais. A forma com que ela repete incessantemente que Weasley pediria o divórcio na noite em que morreu talvez apenas não passe de uma vontade que não se concretizou do modo como gostaria, afinal seria realmente um sonho para Brown que Weasley deixasse Granger para ficar com ela”.
Um dos repórteres, ainda, insistiu com Malfoy sobre a reação de Granger quanto às declarações de Brown relacionadas à gravidez e insinuação de que Weasley lhe pediria o divórcio antes de morrer: “Granger está indignada como, aliás, todos deveriam estar. Ela e o marido tinham suas desavenças, mas acredita que jamais tenham chegado ao ponto de consumarem um divórcio. A gravidez de Brown, por outro lado, a deixou em choque quando descobriu, pois... Ela ainda tinha esperanças de reatar com Weasley, achava que iriam se entender, como sempre aconteceu durante o relacionamento deles”.
Quando perguntado sobre o motivo de Granger não estar presente na coletiva, Malfoy sorriu, como se esperasse a pergunta, e revelou que esta estava ocupada preparando uma sobremesa para o jantar de Halloween em uma clara demonstração de que a mesma está bastante tranquila quanto ao resultado do inquérito que pode levá-la a julgamento na posição de acusada de assassinato.
Malfoy ainda conversou separadamente com alguns jornalistas, onde revelou que Granger, apesar de tudo, estava hospedada em uma casa afastada de Londres, o que a mantinha longe de todas as especulações desnecessárias, ele gostou de frisar, que cercavam seu caso. Por fim, despediu-se dos repórteres parecendo de bom humor e bastante confiante de que a conclusão do inquérito seria bastante favorável à sua cliente.
C. Fawcett
Realmente, parecia de bom humor, mas, se olhassem com atenção, veriam que estava esperando uma pergunta ardilosa para responder de forma mordaz. Mais mordaz do que o fazia, deveria dizer.
– Alimentar o próprio ego não cansa, às vezes?
A voz de Granger à sua frente fez com que levantasse o olhar de sua imagem que havia na edição especial do jornal O mensageiro. Ela estava linda, foi sua primeira constatação ao encará-la. Fazia muito tempo que ela não se arrumava daquele jeito e fazia muito que não parecia tão saudável: seu rosto estava mais corado do que na tarde anterior, talvez por causa da maquiagem leve que ultimamente não fazia parte de seus dias, e os olhos brilhavam devido à iluminação da rua lá fora que penetrava pela janela atrás de si.
– Não, gosto de saber que sou o melhor no que faço.
– O segundo melhor. – Ela respondeu rapidamente, obrigando-o a esconder um sorriso enquanto encarava a travessa que ela tinha em mãos.
– O que é isso? – Levantou-se e tirou o pano que cobria o conteúdo da enorme forma.
– Torta de maçã.
– Você cozinhou para um batalhão de aurores famintos? – Não é como se aquela torta fosse alimentar toda a família Weasley, que é quem ela provavelmente teve como base.
– Fiz parte de uma família como a dos Weasley por anos, é natural que tenha... Adquirido algumas manias. – Ela deu de ombros como se não desse importância a algumas das manias conquistadas devido a convivência e não fizesse questão de se livrar delas, realmente.
– Que seja. Detesto torta de maçã, de qualquer forma. – Não é como se odiasse, apenas não era sua preferida e fazia anos que não comia uma, pois Andrômeda, Narcissa, os elfos de sua casa e qualquer pessoa que convivesse minimamente com Draco sabia que sua sobremesa favorita era torta de morangos.
– Só lamento por você: é o único que ficará sem sobremesa.
Após isso, o jantar ocorreu calmo, embora todos parecessem ter optado por abordar assuntos mais amenos com medo de que tornassem o clima pesado. Granger parecia menos tensa do que nos dias anteriores. Sabia que ocupar sua cabeça com outras coisas além do inquérito lhe faria bem durante o tempo de espera.
