Neurótica
42 Capítulo 42
O dia amanheceu mais lentamente do que gostaria. Acordado há muitos minutos, observava monotonamente o modo como a luz do dia tentava ultrapassar sem muito sucesso a pesada cortina do quarto. Em sua mente, todas as possibilidades do que aquela manhã poderia lhes trazer. Apesar da noite ter sido longa e de ainda poder sentir o corpo quente de Granger quase colado ao seu, não conseguira pregar os olhos por mais do que algumas horas.
Sentia a ansiedade espreitá-lo às escuras, como um fantasma que fica no canto da sala, silencioso e ingrato, sempre emanando energias negativas ao local. Porém, era como se esse fantasma estivesse bem atrás de si, e às vezes o imaginava na forma do olhar julgador de Hermione, aquele que detestava, mas que sempre fora dirigido à ele em algum momento de sua vida, fosse quando criança e eram somente inimigos declarados, fosse quando adultos e rivais no Tribunais dos Ministérios, ou quando discordava de alguma atitude tomada em relação aos próprios processos dela.
Queria que tudo aquilo acabasse rapidamente, sem muitos percalços, mas não devia contar com a sorte daquela forma. Sabia que Edgecombe, apesar de não fazer parte da área, encarava o caso como um dos mais importantes de sua carreira, tanto quanto promissor. Quem quer que o ganhasse faria história e todos sabiam disso. Daí, a necessidade que fosse até as últimas consequências, ainda que estas resultassem em uma Hermione Granger abalada e ferida em tribunal.
Enquanto ela dormia, sentia a respiração rítmica ao seu lado, tranquila como se não houvesse nada para acontecer somente dali a algumas horas, em um gritante contraste contra o turbilhão de emoções que o percorriam naquele momento. Precisava humanizá-la perante o tribunal, demonstrar ao Júri que ela não tinha nenhum motivo para matar o próprio marido, demonstrar que aquela ainda era a Hermione Granger em que todos confiavam, apesar das cicatrizes, dos pés calejados por uma vida orquestrada por um público que exigia aquilo dela. Quanto mais sensibilizados os Jurados estivessem, melhor seria.
Além disso, essencialmente, era exatamente essa a questão. Granger era a mesma, talvez menos podada pelas expectativas dos outros, talvez mais livre para dedicar-se às próprias escolhas, talvez menos autoconfiante. Porém, ela era aquela garota estudiosa, com a cabeça cheia de planos e olhos julgadores devido a personalidade extremamente mandona. Ela ainda era Hermione Granger, mesmo que transasse com Draco Malfoy, dormissem na mesma cama, e que tivesse sofrido um aborto espontâneo de uma criança só deles. Ela ainda era aquela menina de cachos castanhos, embora sem os dentes grandes que deformavam o rosto; de olhos cor de avelã, que demonstravam um tom amarelado quando a luz do sol os encontrava, mas que tinham seu melhor momento quando estavam escuros pelo prazer, enquanto o encarava.
Era a mesma garota. E agora que a tinha, e podia desfrutar de todas essas constatações, não aceitaria perdê-la, ver isso que construíam aos poucos, esforçando-se para galgar tantas barreiras – algumas de forma compulsória, outras tão sutilmente quanto o sol em um domingo nevado – desfazer-se como pó entre os dedos, concluiu em seu óbvio e esperado egoísmo. Felizmente, era egoísta o suficiente para chegar a tal conclusão antes que as coisas estivessem perdidas. Para ela, para ele, para eles. Sentiu-a mover lentamente, como uma gata espreguiçando-se e esparramando-se na cama até encontrá-lo, invadindo seu espaço e rodeando-o com os braços, enquanto aspirava o cheiro de nuca, arrepiando-o.
— Estou sentindo-o orquestrar tudo em sua mente, como um maestro. – Sussurrou levemente, a respiração contra suas costas eriçando seus pelos. – Cada passo, cada palavra, cada ato.
— Gosto de considerar todas as hipóteses, é o que me deixa confortável na Corte. – Deu de ombros, sentindo as pernas femininas agarrando-se às suas em seu conforto. – É assim que eu ganho.
— Apenas confie em mim. – Seus dedos encontraram os dela, ouvindo e sentindo o suspiro frustrado por não poderem estar em uma situação completamente diferente, onde o que os esperava da porta para fora não era um Tribunal pronto e em expectativa para mandá-la a Azkaban. Além disso, a eterna dúvida sobre confiar nela ainda perdurava. – Já precisamos levantar?
Riu do muxuxo mal humorado e, finalmente, voltou-se à mulher na meia escuridão do quarto. Seus lábios se encontraram assim que estiveram próximos o suficiente sem precisarem sair de suas posições confortáveis, enroscados um ao outro, as mãos subindo pelas pernas macias até a cintura fina, por baixo de uma de suas camisetas, que ela se apossara na última noite, deixando-o sem. Ainda sentia o aroma do sabonete usado no banho no último banho na madrugada, inebriante como sempre, quase o suficiente para que se esquecesse que realmente precisavam se colocar de pé.
— Será bom chegarmos cedo, ao menos uma vez. – Uma das pernas dela estava aconchegada sobre ele, bem como quase todo o peso do corpo feminino, enquanto a mulher ainda insistia em beijá-lo. – Sem imprensa, sem perguntas.
— Sim, está na hora.
Ela concluiu sem vontade, beijando-o mais uma vez antes de jogar os cobertores para o lado e levantar-se sem pressa, caminhando em direção ao banheiro. Era a primeira vez que não se apressavam. Granger demorou algum tempo, ocupada na maquiagem leve, mas suficiente para esconder as olheiras da noite anterior, bem como dar alguma vida à seu rosto. Ela deixou os cabelos soltos, vistos que já estavam menos indomáveis do que normalmente – e talvez porque não quisesse ter trabalho com isso.
De onde estava, ainda deitado de bruços na cama, era possível vê-la desempenhar o pequeno ritual que, provavelmente, seguia todos os dias antes do trabalho. Usando sua camiseta e somente uma calcinha da mesma cor, ela estava linda. Absolutamente, não conseguia associar a imagem dessa mulher, à vontade e informal em seus pés descalços, àquela altiva e superior com seus saltos enormes e roupas caras, que ela não demoraria a colocar. Por isso, quando a castanha começara a escolher o vestido que usaria, trancou-se no banheiro por alguns minutos, somente concentrando-se no silêncio e na água escorrendo por seu corpo, bem como o vapor ao seu redor.
Seus pensamentos estavam uma confusão, mas o silêncio era o fio condutor da ordem. Sempre fora. Distraía-se em seu silêncio, fluía e navegava em ideias e argumentos mais organizados sobre aquele dia. Tanto que, no conforto de sua própria consciência sistemática, só foi despertar quando Granger bateu à porta levemente, perguntando se estava bem. Por isso, ocupou-se em secar-se e escolher um conjunto de terno cinza, neutro, amigável. Diferente dos anteriores, onde tentava intimidar o público a pensar da maneira que queria, dessa vez queria ganhá-los de forma democrática.
Assim, não demorou a que estivesse ajeitando a gravata perante o espelho de seu antigo quarto na Mansão Black, onde ficavam as roupas que transferira para a casa nas últimas semanas. Era um contraste interessante com a camisa negra e sua pele extremamente branca, mas estava do modo adequado para que alcançasse o ponto de interesse e empatia necessários da parte de Júri. Por ele, por Granger. Ela não demorou a aparecer, já completamente pronta em um vestido verde esmeralda, com decote quadrado e comportado que destacava uma corrente dourada com pingente em formato de gota e marcava sua cintura de forma graciosa, caindo solto até abaixo dos joelhos em um tecido grosso. Ela parecia respeitável e confiável, exatamente como deveria, pois sabia como as coisas funcionavam.
— Está pronta?
