Neurótica
41 Capítulo 41
“- Você é a única pessoa que bate com a descrição da mulher misteriosa que visitou Weasley naquela tarde.”
...
Andrômeda ainda o encarou por um momento, parecendo atônita demais por seu questionamento, antes de lhe dar as costas em um suspiro indignado e retornar à sala. O silêncio que preencheu o cômodo foi esmagador até para ele, que outrora apreciava silêncios. Sempre fora do tipo mais reflexivo do que expressivo, guardava para si pensamentos e opiniões pessoais. O que as pessoas sabiam sobre Draco Malfoy era o que Draco Malfoy gostaria, calculadamente, que elas soubessem e nada além disso.
Porém, enquanto observava a curva leve que fazia a cintura fina de sua tia naquele longo vestido bordô, tão perturbadoramente parecido com aquele Helena McLearn que descrevera há semanas atrás, queria que o silêncio fosse rapidamente preenchido com respostas. Preferia que Andrômeda lhe contasse tudo e que fosse satisfatório, além de suspeitas, desesperadamente ansioso por sanar a dúvida que o assolava há tanto tempo e que protelara até aquele momento porque era o fim da linha. Para Hermione, irremediável e literalmente.
Tinha de reconhecer que fora longe demais em sua procrastinação. Não podia mais esperar que as respostas simplesmente viessem com o tempo e o processo, pois não havia mais tempo. Ele era bom em manipular os fatos no processo, mas não arriscar se se tratasse de sua própria tia. Ainda, não poderia continuar enganando-se em sua demora para questionar Andrômeda simplesmente devido ao parentesco ou por a pessoa mais próxima que tinha como família, se não contasse a própria mãe, porque a senhora não estava além de suspeitas. Ao menos, não para Draco.
A última Sra. Tonks era indiscutivelmente próxima de Granger, tanto que houvera um tempo que não entendia e indignava-se quanto a ligação que as unia. De outro lado, ela sempre demonstrara sua insatisfação em relação ao casamento de Hermione. A grandeza de Granger era demais para Weasley, afinal de contas. Até mesmo Teddy fora afetado pela decisiva opinião ao tentar ajudá-la a sair daquele relacionamento fracassado e infeliz. O desgosto de Andrômeda era bastante sabido.
— Você está me ofendendo. – A declaração não passava de um murmúrio. – Acha… Acha que tive qualquer coisa a ver com a morte de Ronald? Que eu seria capaz de… Matá-lo daquela forma?
Tudo que podia ver eram os longos e cacheados cabelos negros escorrendo por suas costas enquanto ela ofegava levemente. Draco levou as mãos ao rosto, quase arrependido sobre a posição em que se colocara. Levara em consideração que sua tia já não era mais tão jovem assim, que se dedicara a ele por tanto tempo, tratando-o como a coisa mais próxima de um filho que ela poderia ter depois de todo o trauma da Guerra e do antigo e mal cicatrizado afastamento de Narcissa. Porém, para chegar ali, forçara a si mesmo a lembrar-se exatamente isso: ela era irmã de Narcissa e Bellatrix. Além disso, não fosse a proximidade com Andrômeda, já teria colocado sua participação em voga porque conhecia o berço de onde vinha.
— Eu não sei. Por isso estou perguntando.
Sentia-se quase anestesiado por toda a situação. De um lado preocupava-se com o futuro de Granger e, sendo egoísta, com o seu próprio, mas considerava Andrômeda como uma das mulheres que melhor o entendia, desde seus princípios até as questões mais obscuras que o rodeavam. Confiara em Andrômeda quase cegamente desde que passaram a conviver como a família que eram, pois a tragédia a precedia, logo a mulher não seria capaz de criar uma. Contudo, estava naquele jogo há tempo suficiente para entender que as aparências eram mera atuação.
Andrômeda voltou-se a ele, chocada. Em seus olhos, tão escuros quanto fora os de Bellatrix um dia, não havia nada que lhe desse uma direção. Ela não chorava, não se desesperara e não se assustara com a acusação implícita, só estava… Indignada. E Draco a entendia, pois, no final das contas, como ele, tudo se resumiria ao que ela fora criada para ser. Não importava as escolhas que ela fizera durante a vida e, apesar do que seu nome queimado na árvore genealógica da família Black afirmava, ela sempre seria uma Black, uma Rosier, legítima.
— Eu… Só preciso que entenda minha posição, tia. – Ela levou as mãos ao vestido, secando qualquer vestígio de suor frio que as perseguia, provavelmente.
— E eu entendo, pois sei que se importa com ela. Além do que um dia já se importou com qualquer outra pessoa, além do que está se importando comigo no momento. – Respondeu bruscamente, encarando-o como se estivesse falando com um desconhecido, uma forma eficaz de se proteger de qualquer ataque que viesse dele. – Mas existe um limite, Draco, e você acabou de ultrapassá-lo.
