— …Eu estava tão feliz, Merlin! Ron, finalmente, ia estar livre para que pudéssemos seguir nossas vidas, longe de todos os problemas. Não é… Justo que ela tenha feito isso…

Resignado, Draco observou as lágrimas escorrerem pela face corada e inchada de Lilá Brown. A cópia de sua expressão podia ser encontrada na face de Granger, logo ao seu lado, mas suspeitava que os olhos de cor âmbar, sempre profundos demais para uma leitura rasa, demonstravam um ódio muito latente ao encarar a mulher loira no banco de testemunhas.

Não dedicara muita atenção, de qualquer forma, pois aquela feição a estampava desde que declarara em juízo que a castanha deporia, de boa vontade, para contar tudo que sabia. Em sua carreira, Hermione sempre fora uma assídua adepta do depoimento do réu. Percebera, não poucas vezes, a estratégia da mulher em elaborar perguntas que sempre carregasse uma carga de benefício maior do que o ônus, no que fora obrigado a admitir, ainda à época, que não conhecia muitas pessoas tão boas com palavras e a manipulação delas.

Granger era como um mestre de poções, afiado, pronto para qualquer resultado possível diante da combinação de determinados ingredientes. Por isso, não entendia como o plano B era tão abominável assim a ela, ao passo que compreendia sua posição em ouvir todas aquelas acusações novamente, de forma pública, certeira e direta. Era diferente agora que, efetivamente, estava perante uma Corte apta a julgá-la e condená-la a Azkaban. Obviamente, Granger sabia todos os seus direitos, que o rito era uma fase essencial para que pudesse ser defendida juridicamente de forma satisfatória, que, não fosse isso, ela já estaria presa. Devia concordar que, realmente, não era o seu dia mais favorável.

— Acha, então, que a Srta. Granger tinha os motivos e os meios corretos para cometer tal atrocidade?

— Protesto, Meritíssima, especulação. – Draco nem se incomodou em levantar. – Não há como a Srta. Brown testemunhar com suposições do que acha sobre a ré e o seu marido. Além disso, não será ela quem determinará se Granger teve motivos e meios, seria absurdo.

— Eu retiro, Meritíssima.

Draco sorriu desdenhoso pela tranquilidade do outro advogado em retirar a pergunta dos autos. O homem estava realmente confiante e toda sua postura parecia gritar isso, dos ombros altos ao rosto fino e descontraído, embora fizesse questão de fechar todas as expressões quando queria demonstrar simpatia a perda de Brown ou impressionar o júri com qualquer afirmação que considerasse boa o suficiente para tanto, desde que apontasse para Hermione. Draco estava acostumado, mas, não mentia, Edgecombe o estava irritando e sabia que esse era só o começo. Ele ainda o tentaria a perder a linha de raciocínio, se contradizer, preparar um bote a cada passo que desse.

Detestava advogados de sua laia, contratualistas atentos a cada mínimo detalhe, palavra e gesto que pudesse fazer a diferença no Tribunal. Além do normal e do que sua paciência poderia suportar, considerou. Talvez Patil tivesse sido uma opção mais previsível e saudável para sua mente. Enfim, evitou revirar os olhos para si mesmo e levantou-se, decidindo que usaria todas as armas de Edgecombe contra o homem. Era Draco Malfoy, estava um passo à frente, pois Edgecombe era somente um intruso tentando montar sem a aptidão necessária para uma cavalgada repleta de percalços como aquela. Se estivessem contando, o exímio cavaleiro ali era ele.

A testemunha era sua e, agora, Brown o encarava com seus olhos vermelhos, tentando não demonstrar ao júri sua verdadeira intenção ali quando Draco, certo do que procurar, podia notar o desafio nas águas azuis de seus olhos. Ainda inchada pela gravidez, com o pescoço curto marcado por linhas de expressão, Lilá parecia ainda mais atingida pela morte de Ronald. Supôs que fosse exatamente isso que quisesse passar ao jurados: estava sofrendo e, ainda, tinha de lidar sozinha com a criação de um filho.

— Srta. Brown, é de conhecimento de todos que mantinha um caso com o Sr. Weasley. Um longo caso, pelo que sabemos. Ronald lhe manifestou, durante este tempo, a vontade de reatar com a esposa?

— Não, ele nunca disse isso. – Draco sorriu, aproximando-se, intimidando-a.

— Mas você não me diria, não é? – Instigou.

— Protesto, Meritíssimo, o Sr. Malfoy está pressionando minha testemunha.

— Concedido, Edgecombe.

Draco levantou as mãos, sem nenhum problema em admitir que, realmente, estava pressionando a loira, já encolhida e de ombros baixos em sua cadeira. Nas mãos, era possível perceber que apertava um lenço azul claro entre os dedos, forte até os nós dos dedos se mostrarem transparentes, infelizmente, apenas a ele, que se encontrava perto o suficiente para tanto. O nervosismo praticamente escorria por cada poro de Brown e adorava ser ele a encurralá-la de tal forma depois de tudo que submetera Granger.

— Você diz que viu Weasley naquele dia. Pode nos dizer em que horário?

— Cedo, ele havia dormido na minha casa na noite anterior.

— Então, mantinham um relacionamento como um casal, realmente? – Esclareceu para o júri e para sua próxima pergunta.

— Exceto pela parte legal, sim.

O resquício de triunfo a alcançou e não pode evitar encarar a rival no banco dos réus, culpando-a por não ser a esposa que constava em seus documentos e, agora, ao menos, em seu atestado de óbito. Um humor negro e sem sentido que passou por sua mente de forma rápida. Tinha certeza que Brown ficaria satisfeita com este pouco e transformaria tal migalha em uma linda história sobre como enfrentaram o mundo por seu amor.

— Em algum momento, você teve empatia com Granger? – Ela o encarou sem entender, depois correu os olhos para o advogado, o qual não se manifestou. – Minha pergunta é: em algum momento sentiu alguma empatia pelo que estavam fazendo com minha cliente?

