Neurótica
19 Capítulo 19
Stone cold, stone cold
You see me standing but I'm dying on the floor
Stone cold, stone cold
Maybe if I don't cry, I won't feel anymore
Atônito, Draco fechou a porta da biblioteca atrás de si e encarou o corredor escuro por alguns segundos, notando que a porta do quarto de Granger estava aberta, o que significava que ela não estava ali no momento. Só esperava que ela não fugisse, não novamente, quando tinha em mãos o que queria saber desde o início: enfim, Granger não havia matado o marido. Porém, havia omitido socorro.
Assim, o mundo dela estaria acabado se alguém descobrisse, ainda que, em sua opinião, Weasley não pudesse sobreviver mais do que o curto minuto que ainda respirou depois que Granger o encontrara. Ele havia perdido muito sangue, estava quase inconsciente... Draco interrompeu seus pensamentos enquanto descia as escadas da Mansão de forma lenta, afinal não era de seu feitio trabalhar com hipóteses. O fato concreto trazia Weasley morto e Granger omitindo socorro, embora a única versão que pretendesse usar era a de uma Hermione Granger desesperada ao encontrar o marido morto.
Quando chegou a sala de visitas, Granger estava sentada em um sofá espaçoso à frente da lareira acesa enquanto abraçava os joelhos e tinha os olhos perdidos no fogo, como se estivesse temerosa por algo. Inicialmente, ela sequer notou sua aproximação, mas levantou os olhos assim que lhe bloqueou a visão projetando uma sombra sobre ela.
— O que você fez antes de chamar os aurores?
Granger o encarou por alguns momentos, como se estivesse se decidindo se perguntando se seguiria seu raciocínio e o deixaria a tratar tão profissionalmente depois do beijo que havia acontecido antes de ver as memórias dela. Draco, entretanto, sustentou seu olhar avaliador firmemente e, quando a viu suspirar e fechar os olhos, soube que ela havia perdido. Apesar de também saber que ela não gostava de perder com facilidade.
De qualquer forma, ela não sabia o quão profissional podia/queria ser naquele momento. Tinha em mãos o caso da sua vida, consagraria sua carreira ao consegui-la livrá-la da prisão – até mesmo Granger sabia disso – e não deveria deixar que um mísero beijo e sentimentos conflituosos o atrapalhassem.
— Encontrei a carta que você leu, a que Ron pedia o divórcio, e desfiz a mala que estava no closet. Em seguida, fui até o escritório e queimei os documentos que versavam sobre o divórcio em si. – Granger deu de ombros e cruzou os braços. – Ele não queria litigar, apenas... Oficializar a separação. De acordo com o que li todos os nossos bens haviam sido distribuídos igualmente.
— Então, se havia um documento que só precisava de sua assinatura, Weasley já havia feito todo o trabalho. – A encarou levantando uma sobrancelha ao perceber que ela acompanhava sua linha de raciocínio. – E ele precisou contratar um advogado para isso.
— Cho Chang. – A mulher se colocou de pé no mesmo instante. – Ela era a representante de Ronald no divórcio, sócia do escritório de Goldstein, o advogado de Brown...
— É assim que ela irá provar que Weasley pediria mesmo o divórcio naquela noite. – Draco concluiu sem esforços. – Chang irá testemunhar a favor dela e pode até mesmo ter uma cópia do documento no escritório.
— Chang me detesta desde Hogwarts. – Que novidade.
— Você cultivou muitas inimizades ao longo dos anos, não é?
Granger lhe lançou um olhar estressado e respirou fundo, andando de um lado para o outro à sua frente enquanto Draco acomodava-se no sofá onde a mesma havia estado.
— Iremos alegar que este documento sequer chegou às minhas mãos. – Ela voltou-se para ele em um tom superior, que em muito lembrava o da Promotora inabalável que fora. – Eles não podem provar isso, de qualquer forma.
— Mas Chang irá afirmar que Weasley estava com o documento em mãos. Por qual motivo ele iria demorar a lhe mostrar?
— Por que ele não tinha coragem o suficiente para isso? Foi o que aconteceu, não foi? – Ela retrucou ironicamente e ambos encararam-se em silêncio por alguns instantes até que ela suspirou cansada e sentou-se ao seu lado, cruzando os braços como uma criança mimada. Ela sabia exatamente o que passara por sua mente. – Nunca o ameacei, Malfoy.
O silêncio se fez presente mais uma vez, embora sons inconvenientes de risadas infantis do lado de fora ultrapassassem as paredes da Mansão. Parecia quase um crime toda aquela aura de felicidade no bairro enquanto discutiam um assassinato ali dentro.
