Neurótica

44 Final - Parte I


Quando acordou naquela manhã, imediatamente o pensamento veio à mente. Não havia nada que passasse por sua cabeça que não fosse o fato de que, realmente, chegara o dia do julgamento. Era a última audiência, o dia em que descobriria se todos os seus esforços – muitos em conjunto com a própria Granger – para mantê-la longe da possibilidade de Azkaban haviam surtido efeito e/ou sido empenhados da forma correta. Sequer saíra da biblioteca, apesar de o sofá ser mais desconfortável do que pensara quando o comprara e, por isso, seu corpo parecia ranger em todas partes possíveis. Não havia descansado nem minimamente, embora não houvesse percebido o momento em que se rendera ao sono, concentrado demais em rascunhar as alegações finais do julgamento.

Jogou as pernas para o lado, agradecendo que ao menos a sensação do tecido do tapete contra seus pés fosse acolhedora. Desajeitado como estava, tendo camisa e calça completamente amarrotadas, esta última com botões e cinto abertos para que não o incomodassem, os cabelos desalinhados, não pode deixar de se perguntar se as coisas seriam, de alguma forma, diferentes se ela estivesse ali. Escorou-se contra o sofá após checar a hora, percebendo que dormira mais do que previsto, apesar de não estar atrasado para a audiência, um suspiro deixando seus lábios e frustrando suas feições. Não deveria mostrar-se tão envolvido com Granger e por Granger. Era de sua natureza que não gostasse de demonstrar fraqueza, mas aquilo também era para o bem dela.

Uma possível condenação o atormentava ao extremo e, se acontecesse, seria melhor para a sanidade de ambos que não se deixasse levar por sentimentos que, ao final, só teriam a perder caso as coisas não acabassem bem. Hermione sabia sobre eles, essa era uma certeza, há mais tempo do que poderia mensurar, assim como suspeitara que a castanha encontrava-se absorta demais nesse tipo de questão muito antes de a mulher sequer verbalizá-la a ele. Ela o amava, o dissera com todas as letras, e talvez as coisas devessem continuar assim, num caminho costumeiramente mais impessoal para Draco, afinal Granger era da Casa dos Leões, sua coragem era presumida.

Por sua vez, fora um covarde desde que se lembrava e, apesar de desejar que tudo ocorresse de forma mais simples, não era assim que funcionava com ele. Desconfiava, analisava, julgava tudo até o cerne segundo as concepções que estavam tão intrínsecas em si que lhe parecia improvável que se desfizesse delas para somente deixar as coisas fluírem. Não aconteceria, mas não parava de pensar no tipo de amor que a mulher tinha a oferecer. Quando racionalizava a questão, percebia a índole questionável e toda a confusão mental causada pela depressão e o alcoolismo, sem contar os episódios esporádicos de ansiedade, além da carência e dependência óbvias. Em Granger, tudo parecia ser elevado ao nível mais extremo, o que lhe soava como um caldeirão efervescente prestes a explodir e o levava a uma dúvida desconcertante sobre se poderiam realmente fazer o que tinham funcionar de alguma forma.

Realmente a amava, como afirmara à Sra. Weasley, mas aprendera com isso que amor não era o suficiente para lhe arrancar de todas as oscilações as quais colocava a si mesmo e o relacionamento deles, concordando com a senhora no sentido que carregava o fardo de não permitir que as coisas acontecessem espontaneamente, sem que colocasse certo freio entre ele, Granger e seus sentimentos. Fora impossível não se apaixonar por ela, porém, gostava de manter-se racional, lógico, prático, convivendo com a realidade e as possibilidades do Caso Weasley. Era um caso, afinal de contas, o qual não passava de um acaso desenvolvido em meio ao caos e a necessidade de se ter alguém em quem pudesse confiar.

Dessa forma, parecia-lhe justo com ambos que não precisassem lidar com tanta culpa e arrependimento quando ou se as coisas acabassem ruins e não somente para ela, embora o cenário naquele momento não fosse nada agradável – se tivesse de realmente analisar a escolha da mulher no dia anterior. Ela fora fria e decidida, ainda que estivesse aos prantos momentos antes, consciente de que o próprio Draco, além de si mesma, revirava-se em ansiedade há alguns dias. A aparente normalidade caíra por terra naquela mesma noite, mas Granger escolhera por si mesma no dia seguinte, tanto quanto escolhera jogar em suas costas a decisão sobre abrir suas feridas. Não se faria de rogado em relação ao fato de que escolhera apostar alto, como fizera durante toda sua vida. No entanto, o ofendia que, em um lapso de irracionalidade momentânea, a castanha enxergasse apenas a dor da perda e nada em direção à objetividade que necessitavam. Ela fizera seu papel naquele dia e escolhera retirar-se de forma abrupta demais até para aquele que prezava por certa distância emocional, embora estivesse acostumado demais à sua presença.

Visto isso, levantou-se e seguiu para seu antigo quarto, onde ficavam algumas peças de roupa. Suas coisas não ficavam no quarto em que Granger se hospedara e considerava isso um grande isso um grande exercício de racionalidade, embora não houvesse tempo para nenhum deles pensar a respeito do assunto. Trasavam, dormiam juntos, trabalharam por várias semanas juntos, comiam juntos, mas esse era um limite que respeitara, excepcionalmente, em bastante tempo, ponderou ao recordar de suas últimas ações, tanto relativas a Hermione e ao Caso Weasley quanto a seus outros trabalhos. Regras não eram para ele, realmente.

Ainda coçando a cabeça, sem preocupar-se com a bagunça que eram seus cabelos, ostentando sinais do gel do dia anterior, fechou a porta da biblioteca atrás de si, as páginas de suas alegações finais firmemente presas entre os dedos, importantes demais para serem deixadas para trás em um dia como aquele. Contudo, estacou imediatamente, a tensão alcançando imediatamente seus músculos, bem como a surpresa por encontrar a mulher ali justamente naquele momento, tão propício quanto seria esquecer o que diria horas mais tarde.

— Tia? – Ela usava os cabelos meio presos, os demais fios caindo em cachos por suas costas, enquanto que o traje era o mais formal em que a vira nos últimos tempos. O vestido ainda preto, com mangas longas e um decote quadrado, descia justo até abaixo dos joelhos, moldando o corpo juntamente com a capa de viagem que a rodeava e ia de encontro ao chão. A senhora caminhou em direção à ele, altiva como sempre, os olhos nunca o deixando. – O que está fazendo aqui?

— Pensei que seria bom passar aqui para ver como as coisas estão. – Franziu o cenho, sem entender onde a mulher queria chegar.

— Hermione decidiu dormir na casa dos pais.

— Não estou aqui por ela. Não hoje. – Ela abriu um sorriso conhecedor, aproximando-se e levantando as mãos, tentando sem sucesso ajeitar seus cabelos bagunçados. – Eu vim para vê-lo.

