Neurótica
12 Capítulo 12
– Eu quero a capa, na semana que vem, ou procurarei alguém mais eficiente para fazer o serviço.
A mulher de cabelos extremamente negros a sua frente simplesmente riu e aceitou a xícara de café que uma assistente lhe oferecia, esta lançando um olhar tímido a Draco antes de sair.
– Vocês estão desesperados. – Ela bebericou sua bebida e Draco revirou os olhos, levantando-se, pois já havia perdido muito tempo jogando conversa fora com Evangeline Dippet.
A editora chefe e repórter especial do Profeta Diário parecia estar em dúvida sobre a rapidez com que colocaria uma entrevista com Hermione em circulação, pois as pessoas pareciam muito mais interessadas na figura de Lilá Brown no momento. Fotógrafos de vários jornais e revistas a perseguiam nas ruas do Beco Diagonal e todos pareciam adorá-la por ter sua história de amor interrompida momentos antes do final feliz com direito a gravidez.
Para Draco, tudo isso era patético demais. Lilá era uma vadia que não se importava com o sentimento alheio, embora quisesse fazer parecer que sim, não merecia ser considerada a heroína em busca de justiça e cedo ou tarde tiraria sua máscara com louvor. Porém, precisava da opinião pública a seu favor e Dippet não estava colaborando.
– Pretende fazer outra matéria com Lilá ou isso é só seu joguinho sujo para que eu libere mais temas para a entrevista?
Lidar com a imprensa era detestável, jornalistas eram interesseiros e inconvenientes ao extremo, dois adjetivos que, em sua concepção, pareciam não combinar quando juntos. Então, viu a mulher sorrir maliciosa e levantar-se deixando o café sobre a mesa.
Com desenvoltura e confiança, ela andou até onde estava e deslizou a mão por baixo de seu terno, colocando seus corpos e deixando suas bocas a centímetros, fazendo com que as respirações se misturassem facilmente.
– Nós não nos encontramos mais.
Evangeline era o tipo de mulher que podia fazer isso. Ela era poderosa e isso a tornava sexy e atraente para Draco, mesmo que fosse uma cobra traiçoeira. Ainda que alguns anos mais velha, possuía o rosto jovial e bonito com apenas algumas rugas de expressão se fazendo presentes ao redor dos olhos castanho-esverdeados, sem contar que possuía o corpo tentadoramente curvilíneo.
– Você decidiu assim.
– E você respeitou minha decisão. – As mãos dela desceram para sua bunda, apertando e o levando para mais perto de si, fazendo-o sentir seus seios comprimidos contra o peito. – Sabe ser tão chato quando quer, Draco.
O que tinha com Evangeline lhe parecia muito justo. Sexo sem cobranças era algo que realmente apreciava e possuía em pouca escala, pois fazia algumas péssimas escolhas no que se referiam as suas conquistas. O fato de ela ser casada parecia deixar as coisas ainda mais excitantes, mas a mulher entrou em uma crise existencial e considerou o caso que mantinham como a fonte de seus problemas conjugais. Não tinha culpa, realmente, por ela pensar nele enquanto transava com o marido.
Entretanto, tudo entre eles teve um ponto final. Sem discussões, sem choro ou drama por nenhuma das partes. Draco não estava apaixonado, o que tinham era apenas confortável para ambos, sem contar que Evangeline queria reatar seu casamento e não iria se meter nisso, não tinha um senso possessivo ou algo o tipo em relação a ela. Sentindo-a começar a desafivelar seu cinto, constatou que as coisas talvez não tivessem saído como ela queria, embora ainda usasse aliança.
Antes que ela terminasse o que havia começado, segurou as pequenas mãos de unhas vermelhas impecáveis vendo-a levantar uma sobrancelha pouco antes de colocar-se de joelhos.
– Não tente me distrair, quero minha entrevista. – A mulher sorriu e livrou as mãos para que pudesse abaixar sua calça social e cueca até os joelhos.
