Ainda temia pelo que encontraria no banheiro quando seus dedos rodearam a maçaneta luxuosa e a giraram. Granger saíra do Tribunal ostentando um estado preocupante e que, certamente, alimentaria o imaginário dos jornalistas e dos civis que estavam presentes naquela sessão, gerando boatos a respeito da sanidade da mulher, agravada com a confissão de lidar com depressão, feita semanas antes. O que rondava sua mente, além do fato de que a debilitara com as perguntas no banco de réus, era: teria seu ato despertado a empatia ou um julgamento negativo por parte do Júri?

Porém, enquanto não tivesse que voltar para continuar a sessão no dia seguinte, com a inquirição de sua última testemunha e a finalização dos argumentos de ambas as partes, deveria preocupar-se com a mulher há uma porta de distância e suas próprias questões existenciais. Ele a acertara em cheio e completamente implacável durante suas perguntas, afinal era certa que encontraria todo e qualquer meio para justificar o fato de que não a deixaria ser condenada, muito embora não pudesse garantir que todo o processo para tanto não fosse estafante, traumatizante e dolorido.

Como profissional, Draco não costumava temer por tudo isso, desde que seus clientes fossem beneficiados. “Os fins justificam os meios” sempre lhe fora uma máxima bastante razoável. No entanto, estar íntimo de Granger tonava tudo mais complicado. Preocupava-se com ela ao extremo, muito mais do que seria recomendável, tentava poupá-la do que poderia ser ruim, atingi-la de forma menos dolorida sempre que possível, tornar o processo menos palpável para aquela que seria a maior prejudicada, de uma forma ou de outra. E ela tinha consciência de tudo isso, embora ainda assim exigisse que fizesse o máximo ao passo que esse “máximo” era cegá-la para os resultados do assassinato de Weasley. Ela pedia o impossível e Draco tentava conceder o impossível — até aquele dia.

Deveria ser o último e mais importante, mas as reações de Granger fizeram com que fossem arrastados até o dia seguinte e precisassem lidar com as questões jurídicas, além daquelas que envolviam Hermione Granger ter fugido da audiência claramente passando mal. Draco a levara até as últimas consequências, não se arrependia e não pediria perdão, pois não poderia orquestrar sempre o impossível para que ela fosse poupada, ainda que a intenção nunca fosse feri-la. Não sabia o que encontraria do outro lado da porta, mas estava preparado para encontrá-la muito distante do que fora na noite anterior: confiante e conformada, pois até então ele tentara poupá-la das consequências imediatas daquele processo, mas ser colocada nos banco dos réus e, pior, testemunhar sobre um ato sobre o qual sequer tivera controle era exigir demais para qualquer psicológico e ser quase cruel para uma mente já quebrado como o dela.

Então, ainda sentindo os olhares temerosos de Locke e Zabini queimando à sua nuca, certamente à espera de que a solução para o problema viesse dele, adentrou o luxuoso banheiro e trancou a porta com um aceno de varinha, os olhos nunca deixando de analisar a mulher curvada sobre a pia espaçosa à sua frente. Granger não chorava com facilidade, nunca, provavelmente em uma resposta à personalidade incisiva, que não permitia a demonstração de qualquer fraqueza perante qualquer pessoa. Contudo, já haviam percorrido aquele caminho tantas vezes que ela, provavelmente, desabara à sua frente mais do que gostaria.

Seu rosto se encontrava completamente molhado e inchado, os olhos escuros e quebrados pelas lágrimas que escorriam compulsoriamente, fazendo com que o corpo tremesse em espasmos curtos e compulsivos. Ela o encarara pelo espelho, as feições fechadas em desaprovação, beirando o ódio infantil que sempre os definiria antes de tudo. O vestido verde estava molhado em alguns pontos, os cabelos desalinhados e a respiração rasa indicando que, realmente, acabara de vomitar tudo que comera e não comera até então.

No entanto, todo o desalinho não impediu que a mulher se voltasse à ele lentamente e, se aproximasse, para que, com as mãos trêmulas, desferisse uma tapa certeira contra sua face esquerda. O único ruído presente no ambiente por muitos minutos, além da respiração de ambos, fora somente o estalar da palma de Hermione. Ele não resistiu, não a contestou, não se indignou. A castanha meramente o encarou como que esperando todas as justificativas, todo o ódio pela incompreensão da mulher, toda a explanação a respeito de seu ponto de vista sobre o que ocorrera e sobre o que a levara àquele estado, pois era assim que Draco agia, mas nada veio e, por fim, ela bufou em desdém.

— Você não tinha o direito. – Proferiu entre dentes, tentando ajeitar os cachos que se tornaram desconformes por toda a situação, embora não por ele, visto que não parecia dar a mínima para sua presença ali. – Não tinha o direito de me usar como um objeto do seu processo medíocre, se utilizando de tudo que eu… Você não tinha o direito… De expor a minha maior ferida para todos daquela forma, de apontar o dedo para mim, naquela merda de banco dos réus, e mostrar como a minha vida era realmente uma merda para obter um efeito pelo qual só você se importava. Eu não queria estar lá, assim como não dei o consentimento para você me explorar da maneira que fez.

— Não, realmente não tinha. – Concordou em tom ameno, buscando fugir da exaltação que a própria castanha impusera desde o início. – Mas eu o fiz. Tenho um compromisso, que vai muito além de você, comigo mesmo e com a minha carreira. Eu prometi que não será condenada e prometi que não irá para Azkaban, porque minha cliente é Hermione Granger e isso, para mim, é mais do que inconcebível. Potter me contratou para que eu pudesse jogar tudo, apostar alto, e foi o que eu fiz. Se para manter Hermione Granger fora de Azkaban é necessário quebrar algumas regras, é o que irei fazer, é o que fiz durante esses meses. Eu irei alcançar um resultado que satisfará a todos nós, mas isso não quer dizer que o processo irá agradá-la.

— Realmente não agrada. – Ela parecia um tanto incrédula, como se só então pudesse perceber sua falta de ética, embora estivesse ciente de muitos de seus atos dos últimos tempos. – Você foi mais canalha do que pensei que pudesse, no princípio. Realmente é… Surpreendente que tenha usado justo algo que nos… Algo que tenha me machucado tanto de forma tão pública, tão crua e… Sem sentimentos, como se… Como se…

“Como se isso não o atingisse também”, entendia o que ela queria dizer, só então percebendo e tendo a dimensão exata do fato de que o aborto nunca seria uma questão superada. Entre eles, entre ela e o próprio marido morto. Sabia que Hermione era a parte mais ferida de toda a equação, aquela que sempre conheceria todas as piores sensações possíveis a respeito de dois abortos pelos quais passou. Mas só agora recebia um panorama de como ela encarava a questão como algo que pertencia a ambos e dizia respeito somente aos dois. Por isso, todo o rechaço por tornar a questão tão pública.

— Não era sobre você. Não nesse momento. – Ele murmurou, contido, enquanto a observava tentar conter as lágrimas que escorriam por suas bochechas praticamente sem que ela sentisse ou percebesse. – Era sobre Weasley, sobre o fato de que foi ele quem lhe causou essa dor descomunal e que não superou até hoje, o pior tipo de dor que alguém que quer ser mãe pode passar. Sobre toda a consequência do que ele lhe fez, não o contrário, como querem fazer acreditar.

— Você… Você não entende. – Não como um todo, poderia até admitir e esse certamente seria o único ponto em que anuiria naquele momento. – Ainda que a intenção fosse atingi-lo, tentar manchar sua imagem… Ronald está morto. Ele nunca se sentirá culpado pelo que me fez, ele nunca irá sentir a dor que eu estou sentindo agora e…

A castanha soluçou novamente, incapaz de conter outra onda de choro e lágrimas. Havia demorado, constatou, para que toda a lembrança e dor a respeito de seu último aborto voltasse para assombrá-la novamente, após o fatídico dia em que a encontrara na banheira. Sabia, no entanto, que a mulher deveria conviver diariamente com as lembranças, com as sensações, com a culpa, ainda que nada disso estivesse ao seu alcance para ser mudado. Se deveriam encontrar uma culpada, que fosse Bellatrix Lestrange, a Guerra, todo o ódio propagado por nascidos-trouxas naquela – do qual o próprio Draco fez parte — , tudo que propiciou que a Maldição Cruciatus a invalidasse internamente.