A tentativa de sorriso não foi muito acertada, por isso simplesmente fechou a porta atrás de si após enroscar a pasta executiva ao redor dos ombros para que ambos descessem a escada em silêncio. Quando chegaram ao Ministério, a castanha já se encontrava enroscada em um sobretudo negro e pesado, que lhe marcava a cintura, e com grandes golas circulando seu pescoço e caindo pelo peito. Pela primeira vez, no entanto, o tumulto habitual não fazia parte da equação. Estava cedo demais para a imprensa, para seus assistentes e até mesmo para os funcionários do Ministério, que ainda demorariam mais de uma hora para chegar.
Quando chegaram ao Décimo Tribunal, Draco parecia sentir o peso daquelas paredes intimidadoras sobre si, bem como os próprios passos cada vez mais pesados, embora se recusasse a ceder à tal pressão. Já havia passado por esse tipo de situação, sentido esse tipo de sentimento esmagador que parece ter o poder de anular suas convicções mais maciças. Entretanto, a autoconfiança sempre fora seu pilar mais sagrado. Por isso, fazia questão de insistir e relembrar a si mesmo ao passo que os deixavam metros à menos do que poderia definir o futuro de Granger.
Talvez, se tivessem se sentado na noite anterior para preparar aquele depoimento, como era de seu costume, estivesse mais confortável. Porém, agora era tarde demais e devia trabalhar com o que tinha em mãos, o que era manipulável, fácil ou não. Por isso, viu-se ajeitando suas coisas pela bancada da defesa enquanto repassava em sua mente todas as probabilidades que envolvia aquele dia, pesando em uma balança não muito neutra suas próximas ações, chegando à conclusões de que não gostaria. Essa era a forma que sabia que deveria jogar todas as cartas na mesa. Boas ou não, eram cartas. Jogáveis? Talvez não, mas ele poderia fazer com que se tornassem, pois a confiança o presumia. Era Draco Malfoy, fora contratado para jogar sem regras.
O Tribunal estaria completamente vazio, não fosse o faxineiro que encerava o chão tediosamente quando chegaram e que não pareceu muito abalado pela presença deles. Pelo contrário, até moveu com a cabeça em cumprimento à “Srta. Granger”, que lhe sorriu em agradecimento, agora verdadeiramente. Ela encarou o banco dos réus ao seu lado, pensando se já deveria se sentar e encerrar o papel que lhe cabia, mas voltou a andar pelo Tribunal, os saltos em eco, olhando tudo com extremo cuidado, como se seus dedos pudessem decorar a textura da madeira que dava forma às arquibancadas da galeria ou a cerca que os separava das cadeiras da platéia.
Hermione Granger sempre caminhou por aqueles pisos com autoridade e respeito, como quem era dona do local e das verdades que diria. Agora, sabia exatamente o que se passava pela mente da mesma. A cada dia em que eles se sentavam ali e discutiam provas e fatos e ouviam testemunhas… Ela via como uma despedida. Porque sabia ler os Jurados tanto quanto Draco e eles estavam divididos. E o futuro se tornava cada vez mais nebuloso, bem como voltar àquelas salas com alguma dignidade. A castanha estacou perante o púlpito onde ficava os juízes e Draco simplesmente abaixou os olhos às suas coisas. Era, simplesmente, decadente demais.
— Mais da metade da minha vida. – Ela começou em tom baixo, no que voltou a encará-la, embora a própria mulher olhasse ao redor, além do que a pompa daquele Tribunal dizia. – Eu passei mais da metade da minha vida lutando para que esse lugar significasse justiça de verdade. Para que o nome Ministério não fosse uma premissa para “corrupção sistemática”, como era antes, como sempre ouvimos. Essencialmente, Malfoy, apesar de todos os meus defeitos, eu fiz a minha parte. Eu sei que fiz. Acho que é o que torna tudo mais irônico, não é?
— Pessoas como você precisam existir para que o sistema perdure. – Ela concordou, sorrindo ironicamente para tudo ao seu redor e voltando até onde ele estava, de forma decidida. O semblante arrasado já não habitava seu rosto, tirando o casaco e sentando-se de frente para onde a juiza Griswold ficaria. – Você fez o que era certo.
— Eu vou mudar o sistema, Malfoy.
Draco apenas examinou o brilho audacioso que se instalara em seus olhos, mas não demorou muito a que estivessem somente sentados lado a lado, cada um com seu respectivo livro e óculos de leitura. Em silêncio, aguardando. Não demorou, dessa forma, a que os funcionários chegassem, bem como a platéia que começava a encher as arquibancadas, que, como de costume, acomodava os ávidos repórteres na primeira fileira. A quase monotonia da paz forjada, no entanto, foi quebrada quando Locke e Zabine quebraram a barreira de pesoas que se instalavam muito próximas a cerca e adentraram a arena, encaminhando-se muito rapidamente à eles e quase jogando suas coisas sobre a bancada.
— Viu que Edgecombe arrolou mais uma testemunha? – Comentou o homem, de forma embargada, provavelmente haviam suposto que estavam atrasados.
— Certamente ele se ofendeu com nossa própria testemunha intempestiva. – Comentou Granger casualmente, guardando o livro e olhando ao redor sem medo. – Ele quer dar peso à defesa.
— É a sua secretária. – Algumas cabeças da plateia voltaram-se à Locke, a qual, ao menos, teve a decência de parecer um pouco culpada por seu afobamento. – Sinto muito.
— Há algo que ela possa dizer que vá prejudicá-la? – Perguntou, as quatro cabeças juntas e sussurrantes. Granger pensou por um momento, os lábios em uma fina linha devido ao novo e inesperado ataque. Por fim, balançou a cabeça em negativo.
— Tínhamos uma boa relação. – Ela explicou-se. – Edgecombe deve estar querendo estabelecer uma linha do tempo, verificar os meus hábitos. Mas... Kate não sabe de nada e não teria motivos para me ver presa.
— Você tem certeza?
Zabine insistiu de forma incisiva, provavelmente percebendo o olhar de Draco sobre ela, analisando-a, buscando uma brecha em suas palavras, pois nunca sabia ao certo o que era verdade, o que era mentira. Tinha consciência de que, nesses tempos, escolhia acreditar nisso ou naquilo, no que lhe fosse conveniente e lógico, talvez fácil e menos profundo. Contudo, como o esperado, Granger irritou-se com seu colega. O histórico os perseguia, bem como a mútua desconfiança, pois Blásio tinha certo dom para farejar verdades escondidas.
— Sim, Zabine.
Com isso, todos se afastaram e voltaram aos próprios afazeres, no que a castanha informou que iria ao banheiro reservado, que ficava na sala adjacente, levantando-se com classe e seguindo sobre insistentes e provavelmente incômodos olhares. Blásio acomodou-se, sem disfarçar o olhar mal humorado sobre o próprio Draco. Ele queria que o defendesse de Granger, como uma garota indefesa que precisa de socorro sempre que empecilhos aparecem? Revirou os olhos, voltando-se às suas anotações, percebendo como o outro fizera questão de começar um diálogo aleatório com Locke, que certamente encontrara na ação uma forma de ignorar a tensão que cercava a bancada.
Porém, a atitude de seu sócio não saía de sua cabeça, bem como os minutos se passaram sem que sua cliente voltasse do banheiro. Por consequência, não demorou a se ver seguindo pelo mesmo caminho, trancando a porta magicamente e abrindo a do banheiro de forma abrupta somente para encarar uma Hermione Granger completamente estacada perante o espelho, a respiração pesada e difícil. Ela havia molhado as mãos e a nuca, uma forma de se acalmar, tentar retirar a tensão do corpo. Os olhos castanhos encontraram os seus pelo reflexo do espelho, mas não esboçou palavra alguma e Draco fechou a larga porta de forma lenta, antes de colocar-se a encará-la pesadamente.
— O que está escondendo?
— Porque insiste que estou escondendo algo? Apenas não há nada para dizer. – Ela voltou-se à Draco. – Não vá pelo caminho do “quem cala consente”, sabe muito bem que não é assim que funciona.
— Quem cala somente não diz nada, eu sei. – Draco escondeu as mãos no bolso, o bolo na garganta de quando a questionava o acompanhando como um fardo. – Mas tenho… Essa impressão de que as peças não estão se encaixando como gostaria que estivessem. Falta alguma coisa, Hermione, e até Zabine sabe disso.
