Neurótica
27 Capítulo 27
A Mansão Black estava estranhamente iluminada quando Draco finalmente chegou naquela noite. Supôs que isso se devia ao clima do lado de fora do prédio, que parecia refletir o caos que se instalara de vez do lado de dentro, ao menos de forma subjetiva. Nuvens escuras e espessas pairavam sobre a cidade e a chuva começara a cair há poucos minutos como se prometesse um dilúvio, sem intenção de parar até que todos estivessem fatigados pelo tempo úmido e frio.
Dentro da mansão, por sua vez, ouvia os passos de Granger de um lado a outro na cozinha. Era de se prever que ela estivesse inquieta após todas as palavras de Brown, considerou um tanto hesitante em descer as escadas, as insinuações foram pesadas. A mente de Granger era um emaranhado de ideias ambíguas, ainda que fosse regularmente ao médico. Ela oscilava entre a ânsia de beber e retomar uma vida normal e saudável; havia momentos em que estava satisfeita com a exposição midiática que fabricaram, pois significava que poderiam ganhar, no fim das contas, mas às vezes demonstrava saber não lidar com as consequências do plano que ajudou a traçar cautelosamente.
Todavia, tinha certeza que o pior para a castanha era ter consciência dessa instabilidade: ela queria ser independente, naquele momento, mas precisava de Draco mais do que gostaria de admitir – prova disso eram suas noites -; costumava ser inteligente acima da média, mas sua inteligência a levou na direção oposta do que planejara para a própria vida. Ela sabia de tudo isso, ela estava farta de culpar-se por suas próprias ações em relação ao que a levara até onde estava naquele momento, ao mesmo tempo em que as consideravam corretas do ponto de suas opções.
Assim, além de tudo, Brown fizera questão de acrescentar mais um elemento à mistura de sentimentos que envolvia Granger a todo instante: a criança de Weasley que carregava na barriga. A primeira reação da morena à gravidez da rival fora a mais terrível possível e, nem por um segundo, imaginara que ela houvesse superado a notícia. Brown esperava, sim, o filho que ela não tivera graças ao próprio Weasley. Sua instabilidade se devia apenas a isso, não ao fato de possivelmente tratar-se de uma criança sardenta e ruiva. Hermione Granger não admitia derrotas e sentia que perdera.
A ventania lá fora fazia com que as janelas estalassem, como se fizessem força para resistir à da natureza, enquanto o sopro um tanto quanto fantasmagórico enchia o ambiente. A balbúrdia de galhos se partindo na rua foi intensa, mas decidiu ignorar ao finalmente encaminhar-se para o porão. Notou que os passos inquietos da outra cessaram após um ruído oco e seco, o qual não conseguiu distinguir e que antecedeu o completo silêncio.
Ao chegar à cozinha, dessa forma, não foi assaltado por surpresas. Esperava aquela reação desde que saíra da Casa de Chás no Beco Diagonal. Encostou-se ao portal de madeira, cruzando os braços, enquanto observava a morena inclinada sobre a mesa clara e envernizada; as mãos tendo os nós dos dedos brancos por sustentar o corpo de forma tensa; o rosto pálido e a respiração rasa lhe mostravam quão abalada se encontrava.
À frente de Granger, havia um litro arredondado e lustroso com conhaque, o qual fazia par com o copo de mesmo modelo completo até a metade pelo líquido âmbar. Ela fechou os olhos, deixando cair os ombros e abaixando a cabeça, sem lhe dar atenção, claramente em uma luta que travava consigo mesma. Os cabelos cacheados brilhavam a iluminação da cozinha e Draco pensou que seria uma cena bonita, se não fosse lastimável.
Ela não havia bebido, não ainda, mas a vontade era tão latente que Draco podia senti-la. O sabor do conhaque poderia ser, para ele, tão palpável quanto para a morena, assim como a esperada sensação de queimação enquanto o líquido descia por sua garganta. A sensação de satisfação após o álcool começar a produzir os efeitos esperados em seu corpo também poderia ser comparada à dela. Entretanto, não a ambição. Draco não tinha de lidar com o anseio de beber a todo o instante, com o controle constante que ela precisava exercer sobre sua própria vontade para que conseguisse manter-se, minimamente, sã.
Granger correu um dos dedos pela borda do copo, observando. Então, engolindo em seco, fechou os dedos ao redor do copo. Ele não a impediria, por mais que quisesse. A castanha deveria lidar com seus altos e baixos, com uma possível recaída, com a vontade de interromper o tratamento, com o resultado de trabalho feito até então com os especialistas que frequentava. Granger sabia disso e era uma escolha que faria sozinha, de forma racional ou não.
