Evangeline andava um lado a outro em sua sala lendo anotações em uma prancheta comprida no que parecia ser um tipo de ensaio – quase como aqueles que fazia antes de enfrentar o Décimo Tribunal – enquanto a equipe do Profeta Diário decidia qual o lugar ideal para a entrevista de Granger.

Então, para não se sentir um completo inútil, Draco discutia com Blásio um processo que o mesmo deveria agilizar aquela tarde, afinal deixar Granger sozinha com Evangeline e suas perguntas ardilosas não era uma opção discutível. Por fim, fechou a pasta que tinha em mãos e a entregou ao colega com recomendações expressas de que aquilo tinha de ser resolvido o mais rápido possível, ainda que o mesmo tentasse negligenciar o trabalho com maior frequência do que gostaria.

– Irei falar com Bartold, soube que ele vai ao Caldeirão Furado todos os dias depois das cinco. – Draco somente revirou os olhos, pois esse era exatamente o tipo de tarefa que combinava com Blásio. Se Bartold, o pródigo herdeiro devedor, estivesse de bom humor talvez o convidasse para sentar-se com ele e tomar uísque de fogo com o dinheiro que Draco controlava com extrema rigidez. – Granger não me parece preparada para dar uma entrevista.

– Ela não está. – Zabine franziu o cenho, confuso. – E não estaria em momento algum. Por isso, estou contando com sua vasta experiência em manipular e ludibriar a população bruxa.

Os dois homens observaram a figura elegante da mulher contra o vidro da janela, que parecia bastante concentrada no movimento no Beco Diagonal alguns metros abaixo. Desse modo, aparentava estar, em contrapartida, nem minimamente interessada no que acontecia dentro do escritório.

Ela havia caprichado novamente na aparência, afinal sabia exatamente o que a imprensa e a comunidade bruxa queriam ver: alguém sentimental e não a mulher implacável dos tribunais, sempre usando roupas profissionais que pareciam torná-la intocável. Assim, Granger havia escolhido vestir calça branca simples com uma blusa levemente rosada de tecido fino e mangas fechadas por abotoaduras de pérolas, no mesmo estilo dos botões logo abaixo do laço discreto e elegante ao redor de seu pescoço, o qual não dava margem para decote algum. O cabelo estava preso em um coque displicente, não fugindo de seu real estilo, e a maquiagem no rosto apenas tinha a função de tapar as olheiras e corar as bochechas pálidas pelo fato de ficar a maior parte do tempo em casa.

Porém, ainda que mantivesse a postura, era possível perceber que Granger estava insegura e não era necessário ser um observador nato como ele, pois até o displicente e egoísta Zabine notara o estado em que a mulher se encontrava.

– Espero que saiba o que está fazendo. – Disse o negro antes de encaminhar-se para a porta.

Draco também esperava. Granger não era nenhuma novata no assunto, não era a primeira vez que lidaria com a mídia e sabia o que deveria dizer. Além disso, repassaram todos os temas na noite anterior, não havia o que errar.

A equipe de Evangeline a chamou no hall de entrada, tirando-a de seu momento de concentração, ao mesmo tempo em que a Sra. Smith adentrava seu escritório com uma bandeja de prata em mãos sustentando uma única xícara de porcelana grande e fumegante. A senhora chamou Granger delicadamente, mas ainda assim a mesma pareceu surpresa pela aproximação. Com um sorriso educado, porém, a mulher agradeceu e se apossou da xícara.

Suspirando, seguiu até onde se encontravam, ouvindo Emily explicar que se tratava de chá de camomila e que talvez pudesse ajudá-la a relaxar para a entrevista, mas Draco duvidava muito disso. Pigarreou levemente para que percebessem sua presença e quase no mesmo instante a senhora virou-se para deixá-los a sós.

Granger não parecia muito disposta a se manifestar sobre qualquer coisa, assim, escondeu as mãos no bolso e ficaram em silêncio por alguns minutos enquanto observava seus respectivos reflexos de forma distraída. Aquele borrão, representado por Granger no vidro da janela, era exatamente o que a caracterizava atualmente. Em sua vida difusa só restavam algumas peças estranhas no lugar e ela não fazia esforço algum para mantê-las como estavam. Segundo Andrômeda, fazia alguns dias que a mesma não aparecia em sua casa.