O júri remexeu-se incomodado, pois haviam começado a sentir aquela onda de pena por Brown, mas Draco fez questão de lembrá-los que a esposa traída e humilhada publicamente ali era outra. A sensação que o encheu, justamente pelo sentimento de rejeição que chegara até ele, sempre lhe fora inexplicável. Sentia-se sadicamente bem enquanto via o réu ou testemunha pensar em uma resposta que não o fizesse cair na armadilha claramente exposta por ele.

— Não, pois Granger nunca mereceu…

— Eu não questiono porque a culpo, Brown, você não tinha nenhum compromisso com Granger. – Ele a interrompeu, pois a afirmativa ou negativa era sempre mais impactante para constar nos autos. Não precisava de Brown explicitando seus motivos para odiar Granger e convencendo jurados apenas pelo vitimismo de toda a situação em que se colocara, propositalmente. – Mas parece gostar, especificamente, de estar em posição que a humilhasse, já que em momento algum de sua vida você simpatizou com minha cliente.

— Protesto, Meritíssimo.

Draco sabia que tinha ido longe, Brown não era uma ré ali, embora o encarasse como se fosse o carrasco a lhe executar uma sentença. Entretanto, era importante que o júri percebesse como Brown não era tão vítima quanto desejava se pintar, da mesma forma que Granger não era a vilã que ela narrava. Não constaria nos autos, mas tinha certeza de que eles não esqueceriam de suas palavras, não pela maneira como a olhavam.

— A defesa não tem mais perguntas para a Srta. Brown, mas peço que ela esteja sob suspeição por ser considerada inimiga capital da parte. – Draco voltou-se à juíza Griswold. – Seu depoimento deve ser examinado com ressalvas pela Corte.

— Meritíssima, é um absurdo que um depoimento essencial como o de Brown seja desconsiderado pelo Tribunal.

— Eu não estou pedindo desconsideração, Meritíssima. – Draco teimou, como se estivesse dizendo o óbvio, provavelmente irritando a muitos presentes. Era um dom natural, lapidado pela própria força de vontade ao perceber como isso mexia com as pessoas ao seu redor, geralmente de forma negativa, mas sempre o suficiente para fazê-las lembrarem seu rosto e, principalmente, o seu nome. – Apenas quero que Brown seja encarada como realmente é. Além disso, seu depoimento não prova nada, é meramente circunstancial, fala apenas sobre sua famigerada história trágica de amor.

O zumbido de concordância e discordância correu pelo Décimo Tribunal, no que a juíza Griswold o encarou por cima dos óculos, irritada pelo que causara. Porém, simplesmente deu de ombros e esperou pela decisão, no que a mulher declarou um breve recesso de quinze minutos para analisar a questão e acalmar os ânimos do público presente. Era provável que a mulher estivesse preparada para que o clima ficasse dividido e tenso como estava, mas ela não era inexperiente na área, certamente sabia como conduzir toda a questão. Além disso, era favorável que o júri tivesse certo tempo para absorver tudo que havia sido dito até ali.

Dessa forma, a juíza e seus assistentes levantaram-se e Draco, juntamente com Granger, Blásio e Locke, seguiram para uma das salas adjacentes do Tribunal sob manifestações dos presentes, mas ignorando a todos e, principalmente, os jornalistas ali presentes. Eles eram inimigos e ocasionais marionetes. Por isso, no momento, não eram uma peça-chave a ser usada, Draco sempre sabia usar as cartas que sua manga guardava.

— Precisaremos usar Potter, agora.

— Harry é importante demais para ser descartado logo no início do julgamento. – Contestou Granger, acomodando-se em uma das poltronas fundas com as pernas cruzadas, encarando-o como se quisesse matá-lo. Não temia, realmente, preparara-se para isso desde que fora contratado pelo próprio Potter. – Além disso, Edgecombe deve ter algo especial para colocá-lo contra a parede, pressioná-lo até que solte algo que não queremos, o que não soará nada bom.

— De qualquer forma, o depoimento de Brown será visto com ressalvas. – Destacou Locke, sem sucesso ao tentar desconcentrar Zabine e Hermione.

— Potter deverá depor, agora, não pode ser uma testemunha-chave. A carga negativa que ele traz será muito prejudicial, viu como o clima está lá fora?

— Harry estava comigo no momento em que tudo aconteceu, é o meu álibi, temos de aproveitar isso! – Era possível perceber como Granger se sentia inútil sem o poder de tomar decisões ali. O fato de tê-la colocado para depor sem lhe comunicar fora a gota d’água, embora a mesma soubesse que aquele era o plano B. – Sem contar que Harry, certamente, tem conhecimento de coisas que deveriam ser postas em juízo, como o fato de Ronald querer ou não o divórcio. Temos de usá-lo para confrontar qualquer coisa que Ginny disser. É a minha estratégia.

— A questão é: e se Potter não puder colocar em voga o que a ruiva disser? – O olhar de Granger correu ávido e certeiro em direção a Zabine.

— O que está insinuando? – Questionou em tom baixo, porque todos naquela sala sabiam o que a fala de Zabine implicava. Culpa. Certa e iminente de sua cliente.

— Estou dizendo que Potter é certinho demais e não mentiria em juízo, correndo o risco de cometer crime de perjúrio. – Blásio explicou lentamente, como se estivesse fazendo-o a uma leiga no assunto, o que, provavelmente, a irritaria ainda mais. – Ele não irá contradizer Ginny Weasley propositalmente, ela ainda é a mãe de seus filhos, todos temos de encarar isso.

— Harry não colocaria minha liberdade em perigo!