Os olhos vacilaram, observando-o com uma cautela assustada, como se tivesse medo que o próximo passo pudesse fazer tudo desmoronar ao redor deles. Exceto que isso já estava acontecendo e vinham fingindo com muita convicção que não. Haviam fingido durante a noite toda que estavam preparados, que aquele era o território deles e que Egdecombe e o Ministério não eram uma ameaça iminente; enquanto Draco deliberadamente ignorava a própria consciência que tentava lhe gritar bem lá no fundo que faltava algo, que poderia ser ela – tanto quanto qualquer outra pessoa; enquanto a própria Hermione desconsiderava certo distanciamento que ele insistia em manter, o qual transpunha o sexo, mas que estava sempre presente.
— Depois de tudo, ainda desconfia de mim? – Então sussurrou, aproximando-se, o nariz praticamente a altura do seu, intensa como só ela sabia ser. – Não cabe a você desconfiar de mim. Não é o seu papel e não é o que deveria estar fazendo aqui agora, com esse olhar julgador e pseudo decepcionado. Você deveria estar do meu lado!
— Eu estou. – Declarou, no mesmo tom baixo. – Mas sinto que quanto mais a conheço, menos sei o que esperar de você.
— Então, saia daqui.
— Venho escolhendo, repetidamente, acreditar na sua verdade, Granger. – A mulher ofegou, o olhar pseudo decepcionado mudando de lado. Ela abaixou a cabeça, o perfume floral emanando de seus cabelos, tanto quanto da pele sedosa e sabidamente macia. A viu engolir em seco, os dedos remexendo distraidamente o tecido solto de seu vestido. Lembrava em muito uma criança pega pelo pai enquanto fazia algo errado, alguém que ouvia a repreensão, mas não a aceitava por orgulho, por superioridade. – Acho que mereço um pouco mais do que seu silêncio sobre esse assunto.
— O que você quer que eu diga? – Ela levantou o olhar, parecendo mais frustrada do que raivosa. – Quer que eu invente uma verdade que seja mais conveniente para você, em que você se sinta mais confortável para acreditar em mim? Bom, adivinhe, ela não existe. Não há nada de novo sobre Ronald e eu, sobre o dia da morte dele ou sobre essa secretária. Não há nada para dizer.
— Não gosto que me contem mentiras, Granger. – Findou antes de levar a mão à maçaneta. – Vamos acabar logo com isso.
Hermione ainda o encarou por alguns momentos, como que decidindo se aquele era o fim da discussão ou apenas o começo. Não sabia a que conclusão ela chegara, porém, resolveu empinar o nariz e passar por ele de cabeça erguida em direção à porta. Mal sabia que conclusão ele próprio alcançara, pois não era de sua natureza confiar e sabia de onde vinha tal relutância, principalmente em relação à castanha, mas não era hora de dissecar seus pensamentos em relação a fatores externos que poderiam ser um empecilho para um dia produtivo no Tribunal. Apesar de tudo, ainda era um bom profissional e Granger estava certa: naquela posição, não cabia a ele desconfiar dela.
Cinco minutos depois, todos estavam de pé para as primeiras palavras da juíza Griswold, que seguiu os ritos necessários, chamando os Jurados um por um para que eles se sentassem em seus devidos lugares, explicando-lhes novamente como funcionaria o procedimento específico que era o depoimento da ré; bem como, que poderiam fazer perguntas, desde que escritas em um papel entregue ao Meirinho e aprovadas, previamente, pela própria juíza e por Draco, seu defensor. Não havia tempo marcado, nem hora para acabar, a depender dos ânimos e da demora da inquirição de cada parte.
— Srta. Granger, você pode se dirigir ao banco das testemunhas.
O silêncio em expectativa se fez presente, como se a sala toda estivesse prendendo a respiração enquanto a castanha encaminhava-se ao local indicado. Nenhum ruído foi audacioso o suficiente para desviar a atenção daquele momento histórico. Nem os soluços antes escandalosos de Lilá Brown, nem o raspar de uma pena contra o papel, nem uma câmera bruxa disparando para captar o acontecimento. Nada, a não ser os saltos de Granger e o ruído do acomodar contra a cadeira. Viu quando passou os olhos pelo local, pela primeira vez observando-o daquele ponto de vista, o que o fez imaginar com muita clareza os dedos finos enrolando-se em nervosismo sobre o colo.
Por fim, ela o encarou, a respiração pendendo para o descontrole, soltando o ar pela boca levemente aberta. Draco meneou a cabeça, como que num gesto para acalmá-la, o que a fez engolir em seco e cruzar as pernas na tentativa de se sentir mais confortável, o que, obviamente, não seria possível pelos próximos minutos. Novamente, ela tinha aquele olhar infantil de quem fora pega fazendo algo errado, tanto quanto as bochechas rosadas e os lábios pálidos. Era a primeira vez que Granger demonstrava aquele tipo de reação a respeito de toda a situação, o que talvez pudesse lhe dizer alguma coisa.
— Meritíssima, cedo a minha vez para que a outra parte inicie a inquirição.
Declarou, fazendo com que a juíza desse sequência ao julgamento, procedesse ao típico juramento de Granger, que concordou com tudo seriamente, e Edgecombe se levantasse ajeitando o terno e consultando novamente suas anotações. Pela primeira vez, ele não mantinha a postura debochada, mostrando-se compenetrado e respeitoso. Talvez também fosse a primeira vez que todos percebessem que estavam julgando a antiga queridinha Hermione Granger, como se só agora a ficha houvesse caído. O mesmo podia ser dito sobre o Júri, onde todos pareciam incomodados por estarem em tal posição, desenvolvendo o papel importantíssimo que era julgar uma heroína de Guerra.
— Srta. Granger, iremos repassar alguns aspectos de sua vida pessoal, antes de adentrar nas perguntas a respeito do crime, de fato. – O Promotor Substituto levou as mãos às costas. – Casou-se com Ronald Weasley quando ainda eram muito jovens, você considera que isso tenha sido um erro?
— Sim. – Ela pensou por um momento. – Tínhamos apenas 22 anos e… Estávamos ávidos a construir uma vida juntos. A questão é que, naquele momento, tanto ele quanto eu, fechamos os olhos para os nossos defeitos como um casal, para a forma como sempre demonstramos ser incompatíveis. Talvez, e eu não sei o que Ronald pensava sobre isso, mas, falando por mim… Achei que era apenas imaturidade da nossa parte.
— O que era imaturo, Srta. Granger? Seja mais específica.
— Ronald e eu sempre entramos em discussões desnecessárias. Sempre considerei que fosse pelo fato de que éramos jovens e que isso acabaria com o tempo, com a convivência.
— Com o amor, talvez? – Ela o encarou, quase irritadiça, embora ainda tentasse controlar a respiração.
— Na verdade, não acredito que amor seja o fio condutor da superação. – Algumas exclamações foram ouvidas e Hermione dirigiu-se à eles, já que o próprio Edgecombe fez questão de aproveitar-se do momento, somente esperando-a continuar, como se torcesse para que ela não conseguisse e tudo acabasse naquele momento. – O amor ajuda a relevar e superar muitas coisas, mas só a convivência pode dizer se um casamento funcionará ou não. Para nós, não funcionou.
— As discussões pioraram com o tempo.
— Não exatamente. – Ela pigarreou, desconfortável. – Apenas não nos importávamos mais. Nem eu, nem ele. Tanto é que… Vocês podem ver o resultado disso na terceira arquibancada, bem ao centro.
Draco não precisou virar-se para saber que era onde Lilá Brown encontrava-se sentada. O terreno que ela estava pisando era perigoso, Granger tinha consciência disso, afinal também estava pisando com cautela. Porém, se continuasse assim não precisaria fazer muitas interferências. Por isso, acomodou-se melhor, passando a impressão de que não estava minimamente preocupado com o que poderia sair daquela inquirição enquanto o outro advogado voltava-se à ré novamente.
— Mas vocês continuaram no casamento porque…? – Draco não se moveu, mas sentiu os músculos mais tensos, sabia exatamente o que viria a seguir.