– Você terá, querido, do jeito que quiser.
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Algumas horas depois, Draco se encontrava em Ottery St. Catchpole, um vilarejo ao sul do condado de Devonshire, caminhando ao lado de Granger em direção a casa dos patriarcas Weasley. Haviam aparatado logo antes do portão de entrada, pois a mesma possuía algumas proteções contra visitas indesejadas e supunha que ambos agora se encontrassem nessa característica.
O nervosismo de Granger ao abrir o portão de madeira era palpável e irritante. As mãos dela tremiam a todo o instante e constantemente enxugava o suor das palmas em sua calça jeans. Gostaria de tê-la preparado antes de saírem, mas quando chegara a Grimmauld Place já estavam atrasados. Os Weasley não os esperavam, mas deviam aparecer num horário em que não pudessem ser interrompidos por ninguém, ter outros membros ruivos participando daquela conversa só deixaria as coisas mais complicadas.
Em silêncio, percorreram o caminho em direção a porta de entrada da casa vertical e estranha, ultrapassando um galpão de ferramentas em forma de arco que ficava há alguns metros da mesma. Ouvira falar, há muito tempo atrás, que a casa dos Weasley refletia sua condição financeira, mas não imaginava que pudesse ser tão pobre mesmo após a concretização do fato de ter sete filhos trabalhando em vários ramos do mundo bruxo com carreiras estáveis e, em sua maioria, muito rentáveis.
O térreo parecia espaçoso, embora a família possuísse mais membros do que podia se lembrar, mas a casa não parecia seguir um padrão nos andares superiores. Feita de madeira e, provavelmente, mantida em pé por magia, a famosa Toca possuía apenas sinais de que um dia havia sido pintada.
Continuaria sua análise, observando como o jardim era a única coisa que parecia minimamente conversada naquele lugar, mas a porta foi aberta por uma senhora de cabelos ruivos, baixinha e gordinha, limpando as mãos no avental. Porém, seu gesto distraído foi interrompido ao perceber de quem se tratavam suas visitas. A Sra. Weasley possuía o rosto incrivelmente maternal e bondoso, do tipo que Draco não estava acostumado, mas sabia que algo estava errado ao ver as feições da mesma se fecharem após colocar os olhos em Granger.
– Podemos conversar, Sra. Weasley?
A matriarca dos Weasley encarou Draco levantando uma das sobrancelhas, como que questionando o que ele estava fazendo em sua casa depois de todos aqueles anos de desprezo e ódio entre as famílias. O loiro manteve-se altivo, em sua postura tranquila, embora se fizesse a mesma pergunta ao sentir uma gota de suor escorrer por sua nuca e perder-se no tecido caro de sua camisa branca social, escondida pelo terno.
Suspirando, Molly deu espaço para que adentrassem a casa, que lhe parecia ainda mais quente do que do lado de fora. Granger lhe lançou um olhar de aviso como que parar lembrar que estavam ali para que se reconciliassem e um comentário maldoso sobre a mobília antiga e desgastada, assim como sobre a decoração de mau gosto, poderia estragar tudo. Quase revirou os olhos pela descrença, mas optou por sentar-se a mesa da cozinha, forrada com pano de estampa xadrez nas cores amarelo e marrom, de acordo com o que a senhora indicava.
Imediatamente, uma jarra de suco foi servida e Draco agradeceu rapidamente antes de servir-se sem cerimônias.
– Sinto muito por tudo que está lhe acontecendo, Hermione. – Começou a mulher surpreendendo a ambos.
– Então... – Granger começou de forma incerta, as mãos se mexendo incessantemente ao redor do copo de suco intocado. – Não acredita no que as pessoas estão falando?
– A conheço desde que tinha 12 anos e não posso ter errado tanto em meu julgamento de caráter. – A Sra. Weasley abaixou os olhos suspirando enquanto ajeitava a toalha da mesa. – Já vivi o suficiente para saber que boas pessoas também cometem erros.