O protesto de Granger em defesa de Potter, finalmente, o fez revirar os olhos sob o olhar atento de Locke, a qual parecia morder a parte interior das bochechas para não entrar na acalorada discussão dos outros dois advogados presentes. Então, virou-se para servir si mesmo um copo d’água com um aceno de varinha. Aquela sala se encontrava estranhamente abafada e quente, o que fazia com que sua mente parecesse rodear a si mesma em círculos inquietos de ansiedade.

Não conformava-se com a fé da castanha em Potter. Em momento algum, o mesmo estivera ali por ela, sempre dedicando-se a pensar nas próprias perdas, culpado pelo que acontecera a Weasley e pesando como o fato de ter transado com Granger podia interferir em sua perfeita vida. Por Draco, deixaria que a parte contrária o intimasse como testemunha, tinha certeza que Edgecombe iria querer esclarecer o tal “romance” entre Hermione e seu álibi, era apelativo demais para que deixasse de fora. Mas a mesma insistira que ter seu antigo amigo depondo a seu favor faria diferença com o júri e tivera de ceder porque ela tinha um ponto: a impressão de normalidade. Não era cabível que Potter não fosse intimidado por ela, pois soaria como houvesse alguma dúvida a respeito de sua inocência na morte do marido.

As vozes de Granger e Zabine misturavam-se na sala pequena, ambos dispostos a defender uma tese a fim, como realmente fazia parte de suas naturezas “advocatícias”. Entretanto, o irritava ao extremo, pois o impedia de pensar e manter um raciocínio. Não precisava de uma distração como tal e, se dispusesse de mais tempo, deixaria todos ali e iria a um pub distrair-se com música ambiente e bebida forte. Sozinho. Era um costume seu, adquirido com o tempo e várias horas de brigas desnecessárias como aquela. Não levava nem mesmo o processo consigo, mas matava o tempo planejando sobre o mesmo, fazendo sua mente funcionar de forma satisfatória e lógica, como o esperado.

— Já se passaram os 15 minutos de recesso.

O anúncio eficiente de Locke fez com que o silêncio se sobressaísse na sala por alguns momentos. Via Granger, ainda sentada em posição supostamente tranquila, sem precisar mover um músculo para fazer-se grande e contestar qualquer argumento de Blásio, não demonstrando esforço algum, enquanto seu amigo andava de um lado a outro, nervoso como lhe era característico. Porém, não manifestou nenhuma vontade de adentrar a linha de fogo de ambos. Sua opinião prevaleceria, não importando que eles, e principalmente a castanha, quisessem mudá-lo a bel prazer.

Então, todos seguiram para fora, mas Granger ainda o segurou pelo braço antes que ficassem sob os olhos do público. A viu analisá-lo, tão próxima quanto o fato de estarem ali permitia, tentando lê-lo séria e descaradamente. Entretanto, sabia que, assim como na maioria das vezes em que não conseguia descobrir o que passava pela cabeça da mulher, ela não era capaz de desvendar seus olhos. Pelo menos, então, poderia dizer que tratava-se de um quase relacionamento com uma recíproca real.

— Ainda estamos em sintonia aqui, não é? – Ela questionou em voz baixa, persuasiva como sempre havia sido.

— Não vejo motivo para não estarmos. – Quando tentou continuar, ela o fez voltar a si novamente, os olhos semicerrados. Certo de que sua ironia a fazia retorcer-se em desgosto interno, ainda levantou uma sobrancelha claramente provocadora, no que ela fechou uma expressão tempestuosa. Então, ele aproximou-se, também em tom baixo. – É a minha estratégia que vamos seguir, aceite que não está no comando e me deixe fazer o meu trabalho.

— Nós combinamos que faríamos isso juntos. – Granger protestou, entredentes.

— Não quando, em minha concepção, a sua estratégia puder mandá-la para Azkaban.

Ela soltou um riso, de incredulidade e raiva, pois acabava de praticamente chamá-la de incompentente. Por isso, soltou seu braço com brusquidão e encaminhou-se ao banco dos réus, ignorando a todos de forma muito mais proposital do que anteriormente. Blásio ainda o encarou com o cenho franzido, no que Draco simplesmente dispensou a pergunta com um gesto impaciente de mão ao acomodar-se ao lado da mulher. Estava claro que, na próxima audiência, a sintonia deveria ser revista ali, pois o julgamento estava mexendo com os ânimos de todos os envolvidos.

A juíza Griswold já o encarava com impaciência quando retornara, embora tivesse utilizado o tempo para fazer anotações, não se pronunciando até que todos se mostrassem ávidos por respostas a respeito de Brown. O silêncio tenso demonstrando toda a curiosidade dos presentes em uma representação do que poderia ser toda a comunidade bruxa naquele momento, em respirações pausadas pela expectativa. Então, por fim, ela ajeitou seus documentos novamente e levantou os olhos.

— Bom, a Srta. Brown não se encaixa nos requisitos de testemunhas consideradas suspeitas por não gozar de nenhum grau de parentesco com as partes. – Ela pausou, juntando as mãos sobre o pulpito. – Porém, tendo em vista o fato como um todo, levando em consideração que a própria Brown confirmou que ela e o Sr. Weasley agiam como um casal, embora juridicamente a vítima ainda estivesse compromissada com a Srta. Granger; além do fato de que esse relacionamento gerou frutos, ligando a Srta. Brown e o Sr. Weasley de forma inquestionável, decido pela suspeição da testemunha de acusação Lilá Brown. – Edgecombe remexeu-se, remoendo-se em desgosto, enquanto Griswold voltava-se aos jurados. – Senhoras Juradas, Senhores Jurados, peço que encarem o depoimento de Brown com ressalvas, pois também é inquestionável o fato de que suas palavras podem estar contaminadas pela opinião que tem a respeito da acusada, Hermione Granger.