— Eu sinto muito. Por essa dor… Não pelo fato de que, provavelmente, o Júri estará do seu lado quando tiverem de julgar. – Ponderou calmamente, observando-a apoiar-se contra a pia, como se corpo não tivesse mais forças para lidar com toda a pressão que culminara em tudo que tiveram de passar aquele dia. – Eu não me perdoaria se por uma questão medíocre de escrúpulos, você estivesse condenada. Porque você estava, Granger.

Ela meneou a cabeça em negativa, engolindo em seco e fechando os olhos fortemente. Então, encostou-se à porta em um suspiro e meramente esperou. Lhe passara completamente despercebido, tão concentrado estava na mulher e em suas reações, que já se encontrava descalça, os sapatos de salto jogados a um canto do banheiro, desleixados, e os pés em contato com o mármore frio. Sabia que ela utilizava isso como uma forma de tentar se acalmar após alcançar o auge do estresse, mas claramente não vinha funcionando e não o faria tão cedo.

— Diferente de Ron, você estava lá. Você presenciou tudo que eu passei, você me ajudou, você… — Observou as tradicionais manchas vermelhas de estresse subindo pelo pescoço feminino e antes alvo, começando logo acima do respeitável recorte quadrado do decote. Granger respirou fundo, nada preocupada com o rosto completamente molhado, parecendo pensar enquanto evitava encará-lo. – Eu não pensei que pudesse me machucar dessa forma.

— Eventualmente, quando estiver pensando com clareza, irá perceber que foi necessário.

— Pare com toda essa complacência! Pare! – Finalmente, o encarou firmemente, era óbvio que estava completamente furiosa por sua calma. – Os fins não justificam os meios e você está agindo exatamente como se isso fosse verdade somente para aplacar sua falta de sensibilidade.

— Os fins sempre justificaram os meios para mim. Sensibilidade é um acessório que pode estar ou não na equação. Pare você de agir como se só agora tivesse descoberto como eu trabalho. – Ela bufou novamente, parecendo desapontada. – Lave o rosto, refaça a maquiagem, saia lá fora como se nada houvesse acontecido, assim como sempre fez, da forma que todos esperam que aconteça. Racionalmente, sabe que não é hora para sensibilidade.

A viu encará-lo de forma incerta por um momento e, então, sorrir de forma amarga, abaixando a cabeça e os olhos por tempo suficiente para que se concentrasse somente no silêncio que crescia como um fantasma entre eles. Não demorou, no entanto, a que suas mãos começassem a suar, pois essa jamais fora a direção que escolhera ao tomar a decisão de realmente explorar a questão do aborto publicamente. Contudo, Granger estava completamente tomada pela dor. Tanto tempo depois de começar a jogar e ser jogada pela mídia, tudo parecia ter recaído sobre os ombros dela no momento em que se sentara no banco dos réus, no momento em que percebera a realidade de estar sendo julgada ou não uma assassina.

Dessa forma, a observou voltar-se para o grande espelho do banheiro, luxuoso em suas bordas desenhadas e banhadas a ouro, lentamente lavando o rosto e refazendo a maquiagem. Em silêncio, as mãos trêmulas manejavam a varinha a fim de rearranjar o vestido ao redor do corpo, secando onde deveria ser secado e desfazendo qualquer vinco que houvesse sido feito dentro daquele banheiro. Assim, a mulher sentou sobre a tampa do vaso, colocando os sapatos em uma calma deliberada, como que pensando em como seriam as coisas do lado de fora daquela porta, quais seriam as perguntas e que tipo de olhares enfrentaria. No entanto, quando colocou-se de pé, completamente pronta, em uma imitação perfeita daquela que adentrara aquela sala, o encarou decididamente.

— Você pode ir, eu tenho certeza de que a Srta. Locke pode me acompanhar com segurança até a saída. – Draco levantou uma sobrancelha de forma imperceptível e engoliu todas as observações que poderia ter a respeito da quebra daquele ritual, o qual vinham empenhando desde o início daquilo tudo. Estacando ao seu lado, Granger levou a mão à maçaneta e respirou fundo ao levantar o rosto para encará-lo, tão próxima, mas muito distante, a julgar pelo que podia ver nas orbes escuras de seus olhos castanhos. – Eu irei para a casa dos meus pais essa noite.

Não contestou ou tentou impedi-la, simplesmente deu espaço para que abrisse a porta e saísse, a fechando em um baque seco. Provavelmente ela tinha razão, pois Granger era adulta o suficiente para terminar aquilo sozinha, tanto quanto havia começado. Ainda, exigira dela algo contra o que a mulher vinha lutando há mais tempo do que se lembrava: as aparências, tão exigíveis e tão vadias com a castanha, o mar de rosas do belo quadro que pintou durou tempo o bastante para que pudesse desfrutar e acreditar que tudo estava sob controle. Porém, bastou que uma tinta inesperada manchasse o quadro para que tudo fosse jogado contra ela da forma mais soberba possível. Como a imprensa costuma fazer, como ele acabara de exigir.

Levou uma das mãos aos olhos, seriamente considerando que aquele dia estava longe do fim para manter sua sanidade intacta até lá e, mesmo quando acabasse, ainda teria de pensar em uma forma de lidar com a falta de Granger do lado direito da cama. Ela estava quebrada, essa não era a novidade, mas ele a magoara em sua fragilidade, algo que, então, pudesse afastá-la de vez, visto que sequer passaria a noite na Mansão Black. E isso, sim, era novo e instável. No entanto, tinha consciência disso quando decidira correr todos os riscos possíveis ao acordar naquela manhã e pensar a respeito que viria pela frente, pesar na balança que era preferível vê-la quebrada fora de Azkaban do que condenada – externa e internamente.

— Draco. – Os dedos de Zabine soaram contra a madeira da porta de forma contida. – Nós precisamos ir, há uma horda de jornalistas esperando por uma nota.

Assim, calmamente ajeitou sua aparência perante o espelho, as mãos colocando a gravata no lugar e o terno sendo ajustado novamente ao redor do corpo, embora nada estivesse realmente fora do lugar. Ou nada que os jornalistas, sempre tão astutos e carniceiros, pudessem enxergar a olhos nus. Draco colocara a si e Granger em uma bagunça sentimental e não poderia fazer nada a não ser administrar aquele dia, a vida jurídica da mulher e sua própria insensibilidade e falta de decência moral até que pudesse sentar-se calmamente, analisar a situação e pensar se haveria algo a seu alcance que pudesse resolver a questão. Era assim que resolvia problemas e não seria diferente em relação àquilo, pois completamente inapropriado seria se ele perdesse o controle.

Quando deixou a sala adjacente juntamente com Zabine, nas galerias do Décimo Tribunal não havia mais civis, apenas jornalistas acomodados nas cadeiras mais próximas à cerca de madeira polida que separava o lugar dos espectadores dos reais atores daquele teatro todo. Afinal, realmente tratava-se de um teatro armado pelo QG dos Aurores e agravado pela inércia de Potter, claramente usada por Edgecombe a seu favor. De qualquer forma, como nada poderia arquitetar para evitar participar do teatro, deveria, no mínimo, empenhar-se em escrevê-lo, manipulá-lo, direcioná-lo ao que lhe era conveniente. O caso de Granger não era uma exceção, apesar de tudo, era assim que trabalhava.

Sentou-se informalmente na mesa que antes servia-lhe como bancada de defesa e esperou pela chuva de perguntas aleatórias e costumeiras, em um silêncio deliberado até que todos os homens e mulheres da sala percebessem que responderia somente aquelas que não fossem gritadas em sua direção. Estava cansado de lidar com o caos, inclusive em sua vida pessoal. Os trabalhadores que faziam parte do Departamento de Execução das Leis da Magia já não encontravam-se à vista no Tribunal, nem mesmo Edgecombe, o qual, possivelmente, empenhara uma saída tão tempestuosa quanto a de Granger e Locke. A aparente calma em meio a tempestade costumava ser um bálsamo em seus casos difíceis.

— Sim, Sr. Creevey, nós esperávamos que o julgamento terminasse hoje. – Escondeu as mãos nos bolsos, observando-os escreverem freneticamente em seus blocos de anotação ao mesmo tempo em que penas de repetição rápida arranhavam. – No entanto, como puderam perceber, a juíza Griswold levou em consideração a saúde mental de minha cliente, o que podemos considerar um avanço na Justiça Bruxa, não?

