Em silêncio, Draco observava Granger retirar à mesa sem usar qualquer tipo de magia. Ela havia se privado desse privilégio durante toda a preparação da comida, o que o deixou curioso, pois tinha a noção básica de que tarefas como essa poderiam ser concluídas mais facilmente utilizando magia. Além disso, a mulher era o tipo de pessoa que se orgulhava de seus traços mágicos, havia dado ênfase nisso durante todos os anos em que a importunara em Hogwarts.

Apesar de tudo, entretanto, ela não parecia se importar em fazer todo o trabalho manualmente, inclusive cortar as cebolas com as mãos trêmulas. Então, percebeu que os dedos incertos não se encontravam assim devido a situação tensa que Granger havia passado há algumas horas na casa dos Weasley, suas mãos estavam constantemente tremendo.

Durante todo o jantar reparou em como os movimentos dela eram nervosos e agitados, assim como conseguiu visualizar as unhas irregulares, demonstrando que as havia roído em um momento de ansiedade. Sabia que essas eram as conseqüências da abstinência de álcool pela qual ela estava passando e já era esperado, assim como qualquer recaída que pudesse vir a ter.

– Já reconsiderou voltar à casa da Sra. Blythe? – Por que, se Granger não procurasse ajuda, todo trabalho feito até ali seria jogado no lixo e deixar Lilá Brown ganhar aquela guerra por causa da teimosia de sua cliente era inadmissível.

De costas, percebeu como o corpo dela se tornou rígido e demorou alguns segundos a mais para virar-se com a bandeja de chá que tinha em mãos.

– Não me agrada falar sobre meus problemas em um lugar público. – Granger sentou-se novamente à sua frente, as mãos em volta da xícara com o líquido fumegante. Draco soltou um riso irônico enquanto colocava um cubo de açúcar em seu próprio chá. Ela havia espalhado boatos e inveja sobre sua suposta vida perfeita durante tanto tempo que muito lhe surpreendia a nova posição sobre a publicidade de seus problemas. – Com pessoas que não conheço ou confio.

– Também não lhe agradava conversar sobre qualquer coisa comigo e olhe onde estamos.

Não quis mencionar diretamente o fato de que ela havia pedido para lhe fazer companhia, pois Granger não o faria uma segunda vez e tinha consciência que sua companhia era mais saudável do que qualquer ideia que pudesse perpassar pela mente de Granger enquanto esta se encontrava sozinha naquela casa enorme, ainda que trocassem comentários inflamados – e talvez venenosos — sobre qualquer coisa que discordassem.

– Ainda não confio em você. – Rápida e esperta, como nos velhos tempos.

– Apenas preciso de cooperação para fazer meu trabalho, não pedi sua confiança. – A viu desviar o olhar parecendo resignada enquanto suspirava, a expressão séria que muito lhe lembrava a metódica e centrada Hermione Granger do trabalho. – A questão, Granger, é que você precisa dessas pessoas...

– Sei como funciona... Esses lugares. – Ela levantou-se de súbito e subiu as escadas em direção ao térreo, ainda com a xícara de chá em mãos, diferentemente de Draco que a seguiu se perto. – Não me sinto confortável, nada do que disser irá mudar isso.

Draco bufou e revirou os olhos desejando que ela o estivesse vendo para perceber sua impaciência diante da teimosia que ela insistia em manter.

– Você sequer foi a um centro de recuperação...

– Para alcoólatras?! – Granger se virou abruptamente fazendo com que parasse da mesma forma para que não a atropelasse, embora o líquido da xícara que ela segurava houvesse se agitado e entornado sobre sua mão esquerda. – Sim, eu já fui.

Draco franziu o cenho, confuso, enquanto Granger voltava a andar e se dirigia para a sala de visitas, onde parecia ser um de seus locais favoritos da casa. O que mais deveria descobrir por conta própria ou pressão sobre a vida dela? Suspirou irritado e seguiu pelo mesmo caminho, vendo-a sentar-se ao piano, a xícara sobre a cauda espaçosa e as mãos sobre o teclado fechado e protegido.

Percebeu que ela não tocaria, pois notou que parecia muito mais concentrada em normalizar a própria respiração. Draco aproximou-se lentamente, observando os olhos castanhos fixos em um ponto qualquer da madeira escura do instrumento a sua frente. Se fosse um pouco mais covarde – coisa que admitia ser em certo nível – e menos curioso, estaria amaldiçoando o momento em que aceitou jantar com Granger.