Em sua mente, entretanto, parecia plausível que Granger já houvesse ameaçado Weasley ao menos indiretamente. Não fazia sentido que ele tivesse tanto medo de deixá-la; que tivesse compactuado de boa vontade com o arrastar daquele casamento fracassado por, pelo menos, três anos apenas pela culpa de ter induzido o aborto que Granger havia sofrido. Além disso, não havia por que ele continuar o casamento com ela apenas para manter sua boa imagem perante a sociedade em respeito ao passado que dividiam após iniciar seu caso extraconjugal com Brown.
Não saía de sua cabeça o fato de que Granger devia ter na manga uma carta que o mantinha no casamento, mas aparentemente essa não valera de nada quando ele descobriu que Brown estava grávida. O motivo? Só poderia levantar hipóteses. Parecia-lhe ainda mais provável uma Hermione Granger que mantivesse o casamento sob chantagem ou ameaça após ver o que ela fizera. Não esqueceria as feições frias, completamente despidas quaisquer sentimentos, enquanto ela tirava a varinha de alcance do marido. Enfim, suposições de tal tipo eram o que mais havia em sua cabeça nos últimos tempos e todas eram relacionadas a ela.
— Você o deixou para morrer, Granger.
Draco havia jurado a si mesmo que não tocaria neste assunto, pois ninguém jamais saberia e isso não precisaria se tornar um problema – em relação aos aurores e até mesmo entre os dois. Deveriam focar no que era realmente problema e empenhar toda sua criatividade para resolvê-lo e não remoer o passado em busca de razões para o que ela havia feito, pois se não era um problema, não estaria no processo e também não seria de sua alçada.
Porém, isso estava atravessado em sua garganta e sabia que não aguentaria sem confrontá-la, pois era o que fazia. Confrontar Granger era sua função – mesmo antes de estar na posição de advogado dela -, era uma das razões por ainda estar ali e uma forma de tentar entendê-la e ajudá-la, se realmente o quisesse.
— Com Ronald morto... Eu vi uma chance de ser feliz em muito tempo. – Ela começou em tom baixo e contrariado, embora parecesse imersa nas próprias lembranças. – Enquanto o encarava, esperando que ele morresse logo, eu conseguia enxergar um mundo de possibilidades se abrindo à minha frente, Malfoy. Então, de certa forma, sinto que o matei. Eu queria que ele morresse. Não o ajudei exatamente por isso: em minha mente, tudo mudaria. Não me orgulho disso.
Encarou o perfil emoldurado de forma discreta pelos cachos que escapavam do coque frouxo, os olhos refletindo as chamas da lareira. Granger talvez não tivesse noção de como seus olhos castanhos amendoados eram expressivos, mas Draco já havia percebido e ali, mesmo quando ela olhava o crepitar do fogo ao lembrar-se do que havia feito, estes lhe pareciam opacos demais e isso não era algo que o agradava.
— Tudo mudaria por que estaria com Potter? Ele era sua chance de ser feliz?
— Não. – Ela respondeu no mesmo instante e o encarou seriamente. – Não sou tão estúpida. Harry jamais deixaria sua família pseudo perfeita para ficar comigo. Além disso, nunca estive apaixonada por ele. Mas, apesar de tudo, eu acreditei que as coisas seriam mais fáceis sem Ronald.
— E elas não saíram exatamente como esperava. – Granger apenas meneou a cabeça, pois, embora concordasse, não gostaria de lhe dar o braço a torcer. Draco a conhecia. – Se Weasley estivesse vivo, deixaria o passado onde deveria com muito mais facilidade...
— Se Ron estivesse vivo, ainda estaria presa àquela vida. Isso é o que sei. – Ela o interrompeu, parecendo cansada de toda aquela discussão envolvendo hipóteses que, logicamente, estavam fora de alcance. Trabalhar com o que poderia vir a acontecer caso Weasley estivesse vivo não os levaria a lugar algum. – E venho tentando encontrar uma maneira de sair dela há tempo demais.
— Ajudaria se houvesse tentado da maneira certa.
Ela pareceu contrariada ao desviar os olhos para a lareira novamente e Draco não insistiu no assunto. Sequer poderia fazê-lo, aliás, pois antes que ela pudesse se pronunciar, no entanto, a campainha foi ouvida e ambos franziram o cenho. Não era como se tivessem o hábito de receber visitas naquela casa e Andrômeda, a única que poderia ir ali com alguma frequência que ele não poderia saber já que não monitorava a vida de Granger a esse ponto, poderia chamá-los pela lareira para que liberassem a aparatação ali dentro.
Então, foi como se algo houvesse estalado em sua mente ao lembrar-se do recado da Sra. Smith: prestar esclarecimentos aos aurores até aquela tarde, no mais tardar. Como poderia ter se esquecido? Levantou-se abruptamente com a intenção de encaminhar-se para a porta, mas Granger o segurou pelo pulso antes que pudesse sair da sala de visitas.