A interação entre ela e sua mãe foi algo um tanto quanto surpreendente para Draco, o qual poucas vezes vira Narcissa conversar daquela forma com pessoas que mal conhecia. Apesar disso, a senhora manteve a costumeira distância fria que lhe cabia, o que o deixou um pouco mais aliviado, pois detestaria ter de assistir sua mãe juntar-se a Granger para enumerar seus incontáveis defeitos. Porém, uma imagem das duas mulheres tomando chá enquanto faziam isso não saía lhe saía da mente.
Andrômeda, entretanto, fizera questão de trazer a tona a questão que tanto o incomodava: casamento/herdeiros. Podia sentir o olhar de Granger lhe encarando com um sorriso malicioso ao lado de Teddy – o qual realmente havia sido dispensado de Hogwarts durante a semana do Halloween – enquanto ambos o esperavam ensaiar a mesma resposta de sempre, ou seja, não iria se casar por obrigação como as outras gerações de sua família.
Viu Narcissa bufar inconformada com sua suposta rebeldia e retrucar que em seus tempos isso seria inaceitável e, justamente devido ao fato, devia ter sido mais rígida com Draco, mas todos sabiam que ela não falava sério, pois jamais o obrigaria a assumir um compromisso que não desejasse. Talvez por tê-lo mimado demais, desconfiava, talvez por que as lembranças dos tempos da Grande Guerra ainda pairavam como uma nuvem sobre a família Malfoy mesmo após a morte de Lucius.
O jantar, portanto, não saiu dos conformes e terminou de forma frustrante para Granger, que precisou engolir a indignação e apenas assistiu de forma resignada enquanto sua tia colocava uma torta de morango sobre a mesa. Não ficaria sem sobremesa, como ela previra. A mesma, então, apenas lhe revirou os olhos e voltou-se para a sua própria torta, no que ele sorriu e ocupou a boca com um grande pedaço da torta que Andrômeda fizera questão de preparar para que dividisse com Teddy, pois, por mais que detestasse, teria de fazê-lo por educação. Embora não houvesse sido tão educado assim quando ele e o garoto atacaram a torta sem nem mesmo colocá-la adequadamente em um prato, comendo da própria travessa.
– A Srta. Granger é um achado. – Declarou Narcissa por nenhum motivo específico assim que se viram sozinhos na sala de estar de Andrômeda, enquanto o “assunto” conversava com a anfitriã na cozinha. Apenas levantou uma sobrancelha em questionamento. – Nas conversas que tivemos, você nunca deu a entender que ela fosse tão... Elegante.
– Aonde quer chegar, mamãe? – Perguntou depois de procurar em sua mente conversas que tivera com ela e que tinham Granger como tema central, mas não se lembrou de muitas.
– Aliás, sei que ela é elegante, todos sabem. A questão é que você nunca pareceu lhe fazer jus. – Ela corrigiu-se.
– Não havia necessidade. – Deu de ombros, finalmente entendendo onde ela queria chegar e tentando encontrar as palavras certas para colocar o que tinha em mente sobre. – Granger era a inimiga e, por isso, queria lhe provar como era diferente do modo como aparentava às pessoas.
Atualmente, entretanto, Draco tinha certeza do que antes era apenas uma constatação que lhe serviria para tentar desmoralizá-la, atingi-la de alguma forma. A necessidade de fazer os outros perceberem que ela não era, realmente, aquela que se apresentava a eles não o perseguia mais. Pelo contrário, devido ao trabalho, deveria fazer com as pessoas acreditassem que ela era aquela boa pessoa, de reputação ilibada e excedia todas as expectativas colocadas sobre ela.