Dessa forma, a juíza ordenou a continuação da audiência, permitindo que Draco chamasse sua própria testemunha. Apesar de estar confiante em sua própria estratégia, como afirmara a Granger, a discordância clara da castanha em segui-la fez com que hesitasse, minimamente, encarando suas próprias anotações por alguns momentos. Um ponto em evidência, porém, lhe chamou a atenção. A mania de escrever em códigos e desenhar em qualquer coisa que tivesse a mão o acompanhara durante toda a vida e, naquele dia, parecia ainda mais ávido por colocar no papel tudo que pensava. O desenho em tinha preta de uma forca infantil segurando violentamente o protótipo de uma boneca em um vestido relembrou-lhe o motivo de estar ali. Dessa forma, decidido, circulou o desenho e empurrou a folha para Granger antes de levantar-se.

— A defesa convoca Harry Potter para testemunhar.

Até mesmo Edgecombe o encarou surpreso, claramente em busca de um caminho que o levaria a estratégia de Draco. Porém, além do olhar de desafio, o ignorou da mesma maneira que fez aos ruídos e murmúrios que correram pelo ambiente. A juíza Griswold, atenta a tudo, mas concentrada em suas próprias tarefas, mandou que o chamassem e não demorou a que o homem de conhecidos óculos arredondados e característicos cabelos negros adentrasse a Corte, seguido pela Polícia Ministerial.

Era óbvio que Potter estava desconfortável, sob o olhar julgador de todos. A rotina de testemunhar em seus próprios casos, como Auror, não se aplicava ali. Estava intimamente ligado ao processo, às partes, à vítima, pois tudo ali era pessoal demais, quase como um assunto de família que não deveria ser discutido perante terceiros, mas que claramente fugira do controle. Todavia, ainda assim, o homem esforçou-se para cumprimentar a amiga em um entendimento e olhar de reconhecimento que só cabia aos dois, enquanto para Draco fora reservado um aceno de cabeça.

— Sr. Potter. – A juíza cumprimentou quando o mesmo já estava acomodado ao banco de testemunhas. – Como o habitual, o senhor tem o dever de testemunhar com a verdade. Fugir disso, poderá lhe acarretar um processo pessoal pelo crime de perjúrio. Está de acordo?

— Sim, Meritíssima.

— Que a defesa inicie a inquirição. – Ela declarou e acomodou-se, ao passo que Draco aproximava-se.

Harry o encarou ajeitando os óculos e tudo que Draco queria, de braços cruzados às costas, matendo um olhar sério sobre ele, não pela primeira vez estando ambos naquelas posições, desempenhando suas funções, era fazê-lo pagar por abandonar Granger em sua fuga egoísta. Sabia que, se pudesse, a castanha o teria feito, fugido da mesma forma, mas a trama em torno de Ronald fora fiada de forma a não permitir isso. Não a ela, enquanto Potter teve a chance de manter-se afastado e voltar quando bem quis, como se sua amiga mais antiga fosse um personagem secundário numa história que não a cabia, mas que as circunstâncias zelavam para tanto.

Porém, Potter o encarava solícito, esperando pela oportunidade de consertar o próprio erro e, obviamente, reaproximar-se de Granger, como antes tentara e a mesma não permitira, presa demais em seus próprios problemas para preocupar-se em reatar antigos – e desnecessários – laços afetivos. Todos são egoístas no fim das contas, constatou sem muita surpresa, basta encontrar a oportunidade. Aquela não era a de Draco, embora por muito tempo tivesse torcido para que sua hora chegasse.

— Potter, era um hábito que você e Granger se encontrassem após o trabalho?

— Sim, sempre fomos amigos e o trabalho afasta um bocado as pessoas… Pela falta de tempo. – O homem deu de ombros. – Gostávamos de conversar.

— Então, você confirma a afirmação da Srta. Granger sobre estarem juntos na noite da morte de Weasley, na hora do crime?

— Estávamos no Caldeirão Furado, sim.

Draco andou perante o banco de testemunhas, pensativo, consciente dos olhos ávidos do júri sobre ele. Todos estavam esperando o testemunho de Potter, mas ninguém contava que ele pudesse ser o primeiro convocado pela defesa. Era suposto que Draco utilizasse do álibi no fim, para fechar o seu rol testemunhal de forma concisa, a tese firme na direção de que sua cliente não tinha motivo e nem meios para cometer tal atrocidade. Ou ao menos não naquela noite, pois ela tinha Harry Potter para alegar que não estivera em casa durante a hora do crime. Exceto que seus planos não condiziam com o esperado e nem mesmo Granger poderia pará-lo.

— Hipoteticamente, se Granger e Weasley, seus dois melhores e mais antigos amigos, desde Hogwarts, estivessem se divorciando, você seria capaz de escolher um lado?

— Protesto, Meritíssima. Não vejo como uma situação hipotética poderia fazer diferença no processo.

Nem mesmo virou-se para encarar Edgecombe, assim como Potter não desviou o olhar do seu, pois o mesmo sabia que o estava testando e acabara de cair. Ele não fizera nenhuma menção de responder a pergunta de forma rápida e sem hesitações. O viu morder o próprio lábio, internamente, a irritação agora cristalina em suas feições, substituindo a face solícita de antes, pois, supostamente, Draco não estava ali para fodê-lo, apesar de ser quase um dever, considerando o passado de ambos, que Harry esperasse a tentativa de encontrar lugar para tanto.

— A pergunta está para Potter da mesma forma que a afirmação de Brown sobre Ronald ter pedido o divórcio naquela noite. – Deu de ombros à juíza. – É uma situação hipotética.

— Protesto negado. Responda a pergunta, Sr. Potter.

— Não, eu tentaria encontrar um meio-termo. – Ele deu a resposta esperada, rigidamente, e precisou esforçar-se para não voltar-se para encarar a expressão de Granger.

— No entanto, vocês mantinham um caso. – Afirmou sem ressalvas, escandalizando várias das pessoas do lugar e deliciando-se ao ver Potter remexer na cadeira dura e desconfortável que era o banco de testemunhas do Décimo Tribunal. Então, aproximou-se um pouco mais e abaixou o tom. – Sim ou não, Sr. Potter.