Porém, em um gesto brusco e inesperado, ela apertou os dedos e o jogou contra o armário à sua frente, estilhaçando o copo em pedaços e derramando o líquido por toda a cozinha. Draco sequer teve tempo de analisá-la, pois, no mesmo instante, a cozinha mergulhou em completa escuridão, assustando a ambos. A falta de resquícios de luz o informou que, não apenas aquele cômodo estava às escuras, mas também a casa inteira e, possivelmente, o bairro.
Por um momento, imaginou que se tratava de uma explosão de magia involuntária produzida por Granger, afinal a instabilidade apresentada por ela, no momento, era notável. Entretanto, jamais teria certeza. Enquanto divagava, a respiração afobada dela lhe chamou a atenção e Draco lembrou-se que, quando chegara, a casa estava completamente iluminada por que simplesmente não suportava a escuridão. Puxou a varinha e aproximou-se, recitando ‘lumus’ de forma silenciosa para que conseguisse enxergá-la.
A castanha olhava para o teto, os olhos um tanto confusos, provavelmente também se perguntando se era responsável por aquilo, mas logo o encarou, parecendo perceber naquele instante que estava presente no recinto. Com um suspiro derrotado, dessa forma, ela sentou-se no banco comprido de madeira e escondeu o rosto entre as mãos, tendo os cotovelos apoiados contra a mesa.
— Eu estou tão cansada, Malfoy.
Depositou a varinha com a ponta iluminada sobre a mesa, ao lado do litro de conhaque quase intocado, e sentou-se com as costas apoiadas contra ela, encarando o rosto de Granger colorido por diversos tons do branco ao prateado, que contrastavam gritantemente com a escuridão que os rodeava. Sua face, ainda marcada pelos dedos de Brown, transparecia agonia, mas ela sequer parecia lembrar-se da agressão em si enquanto examinava a própria mão molhada pela bebida.
— Você resistiu.
— Não falo apenas sobre isso. – Ela disse em um quase sussurro, como se estivesse contando um segredo ou não quisesse quebrar o silêncio instalado automaticamente pela escuridão, ocasionalmente quebrado por ruídos da chuva que ainda caía alguns metros acima deles. – A bagunça em que minha vida se encontra não é apenas devido a esse maldito vício. Não preciso dele para... Desgraçar-me mais do que já estou.
— Granger, você está se recuperando...
— Não, não estou! – Ela exclamou, olhando-o indignadamente. – Viu as coisas que disse hoje? Nunca mais conseguirei encarar a Sra. Weasley depois de tudo que disse sobre Ronald. Antes de tudo, ele foi meu amigo e estou resumindo sua imagem ao que fomos nos últimos anos, ao que fizemos um ao outro durante esse tempo...
— Granger, Weasley era um canalha. – A cortou antes que precisasse ouvir da boca dela como o falecido homem era uma boa pessoa. – Nada do que disser sobre seu incrível espírito de amizade irá mudar isso. Não sei o que aconteceu entre vocês, realmente, mas foi ele o responsável por ter abortado um filho, foi ele quem manteve uma amante e a engravidou.
Ela o encarou demoradamente, mas desviou os olhos para a garrafa de conhaque. Enquanto examinava o perfil bem desenhado da mulher, entretanto, entendeu o que se passava em sua mente. Granger ainda gostaria que as coisas voltassem à sua normalidade após tudo acabar. Ela queria a aprovação dos Weasley, assim como sempre havia sido, e de todos que a rodeavam. Ainda era importante a ela que essas pessoas a admirassem, ainda que se diminuísse perante o que Weasley lhe fizera para que tivesse ao menos uma parcela do que tivera algum tempo atrás.
— Está vendo? – Ela voltou a dizer. – Eu não consigo me manter coerente. Ao mesmo tempo em que sinto que fiz o que devia hoje contra Lilá, lhe dizendo todas aquelas coisas sobre Ronald, me defendendo, gostaria também de não as ter dito, ainda que fossem verdades, por que... É a admissão pública de que tudo em minha vida deu errado e a gravidez de Brown é apenas a prova física disso. Estou cansada de procurar um sentido em meus próprios atos.