Granger soltou a respiração, a face adquirindo uma coloração avermelhada devido à insinuação da outra. Molly não acreditava que Hermione era a assassina de seu filho, mas sabia sobre a noite da mesma com Potter por que Ginny era uma vadia mimada e realmente cumpriria sua promessa. A ruiva faria o que estivesse a seu alcance para ver sua cliente presa em nome de uma vingança infantil.
– Os outros não pensam assim, não é? – A Sra. Weasley meneou a cabeça.
– Não.
– A questão é... – Começou recebendo um olhar exasperado de Granger. Sabia que aquele era um momento delicado, mas não devia se preocupar tanto assim com os sentimentos alheios, já estava fazendo o suficiente cuidando de Hermione como jamais havia se permitido fazer com algum outro cliente. Por Merlin, ela estava morando na sua casa! – A senhora irá depor a favor de Granger?
– Não acho justo Hermione pagar por um crime que não cometeu, farei o que for possível para não vê-la presa injustamente. – Draco concordou e a matriarca dos Weasley voltou sua atenção a Granger que ensaiava um sorriso. – Mas não esquecerei que é a responsável pela crise no casamento de Ginny e Harry.
O sorriso de Granger murchou no mesmo instante e a viu esconder as mãos embaixo da mesa, sobre as pernas, para que a outra não percebesse o tremor. O silêncio instalou-se na cozinha por alguns instantes, pois Granger sabia que, quanto a isso, não havia nada que pudesse argumentar em sua defesa. Draco estava para sugerir que fossem embora quando um despertador soou por toda a casa fazendo a senhora Weasley levantar-se imediatamente e caminhar em direção ao fogão de aspecto antigo.
Ela retirou do forno uma forma de biscoitos de chocolate extremamente cheirosos e Draco agradeceu mentalmente que a mulher fosse uma cozinheira de mão cheia, pois realmente não comia nada desde o almoço.
– Pedirei perdão por isso quantas vezes for preciso, mas acho que não será suficiente. – Granger suspirou e dispensou com um aceno de mão os biscoitos oferecidos pela senhora em um prato amarelo. – Minha relação com a família de vocês nunca mais será a mesma.
Todos sabiam disso, a senhora Weasley até mesmo hesitou em responder, mas o fato de Granger colocar em voz alta fazia com que tornasse efetivo.
– O amor de Ginny por Harry chega a ser doentio e, por vezes, isso a cega. Ela perdeu um irmão, mas eu perdi um filho, mais um... – Os olhos da senhora se encheram de lágrimas e ela abaixou a cabeça na tentativa de recompor-se. Draco, por alguns momentos, se compadeceu pela situação em que esta se encontrava. Não gostava dos Weasley, não simpatizava com nenhum deles, mas a mulher a sua frente não merecia viver aquele tipo de dor novamente, afinal ela estava servindo biscoitos a um ex-comensal e a suspeita de ter matado seu filho. – Ao contrário de Ginny, sou madura o bastante para saber separar as coisas. Não irei perdoá-la por obrigar minha filha a passar por algo que poderia ser evitado, Hermione, assim como não estou me colocando ao lado dela. Utilizar a morte de Ron como ferramenta de vingança pessoal é... Mais do que posso suportar.
A diferença é que Ginny era uma Weasley e brigas de família sempre se resolvem. Molly estaria sempre ao lado da filha, inevitavelmente, e não por que a mesma não aceitaria que a mãe ficasse dividida, mas por que era sua filha. Ainda que a senhora fosse experiente demais para se deixar levar pelas lamúrias de Ginny, a relação de Granger com toda a família ainda seria condenada por seu “imperdoável erro”. Palavras bonitas não mascarariam tal fato.
– Bem... – Granger suspirou, desconcertada, arrastando a cadeira para levantar-se. – De qualquer forma, acho devo agradecê-la pela compreensão, Sra. Weasley.