Por um momento, somente a encarou, ponderando que tipo de alma poderia ter a mulher que perdera quase que a família inteira durante a Guerra, que tivera de criar o neto sozinha e vê-lo adentrar sem poder exercer qualquer controle o rebuliço que se tornara o Caso Weasley, a qual suspeitara inicialmente tratar-se da misteriosa pessoa que visitara a residência de Granger no dia do assassinato do ruivo e da qual duvidara posteriormente de suas palavras, de sua negação convicta e julgadora. Julgadora, pois Draco lhe era como um filho e fora ele a colocá-los em uma posição de desconfiança mútua em nome da liberdade de sua cliente, fora ele a condená-los, ambos, a uma relação cheia de pisar em ovos, mal resolvida e repleta de não dizeres. Que tipo de alma teria Andrômeda Tonks para, justamente naquele momento, preocupar-se com seu bem estar, em detrimento do que Draco fizera a eles?

— Você estava errada. – Ela meramente estampou um olhar questionador. – Naquele dia, eu realmente senti muito. Por colocá-la naquela situação… Ser responsável por nos colocar nessa posição. Está passando por cima daquilo?

O próprio Draco não sabia se seria nobre a tal ponto. A personalidade egoísta o dominava de todo e, além de tudo, podia ser orgulhoso quando queria – a prova disso era o fato de que sequer fizera algo para impedir Hermione de passar a noite fora. Mas ali estava sua tia, a qual, talvez, lhe conhecia tão bem quanto sua própria mãe, colocando as mágoas de lado e uma pedra sobre sua acusação absurda, simplesmente, estando ali por ele. Podia contar nos dedos todas as vezes em que alguém fizera algo do tipo por outro que, essencialmente, mantinha-se seguro no porto de suas convicções, como era de seu costume.

— Não me importo de passar por cima do que quer que for para estar por você quando necessário. – Andrômeda afirmou amenamente.

Finalmente, percebeu que se encontrava realmente desmantelado para seus padrões, visto a camisa completamente vincada, a calça ainda aberta, sem cinto ou gravata, bem como seu rosto ostentando feições amassadas de sono. Em um suspiro, passou a mão pelo olhos inchados e encostou-se à porta já fechada da biblioteca, sem nada a dizer. Suspeitava que encontrava-se daquela forma porque ela não estava ali, embora também não tivesse ideia de como o clima andaria se Granger houvesse passado a noite na Mansão Black. Tinha as alegações finais completamente rascunhadas e prontas em suas mãos, mas por dentro encontrava-se em um turbilhão de pensamentos e possibilidades que giravam em torno daquele nome, daquela não presença, da possibilidade daquela derrota.

— Eu estou bem, tia. – Murmurou, dando de ombros. – Apenas dormi além da conta.

— Eu o conheço, Draco, assim como conheço seu estado mais desesperado. – Ela passou os dedos em seu rosto, evidenciando a barba clara por fazer desde o dia anterior. Andrômeda suspirou, encarando-o de forma compreensivelmente dolorida. Obviamente, aquele dia não se mostrava fácil para ninguém. – O que está fazendo por ela é… Muito nobre. É incrível que tenha colocado Hermione num patamar que há muito não ocupa na vida de ninguém, porque… Todos achavam que ela era autossuficiente, que ela se bastava, pela confiança, pela inteligência, pela independência. E incrível que tenha enxergado que Hermione vai além disso tudo, que ela também é frágil e quebrável, pois, por muito tempo, muitos não acreditaram nisso e a feriram de forma irremediável. Mas Draco… Hermione não é uma menina que precisa seguir por uma direção previamente apontada. Ela não precisa de alguém a apoiando a todo o instante, como se fosse cair caso não tenha alguém segurando sua mão.

— Porque veio aqui dizer tudo isso?

— Não precisa manter-se nesse estado de alerta o tempo todo, ninguém vai condená-lo, caso algo ruim aconteça hoje.– Franziu o cenho, tentando compreender a linha de raciocínio da senhora. – Nem mesmo Hermione.

— Você a viu? – A mulher não respondeu, embora sequer houvesse necessidade. Sorriu amargamente, pois, ao menos para ele, era claro que a castanha estava lhe mandando um recado e Andrômeda ali não passava de um peão e não no sentido ruim da palavra. Com frequência, a mulher fazia o papel de “advogado do diabo” e não se importava com isso, desde que estivesse de acordo com o que queria. Porém, sorriu amargo pela audácia da castanha. – A questão, tia, é que não será necessário qualquer tipo de julgamento da parte de Granger, eu tenho certeza que ela é altruísta o bastante para não ceder a esse tipo de questão. No entanto, eu mesmo terei consciência de que falhei, em algum momento, em uma palavra no lugar errado ou uma ação que não deveria ser feita, e… Não apenas com ela, mas com nós dois, com o que podemos ser.

— Está se ouvindo?! – Andrômeda o seguiu pelo corredor em direção ao quarto onde estavam suas coisas. O assunto de uma possível condenação de Hermione o perturbava e não precisava lidar com ele justamente na manhã da última audiência, como se já não houvesse até mesmo sonhado com isso durante a noite mal dormida na biblioteca. – Precisa estar preparado para o pior e encarar o fato de que você não poderá segurar a mão dela se for…

— Eu estou. – Mentiu descaradamente até para si mesmo nesse momento. – Pensei em todas as possibilidades, em tudo que pode acontecer hoje. Considerei que o Tribunal do Júri é incerto, que Hermione pode, sim, ser condenada e… Eu estou preparado. Mas, por agora… Por agora, tia, até que tudo isso acabe, eu tenho que me manter de pé, até mesmo por ela.

— Draco…

— Porque se eu não demonstrar que tudo está sob controle, que a possibilidade de ela ser condenada está longe da realidade, quem fará isso? Hermione pode ser inteligente acima da média e até autossuficiente em alguns aspectos, mas não é tão independente emocionalmente quanto sempre quis fazer parecer, pois até em relação a isso ela fez outras pessoas como prioridade. – Percebeu estar ofegando somente quando a mulher apertou os lábios em uma linha fina. Desviou os olhos por um momento, as mãos na cintura, os músculos tensos, os lábios mordiscados e a consciência de que, definitivamente, não estava preparado. – Eu tenho que tomar banho, me arrumar para ir ao escritório, verificar se está tudo em ordem e então…

Não precisou terminar, entre eles nunca houve necessidade de palavras demais para respeitarem o espaço um do outro, bem como suas respectivas decisões e opiniões. Havia entendimento, por isso Andrômeda meramente meneou a cabeça, correndo os olhos pelo antigo quarto, provavelmente na esperança de que conseguisse dizer algo que o convencesse a não carregar todo aquele peso em si. Entretanto, se mostrava tarde demais e até mesmo cruel demais, porque se alguém quisesse que as coisas fossem diferentes disso, elas deveriam ter começado de forma diferente, exatamente no dia que a mulher se tornara sua cliente ou mesmo no dia em que Granger ocupara mais espaço do que devia em sua mente – embora nesse ponto as coisas estivessem fora de controle até mesmo para eles.