— As coisas deram errado em sua vida por que escolheu percorrer caminhos que não deveria. Caminhos que não condiziam com o que sempre foi. – Insistiu, lembrando-se da Granger que andava pelos corredores de Hogwarts proclamando seus ideais revolucionários e comparando-a com a mulher que se tornara, totalmente rendida ao sistema. – E a gravidez de Brown não é algo pelo que deve se sentir culpada.
— Eu não sinto culpa, eu sinto raiva. – Declarou subitamente. – Não da criança, mas do que ela representa: eu fracassei. A gravidez de Brown é o ápice, é algo com que terei de lidar pelo resto dos meus dias, vendo-a crescer sendo a criança que não pude ter...
— Você não é menos mulher por não ter dado um filho ao seu marido, Granger. – Draco disse impaciente. – Isso é no que Brown quer que acredite e está conseguindo, pelo visto. Você não falhou, nem com Weasley e nem com ninguém. Se existe alguém que cometeu um erro quanto a isso foi ele e tem consciência disso, não se faça parecer burra e frágil por que ambos sabemos que não o é.
Por um instante, Granger ainda pensou em questioná-lo, era visível que ainda refletia sobre suas palavras enquanto o encarava. Entretanto, Draco só dizia o que lhe fazia sentido. Brown queria impor a Granger à ideia de que era melhor por ter conseguido segurar Weasley na cama e gerar um filho do homem – era no que muita gente realmente acreditava – e que seus problemas se resumiam a isso, quando não se tratava de nenhum terço deles.
— Mantenha o foco. – Completou, analisando-a. – Em seu tratamento, em seus reais problemas. Tudo que Brown quer, a essa altura do jogo, é desestabilizá-la.
Enfim, a morena concordou e levou uma das mãos à têmpora, como se uma súbita dor de cabeça a houvesse atingido. Repentinamente, a marca de dedos que gritava a tapa dada por Brown lhe chamou a atenção. O local estava vermelho e um tanto inchado, sinal de que a outra não medira forças para que o gesto realmente causasse alguma dor. Antes que pudesse advertir-se mentalmente, entretanto, levou a mão, alisando-o delicadamente com os dedos. Era injusto que Granger precisasse ser agredida sem revidar naquele instante, mas entendiam a necessidade, embora soubesse que a morena gostaria muito de ter feito o mesmo.
Seu gesto, porém, fez com que Granger se voltasse para encará-lo e, tarde demais, percebeu que se encontravam próximos o suficiente para que suas respirações se entrelaçassem muito confortavelmente e aquilo, assim como o estranho ato de carinho anterior, não fora planejado. À luz da varinha, viu os olhos dela percorrerem todo o rosto em um exame completo de suas intenções, confusa pela situação que se desenvolvia de forma totalmente avessa ao que tinham em mente, pois o acordo implícito entre eles afastava qualquer pressa que poderiam ter.
“Não hoje, não amanhã”.
Todavia, o inquérito sequer chegara ao fim, Granger estava completamente instável e estavam envolvidos de forma muito pessoal naquele caso. Apesar de tudo, a castanha não parecia contrária ao que poderia acontecer e Draco não fazia a menor questão de tentar conter-se quando tudo que seus olhos enxergavam eram os lábios cheios da mulher sendo acariciados pela própria língua feminina, esperando-o sem ressalvas.
Diante disso, sua única opção foi aproximar-se mais e mais até que seus narizes escovassem um ao outro em um cuidado inesperado. Draco, contudo, colou seus lábios aos dela, simples e lentamente ainda alimentando a cautela que necessitavam para que aquilo – seja o que for – funcionasse. O beijo resumiu-se a um casto contato de bocas que terminou quando pediu espaço para sua língua, concedido de boa vontade em meio a um suspiro.
Sentiu a textura da pele alva do pescoço feminino, ao aprofundar o beijo fazendo-a estremecer ante seus dedos gelados contra a pele quente ainda protegida pelo casaco. Os cachos, por sua vez, eram tão macios quanto recordava e, durante aquele simples ato, descobriu um vício: ter os cabelos de Granger entre seus dedos enquanto se beijavam.
A sentiu ajeitar-se contra seu corpo, ainda que estivessem sentados de forma completamente contrária, uma das mãos percorrendo seu peito até encontrar o botão fechado do terno e infiltrar-se por ali, acariciando-o com as unhas compridas e puxando-o mais para si pela gravata. O beijo intensificou-se, deixando ambos ofegantes, necessitados de mais. Mais contato, mais pele, mais profundidade, satisfeitos com o ritmo exigente que impunham um ao outro.
