Neurótica
24 Capítulo 24
O inconclusivo caso Weasley
Meses depois da morte trágica e surpreendente de Ronald Weasley e da busca implacável empreitada por Lilá Brown para encontrar o assassino de seu amante resultar em acusações perigosas feitas a esposa do mesmo, Hermione Granger, o caso Weasley ganhou novas evidências nas últimas semanas com o envolvimento de Teddy Lupin, o qual parece ser uma das peças mais importantes deste quebra-cabeça interminável.
Como já foi noticiado pelo Profeta Diário, o afilhado de Harry Potter foi detido pelo QG de Aurores por uso indevido de magia fora de Hogwarts, visto que ainda não alcançou a maioridade, e suas digitais, antes não fichadas pelo Ministério, combinaram com aquelas encontradas pela perícia na casa de Ronald e Hermione Weasley no dia da morte do primeiro.
Draco Malfoy, advogado escolhido por Granger e inicialmente defensor de Teddy Lupin, em clara retaliação aos métodos investigativos do QG do Aurores, impediu que o menino prestasse o depoimento de boa fé com a justificativa, à época divulgada em nota oficial, de que “os Aurores querem encontrar alguém para culpar, isso é o que os motiva, as hipóteses mais absurdas não parecem lhes importar. Não vou permitir que Teddy seja escolhido para carregar nos ombros tal fardo, como tentaram e ainda tentam fazer com Granger”.
Assim, Malfoy parecia ter tudo sob controle até o dia de ontem (25) quando o QG divulgou a existência de duas novas testemunhas que podem complicar a situação de seus clientes, sendo Teddy Lupin agora representado oficialmente por seu sócio Blásio Zabine.
O primeiro seria Isaac Greene, tradicional vendedor de doces de Godric’s Hollow e arredores, que diz ter ouvido gritos exaltados do lado de dentro da residência quando se aproximou para oferecer seus produtos, frequentemente consumidos pelo Sr. Weasley, segundo ele. “Havia duas pessoas claramente brigando lá dentro”, ele afirma em depoimento oficial, ao qual o Profeta Diário teve acesso, e ainda completa: “algumas coisas devem ser preservadas sob a segurança de nossas casas, coisas pessoais que não devem ser expostas a terceiros. Já presenciei muitas situações inconvenientes que não gostaria de ter presenciado e exatamente por isso evito me fazer notado quando posso. Por isso, decidi não bater [à porta], como normalmente faria, e interromper a briga.” Quando perguntado se poderia identificar a segunda pessoa caso ouvisse sua voz novamente, Greene disse não ter certeza, mas ao mesmo tempo afirmou não se tratar de Hermione Granger a pessoa com quem Weasley discutia: “além de saber que ela [Granger] estava trabalhando, era um tom de voz muito diferente, com sotaque mais acentuado, não sei se feminino ou masculino, mas certamente mais refinado”.
Entretanto, apesar de Granger ser descartada por Isaac Greene quanto à briga, Zach Fitzgerald, jovem de 19 anos residente de Godric’s Hollow, disse aos Aurores que a mesma não chegou a casa à hora que relatou em seu depoimento. Segundo Zach, era 01h30 AM quando a viu entrar em sua residência e não pouco depois das 02h00 AM, como disse. “Eu lembro perfeitamente por que minha mãe ainda estava acordada e tivemos uma briga [...] Ela pode confirmar esse horário, apesar de ser amiga da Sra. Weasley”. O Sr. Fitzgerald, porém, acha que Granger poderia meramente ter se enganado quanto ao horário: “é uma situação muito estressante, eu acho, ela não iria se atentar a detalhes técnicos como o horário exato em que chegou em casa no dia da morte do marido”, o jovem afirmou ao Profeta Diário quando procurado pela reportagem em resposta a sua opinião pessoal sobre a culpabilidade ou não de Hermione Granger.
Não parece tanto, mas com tais mudanças no cenário, é possível que o juiz finalmente emita intimação para Teddy Lupin, possivelmente a pessoa com quem Weasley discutiu, colocar-se a disposição do QG para prestar depoimento, sendo uma vitória dos Aurores, visto que nas últimas semanas estes tiveram todas as suas solicitações para intimação negadas por falta de provas.