— Como está a Srta. Granger? – Perguntou a garota d’O Mensageiro, que deveria ser namorada de Zabine, embora não estivessem empenhando qualquer outro assunto que não envolvesse trabalho nos últimos tempos.

— Acredito que qualquer assunto que envolva a forma como Granger perdeu aquela criança a deixe, minimamente, perturbada. – Minimizou a questão exatamente como deveria, pois não precisava de nenhum daqueles abutres remexendo em um passado que deveria ficar no passado ou descobrindo mais do que deveria a respeito do recente histórico de Granger na clínica Queen Victoria. – Bem, não pode ser mais compreensível, afinal minha cliente confessou que gostaria de ser mãe e que o fato de não ter a oportunidade, por algo do passado, que está além de seus poderes de mudança, a afetou profundamente.

— Talvez tenha agravado seu quadro de depressão?

Uma jornalista com forte sotaque francês em sua pronúncia, provavelmente correspondente de algum jornal internacional, questionou, fazendo-o retesar-se, de modo que esperava que tal reação passasse despercebida. Não sabia como estavam indo as consultas de Granger ao psiquiatra. A castanha encontrava-se tão empenhada em livrar-se da ameaça de Azkaban que pairava sobre sua mente que, provavelmente, sequer tinha tempo para lidar com suas questões existenciais e psicológicas, o que o preocupava, visto que presenciara o extremo em que Granger poderia chegar.

— Não posso afirmar com certeza, pois não sou nenhum especialista aqui, mas ela estava muito abalada. – Ao menos, nem tudo que saía de boca era mentira. – Como você sabe, a forma como a vida de Granger fora escrutinada nos últimos tempos foi muito exacerbada. O ponto aqui é: talvez tenha sido demais. Todo esse julgamento, fruto de um exagero do Ministério, talvez tenha passado dos limites e tenha culminado no que viram hoje.

— Ainda se refere a ação do Ministério como um erro esdrúxulo, Sr. Malfoy? – Evangeline manifestou-se, seus lábios vermelhos destacando-se na pele clara devido ao seu sorriso frio e perverso, que costumava apreciar, mas que agora somente lhe causava repulsa.

— Não é segredo para ninguém o quanto repudio a atitude do Ministério no Caso Weasley, Srta. Dippet. – Draco retrucou, percebendo que era o momento de encaminhar-se à saída, visto que os jornalistas pareciam ficar cada vez mais à vontade para ousar em perguntas que não gostaria de responder no momento. – Mas não pensem que estou me referindo apenas ao julgamento feito aqui, dentro dessas paredes. A vida de Hermione Granger acabada, sua carreira meteórica destroçada, sua reputação jogada no lixo… Não pelo que vimos aqui quando as audiências começaram, não é o que me preocupa em momento algum, não. O que a levou ao ponto em que chegou hoje foi somente a cereja do bolo que vocês construíram ao longo desses últimos meses.

— Está dizendo que a imprensa é responsável por noticiar à sociedade bruxa a conduta nada ilibada da sua cliente?

Provocou Evangeline, no que ele a encarou com um olhar de sobreaviso, lembrando-a das circunstâncias que os envolvia, fazendo questão de utilizar-se do Calcanhar de Aquiles que ela possuía para colocá-la em seu devido lugar, exatamente como fizera uma vez. Porém, a mulher não poderia fazer nada além de atiçar a mente já muito aguçada de seus colegas e já quanto a isso Draco não seria capaz de impedi-la. Não fazia tantos milagres assim, no fim das contas.

— Estou dizendo que a imprensa deve ter alguma responsabilidade sobre a forma de noticiar qualquer tipo de conduta sobre qualquer pessoa.

Alcançou o corredor que o levaria ao elevador com todas aquelas pessoas ainda em seu encalço, novamente bombardeando-o com diversas perguntas ao perceberem que o tempo com ele estava acabando. Realmente, não tinha a intenção de continuar a conversa. Do contrário, todas as perguntas seriam direcionadas no sentido de que detestava a imprensa – o que era verdade – ou se concordava com o controle há muito discutido e sempre rechaçado pelo Ministério ou, o que seria ainda mais desnecessário, se achava que a imprensa era mais sensacionalista do que corrupta, algo que lhe fora perguntado certa vez e para o que ainda não tinha resposta, visto seu próprio histórico profissional com os mesmos. Sensacionalismo corrupto, ponderou ao adentrar o elevador e ser separado do tumulto pelos Guardas Ministeriais, talvez fosse o termo correto.

— Você precisa resolver a questão com Granger. – Começou Zabine em tom baixo encarando o homem que conduziria o elevador até o átrio. De lá, seguiria para o seu escritório, pois ainda tinha muito que fazer naquele dia. Sua vida não poderia parar porque Hermione Granger fazia parte de frações muito específicas, que lhe exigiam mais do que qualquer outra questão no momento. – Fawcett contou que os jornalistas estavam comentando sobre a forma como ela saiu daqui. Diferente das outras vezes, parecia fria e inalcançável… Não tão parecida com a imagem de “mulher sofrida” que você pintou nas últimas semanas.

— Fawcett? – Levantou uma sobrancelha ao negro. – Você não dorme mais na cama do inimigo, Zabine?

— Não comece a ser babaca justamente agora. Sim, paramos de nos encontrar, mas somos adultos o suficiente para tratarmos um ao outro como tais. – O homem ajeitou o casaco ao redor do corpo, claramente a contragosto. – A questão é: Granger não pode se deixar levar pela pressão da situação. Do contrário, nem mantendo aqueles jornalistas sob rédeas curtas irá conseguir contornar a possibilidade dela se tornar uma pária justamente no final do julgamento. E então, quem perderá o controle será você.

— Porque irão perder a imagem que podem explorar sem escrúpulos, como vêm fazendo? – Retrucou ironicamente, pois não estava alcançando nenhum nível de paciência naquele dia. Tinha consciência de que Zabine detinha a razão, não poderia impedir seu próprio espírito teimoso de questionar, embora, provavelmente, seu sócio fosse o único que estava com a cabeça fria o suficiente para tomar decisões, de qualquer forma.

— Poderão mudar o foco, buscar e alimentar um patamar de ódio maior sobre ela e atingir a parcela da população que ainda está ao seu lado. Há tempo suficiente para isso. – O elevador finalmente chegou ao átrio e as portas se abrirão com o costumeiro estrondo. Ambos saíram lado a lado e direcionaram--se às lareiras que os levariam pela Rede de Flu até o escritório, o advogado ainda murmurando e chamando sua atenção como a uma criança. – Se existe uma instituição que ainda mantém princípios questionáveis, essa é a mídia bruxa. Pare de fingir que não entende nossa imprensa e dê um jeito nisso até a audiência de amanhã.

— Granger não irá aceitar conceder uma entrevista e todo esse problema se remediará por conta própria no Tribunal. – Estacou, voltando-se à Zabine, ajeitando a pasta executiva ao redor dos ombros. – De qualquer forma, os jurados não terão acesso à imprensa ou à população, estão confinados, recorda? E, quando tudo isso acabar, a própria Granger deverá se preocupar com sua reputação. Não iremos prestar consultoria de imagem ad eternum a ela.

Quanto mais o tempo passava após sair daquele banheiro, mais as dúvidas sobre o futuro o corroíam. Encontrava-se em um nível de incerteza no qual nunca se permitira estar, com ninguém, em toda sua vida. Hermione Granger era como um vulcão, o tempo todo prestes a explodir, ameaçando, amedrontando, incerta, influenciada por todos os possíveis fatores externos que podia considerar em apenas alguns segundos. Ela era indeterminação pura e simples, mas tão complexa em todos os detalhes que envolviam essa indeterminação que o deixava a beira do precipício sempre que o vulcão expelia em cinzas de mágoas e dores inevitáveis.

Zabine pareceu surpreso por sua recusa a continuar trabalhando com Hermione, mas por qualquer motivo alheio a seu interesse no momento, resolveu não prolongar o assunto e discutir sobre outros casos do escritório após aparatarem no hall ocupado por sua secretária. Tinha uma audiência de Waterby, reunião com uma bruxa, que representava a diretoria da loja de varinhas artesanais secular de sua família escocesa, um almoço com Muriel Harmond, um possível novo cliente, agente de vários jogadores famosos de Quadribol, provavelmente atraído para o escritório pela publicidade gerada pela defesa de Granger, além de uma mediação para fazer entre os Lufkin, um jovem casal milionário que estava se separando.