Nunca beijara mulher alguma daquela forma, notou Draco, não com tanto afinco e cuidado, ao mesmo tempo em que sua vontade era jogá-la naquela mesa e fazê-la sua pelo tempo que desejasse. Suas vontades eram ambíguas demais quando se tratava de Granger e ainda não decidira se isso era bom ou ruim. Sabia, entretanto, que gostava de deixar-se levar por ela, ainda que não fosse o ideal.
Dessa forma, portanto, o beijo findou-se lenta e relutantemente, mas resignaram-se a manterem-se tão próximos quanto podiam. Hermione apoiou-se de vez contra Draco, tendo a cabeça contra seu ombro e a respiração perturbadoramente constante na curva de seu pescoço. Seus dedos, agora, encontravam-se completamente emaranhados aos cachos dela, que parecia apreciar o gesto. Era, no mínimo, peculiar que estivessem daquela forma, sentados em um banco de madeira duro em uma cozinha quase às escuras e ainda se sentisse confortável, mas essa era a inegável e insistente verdade que relutava em admitir: tudo se devia à presença dela, nada mais.
— Você... – Ela começou com o tom baixo e vibrante contra sua pele. – É minha sanidade.
— Por incrível que pareça.
A sentiu rir levemente contra sua pele e não demorou a sentir os lábios molhados contra o pescoço, arrepiando-o em conjunto com os dentes que percorriam dolorosamente lentos a extensão de pescoço à vista que a camisa social permitia. Sentia cada poro seu eriçado pela língua dela experientemente em contato com sua pele enquanto a única coisa que podia fazer era soltar a respiração pela boca ao sentir a gravata sendo afrouxada e os primeiros botões de sua camisa abertos para que ela tivesse mais espaço para atormentá-lo.
— E você está tirando a minha.
Constatou em tom baixo ao engolir um gemido arrastado. O riso veio novamente, mas ela resolveu subir suas carícias pela mandíbula até alcançar seus lábios novamente. O beijo, dessa vez, foi rápido e lascivo. As unhas dela fincaram-se em sua nuca, as respirações tornaram-se descompassadas e, inesperadamente, o instinto de ambos gritou por mais proximidade. O modo como seus corpos se encaixavam não era mais suficiente e, por isso, a puxou para seu colo, acomodando-a de lado enquanto aproveitava para correr as mãos por seu quadril e cintura, apreciando a curva delicada sob suas mãos.
Sentada sobre si, dessa forma, ela moveu-se para retirar o próprio casaco grosso que ainda vestia, tentando a todo custo não manter a distância que o gesto impunha. Seus lábios formigavam de expectativa a cada vez que ela se mantinha longe, ainda que fosse para desfazer-se das peças de roupas de ambos. Os lábios femininos – inchados pela quantidade de beijos que se recusavam terminantemente a cessar – o excitavam em um alto grau, ainda que a escassez da luz o atrapalhasse a ver todos os sinais que o corpo dela emitia ao ser estimulado pelo dele.
Assim, enquanto afligia distraidamente o colo feminino, retirou uma das mãos que se encontravam embaixo da blusa grossa de inverno, acariciando a pele macia de suas costas e cintura, e correu-a pelas pernas ainda vestidas até alcançar as botas de cano baixo, não encontrando dificuldade para tirá-las antes de ouvir o baque oco contra o piso de madeira. A essa altura, sua própria camisa já se encontrava completamente fora da calça e com metade dos botões abertos, pois, ainda que Granger parecesse absorta demais em seus beijos, ocasionalmente percorria as mãos por seu peito brincando com os botões e desabotoando-os para abrir mais espaço aos seus próprios dedos ansiosos.
— Malfoy. – Ela chamou em um sussurro, beijando-o brevemente nos lábios, encarando-o com os olhos castanhos anuviados de prazer, embora também enxergasse a hesitação presente. – Vamos subir?
Não que o convite dela o tivesse trazido a realidade, estava muito consciente do que fazia; com quem fazia e todas essas merdas. Entretanto, fez sua mente trabalhar, pois a partir do momento em que subisse àquele quarto sua relação com Granger mudaria completamente. Deixava-se tê-la próxima o suficiente sem sentir a constante impressão de invasão sempre que um completo estranho – ou estranha – forçasse a situação; também por apreciar sem reservas a leve carícia que ela concedia em sua nuca; e por não querer de forma alguma que ela se afastasse, embora fosse o correto; por querer manter a relação que tinham no campo profissional, apesar de não conseguir.