– Fico pensando... – Ela começou, depositando a xícara sobre o parapeito da janela e cruzando os braços. – Estou me escondendo como se devesse algo, como se realmente houvesse cometido um crime.

– Bem vinda ao outro lado da moeda.

Todos os seus clientes passavam por esse processo com a intenção de preservar a imagem, enquanto a estratégia dela como promotora era fazer com que o lado que defendia se expusesse ainda mais, como se tivesse nada a esconder. Provavelmente, estava sendo bastante difícil para Granger lidar com essa forma de trabalhar.

Viu como ela revirou os olhos e tomou mais um gole da bebida trazida por Emily, mas antes que recomeçasse o discurso de que a entrevista ao Profeta Diário melhoraria sua imagem perante a sociedade, uma batida na superfície de madeira da porta foi ouvida e ambos se viraram para encarar Evangeline Dippet.

– Estamos prontos para começar.

A jornalista se retirou e Hermione bebeu todo o chá de uma só vez, provavelmente esperando que o mesmo tivesse efeito imediato.

– Não tinha jornalista melhor no Profeta Diário? – Ela perguntou retoricamente antes de virar-se para sair pelo mesmo caminho que a outra.

Ao que parecia, Granger era do tipo que subestimava Evangeline pelo sobrenome tradicional e o modo questionável, como muitos sabiam, que havia ascendido ao cargo de Editora Chefe do jornal. Além disso, certamente teria percebido os olhares indiscretos da outra.

De qualquer maneira, a jornalista não cederia a entrevista à outra pessoa. Sua imagem de profissional imparcial ficaria nas alturas, embora muitos soubessem que o relacionamento dela com a Promotora Hermione Granger Weasley era um tanto quanto conturbado. Afinal, lembrava-se claramente da ocasião em que a mesma fora obrigada a pedir desculpas publicamente em uma das colunas de seu jornal por utilizar adjetivos inapropriados para definir o modo como Granger agira em um de seus processos mais famosos, ainda que, entretanto, sugerisse nas entrelinhas que aquilo se tratava de censura apoiada pelo Ministério da Magia.

Quando chegou a sala da Sra. Smith, Hermione já estava acomodada em uma poltrona confortável ao lado de um enorme e elegante vaso de orquídeas amarelas, assim como Evangeline. A equipe da mulher estava posicionada atrás de um jogo de iluminação e de uma filmadora de aspecto antigo, provavelmente para não deixar passar nenhuma expressão da entrevistada, mas pode perceber também um fotógrafo com uma câmera pendurada no pescoço.

Então, sentou-se ao lado de sua secretária, ao alcance dos olhos de Granger, no mesmo instante em que a entrevista era iniciada em tom ácido.

– Hermione, pode nos dizer como está sendo essas semanas após a morte de Ronald? Sabemos que não está morando na casa que dividia com ele, então podemos supor que está incomodada com... Todas as lembranças que aquele lugar traz à tona.

– Sim, é claro. – Granger, apesar de tudo, não olhava a outra nos olhos. – Eu cresci com Ron, perdê-lo de uma maneira tão abrupta é... Inacreditável. Ainda acordo, às vezes, pensando que tudo não passa de um pesadelo, como acontecia na época da Grande Guerra.

– Bom, é de conhecimento geral que viviam uma crise matrimonial...

– Ainda assim. – Granger cortou Evangeline antes que pudesse terminar sua pergunta. – Ele não havia deixado de ser o homem que foi um dos meus melhores amigos, que... Esteve comigo nos bons e maus momentos. A meu ver... Nossa crise era completamente normal, tínhamos 12 anos de casamento, afinal de contas, todo casal fica saturado em algum momento.

– Certo. – Evangeline conferiu a prancheta que tinha em mãos e voltou a encará-la. – Mas Brown disse que sabia do caso que ela mantinha com seu marido, então não vejo como uma crise nesse sentido possa ser definida como normal.

– Cada um lida com seus problemas da maneira que acha melhor. – Granger deu de ombros e bebeu um pouco d’água, embora devesse ter evitado o ato, pois suas mãos tremiam visivelmente. – Mas, sinceramente, levar a palavra de Brown em consideração sobre isso é... Ultrajante.

– Pode especificar?