— Irei a audiência de Waterby e levarei Locke comigo, após o almoço com o Harmond. Boa sorte com Fraser, ela está irredutível quanto a grande percentagem de lucro destinada aos sobrinhos, herdeiros de seu irmão morto.

Pronunciou o negro antes de abrir a porta de sua própria sala. Quando Zabine bateu à porta, percebeu que Emily os encarava com seu típico olhar analisador por cima dos óculos, enquanto virava calmamente a página de uma revista bruxa. Então, sem poder evitar um suspiro, sentou-se à cadeira de espaldar alto e opulenta à frente da senhora e descansou a cabeça contra o encosto, os olhos no teto e os pensamentos em torno de um único e icônico nome.

— Estou, extremamente, cansado.

— Posso adiar a mediação entre o Sr. e a Sra. Lufkin. – Sugeriu a Sra. Smith, eficientemente colocando uma xícara de chá muito quente à sua frente, mas declinou. Precisava pensar em algo que envolvesse Hermione e ele numa só equação. De qualquer maneira, as coisas entre eles, além do âmbito jurídico, só poderiam ser resolvidas quando o fantasma sobre Azkaban houvesse sido superado.

— Sei que Blásio vai querer me matar, porque é uma cliente trazida por ele, mas adie a reunião com Fraser e adiante a reunião com os Lufkin, a mediação pode demorar. Então, contate Parvati Patil. – Levantou-se com a xícara em mãos. – Quero falar com ela ainda hoje.

— Isso pode ser bom? – Sorriu de lado, conhecedor de como a senhora era capaz de reprimi-lo quando o assunto era mulheres.

— As coisas terão de mudar por aqui ou terei um infarto aos 40 anos.

Ao adentrar sua sala pôde, finalmente, respirar um pouco mais à vontade. Ainda que sentisse que segurasse o peso do mundo nas costas, ao menos ali não havia ninguém que lhe apontasse isso, direta ou indiretamente. Pensou em Hermione e em como Locke deveria estar cuidando dela, visto que não havia sinal da garota ali, considerando que a castanha não deveria estar muito melhor em casa do que naquele banheiro do Ministério. Detestava presenciar seus extremos, apesar de tê-lo feito mais vezes do que se lembrava. Granger era mais frágil do que gostava de admitir e/ou demonstrar em público e, se quisesse manter seu público cativo, como Zabine queria ao tentar empenhar uma atitude às vésperas da última audiência, deveria demonstrar isso. Do contrário, deixaria de vez seu posto de queridinha da sociedade bruxa, bem como perderia os apoiadores que ainda lhe restavam.

No entanto, decidiu-se distrair-se preparando-se para a mediação dos Lufkin, almoçando a comida pronta de um restaurante trouxa buscada por Emily, rodeado de anotações e livros diversos. Detestava lidar com divórcios e casais, em geral, principalmente quando havia crianças envolvidas na questão toda. Não dispunha de paciência e jogo de cintura para convencer as duas pessoas a serem razoáveis uma com a outra, assim como não era de sua preferência fazer acordos. Gostava de ganhar, pois, no fim de tudo, uma vitória agridoce sempre seria uma vitória, ao passo que um acordo poderia acabar com um lado derrotado – por argumentos ou por fatos. Porém, não teve outra alternativa senão passar o dia todo lidando com o casal, suas mágoas infantis, exigências sem fundamento e excentricidades não contidas.

Quando Emily apareceu, ao fim da tarde, para anunciar a presença de Patil, Draco não poderia estar mais grato pela interrupção da mediação ocorrida na espaçosa sala de reuniões que ocupava. Diferente do cubículo pertencente à estagiária, era luxuosa em sua enorme mesa de madeira rústica e cadeiras de espaldar alto, cinco de cada lado, posicionadas exatamente embaixo do magnificente lustre que iluminava todo o ambiente, além das janelas envidraçadas que cobriam quase toda a parede à esquerda, dando vista para a Londres trouxa. Dessa forma, despediu-se com desculpas do furioso ex-casal, marcando uma reunião para dali a três dias, quando seus ânimos pudessem estar mais calmos e eles estivessem prontos para chegarem a um consenso sobre um divórcio não contencioso, e esperou pela entrada de Parvati.

— Espero que o que tenha a me dizer seja minimamente interessante, Malfoy. – Proferiu a mulher de longos e lisos cabelos negros assim que pisou no mesmo cômodo. Draco ajeitou os papéis que tinha a sua frente, após examiná-la dos pés a cabeça, vestida em uma calça social negra com finas listas brancas, a blusa de um amarelo ocre que denunciava o preço alto da seda, o batom vermelho sempre presente em seus lábios. Ela tinha classe, isso nunca fora uma dúvida para ele, ponderou ao vê-la acomodar-se em uma das cadeiras brancas logo à sua frente. – Eu não gosto de esperar e estou atrasada para uma reunião com o restante do Departamento.

— Posso perceber o que definiu como prioridade. – Afinal, ali estava a mulher, não no Ministério. – Não tente se fazer de desinteressada, Parvati.

— Dou prioridade para receber aquilo que me devem. – Ela lhe sorriu astuta e Draco, finalmente, a encarou com atenção em detrimento dos documentos sobre os Lufkin, dispostos sobre a mesa.

— Você cruzou com o casal que estava aqui?

— Lufkin’s? Sim, está cuidando do divórcio deles? – Confirmou com um meneio de cabeça.

— Nós cuidamos da vida pessoal de muitas pessoas como eles. – A morena pendeu a cabeça para o lado esquerdo, analisando-o. – Bruxos poderosos, com galeões o suficiente para fazer sua cabecinha de proletariado dar uma volta.

— Onde quer chegar com isso?

— Há algum tempo Zabine e eu temos discutido a respeito de contratar outro advogado e, com toda a questão de Granger na mídia, parece o momento mais propício para anunciarmos uma nova associada. Nossa primeira associada. – Frisou, vendo-a levantar uma das sobrancelhas escuras em sua direção. – É claro que seu nome não estará na porta e não haverá a chance de chegar a posição de sócia administradora, mas poderá alavancar sua carreira com uma sociedade com poder de voto em cinco ou dez anos.

— Deixe-me ver se entendi: quer me tirar do que considera o “baixo-proletariado” e me colocar, ainda no proletariado, mas debaixo de suas asas de ouro? – Perguntou ela com certo deboche intrínseco, pensando por um momento.

— Você tem valor para mim, Patil, profissionalmente falando. — Deu de ombros. – Isso nunca foi segredo para nenhum de nós dois, sua vida pessoal pouco me importa aqui.

— Eu sou cara, Malfoy. – Ela inclinou-se sobre a mesa, encarando-o com certa tranquilidade, além do interesse velado. – Para me tirar do “baixo-proletariado” terá que colocar os galeões na mesa.

— Os galeões não serão um problema. – Levantou-se, fazendo com que ela o imitasse, e começou a encaminhar-se em direção à porta. – Pense sobre isso e me responda em uma semana.

Quando já encontravam-se na antessala, local de trabalho da Sra. Smith, Patil voltou-se à ele, o perfume tão característico de sândalo preenchendo todo o ambiente. Era óbvio que sua secretária estava julgando a advogada enquanto a examinava detidamente. Ainda não sabia o motivo da reunião e, em algum momento, teria de dizer a ela que a mulher poderia vir a trabalhar ali. Contudo, não tinha cabeça naquele dia para começar a convencê-la sobre a necessidade da presença de outro profissional ali, principalmente sendo uma mulher. Os tempos estavam mudando e ele gostava de antecipar-se aos outros. Aprendera da pior forma que manter-se fiel às tradições poderia levá-lo à ruína e não correria o risco, tendo estudado para ser perceptível às mudanças sociais.

— Aquela sala me servirá com bastante tranquilidade.