Então, sua tia aproximou-se, lenta e compreensivelmente, pegando a toalha de banho que se encontrava jogada na cama e entregando-a a ele, antes de ficar na ponta dos pés e depositar um beijo em sua bochecha, segurando-o pelos ombros. Os olhos escuros de Andrômeda se intensificaram enquanto examinava seu rosto, como que para determinar ou ao menos afirmar para si mesma que não estava de todo fora de controle, pois, no fim das contas, estava ali por ele, para poupá-lo e tentar preservá-lo. De si mesmo, de suas decisões, de Hermione.

— Espero que não termine este dia tão quebrado quanto ela está.

Tudo que viu ao levantar os olhos foram os cachos de sua tia balançando em uma harmonia familiar – como se ele soubesse pra onde eles iriam antes mesmo que fossem – antes da porta do quarto soar em um baque seco ao ser fechada. Ela não era a mãe de uma criança que tem que insistir e explicar todos os seu pontos para que ele entendesse que estava errado, ela não era do tipo adepto a repetições, suas intenções com aquela visita se fizeram mais do que claras. Contudo, Draco também era repleto de convicções, após um obscuro tempo em que o que o regia não eram suas próprias escolhas.

Por isso, tinha em mente fazer a coisa certa ficando, mesmo que não da maneira mais correta e ortodoxa que conhecia. Permanecer ao lado de Hermione, mesmo na tempestade, era uma rebelião contra o lado mais covarde de sua personalidade, o qual insistia em fugir sempre que ela demonstrava qualquer tipo de sentimento maior e inesperado, sempre que ele próprio se sentia à beira de um precipício quando a encarava em sua forma mais cotidiana de ser, bem como todas as vezes que lembrava-se que tudo isso estava por um fio. Definitivamente, não estava preparado, mas decidira lidar com as consequências dessa fraqueza – em sua mais corajosa convicção após tempos de inércia – somente depois, se elas realmente viessem.

Assim, desfez-se das roupas e encaminhou-se para o banheiro, fechando os olhos ao sentir a água quente cobri-lo, tentando manter-se calmo enquanto repensava tudo que havia rascunhado durante a noite anterior. Estava certo de que sua testemunha iria surpreender e ganhar o júri, embora impossível que a certeza fosse completamente garantida em caso de Júri, o que quebrava toda uma vida de confiança em julgamentos desse tipo, afinal era um caso anormal – e não somente por toda carga pessoal que carregava consigo – mas por tratar-se da heroína que todos amavam, invejavam, que obteve a maior cobertura midiática bruxa desde os julgamentos dos Comensais remanescentes da Guerra.

Draco detestava pisar em territórios desconhecidos como aquele, mas estava certo em apostar tudo em determinados pontos das alegações finais. Não precisava apenas despertar a empatia dos jurados sobre a história de Granger e todo seu drama com o aborto e o casamento fracassado, como também lembrá-los de que ela era inocente e, principalmente, que aquele público a conhecia e costumava ser seu cativo, até que as incertezas sobre a índole de seu ídolo fossem postas em cheque de forma arbitrária. Havia discutido com Blásio, com Locke, com Emily, com a própria Hermione, todos estavam de acordo que aqueles deveriam ser os pontos a serem destacados, de forma que era quase inaceitável que estivessem tão equivocados.

Entretanto, sua linha de raciocínio foi interrompida quando ouviu o ruído baixíssimo da porta somente encostada ser empurrada de forma quase que completamente discreta. Notou a presença antes de sentir o corpo quente próximo ao seu, bem como o perfume suave antes de os braços o rodearem, sem nenhuma questão de se molhar ainda que estivesse vestida. Por um momento, não reagiu. Qualquer demonstração de carinho da parte dela era imediatamente estranhada por seu costumeiro lado metódico e cuidadoso. Não a esperava ali depois do desentendimento do dia anterior, da dor antes mascarada da mulher jogada na cara dele, como se fosse o único culpado pela situação em que estava como um todo, de todo o orgulho irracional e exacerbado proferido mutuamente. Da mesma maneira, sequer sabia como recebê-la após tudo isso, pois não tivera tempo ou disposição mental para também pensar sobre, além de suas novas convicções.

Hermione, por sua vez, também se manteve em silêncio, os braços apertados ao redor dele e a testa contra sua omoplata. Estava vestida, pelo que via das mangas, uma camisa azul claríssima que usava com frequência. Talvez a castanha também não soubesse exatamente o que fora fazer ali, apenas fora, sem explicação e sem perspectivas do que dizer quando as possibilidades sobre qualquer tipo de caminho ou futuro também se encontravam em aberto. Granger não chorava com facilidade, realmente não esperaria que a mulher estivesse aos prantos e fora de controle naquele dia – não depois do rompante anterior -, mas respirava de forma compassada, calma e conformada, como se aquilo fosse tudo antes do fim.

A realidade lhe bateu como um tapa, afinal era a única explicação plausível para que Hermione o procurasse e colocasse de lado todo o rancor guardado desde o momento em que anunciou seu depoimento e expressado após ser submetida à, provavelmente, uma das situações mais degradantes de sua vida. Então, aquele aperto na garganta se fez presente, não como um embargo, mas em reflexo à insegurança de como aquele dia terminaria, a respiração tornou-se quase suspensa, exatamente como quando precisou confrontar a Sra. Weasley com todas aquelas verdades até então não ditas sobre si próprio e sobre ela, visto ser sempre perturbador ponderá-los como um “nós”, como algo concreto e até mesmo finito – como pensara naquele dia.

Suspirou pesadamente, cedendo novamente ao caos dentro de si, àquela fraqueza que não poderia e nem queria conter no momento, ao perfume dela que instantaneamente tomou todo o banheiro, ainda que ambos estivessem completamente encharcados sob o chuveiro. Voltou-se à castanha sem nada esperar, pois tudo estava intrínseco em seus propósitos, sem necessidades de reafirmações extremas, ainda que o dia anterior houvesse sido extremo, exaustivo e condenatório para ambos, tanto pessoal quanto judicialmente. Nenhum deles era inclinado à gestos excessivos de afeto, embora a mulher sempre tivesse cedido antes de Draco, e, especialmente durante esse dia, não poderia encontrar qualquer palavra que pudesse tornar a perturbadora espera do julgamento mais fácil ou aceitável. Considerando-os como um todo e não profissionalmente falando, tudo já havia sido dito, desdito e, depois de tanto, lá estavam eles, juntos.