Entretanto, aquele convite estava se revelando extremamente útil. Sentia-se em um labirinto repleto de armadilhas quando se tratava de dela, pois, apesar do que aparentava e do próprio conceito que tinha sobre sua pessoa, Granger era completamente imprevisível.

Por isso, precisava analisar com bastante cautela o terreno que estava adentrando. Tinha plena consciência de que cada conversa com ela era importante, pois a mulher não se dispunha a falar com facilidade, muito menos lhe dar detalhes sórdidos sobre sua vida, embora soubesse perfeitamente que era necessário.

– Por que simplesmente não falou? Naquele dia, quando a levei a casa da Sra. Blythe...?

– Por que não é tão simples quanto parece! – Ela o encarou, indignada. – Eu freqüentei um lugar como aquele por seis meses e a única coisa que consegui perceber é que sentia nojo de mim e daquelas pessoas, tão doentes quanto eu.

– Aí está o ponto, Granger: está doente e não vai se curar da noite para o dia sem algum tipo de auxílio. – Ela balançou a cabeça em negativa e desviou os olhos para as próprias mãos. — Eu poderia ajudá-la, se soubesse como, mas não sou nenhum especialista, então você terá de se esforçar um pouco para buscar ajuda.

– É muito mais cômodo beber até me anestesiar do que olhar no espelho todos os dias e perceber como posso ser impotente.

Granger declarou de forma desgostosa, o surpreendendo brevemente com a franqueza inesperada. Viu como ela levantou lentamente a tampa de proteção do teclado do piano e simplesmente não a interrompeu, embora soubesse da mania irritante que a mulher tinha de focar a atenção em outras coisas quando estavam conversando sobre algo, pois precisava de alguns momentos para colocar as ideias em ordem. O fato de ela se recusar a procurar ajuda era preocupante.

Surpreso, Draco observou como Hermione dedilhou os dedos pelo teclado à sua frente, como que para testar suas habilidades. Não tinha ideia de que ela sabia tocar, mas devia ter imaginado que as habilidades de Granger não se resumiam ao campo do direito ou da gastronomia – como havia percebido no jantar.

Entretida, Granger começou efetivamente uma melodia que nunca havia ouvido. Os primeiros tons eram mais graves, precedidos por notas mais agudas em um ritmo melancólico, lento e pausado, como se não estivesse certa do que estava fazendo, como se precisasse de um ou dois segundos para pensar em quais seriam as notas seguintes. Entretanto, ela errou uma nota e parou de tocar, fechando as mãos em punho por um instante e parecendo chateada pela desatenção.

– A última vez que toquei foi no aniversário de 28 anos de Ron...

– Já faz uns cinco anos. – Constatou Draco.

– Sim, bem... As coisas ficaram um pouco complicadas depois disso. – Ela deu de ombros e buscou a xícara de chá sem pressa para tomar um gole.

Há algumas semanas, o nome de Granger era imediatamente relacionado em sua mente ao adjetivo “perfeita”. Era o que todos achavam, afinal de contas. Atualmente, porém, sabia que a mesma possuía incontáveis defeitos e estava quebrada de muitas maneiras diferentes para ser considerada perfeita, embora soubesse que esse era seu desejo. Cozinhar esplendidamente, tocar piano, estar casada com o homem dos sonhos da maioria das bruxas solteiras da comunidade, ter o melhor emprego, defender os oprimidos sem segundas intenções... Os esforços para manter o status eram absurdos.

Hermione havia agüentado a pressão por mais tempo que Draco, o que considerava louvável, mas deprimente. Deprimente por que o resultado disso estava bem na sua frente, pedindo ajuda silenciosamente, definhando a cada dia que passava sem perspectiva de futuro, muito pior que o próprio Malfoy no que julgava sua pior época.

– Podemos ganhar esse processo nas condições em que está, mas depois disso não me sentirei responsável por você. – Encarou de forma resignada o rosto feminino que não expressava nenhuma emoção. – Então, seguirei minha vida e você, Granger, irá continuar no fundo do poço.

Não sentia remorso por dizer tais palavras a ela, era a verdade e coisa parecida lhe havia sido dita quando mais precisava. Viu como ela respirou fundo e escondeu a cabeça entre os dedos, o piano produzindo um som alto e contrastante com o silêncio que reinava em Grimmauld Place quando Granger apoiou os cotovelos sobre o teclado.