Emily levantou uma sobrancelha fina e delineada, mas Draco apenas forçou um sorriso torto e despediu-se, voltando à própria sala assim que a morena ultrapassou a porta de vidro. Detestava reformas, mas sabia que teria de ceder seu escritório ao caos, se quisesse ter Patil colaborativa. Dessa forma, somente depositou os documentos pertencentes aos Lufkin’s em sua mesa e muniu-se do sobretudo escuro. Precisava de um drink, qualquer bebida forte que pudesse distraí-lo daquele maldito dia, qualquer conversa que não tivesse a ver com Hermione Granger e seu julgamento.

Não ponderou duas vezes, portanto, antes de aparatar no familiar bairro nobre, saindo das sombras produzidas pelas árvores quase que completamente desfolhadas pelo inverno recente, fazendo com que as luzes dos antigos postes o guiassem até a porta envernizada da casa. Sequer avisara que apareceria, mas não havia necessidade tratando-se de Astoria. Ela não era repleta de formalidades, apesar de ter herdado a elegância latente das mulheres Greengrass. Não demorou a que fosse atendido e encaminhado ao segundo andar, onde realmente ficava o apartamento. O primeiro andar servia somente como um hall de entrada, luxuosamente decorado com painéis de madeira na parede, vasos enormes de flores em aparadores de vidro que ladeavam a larga escada com corrimão de ferro retorcido e negro, a qual se destacava contra o piso de mármore da cor creme.

Porém, assim que ultrapassou o portal da costumeiramente grandiosa sala de estar surpreendeu-se. Havia caixas e mais caixas espalhadas por todo o local, algumas com descrições a respeito dos objetos que continham, outras lacradas, algumas ainda abertas. Os móveis grandes encontravam-se dispostos em seus devidos lugares, mas era visto que aquilo que pudesse ser carregado com mais facilidade fora levado. Uma clara mudança ocorria ali e não sabia porque motivo ou para qual endereço. A governanta, percebendo como se encontrava um tanto perdido pelo cenário, informou que a Srta. Greengrass estava em seu quarto, não demorando a afastar-se ao mesmo tempo em que Draco seguia pelo conhecido corredor adornado por enormes peças de arte.

— Não sabia que estava fazendo uma mudança. – Pronunciou-se quando, após uma batida rápida na larga porta de madeira, adentrou o quarto e deparou-se com Astoria, calma e manualmente dobrando as próprias roupas e colocando-as em malas.

— Draco! Como vai? – Ela levantou os olhos, surpresa, abaixando os braços com a peça de roupa que tinha em mãos. – Não esperava vê-lo aqui justamente hoje. Digo, com a audiência de Granger e tudo mais…

— Sim, mas acho que estou mais surpreso que você. – Aproximou-se analisando que o conhecido quarto encontrava-se no mesmo estado da sala e que a mulher continuou a empenhar sua atividade com um sorriso educado que não chegava aos olhos. – O que está acontecendo?

— Estou indo embora. – Levantou uma sobrancelha, ainda mais surpreso. – Erin e eu vamos vender a casa, nós nos separamos há algumas semanas.

— Eu… nunca pensei que isso poderia acontecer.

Sentou-se na cama, encarando os movimentos contidos da mulher, que em nada parecida com a Astoria que conhecia. Analisando bem o rosto, realmente lhe passava a impressão de que ela estivesse lidando com aquilo muito pior que provavelmente gostaria, pois sempre fora do tipo desapegada. Erin a mudara e a moldara uma nova pessoa em todos aqueles anos, pensar nas duas separadas era inconcebível.

— Relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo não são para sempre só porque escolhemos enfrentar certos tipos de desafios para vivê-los! – Ela bombardeou. – Os desafios não têm a ver com a outra pessoa… Quer dizer, é claro que a outra pessoa está envolvida na questão como um todo, mas toda a dificuldade é sobre si mesmo, sobre aceitar-se e compreender que os outros não irão te aceitar como você é.

— Tudo bem. – Anuiu lentamente, quanto a isso não havia o que contestar e, de qualquer maneira, soava como se estivesse falando consigo mesma, até que suspirasse e o encarasse de forma cansada.

— Desculpe, você não tem nada a ver com isso e eu… Só estou frustrada. – Astoria praticamente enfiou a roupa na mala e sentou-se ao seu lado, encarando o tapete persa que ladeava a cama. –Também não achei que as coisas pudessem terminar assim.

— O que aconteceu?

— De uns tempos para cá, Erin começou algumas conversas sobre… Ter filhos. – A viu remexer os dedos, distraída para o fato de Draco ter se retesado ao seu lado. Não sabia se estava preparado para ter aquele tipo de conversa, embora a morena não soubesse nada sobre o que acontecera. Ainda era tudo muito recente e, justamente naquele dia, fizera questão de abrir as feridas de Granger, sendo imediatamente culpado por isso. Não houve ponderação, não houve racionalidade, somente sentimentos magoados. – Ela sempre adorou crianças. Quer dizer, do tipo… Realmente adorar crianças. Ela tem sobrinhos, filhos de amigos, afilhados… e os mima o quanto pode. E isso nunca foi algo que me preocupasse até o momento em que ela começou a insinuar que quisesse uma.

— E não você. – Complementou, vendo-a confirmar com a cabeça.

— Sempre tive em mente que não nasci para ser mãe, sempre pensei que não queria esse tipo de responsabilidade. Mas, eu considerei... Pela primeira vez, eu realmente pensei com seriedade quando ela mencionou, de verdade, esse desejo. Erin havia pesquisado os tipos de tratamento para engravidar com fertilização in vitro trouxa e até mesmo toda a burocracia para poder adotar uma criança e… – O tom dela era somente conformado. – Eu pirei, Draco, acabei com tudo.

— Em que sentido? — Perguntou temeroso.

— Percebi que… Realmente não estou preparada para uma responsabilidade do tipo e, talvez, nunca esteja. Esse foi o ponto principal de tudo porque… Eu resolvi ser sincera e enumerei todos os motivos pelos quais eu não poderia me tornar mãe com ela… — Astoria suspirou pesadamente. – Inclusive que não fui exatamente fiel enquanto estivemos juntas.

Apoiou-se em seus próprios joelhos, estupefato pela determinação de Astoria, ao mesmo tempo em que considerava o quão diferente era sua situação da de Hermione. Enquanto a castanha se martirizava pelo fato de ter sofrido dois abortos, ambos totalmente fora do alcance de sua vontade e controle, espontâneos em motivação e ação, Astoria, completamente saudável, escolhia não ser a mãe que Granger gostaria de ser. Ambas completamente legítimas em seus desejos, pois eram motivados por situações diferentes e personalidades diferentes. O que impactava Hermione, não era capaz de tocar a outra; enquanto que a prioridade de Astoria jamais seria a mesma da castanha. O destino podia, realmente, ser traiçoeiro.

— Você falou sobre… Nós?

— Não. Mas acredito que Erin tenha suspeitado em algum momento. – Ela revirou os olhos e levantou-se, voltando à sua tarefa de dobrar roupas. – Esqueça isso, é uma página virada. O que veio fazer aqui?

— Você está mesmo bem? – Estranhou a conformidade, no que ela lhe sorriu de forma pequena, como que percebendo algo que não percebia.

— Sim. – Responde Astoria como a uma criança, lenta e compreensivelmente. – Eu estive pensando, depois que tudo aconteceu, é claro. Talvez eu já não a amasse tanto quanto amei um dia. Se amasse, de verdade, com toda a minha força, se eu sentisse isso em meus ossos… Não a trairia, não a machucaria da forma como machuquei confessando tudo isso.

— Há certo sentido. – Pegou-se pensando no que fizera com Granger mais cedo, tentando sobrepor uma situação a outra, embora em um primeiro momento lhe parecesse casos completamente diferentes. Ele machucara Granger por um bem maior, afinal de contas, estava livrando-a de Azkaban, apostava tudo que tinha nisso; enquanto que a Greengrass sempre buscava a satisfação pessoal por meio do egoísmo, embora não a estivesse julgando, pois fora exatamente igual durante a maior parte de sua vida. – Acha que seremos sempre assim, suscetíveis de machucar quem amamos?

— Draco, o que veio fazer aqui, exatamente? – Ela deixou de ajeitar as roupas na mala novamente, encarando-o com atenção, repetindo a pergunta com mais ênfase ao provavelmente perceber que encontrava-se em um estado além do normal, considerando sua personalidade costumeiramente impessoal.

— Preciso de um drink.