— Era cômodo para nós. – A castanha deu de ombros. – Ocupávamos posições de destaque no mundo bruxo e não queríamos passar por todo o circo midiático de um casamento falido aos 12 anos.
— No entanto, existe uma declaração da Srta. Chang, advogada do Sr. Weasley, que diz claramente que o mesmo estava preparando os papéis para se divorciar. E, mais ainda, ela diz com muita certeza que Ronald Weasley pediria o divórcio na noite em que foi assassinado, visto que ela havia enviado a ele esses documentos.
— Protesto, Meritíssima, isso é uma pergunta? – Griswold olhou para Edgecombe de forma cansada.
— Estou expondo os fatos para construir a minha pergunta.
— É bom que seja logo, Sr. Promotor. – Draco não sentou-se.
— Que fique claro, Meritíssima, que a defesa não concorda com essa linha de raciocínio, pois Cho Chang não tem nenhuma cópia desses documentos que diz ter enviado à Weasley. Ou seja, a pergunta da Promotoria está baseada em especulação.
— Mas eu nem fiz a pergunta, Meritíssima!
— Sr. Malfoy, proteste no momento certo. Está negado. – Draco revirou os olhos, sentando-se novamente enquanto o outro voltava-se a Hermione.
— Ronald Weasley pediu o divórcio naquela noite, Srta. Granger?
— Protesto, Meritíssima, a pergunta está baseada em especulação.
Draco levantou-se novamente e Granger abaixou a cabeça, esperando a juíza manifestar-se. Estava somente tentando evitar que a mulher cometesse perjúrio, prevenir que nada pudesse atingi-la futuramente em relação à isso, visto que conhecia a real história e sabia que Granger diria que Weasley não havia pedido o divórcio. Edgecombe bufou, revirando os olhos pela insolência.
— Mantido.
— Srta. Granger, pelo que sabemos, por suas próprias declarações em veículos de imprensa, você tem uma rotina que segue muito à risca. Pode descrevê-la para a Corte? – Granger encarou o Promotor por um momento e quase pôde ver o brilho de pirraça crescendo, além da incômoda situação.
— Não sei a que está se referindo.
— Seja específico, Sr. Edgecombe. – Disse a juíza Griswold.
— O seu dia-a-dia, Granger. – Ele pegou uma das folhas em sua mesa. – Você disse em uma entrevista há dois anos atrás que acordava cedo para se exercitar, fazia o café da manhã, visto não ter elfos domésticos, vinha para o Ministério, almoçava em um pub da cidade, passava a tarde toda desempenhando suas tarefas e, em alguns dias, da semana saía para beber com seu melhor amigo, Harry Potter. Parece não ter havido tempo para o seu marido, não é?
— Meritíssima, o Promotor está sendo vago. – Draco manifestou-se em tom de desdém.
— Como você deve ter lido em meu depoimento, Sr. Promotor, há 2 anos atrás Ronald e eu já não éramos efetivamente um casal. – Hermione respondeu antes que a juíza pudesse lhe conceder a intervenção.
— É por isso, então, que ele começou um relacionamento com Lilá Brown?
— Não posso responder por ele, Sr. Edgecombe.
— Mas certamente foi por isso que você resolveu iniciar um caso? – A multidão se expressou em polvorosa, mas Granger não moveu-se um centímetro. Pela experiência, parecia acompanhar de pleno a linha de raciocínio do Promotor.
— Eu nunca tive um caso.
— Harry Potter…
— Como todos sabem, Harry não foi um caso. – Ela suspirou, como se cansada do assunto. – E não, não teria iniciado um caso, se soubesse a respeito da vida extraconjugal de Ronald naquela época, o que eu não sabia.
— Mas… Você estava com Harry Potter na noite do assassinato. – Edgecombe se fez de desentendido. – Vocês dormiram juntos, ele é o seu álibi. Não se trata de um caso?
— Não, nunca se tratou, Sr. Promotor. Foi… Somente uma coincidência.
— Que você tivesse resolvido dormir com o melhor amigo do seu marido justamente na noite da morte dele? – Granger pensou por um momento, mas por fim concordou e encerrou logo o assunto, claramente prejudicial a ela. – Então, há quanto tempo não falava com seu marido? Antes do assassinato dele, eu quero dizer.
— Havíamos nos falado na noite anterior, um jantar na casa dos pais dele.
— Muito conveniente para você que toda a família Weasley seja testemunha de seu último momento com ele, não? – Granger remexeu-se sobre a cadeira, claramente incomodada, mas orgulhosa o bastante para não desviar o olhar.
— Foi uma pergunta? – Edgecombe voltou-se irritado à Griswold.
— Meritíssima, recomende a Srta. Granger que deixe de lado sua função como Promotora. Estamos em um Tribunal onde ela é a ré, aquela que é acusada de cometer um dos piores homicídios de nossa história, e vale ressaltar que está afastada há meses de seu cargo.
— Meritíssima, é inadmissível que o Sr. Promotor se utilize do interrogatório para desclassificar minha cliente! – Usou seu tom mais indignado. – O depoimento, dado de bom grado, inclusive, serve para sanar dúvidas surgidas no processo, não para que o Promotor atribua adjetivos inadequados à ela.
— Srta. Granger, apenas responda às perguntas. – Sentenciou Griswold em tom quase cansado, voltando-se para os dois advogados. – Quanto a vocês, senhores, acalmem seus ânimos, está tudo correndo dentro do esperado. Continue, Promotor.
— Ocorreu algo de diferente no dia da morte do Sr. Weasley? – Hermione apenas lhe levantou as sobrancelhas. – Nada excepcional, que não fizesse parte de sua rotina?
— Não.
— O fato de você ter saído para um encontro com Harry Potter não foi excepcional?
— Não, como eu disse em meu depoimento aos Aurores. – Os olhos de Hermione correram até ele. – Era um costume.
— Claro. – Ele consultou as anotações. – Então, saiu para beber com seu amigo, não se lembra exatamente dos horários em que voltou para a casa, apenas que, chegando lá, Weasley estava morto.
— Isso mesmo.
— Já que não se lembra de algo extraordinário, não irá se lembrar do período de 40 minutos em que esteve fora do Ministério, no meio da tarde naquela terça-feira?
Granger pareceu confusa por um instante e Draco sentiu seu corpo todo tensionar de ansiedade. Os olhos dela, antes um pouco mais confiantes, recaíram em direção ao seu colo, meramente suspirando com um meneio de cabeça. Locke o olhou alarmada, enquanto Zabine somente encarava a cliente, quase como que esperando por uma confissão, os olhos esverdeados brilhando com toda a curiosidade que preencheu o ambiente naqueles segundos onde ela esteve em silêncio.
— Responda a pergunta, Srta. Granger.
— Eu saí do Ministério e fui à um pub, fora da cidade. – A mulher não conseguiu encarar o Promotor. – The Elder, o nome do local.
— Como pode comprovar?
— Não posso, é um local simples, afastado do grande centro, não dispõe de muita tecnologia. — Ela engoliu em seco, abaixando os olhos novamente. – Depois de tanto tempo, talvez a dona não se lembre de mim. Foram poucos minutos lá, eu precisava voltar ao trabalho.
Fechou os olhos, pensando freneticamente que aquilo mudava tudo, colocava Granger na cena do crime justamente no horário em que a mulher desconhecida estivera em sua casa, o lapso de tempo não importava nada naquele momento. Ainda que Hermione houvesse saído e aparecido em horários completamente diferentes do da mulher, os jurados já teriam construído suas próprias suposições. Era para isso que servia a convocação da maldita secretária, afinal de contas.
— E o que fazia lá?
— Eu fui tomar um drink.
— Outro?
Ela somente encarou Edgecombe corajosamente, talvez reunindo o pouco de dignidade que ainda lhe restava, e deu de ombros, como se nada pudesse fazer a respeito. O Promotor ainda a examinou por um momento, provavelmente pensando se seria o caso de alcoolismo, mas pareceu não ter chegado à tal conclusão ou simplesmente deixado de lado, afinal já deveria ter sua tese de defesa toda construída e a seguiria. Fora que associar o alcoolismo à Hermione Granger àquela altura do campeonato já não lhe era benéfico, pois aparentaria um apelo que a acusação não necessitava, e ainda precisaria ser provado, caso Draco se levantasse com todas as armas na defesa, o que estava certo de que faria, visto seu discurso anterior sobre desclassificá-la perante os jurados.