Blásio Zabine, advogado de Teddy, que no momento está em Hogwarts cumprindo suas atividades escolares normalmente, disse não estar minimamente preocupado com a possibilidade de seu cliente ser interrogado enquanto Draco Malfoy disse que não emitiria comentários antes de enxergar uma posição séria por parte do Ministério, mais especificamente do QG, em relação ao cumprimento da lei em sua essência, além das especulações.
Colin Creevey
Draco não se surpreendeu com o tom da matéria escrita por Creevey, mas imaginou que o homem deveria ter passado por maus bocados com Evangeline para que a reportagem fosse publicada mantendo os traços tendenciosos como estava. Talvez a jornalista estivesse lhe sinalizando que poderiam voltar a ter uma relação ao menos instável agora que Lilá Brown parecia um tanto esquecida pela mídia no geral, mas não era o que o loiro tinha em mente. Fechou o jornal com um suspiro entediado e passou os olhos ao redor tendo a cara mascarada por um desprezo que não sentia em um nível tão alto assim, pois o pub em que estavam atendia a seus padrões de forma satisfatória. Havia lugares piores no Beco Diagonal.
O The Crown era um pub que ficava em uma das esquinas mais movimentadas de Godric’s Hollow. Duas janelas de vidro ocupavam toda a extensão das paredes que davam vista para a rua onde ficava a praça principal do vilarejo e, consequentemente, o monumento dedicado aos Potter, ao qual, aliás, Draco nunca deu mais que a atenção necessária para ler a dedicatória à família com quem tinha até mesmo algum parentesco longínquo. Nas demais paredes, painéis de madeira escura haviam sido colocados, embora retratos com fotos em preto e branco estivessem dispostos de forma desorganizada, embora harmônica, para homenagear antigos e ilustres clientes bruxos e trouxas. As mesas eram quadradas, do mesmo material do balcão, onde banquetas de perna alta haviam sido colocadas em toda sua extensão. As luzes àquela hora da tarde já começavam a ser acesas e podia perceber que a iluminação em tons escuros de vermelho e verde deixava o ambiente mais confortável.
Após a rápida e desinteressada inspeção do local, entretanto, Draco recaiu os olhos sobre Granger considerando que estar em um pub quando fora a apenas três consultas psicológicas não era uma boa ideia para ela. Sentada à mesa logo à sua frente, Granger suspirava a cada minuto com os olhos pregados no movimento de pessoas que começavam a terminar o expediente no trabalho, além de fazer um ruído irritante quando batia as unhas contra a superfície de madeira da mesa. Ela tentava não olhar, mas sabia que sua mente estava bastante atenta à estante repleta de bebidas que ficava atrás do balcão.
Haviam voltado ao vilarejo onde ela morara por tanto tempo para falar com Zach Fitzgerald, a testemunha que contestava o horário em que Granger havia chegado à própria casa, mas a mãe do garoto informara que ele havia ido ajudar o pai a fechar um contrato com o novo fornecedor da padaria da família. Ainda tentaram fazer com que a mulher colaborasse, para que soubessem o que realmente havia acontecido entre eles naquela noite e pudessem desacreditá-lo como testemunha, mas a mulher não fora nada receptiva. Embora claramente acreditasse na inocência de Granger, alegara que não poderia lhes dar a resposta que queriam, mas não expressou seus motivos.
Apesar da negativa, porém, Granger – determinada como estava a encontrar algo que pudesse ajudá-la – lhe contou que já havia visto Zach com Carrie, a garçonete do The Crown, o pub que costumava frequentar no vilarejo por tratar-se de um lugar mais reservado, aonde pouca gente ia, visto que outros pubs com uma roupagem mais moderna haviam sido inaugurados nos últimos anos. Draco quase sugerira que ela fosse para casa quando dissera que a mulher com quem deviam falar estaria no pub, mas percebeu que seria uma afronta a Granger, afinal ela jamais admitiria que sua falta de autocontrole em relação à bebida pudesse impedi-la de ir a um pub a trabalho.
Ela realmente achava que podia se controlar quando marchara a rua de paralelepípedo acima com tanta determinação, mas estando ali começava a duvidar que Granger pudesse aguentar tanto tempo sem resolver ir embora impulsivamente antes que a garçonete tivesse tempo para lhes falar. Estava acostumada a ter tudo sob controle, mas não a penar tanto no sentido psicológico para que isso se concretizasse.
