Neurótica
35 Capítulo 35
O reflexo no espelho com arabescos em prata na borda não lhe dizia nada enquanto pacientemente corria a lâmina sobre a pele, livrando-o do início de barba que o incomodava desde o dia anterior. Espichou o pescoço em um movimento calculado para alcançar um ponto mais difícil, mas precisou apertar os dedos ao redor do objeto cortante para não ter de lidar com um corte inconveniente pelas próximas horas.
Há alguns dias, suas mãos adquiriram certo tremor irritante e não era algo do qual pudesse livrar facilmente, principalmente levando em consideração a forma como os problemas se multiplicavam. Parecia encontrar-se em um labirinto conflituoso que se fechava cada vez mais ao seu redor, ainda que, pelos seus cálculos, devesse estar mais próximo da saída do que nunca. A sensação não era confortável. Detestava sentir que sua vida era uma “babel” em potencial, pronta para desmoronar a qualquer momento.
Tentara equilibrar o que tinha que ser equilibrado e, especialmente, fazer o serviço de jardineiro que a maldita Bellatrix mencionara a respeito da necessidade da poda de certas árvores. Porém, exatamente como naquela época, a intenção só lhe trouxera mais dor de cabeça. Ele não era alguém que se desfazia de seus problemas como quem se desfaz de um tinteiro velho, costumava ser do tipo que resolvia os problemas após encará-los com frieza e seriedade – após obrigar-se a aprender tal arte. Draco não perdia a cabeça.
Revirou os olhos a si mesmo e limpou a lâmina afiada sob a água corrente que escorria da torneira de pedra clara. Examinou o rosto novamente, satisfeito a se ver livre de qualquer resquício dos pelos que nunca foram de seu agrado e, finalmente, dirigiu-se ao closet espaçoso. Não se deu ao trabalho de gastar muito tempo na escolha de suas roupas, as quais, obviamente, nunca fugiam dos escuros tons habituais, assim como no que dizia respeito aos sapatos sociais sempre italianos.
Enrolou a gravata ao redor do pescoço de forma automática, assim como todos os seus atos nas últimas três semanas. O único lugar em que colocava alguma energia era em seu trabalho, pois assim o exigia, do contrário, ficaria plenamente satisfeito em realizar qualquer outra tarefa mecânica, onde pudesse apenas e somente realizar movimentos de varinhas pré-determinados, tendo os feitiços na ponta da língua. Então, manteria sua atenção ocupada e seus pensamentos não o trairiam com tanta frequência quanto vinha ocorrendo.
Abaixou a gola da camisa com cuidado para que nenhum vinco a maculasse, anotando mentalmente que deveria aparar as próprias unhas e, magicamente, o terno levitou em sua direção para que pudesse vesti-lo. Um resquício de sono ainda habitava seus olhos, inchados devido às longas e mal dormidas últimas noites. Gostaria de ter tido tempo para passar em uma loja qualquer e comprar poções para sonos sem sonhos, mas seus dias haviam sido corridos o suficiente para que isso sequer passasse por sua mente antes de encontrar-se com a cabeça no travesseiro e os olhos esbugalhados na escuridão em direção ao teto, incapaz de conseguir uma posição confortável para dormir.
Não reclamava, dedicara-se de forma proposital ao trabalho, pois, apenas assim sua maldita consciência silenciava com facilidade. Os termos e leis mágicas, contratos e doutrinas, clientes chatos e inconvenientes, as horas extras no escritório escrevendo um artigo qualquer a respeito da administração ministerial... Tudo lhe era uma distração para o que deveria ser uma prioridade, sabia. Não se enganava dizendo a si mesmo que aquilo era o bastante, que dedicar-se aos processos de Granger – todos eles – era o que ela precisava no momento, pois não o era. Da mesma forma que sabia ser um canalha por deixá-la no momento em que mais necessitava de sua ajuda. A covardia era algo que convivera com Draco desde que era apenas uma criança, aprendera a aturá-la.
Contudo, ao alcançar a própria pasta, seus pensamentos foram interrompidos pela abertura brusca da pesada porta de carvalho escuro. A avistou antes que ela pudesse colocar os olhos sobre si, mas o ruído dos saltos contra o piso era rápido o bastante para avisá-lo que não teria tempo para preparar-se do que, também sabia, seria um ataque ao seu ego, sua honra, sua suposta incapacidade de empatia e ao seu caráter. Ele merecia, de qualquer forma.
— Você precisa voltar.
Voltou-se à mulher de forma tranquila, realizando que, naquele momento mais do que em qualquer outro, Andrômeda em muito lembrava a irmã mais velha. Tal qual Bellatrix Lestrange, seus cabelos negros encontravam-se desordenadamente cacheados, as feições determinadas e a respiração rápida, demonstrando sua indignação naqueles traços que lhe pareciam prestes a ordenar uma maldição imperdoável em sua direção. Esta costumava ser mais delicada com sua expressão sempre amena, pronta para erigir um conselho útil quando necessário, mas não naquele dia. Andrômeda tinha seus momentos.
— Você vai voltar. – Ela declarou firmemente, ignorando seu silêncio ante a ofensiva. – Vai voltar e vai cuidar dela, como devia ter feito desde o início!
Andrômeda vinha dormindo na Mansão Black há duas semanas, desde que o próprio Draco se declarara completamente incapaz de ajudar Granger em sua agonia crescente. As únicas palavras que trocavam eram aquelas relacionadas a seus problemas jurídicos, não havia uma chance sequer de iniciar qualquer assunto sobre a situação pela qual a mulher passara pela segunda vez. O aborto era um tabu. Hermione não lhe dava qualquer abertura para falar a respeito e Draco não se via hábil o suficiente para trazer a questão à tona, para dizê-la algo que pudesse aliviar o estado de catatonia em que se encontrava.