— Então, retomando… — Ele consultou as anotações novamente. — Após seu encontro com Potter chegou à sua casa, convenientemente tarde, e encontrou Weasley já morto?
— Sim.
— Que método usou para detectar que ele estava mesmo morto?– Granger, que encarava Edgecombe, distraiu-se por um momento, como se estivesse refazendo toda a cena em sua mente, os olhos desfocados e perdidos, provavelmente em contraste com os dedos trêmulos e e constantemente ansiosos. – Srta. Granger.
— Ele… — Suspirou e Draco desviou os olhos, pensando na lembrança que ela o fizera ver, tempos atrás. A frieza dos olhos cor de âmbar; a rapidez com que chegou a conclusão de tirar a varinha do alcance de Weasley, ainda vivo; a falta de prestação de socorro; a demora para chamar os Aurores. Ela queria o ruivo morto, tinha certeza disso, ainda que não tivesse sido a responsável direta. – Ele somente estava lá. Caído no chão do banheiro, totalmente… Imóvel e sem vida. Havia… Muito sangue, por causa dos… Cortes.
— Somente isso, Granger? Suas digitais estão por todo o banheiro, inclusive na varinha que o amaldiçoou. – A mulher, no entanto, parecia encolher-se cada vez mais enquanto o Promotor inquiria as perguntas mais específicas. – Como explica isso? Pode encontrar uma narrativa razoável para explicar o fato de que todas as pistas apontem diretamente à você?
Correndo o olhar para sua própria bancada, viu Locke roer todas as unhas de ansiedade e Zabine escrevendo freneticamente em seu bloco de anotações, exatamente como era de seu costume ao sentir a ameaça ao cliente cada vez mais próxima. Tratavam-se de pensamentos, contra-argumentos, alternativas de linhas de defesa, ofensas à outra parte. Era um Sonserino, afinal de contas, e gostava de lembrar isso ao mundo quando trabalhava.
— Eu morava naquela casa, o banheiro em que ele… – Ela meneou a cabeça, voltando a encarar Edgecombe da forma decidida com que estava acostumada a se mostrar, eloquente e bem articulada como só a Promotora Granger poderia ser. – O banheiro em que eu o encontrei era o do nosso quarto. Suponho que seja normal que minhas digitais estivessem pelo lugar. Estranho seria o contrário, porque daí… Isso sim sugeriria outra coisa. Quanto a varinha… Em algum momento eu devo tê-la tocado. Tudo estava muito tumultuado, eu estava… Ainda não havia digerido o que acabara de acontecer, então… Não posso dizer com certeza como minhas digitais foram parar na varinha.
— É claro, Srta. Granger, o choque deve ter sido… Horrendo.
— Meritíssima. Peço que o Promotor não se dirija à depoente neste tom irônico de condolências. – Blásio levantou-se de pronto, antes que pudesse pensar. – Apenas o fato da mesma se encontrar nessa situação é desnecessário o suficiente sem as manifestações desrespeitosas da outra parte.
— Perdão, Meritíssima, gostaria de saber quem é o advogado inquiridor aqui, porque se todos podem falar…
— Na verdade, Zabine está incluído no processo como co-advogado da ré, não somente assistente de defesa. – Draco levantou-se, sem esperar que Egecombe terminasse, irritado como já estava. – Consta das regras deste Tribunal que, nessa fase e atuando em tal posição, o co-advogado pode se manifestar sem restrições quanto à defesa de direito líquido e certo da cliente. O advogado inquiridor, no caso, ainda sou eu, Sr. Edgecombe.
Griswold os examinou por cima dos óculos de armação dourada, provavelmente considerando que sua advertência sobre os ânimos exaltados dos advogados de nada adiantara, visto a conjuntura do processo que enfrentavam, assim como por toda a situação midiática em que a ré, famosa e heroína, fora colocada. Em um suspiro, a mesma voltou-se à um de seus próprios assistentes enquanto Draco recolocava seus olhos sobre Granger. Era importante que estivesse sempre atento às reações da mesma a respeito da inquirição, pois, visto seu psicológico historicamente estafado, deveria cuidar para que não chegassem a um limite.
Levantou uma sobrancelha, como que perguntando se tudo estava no controle, no que ela somente realocou-se no banco e voltou a encarar o próprio colo. Tinha consciência de que o único pensamento de Granger a respeito daquilo era que não passava de humilhação e suicídio de carreira. Ela não concordara de todo sobre ser colocada como depoente, sabia que a imagem dela, uma Promotora famosa, sentada no banco de testemunhas, ocupando a posição de ré, seria eterna. Granger seria sempre rotulada como a heroína de Guerra acusada de matar o próprio marido, a responsável pelo fim do famoso e harmonioso trio de ouro – afinal alguém deveria ser.
Draco detestava ter de colocá-la naquela posição, porém, em seu íntimo sabia que era uma função que Granger sempre desempenharia melhor do que ninguém: falar. Durante toda sua carreira, e até mesmo quando se encontravam em Hogwarts, a castanha sempre falara com seu público, sempre se mostrava acessível àqueles que necessitavam, sempre lutando pela justiça em que acreditava. Não fora à toa que se tornara uma das Promotoras Oficiais mais jovens da história. Ela dialogava, explanava, articulava. Ela tinha o talento de fazer as pessoas crerem no que dizia. Não fazer isso era como dizer à eles que tinha, no mínimo, certa parcela de culpa; que era, minimamente, responsável pela situação. E isso nunca fora admissível para sua defesa, tinha de se utilizar das qualidades que ainda restavam da imagem da mulher.
— A defesa tem razão, o Sr. Zabine pode se manifestar em defesa da ré, quando não se tratar da inquirição. É uma garantia de ampla defesa da acusada. – Griswold o despertou, voltando-se ao Promotor. – Mantenha-se nas perguntas genéricas a respeito do fato, Sr. Edgecombe, não expresse opiniões pessoais e não técnicas neste Tribunal.
— Quanto tempo demorou para chamar os Aurores, Srta. Granger? – Edgecombe voltou à inquirição de forma resignada.
— Somente o tempo de descer as escadas para chegar à minha lareira. – Então, lá estava, perjúrio não era mais uma perspectiva, mas a consequências de ter sua cliente depondo.
— Então, o encontrou morto, no banheiro, todo ensanguentando e não parou para pensar que poderia ser considerada culpada. Somente pensou em ajudar? – Granger confirmou monossilabicamente. – Quanto à afirmação do Sr. Fitzgerald de que chegou em casa momentos antes do que relata oficialmente. Você mantém o que disse anteriormente, em depoimento ao QG dos Aurores?
— Meritíssima, já comprovamos que a testemunha estava sob efeito de bebidas alcoólicas e outros entorpecentes. – Draco levantou-se novamente. – Peço que retire a pergunta dos autos, pois não faz nenhum sentido que Granger a responda novamente.
— Meritíssima, comprovamos o estado da testemunha, sim, mas nada impede que a própria ré mude seu depoimento anterior, caso tenha pensado melhor a respeito da própria afirmação. – Edgecombe se manifestou.
— Sim, Meritíssima, mas a questão é que o depoimento anterior é tão juramentado perante o Ministério da Magia quanto este aqui. Não vejo porque a Srta. Granger tenha que reafirmá-lo. – Zabine levantou-se também, ambos ombro a ombro encarando a juíza de forma incisiva, no que a mesma escondeu um sorriso antes de decliná-los.
— Se isso foi um protesto em relação à pergunta, está negado. Edgecombe tem razão. – Griswold voltou-se à Granger, esperando a resposta.
— Eu cheguei à casa depois das 02h00AM. Não posso dizer com exatidão o horário, pois, após encontrar Ronald, tudo ocorreu como um borrão em minha mente.