Além disso, mudanças não eram seu forte. Draco gostava de estabilidade. Mudar aspectos em sua vida, pessoal e profissional, demandara imenso esforço de sua parte, pois ele próprio impunha resistências, restrições que só existiam para ele e ninguém mais. E Hermione Granger significava mudanças. Enquanto mantinha aquela relação em um nível profissional adequada, alimentando a clara tensão sexual que os perseguia a tanto tempo que sequer se lembrava, tudo estaria bem.
Ceder, porém? Granger fora seu objeto de cobiça por muito tempo e a estabilidade que isso lhe trazia era confortável. No momento, ela não estava minimamente perto disso, sua vida estava uma e adentrar isso de forma não profissional, mais do que já fizera, era estar ciente de uma série de mudanças pelas quais teria de passar para se adaptar a uma nova realidade para a qual não estava preparada – e nem ele.
— Tem consciência do caos que isso... Nós, eu quero dizer... Se tornará, certo?
— Já somos um caos estando separados. — Granger sorriu despretensiosamente, observando-o, sua pele mais pálida do que de costume devido à iluminação da varinha. – Pare de nos problematizar.
— Impossível, você é minha cliente. – Ela revirou os olhos. – E sei o suficiente de você para antecipar todas as perspectivas, boas e ruins, que envolvem essa relação.
— Bom, assim não precisará lidar com surpresas. – Subitamente, levantou-se de seu colo e o puxou para junto de si, terminando de desabotoar a camisa social masculina.
— Eu duvido muito disso.
Constatou mais a si mesmo antes de render-se a outro beijo dela, pois enquanto a tinha tão próxima de si, tinha sérias dificuldades de lembrar-se de sua instabilidade, e como a relação que tinham já era complicada o suficiente sem o agravante sexo. Tudo que queria, no momento, era tê-la para si, da mesma forma como quisera ter durante tantos anos. Não romântica, mas fisicamente.
“Não hoje, não amanhã.”
O dia chegara, sem planejamentos, pois estavam sobrecarregados demais com problemas materiais para que o programassem. Gostava, entretanto, da relação de confiança que construíram antes que subissem mais um degrau da escada claramente inconstante que era a vida deles. Olhá-la e conseguir decifrar, na maioria das vezes, o que sentia, o que pensava, o que a incomodava era gratificante ao passo que também o assustava, pois jamais imaginara ter algo do tipo com alguém que não fosse família.
Assim, passeou as mãos livremente pelo corpo feminino delgado, as curvas sob seus dedos sendo apreciadas como deveriam, e não demorou a que sentisse os seios contra seu peito, escondidos apenas pelo sutiã meia taça que já ameaçava tirar. Despir Hermione Granger era quase uma arte. Não havia a avidez de outrora, embora houvesse a ansiedade para suprir as expectativas em relação àquilo não tiveram oportunidade de consumar. Em compensação, a tensão que exalava dos dois corpos em contato era latente. Podia sentir a excitação da morena apenas ao tocá-la, massageando os seios lentamente, saboreando mais uma vez os lábios que nunca deixavam de serem tentadores.
Da mesma forma, os dedos dela desceram por seu abdome arrepiando-o de tal forma que precisou esforçar-se para não encolher-se sob o toque gelado e lascivo. Ouviu o ruído do cinto social sendo aberto e logo após o seu desabotoar. Viu o olhar dela se abrir desafiador e não demorou a tê-la sentada em um dos balcões do armário de madeira completamente nua da cintura para cima.
Os toques eram demorados, então, e os arrepios constantes – podia sentir os pelos dela quase imperceptíveis eriçados enquanto passeava os lábios pela pele macia de seu pescoço e ombro. Os olhares, mesmo na quase escuridão, encontravam alguma forma de conectar-se e não se sentia incomodado, pois a cada vez que a olhava tudo que conseguia pensar era que a queria, quantas vezes fosse.
Assim, sorriu pretensioso e viu os olhos enevoados dela fecharem-se enquanto arqueava-se para ele sem restrições e apertava as pernas ao redor de sua cintura, trazendo-o para mais perto. Sua língua trabalhava ao redor de um dos mamilos enquanto os dedos percorriam lentamente pela lateral do outro, obrigando-a a apertar cada vez mais a mão que estava em sua nuca para naquele lugar.
— Você tem péssimas intenções, Malfoy. – Ela apoiou a cabeça contra a cabeça, suspirando.