— Como estão indo as consultas, Granger?
Após a pergunta abrupta, a castanha o encarou com estranhamento por alguns segundos antes de suspirar e desviar a atenção para os dedos que remexiam ansiosos a todo o momento. Percebera, então, que tal mania não havia cessado desde que ela começara a ir ao psicólogo, mas se encontrava um pouco mais amena do que há semanas atrás. Entretanto, provavelmente havia se desestabilizado ao perceber que precisava de mais força de vontade do que imaginara para conter a ânsia de beber.
— Ele me encaminhou a uma psiquiatra, que irá focar no tratamento efetivo do meu distúrbio... Com remédios. – Ela pigarreou incomodada. – Irei frequentar os dois simultaneamente para que o trabalho de um complemente o outro, segundo as palavras do psicólogo.
— E você já foi à psiquiatra?
Questionou realmente curioso devido ao modo como ela parecia desconfortável ao tocar no assunto. Ainda era um tabu para Granger confessar que precisasse de ajuda médica para manter-se mentalmente equilibrada. Antes que pudesse ter sua resposta, no entanto, a figura da garçonete encaminhou-se claramente relutante até onde estavam esperando-a, chamando a atenção da castanha à sua frente, a qual não parecia mesmo minimamente interessada em continuar o assunto.
Percebera os olhares esporádicos lançados por Carrie Wilkins enquanto ajeitava alguns objetos atrás do balcão e terminava de atender ao terceiro cliente da noite, que, a julgar pelas roupas formais, acabara de sair do trabalho. Assim, a mulher de cabelos negros e compridos extremamente cacheados estacou ao lado da mesa e encarou-os tendo as mãos na cintura, os olhos verdes examinando-os detidamente. Ela não parecia ter mais de 25 anos, mas os observava com a experiência e o olhar esperto de quem já vira muita coisa em sua vida.
— Zach está encrencado? – Foi sua primeira pergunta depois de lhes fazer esperar, propositalmente, por muitos minutos.
— Não, não está. – Respondeu Granger seriamente. – Acontece que já os vi juntos algumas vezes. Imagino que são próximos?
— Não mais. Terminamos há algumas semanas... No início de outubro, para ser mais exata. – A mulher deu de ombros, evasiva.
— Gostaríamos de esclarecer algumas coisas que Zach afirmou em seu depoimento ao QG dos Aurores, mas a Sra. Fitzgerald nos disse que ele viajou. – Carrie riu desdenhosa a sua afirmação e cruzou os braços.
— É claro que viajou, qualquer coisa que possa ameaçar a paz daquela família tem de ser evitada ao máximo. – Declarou em escárnio, embora a mágoa estampada em seus olhos tentasse ser mascarada. – Imagino que os Fitzgerald o tenham mandado à casa de algum parente temporariamente, para evitar que gente como vocês façam perguntas demais.
— E o que poderia “ameaçar a paz deles”? – Sentiu o olhar de Granger sobre si, certamente imaginando a mesma coisa que ele em reação a pergunta óbvia, mas que não poderia faltar para comprovar o que tinham em mente.
— Zach é filho único. Nora tem a ilusão de que pode proteger o filho de todos os males do mundo... Ela é um pouco pirada! – Fez uma careta. – Dizem que teve outro filho, mas este morreu quando ainda era bebê, então toda sua paranoia foi direcionada a Zach.
— E... Essa paranoia se estende às pessoas com quem ele anda? – Perguntou Granger cautelosamente, embora houvesse completado com os olhos semicerrados em direção a outra. – Incluindo você?
— Principalmente eu. – Ela falava de tudo como se não se importasse, dava de ombros como se não pudesse fazer nada e fosse forte demais para que qualquer coisa pudesse atingi-la, mas era claro que aquilo era apenas fachada. – Ela não me considera boa o suficiente para namorar o seu querido e inocente filho. Foi o motivo da nossa última briga.
— Então sabe por que Zach discutiu com Nora no dia em que Ronald morreu? Quando ele diz ter me visto chegar em casa antes da hora que declarei ao Ministério. – Granger estava visivelmente ansiosa, ele notou, e não apenas pela espera das respostas de Wilkins. O fato de ter bebida demais naquele local a deixava instável o suficiente para que algumas gotas de suor começassem a pipocar na superfície de sua testa. – Vocês ainda estavam juntos.