Hermione deu um passo quase imperceptível em direção a mais velha, provavelmente com a intenção de lhe dar um abraço, mas pareceu envergonhada e soltou um pigarro discreto voltando os olhos para Draco em um pedido mudo.
– Iremos lhe procurar quando necessário, Sra. Weasley. – A mulher concordou rapidamente e Draco levantou-se. – Será que eu poderia...?
Gesticulou em direção aos biscoitos sob o olhar indignado de Granger, mas a mulher pareceu satisfeita pelo interesse dele em seus biscoitos. Ainda que insistisse que não precisasse, a mulher apressou-se para colocar alguns em uma sacola para viagem. Por fim, decidiu não discutir mais e aceitou os biscoitos de boa vontade, agradecendo educadamente e despedindo-se da mulher antes de saírem em direção ao portão para aparatar sem restrições.
– Vocês podem aparatar do jardim, se quiser!
Hermione levantou as sobrancelhas, demonstrando surpresa, e lhe dirigiu um sorriso mínimo antes de sumir em pleno ar com um rodopio ao redor de si mesma. Era bom para ela ter consciência de que, mesmo não a perdoando, a Sra. Weasley não a considerava uma ameaça.
Aparatou logo em seguida diretamente na sala de visitas, onde ela já o esperava sentada em uma das espaçosas poltronas de modelo clássico e estofado verde.
– Isso foi um progresso. – Ela disse depois que se acomodou em um dos sofás de aparência antiga com estofado verde. Era um de seus preferidos. – Quer dizer, não poderemos contar com os outros, mas ter o apoio dos pais de Ron é uma incrível carta na manga.
Analisado-a com uma sobrancelha erguida, notou que seu semblante parecia bem mais entusiasmado do que há dois dias. O momento de fragilidade de Granger havia ficado no passado, sob um acordo mútuo e silencioso de que não tocariam mais no assunto, pelo menos assim Draco havia entendido. Não é como se quisessem dar ênfase ao fato de que ela havia dormido em seu colo, desconfortável e provavelmente exausta de tanto chorar. Tudo havia voltado ao normal, inclusive os móveis e objetos decorativos daquela mesma sala.
– Os outros Weasley apenas estão demonstrando apoio a Ginevra, logo perceberão como a atitude dela é absurda. – Ela apenas meneou a cabeça, um pouco duvidosa.
– Harry deu alguma notícia sobre a mulher misteriosa que apareceu em minha casa no dia da morte de Ron?
– Não tem nem ideia de quem possa ser? – Perguntou depois de negar com um aceno de cabeça.
– Ninguém que eu conheço se veste da maneira como a testemunha descreveu.
Hermione descansou a cabeça no encosto do sofá e Draco levantou-se, anunciando que precisava ir embora. Não tinha realmente muito que fazer, mas Narcissa estava sendo negligenciada com sucesso nos últimos dias e tinha de reverter essa situação, pois detestava vê-la solitária como nos primeiros meses após a morte de Lucius.
– Nos vemos amanhã, provavelmente, o QG de Aurores deverá ter alguma resolução nova. – Draco deu as costas a Granger e já estava no batente da porta quando esta o chamou novamente, levantando-se.
– Eu irei cozinhar essa noite, então... Se quiser ficar para o jantar. – Ela deu de ombros e cruzou os braços. Franziu o cenho ligeiramente, indeciso. Ficar significaria estar com Granger por mais tempo e não sabia se isso era bom ou ruim para si, mas tinha certeza de que pra ela sua presença faria diferença, afinal não podia esquecer-se de que a mulher ficava sozinha a maior parte do tempo naquela casa grande. – Vou entender se tiver outro compromisso.
– Posso ficar.
Declarou ignorando o fato de que ela estava lhe pedindo para fazer companhia quando há algumas semanas não suportavam a presença do outro no mesmo ambiente. Viu Granger lhe dar um sorriso rápido e o ultrapassar para se dirigir ao porão, onde ficava a cozinha. Narcissa estaria em casa, de qualquer maneira, ainda que chegasse tarde.
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