— Malfoy...
— Os aurores estão aqui, então espero que tenha algo bastante satisfatório para falar quando lhe perguntarem por que a varinha de Weasley tem suas digitais. – Ela o olhou por um momento e Draco instantaneamente soube que havia colocado o cérebro dela para trabalhar. A campainha soou novamente e ele levantou uma sobrancelha, como que perguntando se ela já sabia o que iria dizer. Granger acenou positivamente, mas ainda fez questão de semicerrar os olhos na direção da mulher. – Não faça besteira.
— Você me conhece.
Exato. Mas não havia tempo de contestá-la, então apenas revirou os olhos pela petulância latente e quando abriu a porta o incômodo pelo pequeno defeito de Granger se esvaiu, pois a Auror Flynn lhe parecia muito mais detestável com aquele olhar superior que ela insistia em manter ao encará-lo, como se fosse muito mais experiente que Draco. Bem, ela devia pensar o mesmo sobre ele, de qualquer forma, e era isso que o consolava.
— Respeitar prazos não é mesmo do seu feitio, não é?
— Diga logo a que veio. – O auror com aparência de segurança que se encontrava atrás dela pigarreou como que para avisá-lo que deveria melhorar o tom de voz ao se dirigir a autoridade ali, mas Flynn não representava ameaça alguma, apesar de achar que sim.
— Eu avisei que sua digníssima cliente tinha 12 horas para se apresentar ao QG com uma explicação convincente sobre o motivo de as digitais dela estarem na varinha da vítima e Granger não apareceu. Potter disse que ela estava morando aqui. – Ela olhou o cômodo vazio logo atrás de Draco. — O que é estranho por que acho que isso ultrapassa o limite ético e profissional entre advogado e cliente.
— Eu não tenho o mínimo interesse em saber o que acha ou não. – Draco retrucou com desprezo e deu às costas a ela deixando a porta aberta em um claro sinal de que os aurores deveriam entrar.
— Certamente há um motivo bastante interessante para Granger ter aceitado se hospedar na sua casa quando todos no Ministério sabem como se detestavam até algumas semanas atrás. – Flynn disse em tom sugestivo enquanto olhava ao redor como se admirasse a elegância e sofisticação que a cercava, mas logo voltou o olhá-lo como se soubesse que estava escondendo algo. – Sua cliente perturbada precisa estar sempre sob monitoramento?
— A cliente perturbada está aqui e ainda pode entrar com um processo por injúria contra o QG dos aurores. – Granger disse da porta da sala de visitas encarando Flynn de cima a baixo com desprezo. Por isso, tinha a leve impressão de que a história das duas também nunca fora um mar de rosas. – Você deve aprender a medir suas palavras.
— Acha que irão me intimidar por que são dois advogados experientes? Eu tenho que lembrá-la de que está sendo investigada por homicídio...?
— O fato de estar sendo investigada não me faz culpada devido a presunção de inocência até que se prove o contrário, coisa que aparentemente gosta de ignorar, mas apesar disso eu exijo respeito da sua parte. – Aquela era a Promotora Granger falando e ficou muito satisfeito por vê-la se impor como há muito tempo não fazia.
— Vamos acabar com isso. – Encaminhou-se para a sala de visitas, iluminando o ambiente com um aceno de varinha enquanto era seguido por todos, que se acomodaram nos sofás confortáveis. – Faça suas perguntas, auror Flynn.
Era óbvio que a mulher detestava ser mandada e o fato de Draco abusar de sua boa vontade, tendo se esquecido de que deveria levar Granger ao Ministério para a tomada de depoimento, parecia irritá-la ainda mais. Além disso, deveria levar em conta que ela parecia se sentir intimidada estando no território inimigo, pois se mexia de forma desconfortável a cada cinco segundos e olhava para os lados como se um bicho-papão fosse sair detrás da cortina a qualquer momento.
A Mansão Black possuía essa aura intimidante – embora em um nível muito inferior que a Mansão Malfoy -, tinha de admitir, e agora estava até mesmo bastante contente pela coincidência. Do mesmo modo, Granger havia percebido a situação da outra e a encarava com um tipo de prazer sádico no olhar.
— Certo. – Ela pigarreou. – A varinha do Sr. Weasley foi encontrada sobre a pia, no banheiro da suíte principal do casal, repleta de digitais da Sra. Weasley...
— Granger. – Draco disse no mesmo instante que a própria Hermione, pois simplesmente não parecia certo que Granger, tão infeliz em sua vida de casada, insistisse em usar aquele sobrenome.