Assim, a decisão de voltar a Mansão Malfoy lhe calhara ao extremo. Queria um tempo para si, para tentar digerir a situação, entender o que estava acontecendo com eles e como deixaram a situação chegar àquele ponto, sendo dois adultos responsáveis e nada ingênuos. Além disso, a presença de Granger o perturbava. A cada vez que a encarava, via a culpa que ela lhe incutia brilhar nos olhos amendoados, desesperadamente intensa para que pudesse ignorar. E não conseguia lidar com tanto, pois, apenas alguns dias antes, Draco era aquele que estendia a mão para tirá-la do fundo do poço. Todavia, sentia que o fundo do poço, agora, podia ter espaço para dois.
— Por que eu, supostamente, fui o causador de toda a merda? – Draco buscou o anel da família, o qual se encontrava em um suporte para relógios no meio do closet. – Já sou consciente o bastante disso, tia.
— Autopiedade não combina nem um pouco com você, Draco. Não é mais uma criança, um garoto sem direção que têm seus atos justificados pela forma como foi criado. Assuma o que fez, como o homem que se tornou.
O tom da mulher não era desequilibrado como o de Bellatrix, mas podia ser tão cruel quanto. A determinação de Andrômeda era louvável, foram pouquíssimas as vezes em que a vira daquela forma. Era inegável o modo como, em situações como aquela, demonstrava ser uma legítima Black, semelhante às irmãs como na maioria das vezes parecia querer esconder. Do alto de seus sessenta e poucos anos, com o rosto corado pela fúria e os olhos castanhos fuzilando-o, Draco não poderia adorá-la mais, pois Andrômeda conseguia o que não estava ao alcance de mais ninguém: castigá-lo em sua covardia.
Durante a maior parte de sua vida, tentara utilizar a própria falta de coragem a seu favor. Tirava vantagem do que não queria fazer, manipulava os outros para não ter que sujar as próprias mãos, esforçava-se para esconder os próprios medos em um fundo falso de um armário empoeirado qualquer, pois, assim, não precisaria encará-los... Exatamente como fazia agora. Andrômeda o puxara, forçando-o a deixar de lado essa parte de seu sempre duvidoso caráter, desde quando começaram a ter contato, mas, principalmente, desde a morte de Lucius. Ela o ajudara a encontrar um caminho em que pudesse seguir sem a sombra de seu pai, apesar da alçada do sobrenome, pois sua mãe também não sabia como fazê-lo — compenetrada demais que estivera em seguir os passos do marido, esquecera-se de si mesma.
— Não venha me dizer para assumir meus erros, sou crescido o suficiente para conhecer todos eles. – Voltou ao reflexo agasalhado da mulher ao espelho. – Acha que não tentei?! Quando Granger voltou para casa, tudo que quis foi alimentar a própria inércia. Prolongar a dor de perder uma criança que nem sabia que esperava. Eu sou parte dessa dor, sou o responsável por ela! Acredite: Granger não me quer por perto.
— Vocês... Tiveram essa conversa ou foi covarde demais para assumir a ela essa responsabilidade que diz ter? – Andrômeda ironizou, no que Draco apenas revirou os olhos e ela continuou forçando-o. – Está arrependido? Vai dizer que não faria tudo novamente?
— Eu não preciso que ela me diga que lhe causei o aborto, tia! – Subiu o tom em alguns decibéis, mas a senhora não pareceu surpresa, parecia ser sua intenção desde o início. – Não quero ouvir da boca dela que a causei o mesmo tipo de dor que Weasley. Por que eu não quis... Em momento algum, eu... Não sabia! Eu sequer... A toquei naquela noite!
Apoiou-se contra a cômoda de vidro que ocupava o centro do closet, só então percebendo como sua respiração estava acelerada por reviver tais memórias novamente após dias tentando se concentrar em tudo que fosse possível para bloqueá-las. O tremor em suas mãos lhe pareceu mais violento do que em qualquer outra ocasião, sentia os músculos rígidos como uma corda em seus ombros e os nós dos dedos encontravam-se brancos, apesar de não estar exercendo força alguma.
Assim, fechou os olhos e respirou fundo diversas vezes. Sentindo a garganta seca, obrigou-se a tentar conter a onda de adrenalina que não ultrapassava seu corpo há tempos. Suas costas e braços irromperam em dor num arranque repentino, quase como um choque, mas conhecia-se. Tinha consciência que todas essas sensações físicas completamente desagradáveis se deviam unicamente a seu estado mental de cólera, culpa permanente e estafa profissional. Merlin, Draco deveria ser a parte saudável daquela equação!
Dessa forma, no que teve a impressão de serem vários depois, apesar de não poder calcular com certeza, sentiu a tia aproximar-se em passos curtos, mas determinados. Ela apertou seu braço em sinal de apoio e subiu uma das mãos até a nuca, acariciando os cabelos de forma cuidadosa, sem nada a dizer por tempo suficiente para quase alimentar a certeza de que deixaria o assunto de lado ao vê-lo vergonhosamente sucumbir daquela forma. Todavia, Andrômeda apenas mediu o tom de voz para disfarçar a repreensão.
— Você não é Ronald e ela... Não é a mesma Hermione que estava casada com ele. – Do lado de fora do cômodo, não era possível ouvir o murmúrio calmo da mulher, claramente não querendo perturbá-lo mais. — Ainda que tenha suas dúvidas, estão vivendo o mesmo tipo de dor. Um não é mais culpado que o outro, se realmente houver a necessidade de culpar alguém. Foi um acidente, Hermione sabe e precisa de você para ajudá-la a superá-lo.
— Como pode estar tão convicta disso? – A ouviu suspirar.
— Quando chego a Mansão Black, vejo em seu olhar... Não sou eu quem ela espera todas as noites. – Sentiu o gosto do próprio sangue ao morder a parte interna do lábio inferior antes de vê-la colocar-se na ponta dos pés para depositar um beijo leve em sua bochecha, ilustrando sua saída. Entretanto, apoiando-se na maçaneta da porta do closet, Andrômeda hesitou e voltou-se a ele novamente em suas feições mais sérias. – Vou dormir em minha casa hoje. Se Hermione bater à minha porta, aos prantos novamente porque você não apareceu... Nós acabamos aqui, Draco.