— Aconteceu apenas uma vez, então não. – Potter o encarou, afrontoso.

— Na noite da morte de seu amigo. Que conste nos autos que o Sr. Potter concordou com um gesto de cabeça. – Dirigiu-se ao escrivão quando Potter concordou, desconfortável. – Então, pode afirmar com certeza que estava em um encontro com Granger naquela noite e, por isso, ela não pode ser a culpada pelo assassinato de Weasley?

— Sim. – O menino eleito não hesitou pela resposta, mas mais pela forma como colocara a questão do encontro, Draco sabia. Nada novo sob o sol, detestava que fosse ele a questioná-lo sobre isso.

— Protesto, Meritíssima. – Edgecombe protestou, ironicamente, como se fosse um absurdo. – Da mesma forma que Brown não pode afirmar sobre o divórcio, não há como Potter afirmar, com certeza, que Granger não assassinou o Sr. Weasley.

— Retire dos autos. – Griswold determinou, sem hesitar.

— Não não há problema, eu refaço. – Informou ao próprio Edgecombe, o qual apenas sentou-se, ignorando sua pequena provocação. – Potter, Granger não pode ser culpada pelo crime porque estavam em um encontro, justamente na hora do fato?

O Auror repetiu a resposta, novamente em resignação, no que Draco resolveu dispensá-lo de suas perguntas, pois, quanto mais o empurrasse em direção ao precipício, mais iria parecer que sua opinião a respeito de Granger era recheada de incômodos. Portanto, deixaria para que Edgecombe o jogasse logo de uma vez, na borda como estava, pronto para dizer algo que não deveria, pois o mesmo era impulsivo desde que era apenas um menino que odiava aleatoriamente.

Assim, encaminhou-se novamente ao seu lugar, enquanto a juíza permitia que o Promotor substituto ali fizesse sua própria inquirição. Era notável a forma como Granger o encarava insistentemente, como se tivesse alguma culpa por suas perguntas ao amigo. Então, ela lhe empurrou de volta o bloco de anotações, que agora mostrava a letra x sobre seu desenho. Perguntou-se quando conseguiu considerar um cenário em que concordassem sem empecilhos, deveria lhe ser cristalino como água que isso não aconteceria, pois suas opiniões sempre entraram em divergência muito facilmente.

— Sr. Potter, você concorda que não pode ter certeza dos atos da Srta. Granger após o encontro de vocês?

— Sim, mas acredito no que ela diz. – Potter respondeu rapidamente antes que Edgecombe o cortasse.

— A morte de Weasley foi confirmada, exatamente, às 01h47min AM. O senhor lembra-se do horário em que deixaram o bar-hospedaria?

— Não exatamente.

— Bem… Aparentemente, uma das testemunhas pode nos ajudar. – Foi entregado a todos uma cópia do depoimento de Zach Fitzgerald, mas Draco nem mesmo fez questão de lê-lo. – O Sr. Fitzgerald afirma que a Srta. Granger chegou a sua casa 17 minutos antes da hora da morte do Sr. Weasley, ou seja, havia tempo suficiente para que ela colocasse em prática um plano para matar o marido. E, ainda, vamos considerar que Granger mentiu em seu depoimento, aonde diz que chegara pouco depois das duas…

— Protesto, Meritíssima, onde ele está querendo chegar? – Contestou debochado, no que a mulher simplesmente encarou o Promotor em repreensão.

— Mesmo com todas essas informações, mantém a afirmação de que não sabe a que horas Granger foi embora?

— Sim. – Potter respondeu com convicção, no que Granger o encarou de forma agradecida, um pequeno sorriso escondido no canto de seus lábios.

— Meritíssima, da mesma forma que Lilá Brown foi considerada suspeita, peço que o mesmo dispositivo legal aplique-se ao Sr. Potter. – Edgecombe tentou, rapidamente, após um momento de silêncio em que simplesmente encarou o Auror Potter de forma pensativa, considerando suas opções. – É visível que todas as suas respostas aqui serão em benefício da amiga íntima, ainda que tenha jurado testemunhar com a verdade.

— Potter admitiu ter tido um encontro amoroso com Granger, quando ainda era casado, perante toda a Corte hoje. – Draco levantou-se para defender sua testemunha. – Eu não acredito que seu testemunho esteja contaminado pelo fato de ser próximo a Granger, pois o próprio afirma que não escolheria um lado em uma briga judicial envolvendo seu casal de amigos. Harry Potter não tem nenhuma intenção de cometer perjúrio, Meritíssima.

O sobrenome Potter tinha muito peso quando na mesma frase que a palavra honestidade. Tinha de admitir que o fato de ter ido a público seu adultério com Granger pode ter manchado um tanto sua imagem de bom moço perante a sociedade bruxa, mas eles não esqueciam facilmente seus heróis, ainda que o caráter dos mesmos fossem bastante questionáveis – afinal, Lilá conseguira transformar em história de amor o adultério de Weasley. Por isso, praticamente viu a juíza considerar seu argumentos e mais estes pontos, encarando Potter criticamente, apesar de tudo, pois também era um tanto decepcionante que aquele trio de amigos salvadores do mundo fossem, acima de tudo, humanos e, como tais, cometessem erros.

— O Sr. Malfoy tem razão. – Declarou Griswold. – Traga novas evidências, Sr. Promotor, e poderemos debater a questão novamente.

Edgecombe bufou, incrédulo, e continuou a perguntá-lo a respeito da índole de Granger, porém, a presença do Auror mostrava-se inútil àquela altura, bem como achou que seria quando decidira colocá-lo como a primeira testemunha. Potter podia afirmar que Granger não tinha tido tempo para cometer o crime, mas não era mais confiável, portanto, não poderia ser utilizado por nenhum dos lados, para bem ou para mal. Viu Blásio encarar Granger, jogando-lhe na cara que convocar Potter fora a decisão mais acertada, mas a castanha fez questão de ignorá-lo veemente, prestando atenção a juíza, que determinara recesso de dois dias para voltarem a Corte.