Tinha consciência disso e foi nesse momento que achou ser a hora de ir embora. Era como estar frente a frente com seus pais nos tempos da Grande Guerra, ciente dos crimes que cometiam todos os dias, cúmplice do fato de que Voldemort havia tornado sua casa um Quartel General de Comensais da Morte. Definitivamente, sabia que seus laços sanguíneos sempre seriam sua ruína. Porém, ao pensar no que implicaria a prorrogação da dúvida, não apenas no julgamento de Granger, como também no que os unia, decidira firmar o pé no chão e os lábios em uma linha reta, como uma criança teimosa no aguardo de satisfações que não lhe cabiam.
— Onde você estava na tarde da morte de Weasley? – Repetiu a pergunta, lenta e quietamente, temeroso ao não ver manifestações da parte da mulher.
— Eu fiquei aqui, sozinha. Teddy havia saído, como bem sabe. – Ela definiu de uma vez por todas. – Não há ninguém para embasar o que eu digo, terá que confiar em minha palavra.
Realmente, não poderia fazer nada além disso, pois não havia maneira alguma de descobrir a identidade daquela que visitara Ronald Weasley naquela tarde. As lembranças e o testemunho de Helena McLearn não levaram os investigadores a lugar algum quanto a isso e ele não conhecia meios adequados e legais de fazê-lo, sem que Granger fosse prejudicada. Então, descruzara os braços e dera de ombros, não fazendo mais do que concordar com a palavra de Andrômeda, embora fosse o tipo que não confiava nem na própria sombra.
— Eu sinto muito por isso. – Ela negara, em um desdém conhecido e nada bem vindo, pois o nariz empinado e as feições retorcidas o lembravam a ele mesmo e como conseguia atingir as pessoas negativamente com aquilo.
— Não, não sente. Você está fazendo o que é certo e sabe disso. Por isso, não deve sentir muito. – Draco suspirou, já de saída, mas a voz dela o parou.– Acha que se eu tivesse matado Ronald não teria confessado assim que Teddy foi envolvido em toda aquela bagunça? Era o meu neto, sendo considerado suspeito de assassinato ou cúmplice de um. Eu jamais o deixaria naquela posição, se pudesse evitar. Além disso, se acha que sou capaz de tal coisa, me conhece menos que pensei.
Então, ela o deixou sozinho naquele silêncio desconfortável e esmagador que era a sala de estar, sendo quebrado pelo ruído duro dos sapatos contra o chão de madeira, distanciando-se dele pelo corredor de sua casa, mas não apenas literalmente. Andrômeda sempre o conhecera e soubera suas razões sobre cada ato confuso e questionável que cometera, mas dessa vez estava errada: ele realmente sentia muito. Apesar de pensar no bem estar de Granger e de ter uma justificativa para terem chegado àquele ponto, as coisas mudariam a partir dali e não para melhor.
Dessa forma, não lhe restou alternativa a não ser recolher-se às consequências de suas escolhas e seguir caminho em direção a saída, não sem antes passar pela cozinha e reparar naquela foto rotineira e nada nova pregada contra a geladeira com um ímã no formato de um bicho qualquer. Teddy, com seus cabelos esverdeados, tinha três ou quarto anos pelo que se recordava e brincava no tapete da sala, que a essa época encontrava-se completamente livre de qualquer empecilho que impedisse a passagem da criança, enquanto Draco o encarava e soltava um sorriso esporádico por alguma pérola infantil que ele soltara. Havia sido tirada por Andrômeda quando distraído e estivera ali por todos os anos subsequentes, mas nunca dera atenção especial ao fato de que Potter, sua esposa, Weasley e Granger encontravam-se ao fundo, íntimos e confabulantes como eram nos tempos da escola, com sorrisos amenos e os ombros livres das cargas de problemas que viriam futuramente.
Ninguém poderia prever toda a bagunça que os alcançaria anos depois. Lembrava-se perfeitamente daquele dia, tanto quanto do fato de que detestava sempre que era obrigado a estar em qualquer ambiente onde os quatro estivessem. Quando um ria, todos os outros o faziam; quando um estava com problemas, parecia contaminar todo o resto; sem contar que o irritava profundamente a forma como não precisavam trocar uma palavra para saber o que o outro pensava, bastava um olhar e, às vezes, somente um muxoxo.
Eles funcionavam como uma máquina bem oleada naquela época, ponderou interrompendo a breve parada e aparatando para o Beco Diagonal. Seguiu à imponência de seu escritório de cabeça erguida e sem sequer olhar para os lados enquanto ajeitava o paletó ao redor do corpo. Era assim que lidava com seus problemas: trabalho e opulência. Gostava de encher sua cabeça com os problemas dos outros, bloquear todo o emaranhado de pensamentos e arrependimentos que envolviam a si mesmo, enquanto aproveitava-se da magnificência excessiva que sempre lhe fora característica e esperada.