Deixou-se cair contra o colchão, afrouxando a gravata e desabotoando os primeiros botões para respirar melhor. O dia como um todo fora sufocante, contudo, tinha a impressão de que essa sensação vinha perseguindo-o há mais tempo do que se lembrava. O silêncio preencheu o ambiente por algum tempo, Astoria já havia deixado suas roupas de lado novamente. Percebeu que a mulher estava procurando a varinha em um dos sofás próximo ao guarda-roupas para que pudesse conjurar uma garrafa e dois copos. Ao que parecia, ela também vinha alimentando um desses momentos em que não há muito que se fazer, apenas conformar-se com um copo indispensável nas mãos.

— Espero que não tenha vindo transar, porque definitivamente não estou clima. – Ela entregou-lhe um copo e jogou-se ao seu lado, examinando-o detidamente enquanto tomava um bom gole do líquido escuro e com alto teor de álcool. Bom, considerando isso, deveria ser bom que Granger não fosse voltar para casa aquela noite. Do contrário, não poderia render-se a alguns copos de rum para relaxar. – Você não vem há bastante tempo, aliás.

— Eu estou com Granger. – Astoria não surpreendeu-se, mas apenas soltou um sorriso compreensivo, enquanto ponderava que não a visitara naquelas últimas semanas nem mesmo para contar sobre Granger. – Não é como se tivesse cabeça ou tempo para estar em outro lugar. E não estou dizendo sexualmente.

— Ela deve ser… Complicada. – A viu terminar seu próprio drink e deitar-se ao seu lado, os olhos no teto, ambos pensativos e deprimidos demais para conversar muito a respeito. Não concordou ou discordou, o que provavelmente a dava razão. De qualquer forma, não poderia elaborar muito sobre assunto. Além de seus problemas serem apenas dele e da castanha, estavam diretamente ligados ao julgamento e ao Caso Weasley. Porém, depois de muitos minutos com ambos apenas sustentando o silêncio mórbido, ela voltou a murmurar. – Agora entendo o motivo de sua pergunta.

— Nunca quis que as coisas fossem para uma direção em que não pudesse controlar, mas com Granger… É difícil elencar um momento em que estão sob controle. – Sentou-se, tomando um gole generoso, levando um dedo a têmpora. Seu próprio psicológico estava acabado. – E quando isso acontece… Faço de tudo para que elas voltem ao seu curso normal.

— Você não gosta de mudanças, sim. Talvez seja um pouco paranoico e egoísta, algo em que somos mais semelhantes do que gostaria. – Respondeu a outra pensativamente. – Acho que isso significa que sempre correremos o risco de machucar quem amamos, para nos preservarmos. Mas, Draco, um pouco de egoísmo não é tão ruim assim. Não se as mudanças estiverem fazendo mal a você.

A questão é que não havia feito qualquer coisa com a intenção de machucá-la. Sequer era um objetivo afastá-la com sua provável e muito possível falta de sensibilidade, que, então concordava, talvez fosse fruto de um egoísmo que consistia em querer ganhar aquela causa de uma forma ou de outra, pois não sairia prejudicado apenas profissionalmente. Talvez o fato de querer sempre alcançar a vitória – ou o inalcançável – pudesse ser considerado ao menos igualável a esse egoísmo do qual Astoria falava. Talvez, por fim, tudo se resumisse a sua própria falta de limite para certas coisas, embora jamais fosse admitir dar um passo a menos em direção ao que queria. Draco era assim, não enxergava limites – nem os seus, nem os alheios.

De outro lado, a própria Narcissa o prevenira de que Hermione Granger poderia levá-lo à ruína. Estar na casa de Astoria, bebendo às seis da tarde em um dia de semana, na véspera do julgamento que seria o mais importante de sua vida, poderia ser considerado muito perto disso. Assim, sua mãe estava certa, embora não tivesse noção do quão facilmente a castanha pudesse fazê-lo. Até então, tinha consciência de que estava muito envolvido, mas as coisas ainda não haviam saído do controle de forma tão exacerbada e dolorida, sendo o único responsável ele próprio e seu egoísmo puro e simples, o qual nada tinha a ver com amor próprio.

— Mande-me uma carta com o endereço de sua nova casa, detestaria precisar transar e não saber onde está. – Levantou-se após algum tempo, ambos concentrados demais em suas próprias ruínas, ainda que essas fossem bastante distintas. Bebeu outra dose do saboroso rum, de uma só vez, após encontrar a garrafa na mesinha de cabeceira, próxima ao abajur de luminosidade rosada. – E me procure caso precise entrar em uma batalha jurídica com Erin. Essa casa é enorme e caríssima, seria horrível se a deixasse enganá-la.

— Vou esperá-lo para conversar, mas duvido que voltará a me procurar para sexo novamente.

— Eu tenho que ir, Astoria.

A olhou de forma desdenhosa, apesar de admitir silenciosamente que nunca mais acontecera desde que começara aquela relação inesperada com Granger. A mulher não precisava completar qualquer outra coisa após tal constatação, embora seus olhos brilhantes dissessem muito. Despediu-se com ênfase, como se ela o estivesse incomodando, o que, pela primeira vez naquele início de noite conturbado para ambos, arrancou um sorriso da face delicada e cansada.

Enquanto caminhava pela calçada, observando com muita indiferença a paisagem da rua, a qual era rodeada pelo parque em que aparatara inicialmente, pensava que deveria comprar aquele tipo de rum para deixar em seu escritório. Emergências do tipo aconteciam e a Mansão Black não poderia ter qualquer tipo de bebida com Granger estando lá, o que levava a uma questão mais importante. Com o fim do julgamento aproximando-se, não sabia até quando a castanha ficaria. A possibilidade de Azkaban era aterrorizante, mas uma outra, tão provável quanto após aquele dia, passava a assustá-lo: aquela em que ela não estaria em sua vida, de modo algum. Estava acostumado com a constância de sua presença, ainda que fosse completamente conturbada e pudesse levá-lo a ruína.

Quando chegara a mansão, encontrando-a vazia e extremamente mórbida, exatamente como esperava, a realidade lhe bateu como uma mão invisível, de forma que ainda não havia acontecido. A sala estava escura, os móveis produzissem sombras frias com as luzes da cidade que ultrapassavam as janelas e, por isso, decidiu subir as escadas para o segundo nível, onde poderia ir para a biblioteca. Deveria distrair-se para que a noite passasse mais rápido e, talvez, escrever o encerramento de sua tese de defesa funcionasse. Fora o que fizera durante todo o dia, embora seus pensamentos sempre voltassem à mulher castanha, que ainda ocupava o antigo quarto de Sirius Black no fim do corredor. Pensou em ir até lá, para checar se realmente levara suas coisas para passar a noite na casa dos pais, porém sua sanidade falou mais alto. Não era chegado à autodepreciação e cerceamentos.

A Biblioteca, por sua vez, encontrava-se às escuras. Com um aceno de varinha, a iluminação se fizera presente nos candelabros, bem como o fogo na lareira rodeada por sofás e tapetes confortáveis. Fora ali que ela dera a primeira real solução para o julgamento e seria ali que acabaria. Um pouco irônico, considerando que Granger não estava presente. Desfizera-se de seus sapatos, do casaco e da gravata – finalmente – abrindo um dos blocos de notas e buscando uma caneta sobre a mesinha, onde consistia o canto de leituras do lugar, apesar de sua hóspede ter feito certas mudanças.

Ainda pensara por alguns minutos, seus olhos presos às labaredas da lareira, os dedos distraidamente remexendo no próprio anel de sua família. Não era difícil utilizar a linha de pensamento apelativa pela qual vinha passeando, embora devesse tomar cuidado com as palavras. Direito era sobre palavras, afinal de contas, tudo resumia-se a como conduzir sua narrativa com as palavras certas e na direção mais adequada à sua cliente. Porém, uma lembrança específica lhe veio a mente, ciente de que faria toda a diferença no dia seguinte, que a força de Granger estaria onde a força daquela mulher estivesse.

— Olá, Sra. Weasley.

— Sr. Malfoy. – Ela não deu espaço para que adentrasse a casa imediatamente, parecendo surpresa demais por sua presença ali, possivelmente opulenta demais para sua sala de estar. – O que precisa?

— Vim para falar sobre Granger. – Levantou uma sobrancelha tranquila quando a observou hesitar. – Sei que ela sempre confiou em você, e não apenas como mãe de seu marido.