— Ele não comentou comigo, mas... É óbvio para quem o conhece bem. – Antes de continuar, entretanto, a garçonete encarou-os em dúvida, parecendo relutante. – Ouça, eu não quero ferrar Zach. Tudo que ele faz é pra tentar fugir dessa... Merda de vida controlada pela mãe!
— Nossa intenção não é complicar a vida dele, mas precisamos saber se ele estava... Lúcido o suficiente para determinar horários, como está tentando fazer. – Entregou os pontos, irritado pelo fato de os sentimentos da mulher pelo garoto estar impedindo que ela chegasse onde queria, onde precisava.
— Vocês já sabem, não é?! – Ela descruzou os braços, olhando-os com raiva. – Eu não gosto de joguinhos.
O tom alto em que Carrie falou chamou a atenção dos demais presentes e, quando ela fez menção de lhes dar às costas, Granger a segurou pelo pulso, monopolizando-a. Por um momento, a mulher pareceu um pouco assustada pela reação rápida da castanha, mas logo depois expressou estar ofendida, ao encarar com raiva a mão da outra ao redor de seu braço. Apesar disso, Granger não se deu por vencida, continuando a conversa apenas para que eles pudessem ouvir.
— Carrie, eu não fiz aquilo. Eu não matei Ron. Isso é um absurdo, você me conhece. – Começou em tom firme. – Zach estava ou não sóbrio o suficiente? Ele poderia lembrar-se com clareza tudo que aconteceu naquela noite? Ele poderia lembrar-se da hora exata em que viu uma vizinha com quem nunca conversou mais do que 2 minutos entrar em casa? Moramos ao menos a 10 casas um do outro, é uma distância considerável nessas circunstâncias.
O silêncio reinou enquanto Granger sustentava o olhar novamente examinador de Carrie. Tinha consciência de que elas se conheciam, mas imaginava que fosse um contato apenas superficial, não era como se a garçonete de um pub fosse conversar com Hermione Granger sobre assuntos mais importantes do que as fofocas do vilarejo, afinal Granger não era do tipo que saía falando para qualquer um sobre seus problemas: ela precisava manter as aparências, além de tudo.
A primeira a quebrar o contato visual, portanto, foi Wilkins, que lentamente retirou o braço do aperto da outra, e engoliu em seco antes de encará-los de forma determinada, mas era visível que Granger respirava lenta e calculadamente ao se sentar à sua frente, evitando olhá-lo, tendo o suor se tornado mais proeminente em seu rosto, embora o ambiente estivesse ameno dentro do local, e as manchas vermelhas causadas pelo nervosismo estivessem subindo lentamente por seu pescoço.
— O que vão fazer se eu confirmar que ele não estava sóbrio?
— Seu testemunho poderá constar como anônimo. – Draco garantiu ao tom baixo e contrariado e ela continuou de forma relutante.
— E quanto ao... Estado de Zach?
— O Ministério não tem interesse algum em tornar públicos os problemas pessoais dos outros.
Novamente, Carrie encarou Granger parecendo travar uma luta interna sobre fazer o certo ou proteger o namorado dos “problemas de um mundo tão injusto”. Evitou um revirar de olhos quando a mulher olhou para o teto e soltou um suspiro vencido antes de sentar-se ao lado de Granger e desatar a falar.
— Nenhum dos amigos dele irão se preocupar com esse tipo de detalhe, então... – Ela deu de ombros por que considerava ser alguém responsável o suficiente para pensar no melhor para Zach tendo em vista que conhecia seus problemas. Francamente, o QG e a Promotoria não haviam pensado com clareza ao divulgar aquele depoimento e ter a intenção de usá-lo como prova, deveriam saber que o garoto não tinha a mínima credibilidade e que Draco, certamente, descobriria isso. — Eu estava trabalhando, mas Zach ficou boa parte da noite aqui no pub com alguns amigos, todos provavelmente tão chapados quanto ele, nem poderão procurá-los. Quando ele saiu daqui já passava de 01h00min da madrugada e, definitivamente, não estava nada sóbrio.
— Quando você diz chapado...?
— Bêbado, drogado... – Ela bufou em exasperação. – Com aquela gente que estava aqui? Possivelmente os dois.