— Como pode explicar o fato de suas digitais estarem na arma do crime? Aquela que amaldiçoou seu marido? – Perguntou a auror após encará-los de forma suspeita.
— Quando fui ajudá-lo, provavelmente a varinha estava perto... Os detalhes daquela noite já estão um tanto vagos em minha mente. – Granger deu de ombros e a auror pareceu querer matá-la apenas com o olhar. – Você sabe, quanto mais tempo se passa, maiores são as chances de que o depoimento seja incerto.
— Está tentando usar seus conhecimentos jurídicos para manipular seu depoimento, mas esperava que não fosse necessário lembrá-la de que aqui é apenas uma bruxa comum.
— Não estou tentando manipular nada, estou apenas lhe dizendo o óbvio. – Retrucou a mulher de forma tranquila e até mesmo monótona. – Estou querendo dizer que, enquanto tentava ajudar Ronald, acho que peguei a varinha e a coloquei sobre a pia do banheiro. Obviamente, minhas digitais estarão lá, mas não quer dizer que eu a usei antes deste momento.
— E não usou nenhum feitiço curativo nesse suposto processo? O corpo de Weasley não apresentava resquícios desse tipo de magia.
— Não, não, provavelmente fiquei apavorada demais com... A imagem do meu marido rodeado de sangue daquele jeito. – Viu Granger desviar o olhar para o bloco de notas e a pena de repetição rápida, a qual funcionava a todo o vapor enquanto falava. – Eu... Apenas tentei fazer com que ele retornasse a consciência, mas... Não demorou muito para que percebesse que era inútil, pois Ronald já havia perdido muito sangue quando cheguei.
— Quanto tempo demorou a chamar os aurores após perceber que ele havia morrido?
— Não muito. – Ela se mostrou confusa ao encarar a Auror novamente. – 5 minutos, no máximo, mas não posso ter certeza.
— E por que contatou os aurores se o Sr. Weasley já estava morto? Por que não chamou medi-bruxos para tentar reanimá-lo?
— Tive medo de que houvesse alguém em minha casa. – Flynn levantou uma sobrancelha em busca de uma explicação para a resposta mal dada. – Não sou idiota. Meu primeiro pensamento foi assassinato e não suicídio, como a imprensa especulou no início. Nosso passado lutando contra Voldemort, minha carreira e inimizades que obtive ao longo dos anos, tudo colaborou para que pensasse assim, então acho natural que tenha chamado os aurores por medo de que a pessoa que fez aquilo estivesse à espreita para tentar me matar também.
Fantasiar as mentiras com níveis esparsos de verdades era realmente esperto, foi o que Draco constatou ao ver a Auror encarar sua suspeita por mais alguns segundos e levantar-se, sem mais perguntas a fazer e dando-se por satisfeita pelas respostas dadas de bom grado. Talvez estivesse esperando que Granger não fosse colaborar com as investigações, pois, desse modo, teria mais facilidade em culpá-la e levar aquele caso ao tribunal. Entretanto, não tinha tais pretensões.
— Muito bem, Srta. Granger... – Ela guardou o bloco de notas e a pena de repetição rápida. – Espero que da próxima vez seu advogado lembre-se de cumprir o prazo estipulado, não quero ter de trabalhar em pleno sábado novamente devido à sua inconveniência.
— Não irá se repetir, Auror Flynn. – Retrucou com um toque de ironia, obviamente, percebido pela mulher, a qual ainda voltou-se para eles uma última vez antes de sair da casa.
— Não se esqueçam, também, de que o prazo para a conclusão do inquérito acaba após o Dia das Bruxas e a Promotoria já deu sinais de que levará o caso adiante.
— Se vocês conseguirem reunir provas que não sejam circunstanciais... – Ainda retrucou.
— Não precisamos de provas circunstanciais, nós temos aquela que a incrimina. – A auror retrucou de forma séria e lhe às costas após um olhar atravessado.
— Foi melhor do que eu esperava. – Declarou assim que a porta de entrada da Mansão Black foi fechada. Granger, por outro lado, apenas deu de ombros e voltou à sala de visitas, onde ambos se acomodaram novamente, dessa vez mais confortáveis e próximos. – Acredito que imagine qual seja nosso próximo passo agora que os aurores estão finalizando o inquérito.
— Contra-atacar Brown através da imprensa. – Ela sabia como as coisas funcionavam quando ele jogava.
No próximo capítulo
— Todos parecem estar contra ela, todos querem condená-la, Draco!
— Sim, mas eu estou do lado dela [...] Confie em mim.
...
DRACO MALFOY PROMOVE COLETIVA DE IMPRENSA
...
— Sinceramente, não quero que essa noite termine em briga, como a maioria de todas as outras, então... Eu vou embora.
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