— Emily, não quero ser incomodado.
Avisou assim que adentrara a recepção, passando pela mesa da atenta secretária de vestes azuladas e interrompendo o que quer que a mesma estivesse conversando com uma distraída estagiária de cachos dourados e óculos grandes demais para o próprio rosto. Ainda sentira o olhar avaliador das duas mulheres praticamente queimando em sua nuca enquanto tentavam imaginar o que se passara com ele no intervalo entre o final daquele dia de audiência e sua chegada ali, no entanto simplesmente batera e trancara a porta magicamente a porta de madeira pesada e escura da própria sala, encaminhando à escrivaninha após desfazer-se de forma impaciente do agasalho e da gravata que o incomodava desde que saíra de Andrômeda, como uma mão invisível em torno de sua garganta.
Assim, sentou-se, apoiando o rosto contra as mãos e respirando fundo na tentativa de se acalmar. Por isso, minutos depois, ainda sentindo as mãos trêmulas, talvez de nervoso, talvez pela falta de comida, viu-se pegando um caderno de folhas amareladas, os óculos de leitura na primeira gaveta e uma das canetas negras e brilhantes com detalhes em ouro vermelho da coleção exposta sobre sua mesa, que ganhara de Andrômeda como presente de um Natal há muito passado. Ignorando esse detalhe, lentamente começou a esboçar seus pensamentos no papel, deixando a mente fluir em pensamentos unicamente jurídicos que envolviam Granger e toda a trajetória da mesma com o Ministério da Magia e o QG. Logo, sua mão rabiscava rapidamente, ciente de que ninguém além dele entenderia o que ainda não passava de um rascunho.
Eficaz e suficiente, nada além de trabalho passou por sua mente por um bom tempo. Ao cair da noite, encontrava-se rodeado de doutrinas de Direito Mágico e ideias e argumentos fervilhando desordenados, ainda inexplorados, mas seriamente considerados. Ninguém o importunara, o que era uma vitória, pois os problemas sempre chegavam para ele nos momentos mais inadequados possíveis. Esperava que, o que quer que houvesse acontecido, Zabine ou qualquer um com cérebro, tivesse resolvido. Assim, encaminhou-se até o elegante saguão e tudo que encontrou foi o local vazio e à meia luz. O Beco Diagonal à frente, pôde notar pelas portas e janelas envidraçadas, encontrava-se no mesmo estado, tão absorto em seu objetivo que sequer notara o tempo passando.
— Todos foram embora. – A voz entediada de Locke preencheu o ambiente e ele virou-se para vê-la fechar a porta de seu próprio cubículo, uma pasta de couro ajeitada ao redor dos ombros e três grossos livros nos braços. De semblante cansado, ela lembrava Hermione Granger quando jovem, sempre com a mochila abarrotada com mais exemplares do que poderia carregar e/ou ler em tempo hábil. – Eu estava estudando.
— Mandei uma carta ao Departamento de Execução das Leis em Magia, desistindo formalmente da ação de litigância de má-fé de Granger. – Ele meneou a cabeça. – O juiz Lancelyn ficou tão aliviado em supostamente conseguir tirar o Ministério da minha mira, que sequer analisou as justificativas.
— Porque vamos desistir? – Draco meneou a cabeça, seu instinto afrontoso completamente pronto para a próxima batalha.
— A questão é essa: nós não vamos.
— Lancelyn é um conservador de merda, defensor ferrenho do Ministério como uma instituição maior e acima das leis para manter a ordem. – Ela confirmou, tentando seguir sua linha de raciocínio. – Porém, os tempos são outros. É o momento certo para entrar com uma acusação como essa contra o Ministério. Temos provas suficientes para tirar uma admissão de culpa de má vontade, conseguir o emprego de Granger de volta, condenar a reputação do QG dos Aurores e angariar uma indenização muito satisfatória. Eu não serei nada complacente e não medirei esforços para conseguir tudo que pedir na nova ação.
— Temos uma nova ação? – Ela perguntou, provavelmente exausta e, por isso, confusa, no que ele sorriu ladino e abriu a porta de saída para a garota passar, ainda desconfiada e perdida.
Lancelyn caíra como um patinho ainda aprendendo a caminhar no mundo jurídico, tão empolgado estava em receber os louvores por ter adiado o confronto de Draco com o Ministério e consequentemente conservado a fama dos Aurores, algo de que eles precisavam de sobra naqueles tempos. Entretanto, o mesmo não notara que, ao aceitar a suposta desistência da ação inicialmente proposta, o Ministério não julgara a litigância de má-fé e, por isso, a questão poderia ser discutida novamente a qualquer tempo.