Não apenas isso, sua consciência lembrou-se irritantemente enquanto o olhar de Narcissa o analisava meticulosamente como só ela sabia fazer. Percebeu que fora um dos poucos a quem ela se apresentou verdadeiramente, ainda que não voluntariamente, pois era constantemente instigada por ele. Draco era um dos poucos que conheceu a verdadeira Granger quando ela ainda insistia em manter, ao menos em público, sua face mentirosa; que sabia como sua mente funcionava – ao menos no trabalho, onde se deparava não raramente com a mulher que havia se revelado de vez após a morte de Weasley: aquela que calculava friamente como e quando seguir por determinado caminho, pois este seria melhor para seu cliente e era preciso ser assim para ganhar dele; Draco havia sido aquele que tivera, ao menos, a consciência de desvencilhá-la daquela pintura perfeita que ela fizera de si mesma e da vida que levava. Por fim, constatava com cautela, isso não lhe servia de grande ajuda, pois Granger lhe surpreendia com mais facilidade do que qualquer outra pessoa a quem ele já se dedicara a analisar.
– Ela ainda é a inimiga? – Ela o instigou. – Pois não seria um grande incômodo conhecê-la mais a fundo.
– Mãe. – Disse em tom de aviso ao vê-la buscar a própria carteira de mão em cima da mesinha de centro.
– Se você quisesse, é claro. – Ela completou enquanto dava de ombros como se houvesse dito algo completamente inocente. – Prefiro você preocupado com o futuro dela do que a xingando sempre que encontra oportunidade, sendo isso bastante inapropriado, devo dizer.
Não é como se ligasse para as regras de etiqueta quando brigava com Granger e tinha certeza que ela pensava do mesmo modo, pois não fazia questão de manter a elegância tão apreciada por Narcissa quando o próprio Draco lhe dava motivo para deixá-la de lado ao provocá-la exatamente com essa intenção. Porém, visto o estado atual em que sua vida se encontrava devido a todas as reviravoltas que Hermione Granger havia provocado, tinha de discordar de Narcissa, pois às vezes pegava-se desejando voltar à fase em que descontava em qualquer um que merecesse toda raiva que ela lhe dava. As coisas eram menos complicadas nessa “fase” que havia durado mais anos do que podia lembrar-se, constatou.
– Não quero acrescentar mais um problema à lista dos que já tenho e, por isso, prefiro a fase onde Granger era a inimiga.
Detestava estar falando sobre o passado que dividia com Granger como se houvesse sido uma fase por que fases são passageiras e por isso o que estavam vivendo agora tinha grandes possibilidades de ser uma, mas não o passado deles. Este havia sido denso demais, nebuloso demais, perturbante demais para ser tratado como uma fase que vem e vai muito rápido e depois não se dá importância – a menos que essa o tenha marcado de alguma forma – por que Draco estava muito consciente de que a história não era bem assim entre eles.
– Então não a encare como um problema. – Nesse instante, Teddy voltou à sala com uma roupa diferente da que se encontrava no jantar e Narcissa o abraçou para se despedir. – Por que tenho a impressão de que não voltará a essa fase.
Sua mãe apenas sorriu e lhe desejou boa noite, saindo exatamente no momento em que Teddy ligou o som da sala com um movimento do dedo indicador, surpreendendo-o ao ouvir uma música qualquer de uma banda claramente britânica se fazer presente no ambiente abafando as conversas e risadas dos trouxas do lado de fora.
– Como conseguiu enganar o rastro que persegue os menores de idade? – Perguntou quando Teddy sentou-se ao seu lado no parapeito da janela e encarou o movimento das pessoas que vestiam todo tipo de fantasias.
– Pesquisas, treino, pesquisas, treino...
– Não irá me contar, não é? – Draco sequer insistiria, pois já transgredira regras muito piores do que aquela que impedia a prática de magia por bruxos menores de 17 anos e tinha problemas muito maiores no momento. Teddy apenas riu e negou, alegando que não ousara fazer nenhum tipo de magia perigosa sem utilizar varinha. – Não deixe Granger saber disso.
– Não irei. – O garoto ainda tentou emendar o sorriso em alguma tirada de bom humor, como lhe era característico, mas desistiu e apenas encarou as pessoas lá fora com ar pensativo e uma sombra estranha a sua personalidade pairando no olhar. Conhecia Teddy e sabia que ele queria dizer algo. Esperaria o tempo que fosse preciso até ele estar pronto, como sempre fizera, aliás, mas não foi necessário, pois não demorou para que ele expressasse o motivo de sua seriedade. – Você... Acha que a tia Hermione será absolvida das acusações?