A coisa toda havia sido um completo engano envolvendo cartas atrasadas e uma Hermione desesperada sendo consolada por sua tia após colocar em prática o maior nível de insensibilidade do qual dispunha em relação a ela, mas Andrômeda sabia usar seus rancores no momento certo. Sorriu, sem humor algum, e buscou a pasta executiva com os documentos que resumiriam seu dia em uma tarefa laborosa e irritante a respeito da ação proposta contra Lilá Brown.
Assim, horas depois, via-se atentamente seguindo com os olhos os movimentos contidos de Cho Chang enquanto a mesma discorria sua defesa sobre a acusação de Hermione contra Brown. Era possível perceber como a japonesa encontrava-se centrada, demonstrando seriedade, muito diferente da mulher presunçosa que prometera contar até as últimas moedas do bolso de Granger na busca de uma indenização à sua cliente. As duas ainda não haviam partido a caça às bruxas, por algum motivo desconhecido por ele, embora certamente pudesse ter um palpite quase certeiro: Chang podia garantir uma vitória, caso a castanha fosse condenada na ação criminal de homicídio. Ela não moveria uma peça do tabuleiro antes de calcular os riscos, sem ter uma larga chance de sucesso.
Contudo, com sorte, ele a impediria antes mesmo de tentá-lo. Apesar de não conseguir que o processo de litigância de má-fé que impetrou contra o Ministério da Magia em nome de Granger fosse desvencilhado da ação criminal contra a mesma, pois seria dada a chance ao órgão administrativo de defender-se e fundamentar a boa-fé que envolvia a litigância contra Hermione Granger — provar que estavam certos e que não se tratava de mera publicidade; argumentara em audiência preliminar de urgência, alguns dias antes, que a sentença de Brown a respeito de seus últimos atos contra Granger não poderia ser contaminada pelo resultado da ação penal pela qual sua cliente respondia.
Dessa forma, Chang não pudera fazer muito para evitar que a audiência fosse marcada com rapidez, além de anexar ao processo criminal de homicídio uma observação sobre a ordem de sentença das ações contra Granger, apesar de os dois pedidos caminharem em ramos diferentes do Direito Mágico. Custaram-lhe alguns favores antigos cobrados de última hora, tinha de admitir, além de várias noites mal dormidas no escritório examinando precedentes jurídicos e fundamentações legislativas e doutrinárias necessárias ao convencimento do juiz Lancelyn, mas ali estavam eles e a advogada da outra parte não tinha munição suficiente para defender-se.
Calúnia e difamação, dois crimes contra a honra até então inquestionável de Granger, afinal a mesma ainda não havia sido condenada. O primeiro era relativo a todas as declarações públicas de Brown acusando a castanha de matar o marido enquanto ainda não havia provas, apenas alimentada por certa convicção um tanto quanto alienada. Enquanto que a segunda era mais subjetiva, dizendo respeito à reputação de Granger e a fama construída pela outra sobre sua personalidade e caráter, além do fato óbvio de escancarar sua vida pessoal a todos que estivessem interessados, principalmente nos primeiros meses após a morte do ruivo. Brown fizera uma merda maior do que imaginava e podia lidar.
Não se importava minimamente, no fim das contas, considerou sem receio algum ao voltar os olhos à mulher de cabelos loiros em cachos e rosto inchado devido ao estágio avançado de gravidez. Ela encarava Granger de forma presunçosa, desafiadora na mesma medida em que sua advogada vinha sendo cuidadosa no andamento do processo. Certamente, não tinha ideia do que poderia lhe acarretar no saboroso caminho de vitória que sentia estar percorrendo. Ainda, vestira-se de forma a realmente exibir sua gravidez à castanha, com intenções desnecessárias de machucá-la ou fazê-la perder o controle, o que quer que fosse, como a vadia sem escrúpulos que era — constatou, não pela primeira vez.
Granger, por sua vez, sentada imediatamente ao seu lado esquerdo perante a mesa de madeira maciça e avermelhada que acomodava a todos na sala privada, encontrava-se determinada a ignorar qualquer atitude da outra. A conhecendo como conhecia, sabia que poderia sucumbir a um argumento mais ofensivo da parte de Brown. Sua perda ainda era muito recente, muito embora a rival só tivesse conhecimento de seu primeiro aborto e não fizesse ideia do que a submetia com suas provocações tolas àquela altura. Aos demais, provavelmente, sua cliente apenas demonstrava maturidade, orgulho e superação ao tratar a amante do marido daquela forma, mas vira como a castanha imediatamente reagira à figura enormemente grávida e forçara a se controlar, apesar de tudo, e respirar fundo antes de sentar-se e esconder as mãos trêmulas e, presumivelmente, geladas.
Além de tudo, conseguira que a audiência ocorresse em um tribunal mais íntimo, embora o “segredo de justiça” lhes tivesse sido praticamente negado. O fato de estarem em um aquário envidraçado que dava vista a quem quer que passasse por aquele corredor escuro do Departamento de Execução das Leis da Magia fazia com que se sentisse um animal em exposição e, pelo modo como a castanha reagira a notícia, aquela forma de transcorrer também não a agradava. Do lado de fora, algumas cadeiras haviam sido acomodadas, bloqueando o caminho para os servidores do Ministério, pois estes não estavam tão interessados quanto a imprensa bruxa. O único ponto positivo, entretanto, é que a sala em si era mais silenciosa e tranquila do que o Décimo Tribunal ao não sujeitar-se às reações inconvenientes do público. Ali, os jornalistas simplesmente ouviam e tomavam nota, sem o característico estardalhaço que sempre os acompanhava.