Tratava-se de um processo estafante para todos, além de que sabia que Griswold era o tipo de profissional que gostava de destrinchar cada possível detalhe sobre o caso, não deixando nenhum resquício de dúvida para recorrer. Não era à toa que a mulher fora eleita por Wizengamot como uma das profissionais jurídicas mais proeminentes do século no mundo bruxo. Então, por fim, todos se levantaram para que a autoridade máxima da sala se retirasse, fazendo com que todas as pessoas também começassem a se dispersar.

O show havia acabado. Mas os bastidores estavam apenas começando a se movimentar, ele notou ao observar Granger levantar-se de supetão, juntando as próprias anotações e ajeitando a bolsa para dirigir-se à saída, onde todos a esperavam para questioná-la sobre o primeiro dia de audiência. Assim, ao perceber que a mesma tentaria passar pelo mar de gente que se encontrava ali apenas com o objetivo de julgá-la, acenou para que Locke juntasse suas coisas e a seguiu, empurrando algumas pessoas para segurar o braço fino e encaminhá-la, mesmo com má vontade, mais rápido à saída.

Sem nenhuma palavra, ambos seguiram pelo imponente corredor ministerial, então com a ajuda dos policiais do próprio órgão, os quais impediram a entrada de todos no espaçoso elevador, mas deram passagem para que ambos o adentrassem. Sozinhos. Foi, pensativamente, que viu a porta sendo fechada ao passo que Granger empertigava-se em seu orgulho, como realmente era de seu costume. Dessa forma, simplesmente, enfiou as mãos no bolso dianteiro da calça e esperou pela explosão de fúria, que não demorou.

— Você não tinha o direito! – Ela virou-se rapidamente em sua direção, mas logo voltou os olhos para o ponteiro que indicava os andares. – Não podia ter mudado a estratégia, que nós combinamos previamente, sem o meu consentimento.

— Viu o que acabou de acontecer naquela sala? Nós vencemos a primeira batalha…

— Mas vai foder com a Guerra, pois o que eu vi… — Ela, realmente, o encarou. – Foi você desperdiçando uma testemunha importante para o caso somente devido a uma rixa infantil.

Observou, sem realmente se preocupar, a irritação brilhar fortemente em seus olhos castanhos, direcionada somente a ele e mais ninguém. Fazia muito tempo desde que aquele tom não era usado em uma frase contra o loiro, muito tempo desde que se empenharam em uma discussão tão acalorada, pois tudo o que menos Granger precisava era de Draco, supostamente, contra ela. Não depois de tudo pelo que passaram juntos desde o aborto. Portanto, não seria ele a pará-la naquele momento.

— Edgecombe iria praticamente depenar Potter no lugar de última testemunha e, como seu advogado, eu não iria mantê-lo apenas porque acha fofo que ele a defenda publicamente. – Ela arregalou os olhos minimamente, no que apenas levantou uma sobrancelha irônica.

— Harry era importante para lembrar ao júri o meu passado, tudo o que fiz e o que fizemos juntos pela sociedade bruxa, mas você resumiu nossa história a um mero e desprezível adultério. – Granger não conteve-se em elevar o tom.

— Fiz exatamente o que era o plano inicial do Promotor, tentando amenizar a imagem do “mero e desprezível adultério”, que é o que realmente aconteceu. – A expressão incrédula tomou todo o rosto feminino, no que Draco lhe mostrou sua melhor face de desdém e indicou a saída quando o elevador se abriu para o enorme e movimentado átrio do Ministério. – Quando tudo isso acabar, vou esperar um ‘muito obrigado’ junto ao cheque.

Granger ainda o fitou, a raiva exalando por cada poro, enquanto as pessoas adentravam o elevador, curiosas pela presença de ambos, mas não demorou a sair e encaminhar-se a uma lareira, resmungando e amaldiçoando-o. Observou os cabelos cacheados movimentarem-se pelas costas finas rapidamente, muito eficazes em demonstrar a distância que a mulher queria dele, no momento. Contudo, em meio a um suspiro fatigado, seguiu pelo mesmo caminho, desviando-se das pessoas e cumprimentando alguns que insistiam em encará-lo.

A castanha soltou a pasta com suas anotações sobre a mesa de centro, pesadamente, levantando o olhar, irado, em sua direção. Era possível ver como estava abalada pela forma como respirava, rápida e descontroladamente, assim como as inconfundíveis manchas avermelhadas que ilustravam seu pescoço e bochechas. Porém, nem mesmo isso o faria recuar em seu ponto, então, meramente, encostou-se contra a parede que separava a sala de visitas do hall de entrada da Mansão Black e cruzou os braços sobre o peito.

Havia muita tensão guardada ali. Não apenas pelos acontecimentos recentes, o orgulho do passado reverberava entre eles, confrontando-se mesmo no silêncio que muito dizia. Concordava que o estresse de toda a situação os colocava ali, em divergência como se estivessem defendendo teses opostas, quando deveriam entrar em um acordo pela convergência de suas ideias em prol da liberdade da mesmo. Entretanto, ainda assim, recusava-se a arredar o pé de seu orgulho para exaltar Potter quando a presença dele, certamente, só a atrapalharia no processo. Da mesma forma, sabia que ela demoraria a concordar que seu depoimento fosse necessário logo no início.

— Eu não vou admitir que as coisas sejam assim. – Ela disse em tom baixo, como uma ameaça. — Tínhamos um plano e você me colocou totalmente de lado para fazer as coisas do seu jeito, exatamente como imaginei que aconteceria.