Dessa maneira, poderia afirmar que o essencial estava ali, entre eles, dispensando palavras vazias e possíveis mentiras confortáveis. Seus olhos percorreram o rosto bem desenhado, analisando como ela parecia melhor e mais centrada após uma noite toda com os pais, os olhos lúcidos o observando de volta, mais escuros do que deveriam, aceitavelmente pesarosos pelo temor inafastável. A viu respirar fundo, molhar os lábios, preparar-se para falar o que quer que lhe fosse importante verbalizar, mas para ele não o era – provavelmente nada o seria até que as questões judiciais estivessem realmente e finalmente resolvidas.

— Eu… Eu não queria que…

Interrompeu o balbuciar incerto no juntar de seus lábios, imediatamente sendo retribuído ao encaixar as mãos no pescoço alvo, como fizera tantas outras vezes, e esperar pelos próximos passos que conhecia. O beijo dela sempre fora macio e convidativo e, por Merlin, quisera que Hermione estivesse ali durante a noite toda para beijá-la apenas pelo prazer de senti-la empenhar-se nisso. Suas línguas encaixaram-se, suas mãos encontraram a coluna sobre o tecido molhado, pressionando-a contra si, como sempre fazia, enquanto as mãos dela distraidamente brincavam com seus cabelos, sem pressa em uma tentativa de esquecer, naquele momento, que tinham os minutos contados, não somados.

Queria que as coisas terminassem ali, com Granger trajando somente uma camisa e lingerie branca, seus dedos traçando caminhos inexistentes na pele dela, alcançando tudo que podia naquele curto espaço de tempo, naquela trilha que ele sabia fazer e refazer incessantemente, sem reclamações. Os cabelos dela se encontravam ajuntados em um coque molhado, já nada na glamuroso e em nada paralelo com a mulher que conheciam publicamente, a face mostrava-se corada pelo caminhar de sua boca em direção ao pescoço enquanto suas mãos ocupavam dos botões do único tecido que o impedia de realmente tocá-la, os olhos já fechados, os lábios entreabertos e as unhas fincadas em ombro e braços e… Era isso, o finito teria um limite aceitável para ambos, pois aquela expressão completamente inesquecível jamais sairia de sua mente.

Sentiu o arfar contra seu rosto quando terminou de abrir a camisa azul e abaixou a renda para tocá-la, observando de perto cada movimento feito em direção a ele, cada ondulação no ritmo de seus dedos contra o seio macio e arrepiado. Gostava de transar com Hermione durante o dia, pensou distraidamente. Ali, com a iluminação da manhã adentrando o banheiro pela janela logo ao lado do chuveiro, havia uma honestidade que não se passava em outro momento, uma entrega ainda mais espontânea do que normalmente. Seus lábios roçaram quando, finalmente, colou seu corpo, o tremor excitado atingindo cada poro no acompanhar das gotículas de água escorrendo pela pele macia.

Não pôde impedir-se de deixar a marca de seus dedos na perna no mesmo instante em que a língua atrevida desenhou a linha de seu pescoço, sugando-o de certa forma que o fez imediatamente enganchar os dedos na calcinha branca e abaixá-la rapidamente, sem muito esforço. Hermione circundou seu corpo com uma perna, colocando-os em tal contato que se tornou impossível não se insinuar contra a intimidade molhada pela excitação. A viu fechar os olhos novamente, os braços apoiados em seu ombro, a cabeça completamente apoiada na parede, ainda que não a houvesse penetrado, apenas sentindo-o completamente colado contra si. Sorriu sem pressa, segurando o queixo fino e sempre altivo para beijá-la da forma apropriada, como gostava. Sempre que estava excitada, a mulher o beijava o mais lascivamente que conseguia, não porque planejava, mas apenas porque não podia frear-se.

O corpo menor ondulou contra o dele buscando mais contato, os dedos em seu cabelo, a testa na sua e as respirações se misturando. Manteve o olhar no dela, pela primeira vez concebendo que poderia ser a última que a tocava, que sentia seu cheiro, que poderia ser a última vez que a veria daquela forma, tão pessoal, tão entregue e sem ressalvas. Engoliu em seco, tentando expulsar isso da mente quando Hermione juntou seus lábios novamente, provavelmente tentando distraí-lo, visto que o afastou em seguida e deu-lhe as costas, abaixando a camisa azul que ainda usava, expondo a curva do pescoço, livre pelo cabelo mal preso, e a linha da coluna, molhada até a linda bunda já nua.

Suas mãos imediatamente encontraram a cintura, percorrendo caminhos invisíveis na pele até encontrar os seus seios novamente, ouvindo-a respirar mais dificilmente. Sabia de seu ponto fraco nas laterais, conhecia como a si mesmo o local exato no pescoço que a faria gemer facilmente e preencher o banheiro com mais do que o arfar de ambos, mas não tinha pressa alguma. Pressionando-se novamente contra a castanha, encontrou o fecho do sutiã e o largou no chão molhado junto com as outras peças. Seus dedos adentraram os cabelos, puxando-os levemente até que o pescoço estivesse exposto, sabia que ela não gostava de ser dominada – em nenhum sentido. A viu tentar encontrar qualquer apoio na parede de ladrilhos com motivos verdes e dourados, as unhas tentando cravar-se em qualquer coisa enquanto sua boca a atormentava.

No entanto, apesar da falta de pressa em terminar com aquilo, em prolongar aquele silêncio excitante, quebrado apenas pelo ruído da água caindo e das respirações em escassez, não conseguiu forçar-se a continuar por muito mais tempo quando a viu empinar-se contra ele. Ainda que seus lábios não a deixassem e suas mãos percorressem toda a porção de pele estimulante que era o corpo de Granger, ainda faltava algo e ela não precisava de palavras para pedir, especialmente se conseguia sentir em seus dedos a excitação entre as dobras molhadas que era a intimidade dela. A penetrou antes que pudesse se conter, sentindo-a esmagá-lo ao mesmo tempo que o leve gemido de satisfação deixava a boca dela.

Percebeu sua própria respiração descontrolada quando afastou-se e a entrou novamente em um curto espaço de tempo e isso não era exatamente algo deles. Não podia esperar que tudo estivesse sob controle naquele dia, mas apoiou sua testa contra a cabeça dela rapidamente enquanto tentava, pois, de outra forma, gozaria antes mesmo que que conseguisse fazê-la chegar ao próprio auge. No entanto, Hermione passou a mover-se lentamente, fazendo-o apertar sua mão contra a parede, os dedos de ambos tão encaixados quanto seus corpos. Ia pedir que parasse, mas refreou-se ao ver o pequeno sorriso estampado em seu rosto. Ela parecia estar simplesmente apreciando o momento, concentrada somente em seu próprio prazer, o rosto completamente livre de maquiagem, mas corado pelo esforço, o suor misturando-se com a água, os olhos fechados em concentração.