Dessa forma, forçara-se a refrear o instinto de estender o braço para apertar as mãos tensas de Granger, a qual constantemente corria os dedos pela calça social clara, como se houvesse algum vinco. Era infantil e pessoal demais, além de inapropriado, visto a posição de advogado/cliente que ocupavam ali. Contudo, não pela primeira vez, ouvia-a respirar fundo e prender a respiração por longos segundos em uma clara tentativa de controlar as próprias emoções, concentrando-se em algo que não fosse o que ocorria naquela sala. Tinha plena consciência de que as palavras de Chang a estavam irritando ao extremo.
— [...] Dessa forma, nota-se, Meritíssimo, que as evidências corroboram a tese da defesa de que Granger utilizou-se, sim, de chantagem emocional durante todo o período em que seu casamento estava em crise para manter Ronald Weasley preso a ela. – Ela lhe empurrou uma caixa de madeira com uma etiqueta, que sabia muito do que se tratava. – As cartas trocadas entre o Sr. Weasley e minha cliente já bastariam para comprovar a forma como a então Sra. Weasley agia em âmbito pessoal, apesar do que fazia transparecer publicamente. Além disso, a Srta. Brown prestou serviços à sociedade ao desmascarar a verdadeira personalidade de uma mulher que sempre foi considerada um exemplo a todos, uma heroína de guerra que mantinha uma vida nefasta e falsa à custa do emocional e da vida devastada de seu falecido marido. Todos hão de reconhecer que o direito à informação, então, foi exaurido ao máximo, não há como negar, mas apenas em razão de bens maiores: o interesse público em desmascarar um falso herói; o direito privado da Srta. Brown de levar uma vida digna, para que não fosse retratada como a vilã da história que, certamente, Granger a tornaria, por manter uma vida paralela com o Sr. Weasley pelo simples fato de se amarem como o casal Weasley não o fazia; mas... Principalmente, Meritíssimo, em nome da criança que a Srta. Brown gesta com tanto carinho desde que o pai da mesma foi brutalmente assassinado; em nome da não estigmatização e retaliações futuras que essa criança pode sofrer pela própria sociedade devido aos caprichos de uma mulher inescrupulosamente ambiciosa em suas convicções e vontades.
Chang finalizou com um sorrisinho que deveria transparecer, ao mesmo tempo, satisfação e humildade, aparentando a própria convicção no que dizia, exceto pelo fato de que não casava com seu estilo de advogar apelar para a questão emocional do caso. Ela tentara convencer o juiz com uma pintura romântica do casal Brown-Weasley, exatamente como o Profeta Diário vinha fazendo, e até tivera sorte de o juiz designado ser o ignóbil Dolf Lancelyn, um homenzinho voluntarioso, sempre propenso a mudar de ideia em relação a tudo que dizia respeito à audiência e, principal e infernalmente, às sentenças que dava – sendo convencido e “desconvencido” muito facilmente.
Portanto, Draco deveria dar a melhor fundamentação possível à sua arguição final, principalmente porque sabia que suas provas vinham tendo mais força desde a primeira audiência, cinco dias antes, e que Chang só recorrera àquela linha de defesa porque tinha consciência disso. Assim, levantou-se e fechou o bloco de anotações para demonstrar confiança aos presentes antes de abotoar o terno e voltar-se apenas ao juiz, de cabelos incrivelmente prateados, nariz adunco e um rosto macilento nada simpático. Lancelyn o detestava, mas o convenceria antes mesmo que o homem percebesse.
— Veja, Meritíssimo, não sou capaz de enxergar qualquer tipo de direito que a sociedade possa ter em relação à vida privada de quem quer que seja, ainda que a pessoa em questão seja Hermione Granger. Aliás, minha cliente, uma mulher respeitada, Promotora do Ministério, heroína de Guerra, não deixou de ser um exemplo da noite para o dia. As falsas acusações públicas da Srta. Brown foram as responsáveis por manchar sua imagem, destruíram sua honra, reputação e nome em razão do ciúme nutrido pela outra. E isso, Meritíssimo, não é um precedente que, como operadores do Direito Mágico, podemos permitir. – Respirou fundo, sentindo o olhar furioso da loira sobre si, mas as palavras ali simplesmente chegavam à sua língua após noites preparando-se para aquele momento. – Antes que Hermione Granger pudesse proferir qualquer palavra em sua defesa, os jornais se referiam a ela como assassina com base em declarações sem fundamentação alguma, apenas baseadas em relatos da amante de seu marido, uma mulher que, claramente, cobiçou por muito tempo seu modo de viver. Lilá Brown não poderia jamais dar um depoimento imparcial, uma acusação de homicídio que não estivesse viciada por sua inveja, que não tivesse a intenção única de prejudicar Granger. Ela conseguira, afinal de contas. Granger foi afastada do Ministério, tendo sua carreira como jurista prejudicada em seu auge. Granger foi apontada e julgada socialmente com base em alegações falsas, taxada como isso ou aquilo devido às acusações ininterruptas de Brown, que se utilizou de um direito inexistente e putativo. Então, se as perseguições sofridas por minha cliente nos últimos meses não foram suficientes, os diversos jornais apresentados pela acusação o são. E, além disso, posso solicitar a presença de testemunhas que presenciaram as várias vezes em que Granger foi hostilizada em razão de tais alegações, inclusive dentro do Ministério da Magia. Por isso, Meritíssimo, adiantando, a acusação negará qualquer tipo de acordo que a outra parte possa propor, convicto estou de que defendo uma mulher honrada contra o comportamento injusto e ilícito de alguém com uma sede de vingança há muito nutrida.
A audiência encerrou-se minutos mais tarde com o pronunciamento de que a decisão do juiz sairia em audiência futura, marcada para dali uma semana. Granger se dirigiu para fora, antes que qualquer um pudesse trocar qualquer palavra com ela, desviando-se dos repórteres sem sequer encará-los, apesar das perguntas cada vez mais estridentes a seu redor e dos flashes inconvenientemente disparados. Porém, simplesmente pôde acompanhá-la com os olhos, observando-a encolher-se contra o casaco escuro por ser submetida a tal situação.