— Você quer ir para o quarto? – Questionou em tom baixo, no que a castanha negou com a cabeça parecendo distraída e ele voltou sua atenção ao outro seio macio.
— Quero ficar... Exatamente onde estou. – Afirmou em tom baixo, mordiscando os lábios tentadoramente, sua respiração ofegante.
Draco diria que ela estava perigosamente próxima de um orgasmo, apesar de sequer chegar perto de onde desejava no corpo feminino. Assim, subitamente, Granger o puxou para outro beijo, enquanto as unhas rasparam suas omoplatas, as pernas apertaram-no contra seu corpo, as intimidades foram pressionadas tanto quanto o tecido de suas roupas permitia, os seios dela roçaram em seu peito e suas línguas entrelaçaram-se sofregamente, assim como as respirações.
Sim, ela realmente estava gozando. Sorriu entre o beijo, percebendo o coração contra o seu batendo descompassado. Não se incomodou – pelo contrário -, embora estivesse surpreso pela rapidez com que ela chegou ao ápice do próprio prazer, mas considerou que a mulher deveria estar em um nível de estresse altíssimo para ter um orgasmo tão intenso com apenas algumas carícias mais íntimas.
Dessa forma, levou uma das mãos ao ventre dela, roçando seus dedos de forma proposital por ali antes de abrir a calça que ela vestia, apenas para vê-la encolher-se em sua própria satisfação sob os toques sutis. Todavia, não precisou sequer fazer menção de tirar a peça, pois assim que abriu o zíper sentiu-a suspirar entre o beijo, afastando-se lentamente, passando a língua pelos próprios lábios antes de encará-lo sem esconder a expressão de satisfação que começava a acender-se em seu rosto.
— Não seja prepotente. – A viu semicerrar os olhos e riu, beijando-a brevemente.
— Não serei. – Declarou, levando ambas as mãos ao cós da calça jeans que Granger ainda vestia. – Eu juro.
Ajudou-a deixá-la apenas de calcinha e não demorou a que ela tirasse sua camisa branca e social e a vestisse, abotoando o primeiro botão e pegando-o pela mão ao anunciar que, então, estava na hora de irem para o quarto. A chuva ainda batia violentamente contra as janelas envidraçadas e o vento era forte, causando ruídos altos demais para que fossem ignorados por ela na quase completa escuridão que se encontrava a Mansão Black. Não demorou a que ela apertasse seus dedos entre os dela e estacasse nas escadas, virando-se para ele de forma tensa e respirando fundo.
— Você pode ir à frente?
O feitiço ‘lumus’ realmente não clareava um metro à frente e entendia que, para Granger, isso não era suficiente, ainda mais enquanto ouvia a tempestade zunindo do lado de fora. Apertou o passo, pois aquela parte da casa não era aquecida por magia ou eletricidade trouxa, mas divagando que, dessa vez, não havia dúvidas. Agora, era ele quem a levava em direção ao já conhecido aposento.
Assim, finalmente alcançaram o quarto. Ela soltou sua mão e Draco colocou a varinha sobre o criado mudo, concentrando-se em tirar os próprios sapatos e meias enquanto a castanha esperava silenciosamente à sua frente, observando cada um de seus movimentos. Quando a encarou, todavia, parecia tranquila, embora tivesse a cabeça pendida para o lado esquerdo e os olhos demonstrassem estar pensativos.
— O que foi?
— Só pensando. – A viu abrir um pequeno riso enquanto dava de ombros.
No instante seguinte, entretanto, ela levou as mãos a calcinha negra de renda, descendo-a pelas próprias pernas, sem tirar os olhos dele, mas mantendo a camisa branca ainda abotoada ao corpo. Draco estava duro apenas pela visão excitante que era Hermione Granger vestindo uma camisa sua e apenas isso. Ela parecia satisfeita com o efeito que causara, sabia que possuía artifícios suficientes para levar um homem à loucura e parecia gostar de usá-los.
Foi o que bastou, dessa forma, para que ele alcançasse sua cintura e a jogasse na cama ao seu lado, distribuindo seu peso sobre o corpo macio de forma que não a sufocasse e beijando-a avidamente. Não havia como controlar-se após a bem sucedida provocação. Passeou os dedos pelas pernas dela, que as entrelaçou de bom grado em sua cintura. Entretanto, antes que pudesse alcançá-la com os dedos ou lábios, Granger terminou de abrir sua calça social e encontrou-o duro sob a cueca, começando a masturbá-lo lenta e cadenciadamente. Sentiu um arrepio correr-lhe desde a base da coluna aos dedos dos pés e evitou com muito custo um gemido, suspirando gravemente contra a boca dela, que soltou um risinho aprovador, continuando a trabalhar com seu membro.