Por isso, mordeu levemente a mandíbula, repetindo o gesto em seus ombros, observando com satisfação a marca de seus dentes no ponto, obrigando-se a trabalhar no mesmo ritmo para chegarem onde queriam, quando queriam – e isso era algo deles, não o completo descontrole na hora do sexo. Encontrou a intimidade já sensível, fazendo-a engolir em seco e descansar a cabeça contra seu ombro, apenas desfrutando de seus dedos enquanto ela o molhava cada vez mais. Não havia mais volta a partir dali, internamente, fisicamente. Estavam excitados, apaixonados e quebrados demais para que parassem – e não se referia somente ao incrível sexo daquela manhã mais nublada do que qualquer outra coisa.

A virou para si, as costas na parede, uma das pernas em sua cintura, encaixando-se nela novamente, de forma lenta, distraindo-a de tal forma que o mordeu sem querer enquanto a beijava, mas não se importou. Os cabelos, antes presos, encontravam-se quase soltos e mais bagunçados do que normalmente, os olhos, agora escuros pelo desejo, não paravam de encará-lo ao mesmo tempo em que distraidamente o marcava com as unhas em seus ombros, em sua nuca, em suas costas, onde podia alcançar. Suas mãos apertaram apertaram os quadris mais forte do que calculara a princípio, Hermione descansou a cabeça contra a parede novamente, a boca emitindo um gemido baixo e longo ao passo que Draco descansou a cabeça na curva de seu pescoço e por ali ficou, aspirando seu cheiro, apenas sentindo cada arrepio e sensação que o corpo deles produzia em conjunto – não porque chegaram ao auge juntos, mas porque eram eles, todos aqueles sentimentos e o maldito dia do julgamento.

— Draco.

A ouviu murmurar contra seu peito, chamou, mas retesou-se em um suspiro resignado. Distraidamente, acariciou os cabelos desajeitados na nuca e os afastou, evitando observar o desentendimento que habitava o rosto corado naquele instante. Abaixou-se para pegar as roupas dela, que as pegou em um misto de frustração e raiva, embora a nudez de nenhum deles tivesse qualquer coisa a ver com isso.

— Não podemos conversar agora. – Declarou de volta em tom baixo, tentando a todo o custo não ser o canalha que estava acostumado e no qual se sentia confortável. – Não sobre nós dois, sabe disso.

Ela sustentou seu olhar, claramente discordando, mas orgulhosa o bastante para jogar o conjunto de lingerie branca ao chão novamente e colocar a camisa de volta ao corpo. A amava, mas não queria ouvi-la naquele momento. Não por ressentimento, apenas porque sabia que o desestabilizaria e julgava encontrar-se no ápice de seus excessos ali. Por isso, deu as costas à mulher e voltou ao chuveiro, sentindo a água cair aconchegante quente contra sua cabeça. Havia o silêncio e a presença indignada dela no banheiro, que só o deixava tenso pelo estado de distanciamento em que os colocara. Isso era necessário, palavras não. Para Draco, bastava aquele tipo de sexo, todos os olhares dela, toda a intimidade que os levara até ali.

— Eu te vejo no Tribunal.

A porta foi fechada em um baque seco, que dessa vez o levou a colocar a cabeça contra a parede e simplesmente esperar que aquela palpitação em seu peito passasse. Lidar com aquele dia seria extremamente complicado, mas lidar com suas próprias emoções estava além do que gostaria. Por isso, terminou o banho e ajeitou-se rapidamente antes de ir para o escritório num terno azul escuro e fechado, tanto quanto a gravata sobre a camisa branca. Talvez o estivesse deixando mais pálido que o normal, talvez fosse o dia incomum. Não saberia dizer e com isso não estava tão preocupado, apenas queria alimentar a mente com qualquer outra coisa que não fossem os sentimentos machucados de Granger por sua insensibilidade.

O clima ao chegar não era nada animador. Todos estavam acompanhando os diversos jornais bruxos daquela manhã, alguns noticiando o grande julgamento em tom otimista, ressaltando o fato de que o Júri era composto por mais mulheres do que homens, outros em desafio a Justiça Bruxa, na direção de que a prisão de Hermione Granger, uma ex-funcionária e heroína, seria o maior exemplo de que o Ministério Bruxo extirpara completamente a corrupção sistêmica há anos instalada, a maior prova da imparcialidade e do retrato sério de toda uma comunidade que precisava de um novo algo em que acreditar, visto que seus heróis haviam se tornado novamente humanos, alcançáveis e imperfeitos.

Enquanto ultrapassava o hall para chegar a sua própria sala, em passos apressados e pasta em mãos, pronto para revisar todo aquele processo antes de encaminhar-se ao Décimo Tribunal, seus olhos capturaram pela porta entreaberta um raro vislumbre de sua estagiária completamente desatenta atrás de sua mesa. Ela tinha o rosto apoiado em uma das mãos, os ombros caídos e os olhos perdidos em qualquer coisa que estivesse no chão. Locke segurava um pena, como se houvesse se distraído enquanto escrevia e, apesar de mostrar-se completamente alinhada em roupas sociais e neutras, diferente das vestes espalhafatosas que geralmente usava, bem como os cabelos dourados e cacheados milimetricamente alinhados, carregava um semblante pesado e um bico maior do que aqueles que já presenciara pela contrariedade mal disfarçada.

Então, em um suspiro, adentrou o cubículo que lhe parecia menor do que pensava com a presença dela ali. A viu recompor-se rapidamente ao percebê-lo, ajeitando o óculos, a postura e pigarreando antes de perguntar se precisava de algo. No entanto, Draco somente fechou a porta, descansou as mãos no bolso e a encarou detidamente. Locke, geralmente, não era a pessoa mais desanimada do ambiente. Ela podia passar horas conversando com qualquer um deles, sobre variados assuntos, desde seu gato até o maior problema do país e sua solução. Entretanto, Hermione Granger era um modelo e ela vira de perto que o modelo não era exatamente o que pensava e , assim como muitos outros, se decepcionara com a heroína de infância e tivera de adequar-se a isso para continuar no escritório, o qual ela procurara, em um primeiro momento, justamente, por causa da mulher.

— Não irá desistir do Direito Mágico, caso o dia termine mal, não é?