Foi resignada que a senhora ruiva e muito branca deu espaço para que adentrasse a casa de assoalho de madeira, repleta de parafernálias espalhadas pelos lugares, fechando a irregular porta de madeira e o conduzindo por um corredor estreito até a cozinha. Ela sinalizou para que sentasse ao redor da mesa oval repleta de cadeiras variadas ao redor e que utilizava a maior parte do cômodo, tão desconfortável por recebê-lo ali quando Draco encontrava-se por estar. Porém, tinha certeza que o desconforto não era somente por ele ser Draco Malfoy e por terem cultivado por anos a inimizade entre suas famílias, mas devido ao assunto sobre o qual fora tratar.

— Falar sobre Ron ainda é… Dolorido. – A ouviu manifestar-se após colocar uma xícara de chá à sua frente sem nem mesmo perguntar suas preferências. Não estava preocupada em agradá-lo, de qualquer forma. – Eu preferiria que nos preservasse ao menos nesse aspecto, já que está acabando com sua reputação.

— A reputação dele viva em detrimento da de Granger? – Questionou, vendo-a puxar uma cadeira para acomodar-se do outro lado da mesa. – Acha uma troca justa?

— É o meu filho! – Defendeu-se em tom embargado, embora não derramasse uma lágrima em seus olhos muito azuis. –Não me peça para escolher entre duas das pessoas que mais amo no mundo, Sr. Malfoy.

— Eu não estaria aqui se houvesse outro jeito, Sra. Weasley. – A mulher desviou o olhar, brincando nervosamente com os dedos gorduchos sobre a mesa. – Gostaria que houvesse, como também que Granger não estivesse respondendo por algo que todos sabemos que não cometeu.

— Como pode ter tanta certeza? – Questionou de forma amarga, ajeitando os fios de cabelos ruivos que escapavam ao penteado feito às pressas. – Fala com tanta convicção que…

— Eu confio nela. – Realmente falava com convicção, duvidando que tivesse que explicar seus motivos para uma das pessoas que melhor conheciam a castanha, embora a convicção não fosse tão intrínseca a ele neste caso. Falava com a convicção do que gostaria e do que que queria que ela acreditasse, como sempre fora em sua vida e carreira profissional. – E acredito que ela mereça ao menos um pouco da sua confiança após tantos anos.

— As coisas mudaram, Malfoy. – A Sra. Weasley analisou o cômodo pensativamente. – Desde que eles eram apenas crianças ingênuas correndo pela casa e discutindo durante as férias de verão. Ron tornou-se mesquinho, Hermione tornou-se… Algo diferente que está entre a amargura e a fúria. Foi até mesmo angustiante vê-los ultrapassando o tempo, desafiando um ao outro cada vez mais, tornando-se o que tornaram. Eu acompanhei tudo tão… Passivamente. É, talvez seja a palavra: passiva. Deveria ter interferido quando julguei que eles passaram dos limites, mas… Eu confiei em suas índoles.

— O que você sabia sobre eles? Como um casal, eu digo. – Deteve-se, lembrando-se que Granger e Weasley mantinham as aparências para que as pessoas não soubesse o verdadeiro o estado em que o casamento encontrava-se.

— Quando você é casado por muito tempo, apenas sabe. – Observou um sorriso amargo. – Eles estavam acabados, encaravam ao outro com uma frieza que… Chegava a doer em quem observava de perto.

— Acha que, mesmo acabados como estavam, Granger seria capaz de um ato tão… Não honrado? – A matriarca somente abaixou os olhos, o que o fez perguntar-se se realmente culpava a nora. Porém, para sua surpresa, ela negou com um aceno de cabeça, muito hesitante, muito ressentido. – Sra. Weasley, você não deveria omitir-se quanto a isso, quanto a sua opinião. Se Granger for para Azkaban…

— Ela não vai. – Declarou firmemente, levantando-se, não tão rápido quanto um dia fora, e retirando do forno do fogão antigo uma forma de cookies de chocolate. – Cá entre nós, ninguém gostaria de ser responsável por mandar uma heroína da Grande Guerra para Azkaban. Ninguém se sente apto a julgar alguém como Hermione, ninguém quer se sentir culpado por um julgamento negativo.

— É uma possibilidade real, trata-se de um júri popular. Nada nunca está ganho até que o Júri diga que está, Sra. Weasley. – Finalmente experimentou o chá, constatando que não havia como errar com uma bebida tão tradicional e comum em seu mundo, embora seus pensamentos estivessem mais empenhados em levá-la para o lado de Granger de forma efetiva. Ter a mãe de Ronald Weasley, o morto, a favor da mulher acusada de matá-lo seria a peça chave para obter de vez os votos de que precisava no Júri. Porém, ainda não chegara ao ponto de sensibilizá-la o suficiente para que mudasse seu posicionamento. – Granger está na corda bamba e a senhora pode ajudá-la.

— Eu teria que dizer contra o meu filho. – Ponderou em tom baixo. – Ou concordar sobre as coisas que falou dele, mesmo que tacitamente, apenas pelo fato de estar defendendo-a.

— Não, a senhora não precisa concordar. – Corrigiu rapidamente. – Só farei perguntas com as quais estiver confortável e poderá respondê-las da forma que achar melhor, de modo que não ofenda a… Memória de Weasley.

Nunca fora sua prioridade zelar pela reputação do morto, nem mesmo Granger se importava, mas ali deveria mostrar-se minimamente condescendente com a situação da senhora. Ao menos, deveria admitir que, pelo que via, a mãe de Ronald Weasley não era um terço da personalidade ruim que ele demonstrara ao longo de sua vida, a qual, além do sangue e do sobrenome, fora fator definitivo para que não simpatizasse nem por um segundo com o ruivo.

— Minha família está dividida. Dividida e quebrada pela dúvida, pela suspeita, pela tristeza. – Ela comentou. – Eu não posso representar mais um motivo de divisão para eles. Preciso fazer com que eles se unam novamente porque… Estou velha, Sr. Malfoy. Não gostaria de ir com as coisas estando assim ou que elas acabassem tão… Distantes de como tudo começou. Éramos uma família de verdade, antes de duas guerras nos marcarem de um jeito cruel e irreversível.

Perguntou-se, por um momento, se a senhora encontrava-se doente. Era visível que os anos se passaram para ela com muito mais crueldade do que para sua própria mãe, a julgar pelos cantos dos olhos cristalinos extremamente claros, assim como as bochechas, testas e as mãos enrugadas de pele fina. Ela deveria ser mais velha, considerou, tinha filhos mais velhos, os quais desconhecia os nomes e idades – ou sequer se importava. Porém, não parecia ter sido acometida recentemente por qualquer doença, além do luto natural por ter enterrado seu segundo filho, morto por um terceiro qualquer. Soava-lhe como uma metáfora sobre Weasley’s nunca ter direito sobre a própria vida.

— Acha que a justiça buscada por sua filha é justa? Com Granger? – Perguntou, sem poder evitar indignar-se. – A sua inércia a está mandando para Azkaban e um dos fatores será a presença de sua filha do outro lado, acusando de assassinato aquela que foi sua melhor amiga e cunhada.

— As coisas entre elas vão bem mais além do que o simples assassinato de Ronald e sabe disso. – Ela retrucou na mesma moeda, surpreendo-o por supor que continuaria na inércia decadente e triste em que o luto a colocara. Contudo, julgou que sua presença fosse a causadora de tudo isso, a senhora estava se segurando desde o início. – Não faça com que tudo pareça simples e se resuma somente à injustiça pela qual Hermione está passando. Ela buscou o destino que julgou pertinente para uma pessoa de seu status, porque, vamos combinar, ela sempre julgou-se melhor do que o meu filho.

Quanto a isso não poderia discordar. Não era segredo para ninguém que Granger era inteligente, articulada, talentosa e popular em seu meio. Casar-se com Ronald fora um erro do ponto de vista da mulher poderosa que se tornara, da menina que que era rodeada de expectativas, porque, afinal de contas, ele era realmente medíocre. No entanto, não sabia que o conhecimento da Sra. Weasley a respeito da opinião da nora fosse tão incisivo.