Granger respondeu incisivamente, no que Edgecombe encarou a juíza e, resignado, disse não ter mais perguntas à castanha, visto que a mesma utilizava-se de seu conhecimento jurídico para responder as perguntas de forma ardilosa. No entanto, o próprio Draco optou por não levantar a voz a respeito da questão, tentando não prolongar cada vez mais a discussão sobre a veridicidade daquela afirmação, pois sabia que ela faria exatamente o mesmo em relação às suas próprias perguntas.
Assim, quando a juíza lhe passou a palavra, levantou-se lentamente, os dedos hábeis abotoando os botões do terno, os olhos em Granger, o coração disparado contra o peito em uma profusão de ansiedade incontida e incomum. Sabia de sua responsabilidade, e não apenas com ela, mas ao tempo tinha consciência do impacto que aquele depoimento causava à mente instável da castanha. Queria ser empático, mas deveria ser imbatível. Reconhecer isso talvez fosse seu maior mérito, ter certeza que Potter o escolheu porque sabia que jogaria para ganhar era seu calcanhar de Aquiles, afinal sabia seu dever. Era sua maior qualidade e também sua ruína, soube no instante em que escolheu aquela linha de raciocínio, no exato momento em que os olhos castanhos o encararam tão corajosamente daquele banco de testemunhas.
— Srta. Granger, Srs. Jurados, irei perguntar abordar alguns pontos que não foram devidamente elucidados pelo Promotor. Tudo bem para você? – Ela confirmou, o analisando perfídicamente a fim de saber sua real intenção, aquela que deveriam ter conversado na noite anterior, quando tudo que a castanha queria, além de tudo, era esquecer ao menos um pouco toda aquela loucura e até mesmo o fato de que seria ela a depor. – Durante os depoimentos, surgiu o de Isaac Greene, o vendedor de doces que disse ter ouvido uma briga entre duas pessoas naquela tarde. Só para deixar claro, já que às vezes sua mente apresenta certa confusão esperada sobre o fato: foi à sua casa em nenhum momento durante aquele dia?
— Não.
— Nem mesmo, talvez, à caminho do pub The Elder? – Ele insistiu, querendo passar ao Júri a impressão de honestidade da própria defesa.
— Eu me lembraria se houvesse passado em casa. – A outra responder com convicção. – Não havia motivo algum para tanto.
— Então, continuando. Sua convivência com Weasley, mesmo estando em uma crise conjugal, era violenta?
— Não.
— Você já nos disse que tinham divergências. – A estimulou mais incisivamente, no que ela molhou os lábios nervosa, claramente seguindo sua linha de raciocínio para iniciar justamente com uma pergunta como aquela. – Enquanto brigavam nunca sofreu nenhum tipo de abuso?
— Nós nos alterávamos, se é o que está perguntando, então… Havia abuso verbal das duas partes.
— Ninguém nunca passou dos limites aceitáveis?
— Quais seriam os limites? – Ela deu de ombros. – Era um casamento, Malfoy.
— Abuso físico, violência doméstica… Pode acontecer, no meio de uma briga, com os ânimos exaltados… Era um casamento, Granger. – Também deu de ombros e pôde ouvir o exato momento em que Lilá Brown indignou-se na galeria, contagiando todos a expressarem suas próprias opiniões a respeito do assunto antes mesmo de Granger responder à questão.
— Uma vez. – Pigarreou, desviando os olhos, incomodada que ele estivesse levantando justamente aquele assunto após tudo. Ele jogava para ganhar, não era? – Chegamos a tal extremo uma vez.
Um novo ruído escandalizado percorreu a plateia, pessoas gritando e se manifestando a favor e contra a castanha. O Júri encontrava-se claramente assustado com uma revelação daquele vindo justamente de Hermione Granger, certamente não esperando que aquilo fosse surgir justamente àquela altura do campeonato, enquanto Edgecombe claramente contorcia-se para arranjar alguma ideia a fim de interromper o que poderia ser a ponte para o fim daquele teatro. Tudo terminou, no entanto, quando a juíza ameaçou esvaziar as galerias e avisou aos jurados que eles não poderiam trocar ideias naquele momento. O ambiente voltou ao silêncio, os olhos fincaram-se na depoente, esquecida por alguns momentos em nome do circo midiático, a qual somente abaixara os olhos, provavelmente maquinando as próximas palavras. Não era ingênuo o suficiente para acreditar tão facilmente em tal passividade.
— Pode nos descrever como aconteceu? – No entanto, Edgecombe o interrompeu para seu próprio protesto.
— Meritíssima, se o evento não ocorreu na linha temporal do assassinato, não vejo que relevância pode ter neste depoimento.
— Estamos fazendo exatamente o que o Promotor fizera instantes atrás, Merítissima: traçando um panorama do casamento de Granger e Weasley. – Abriu os braços como se fosse óbvio. – O verdadeiro.
— Quero ouvir o que a ré tem a dizer a respeito disso.
— Inacreditável! – Edgecombe manifestou, embora já estivesse se sentando novamente.
— Aconteceu uma vez, há quase quatro anos. Estávamos no meio de uma briga, não me lembro o motivo e não sei qual era a intenção de Ronald, exatamente. – Hermione engoliu em seco. – Eu estava grávida… E ele me empurrou.
— O que ocasionou o aborto que sofreu. – Não precisou levantar a voz, o Tribunal em completo silêncio ávido para saber mais.
— Eu caí e... Não demorei a começar sangrar.
Não a viu reerguer os olhos e, por um momento, quase se arrependeu de abrir a ferida, há não muito tempo repleta de sal da irônica vida que a levara até aquele ponto de novo, como uma sina que a aguardava atrás de uma porta que evitava abrir por motivos óbvios. Era tudo recente demais, delicado demais, dolorido demais. Porém, chegara à conclusão de que ela estaria permanentemente melhor fora de Azkaban e com as feridas abertas por ele do que em Azkaban, preservada de lutar publicamente contra seus demônios. Tivera de fazer escolhas em seu caminho, fazê-la reviver dois abortos para que fosse humanizada perante o público e o Júri era uma delas, ainda se sentisse cada vez mais canalha por jogar justamente essa, das piores cartas.
— Considerando isso, em algum momento você teve a intenção de feri-lo? De machucá-lo gravemente? Até mesmo matá-lo?
— Sim. – Granger, finalmente, levantou os olhos vermelhos pelas lágrimas não caídas. – Eu queria ser mãe, era um dos meus maiores desejos à época, o meu último passo para salvar o meu casamento. Então, eu estava grávida, sabia que seria uma menina e… tinha planos, porque… Depois disso eu desistiria. Mas tudo aconteceu muito rápido, de repente eu não estava mais grávida e a culpa era dele. – Ela deu de ombros, os olhos perdidos como que revivendo tudo aquilo, alheia aos cochichos das galerias. – Bom, pensava que a culpa era dele àquela época, até saber da minha condição completa. Do estado do meu corpo, eu quero dizer.
— Srta. Granger, terei que alertá-la que pode parar por aqui, se quiser. – Griswold a interrompeu, empatia escorrendo por todos os seus poros. – Estamos adentrando um território que não diz respeito à morte de Weasley e não é sua obrigação reviver e falar sobre isso.
— Obrigada, Meritíssima.
— Mas chegamos até aqui, não é? – Draco revidou cinicamente, embora realmente não precisasse. – Para elucidar os fatos sobre o casamento de minha cliente. Estamos exatamente onde o Ministério queria que estivéssemos, então conte-nos, Srta. Granger, qual a sua condição?
— Devido ao aborto, tive de fazer alguns exames íntimos e descobri que… Meu útero é frágil. Ele não funciona da forma esperada, é como… Um ambiente hostil para um feto. – Ela disse em tom baixo, pesando todas as palavras, pois nunca havia realmente adentrado o assunto de forma pública. – É uma das sequelas da Grande Guerra, onde, como muitas pessoas sabem, fui torturada por Bellatrix Lestrange com a Maldição Cruciatus, a qual foi repetidamente praticada contra meu corpo em um período relativamente curto de tempo.