— Você vai? – Ela devolve a pergunta, percebendo como os olhos sob as lentes de grau encontravam-se mais sérios e, talvez, maduros. Quando não respondeu, a garota suspirou pesadamente e rendeu-se. – Eu não poderia. Continuo não acreditando em justiça imparcial, continuo almejando que as pessoas sejam julgadas da forma correta, pelo que fizeram, não pelo que são ou pelo sobrenome que carregam. Continuo a achar que o Ministério errou ao condená-la tão precipitadamente, não demonstrando nenhum apoio, desgrudando sua imagem pública da dela prematuramente, mas… Eu não sou a mesma pessoa que era semanas antes. Vi coisas que não gostaria, aprendi muito, não apenas com você, com… Tudo o que vivo aqui todos os dias. Acho que… Agora que sei como é ou talvez tenha alguma ideia de como o mundo funciona para além das salas de aula, eu não posso desistir. Ainda que o resultado não seja aquele que queremos, acho que temos de lidar com isso, de uma forma ou de outra. Eu farei não desistindo, continuando a lutar pelo que acredito e lidando com perdas. Porque, mesmo que o Ministério ganhe o caso, todos já perderam com o que houve nesses últimos meses.

Quando Locke passara a ocupar aquele cubículo, não esperava esse tipo de evolução. Ele a esperava excitada por ajudar pessoas, por encontrar-se realmente exercendo o Direito Mágico de alguma forma, mas não se tratava somente disso. A estagiária fora além da garota deslumbrada e desastrada, e isso não queria dizer que ainda não o fosse – duvidava que houvesse realmente deixado sua personalidade de lado e sequer tinha vontade de entrar em detalhes sobre o motivo de ter escolhido vestido e penteado diferentes naquele dia. Significava que, agora, era uma deslumbrada e desastrada com uma visão além daquela que tinha no início, daquilo que já acreditava e, embora um pouco mais pessimista, talvez a vista panorâmica do lado mais obscuro do Direito Mágico a estivesse deixando melhor e mais engajada.

Draco somente anuiu, não impedindo que uma brecha de orgulho o atingisse, ciente de que era ao menos responsável pela mudança e possível evolução de Arabella Locke. Por um momento, considerando o que ela aprendera e o que presenciara, pensou em perguntar o que achava a respeito de Granger, se a julgava culpada ou inocente, e até molhara os lábios para tanto. Porém, qualquer coisa diferente do que gostaria como resposta seria difícil de suportar e não precisava lidar com mais do que o necessário naquele dia.

— Parvati Patil se juntará ao escritório em breve. – Os olhos verdes arregalaram em surpresa, em partes pela brusca mudança de tópico. – Talvez ela possa querer... Dominar as coisas por aqui no início, mas você está na minha trincheira. Não se esqueça disso.

— Eu não vou.

Esperou por uma possível e costumeira piada a respeito do começo de sua valorização como profissional, após todas aquelas semanas mostrando mais do que esforço jurídico, mas compreensão e empatia, algo que em muito faltava no mundo de Draco, mas a fala não veio, pois a garota estava entretida demais tentando segurar a própria empolgação, ao menos na sua frente, assim como fizera no dia anterior quando explicou o que fariam à ela. Revirou os olhos, aproveitando que a mesma sequer o encarava ao morder os lábios segurando um sorriso e levou uma das mãos à maçaneta, endurecendo o tom novamente.

— Não se atrase para a Corte, Locke, pois não terá privilégio algum.

Quando chegou sua sala, no entanto, finalmente pôde sentir que faria algo útil naquele dia. Havia escrito as alegações finais durante aquela madrugada, mas tinha muito a pensar, a considerar, a verificar. Mostrava-se mais frenético do que de costume e, se fosse uma audiência completamente comum, onde não se importava com o cliente em especial, mas com a causa em si, prepararia uma dose de uísque para degustar enquanto trabalhava tranquila e confiantemente. Contudo, confiança não era algo que o coabitava naquele instante, embora devesse exalar isso aos quatro cantos bruxos.

Então, calmamente retirou o terno, descansando-o no encosto de sua cadeira, antes de acomodar-se e passar a revisar o que tinha em mente. Precisava da empatia e convicção dos jurados. A situação dela era complicada, no entanto. A empatia poderia não vir, pois havia várias maneiras de o Júri interpretar as ações pré-morte de Weasley e apontamentos que poderiam levá-los a culpá-la, como a misteriosa saída durante o horário de expediente. Gostaria de tê-la questionado a respeito, até mesmo confrontando o fato de nunca ter mencionado algo que podia pegá-lo desprevenido durante a audiência, mas não houve tempo ou vontade o suficiente de sua parte para driblar seu orgulho, buscá-la onde estivesse e fazê-la falar a respeito, ainda que com isso pudesse a obrigá-la a reviver as dores de seu vício pessoal e os lugares onde a negação sobre irremediavelmente a levava.

A incerteza o fez batucar os dedos contra a mesa. Se dispusesse de mais tempo, iria ao The Elder, procuraria uma testemunha que afirmasse que Hermione estivera lá durante aquela tarde, praticamente no momento em que a mulher misteriosa visitara a Residência Granger-Weasley e, assim, talvez remediasse a situação com mais facilidade. Não podia negar que Edgecombe fora esperto ao acrescentar esse novo elemento no instante final, quando Draco se encontrava de mãos atadas, às vésperas de seu movimento final naquele jogo de espetáculo, pois, não de outra maneira, o Júri teria de se conformar somente com uma negação duvidosa da própria ré. No entanto, ainda tinham sua própria testemunha-chave e estava confiante que os Jurados não iriam descartar suas palavras.

Com um aceno de varinha, os armários foram abertos e a cópia de um processo idêntico ao que tinha em mãos flutuou até sua mesa. Padronizado como os demais, continha a capa em um tom verde escuro, as letras que indicavam do que se tratava, junto ao nome de sua cliente, eram prateadas, um preciosismo que não se orgulhava de manter, mas fazia questão de ostentar. Porém, antes que começasse a releitura do que já conhecia em detalhes, a batida na porta o alertou para a entrada de Emily. A senhora parecia desconcertada e pigarreou, juntando as mãos à frente do corpo antes de continuar.

— O que quero pedir é um tanto incomum. – Levantou uma sobrancelha, estranhando. – Como sabe, não concordo com muitas das coisas feitas em nome deste ofício, mas eu o respeito e entendo quando, no fim de tudo, as coisas terminam bem.

— Onde quer chegar? – A Sra. Smith aproximou-se da mesa.

— Quero ir ao Décimo Tribunal hoje.

Emily nunca demonstrara qualquer interesse em realmente participar de qualquer atividade que remotamente pudesse envolver manipulações e algumas mentiras necessárias. Era a prova de que o caso Granger tornara-se realmente excepcional, movimentando até mesmo a massa mais imparcial da sociedade bruxa. Todos tinham uma opinião a respeito, nem que fosse aquela que os mantivessem neutros, pois soubera que muitos mostravam-se arredios ao fato de Hermione Granger estar passando por um julgamento, como havia apontado a Sra. Weasley tempos antes. Estaria a matriarca ruiva mais certa e convicta que o próprio Draco?