Assim, dessa vez, não precisando concentrar-se na distração que fora o aborto, que tanto afetara a ele e Granger durante o tempo em que a defendera vitoriosamente contra Brown, poderia despender atenção ao fato de que tinha o poder de mudar os rumos do julgamento pelo qual a mesma traumatizantemente passava. Lutaria, protelando ou acelerando o processo, para que o mesmo não fosse novamente ligado ao resultado da acusação de homicídio e o utilizaria como uma arma de grande calibre na imprensa, contra o próprio Ministério e seu oportunismo. Faria todo o rebuliço em torno de sua vida pessoal valer a pena com uma vitória memorável.
— Apenas vá para a casa descansar, suas olheiras estão me incomodando em um nível muito alarmante. — Locke deu de ombros e sairia sem discutir quando pareceu-se lembrar-se de algo.
— Eu vi que arrolou outra testemunha ao processo. – Confirmou, demonstrando em suas feições menos que nada. – Ela pode ser hostil.
— Não há nada com que se preocupar, eu cuidei de tudo.
— Mas precisamos de alguém que coopere de boa vontade com Granger, não há certeza alguma sobre esse depoimento em específico. – A garota teimou e quase pôde vê-la bater o pé. – É a última testemunha, precisa saber exatamente o que está vindo e se não for favorável…
— Locke, eu me empenhei pessoalmente nisso. – A cortou em definitivo, claramente a desagradando. – Agora, vá embora e esteja no Ministério o mais cedo que puder. Há grandes chances de ser a nossa última audiência e, se não estiver pronta para isso, não precisará voltar aqui novamente.
Ele não evitou a pequena ameaça gratuita e a estagiária não evitou a revirada de olhos antes de voltar-se a fria saída. A garota não deixava de ter razão, mas Draco Malfoy não era conhecido por caminhar pelos territórios mais seguros. Ele corria riscos e uma nova testemunha àquela altura do processo significava exatamente isso, principalmente ao relevar a alta possibilidade de uma hostilidade, não imprevista, mas certamente mau recebida, não apenas por ele, mas por todos os Jurados. Apostas não eram seu forte, mas dessa vez teria que contar com uma, além da dose de sorte.
Por isso, assim que terminou de organizar de juntar suas coisas, sem fazer questão de organizar a própria sala, aparatou exatamente no hall de entrada da Mansão Black. Não sabia o que esperar encontrar, chegar a casa após a entrada de Granger em sua vida, esta se tornara tão imprevisível quanto o clima de Londres. Estranhando, porém, o fato de as luzes denotarem movimento no andar térreo, desfez-se dos agasalhos, guardando-os no armário embutido logo ao lado da porta de entrada, e seguiu à espaçosa sala de estar.
Com os lustres todos os acesos, longe da escuridão que a tomava e que refletia os dias mais complicados da castanha, era possível perceber a imponência que exigira ser conservada. Analisar que aquela sala era o local por onde vários de seus ancestrais passara, o fizera desgostosamente recordar o ocorrido com Andrômeda, refletindo sobre o extremo que alcançara para tentar livrar a castanha de Azkaban. Não que fosse acusar a própria tia e fazer uma barganha com o Ministério em troca da liberdade de sua cliente, havia um limite que jamais ultrapassaria e sua tia não percebera. A influência familiar moldara sua personalidade e nunca deixaria de influenciá-lo. Ele lutava em nome dos seus, jamais poderia ir contra a própria família. Mas precisava saber onde estava pisando, pois toda a situação com Granger era um território desconhecido e inexplorado, e se a mulher desconhecida fosse Andrômeda ele poderia pisar com segurança, tanto em relação à sua tia quanto à castanha.
As notas soaram descompassadas e sem ritmo, notou ao recair o olhar sobre a mulher ao piano. Poderia ser uma canção que ela não conhecia ou simplesmente a falta de treino. Mas, a julgar pela impaciência das mãos, os dedos finos sempre inquietos penando para alcançar as teclas de forma satisfatória, diria que Granger não andara praticando nos últimos tempos. Realmente, não a vira próxima do instrumento desde que o julgamento começara, talvez perturbada demais para se concentrar em algo que não fosse o próprio futuro. Sua dificuldade era a prova disso. Além disso, não era onde esperava encontrá-la após sua anterior saída tempestuosa do Ministério. Varinha em mãos, face determinada e definitivamente nada amigável.
A mulher que via em sua sala de estar não estava muito diferente, se continuasse a analisá-la. Seus cachos estavam presos em um coque alto e, surpreendentemente, ordenado, deixando o rosto livre de qualquer empecilho que pudesse afastar a imagem dos lábios em uma linha apertada de concentração e o vinco esporádico que surgia em sua testa sempre que errava uma nota, bem como o torcer da boca cavando uma cova quase imperceptível na bochecha esquerda. Hermione Granger era bastante expressiva quando distraída e/ou focada em um objetivo específico, gostava de observá-la.