Ela calculara todas as palavras, pois o efeito causado no público e no Júri foram certeiros. Conhecia o olhar de empatia quando o via, ainda que não fosse de seu feitio colocar em prática tal altruísmo. Assim, com as mãos descansadas às costas, voltou-se a Granger, deixando que a interpretação corresse solta pelas mentes daqueles presentes, deixando que imaginassem e julgassem o tipo de sentimento que envolvera Granger devido a tal trauma. Foi o momento em que não se sentiu tão canalha quanto deveria, exatamente o mesmo em que a mulher percebera a reação dos presentes, um brilho próximo ao de vitória perpassando por seus olhos.
— Então, culpou o seu marido até que soubesse a verdade sobre o aborto? Tinha sede de vingança até que descobrisse o seu problema?
— Eu estava machucada demais e… Obviamente, queria culpar alguém. Até esse momento era Ronald, depois disso… Não restou muito que nos ligava. Foi quando nos distanciamos de vez.
Ela empinou o queixo suavemente, de forma quase imperceptível, e não era a primeira vez em que se percebia completamente orbitando em torno da mulher, atento a cada movimento, certo ou errado, os olhos buscando os dela insistentemente, para verificar sua firmeza, sua verdade, seu cinismo. Era como se, a cada frase, quisesse ter certeza de com quem estava lidando naquela Corte, quem estava realmente interrogando, como se tivesse invertido os papéis com o Promotor Edgecombe, pois, cada vez mais se convencia da maneira calculada com que ela agia.
— Srta. Granger, caso tivesse conhecimento do caso que Weasley manteve durante esses anos de afastamento, teria se divorciado?
— Sim. – Mentira, sua mente apitou, embora apenas houvesse meneado a cabeça.
— Então, não houve nenhum momento em que desconfiou de Weasley, em que tivesse suspeitado que o seu marido a traía com a namorada de infância, como afirma a própria Lilá Brown? – Questionou novamente, para firmar a resposta na mente dos Jurados.
— Como eu disse, nós nos distanciamos e não havia muito interesse no que o outro fazia em seu tempo livre.
— Mas foi durante esse período em que desenvolveu a depressão confessada há algumas semanas?
— Me soa mais como outra das sequelas da Guerra. – Granger contou com seriedade e eficiência. – Eu estive em negação durante muito tempo, mas a verdade é que uma doença como essa se instala sem que se possa ter qualquer controle sobre ela e, como todos sabem, sou uma pessoa que se sente mais confortável com as coisas… Estando da forma correta.
Ouviu uma risada debochada de Edgecombe, que se levantou imediatamente perante o rumo que o depoimento estava tomando.
— Meritíssima, sinceramente, qual a relevância da doença de Granger neste tribunal? – Ele virou-se para os Jurados. – Estamos aqui para decidir a culpabilidade de Hermione Granger quanto ao assassinato de seu marido, não é um jogo de marketing onde ela pode se apropriar dos sintomas de uma doença que nem mesmo sabemos com certeza que tem.
— Não há relevância? Meritíssima, abordar a doença crônica que Granger desenvolveu coloca em voga tudo que as testemunhas afirmaram sobre ela até o momento. Seu comportamento, a forma como se distanciou do marido e da própria família, bem como suas decisões a respeito da vida pública que levava e a visão pessoal que tem sobre a noite da morte de Weasley. – Draco foi até mesa, distribuindo uma folha para o Promotor e a cópia dela para a Juíza. – E se precisam de provas para atestar a condição de Granger, aí está um laudo emitido por um profissional que a minha cliente frequenta desde que tudo isso ocorreu.
— É, realmente, bastante conveniente que seja um profissional trouxa a atestá-la, da mesma forma que ela tenha buscado ajuda profissional somente após o crime que cometeu. Se houvesse começado antes…
— Meritíssima, Edgecombe está fazendo novamente, comprometendo a reputação de minha cliente além da função deste tribunal e da própria ação que ele propôs! – Malfoy voltou-se à Griswold, tão indignado quanto o outro advogado presente, sob os olhares preocupados de Zabine e Locke, que mais pareciam preocupados com sua exaltação do que qualquer outra coisa. Provavelmente, estava vermelho pela excitação, tanto quanto a ansiedade. – Temos um limite aqui ou não?
— Sr. Malfoy, Sr. Edgecombe, se continuarem a tratar do assunto sem o mínimo de ética profissional, irei substituí-los ex officio, sem que a ré tenha a chance de se manifestar sobre, assim como o Departamento de Execução das Leis da Magia. – A juíza sentenciou, já parecendo esgotada por ouvi-los discutir. – Sr. Malfoy, já conhecemos a respeito das condições psíquicas da ré, atenha-se aos fatos a partir de agora, pois não quero ouvir a voz do Sr. Edgecombe protestando tão cedo. Fui clara, senhores advogados?
A juíza Griswold lhe devolveu um olhar de aviso e Draco voltou-se à Granger novamente, dessa vez um pouco mais tranquilo do que antes, visto que não precisaria pisar em território tão desconhecido quanto antes, quando não era possível prever sua reação e o caminho pelo qual a mulher seguiria a partir de perguntas tão pessoais.
— Srta. Granger, consciente de que praticou uma conduta que não fazia parte da sua rotina, sair do trabalho aleatoriamente no meio do dia, eu quero dizer… Porque não alertou sobre isso aos Aurores ou ao próprio Tribunal? – Queria demonstrar a boa-fé de sua cliente perante os Jurados e perante a sociedade, afinal, em tese, ela não teria nada a esconder.
— Quando se está passando por um processo como este as coisas podem ficar um pouco nebulosas. – Granger ajeitou-se na cadeira com seriedade. – Eu, sinceramente, não me lembrava desse detalhe sobre o dia da morte de Ronald. Tudo aconteceu muito rápido desde então, é um trauma pesado demais para digerir tão facilmente.
— Mesmo sabendo que ainda estão à procura da mulher que Helena McLearn testemunhou adentrando sua casa naquela tarde? – Ele incitou.
— Na verdade, tento não pensar sobre… Esse dia ou o momento em que o encontrei.
— Nós compreendemos. – Draco voltou-se à Meritíssima, tão confiante e cara-de-pau quanto se sentia naquele momento, somente para pisotear sobre o ego do Promotor. – Considerando que o Sr. Edgecombe já elucidou os fatos a respeito daquela noite e que minha cliente não tem nada a esconder sobre isso, que respondeu todas as perguntas com honestidade, segundo o juramento prestado perante esta Corte, não tenho mais perguntas, Meritíssima.
A juíza esteve a ponto de repreendê-lo, mas pareceu ter considerado qualquer outra coisa e resolveu dar continuidade à audiência, provavelmente colocando em voga que seu comportamento era realmente incorrigível e não adiantaria gastar tempo para ajustá-lo ao que seria ideal, pois sempre daria um jeito de burlar as regras. Havia escolhido Direto Mágico, primordialmente, justamente por isso, ponderava enquanto voltava ao seu devido lugar e Granger também era liberada a sentar-se novamente junto à sua equipe de defesa.
Enquanto a antiga secretária dela era chamada pela Promotoria Oficial, Draco a encarou detidamente, visto que a mesma não voltara a se pronunciar até então. Ela mantinha a cabeça erguida, mas era possível ver a instabilidade desregrada em seus olhos, o brilho que os ilustrava pela inconformidade mal contida, as tradicionais manchas vermelhas espalhadas por seu pescoço limpo e claro, produzidas por todo o estresse da situação. Não sabia exatamente o que esperar da mulher naquele estado, mas supunha que a castanha era controlada o suficiente para não colapsar perante todo o Júri, embora o precipício estivesse perto demais.
— Você quer que eu peça um recesso curto para se recuperar?
Perguntou em tom baixo, preocupado, quase escutando o arrependimento batendo à sua porta porta por ter sido ele a colocá-la para depor, lembrando-se que a própria Granger lutara para que não tivesse que chegar a tanto, provavelmente porque conhecia-se o suficiente para prever que poderia lhe acontecer algo do tipo. Então, ela o encarou, voltando a respirar mais uniformemente, embora a expressão se encontrasse contraída pela vontade de controlar-se. A mão alcançou a sua, em seu colo, à vista de todos que se encontravam na galeria, apesar de essa ser última preocupação, se houvesse uma lista de prioridades.