— Eu conheci o seu filho, Sra. Weasley, e não tenho muito a dizer sobre ele, pois não nos suportávamos. Mas quanto a Granger? – Meneou a cabeça, procurando as palavras certas, um pouco pensativo demais. – Desde muito cedo, quando conhecia apenas a fama, ainda assim era possível perceber que Hermione Granger sempre seria boa demais para qualquer homem que ousasse desejá-la. E, talvez, ela tenha mudado com o tempo, talvez sua personalidade tenha se modificado para o que considera pior, talvez tenha acentuado sua ambição e certa insensibilidade, mas ela continua sendo Hermione Granger. Isso não vai mudar porque sua família está em dúvida e não vai mudar se ela for condenada a Azkaban. O que muda é o fator determinante, o que fará com que o Júri a julgue culpada ou inocente. A senhora pode ser esse fator, aquela que será rotulada a responsável pela redenção de Hermione Granger ou por sua sentença de morte.

— Percebo porque Harry o contratou, apesar das desavenças. – Ela levantou-se, calmamente andando até a janela pequena, com folhas de madeiras. – Soa um apaixonado em seus discursos, não?

Então, um alarme soou em sua mente. Algo que ainda não havia lhe chegado e que talvez não chegasse, caso a senhora não houvesse usado aquelas palavras exatas, que poderia confessar a ela e somente ela em um momento tão delicada e que pedia por medidas extremas.

— Eu sou. Sou apaixonado por ela. – Ela virou a cabeça em sua direção tão rápido que quase pôde ouvir os ossos estalarem, encarando-o com tanta atenção que precisou desviar os olhos, pois não calculou que ficaria tão intimidado nesse momento. Suspirou pesadamente, a falta de ar surpreendendo-o e pesando uma tonelada em seu peito e estômago, porque isso não se tratava de negociação, embora a motivação inicial tivesse sido. – Eu a amo, Sra. Weasley. E… Se for condenada, isso nunca chegara aos ouvidos dela, porque… Eu não direi. Não a deixarei ir presa e direi isso no último minuto, como se tivesse qualquer direito sobre seus sentimentos e pensamentos depos do fim. Não a deixarei conviver com essa verdade, como se as coisas fossem melhorar por esse motivo. Não vão, isso não é conto de fadas ou uma tragédia, e eu não quero que ela se sinta culpada por… Chegarmos a esse ponto.

— Amar pode ser um fardo. Agora concordo com aqueles que veem assim.

Pensou ela em voz alta, ainda atordoada com sua verdade, pois não era nada além disso. Sabia disso a tempo suficiente para sentir todas aquelas sensações que o colocavam a mercê das vontades de Granger, que o levavam a jogar até a última, impossível e muito irresponsável carta por sua liberdade. Jamais estaria ali, naquilo que mais parecia um cessar-fogo de merda no meio de uma Guerra invisível e tácita entre Draco e os Weasley, confessando de maneira vergonhosa justamente algo tão pessoal, tão dele e de Hermione, tão fraco. Por isso, concordava com a sentença – era uma, ao menos para ele.

A senhora não teve curiosidade de perguntar há quanto tempo vinha acontecendo, se estavam juntos, a partir de antes ou depois da morte do filho, se era platônico, se somente a amava porque passara a conhecê-la ou se amava a imagem que sempre tivera dela e que tentava, desesperadamente, resgatar, embora soubesse que amava Hermione Granger em todas as suas facetas, sendo a real ou aquela toda quebrada e que deveria ser consertada. Por isso, concordava com a sentença. Era uma, ao menos para ele, que nunca amara e que se deixara amar alguém que precisava de amor mais do que si mesmo.

— Pense sobre isso, Sra. Weasley. – Levantou-se, arrastando a cadeira. – Farei o que estiver ao meu alcance para que ela não seja julgada culpada, mas não virei aqui implorar uma segunda vez.

Notas finais
Olááá!! Eu voltei, não sei se pra ficar, mas com capítulo quentinho e até que com um final bonitinho, afinal quem esperava uma conversa tão franca entre Draco e a SRA. WEASLEY?? Enfim, eu gostaria de pedir desculpas a todo mundo que acompanha a história e explicar que a demora aconteceu por motivos alheios à minha vontade, mas não ao meu psicológico. Eu não gosto muito de colocar minha vida pessoal aqui, acho que é um lugar pra relaxar e vocês nada tem a ver com isso, mas eu demorei quatro fucking meses pra aparecer! Eu tive um bloqueio e acredito que por motivos diversos que vão desde à falta de tempo e motivação por causa da faculdade - eu curso Direito, pra quem não sabe - como também pelo fato de que estamos realmente perto do fim de Neurótica, que sempre foi minha prioridade absoluta aqui no Nyah e a história para a qual eu sempre dediquei mais tempo afim de lhes trazer uma coisa caprichada, uma dramione que EU gostaria de ler. Devido a isso, de Abril e Junho não era possível sentar pra escrever Neurótica na minha casa porque meu avô, que morava comigo, entrou em estágio terminal de câncer. Havia enfermeiras dia e noite na minha casa, gente entrando e saindo o tempo todo, sem contar a estafa mental que só alguém que já viveu isso pode saber. Ele morou na minha casa por mais de um ano e faleceu em Junho, o que também contribuiu para que, novamente, deixasse Neurótica de lado, porque minha vontade é terminá-la exatamente do jeitinho que pensei, escrevendo tudo da melhor forma possível porque eu também quero agradar a mim mesma com esse final. Eu sei que quando somos leitores queremos desvendar o mistério o mais rápido possível e ficamos frustrados quando chega no final da página e não há o botão de 'próximo capítulo' porque sou exatamente como vocês, mas estou sendo honesta aqui. Bom, eu escrevi outras coisas, menos pesadas que Neurótica, com as quais não tinha o compromisso e o objetivo que tenho aqui, que são one's que eu não teria que me preocupar em atualizar, afinal eu escrevo para desabafar, pra relaxar e ficar totalmente sem fazê-lo não era uma opção. São dramiones também, por isso vou deixar o link lá embaixo ;) VOLTANDO! Eu tinha em mente que o capítulo 43 seria o último e então o epílogo, mas enquanto escrevia me dei conta de que TODOS os acontecimentos que planejei não caberiam em um capítulo só, até pelo conforto de vocês. Então, pensei que só postaria esse quando o ouro já tivesse sido escrito, pra que eles tivessem uma ligação que os outros não têm, afinal um completa o outro, um não funciona sem o outro. Mas fui ver a última data que postei, aí percebi que seria vacilo deixar vocês esperando que terminasse de escrever o próximo, o que faria tudo demorar ainda mais e deixaria vocês ainda mais curios@s e possivelmente put@s. Então, aí está, o capítulo antes do fim :) Não vou mentir, tô um pouco sentida por tudo isso, mas a cada cap postado tenho mais orgulho, principalmente porque nesse meio tempo não deixei de estar aqui e ler os comentários de vocês, que acompanham desde sempre, and dos leitores novos, que chegaram agora, mas que me acrescentam tanto quanto! Escrever Neurótica pra vocês é uma honra, saber o que pensam ainda mais! Então, gostaram? Deu certa aflição um começo onde eles estão totalmente fora de sintonia? Draco tem razão? Hermione tem razão? Orgulho prevalece, pois Draco continua extremamente Draco neste capítulo, mas acredito que ninguém esperava aquela franqueza com a Sra. Weasley! Gente, eu tenho essa cena pensada e tô esperando há tanto tempo o momento certo para inseri-la que eu quero MUITO saber o que acharam porque eu amei MUITO escrevê-la!Enfim, Draco e Astoria amigos coloridos é meu espírito selvagem! Preciso confessar: Eu não shippo os dois nunca, nem aqui e nem em outras histórias que eu passo os olhos por aí, mas não me impedi de flertar com isso aqui e frisar que as coisas entre eles ficaram num nível muito fraternal né? Beeeem, falei muito e quero ouvir de vocês, então espero vê-los, pois estamos há DOIS capítulos do fim e meu coração está realmente apertado. Vamos chegar a 1000 comentários?? ;) PS. Para aqueles que gostam de UA Dramione, eu postei duas, além de Flores Selvagens que tá lá bonitinha, não desistam dela e nem de mim, please! ;) https://fanfiction.com.br/historia/761924/Protocolo_Cinco/ https://fanfiction.com.br/historia/759981/Miss_Parliament/ É isso, não esqueçam de tomar água, destruam o patriarcado, 2 beijos! ♥