— Ora, Granger, não seja você prepotente aqui.
— Impossível.
Ele revirou os olhos, concentrando-se nas mãos experientes em seu membro, sentindo as ondas indo e voltando em seu corpo, construindo seu prazer de forma calma enquanto explorava o pescoço da mulher embaixo de si. O perfume que Granger usava era tão suave que precisava quase colar o nariz a pele macia para senti-lo, supunha que proviesse apenas de sabonete ou hidratante, não poderia ter certeza naquele momento, pois sua mente estava funcionando em função do orgasmo que estava por vir.
Entretanto, não demorou a que sua própria mão alcançasse a intimidade dela, altamente molhada e pronta. A morena fechou os olhos e os movimentos em seu membro tornaram-se mais difíceis, no que ela resolveu usar as mãos para agilizar sua nudez. Rapidamente, a mulher empurrou sua calça e cueca para baixo e esperou pacientemente que desfizesse das peças no chão.
— Eu fico por cima.
Não houve tempo para protestos, pois, após o anúncio, Granger já estava sentada em seu colo, completamente aberta e acessível, pressionando suas intimidades despudoradamente. Beijou-a novamente, sentindo-a movimentar-se em busca de mais contato, até que, por fim, levou uma das mãos ao próprio pênis para buscar o encaixe dentro dela.
Separarem-se minimamente e expirou com dificuldade assim que estava completamente dentro dela, sentindo os fluidos femininos lubrificarem-no antes de ela começar a movimentar-se. Assim, apoiando-se em seus ombros, Granger balançou os quadris, mantendo o contato visual, apesar de ofegar. Segurou seus joelhos no lugar, logo ao lado de sua perna, mantendo-a tão próxima quanto possível, auxiliando-os a alcançar o prazer desejado.
A cada vez que ela descia sobre seu membro, usando os músculos de sua intimidade para apertá-lo em um jogo que o deixava cada vez mais próximo de seu próprio orgasmo, um ofego mais alto era solto por ambos. O quarto parecia cada vez mais quente, o suor se fez presente em sua testa, mas era apenas o sexo que os excitava a cada investida, a cada beijo breve e sensual ou chupão roubado. O pescoço alvo encontrava-se levemente marcado e tinha certeza que o seu também devido à quantidade de tempo que ela dedicava àquela parte de seu corpo.
Porém, após uma breve comunicação visual, girou seus corpos de modo que ficasse sobre ela e ajeitaram-se rapidamente antes de investir intensamente. Ela fechou os olhos, gemendo roucamente, enquanto o arranhava, incentivando-o a continuar por que queria “mais”, como bem sussurrava ao seu ouvido em intervalos de tempo. As pernas femininas entrelaçaram-se em sua cintura possibilitando que fosse ainda mais fundo, tornando a tarefa de segurar-se cada vez mais difícil sempre que arremetia contra ela.
Porém, ela não queria que se segurasse, realmente. Notou-a ofegante e, incapacitada de segurar os gemidos antes contidos, ela o trouxe para mais perto com a intenção de que a tocasse sempre que seus corpos se encontravam, agora mais limitadamente. Dessa forma, portanto, em seu acordo tácito de poderiam manterem certos contatos mais íntimos, entreolharam-se em um entendimento mútuo e deixaram o orgasmo tomar conta de seus corpos em um espasmo de nervos que percorreu o corpo de ambos numa corrente elétrica irresistível, ambos ouvindo o gemido extasiado do outro.
Sentiu o corpo abaixo do seu progressivamente relaxar e deu espaço para que ela pudesse normalizar a respiração, deitando-se ao seu lado, o próprio coração ecoando altamente em seus ouvidos, o peito tão arfante quanto o dela. Ainda sentia seu corpo formigar, entretanto, quando o quarto iluminou-se abruptamente, tornando a luz que provinha da varinha inútil e fazendo com que ambos gemessem e protegessem os olhos da súbita claridade.
— Isso é algum tipo de jogo. – Declarou em tom baixo, mas o movimento no colchão ao seu lado fez com que a encarasse, já se sentando.
— Isso... – Ela o olhou risonha, ajeitando os cabelos antes de levantar-se. – Foi ótimo.
