Neurótica
9 Capítulo 9
– As coisas estão se complicando para você. – Draco entregou a pasta que tinha em mãos a Granger, que abriu sem receios e começou a ler com atenção o laudo do perito.
Observando o modo como o rosto dela não demonstrava nenhum sinal de emoção, o loiro perguntou-se se o que estava escrito ali não era o que a mulher esperava. Ela poderia, facilmente, ter matado o marido. Engoliu em seco quando Granger colocou a pasta sobre a mesa de jardim de Andrômeda e abaixou os olhos para as próprias mãos, parecendo distraída com seus próprios pensamentos.
Era Hermione Granger, afinal de contas, se tivesse matado o marido teria pensado em tudo e aquelas evidências encontradas pelo perito não serviriam de nada, pois ela possivelmente não deixaria nenhum rastro. As imagens dentro daquela pasta passeavam de forma completamente nítida por sua mente e pensar que a mulher à sua frente poderia ser a responsável pelo assassinato de Weasley lhe dava náuseas.
O ruivo havia sido encontrado no chão do banheiro privativo de sua casa, o banheiro que supostamente dividia com a esposa, onde as digitais dela se encontravam por todo o local. Os pulsos haviam sido cortados, mas tratava-se de cortes irregulares como se ele não quisesse realmente tirar a própria vida, o que poderia ser comprovado pelo exame mágico que indicava resquícios da maldição Imperius no corpo. Além da poça de sangue sobre a qual ele estava, a banheira e o lavabo, antes de um branco imaculado, estavam manchados de vermelho e marcados pelos dedos de Weasley, o que sugeria que ele provavelmente tentara se levantar enquanto agonizava a morte de forma lenta. Os produtos de higiene pessoal que ficavam na borda da banheira estavam desorganizados, jogados pelo chão ao lado do corpo sem vida do ruivo, que se encontrava sem camisa e com uma marca roxa pouco acima do quadril direito.
– Alguém usou Imperius para fazer parecer suicídio. – Disse ela respirando e finalmente o encarando.
– Diga algo que ainda não sei. – A analisou buscando algo além da frieza mais que perceptível em seus olhos, mas Granger sustentou seu olhar em desafio, pois sabia o que estava fazendo. – Algum palpite sobre quem pode ser o responsável por isso?
– Como você sabe, Ron e eu não éramos exatamente um casal comunicativo. – Ela disse em ironia, dando de ombros enquanto Draco a xingava mentalmente. Granger era esperta, deveria pelo menos saber com quem o homem andava quando saía de casa, Weasley não poderia ter apenas Potter como amigo. – Depois que descobri sobre o caso de Ronald e Lilá, sua vida não poderia me interessar menos.
– E está sofrendo as conseqüências disso agora. – O loiro levantou-se, revirando os olhos, ao perceber que deveria começar a trabalhar com os Weasley se quisesse ter alguns detalhes realmente concretos sobre a vida de Ronald.
– Sabe que não tinha mais uma vida com Ronald, mas pode angariar algumas testemunhas. – Ela falou, surpreendo-o por encontrá-la na mesma linha de estratégia que ele. Bem, estava trabalhando com Hermione Granger, não deveria ou poderia esperar menos. – Inclusive Brown.
– Ela jamais aceitará. – Disse em tom desdenhoso, no mesmo instante em que sua tia abria a porta da cozinha e descia os degraus da varanda com cuidado carregando uma bandeja com biscoitos e chá.
O tempo em Londres estava bastante ameno considerando que já se encontravam no começo de outubro. Ver sol em Londres fazia com que se recordasse com bastante clareza dos tempos de guerra, quando o céu da cidade ficava permanentemente escuro e sombrio devido aos dementadores controlados por Voldemort. Ainda que muito tempo houvesse passado, as lembranças eram bastantes presentes em sua mente.
Sentou-se novamente, observando o modo como sua tia sorria afetadamente e o leve rubor que preencheu a face de Hermione quando encarou Andrômeda. Algo ali estava errado, principalmente ao ver como se tratavam cautelosamente, principalmente Granger que parecia calcular todos os seus movimentos na presença da mulher. Sabia que sua tia gostava de ser considerada uma boa anfitriã – certamente devido a vestígios da rígida educação dos Black, mas, sinceramente, não era momento para gentilezas.