— Não vejo porque não, Sra. Smith. – Voltou os olhos ao processo que tinha em mãos, decidido a retomar a concentração perdida pra todo o rebuliço em seu interior. Antes que pudesse impedir-se, voltou os olhos à mulher, que já lhe dava as costas. – Encara como uma despedida?

Como ela fizera mais cedo. Não gostava de pensar que todos os momentos que pudessem vir a passar juntos até aquele em que a Juíza Griswold proferisse a decisão dos jurados fossem uma despedida, mas era tudo que lhe vinha à mente, além da necessidade e vontade de autocontrole que o dividia em níveis dramáticos. Tinha consciência de que seu trabalho fora feito e continuava sendo da forma mais correta possível, com as informações que tinham em mãos, mas não podia deixar de se perguntar se tudo que fora empenhado até então não os estava levando diretamente a ponta daquele abismo; se, sabendo disso, todos os gestos dela não eram calculados para levá-los a uma despedida que precisavam.

— Não uma despedida, mas o fim de todos esses meses em que o vi praticamente definhar em si mesmo por outra pessoa que não fosse você, por algo que não fosse seus objetivos pessoais. – Emily apoiou uma mão na maçaneta, parecendo debater qualquer coisa com sua própria mente até que, afinal, o encarou e espremeu a boca em um sorriso contido, como sempre fora, produzindo uma pequena onda de rugas do tempo ao redor dos olhos claros. – Estou orgulhosa.

A senhora se foi sem esperar por resposta, como era de seu feitio, colocando-o novamente a pensar sobre suas próprias ações nas últimas semanas em que esteve quase que completamente absorto somente pelo processo de Granger, pelos problemas pessoais de Granger, pela própria Granger. Perguntou-se se isso estivera claro para mais do que algumas pessoas que o rodeavam diariamente. Estas, por sua vez, sequer precisavam questionar se estava ao menos apaixonado por ela, imaginou. Estavam lá, acompanharam tudo desde o início, até mesmo sua negação a respeito, sua insistência em envolver-se apenas fisicamente com uma mulher que, claramente, precisava de muito mais do que isso. Sexo não significava muito para Granger. Ela apreciava, ela comandava, ela o procurava, mas não fora o sexo que os colocara naquele ponto.

Bufou, indignado com a própria distração e, finalmente, concentrou-se no que tinha em mãos, fazendo anotações e revisões até que Locke, colocou sobre a escrivaninha uma sacola com seu almoço e saiu, tão silenciosa quanto entrou. Pela primeira vez em alguns dias, ninguém o atormentou até que, com um aceno de varinha, fizesse com que os papéis encontrassem uma ordem, antes de guardá-los novamente e buscar o terno. Gostaria de chegar ao Décimo Tribunal com pouca folga para evitar qualquer tipo de distração com Granger, por isso, ao chegar ao hall, Emily e Zabine já o aguardavam para saírem.

A chegada ao Ministério foi tão conturbada quanto todos os dias em que estiveram ali para defender Granger. A imprensa não se encontrava no comprido hall e nem em qualquer lugar à vista, pois por um algum motivo qualquer, alguém tivera a ideia de amontoá-los a um lado do corredor que os levava diretamente às portas duplas do Tribunal. Uma barreira mágica os impedia de avançar, mas não de gritar perguntas, fotografar ou meramente escrever árdua e rapidamente sobre. Assim que adentrou, percebeu que, ainda que tivesse tentado impor alguma ordem, aqueles eram somente os repórteres que não conseguiram entrar na sala de audiência antes que ficasse lotada demais, pois jornalistas eram vistos por toda a parte, espalhados entre os curiosos e familiares de Weasley.

Enquanto descia a rampa, seus olhos imediatamente encontraram as conhecidas e muito numerosas cabeleiras ruivas logo nas primeiras fileiras. Não poderia nomear e contá-los nem se quisesse, mas pode identificar Ginny Potter e o marido ao lado de um ruivo alto que ostentava uma feia cicatriz a um lado do rosto. Supôs que a matriarca já estivesse na sala reservada às testemunhas e ignorou aqueles que fizeram questão de encará-lo de forma desgostosa, como se estivesse praticando um crime ao defender Granger ou, talvez, fazer com que a mãe deles tivesse seu depoimento justamente naquele dia.

Desconhecia a opinião de todos, individualmente, a respeito da culpabilidade de sua cliente, apenas que encontravam-se “divididos e quebrados” e, devido a isso, a Senhora Weasley tentara evitar que uma fissura causada por sua opinião a respeito de Hermione Granger causasse uma ruptura ainda maior em sua família. No fim de tudo, até mesmo Weasley’s podiam se revelar egoístas pelos seus. Assim, não impediu-se de direcionar-lhes um puxar de lábios superior, quase um cumprimento, mas alguns reviraram os olhos, talvez cientes de sua eterna inimizade com Ronald Weasley, ou mesmo de seu inevitável desprezo pelo sobrenome, ainda que não os conhecesse realmente. Ninguém dissera que o tempo o livrara de seus defeitos.

Ultrapassou a barreira que o separava de sua mesa, depositando suas coisas ali e encaminhando-se até a sala adjacente, guardada estática e seriamente pelo policial ministerial. Com um aceno de cabeça ao homem, adentrou o cômodo suntuosamente decorado, sendo imediatamente tragado pela figura altiva encostada contra a mesa. Os braços cruzados, o nariz empinado e os olhos castanhos extremamente sérios escondiam a mulher angustiantemente frágil que ela era, embora claramente se recusasse a aparentar algo do tipo ali. Granger usava um conjunto de calça e blazer negro, sobre uma blusa azul escura fechada até o pescoço, onde surgia um elegante laço, um contraste com a mulher que, inicialmente, julgara preto clichê demais para o momento em que se encontrava Inevitavelmente, o processo todo a mudara e moldara.

Lentamente, fechou a porta atrás de si, refletindo que seu rosto maquiado e os cabelos milimetricamente penteados e presos em um coque baixo na nuca em nada o recordava a mulher que se desfizera em um orgasmo mais cedo, totalmente desnudada de qualquer máscara que irremediavelmente a colocava em pedestais inatingíveis. Escondendo um sorriso mínimo, no entanto, recordou a si mesmo que Granger, apesar de tudo, era orgulhosa o suficiente para que realmente não deixasse transparecer qualquer fraqueza ou sentimentalismos inadequados após friamente mandá-la embora daquele banheiro, horas mais cedo.

— Está confiante? – Aproximou-se guardando as mãos no bolso, de forma impessoal. Ela descruzou os braços, apoiando a mão na luxuosa mesa de madeira sob seu corpo.

— Nós temos uma testemunha-chave, não?