— O terapeuta aconselhou encontrar uma atividade que exija concentração. – Ela falou, surpreendendo-o, pois não percebera que notara sua presença. – Não está sendo um bom exercício.
— Talvez precise encontrar outra atividade. – Aproximou-se lentamente da castanha, que não se virara para encará-lo, embora houvesse juntado às mãos sobre o colo em um suspiro desapontado. – Você já havia voltado às boas com o piano, não?
— Tocar qualquer tipo de instrumento exige uma disciplina que eu não tive nos últimos tempos. Quero minha vida de volta, Draco. – Enfim, encostou-se ao piano e ela voltou à ele os olhos mais fatigados que já vira em sua face até então. Seu rosto parecia mais cansado do que o normal, bem como a postura e o ânimo. – Quero trabalhar em casos que não sejam o meu, usar meu conhecimento para ajudar outras pessoas, não ser julgada a cada passo que dou, por terceiros e por pessoas próximas, que deveriam confiar em mim, pois conhecem minha índole. É tão difícil não ser a Hermione Granger que todos idolatram.
Ele soltou um sorriso desgostoso enquanto tudo que ela podia fazer era indignar-se em uma solidão constante. Para Hermione, o problema sempre fora os outros. Ser o centro das atenções era o que a agradava, porém não de uma maneira que não pudesse controlar cada coisa que expunha. No ponto em que se encontravam, no entanto, não sabia se teria algo a ver com sua sempre boa intenção de influenciar as pessoas do jeito certo, ajudá-las, como lhe dizia, ou se simplesmente tratava-se do desejo de alguém que, por ser mulher, de sobrenome anteriormente desconhecido e de origem trouxa, tivera de lutar para ganhar essa atenção e gostaria de mantê-la.
— Nada voltará a ser como antes. – Ouviu o ofego leve ao vê-la se levantar e encaminhar-se à janela. – Ainda que tenha sua vida de volta, o normal… Será diferente.
Ela cruzou os braços, mas não demorou a concordar de forma resignada. Granger já não usava a roupa social que trajara no julgamento, mas um vestido acinzentado de um tecido leve que chegava aos pés e moldava todo seu corpo de forma bonita. Do lado de fora, o vento frio zumbia pelas janelas enquanto o céu nublado e livre de sol anunciava uma tempestade chegando, os resquícios de neve em suas calçadas denunciando a estação de tons monocromáticos. Porém, os braços desnudos de Granger não davam pista de que ainda enfrentavam o inverno, embora tivesse presenciado com prazer os pelos se eriçando ao se encontrar perto o suficiente para que sua respiração atingisse o pescoço sabidamente sensível.
— Harry e eu… Acabamos. – Draco hesitou, prestes a rodeá-la e encaixar-se ao seu redor, como era de seu costume. Então, recolheu as mãos seguramente dentro de seus bolsos e esperou. – Eu fui vê-lo. Minha intenção era que ele encontrasse uma forma de conter o furacão Ginny Weasley ou responsabilizá-lo por toda a merda que tem sido ter de responder essas acusações da parte dela, fazê-lo se esforçar para estar do meu lado e não simplesmente usar seu bom nome para que dizer que sou boa. É… fácil demais, injusto demais que para ele seja apenas isso. Mas… Parece ter sido um erro.
— Potter está… Irredutível quanto a conversar com Weasley? – Tentou chegar à linha de raciocínio dela.
— Oh não, eles estão conversando, reconsiderando uma reconciliação. Talvez até fazer terapia de casal para superar o trauma. Você sabe, pela família e por tudo que construíram juntos. – O tom baixo e falsamente entediado não escondeu a ironia. – A questão é: nós dois. Eu não sei o que nos destruiu, se a distância ou a falta dela antes de tudo. Mas sei que estamos destruídos. Não somos mais os amigos inseparáveis, não confiamos plenamente um no outro, não esperamos nada um do outro e… É tudo recíproco. Depois de gritar e espernear e desabafar, eu saí de lá apenas conformada. – Ela deu de ombros, encolhendo-se contra si mesma. – Quando eu me tornei mediocremente conformada, Malfoy?
Ela falava com desprezo sobre sua nova posição, uma opinião bastante cruel sobre e para si mesma. Afinal, Granger jamais deixaria de cobrar-se e exigir de si mesma. A tratativa com Potter não parecia nada além de uma tentativa de sair da inércia em que se colocara e fora colocada pelo julgamento, a conformidade compulsória sobre a qual nada podia fazer. Ela não era uma expert sobre si mesma, suas limitações, seus excessos, suas vontades, mas estava começando a notar as coisas para as quais antes fechava os olhos. E isso não era ruim.