— Concordamos que o meu jeito de trabalhar nunca havia sido do seu agrado. Eu não o mudaria agora, nem mesmo por você. – A viu respirar fundo, meneando a cabeça. – A elenquei como testemunha, mas bem sabe que pode manter-se calada perante as perguntas da Corte. As coisas ainda estão sob seu controle, no fim das contas. No entanto, terá de lidar com as consequências de mostrar-se uma testemunha hostil.

— Veja o que fez. – Granger quase murmurou, dando-lhe as costas e encaminhando-se a janela. – Tudo estava sob controle. Nosso, não meu e não seu. A questão é que, simplesmente, ignorou o fato de estarmos indo bem para me jogar às fogueiras de Edgecombe e da mídia. Você não precisava, Malfoy, apenas queria delimitar nossas posições no jogo.

Draco não tentou nem mesmo discordar ou defender-se, pois se conhecia o suficiente para saber que, sob a égide da Corte Ministerial, transformava-se. Era de sua personalidade que quisesse mostrá-la que tinha poder sobre o que acontecia ao seu redor, que todos as peças estavam girando de acordo com sua vontade para que, no final, tudo se resolvesse da forma imaginada a princípio: Granger livre de Azkaban e de qualquer acusação. Mas, realmente, não negava que agira como se a castanha fosse apenas mais uma peça do jogo. Bem, ela o conhecia melhor do que imaginara e nem mesmo precisar olhá-lo nos olhos.

Encarou o perfil bonito da mulher, concentrada demais em qualquer coisa que estivesse acontecendo além do cômodo quente demais e da janela de cortinas pesadas, provavelmente refletindo sobre sua situação. Àquela altura, Granger claramente tinha dúvidas a respeito de mantê-lo como seu defensor no processo, porém, não era uma decisão tão simples demiti-lo. Estavam indo bem porque ela e Draco tinham um plano? Ou estavam indo bem porque Draco não acatava suas ordens como um mero estagiário? Não desmerecera as habilidades jurídicas da castanha, simplesmente colocara as suas em prática, Granger nada tinha a ver com suas decisões na Corte. Não levara em consideração o que ela pensaria sobre suas ações depois, conduzira as coisas da mesma forma que fazia ao cliente leigo no assunto, tinha suas convicções e não as mudaria.

— Imagine a situação inversa e se pergunte se faria, sem questionar, qualquer coisa que eu lhe pedisse…

— Eu não o “pedi” nada, havia uma estratégia.

— E nós a seguimos! – Ela o cortou, então mais nervosa, e Draco rebateu. – Agora, se existe algum motivo, além dessa suposta e inexistente quebra de protocolo, para que não queira depor… É bom que me diga, Granger, pois eu não quero ser surpreendido no Tribunal.

De braços cruzados, quase como se estivesse encolhida contra si mesma, a viu engolir em seco e baixar os olhos ao chão. Teve a impressão de enxergar um tremor correr por seus braços, como lhe era costumeiro. Conseguiu captar o brilho lacrimoso dos olhos cor de âmbar, as luzes que já iluminavam a cidade lá fora o auxiliando, mas não retirou, ainda que receasse pela pergunta que estivera em sua garganta desde a reação da mulher na Corte ao colocá-la para depor.

A resposta não veio, mas o silêncio preencheu todo o ambiente de forma pesada. Seus olhos não a deixavam em momento algum, sempre em busca de captar qualquer pista que pudesse lhe dizer algo sobre seu questionamento, sobre Granger, embora não fosse minimamente de sua conta. Ele tinha de trabalhar para ela, por ela, não deveria lhe importar o motivo da castanha se recusar a depor, exceto que notara estar fazendo aquilo com tanto empenho também por si mesmo, o que os levava exatamente àquele momento. Bom, tinha de admitir que, talvez, tudo isso dizia muito mais a respeito de Draco, não dela.

— Eu… Só preciso que entenda. — Engasgou-se, a voz embargada, e o encarou, segurando as lágrimas, como sempre fizera. – Depois de tudo, não acho justo que eu tenha de me submeter a isso. Eu sequer sei se tenho psicológico para tanto. Não posso prever minha reação à arguição, ao tipo de pergunta que Edgecombe fará perante toda aquela gente que transformou isso num crime de homicídio marital apenas por interesse, sem pensar em mim, ou na minha dor.

— Sua dor por Weasley ou pelo que está sendo obrigada a passar? – Quis ter evitado a dura pergunta no momento em que saiu de sua boca, mas então já não era possível e o sorriso amargo que ela abriu o respondera sem nenhuma dúvida ou hesitação. Granger não sentia por Weasley, é claro. Seu casamento no fim, a forma deturpada com que o mantinham, era até estúpido questionar. – Apenas não deixe o júri saber disso.

Então, informou que tinha assuntos a resolver, ainda sobre o caso, pois todas as suas coisas haviam ido para o escritório juntamente com Locke e Zabine, fazendo o caminho da saída sem demora. Sua mente trabalhava incessantemente, considerando tudo que acontecera até então, todas as hipóteses que havia ignorado, tudo que colocara de lado em nome da saúde mental da mulher e que ainda o fazia enquanto a encarava, repentinamente repleta de sentimentos guardados à sete chaves. Contudo, Granger ainda o chamou, seus passos alcançando-o quando já fazia a curva do corredor, deixando sala e escada para trás.

— Você… Não vai me abandonar agora, não é?

Ela aproximou-se, tão receosa quanto a pergunta, no que Draco observou a forma como seu rosto se desenhava perfeitamente sob os cachos que o rodeavam. A viu morder os lábios, levando as mãos ao seu peito, à gola de seu terno, como que o testando para saber se afastaria seus corpos, impedindo a aproximação, mas sequer moveu-se, porque a energia que emanava entre eles sempre fora forte demais para ser ignorada, embora a insegurança dela fosse mais palpável do que qualquer outra coisa ali.

— Eu não faria isso.