— Eles são... Cruéis, não? – Quase sussurrou a garota Locke, sentada à sua direita enquanto também encarava a cena.
Apenas meneou a cabeça e voltou a seus afazeres após Lilá Brown arrastar a cadeira de forma alta e sair a passos largos, com Cho Chang a seu encalço após perceber que os jornalistas presentes – aqueles gatos pingados – não eram lá muito importantes para que ela lhes dedicasse qualquer atenção especial. Dessa maneira, a mulher seguiu pelo mesmo caminho da rival, cruzando olhares com a morena que fazia o caminho inverso.
Parvati Patil adentrou a sala trazendo seu característico aroma de sândalo ao ambiente, balançando os cabelos negros e brilhantes atrás de si, ostentando um vestido vermelho profundo que chegava abaixo de seus joelhos. Porém, apesar da ótima aparência que sempre mantinha, suas feições não eram nada agradáveis. Deveria acostumar-se à constante má vontade da mulher em relação a ele, de qualquer forma, Draco merecia.
— Seu novo brinquedinho avisou-me que queria conversar. – Ela ignorou Locke, que aparentou completa indignação pela colocação da outra, a qual, por sua vez, ignorou a estagiária. – O que quer?
— Deixe-nos a sós, Locke. – Lentamente, a garota fez seu caminho até a saída, como se quisesse retrucar Patil, mas não demorou a que restassem apenas os dois advogados na sala. Voltou-se a mulher. – Preciso de um favor.
— Quando você não precisa de algo, querido? – Ela desdenhou e Draco revirou os olhos ao vê-la cruzando os braços. – Não vou lhe fazer nada. Eu já cedi demais e até agora não vi nenhum benefício resultante disso.
— Sua carreira continua intacta...
— Graças a sua chantagem. E eu não gosto de ser chantageada, Malfoy. – Ela o cortou, firmemente, e aproximou-se. – O que aconteceu semana passada? Não vai se repetir. Eu quero distância de você e desse seu maldito jogo para conseguir livrar uma assassina de Azkaban. Não me procure mais.
O acontecido da semana anterior havia sido um misto de curiosidade e distração. Ele tentava evitar pensar em Granger e em todos os problemas que, constantemente, a rodeavam e, por sua vez, também o rondavam devido a ela. Patil estava no Caldeirão Furado, ele também. Além disso, ela era realmente atraente, nunca negara. Assim, após muitos drinques e diversas provocações, principalmente a respeito do que descobrira em relação a ela, o caminho até uma das suítes do bar-hospedaria pareceu fácil demais.
Nessa noite conseguira dormir tranquilamente após vários dias de perturbação. Não pensara em Hermione, concentrara-se no corpo da indiana e nas sensações que este lhe produzia, principalmente pelo modo como se interavam naquele campo. Patil era completamente diferente de Granger – em parte porque suspeitava que ela quisesse puni-lo e tudo foi bastante... Agressivo. Porém, pensara nela depois. Então, o resultado da merda toda fora classificar o sexo com Patil apenas suficiente quando, conscientemente, sabia que ela merecia mais.
— Existe um processo nos arquivos do seu Departamento. – Ele começou, vendo-a retesar quando já estava se encontrava quase à porta. – Sutter vs. Dippet. Não é recente, sabe a que me refiro. Correu em segredo de justiça, não tenho acesso e nem quero constar meu nome ao reivindicá-lo.
— Eu não sou sua capanga, Malfoy! – Era possível ver a fúria praticamente escorrendo do brilho de seus olhos, mas não recuou.
— Preciso de uma cópia e do seu silêncio. – Ignorou de forma deliberada as recusas da mulher e se aproximou para abrir a porta e seguirem para o elevador. – Lhe entregarei o que tenho contra você, inclusive as lembranças a respeito do dossiê, após ter este processo em mãos.
— Se estiver tentado me enganar, Malfoy...
— Pessoalmente, não me importo com seus favores sexuais, Parvati. Não faço questão de manter provas para chantageá-la e, principalmente, não quero esse atrito a cada vez que lhe peço um favor. Podemos nos entender sem esse... Empecilho. – As portas do elevador se fecharam ao redor de ambos. – Estou lhe dando uma prova de minha boa-fé.
A mulher ainda o encarou, os olhos bem delineados atentos e desconfiados, por alguns momentos, analisando a expressão tranquila de alguém que, supostamente, não teria problemas demais para resolver assim que aquele elevador se abrisse. Draco manteve-se firme, ciente de que estava desfazendo-se de uma das cartas que tinha na manga, mas também convicto de era o necessário a ser feito. Além disso, irritar Patil ainda mais não era uma boa estratégia a ser seguida, pois queria mantê-la ao seu lado de boa vontade e não simplesmente por que a estava ameaçando.
— Sua boa-fé não é o suficiente para mim. Ainda vou querer ser recompensada por jogar no lixo o caso da minha vida. – As portas do elevador se abriram e ela lhe lançou um último olhar. – O processo estará em suas mãos quando me garantir que toda aquela merda estará enterrada.
Patil seguiu seu caminho para onde quer que fosse, desaparecendo entre os funcionários do Ministério com facilidade e Draco não demorou a encontrar sua assistente de expressão extremamente entediada ao observar o movimento do local enquanto chupava infantilmente o que descobriu ser milk-shake, uma espécie de sorvete trouxa. De braços cruzados, a menina usava calça marrom, botas baixas e um agasalho xadrez de vermelho sobre uma blusa branca de golas altas. Ela não deixara de ser estranha, mas estava se tornando uma estranha mais esperta e atenta.
— O que tem pra mim? – Ela lhe estendeu uma pasta.