— Peça a juíza para continuar a sessão sem mim. – Ela sussurrou urgentemente, no que Draco lhe franziu o cenho. – Malfoy, eu preciso sair daqui. Agora.
Os dedos dela apertando sua mão até ficarem com os nós brancos deram ênfase ao pedido e o fizeram perceber a palidez em que ela se encontrava, principalmente ao redor dos lábios. Dessa forma, levantou-se imediatamente, arrastando a cadeira no processo e fazendo com que todos o encarassem sem entender, inclusive a secretária de Granger, Kate Hopkirke, e o próprio Promotor, que nem iniciara suas perguntas àquela altura.
— Meritíssima, peço que aceite a ausência de minha cliente pelo resto dessa audiência. – Pigarreou brevemente. – Como a senhora pode ver, a Srta. Granger não passa bem, mas a defesa gostaria de dar continuidade a sessão, em respeito ao Ministério, ao própria Promotoria e ao Júri.
Griswold examinou Granger sob seus óculos, percebendo como a castanha retorcia as mãos perante o colo e parecia tomada pela ansiedade. O próprio Draco não sabia o que poderia estar acontecendo, além de considerar aquele o pior dos recursos da defesa, pois demonstrava fraqueza da tese que sustentava, de uma Hermione Granger transparente e honesta, que não tinha nada a esconder; assim como certa “covardia concedida” ao réu; uma balela da qual nunca se utilizara, mas que se fazia necessária naquele momento e só esperava que não fosse por qualquer motivo fútil ou tolo.
— Iremos continuar com o depoimento da Srta. Hopkirke e entraremos em recesso logo em seguida. – A magistrada voltou-se a Granger. – A ré pode se retirar por hora, o pedido está concedido.
Draco voltou a se sentar, observando a castanha encaminhar-se em direção à porta adjacente com rapidez, sendo orientada pelo Meirinho. Com um olhar, porém, mandou que Locke a seguisse, enquanto que Blásio encarava a tudo da forma compassiva de sempre, como se aquilo não se tratasse de um incidente estacado bem no meio de sua defesa anteriormente perfeita. Sim, perfeita, pois sabia que os jurados não sustentavam mais aquele olhar superior de quem tem o poder para colocar o réu em Azkaban, restando a eles nada mais do que enfadonhamento por aquilo ainda não ter acabado.
De qualquer forma, assim calculara observando-os detidamente ao sentar-se para esperar as perguntas da Promotoria a Secretária de Granger. Não estava realmente preocupado, pois os jurados não pareciam impressionados. Edgecombe deveria ter pedido para que a mulher, de pele morena e firmes traços faciais, como se seu temperamento não fosse nada além de rígido do alto de seus 50 anos, depusesse antes da ré. De outra forma, ele não causaria impacto algum sobre os jurados, ponderou distraidamente ao batucar os dedos pela mesa de madeira.
Bom, talvez até o homem já estivesse considerando a causa como perdida e, além disso, a cabeça de Draco estava em Hermione e no que teria acontecido com a mesma. Não era como se estar naquele Tribunal e responder àquelas mesmas perguntas fosse tão assustador e primordial, a castanha já fizera tal concessão diversas vezes – para agradar a imprensa, para satisfazer os Aurores, para colocar Brown em seu lugar. Sua maior vontade no momento, em detrimento de seu comportamento sempre profissional, era estar com ela, saber o que havia a acontecido de fato, talvez finalmente entendê-la.
— Trabalhando há tanto tempo com Hermione Granger, você se recorda de algum momento em que ela tenha empenhado tal comportamento… Suspeito? – O Promotor usou deliberadamente a palavra, apenas para devolver suas provocações na mesma moeda.
— Não, senhor. Mas ela estava distraída nos últimos tempos, não parecia tão focada no trabalho quanto o normal. – A voz rouca e formal da mulher, de postura reta e tensa, se fez presente em sua mente pela primeira vez, o que o fez focar novamente no desenrolar da situação à sua frente.
— Então, foi a primeira vez que Granger deliberadamente matou o trabalho, saiu no meio do dia de forma misteriosa, sem dizer aonde ia ou com quem?
— Que eu me lembre, sim.
— Coincidentemente no dia em que o marido dela foi morto, uma mulher desconhecida visitou a casa deles e uma discussão suspeita ocorreu. – Edgecombe falou para si mesmo, debochadamente, e estava pronto para se levantar quando o mesmo disse que não tinha mais perguntas, fazendo com que a Meritíssima se voltasse para Draco.
— Sr. Malfoy, a testemunha está aberta às perguntas da defesa.
— Que testemunha? – Ele revidou. – Kate Hopkirke nada mais é do que prova da circunstancialidade desse processo, afinal o paradeiro da minha cliente nesse horário já foi solucionado pela própria Granger. Nós abdicamos ao direito de inquirir essa testemunha.
— Com a dispensa da defesa, a Sra. Hopkirke está liberada. Se nenhuma das partes tiverem algo a acrescentar, entraremos em recesso até a tarde de amanhã, onde ouviremos a última testemunha de defesa, que está caracterizada como de caráter, e os advogados farão suas alegações finais antes de o Júri entrar em quarentena para decidir sobre a questão. A audiência está encerrada por hoje.
O ruído do martelo foi ouvido e todos se levantaram em respeito a juíza, a qual encaminhava-se a saída da Corte seguida por seus funcionários. Draco, no entanto, concentrou-se em organizar suas coisas o mais rápido possível para seguir em direção à sala adjacente, juntamente com Blásio, mas assim que conseguiu colocar sua pasta ao redor dos ombros Edgecombe aproximou-se, um brilho estranho nos olhos claros.
— Você tem sorte, Malfoy. – Somente levantou uma sobrancelha, enquanto seu sócio posicionava-se ao seu lado. – Que eu não tenha decidido explorar o alcoolismo da sua preciosa cliente na última hora.
— Não fez isso, Edgecombe, porque não tinha e não tem provas para embasar qualquer coisa que dissesse. Além disso, ainda teria grandes chances de os Jurados caírem nas minhas graças muito facilmente, pois estaria claramente apelando ao absurdo. – O rodeou para encaminhar-se ao seu destino, mas foi parado pela voz alta do Promotor, que atraiu a atenção de muitos daqueles que ainda estavam presentes no Tribunal.
— Oh então ela é apenas alcoólatra e não assassina? – O Promotor deu de ombros. – Bom saber.
Enquanto o observava distanciar-se em seu andar deliberadamente calmo, sentiu um de seus dedos, no pulso fechado pela raiva, acariciar distraída e pensativamente o fiel anel da família que nunca deixava seu anelar direito. Sentia a emoção, o estresse e a ansiedade quase entrando em convulsão por seu corpo e não era de seu feitio aceitar ameaças de graça, deixar que qualquer outra pessoa pisoteasse em seu ego dessa forma e usasse de sua fraqueza para atingi-lo em seu ponto fraco.
No entanto, a razão ainda se fez presente antes que empenhasse qualquer ação que pudesse prejudicar Granger em relação aos Jurados, que ainda saíam com o Meirinho, e a própria reputação profissional, pois esta era uma das coisas que mais prezava em sua vida repleta de superficialidades, talvez a maior benfeitoria pessoal de toda sua existência. Não colocaria em jogo por um mero e decadente advogado que não estava acostumado à dinâmica dos Tribunais de Júris, bem como tinha certeza, por sua própria experiência e autoconfiança, que acabaria com ele de outra forma.
Foi assim que, quando adentrou a sala adjacente, lívido pela situação como um todo, com Zabine a seu encalço, encontrou somente Locke andando de um lado para o outro, roendo as unhas em preocupação, sustentando uma expressão insegura em suas feições ingênuas. Porém, a menina estacou assim que o viu descartar a bolsa a um dos sofás, com rapidez, ciente de que realmente havia algo de errado.
— Ela está no banheiro vomitando.
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