A assegurou, no que não pareceu ser muito eficaz, pois a mulher apenas suspirou antes de encará-lo com a cabeça inclinada para alcançar seus olhos. Mesmo na meia-luz do hall de entrada, era possível ver como parecia afetada pela mera suposição de um distanciamento. Entretanto, ainda que percebesse como a sensibilidade da mulher o atingia, não poderia pender para seu poder de persuasão.

— Porque não seria profissional. — Ela apertou os dedos contra sua gola, puxando-o para ainda mais perto, seu tom em um murmúrio rouco, pesando todas as palavras. – Mas Draco… Não preciso apenas que entenda, como meu advogado. Preciso de você. Sabe disso, certo?

As manchas vermelhas não habitavam mais o rosto feminino. Agora, pelo contrário, percebia a forma instigante com que ela o segurava, seus lábios próximos e as respirações misturando-se. Em nenhum momento lhe passara a possibilidade de que ela podia mentir a respeito disso, pois seus gestos, quando tudo não parecia um jogo arquitetado pela mente afetada e não confiável de Granger, diziam e valiam muito mais. Quando ele encarava o bonito perfil durante a madrugada, sob as luzes amarelas do abajur, ou quando a sentia aconchegar-se a si, as pernas entrelaçando-se às suas com mais intimidade e conhecimento do que jamais pensara… Então, ele se convencia de que não se tratava de um jogo. Porém, a dúvida nunca deixara de persegui-lo e, agora, se mostrava mais presente do que nunca, como um fantasma a espreita de cada ato de ambos.

Por isso, inclinou-se para encaixar seus lábios nos dela. Não a importunara desde o aborto, não tiveram sexo desde então, sem contar que a aproximação da audiência os ocupara com assuntos jurídicos e burocracia. No entanto, era confortável como nunca deixara de ser, mas apenas uma confirmação ao que ela queria ouvir, afinal os pensamentos altos demais em sua mente lhe diziam que não queria estar ali para ela, não naquele momento. Gostaria de pensar com clareza e a presença da castanha sempre fora monopolizadora demais para que fosse capaz de ignorá-la completamente e conseguisse colocar as ideias no lugar de forma satisfatória.

No entanto, o contato que deveria ser superficial foi prolongado por ela quando Granger capturou sua boca novamente, dessa vez mais decidida, subindo as mãos de sua nuca até seus cabelos. Os lábios sobre os seus eram persuasivos, lascivos, e já estavam juntos há relativamente tempo suficiente para entender o que ela queria. Contudo, seu corpo parecia reagir apenas no automático. Seguia o movimento dos lábios dela, pois já o conhecia, e as mãos, antes muito ávidas pelo corpo macio e gostoso, mantinham-se rigidamente sobre a cintura fina, o que não demorou a que ela percebesse e se afastasse, apenas o suficiente para encará-lo.

— Sinto sua falta.

O sussurro que o atingiu foi quase suplicante enquanto as mãos dela abandonavam sua nuca, mas mantinham-se em contato segurando o tecido de sua roupa. Porém, tudo que pensava ao encará-la, embora não quisesse, estava relacionado à suspeita sobre a veracidade de suas palavras, o que bloqueara há muito tempo. Draco não podia ficar, se aquilo fosse a única coisa que passaria por sua cabeça, se não conseguia retribuir um mero beijo de forma minimamente decente.

Então, correu o dedo pelos lábios dela, contornando-os de forma muito mais culpada do que Granger poderia imaginar, pois também sentia sua falta. Sua mão, apoiada contra a curva delicada do queixo, correu pelo maxilar até encontrar sua nuca, sentindo a textura dos fios macios, acomodando-se ali por tempo suficiente para considerar que não queria deixá-la sozinha e que seus pensamentos, sempre muito menos confusos que os dela, poderiam esperar, mas era o que precisava em detrimento de sua vontade. Não pela primeira vez, sentia-se em uma redoma, construída por ambos, prestes a explodir pela incapacidade de conter a realidade de estarem juntos, devido às suas personalidades, seus passados conturbados e um presente incerto.

— Preciso ir para casa essa noite.

Bem, é muito tarde

Esta noite

Para trazer o passado

à tona

Somos um mas não somos os mesmos

Temos que carregar uns aos outros

One — Johnny Cash

Notas finais
Chegueeei, cheguei chegando.... E demorando, mas estamos aí com mais um capítulo cheio de tensões! Alguém esperava que Harry já fosse aparecer logo nesse início? Ou tinham em mente a estratégia de Hermione sobre deixá-lo para o fim? Bom, ela claramente não ficou satisfeita, enquanto que Draco foi tomado pela dúvida, em muito tempo, mas acredito ser normal tendo em mente a convicção dela em NÃO querer depor, certo? Tem gente que vai querer me matar? Tem. As coisas estavam se acertando? Estavam. PORÉM, leiam nas entrelinhas e interpretem também tudo que Draco está passando aqui. Pra quem queria Hermione efetivamente Neurótica, essa é sua tour, então, me diga o que achou! Ela tentou manipular o Draco ali or not? Joguei na mesa hem! Boooom, é com esse trechinho bem conveniente de Johnny Cash que eu me despeço de vocês, agradecendo IMENSAMENTE aos comentários no outro capítulo - por que eu também estava SUPER ansiosa para esse julgamento começar e com tudo que ainda tem para acontecer. Quero vê-los aqui novamente. Ah, e também quero agradecer a S2arinha, por recomendar duas das minhas ones - Ensaio Sobre Defeitos e Hotel California - é sempre importante saber como essas histórias tocam vocês. Por isso, não deixem de comentar! ALÉM, não posso deixar de avisar que a PENÚLTIMA parte da minha coletânea de fics da Sia foi postada, cheia de babados com Astoria, então passem lá também para deixar suas impressões ;) ENFIM, acho que é isso, juuuuro tentar não demorar no próximo e peço desculpas por esse. Beijão, até os babados do próximo! ♥