– Uma reunião no Ministério, território neutro, com a presença do advogado dela. Lilá não tem por que negar. – Disse como se fosse óbvio.
– Pode pensar que queremos antecipar a defesa ou... Fazer um acordo para que ela retire a queixa.
De qualquer maneira, tomar o depoimento de Brown era uma faca de dois gumes. O advogado dela, se tão bom quanto Draco, saberia exatamente a direção que ele tomaria na defesa de Granger apenas pelo direcionamento das perguntas que faria a Brown. Assim como também descobriria as fraquezas de Lilá observando o território que ela evitaria entrar, afinal se tratava de uma reunião informal e a mulher não seria obrigada por lei a responder qualquer coisa.
– Tarde demais. – Granger suspirou frustrada. – Mesmo que ela retire a queixa, o Ministério continuará com o processo agora que a perícia concluiu que Ron foi assassinado.
Andrômeda, nesse instante, derrubou desajeitada a colher de açúcar que colocava em uma xícara que serviria para Granger. Rapidamente, viu a castanha mover-se para ajudar Andrômeda, terminando de servir-se sozinha.
– Ele... Foi mesmo assassinado? – Perguntou relutante, segurando a respiração enquanto se sentava.
– Sim, tia.
– Isso é... – Ela colocou a mão sobre o peito, embaixo do cachecol, parecendo buscar a respiração. – Isso é perigoso.
Draco concordou vendo como Granger parecia muito entretida enquanto encarava um ponto específico no tampo de madeira da mesa, onde não havia nada. Às vezes, considerava que daria grande parte de sua fortuna para saber o que se passava nos pensamentos da mulher, o cérebro dela parecia não parar de trabalhar em momento algum.
– Deveríamos reforçar sua segurança, Granger. – Ela lhe levantou os olhos.
– Lutei em uma guerra, sei me cuidar.
– Weasley também sabia. – Declarou no mesmo tom frio, vendo-a soltar um sorriso desdenhoso muito parecido com aquele que sabia que possuía e que lançava muitas vezes a ela.
– Ron gastava dias para aprender feitiços básicos, não era o que se pode chamar de bruxo talentoso. – E exatamente por isso Draco se perguntava por que Granger havia escolhido justo ele para se casar.
Antes que pudesse retrucá-la a respeito de como ela não estava preparada para se defender de um inimigo invisível, a campainha tocou e Andrômeda levantou-se rapidamente ajeitando o cachecol ao avisar que iria verificar de quem se tratava. Hermione não desviou os olhos dele em momento algum, apenas cruzou os braços, como se tivesse saído vencedora daquela “queda de braços” quase infantil.
– Para quem acabou de descobrir que o marido foi assassinado, você está muito tranqüila. – Draco inevitavelmente não conseguiu segurar a língua, pois era isso que fazia: a irritava. O fato de estar advogando para Granger fez com que tivesse de diminuir sua onda de criatividade, ainda que muitas provocações lhe passassem pela mente.
– O que está insinuando?
Porém, dessa vez falava sério, não era como as frases descompromissadas que soltava com a intenção de tirá-la do sério. Em sua experiência, nunca vira um inocente conseguir controlar suas emoções tão bem quanto ela o fazia, parecendo antecipar qualquer tipo de sentimento que revelaria a seguir. Granger e sua história não estavam lhe comprando e ela sabia muito bem que, apesar de fazer parte de seu limitado “time”, Draco nutria as mais nefastas desconfianças sobre sua culpabilidade em relação à morte de Weasley. Ela sabia que Malfoy esperava qualquer coisa deste caso, não era estúpida, mas ainda não haviam realmente entrado em uma discussão sobre isso.
Antes, entretanto, que pudesse fazer uma pequena ameaça para deixá-la receosa sobre o modo como estava tentando manipulá-lo, a porta da cozinha foi aberta novamente e Ginny Potter (sempre Weasley, para Draco) desceu a passos largos em direção ao jardim. A ruiva encarava Granger – que se levantou para recebê-la, confusa pelo modo intempestivo com o qual se encaminhou em direção a ela — com os olhos vermelhos e inchados, como se tivesse chorado, e as bochechas coradas de raiva.
– Ginny, o que...
Então, Draco viu quase em câmera lenta o momento em que a Potter levantou a mão e a espalmou na face esquerda de Granger, deixando as marcas perfeitas de seus dedos finos. Hermione levou a própria mão ao local que fora agredida, parecendo surpresa demais para reagir. Andrômeda, ainda na varanda, levou as mãos à boca arregalando os olhos para o loiro, esperando que fizesse algo para ajudar sua cliente.