– Estou sendo acusada de assassinato pela amante do meu marido. Olhando as coisas por esse ponto, não acredito que ela seja tão confiável quanto quer fazer parecer. – Evangeline meneou a cabeça e voltou a encarar sua prancheta.

– Já que tocou no assunto: está cooperando de boa vontade com as investigações do Ministério. – Granger concordou com um aceno de cabeça. – Esse é seu senso de justiça sempre afiado ou apenas o instinto de se defender?

– Eu acredito que... Seja a vontade de encontrar o verdadeiro culpado por tudo isso. – Draco evitou uma careta de desdém pela mentira, pois sabia que a única coisa que Granger queria era ter sua vida de volta. Verdadeiro culpado... Ela não se importava realmente com isso. – Apesar de tudo, em minha mente Ron sempre será uma ótima pessoa e não merecia ter sido morto de forma tão brutal, sem motivo aparente.

– Quando fala de um motivo aparente para o crime, posso relacionar com o passado de vocês. Acha que algum seguidor remanescente de Lorde Voldemort pode ter sido o responsável? Acredita estar, assim como Harry Potter, correndo perigo novamente?

– Bem... Você teria de fazer essa pergunta a Harry, que é chefe do QG de Aurores e tem mais informações sobre isso. Porém, acredito que não tenha algo a ver com a Grande Guerra, pois já se passaram algumas semanas e eu não recebi nenhuma ameaça. – Granger deu de ombros e esperou a próxima pergunta.

– E como se sentiu ao ser apontada como responsável pela morte de seu marido?

– Inicialmente, não acreditei que pudessem realmente cogitar essa hipótese. Minha parceria com Ronald foi inabalável por muitos anos, mas Brown fez de tudo para que os Aurores trabalhassem em cima disso. Enfim, estou feliz que o reconhecimento de feitiços em minha varinha tenha dado negativo para Imperius.

No dia anterior, alguns aurores estiveram em Grimmauld Place para realizar o feitiço Priori Incantatem sobre a varinha de Granger. O mesmo tinha a função de reverter os feitiços produzidos pela mesma, como em um eco, assim havia a possibilidade de saber se a mulher em algum momento usara a Maldição Imperdoável que estava sendo apontada como responsável pela morte de seu marido.

– Você parece bastante positiva hoje.

– Sei que não fiz nada para machucar Ronald, minha consciência está completamente limpa sobre isso.

– Muito bem! — Evangeline verificou a pena de repetição rápida na escrivaninha ao seu lado e voltou-se para Hermione. – Considerando sua experiência com a maternidade, como reagiu ao saber sobre a gravidez de Lilá Brown?

Granger, que estendia o braço para buscar novamente o copo d’água, esbarrou a mão bruscamente no mesmo fazendo-o tombar e derramar seu conteúdo sobre a escrivaninha pouco antes de rolar em direção ao chão. O ruído do vidro se quebrando pareceu fazer com que Granger acordasse e voltasse a encarar Evangeline, pigarreando.

– Eu não entendi a sua pergunta.

– Irei refazer, então. – Hermione remexeu-se de forma desconfortável na poltrona, manchas vermelhas lhe pintando o pescoço devido ao nervosismo enquanto esperava a jornalista conferir novamente a prancheta de anotações apenas para concluir sua intenção de desestabilizar a outra completamente. – Considerando que sofreu um aborto após o primeiro trimestre de gravidez há três anos, como encarou o fato de Brown esperar o filho que não pôde ter?

Draco fechou os olhos por alguns segundos, levando uma das mãos a têmpora e amaldiçoando Evangeline até sua última décima geração. De todas as perguntas que poderia ter feito, ela articulara a que mais tinha o poder de tirar Granger dos eixos.

Porém, não se demorou muito em seu momento de raiva pessoal. Voltou a assistir a cena novamente apenas para ver a jornalista encarar Hermione com os olhos brilhando de malícia enquanto esperava uma resposta que certamente não viria. Observou, por outro lado, a respiração descontrolada de Granger e o modo ansioso como remexia os próprios dedos em cima das pernas, seus olhos se tornando desfocados por alguns momentos antes de voltar-se a outra com raiva.

– Esse é um assunto que não me sinto confortável em falar.

– Mas pode nos confirmar ou...

– Acho que já tem material suficiente para produzir uma matéria bastante especulativa, não? – Draco perguntou a Evangeline de forma irônica no mesmo instante em que Granger levantava-se e saía apressadamente da sala em direção ao banheiro feminino.