— O Promotor que assumiu o processo contra Granger. Charlie Edgecombe – A pasta continha as informações mais essenciais a respeito do ministerial, inclusive uma foto recortada de jornal, mas, ainda assim, Locke continuou. – Extremamente tradicional, não espere a inovação de Patil. É especializado em fraude contratual, ou seja, pode ser bastante importuno, se quiser, e o Ministério o adora. Mas não tem muita experiência em casos penais, além de detestar a imprensa.
Impressionou-se com a autoconfiança adquirida por ela no último mês, em detrimento da garota tímida que se apresentara a vaga de estágio, mas decidiu não comentar e tratá-la como se nada demais houvesse acontecido para que Locke continuasse a tentar impressioná-lo com sua competência. Dessa forma, ambos sairiam ganhando e o ego da menina não se tornaria maior do que o de seu mestre.
— Deixe em minha mesa assim que voltar, tenho um compromisso agora. – Avisou, entregando-lhe a pasta de volta e vendo-a franzir o cenho.
— Mas... A reunião com Waterby será daqui meia-hora.
— Waterby pode esperar até amanhã, se realmente quiser minha presença.
Estavam prestando consultoria jurídica a Morag Waterby, um milionário americano do ramo de varinhas que estava abrindo uma loja na cidade e, apesar de ser Zabine o responsável por processos não penais, o homem insistia que ele estivesse presente. A publicidade que a defesa de Granger trouxera, além da recente parceria com as Universidades e o Ministério começaram a render frutos: os galeões no cofre do escritório em Gringotes aumentariam satisfatoriamente naquele ano.
— Emily e o Sr. Zabine me fizeram garantir que faria com que estivesse lá. – Ela argumentou em um gemido.
— Lamento por você.
— Posso perceber sua profunda consternação por mim, Sr. Malfoy.
Após a constatação irônica da garota, despediu-se e encaminhou a uma das lareiras para que pudesse aparatar a Mansão Black. Não estava relacionado ao sermão de Andrômeda, mas ver Granger lidar daquela forma com os jornalistas lhe fizera perceber que a mesma não estava seguindo em frente, superando. Já era de se esperar que a castanha estivesse melhor, mas sabia que o que ela demonstrara na audiência fora o melhor que podia dar enquanto estivesse quebrada, lidando com algo muito mais importante do que Lilá Brown.
Entretanto, não parecia estar se saindo tão bem quanto deveria. A casa estava silenciosa e fria como há muito não via. Os cômodos inferiores pareciam intocados há dias, não apresentavam sinal de qualquer tipo de presença humana, apesar de Andrômeda também estar frequentando a casa. Imaginou que a movimentação das duas mulheres resumia-se aos quartos, cozinha e biblioteca, visto que, claramente, Andrômeda detestava passar mais tempo do que o extremamente necessário na casa onde passou sua infância; enquanto que Granger não parecia estar em condições de fazer muito mais do que isso em detrimento da pequena mudança que proporcionara a antiga biblioteca em épocas melhores.
Porém, ao subir as escadas lentamente após se desfazer da pasta executiva, percebeu que até mesmo a biblioteca tinha os candelabros apagados, além de estar com todos os livros em seus respectivos lugares, assim como a área de leitura intocada. Com um suspiro resignado, encaminhou-se ao quarto que ainda continua as iniciais de Sirius Black na porta e abriu-a lentamente, sem bater, ignorando o gemido que ecoou alto demais pelo cômodo.
Embora estivesse vazio, a bagunça espalhada pelos móveis, chão e cama parecia refletir a desorganização interna de Granger. Algumas peças de roupas estavam espalhadas pelo chão, poltronas e cama, sendo impossível definir o que estava usado ou não. Por todos os lugares viam-se apenas livros jurídicos com folhas dobradas, abertos e marcados por tintas coloridas, da mesma forma que os pratos e copos sujos ocupavam os locais mais inapropriados – vide o pedaço de pizza esquecido no parapeito da janela a taça quebrada sobre o tapete verde escuro.
Tratava-se de uma visão completamente deprimente e desapontadora sobre ela, mas precisava lembrar a si mesmo que Granger não era diretamente culpada, realmente. Ela estava passando por coisas demais, os problemas nunca paravam de aparecer, a impressão era de, após resolver um, surgiriam mais dez entrando pela porta sem pedir permissão. Era, simplesmente, pressão demais para seu psicológico já debilitado pedir que lidasse com tudo da melhor forma. O próprio Draco, que se considerava mentalmente saudável, já sentia o esgotamento promovido por aquele caso e, principalmente, por ela.
Assim, desfez-se do terno, do colete e da gravata e passou a arrumar tudo, limpando e organizando o que era possível com feitiço e o que não era manualmente. Ele não devia ter se afastado, ainda que a comunicação entre eles não fosse a mais satisfatória. Era um egoísta filho da puta, não havia como negar. Draco não queria carregar a culpa pelo aborto, mas certamente a carregaria por fazê-la afundar no caos que era sua mente e apenas observar tudo de longe, em seu gritante individualismo, como um espectador impotente, que se recusa a tirar os olhos do drama alheio. Exceto, é claro, que ele era parte da equação toda e deveria estar em cena, impedindo que Hermione fizesse qualquer besteira, como sucumbir ao álcool novamente, mas agira como uma criança irresponsável, incapaz de responder pelos próprios atos.
Entretanto, antes que pudesse jogar todos os pergaminhos inúteis no lixo, seus olhos recaíram sobre um recorte de jornal meio amassado que se encontrava sobre um dos livros. O responsável por fazê-la ignorar completamente a imprensa em um tratamento que muito os irritava, mas a prejudicava tanto quanto. Passara-se um mês desde que Ginny Potter concedera a entrevista e, ainda assim, a foto mágica o encarava com seriedade enquanto arrebitava levemente o nariz e queixo e torcia as mãos, chamando a atenção para a falta de aliança no dedo anelar esquerdo e o ventre pouco distendido pela gravidez. Dippet pensara em todos os detalhes daquela vez, não podia negar.