— Podemos marcar um depoimento juramentado nos termos que combinamos, caso Granger enfrente um processo relacionado a isso? – A mulher concordou e levantou-se. – Entraremos em contato, se necessário.
Eles não iriam indicar a testemunha ao QG para que eles anulassem a prova falha que tinham contra Granger. Sequer era sua função se intrometer na investigação e corrigir o trabalho dos aurores. No tribunal, Draco lhes mostraria como se reunia provas e testemunhas de verdade. Ele gostaria de ver a cara de Patil quando lhe contasse que tinha o testemunho de Carrie Wilkins desde que eles divulgaram a existência de Zach Fitzgerald e seu depoimento inconsistente. Desacreditariam o garoto de olhos fechados.
Parado ao lado da porta, então, viu Granger agradecer a mulher com um abraço e andar a passos rápidos até onde estava, pois ela e Wilkins se encontravam perto de uma mesa onde um cliente degustava com prazer um copo de conhaque. A castanha passou por ele com pressa para finalmente ganhar a rua.
Andaram lado a lado por alguns passos e pôde observar a outra andar o tempo todo com a cabeça baixa, as mãos abrindo e fechando a todo o momento, como se quisesse liberar alguma tensão, provavelmente pensando que só um gole do conhaque alheio a satisfaria, embora a parte racional de seu cérebro devesse estar realizando que um gole era tudo que precisava para perder o controle pelo qual lutava internamente para manter.
— Granger. – Ela o encarou como se houvesse sido tirada de um devaneio. – Tudo bem?
Ela concordou avidamente, mas de alguma forma sabia que era o que ela queria e não como realmente estava. Assim, dez passos depois seguindo rua abaixo em direção à parte menos movimentada do vilarejo, a mulher parou abruptamente, forçando-se a respirar fundo ao mesmo tempo em que abria e fechava as mãos sem intervalos.
— Eu não sei se consigo! – Ela disse quase em um sussurro, mas de forma estridente, alarmada com sua falta de domínio sobre si mesma. – Estar lá me fez ter vontade de beber e eu... Me tira daqui.
— Olha... Acalme-se. – Draco aproximou-se a segurando pelos ombros e apertando-os levemente como que para colocar a atenção nela em outra coisa. – Está conseguindo manter-se coerente quanto a isso. Respire e pense no que o psicólogo já lhe falou sobre.
— Ele... Ele disse que eu deveria evitar ir a lugares onde houvesse bebida à vontade, como festas, bares... – Viu-a levar as mãos à cabeça e ofegar; seus olhos enchendo-se de lágrimas. Draco sabia que agora ela tinha consciência de que não podia “parar quando bem entendesse” e era isso que mais a tirava de si, não o fato de que a bebia a tornava completamente sem noção dos próprios atos. A falta de controle sobre todas as situações a deixava desnorteada. – Mas precisávamos ir até lá, Malfoy, eu precisava dessa testemunha...
— Eu sei. Fizemos o que tínhamos que fazer e vamos voltar, juntos, sem nenhum problema. Você vai ficar bem.
— Eu... Tenho que tomar o remédio que a psiquiatra receitou. – Granger segurou com força seus pulsos, olhando-o firmemente, embora pudesse enxergar um brilho de debilidade que não a pertencia. Então, realmente havia ido ao outro especialista. – Ele vai me estabilizar, eu... Devia tê-lo sempre comigo, mas... Eu não achei que precisaria hoje...
— Não tem que explicar-se para mim. – Ela assustou-se por um momento, engolindo em seco, pela resposta que pensou ser atravessada, embora não fosse a intenção de Draco. Não precisava explicar-se para ele por que sabia o que estava acontecendo com ela e sabia que verbalizar isso a faria se sentir ainda mais vulnerável. – Se pensar com calma, perceberá que não quer beber, que o seu problema é o medo de perder a batalha interna que está travando neste momento para o álcool. Você não gosta de perder, Granger.
Viu-a respirar rapidamente por alguns momentos, os olhos piscando a cada segundo e parecendo perdidos. Lentamente, ela soltou seus pulsos, mas manteve as mãos fechadas por mais alguns segundos. Draco a soltou, passeando as próprias mãos pelos braços protegidos pelo frio, vendo-a abaixar a cabeça e cerrar os olhos enquanto engolia em seco. As machas vermelhas provocadas pelo nervosismo ainda estavam lá, mas haviam subido até chegar às bochechas e não teve pressa ao esperá-la se estabilizar para seguir em frente, para conseguir ter concentração para aparatar.