– E como poderei mudar? – Perguntou em voz baixa.

– Não precisa mudar, basta voltar a ser Hermione Granger. – Ela franziu o cenho parecendo confusa. Talvez estivesse começando a acreditar nas próprias mentiras e nem se lembrasse de como era a antiga Granger, por isso precisava dar a ela algum tempo para pensar.

Desse modo, despediu-se rapidamente e mentalizou o hall de entrada da Mansão Malfoy. Segundos depois se encontrava em casa, percebendo com uma careta de desgosto como tudo estava escuro àquela hora da noite. Subiu as espaçosas escadas de pedra clara tirando o terno e afrouxando a gravata ao redor de seu pescoço. Devia lembrar-se de pedir para Narcissa deixar alguns archotes acesos, pois era extremamente incômodo chegar à própria casa e deparar-se com aquela escuridão tenebrosa, ainda que estivesse acostumado.

Fez a curva do extenso corredor repleto de quadros que, em sua maioria, ilustravam antepassados importantes e estava para adentrar o próprio quarto quando notou, a porta da suíte de sua mãe entreaberta e a claridade do lado de dentro. Suspirando, encaminhou-se para lá e deu uma batida rápida antes de entrar.

Narcissa se encontrava sobre a cama lendo um livro, como sabia ser de seu costume. Seus cabelos estavam lisos e soltos ao redor dos ombros como poucos haviam visto, do mesmo modo que os óculos de grau na ponta do nariz. Ela usava uma camisola negra que parecia ressaltar ainda mais sua palidez sobre a luz amarela dos abajures.

Sem parecer surpresa por sua presença, viu como ela marcou a página do livro que tinha em mãos e retirou os óculos, colocando ambos em cima da mesinha que se encontrava ao lado da cama e voltando sua atenção a Draco, analisando-o de cima a baixo.

– Você demorou.

– Viria mais cedo, mas precisei ficar com Granger mais do que o previsto. – Deu de ombros e deitou-se ao lado da mãe, recebendo de bom grado o carinho em seus cabelos.

– Problemas?

– Os mesmos de sempre.

Não havia contado a Narcissa sobre “os mesmos problemas de sempre” de sua cliente, tinha ética profissional – como afirmara a Pansy – e sabia que ela não insistiria. A senhora era o tipo de pessoa que não se interessava pela vida alheia, não àquela altura da vida quando já havia tido a sociedade bruxa em peso ávida por saber como sua família vivia.

– Realmente se preocupa com ela, não? – Draco franziu o cenho e não fez questão de virar-se para encará-la.

– Sim, Granger é minha cliente. – Ouviu o riso desdenhoso, tão parecido com o seu, e então soube que não deveria mesmo virar-se para ver a expressão da mãe.

– Já vi como a olha, lembro-me de ouvi-lo mencionar sobre ela quando criança e, agora, vejo seu cuidado meticuloso... – Narcissa cessou o movimento das mãos em sua cabeça e ele sentiu os músculos de seu corpo enrijecer antes que pudesse se conter. – Você a deseja, não é?

O salão estava decorado elegantemente para a comemoração das bodas de 50 anos de casamento do Ministro Kingsley. Draco estava sentado ao bar, ignorando solenemente e sem restrições as presenças de Dafne Greengrass e da própria mãe, as quais falavam sobre um assunto qualquer que não despertava seu interesse.

Ao longe, Granger conversava com alguns colegas da área jurídica, inclusive Terence Boot, o subordinado que viria a notificar seu afastamento do Ministério. Via como ela soltava sorrisos esporádicos e contidos e olhava ao redor como se estivesse incomodada com algo, mas logo voltava a atenção as pessoas que a cercavam, respondendo uma pergunta qualquer que a tivessem feito.

Não saberia há quantos anos havia sido a comemoração, mas tinha certeza que a mulher estava em seu auge como Promotora Oficial da Suprema Corte Bruxa, havia sido promovida ao cargo há alguns meses e todos a adoravam. A heroína de guerra agora faria justiça de verdade, a comunidade bruxa não poderia estar mais em polvorosa.

O fato de que a havia derrotado na semana anterior no Tribunal – lembrando com prazer como ela juntou suas coisas de modo estressado ao sair de lá – e observando como Weasley se materializara ao lado da esposa, descansando uma das mãos displicentemente em sua cintura fina coberta pelo vestido verde petróleo*, não colocava Draco no hall daqueles que a achavam incrível.