– Trabalhamos todas essas semanas para isso, Teddy.
– Isso é reposta de advogado, Draco. – Ele disse contrariado, encarando-o com expectativa. – Quero saber a real.
Imaginou que para ele deveria estar sendo bastante difícil acompanhar o desenrolar do caso de Granger apenas pelos jornais, os quais muitas vezes eram tendenciosos e geravam especulações demais, além de palavras distorcidas para encaixar em uma matéria que os editores consideravam que venderia mais.
– Ela, provavelmente, irá a julgamento. – Viu Teddy abaixar os olhos para as próprias mãos, que se contorciam ansiosamente. – Não é o que queríamos, mas eles têm a arma do crime com as digitais dela e o resto pode ser facilmente arranjado para embasar um processo.
– O Ministério quer um julgamento, não é? – Draco apenas meneou a cabeça.
– Teddy? – Apertou um dos ombros do garoto, fazendo-o encará-lo com aqueles olhos azuis que lhe pareciam idênticos aos de Lupin. – Não tem que se preocupar com isso.
– É que... Todos parecem estar contra ela, todos querem condená-la, Draco! – Ele disse indignado e Draco concordou, mas precisou emendar.
– Sim, mas eu estou do lado dela e não deixarei que seja condenada. É comigo que está falando e não com o imbecil do seu padrinho. Confie em mim. – Sustentou o olhar temeroso do garoto por alguns segundos e este pareceu dar-se por satisfeito ao suspirar e voltar seu olhar para as duas mulheres que adentravam a sala. – Agora pare de se preocupar com isso e aproveite sua folga. Vá ver Victoire, sei que deve estar difícil passar algum tempo juntos com os N.I.E.M’s chegando.
O garoto lhe lançou um sorriso pequeno e despediu-se de todos, abraçando Granger longamente e lhe dizendo algo que só ela poderia ouvir. Logo depois, Teddy sumiu pela lareira em direção a casa de Gui Weasley e a outra se aproximou ao lado de Andrômeda, que lhe passou o braço pelos ombros e o encarou com um olhar perscrutador, analisando-o como apenas sua mãe sabia fazer.
– Você está com cara de que precisa descansar.
– Está me mandando embora? – Perguntou com ar divertido enquanto via Granger franzir o cenho em confuso ao encará-lo procurando os vestígios de cansaço que sua tia dizia.
– Sabe que o quarto de hóspedes está sempre preparado para você. — Ela respondeu no mesmo tom e olhou Hermione, que parecia entretida demais com todo o movimento que acontecia na rua.
– Então, Hermione, acha que o Ministério irá chamá-la de volta em breve? – Granger deu de ombros e sentou-se ao seu lado enquanto parecia pensar no que dizer ao ataque surpreendentemente otimista de sua tia.
– Não. – A resposta não o surpreendeu, pois embora ambos não tivessem a intenção de ir a julgamento, sabiam que a Promotoria levaria o caso até as últimas consequências. – De qualquer forma, talvez... Eu nem queira mais voltar quando tudo isso acabar.
Certo, isso o tinha surpreendido. Quer dizer, estavam lutando para conseguir que ela tivesse sua incrível vida de volta, aquela pela qual ela manteve um casamento fracassado por anos, pela qual vivia uma farsa e nutria um quadro de depressão e alcoolismo, torturando-se por aguentar a companhia indesejável do marido com a consciência, além de tudo isso, de que ele a traía frequentemente.