Bem como, começava a enfrentar seus problemas, resoluta, e não tentar mascara-los. Ele não fizera mais do que a obrigação, defendendo-a perante o tribunal e o público, algo que a devia após anos de companheirismo gratuito. Mas eles não eram mais os mesmos após tantas feridas abertas, saradas e reabertas novamente. Uma bagagem pesada se formara enquanto eles notavam que não eram mais os mesmos. Do contrário, não teriam transado e posteriormente se distanciado com todos os problemas que se seguiram.
— Em algum momento parou pra pensar sobre como tudo havia mudado? Nós crescemos, Granger. E não repentinamente. Muita coisa aconteceu nos últimos meses, sim, mas a mudança não é de agora. – Ele revirou os olhos para a própria reflexão quase melancólica. – A mudança assusta e o trauma quebra. Você e Potter estão assustados e quebrados demais para consertar um ao outro, no momento.
— Acha que a conformidade tem uma face boa? – Ela murmurou, parecendo tão em dúvida quanto a criança cheia de perguntas que fora em sala de aula, então rendeu-se ao rodear a cintura delgada em um suspiro e apoiá-la contra o próprio corpo, inspirando automaticamente o aroma de seus cabelos, forçando-se a pensar sobre Granger, Potter e toda a equação confusa que os envolvia.
— Não boa, a conformidade nunca será boa, apenas… Aceitável, às vezes.
Pois eles se consertariam. Um dia, quando menos esperassem e percebessem estar com seus pedaços nos lugares certos. Draco nunca fora a pessoa mais otimista da sala, mas disso tinha certeza. A ligação que unia aquelas duas criaturas era muito maior do que poderia entender, o que o incomodava ao extremo, mas não a ponto de ser cego a respeito do quanto o estado daquela relação afetava Granger. Além disso, tanto quanto ele, ela também tinha consciência de que a questão sobre os dois estava inacabada.
Assim, tentando ignorar o peso que o conhecimento dessa instabilidade em sua vida milimetricamente pensada implicava, seus dedos se entrelaçaram mais do que facilmente aos dela enquanto o silêncio reinava. Dessa vez, não era esmagador, mas íntimo, conhecedor. Sabia que Granger ainda estava pensando sobre Potter, enquanto por sua mente todos os aspectos jurídicos de seu processo encontravam-se fervilhando. Era um costume do qual não se livrava, simplesmente não conseguia desligar a mente do raciocínio no qual estivera tão empenhado. Sempre voltava ao ponto que parara, lembrando-se das ideias e pensamentos soltos que poderiam ajudá-lo.
Ainda, o depoimento de Granger seria no dia seguinte e ainda não haviam realmente sentado para conversar sobre as possibilidades de perguntas hostis que poderiam esperar de Edgecombe. Ele tentaria desmoralizá-la de qualquer maneira perante o júri, tanto quanto tentara conduzir o depoimento de Weasley nessa direção, e não sabia até que ponto a castanha estava preparada para a pior ofensiva pública com a qual lidaria desde o início de todo aquele redemoinho de acontecimentos.
— Draco. – Murmurou indicando que a ouvia, embora não prestasse realmente atenção até ela perguntar-lhe. – Você estará comigo na minha nova normalidade?
Ele desejava tanto que sim, embora sua mente considerasse todos os pontos negativos que poderiam advir daquele julgamento. Azkaban era uma possibilidade real e, apesar disso, Granger ansiava por sua vida de volta, talvez em uma tentativa de fingir que isso não poderia acontecer ou confiante demais de que algo do tipo jamais aconteceria com ela, afinal estava acostumada a ser idolatrada, como a própria afirmara. A conformidade não se aplicava à mulher nesse caso, Granger jamais se conformaria com algo diferente disso. Assim, optou pela resposta que melhor mascararia aquela dúvida que sempre teria a respeito de Azkaban, tanto quanto a que mais a agradaria.
— Não, a normalidade nunca a favoreceu. – Não deixava de ser verdade, considerou quando seus lábios encontraram o ouvido feminino em um murmúrio. – Você sempre foi extraordinária.
Ela voltou-se à ele, imediatamente, as mãos subindo por seu peito, sobre a camisa de tom azul escuro e fosco, até acomodarem-se em sua nuca. Não sorria, percebeu, mas sabia que não era algo que fazia com frequência naquelas semanas. Tinha de estar muito empolgada ou pegá-la desprevenida com uma piadinha medíocre qualquer para que a vise sorrindo. Contudo, os olhos amendoados brilhavam, séria e constantemente, da forma pacífica e esperada que já conhecia, assim como exibia as bochechas levemente coradas, o que definitivamente não lhe era característico.
Ela vinha aperfeiçoando a arte de interpretá-lo e desvendá-lo, talvez até melhor do que o contrário, nos últimos tempos e, considerando-se satisfeita com o que entendera, seus lábios encaixaram-se calma e firmemente, conhecedores, exploradores tanto quanto os dedos frios que escorriam de sua nuca, lentamente pelo pescoço, até descansarem em sua mandíbula. A língua ávida enroscou-se à sua, tão excruciantemente gostosa, que seu corpo reagiu de forma instantânea ao apertá-la junto de si, consciente da cintura fina, assim como a coluna delineada que acabava na curva bonita de sua bunda e quadris.