— Podemos... Podemos ir? – Ela disse após respirar fundo, olhando ao redor, evitando encará-lo com bastante veemência.
Desse modo, minutos depois, pois precisaram procurar um local para aparatar com segurança, estavam na sala de visitas da Mansão Black em completo silêncio. Granger praticamente correu em direção à cozinha no porão em busca do remédio, mas Draco a seguiu mais calmamente, descendo as escadas de forma lenta, dando certo tempo para que ela conseguisse se sentir novamente equilibrada. Assim, quando finalmente se fez presente, a mulher encontrava-se de frente para um dos grandes e antigos armários de madeira clara da casa, o corpo curvado sobre o aparador onde provavelmente estava o remédio que tanto necessitava; os cabelos cacheados fugindo do gorro e escorrendo pelas costas em uma textura completamente diferente da do casaco branco que utilizava. Era quase imperceptível, mas podia vê-la tremendo embaixo de todas aquelas camadas de tecido.
Sem pressa, Granger pareceu recobrar a razão dando-se conta apenas quando abriu os olhos que Draco a observava. A castanha o encarou por alguns momentos, provavelmente analisando o que poderia estar pensando sobre o acontecido, mas se chegou a alguma conclusão resolveu não externá-la, pois imediatamente virou as costas para guardar o remédio em seu devido lugar.
— Você não precisa agir assim só por que a vi a ponto de perder o controle. – Ela concordou com um aceno de cabeça e retirou o gorro, as luvas e o casaco revelando estar com uma simples blusa preta de mangas, a qual era o suficiente para usar dentro da casa aquecida magicamente. Observou-a pegar todas as peças e fazer menção de passar por ele, mas a impediu apoiando o braço na outra parede do corredor estreito, monopolizando o caminho. – Granger.
— Não suporto que me olhe com pena. – Declarou ela de forma abrupta, encarando-o seriamente.
— Eu estou de ajudando, não tem a ver com pena.
— Eu duvido. E fica ainda pior quando lembro que estou te pagando para isso!
A mulher revirou os olhos e quis começar a subir as escadas, mas novamente a impediu, percebendo que o remédio claramente não havia chegado ao pico de seu efeito: ela respirava rápido, tinha algumas gotas de suor brilhando em sua testa e segurava com força as peças de roupa que tinha em mãos.
— Granger, pare e pense se alguma vez na vida eu fiz algo por pena. – Dessa vez, ela não o contestou, apenas o encarou orgulhosamente, estudando-o com os olhos semicerrados em busca de alguma mentira bem contada. – Nunca, muito menos para você.
Tinha certeza de que não havia a “olhado com pena”, raramente sentia isso em relação a terceiros. A bem da verdade, raramente parava para pensar na situação alheia. Dessa forma, nutrir tal tipo de sentimento sobre Hermione Granger era ultrajante por que o que fazia por ela ia muito além de sentir ou não pena; além, é claro, do fato de que estava sendo pago para ajudá-la. Racionalmente, ela sabia disso. Momento depois, a castanha abaixou a cabeça, ajeitando os objetos que tinha em mãos e suspirando.
— Desculpe, é só... Eu não estou tão estável quanto achei que estaria. – Ela confessou em um tom baixo e arranhado, ainda encarando o chão. – E... Não sei se gosto da ideia de tomar remédios regularmente. Recorrer a ele me deixará ainda mais impotente em relação ao álcool. Por que sempre que sentir vontade de beber, saberei que posso tomá-lo, que ele irá me reequilibrar... O remédio. Eu não estarei fazendo isso por conta própria.
Granger precisava de batalhas para viver, foi o que concluiu ao perceber que ela nunca parava de ponderar cada aspecto de sua vida e sempre, sempre, encontrava um problema com que lutar.
— Você já disse isso à psiquiatra? – Ela sinalizou em afirmativo, engolindo um soluço.
— Ela falou que essa não é a intenção, que... Quando eu conseguir me estabilizar sozinha, raciocinar a situação sem a ajuda do remédio, a dose será diminuída. – Granger finalmente o encarou, seu rosto manchado por lágrimas recentes e os olhos brilhando por ajuda. – Não quero correr o risco de desenvolver outra dependência, Malfoy.