FAMÍLIA POTTER DESABA: O DIVÓRCIO DE UM DOS CASAIS MAIS PODEROSOS DO REINO UNIDO
Antes que pudesse reler a matéria que conhecia praticamente de cor e salteado e praguejar mais uma vez a estratégia de Dippet, todavia, o ruído de água indo ao chão vindo banheiro lhe chamara a atenção e ele imediatamente soltou o pedaço de pergaminho. Encaminhara-se hesitante ao cômodo, rezando a Merlin que não a encontrasse novamente em uma situação tão decadente quanto a que estivera um mês atrás.
Assim, ao escancarar a porta, surpreendera-se ao vê-la completamente quieta dentro da banheira espaçosa de pés dourados e retorcidos. Abraçando os joelhos a castanha tinha os olhos fixos e concentrados no movimento d’água à sua frente, a qual, por sua vez, lhe cobria até acima dos seios. Seus cachos estavam presos em um coque alto, apesar de alguns fios estarem molhados na nuca. Algumas olheiras adornavam o campo abaixo dos olhos e suas feições gritavam o cansaço de várias noites mal dormidas, que a maquiagem que ela usara para ir ao Ministério escondera.
O arrependimento lhe atingiu mais fortemente do que em qualquer dos outros dias da última semana. Vê-la pequena e vulnerável daquela forma quebrava algo dentro de si. Aquela não era uma imagem de Hermione Granger que gostaria de ter para o resto de sua vida, tão contrastante com a sua favorita: ela acordando com seus cachos rebeldes ao redor do rosto e as feições descansadas após uma noite bem dormida, mantendo um leve sorriso pela transa, o que era apenas um adendo no quadro em si. Todavia, seria inevitável, pois sentia ser o responsável em partes.
Dessa maneira, aproximou-se lentamente, apertando as unhas contra a palma da mão sem sequer perceber o esforço. Ela não se voltara a ele, exatamente como na primeira vez que a vira após o aborto, ainda em Q. Victoria, mas pelo modo como seus ombros se retesaram em tensão, a mulher certamente percebera sua presença. Sentou-se à beira da banheira e a encarou esperando que dissesse algo, que o livrasse de proferir palavras vãs para se redimir. Surpreendentemente, Granger o fez.
— O útero de mulheres que sofreram Cruciatus não funciona da mesma forma que nas outras, torna-se mais frágil à medida que sofre danos. – Ela começou, lentamente, a voz rouca pela falta de uso. – Quando aconteceu pela primeira vez... Quando perdi aquela criança de Ronald, o curandeiro avisou-me que não seria fácil conceber outra. Meu útero havia sido muito lesionado pelo aborto após o primeiro trimestre e poderia se tornar hostil para habitar um novo feto. Eu teria que fazer tratamentos que despediam tempo e a estabilidade que Ronald e eu não tínhamos.
A voz de Granger falhou e seus olhos encheram-se de lágrimas enquanto ela encolhia-se cada vez mais contra si mesma e seus poros se arrepiavam contra a água fria. Sentia a própria garganta apertar-se cada vez mais, à medida que ela relatava o que acontecera por seu ponto de vista, mas forçou-se a manter firme e exclusivamente como ouvinte.
— Então, nós dois... Aconteceu. E eu... Achei que não havia mais a possibilidade de engravidar. Eu pensei que havia acabado para mim e decidi não me proteger, não tomar nenhuma poção anticoncepcional. Eu... Não sabia se você tomava algo, apenas... Deixei que acontecesse. – Ela soluçou, algumas lágrimas escorreram por seu rosto.
— Você... – Engoliu em seco, ouvindo a própria voz mais grossa que o normal em seu tom lento. – Você queria engravidar?
— Não, porque até então, pra mim, não havia chances disso acontecer! – Ela disse mais alto, não controlando as lágrimas, mas mordeu os lábios e voltou a deixar os ombros caírem. – Eu não sabia se queria ser mãe, até então só havia querido pelos motivos mais errados possíveis. Criar e educar uma criança não eram o objetivo, eu queria usá-la para manter o meu casamento, apenas. E isso... Não é ser mãe.
Granger respirou fundo, tentando conter as lágrimas, mas parecia cada vez mais impossível, visto a forma como seu rosto tornava-se cada vez mais vermelho e suas feições desesperadas à medida que desabafava. Draco sentia-se cada vez mais compelido a tirá-la da banheira de água gelada e abraçá-la, porém, não o faria até certeza de que pudesse.
— Mas... O meu período atrasou e eu... Não sou ingênua. – Ela fechou os olhos, como se a mera lembrança fizesse com algo lhe doesse internamente, seu tom tornando-se mais agudo. – Eu percebi o que poderia ser e, simplesmente, não fiz nada a respeito, ainda que essa ameaça de Azkaban estivesse me rondando por que... Também percebi que queria ser mãe. Eu queria essa criança, Draco, eu queria levar essa gravidez adiante, afinal... Era chance que eu sequer sabia estar esperando, mas que pareceu ser aquele ponto de luz bem vindo num quarto escuro.
As lágrimas da castanha combinavam gritantemente com toda a melancolia fria que habitava o banheiro, mas seus soluços quebravam qualquer monotonia que pudesse adjetivar a cena toda. Foram poucas as vezes que a vira sucumbir daquela forma, pois, geralmente, Hermione guardava tudo para si até chegar àquele ponto, exceto pelo fato de não chegar à conclusão em momento algum de que não poderia lidar mais até que alguém lhe dissesse isso.
Prova disso fora a completa ausência de emoção da mulher nos primeiros dias após o aborto, quando a procurava para mantê-la informada sobre seus processos. O profissionalismo frio o matava a cada vez que se encontravam, pois tinha consciência de que ela não estava bem e que, mais uma vez, tentava mascarar isso. A ele, que pensara ter aprendido lê-la e identificar suas facetas, aqueles momentos onde sabia que ela poderia ou não sucumbir, só sabia indignação e conformidade, visto que a mulher evitava qualquer assunto remotamente ligado ao ocorrido.