Agora, Granger simplesmente dizia que talvez não quisesse voltar a ocupar seu cargo?! Draco também estava fazendo isso por si mesmo. Representá-la e fazê-la sair vitoriosa desse caso significava – até cinco minutos atrás – tê-la de volta em seu posto de Promotora, o que, automaticamente, os tornava adversários novamente. As coisas apenas ficariam mais interessantes quando ela fosse Hermione Granger, a Promotora que havia se livrado de Azkaban com a ajuda de Draco Malfoy. Ela teria de reconhecer isso e os embates entre eles seriam ainda melhores. Um mundo em que não teria de enfrentá-la lhe parecia extremamente enfadonho.
Entretanto, Andrômeda, depois de encará-la por alguns minutos, suspirou e decidiu não questionar. Ao contrário de Draco, que se levantou no mesmo instante e pediu para que sua tia os deixasse a sós. Esta correu os olhos pelos dois, talvez chegando à conclusão de que aquela conversa apenas os levaria ao caminho de discussões que percorriam constantemente, e declarou que iria se recolher, pois passou o dia todo na cozinha preparando o jantar.
– Não é necessário, Andrômeda. – Granger disse antes que a outra pudesse sair e levantou-se, arrumando o vestido antes de olhá-lo. – Sinceramente, não quero que essa noite termine em briga, como a maioria de todas as outras, então... Eu vou embora.
– Temos que falar sobre isso. – Ainda tentou enquanto ela abraçava e se despedia de Andrômeda como se não tivesse falado nada demais.
– Não, não temos. – Ela suspirou cansada antes de virar-se para ele. – É uma decisão minha e... Ela certamente já está tomada. Nada do que disser irá mudar isso, Malfoy, iniciar uma discussão será completamente inútil e desnecessário.
Draco viu como ela parecia implorar para que realmente não “iniciasse uma discussão”, mas isso não fez com que quisesse menos uma explicação sobre a mudança tão repentina. Queria saber por que ela havia mudado de ideia, por que não havia lhe dito antes... Freou sua linha de raciocínio quando percebeu que não deveria fazer nenhuma diferença para ele que rumo Granger tomaria assim que terminasse o possível processo; não faria nenhuma diferença se fosse uma cliente qualquer. Porém, tinha de admitir que ela não o fosse e exatamente por isso queria ter essa conversa e “iniciar uma discussão”, se preciso: estava se importando demais.
Assim, mordeu a língua e temeu que sua expressão facial tivesse vacilado por alguns segundos, pois Granger pareceu um tanto confusa quando voltou a sentar-se sobre o parapeito da janela e a encarou de forma calculada.
– Então tenha uma boa noite, Granger.
Ela ainda o olhou por algum tempo, como se o conhecesse e esperasse que fosse insistir em “iniciar uma discussão” – e certamente o faria em uma situação normal -, mas a recente descoberta de que não deveria tentar fazê-lo por que em seu inconsciente apenas tinha a intenção de mantê-la por perto, ainda que como rivais no tribunal, tinha que ser digerida.
Andrômeda, então, esperou o ruído da porta da cozinha batendo, indicando que Granger havia saído para aparatar, para encará-lo novamente. Ela possuía um tipo de chama acolhedora no olhar e um sorriso resignado ao dar de ombros como se aquela fosse uma cena completamente pitoresca de seu dia, como se entrasse em acordo de boa vontade com Granger o tempo todo.
– Minhas crianças estão crescendo?
– Muito longe disso. – Coçou o resquício de barba crescendo em seu queixo de forma incômoda e encarou a mulher, a qual já possuía alguns fios de cabelo branco crescendo perto da têmpora, ao mesmo tempo em que pensava em Narcissa e no fato de que ela deveria estar esperando em casa para falar de Granger e de suas outras milhares de impressões sobre a mesma, mas no momento não tinha a mínima vontade de entrar em qualquer assunto que a envolvesse, pois sua cabeça já estava repleta dela. – Acho que vou precisar daquele quarto hoje.
No próximo capítulo
– Conheço seu perfume, o modo como anda e sei que é o único que mexeria no meu chocolate sem minha permissão.
.....
– Depois de tantos anos me esforçando para ser a melhor, não quero que as coisas acabem assim para mim, Malfoy.
.....
– Teddy foi preso.
.....
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