— Seu beijo está diferente. – Ela constatou quando afastou-se minimamente para encará-lo, lábios vermelhos, expressão pensativa, as mãos ao redor de seu rosto.
— Eu beijo exatamente igual a ontem e anteontem, Granger.
— Não. – Foi obrigado a semicerrar os olhos para a mulher, pois não via um ponto ali, embora a castanha parecesse bastante interessada em encontrar um. – Deixe-me ver.
Ainda houve tempo de soltar um riso baixo pelo tom e o interesse quase didático com que ela parecia encarar a questão, mas logo seus lábios encontraram-se novamente, seu sorriso lenta e satisfatoriamente cortado pela forma como os dentes dela arranharam cuidadosa e calculadamente seu lábio inferior enviando uma onda de arrepio à sua coluna, de ponta a ponta. Ela descansara seu corpo completamente contra o dele, confortável a ponto de a única coisa a mantê-la em pé fossem seus braços em torno do corpo menor e delgado.
Não estava se esfregando contra ele, não era uma preliminar para sexo, já a conhecia o suficiente para ler os sinais que seu corpo emanava quando isso era o que ela queria. Seus lábios entrelaçavam-se fortemente, mas a língua que massageava a sua não continha a avidez que ele sabia vir com a castanha quando o assunto era sexo. Tratava-se de tranquilidade e confiança, os músculos dela completamente relaxados contra ele. Beijar Granger era uma experiência e, definitivamente, tinha razão: havia algo diferente.
— Acho… — Ele foi brevemente interrompido por ela novamente, mas forçou-se a afastar suas bocas, apesar da falta de vontade, forçando-se a focar em seus olhos âmbares sobre a iluminação da sala. – Devíamos parar de falar sobre como nossos beijos estão diferentes e começar a discutir o dia de amanhã.
Então, a tensão voltou em um suspiro fatigado, embora continuassem exatamente na posição em que estavam. A testa dela encontrou a curva do seu pescoço e Granger acomodou-se ali por um bom tempo antes de manifestar-se. Soara-lhe como um tabu quebrado interromper aquele momento de paz, mas era preciso. Não havia como fingir que nada estava acontecendo, que aquela ameaça não pairava sobre suas cabeças – sim, ambos, a todo instante sendo lembrados que deveriam estar sempre atentos à tudo e todos – ou as portas de Azkaban enterrariam um passado e uma carreira de glórias e louvores. Ainda era um pouco egoísta, no fim das contas, ponderou aliviado.
— Eu sei o que está por vir. – Murmurou contra ele. – Já estive do outro lado. Já fui Edgecombe mais vezes do que posso me lembrar. Malfoy, não há nada que possa fazer pra mudar o fato de que ele irá tentar pegar em cada pergunta ambígua que fizer, cada induzimento, cada palavra que eu disser no lugar errado.
— Granger. – Ele tentou fazer com que ela lhe encarasse, pois jamais concordaria em pular uma das partes mais importantes de seu trabalho, aquela que praticamente determinaria sozinha o resultado, aquela em que teria de sentar e conversar com seu cliente sobre tudo de bom e ruim que já fizera. As cartas todas na mesa, as máscaras no chão, as mentiras e o temor de lado, pois ele não era o juiz ali, muito menos o carrasco à espera da execução. Entretanto, tudo que a castanha fez foi agarrar-se ainda mais a ele, as mãos trêmulas apertando sua camisa na altura da gola, a cabeça contra seu peito e uma respiração desenfreada que nada tinha a ver com a proximidade de ambos. A ansiedade sempre fora uma consequência cara demais para a mulher. Por isso, de forma resignada, meramente a apoiou e a manteve ali, sua mente trabalhando no que quer pudesse fazê-la mudar de ideia. – Você tem que me deixar trabalhar, ajudá-la, Hermione…
— Draco. – Ela sentenciou. – O que mais tem feito nos últimos meses é me ajudar. Nem eu e nem ninguém jamais dirá o contrário disso, não importa o resultado.
Se algum dia precisasse descrever aquele dia para alguém, faria questão de frisar os silêncios esmagadores que fizeram parte dele. Sentiu-se congelando em seu posto, a mente girando na aparente conformidade de Granger em relação à sua própria liberdade, ou a falta dela, quase incapaz de pensar qualquer coisa que fosse o oposto disso. Sempre trabalhava pensando no que tinha em mãos para minar as estatísticas que diziam que seus clientes seriam presos, não como se a pessoa já estivesse condenada desde o início. Porém, quando se tratava dela soava várias vezes pior e esse era o real tabu. Eles não falavam da grande possibilidade de Granger ser condenada, pois provavelmente perturbaria a ambos além da conta. Exatamente como a castanha acabara de lembrar a ele, logo às vésperas do próprio depoimento e possivelmente última audiência antes do ponto final.