Observou-a tapar a boca com uma das mãos e fechar os olhos, tentando conter a nova onda de choro que lhe açoitava, provavelmente condenando-se por quebrar frente a ele, pois se havia algo que sabia sobre Granger era que detestava demonstrar suas fraquezas. Foram pouquíssimas as vezes em que viu Hermione Granger chorar e nessas ocasiões ela sempre o desarmava. Naquele estado, ela destruía qualquer barreira que houvesse arquitetado de propósito para afastá-la.
Nas últimas semanas, pelo fato de que agora era com o psicólogo e com o psiquiatra que ela desabafava, discutiam apenas assuntos profissionais, nada além disso. Tinha em mente que tudo estava voltando à sua normalidade, a relação entre eles recuando novamente ao âmbito advogado e cliente, o que não o incomodava de todo. Era confortável estar naquela relação quando se não aprofundava em Granger e seus problemas. Porém, era impossível não fazê-lo ao vê-la deliberadamente lhe pedindo ajuda por sentir-se impotente perante algo que seu próprio corpo tornara mais forte do que ela.
Assim, suspirando, lenta e relutantemente, Draco a puxou para um abraço. Ela não ofereceu resistência e deixou que o choro viesse sem restrições. Não era a primeira vez e tinha a impressão de que não seria a última, pensou ao senti-la soluçar contra si após algum tempo. Granger já havia soltado o peso contra seu corpo, dando a impressão de que até isso, no momento, era algo com que não poderia lidar.
Desse modo, enfim, o silêncio reinou na cozinha da Mansão Black. Ocasionalmente, ao respirar mais fundo, Granger tremia contra ele tendo a cabeça apoiada na curva de seu pescoço e, quando julgou que poderia afastar-se, ela o segurou no lugar onde estava, a mão que não estava ocupada por suas peças de roupa, apertando o casaco masculino para mantê-lo onde queria.
— Malfoy. – Sussurrou quase baixo demais para que pudesse ouvir. – Dorme aqui hoje?
— Isso... Não é nada apropriado, Granger. – No entanto, ela aconchegou-se ainda mais ao seu corpo.
— Quero voltar a dormir com a luz apagada. Faz tanto tempo... – Ela sussurrou por fim, obrigando-o a fechar os olhos devido a sua respirando contra seu pescoço. – O remédio me fará dormir em poucos minutos. Fica comigo.
Granger afastou-se, encarando-o calmamente enquanto lhe estendia a mão livre, esperando; os olhos vermelhos e inchados, assim como a ponta do nariz. Ela não estava se oferecendo, mas pedindo companhia e lidar com isso, de alguma forma, era mais difícil do que esperava. Era inapropriado, não pela relação advogado-cliente que mantinham, mas por que não estava acostumado a estar tão próximo a alguém que não fosse da família. Por que meses atrás se detestavam, por que aquela relação que claramente fora além do vínculo profissional desde o início estava ultrapassando todos os limites que Draco havia imposto a si mesmo sobre se importar mais do que o necessário. Granger havia ultrapassado essa barreira sem nem mesmo perceber por que estava completamente imersa em seus problemas, afogada demais nas próprias barreiras e pedindo sua ajuda para ultrapassar uma delas.
Assim, Draco não teve ideia se foi por Granger ou por si mesmo que aceitou a mão estendida da morena. Dormiriam juntos, apenas. Era simplório demais para seus padrões, mas tão egoísta quanto estava acostumado, pois enquanto subiam as escadas – seus dedos entrelaçados aos dela de forma descoordenada, mas confortável –, entretanto, percebeu que não se importava se, aparentemente, estava se prestando àquilo para ajudá-la a superar seu medo do escuro devido à depressão. Não era só sobre ela. Jamais seria. Deveria se sentir um tanto culpado quanto a isso, mas naquela noite não queria e nem iria racionalizar todas as questões envolvidas naquela relação. Dormiriam juntos, simplesmente.
No próximo capítulo
— Ninguém nunca teve o poder de afetá-lo como ela, Draco.
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— Esperou muito tempo para ganhar minha atenção, Cho?
— Você não faz ideia.
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— O Conselho dos Aurores votou o afastamento de Potter do caso Weasley.
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