Ela deu de ombros, conformada com os rumos da audiência e suas decisões sobre. As feições femininas encontravam-se extremamente tranquilas. Diferentemente do que achou que aconteceria, não transparecia qualquer tipo de apreensão até aquele momento, mas pelo que conhecia de Hermione aquilo era somente um quadro melancolicamente pintado, a camada mais superficial. Todas as outras estavam firmemente escondidas sobre a fachada facilmente mentirosa que ela orquestrava. Afinal de contas, cada qual preocupava-se com seu papel no teatro.

— Sim, nós temos.

Granger respirou fundo e afastou-se, sentando-se a uma das poltronas. Draco não gostava da sensação de distanciamento que impusera a ambos quase que obrigatoriamente. Gostaria de questioná-la sem a impessoalidade que direcionava a um cliente comum, perguntar como ela estava realmente, como fora a visita aos pais, se ela se despedira. Supôs, contudo, que fosse tarde demais para isso, ainda que faltassem alguns minutos para o início da audiência e sequer deveria pensar em despedidas. Somente ponderar a respeito lhe trazia um gosto amargo à boca. Com sorte, a porta fora aberta novamente e por ela passou Blásio, avisando que poderiam ocupar seus lugares para esperar a chegada da Juíza Griswold.

O negro ainda lhe franziu o cenho pelo silêncio de Granger ao seguir para fora sem demora, mas Draco somente deu de ombros e fez o mesmo. Flashes eram disparados de todas as direções, o burburinho costumeiro ocupara o espaço assim que a mulher mostrara-se pela primeira vez – supôs que houvesse sido diretamente escoltada a sala adjacente, pois haviam sido avisados sobre a “passagem secreta” que evitava os contatos desnecessários com civis e jornalistas. Não houve tempo para que nenhum deles se sentasse após ocuparem seus devidos lugares, visto que o Meirinho pediu que todos se colocassem de pé e em silêncio para a entrada apressada da uniformizada Juíza Griswold, que carregava consigo uma pasta sobre os braços e respirou fundo antes de dar início aos procedimentos daquele dia.

— […] Agora, antes das alegações finais, iremos ouvir a última testemunha arrolada pela defesa da ré.

— Meritíssima, gostaríamos de impugnar a mencionada testemunha, visto o curto lastro de tempo que tivemos para nos preparar para inquiri-la. – Edgecombe levantou-se, no que Draco meramente revirou os olhos, preparando-se para rebatê-lo. – Trata-se, claramente, de uma jogada da outra parte a fim de obter uma vantagem indevida sobre o Ministério, que representa o povo.

— Bem, apesar do lastro de tempo curto, vocês tiveram um. – A juíza encarou o Promotor sobre os óculos. – Ao que me consta, segundo os documentos que tenho aqui, a Acusação foi avisada no prazo correto, por isso indefiro a impugnação e ordeno que a Sra. Molly Weasley seja encaminhada ao banco de testemunhas.

Draco levantou uma sobrancelha, percebendo que a senhora juíza encontrava-se especialmente enérgica e impaciente aquela tarde, levando-o a mentalmente anotar que deveria pisar cuidadosamente em seu território. Não era ingênuo, tratava-se de um aviso a ele também, afinal a mulher era uma das mais imparciais funcionárias que conhecia — ainda que sustentasse muito firmemente suas convicções, quaisquer que fossem elas. A matriarca da família Weasley adentrou o Tribunal sustentando ombros baixos, feições anormalmente graves com os lábios apertados em uma linha, e suas costumeiras roupas simples. Usava um vestido marrom, estampado por pequenas flores brancas, e botas da mesma cor.

Encontrava-se nervosa e claramente evitou olhar para o lugar onde sua própria família estava acomodada, o que o fez supor que o fato de a mulher estar ali, sob os olhares e notícias do mundo bruxo, não agrava a maioria deles, mas não se importava nem minimamente, desde que tudo saísse como o esperado. Levantou-se, pois a regra regia que aquele que intimou a testemunha a questionaria primeiro, e esperou que a mulher prestasse seu juramento pela verdade. Duvidava que alguém naquela sala, que conhecesse ainda que por alto o nome Weasley e sua história, pudesse acreditar que ela mentiria, ainda mais em se tratando do julgamento da mulher suspeita de matar seu próprio filho – tinha de reconhecer certa honra sobre a reputação da senhora.

Edgecombe o encarava como se quisesse feri-lo muito dolorosamente, embora não fosse um olhar que todos capturassem e, de qualquer forma, ninguém estava interessado no Promotor naquele instante – a presença da matriarca Weasley era muito mais apelativa do que até a própria Granger. Por isso, meramente revirou os olhos e lentamente colocou-se perante a senhora, muito próximo a bancada que os separava, pois não queria sequer levantar a voz. Precisava demonstrar respeito para que isso também chegasse aos jurados.

Notas finais
FINALMENTE! Cheguei com os capítulos finais de Neurótica! Sei que esperavam logo após eu ter respondido os comentários e essa era a intenção, mas... Contratempos, contratempos! Gente, tenho que dizer que estou MUITO feliz de terminar a história exatamente do jeito que tá acontecendo, sem pressa, cada coisa no seu tempo, com tudo que eu pensei saindo do jeito que pensei - ainda que muito MAIOR do que pensei! Sim, não era para ser um capítulo dividido em dois, mas foi necessário pelo maior conforto de vocês, pois tem muita gente que não gosta de ler capítulos grandes. Considero os meus grandes e um capítulo com o dobro de palavras do normal acho que não cairia bem. Ao capítulo! Eu concebi esse capítulo - vou me referir às duas partes como uma só - juntamente com os outros dois postados. Tinha em mente toda essa lista de coisas que devia acontecer e tudo ficou maior do que pensei inicialmente, talvez pelas minhas últimas influências - George RR Martin e Ken Follett. Não achei que deveria poupar palavras para as coisas saírem exatamente como queria. Então aqui temos uma primeira parte de agonias, acho que é a maneira certa de definir. Acho que faz parte do que Draco é nessa história e não seria Neurótica se não tivesse tanto conflito emocional, principalmente dele. O que nos leva a cena do banheiro. Cenas de banheiro são minhas favoritas - tanto essa quanto aquela da banheira. O que acharam? Draco foi bem canalha, não? Eu gosto desse tipo de cena, mas gosto ainda mais do contexto. E Hermione ali, digna toda de preto né meuzamores! Me digam o que acharam de todas essas questões, afinal tem até uma certa tia Andy que não poderia ficar de fora nesse momento. Conhece Draco ou não? A MEU ver faz mais sentido ela ter aparecido, em vez de Narcissa, pela ligação com Hermione, pela questão mal resolvida dele ter acusado ela, pela sensibilidade muito maternal. AMO escrevê-la! Temos até uma mudança de Locke hem!! Muito a acontecer ainda... Principalmente porque acabamos com quem todos esperavam chegando pra dizer umas coisas ;) Aguardo suas opiniões e vamos à próxima parte!! ♥