— Eu sinto muito se o fiz se sentir culpado, realmente sinto, mas... – Ela o encarou com os olhos molhados e as feições frustradas. – Depois de tudo, percebi que queria engravidar, queria estar grávida, esperando um filho seu.
A verdade o pegara como um golpe. Não era uma situação que ele pudesse ter se imaginado viver um ano antes, não era algo pelo que estivera preparado em momento algum de sua vida e talvez nunca estivesse. Ela estivera grávida dele – ainda queria estar – mas perder a criança fora demais, até mesmo para o próprio Draco. Não sabia como reagir a toda a teia de acontecimentos do último mês resultando em uma verdade com a qual não podia lidar.
Assim, simplesmente deixara que ela chorasse como uma criança que fizera algo errado, tendo a testa contra sua perna e uma das mãos apertando a sua fortemente. Por muito tempo, apenas observara as costas nuas da mulher, trêmulas e com os poros arrepiados pela água fria da banheira, ouvindo não mais do que seus soluços ecoantes do banheiro vazio. Seria uma imagem bonita, não fosse trágica e ele fizesse parte de toda a cena.
Em certos momentos, chegara a cogitar a hipótese de Granger ter conhecimento da gravidez e, por isso, lidara tão mal com o aborto, mas jamais pensara que ela pudesse alimentar tais esperanças em relação a uma criança só deles e que, devido a isso, a mulher vinha lidando tão mal com o acontecido, sofrendo como se se tratasse de um bebê querido e, pior, planejado. Não sabia o que pensar, pois o eco da voz da castanha repetindo que ainda gostaria de estar esperando um filho seu era um tanto perturbador.
Todavia, muito tempo depois, Granger simplesmente encontrava-se apoiada contra ele em uma posição desconfortável e, provavelmente, pronta a pegar um resfriado devido ao frio que se instalara no banheiro. Lentamente, soltou os dedos finos fortemente entrelaçados aos seus e buscou uma toalha branca e felpuda para que pudesse enxugá-la ao estender uma das mãos e ajudá-la a sair da banheira.
Nenhum dois se incomodou com a nudez da mulher, nem mesmo enquanto passava lentamente a toalha por seu corpo esbelto, sem qualquer cerimônia. Granger era linda, de qualquer forma, mas não havia nada de erótico no ato, sequer era possível pensar em sexo naquele momento. Sua cabeça ainda se encontrava confusa e seu cérebro inquieto com tanto a digerir, assim como a dela, apesar das feições cansadas e inchadas pelo choro. Porém, tinha em mente que ajudá-la era a prioridade, assim o fora desde o início e ali não ser diferente.
Então, com um feitiço accio, convocou um par de moletons grossos na cor cinza e a ajudou a se vestir, antes de encaminhá-la para o quarto e deixá-lo quase na completa escuridão. Dormir era o melhor remédio, em qualquer ocasião, principalmente porque tinha quase certeza que a castanha não o vinha fazendo com tanta frequência quanto o necessário.
Ajeitaram-se sob os cobertores grossos, após desfazer-se dos sapatos displicentemente, apesar de ainda não ter anoitecido do lado de fora, em uma paz artificial que produzia uma redoma ao redor daquele ambiente, protegendo-os ao menos por enquanto. Hermione, por sua vez, parecia uma criança completamente amedrontada, abraçada a ele, suas roupas contrastantes, pois ainda não tirara a camisa e a calça sociais. Mas não se importava nem minimamente com o fato enquanto sentia o perfume de morango e avelã emanarem da pele fresca da mulher, recém-saída do banho. Draco sempre gostara do perfume natural de seu corpo.
O silêncio perdurou por muito tempo, tanto que pensou que a mulher rendera-se ao sono enquanto passava os dedos pela parte de trás de sua orelha, ajeitando distraidamente seus cachos; a respiração batendo insistentemente contra seu pescoço, mas não o incomodando, pelo contrário. Sentira falta dela e do modo como pareciam se encaixar naquele aspecto, além da forma quase genial como suas mentes trabalhavam juntas. Queria ouvi-la falar quase ininterruptamente sobre o Direito Mágico de madrugada e interrogá-lo de forma irritante sobre os casos em que eles se enfrentaram. Queria-a de volta.
— Draco. – Assustou-se com o sussurro baixo ao pé do ouvido. – O que vou dizer... Você não precisa responder. Eu o conheço e... Ainda não descobrimos como fazer isso funcionar. Nós, eu quero dizer. Além disso, sei que preferiria desistir a tentar. Não sei como, apenas sei. Mas eu... Eu...
— Não. — Ele a interrompeu no mesmo tom, sentindo-a prender a respiração, quase a ponto de sentir os castanhos e intensos olhos sobre si mesmo na escuridão do quarto. – Está enganada. Eu quero isso. Quero ajudá-la a recolher seus próprios pedaços, mas... Se disser, neste momento, precisará contratar outro advogado para defendê-la porque eu... Não conseguirei. Então, não diga, eu apenas sei.
Sabia e sentia em seu ser enquanto seus dedos se entrelaçavam sobre o edredom. Sabia e pôde sentir no momento que suas bocas se encaixaram calmamente após semanas sem se encontrarem, parecendo finalmente estarem seus devidos lugares, no toque simples e quase casto dos lábios macios. Sabia e sentia o coração de Hermione contra o seu, batendo rapidamente contra seu peito. Sabia e sentiu na intimidade com que suas testas se tocaram e seus narizes se acariciaram, mutuamente, sem pressa. Todavia, principalmente, sentiu da forma mais palpável possível quando seus lábios se roçaram ao ouvi-la dizer no mesmo tom calmo de antes, insistentemente contrastante com as batidas de seu próprio coração. Aterrorizante, tanto quanto.
— Eu te amo.
Well I know that getting you alone isn't easy to do
And I don't wanna lie, but I don't wanna tell you the truth
— Arctic Monkeys
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