Draco retribuiu o sorriso, recusando-se a tirar os olhos da visão que era Hermione Granger após um orgasmo, pois agora podia analisá-la claramente. Era uma imagem que gostaria de ter para sempre em sua mente: os cachos macios encontravam-se mais selvagens do que o normal, os lábios inchados e vermelhos pelos beijos que não se cansavam de trocar, uma fina camada de suor era visível em sua testa, além disso, as bochechas se encontravam levemente coradas.
A observou andar pelo quarto à procura de alguma peça de roupa, os olhos percorrendo sem que pudesse impedir as pernas lisas e alongadas pelo comprimento da camisa, que a tinha deixado ainda mais atraente após tudo que fizeram com ela em seu corpo. Acabara de ter aquela mulher e tudo que conseguia pensar era que a queria novamente embaixo de si, gemendo de seu nome de forma tão sexy quanto fizera minutos atrás.
Enquanto a via sumir de vista ao adentrar o banheiro, entretanto, precisou controlar a vontade de acompanhá-la e não demorou a ouvir o ruído de água caindo após o chuveiro ser ligado, fazendo-o perceber que o vento lá fora não tinha mais o potencial destrutivo de anteriormente e que a chuva agora caía de forma compassada e uniforme.
Assim, finalmente ganhou coragem para colocar-se de pé e recolher as roupas e sapatos espalhados pelo chão do quarto para colocá-las sobre uma das poltronas perto da janela, afinal ainda iria dormir ali, como em todas as outras noites. Balançou veemente a cabeça, tendo a intenção de clarear os próprios pensamentos e considerando que dividir a cama com ela se tornaria cada vez mais difícil após terem transado. Não havia colaborado com a própria sanidade, decidiu.
Porém, ainda hesitou antes de sair do quarto para usar o banheiro do corredor. Granger estava a uma porta de distância e essa fora deixada, nitidamente, destrancada. Não encontraria restrição alguma, caso realmente quisesse sexo no banheiro, tinha certeza disso, mas não tinham intimidade para tanto, além de que, certamente, a mente dela estaria processando o que acontecera. No momento, ambos ficariam melhores sozinhos.
Em sua breve covardia, demorou mais do que realmente precisava, fazendo sua higiene e necessidades da forma mais lenta possível enquanto decidia a melhor forma de agir com Granger. Não era um garoto, tratava de sexo tão normalmente quanto era necessário, ao passo que não podia fingir que nada acontecera, pois, afinal de contas, ela dormiria ao seu lado, era sua cliente, tinha problemas e, definitivamente, estava atraído.
Revirou os olhos para si mesmo ao ganhar o corredor, porém, chegando à conclusão de que não havia fórmula certa de lidar com a situação. Ela parecia ter gostado, assim como ele, e as chances de acontecer novamente eram grandes. O que não mudaria, entretanto, era: no dia seguinte, ainda seriam advogado e cliente e precisariam trabalhar juntos.
Quando voltou ao quarto, ela já se encontrava embaixo das cobertas, os braços como apoio para o pescoço, o rosto completamente livre da maquiagem que cobria seu rosto anteriormente e, por isso, não pode deixar de pensar que ela era linda de qualquer forma; o que não era uma surpresa, apesar de tornar-se cada vez mais consciente do fato. Suas divagações, contudo, desviaram-se ao levantar as cobertas para acomodar-se e perceber que ela não vestia as peças que pegara em seu armário, mas sua camisa branca, agora, amassada e suada.
— Realmente gostou disso, não? – Tocou o tecido por baixo do edredom, no que ela sorriu concordando, parecendo estar tranquila. – Vou precisar dela para voltar pra casa amanhã.
— Mesmo? – Questionou incrédula, por um momento, mas rapidamente percebeu que falava sério e logo o sorriso alargou-se, malicioso. – Então, acorde-me amanhã pra eu tirá-la para você.
Levantou uma sobrancelha, não surpreso pela ousadia do convite implícito para sexo novamente, observando-a virar-se para o outro lado e buscar uma posição confortável antes de apagar o abajur no criado mudo mais próximo. Granger estava jogando com ele de propósito e estava gostando. Riu baixinho, dando-lhe as costas e apagando o abajur ao seu lado.
— Não reclame se a acordá-la cedo demais.
— Boa noite, Malfoy. – Podia ouvir o divertimento no tom de voz dela.
— Boa noite, Granger.
I wanna lay you down in a bed of roses
For tonight I sleep on a bed of nails
— Bon Jovi
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