A jornalista não tentou contestá-lo, certamente aquela estava entre as reações que esperava de Granger, apenas andou tranquilamente até ele após guardar o material que utilizara. Um sorriso irritantemente vitorioso estampava seu rosto e tal detalhe deixava Draco ainda mais furioso.

– Sou uma jornalista, querido, preciso pesquisar a fundo sobre meus entrevistados. – Draco deveria ter previsto que Evangeline não seguiria o roteiro de temas que havia disponibilizado para a entrevista.

– Você a desestabilizou completamente! – A segurou pelo braço antes que passasse por sua equipe e deixasse o escritório. – Esse não é o trabalho de um jornalista.

– Como se você estivesse bastante surpreso por isso. – Ela encarou a mão dele ao redor de seu braço e Draco a soltou, ignorando as manchas vermelhas que se instalaram no local. – Já trabalhamos juntos, Draco, e não seguimos os métodos mais convencionais.

– É diferente...

– É claro que é, Lilá Brown parece estar mais interessada em sair vitoriosa nesse processo. – Claro, a pensão que ganharia, caso provasse que o filho que esperava era realmente de Weasley, não seria nada pequena. Certamente, a oportunista não havia economizado um galeão na entrevista.

– Você é uma vadia traidora, Evangeline. – Soltou entre dentes e de forma baixa, aproximando-se mais para que aquela conversa ficasse no âmbito particular ao mesmo tempo em que a encarava com seu desprezo característico.

– Podemos negociar novamente. – Ela levantou uma sobrancelha provocativa, mas, antes que Draco pudesse responder que transar com ela não valeria o trabalho, Emily apareceu aparentando estar um tanto aflita.

– Sr. Malfoy, a Srta. Granger... – Levantou uma mão, impedindo-a de continuar com a presença de Evangeline ali, não precisava de mais este problema.

– Deve ter se esquecido de que não está lidando com qualquer um. – A mulher levantou o queixo orgulhosamente, cruzando os braços defensivamente na altura do peito. – Quando ganhar... E eu irei ganhar, vai se arrepender de ter escolhido estar do outro lado.

Antes que ela pudesse prolongar aquela conversa ainda mais, seguiu a Sra. Smith em direção ao banheiro surpreendendo-se ao encontrar o mesmo completamente vazio, inclusive os boxes. Abismado, deu uma volta pelo local e, percebendo como tudo parecia em seu devido lugar, voltou-se para Emily, a qual adotara uma postura tensa com as mãos atrás das costas.

– Era isso que queria dizer: a Srta. Granger sumiu.

Notas finais
Hello, peoples!! Tudo bem com vocês?!! :D Só queria dizer que estou tão feliz pela repercussão dessa história *_* Os comentários de vocês são sempre tão interessados, ávidos por mais, muito obrigada mesmo por estarem comigo na maioria dos capítulos para comentar Neurótica! E quem não está aparecendo, não se avexem (não sei se essa palavra existe e.e), podem me falar o que estão achando, mesmo que seja algo que não tenham gostando, isso ajuda bastante, sabiam? :o É sério! Enfim, eu estava louca pra escrever (e postar) essa entrevista desde o capítulo em que Draco a negociou :v Não estava nos meus planos colocar uma inimizade entre as duas, mas me pareceu mais condizente com meus planos futuros! Não sei por que, mas acho que vocês já esperavam algo do tipo e.e Eu achei que haveria mais coisas nesse capítulo, mas não deu pra colocar mais nada, exceto que a varinha de Hermione não matou Ron... Eeeeh! :D Enfim, o que acharam de tudo isso? De como Evangeline conduziu a entrevista e tals? Quem, mais importante, contou a ela sobre a gravidez de Hermione? E... Só por que ando muuuito animada com essa história (e eu já tenho o próximo capítulo escrito), vocês vão ganhar um pequeno spoiler! :)) - [...] Hermione dizia que Harry se negava a culpar Ron pela perda da criança e isso a deixava inconformada. ... - Granger não tem mais amigos. ... - Eu imaginei que estaria aqui, você ficou tão previsível. ---x--- P.S. O próximo capítulo de Vínculo sairá essa semana!! Beijão, até mais, espero que tenham gostado do capítulo!