De onde estava, podia ver apenas a cabeça vermelha do homem, falando e gesticulando avidamente, entretendo os demais. Granger, aparentemente, não estava interessada no assunto do marido, pois virou o rosto sem se importar, correndo os olhos de forma completamente entediada pelo salão, observando algumas pessoas mais demoradamente que outras e cumprimentando conhecidos de forma discreta.

Observou como a cor do vestido ressaltava sua pele e o modelo deixava a mostra o pescoço alvo e tentador, assim como o colo exposto pelo decote discreto. Granger o excitava e não se sentia minimamente constrangido por cobiçá-la mesmo ao lado de Weasley. O passar dos anos fez bem a mulher, ainda que sua personalidade difícil só houvesse aflorado mais.

Isso, talvez, era o que a tornasse tão desejável. Gostava de seus embates, do modo como Granger o enfrentava como nenhuma outra mulher ousava fazer, jamais se intimidando – mesmo em Hogwarts – por seu sobrenome ou status.

Sem que esperasse, ela o encarou elevando uma sobrancelha, provavelmente perguntando-se por que a estava observando descaradamente. Não se sentia constrangido, não mesmo. Soltou um sorriso, levantando o copo de uísque de fogo que segurava em uma das mãos, como num cumprimento, e lançando uma piscadela para afrontá-la ainda mais.

Viu como ela revirou os olhos e cruzou os braços voltando-se para seus colegas, fazendo com que quase desejasse ver as manchas vermelhas de estresse que se faziam presentes no pescoço e rosto quando a mesma estava nervosa. Soltou um riso para si mesmo e bebeu todo o conteúdo de seu copo antes de levantar-se e passar um braço pela cintura da mulher loira ao seu lado.

– Vamos embora, Dafne.

Granger ainda não havia superado a derrota e certamente encararia o ato como tripudio julgando-o um mal vencedor – e talvez o fosse -, mas não poderia se importar menos, se contentava em lidar com ela esporadicamente no Décimo Tribunal.

Draco jogou as pernas para fora da cama e levantou-se, passando a mão pelos cabelos na tentativa de arrumar o que Narcissa havia bagunçado, embora tivesse a impressão de que não havia obtido sucesso.

– Ela é a mulher mais interessante que conheço. – Narcissa não expressou nenhum pensamento em suas feições e o loiro continuou, detestando o fato de serem tão parecidos. – Sou maduro o suficiente para admitir e ter consciência de que isso é tudo que posso pensar sobre Granger.

Notas finais
Olááá!!! Antes de mais nada, muito obrigada a todos os comentários lindos no capítulo anterior!! Foram tão elaborados, interessados (grandes :D) e eu pude falar tanto sobre a história... Fiquei muito feliz, de verdade, espero que apareçam por aqui novamente!! Então, vamos aos fatos ^^ A resistência de Hermione em ir a casa da Sra. Blyte está explicada! O que acharam do jantar deles? Eu não quis fazer algo como "o som dos talheres batendo sobre a porcelana era o único que se ouvia durante o jantar", acho que isso ficou implícito e eu perderia tempo, então fui direto ao ponto, espero que tenham gostado. Enfim, neste capítulo eu demonstrei com provas tudo aquilo que Draco já deixou nas entrelinhas dos capítulos anteriores: ele acha Hermione Granger fascinante, por isso a deseja. Isso não quer dizer que ele esteja apaixonado ou que já foi apaixonado por ela na época de Hogwarts, nada desse tipo irá acontecer aqui. Ele a deseja por ser quem é, mas isso não está relacionado a sentimentos românticos, além disso, Draco é um profissional :v Veremos até quando. Eu queria colocar um outro flashback, mas revendo a história percebi que não daria certo, mas apesar disso fiquei bastante satisfeita!! E vocês? O que acharam? Gente, eu pesquisei, a cor verde petróleo existe!! Quer dizer, eu sabia que existia a cor, mas não sabia que recebia essa denominação e é linda, se quiser procurar no google. E a música que ela toca no piano (há tempos queria uma cena com ela tocando) é the light, the album leaf, um instrumental lindo que é trilha sonora da Olivia e do Presidente Fitz de Scandal e me emociona bastante. Novamente, se quiserem dar uma procurada pra ouvir aí, pode valer a pena!! :)) O próximo capítulo estará ba-ba-do, acontecerão muitas coisas!! :)) Beijão, até lá!!