“Sei me cuidar”. Draco lembrou enquanto ensaiava sua melhor cara de paisagem para observar a cena.
– Sua... Vadia invejosa! – Os cabelos ruivos e extremamente lisos de Weasley estavam bagunçados e seus olhos tão raivosos quanto jamais havia visto, mesmo nos tempos de Hogwarts quando ela costumava ficar brava com os irmãos com bastante frequência. – Nunca mais se aproxime do meu marido. Eu quero você longe de Harry e de toda a minha família, está ouvindo?
– Ginny, do que está falando? – Granger disse entre dentes, muito brava (e surpresa) pelo modo como a outra a abordara, mas a Sra. Potter não se intimidou e apenas riu, parecendo indignada, enquanto tentava segurar as lágrimas e inutilmente tirar os fios de cabelos que haviam caído sobre seu rosto.
– Sempre soube como era fria, Ron reclamava sobre isso o tempo todo, mas não sabia que podia ser dissimulada a esse ponto. – Observou que o modo como Weasley falava sobre sua frigidez realmente afetou Granger, que deu um passo quase imperceptível para trás, embora a ruiva não houvesse percebido. – Sabe do que estou falando, Hermione, e tenha consciência de que não hesitarei em contar tudo que sei sobre sua estúpida vida com Ron em um possível julgamento. E, acredite, eu sei muito.
– As coisas não aconteceram da maneira que está pensando...
– Eu não estou pensando nada, Harry me confessou tudo. – Disse a mulher em tom amargo, o que fez Hermione engolir em seco, agora realmente desarmada. – Achou mesmo que ele conseguiria guardar isso só para si?! Estamos falando de Harry Potter, Hermione, ele não poderia lidar com a culpa. Diferente de você, não?
Granger respirou fundo e encarou Weasley de forma arrependida, surpreendendo Draco, pois pela primeira vez via o resquício de alguma emoção verdadeiramente presente naquele rosto ou naqueles olhos, que outrora fora tão expressivos. Ainda se recordava de como ela era diferente na escola, de como parecia... Pura demais, muito distante dos tempos atuais que em nada lembrava os olhos castanhos ingênuos daquela época.
– Não foi nada premeditado, Ginny. As coisas apenas... Aconteceram. – Viu Hermione gesticular, tentando encontrar as palavras certas para tentar acalmar a amiga, por fim, porém, suspirou derrotada. – Sinto muito por isso.
– Pare de falar, é inútil! – Weasley encarou a outra de forma desdenhosa. – A única coisa que consigo sentir enquanto a olho e a ouço falar é nojo, Hermione.
Viu como Granger apertou as mãos em punho enquanto sustentava o olhar de Potter corajosamente, mas sabia, pelo modo como respirava pesadamente, que ela não tinha psicológico para agüentar a pressão da outra por muito mais tempo. Logo, poderia sucumbir em uma onda de choro – apesar de imaginar que ela era o tipo de pessoa que só chorava no escuro de seu quarto quando colocava a cabeça no travesseiro para, no dia seguinte, estar intacta, pelo menos exteriormente – ou, ainda mais possivelmente, raiva, o que não contribuiria em nada para sua situação já crítica.
– Ela já entendeu o recado, Potter, vá embora. – Pronunciou o loiro, finalmente.
A ruiva não o olhou, mas deu às costas a Granger depois de encará-la por mais alguns segundos e encaminhou-se para a saída, passando por uma Andrômeda atônita enquanto murmurava suplicadamente um pedido de desculpas pela cena feita em sua casa.
Após um lançar um olhar preocupado em direção a sua hóspede, Andrômeda seguiu a ruiva ressaltando que não precisava se preocupar, pois entendia sua situação. Sim, até mesmo Draco entendia, embora sua cliente fosse a outra (literalmente). Granger sentou-se novamente, devastada, escondendo o rosto entre as mãos frustradamente.
– O seu castelo de cartas está desmoronando, Granger. – Draco não se importou em abordá-la de forma mais sutil, sentando-se ao seu lado no banco de madeira enquanto abaixava a voz. – É melhor começar a falar tudo que eu devo saber, pois não tem mais condições de manter seus segredos sujos.
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