— Tenho a consciência limpa a respeito da minha conduta no seu caso, essa não é minha preocupação. Não há nada que eu tenha deixado de fazer para ajudá-la. – Divagou, recordando-se de sua própria decisão de mais cedo, do ataque à própria família, somente para ajudá-la e, talvez, pela primeira vez em muito tempo, jogar com a verdade. – Eu a mantive sóbria, estamos tratando a depressão, a ansiedade e ultrapassamos qualquer outro problema que surgiu no meio caminho. Eu tentei evitar o processo, o desgaste e tudo que pudesse atingi-la de forma negativa até realmente começar a defendê-la. Nós chegamos até aqui, calejados, mas inteiros… Por isso, o resultado importa. E sempre importará.
Pois ele sempre gostara de vencer, a sensação da adrenalina, consciente de que seu esforço fora recompensado era indescritível, embora esse não fosse o caso. Aqui, ele precisava. Se não ganhasse, o fracasso recairia sobre ele como um manto negro e pesado, inconveniente e nada bem vindo. O fundo do poço era sufocante demais para que o alcançasse mais de uma vez num intervalo de tempo tão pequeno, visto que não conseguiria lidar com a culpa de ter perdido o caso de sua vida, aquele pelo qual se preparara durante tanto tempo, o mais importante, pois a pessoa que corria riscos ali não era uma qualquer, era Hermione Granger.
— Eu sei, eu sei, me desculpe. – Ela sussurrou, contrafeita pelas palavras dele, impaciente por não conseguir chegar onde queria. Assim, finalmente levantou o rosto para encará-lo, firme, mas quase suplicante. – Desde que escolhemos seguir por esse caminho, temos sido profissionais. Nossas carreiras foram meteóricas. Fomos elogiados, bajulados, invejados… Tudo ao mesmo tempo enquanto queríamos ser apenas competentes. E nós fomos. Por isso, sabemos tudo que pode dar errado e tudo que pode dar certo amanhã.
— Não. Não é assim, você sabe, e está sendo negligente. Para cada caso existe uma…
— Pare de ser profissional. – Ela o cortou, agora pacientemente, as mãos rodeando seus ombros. – Só por um instante, olhe onde estamos. Hoje, eu não preciso do advogado. Eu preciso de você, Draco, apenas você.
Não foi possível deixar de considerar todos os prós e contras, era simplesmente forte demais para sua personalidade metódica deixar passar. Por um lado, Granger lhe parecia bastante certa do pedido que fazia. Porém, de outra mão, a falta de certeza sobre o que se passava na mente dela lhe era muito semelhante a um abismo de torturas. Ela estava conformada com um possível destino condenado? Confiante sobre um resultado positivo? Por que era inocente ou porque sabia mentir? Por que não havia respostas erradas a dar ou porque conhecia o território que estava pisando? A faca de dois gumes o cortava sem piedade naquele momento, tão afiada e certeira quanto os olhos dela cravados sobre ele, sóbrios e brilhantes em âmbar claro.
Não estava acostumado a ceder ou a deixar de ser Draco Malfoy. Sempre gostara da soberba que o nome carregava, um gatilho para olhares atravessados, admirados, respeitosos, temidos. Ele não era apenas Draco e não colocava o advogado de lado, não deixava de observá-la, analisava-a o tempo todo sempre procurando em Granger a mulher que um dia fora, ao mesmo tempo em que ela tentava, com muita dificuldade, reencontrar a si mesma. Era nessas entrelinhas que Draco Malfoy a lia, a desconfiava, mas também onde a amava. Porque às vezes encontrava essa mulher e era, sem dúvidas, fascinado por ela.
Por isso, viu-se rearranjando alguns cachos que escapavam ao coque, um suspiro resignado o seguindo pela consciência de ser incapaz de lutar contra a impotência que o envolvia quando se tratava dela. Assim, concordou com um meneio silencioso, observando como o olhar dela encontrou a gratitude pelo complicado gesto que era Draco ser apenas Draco justamente naquela noite. Exceto que esse pensamento não durou muito, pois logo sentiu os lábios dela fundirem-se aos seus, como o golpe de misericórdia necessário após o que, perturbadoramente, lhe parecera a venda da própria alma.
Observando cada movimento / Em meu jogo tolo de amantes / Neste oceano sem fim / Onde finalmente os amantes não sabem o que é culpa / Virando-se e voltando / Para dentro de algum lugar secreto / Observando em câmera lenta / Enquanto você se vira e diz / Tire o meu fôlego
Berlin – Take My Breath Away
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