Nem Tão Sozinha Assim
2 Chapter II - Peso Morto
Notas iniciais
Peso Morto
—Vamos logo Baixinha. — Dylan resmungou enquanto ajeitava a alça da mochila sobre os ombros.
Era verão. O vento quente e seco soprava pelas ruas vazias de Oggdenville. Era uma cidadezinha pequena, logo, não havia tantos infectados. Isso causava um alivio para Mia, porém isso causava um tédio enorme em Dylan. O ruivo não explodia o cérebro de nenhum ser vivo a mais de uma semana, e essa monotonisse do dia-a-dia estava o deixando irritado, principalmente porque ainda não havia encontrado peças novas para tentar concertar seu "Queimador".
—Calma! Eu não consigo andar tão rápido quanto você! — Mia retrucou enquanto tentava apertar o passo para andar lado a lado com o parceiro. -E pela milésima vez: Eu não sou baixinha! Tenho uma altura normal! Você que é o gigante daqui! — A morena disse num misto de raiva e preocupação. Normalmente Dylan iria rir da reação da garota e provoca-la de alguma forma, mas ele percebia sua inquietude, e pelo tempo junto dela ,- os piores três meses da vida dele -, sabia que quando aquela pequena gralha calava a boca, era mau sinal.
—Ei, algum problema Mia? — Dylan perguntou parando de andar. Mia também parou, não pode deixar de respirar fundo para tomar folego ,- como ele conseguia andar tão rápido carregando tanta coisa?! -, e suspirou de maneira cansada.
—Só...estou preocupada com uma coisa. Não é nada demais, apenas vamos continuar até chegar naquela creche. — Mia disse cabisbaixa enquanto tentava relembrar o caminho. Já estivera algumas vezes em Oggdenville, mas isso era quando tinha apenas alguns poucos anos de idade. Mas se lembrava perfeitamente do caminho que sua vó fazia para leva-la para a pequena creche "O Pônei Feliz".
Como ela odiava aquele lugar
Porém, as janelas eram barradas com grades e todas as portas eram tão grossas e pesadas que podiam suportar a batida de um caminhão. Mia esperava que eles pudessem fazer daquele lugar uma base temporária, concertar um carro talvez? Ela apenas queria ir para SouthLake City, segundo as boas línguas, haveria algum resquício de civilização ali.
—Ei, você não me engana. — Dylan disse segurando o ombro da morena. -Vamos! Passamos por tanta coisa juntos e você ainda não confia em mim? Se você estiver "naqueles dias" eu tenho alguns pedaços de pano e...
—N-Não é isso! — Mia disse sentindo seu rosto enrubescer. -Eu só...sinto saudades de casa. De quando tudo era...você sabe, normal. Você sabe como é, né?
Dylan queria dizer que sabia como era, queria mesmo! Mas ele odiava o mundo de antes. Ele era tratado como louco lá, era como se no meio de todos ele fosse a ovelha negra, o mundo estava contra ele! Enquanto isso, naquele mundo ele era o rei! Ele fazia as regras e ao inferno ,- literalmente -, para quem o contrariar-se. O ruivo passou a mão pelos cabelos enquanto suspirava e pensava no que dizer. Por fim, ele deu aquele seu clássico sorriso arrogante e respondeu para a morena:
—Sei sim. Nossa, como a Ashlay me faz falta agora. — Mia arqueou a sobrancelha enquanto os dois voltavam a andar.
—Ashlay? Quem é Ashlay? — A morena perguntou cruzando os braços. Dylan deu uma risada curta enquanto puxava a morena pela cintura, trazando-a para perto de si.
—Ninguém querida. Uma antiga parceira. Mas cara! Ela tinha uns pei...- O ruivo encarou a garota que o fuzilava com o olhar. Mia revirou os olhos enquanto se separava do garoto.
—Idiota. — Ela resmungou meio que brincando. Apesar de Dylan a bombardear de elogios, a morena reconhecia que não tinha o corpo mais definido de todos, e isso a incomodava profundamente. O ruivo suspirou enquanto tentou seguir a garota.
—Não fica brava! Você tem uma bunda linda! — Dylan gritou um pouco atrás da Morena. O rosto de Mia ficou vermelho na mesma hora, droga Dylan! Não precisava gritar isso tão alto, né?
***
Já era tarde quando os dois haviam chegado na creche. Era um prédio pequeno de apenas um andar. No pátio havia alguns brinquedos como gangorras ou balanços, mas nada que pudesse representar perigo. Haviam alguns zumbis perambulando por aqui e por ali, e a contra-gosto, Mia deixou o ruivo fazer a festa ,- o que rendeu longos minutos de enjoo e medo de seu parceiro -, Dylan podia ser extremamente assustador quando o assunto era matar, e ninguém era melhor nisso do que ele.
—Certo cabeça de bagre. Como vamos entrar aqui sem chamar atenção? — Mia perguntou tentando abrir a porta da frente, apenas para ter certeza que estava trancada. Dylan já estava puxando seu Lança-Granada caseiro quando Mia o impediu, repetindo a frase e dando enfase na parte sem chamar atenção.
Os dois ficaram discutindo um bom tempo enquanto alguma coisa se mexia dentro da creche. E essa movimentação foi notada pelo ruivo, seus olhos coloridos correram a estrutura.
—Ei baixinha! Calada. — Dylan disse enquanto a empurrava para o lado. Para a garota, aquilo era um desaforo, mas ela viu as persianas do local se mexerem. Nervosa, Mia sacou sua pistola 9mm enquanto Dylan puxou sua metralhadora de pregos.
—Sério? Essa coisa explodiu da ultima vez!
—Eu arrumei desde a ultima vez...- Garantiu o garoto enquanto se aproximavam da janela. Mia bateu de leve no vidro com os nós dos dedos. Segundos depois uma garotinha apareceu do lado de dentro, ela possuía olhos azuis brilhantes, seus cabelos louros presos em um rabo de cavalo e seu macacão branco sujo de sangue.
—Vocês são mordedores? — A garota perguntou timidamente enquanto a pequena faca brilhava em sua mão. Mia sorriu de maneira terna enquanto colocava a palma da mão no vidro.
—Nós estamos limpos. Podemos entrar? — Ela perguntou calmamente. Nesse momento o tempo em que serviu como babá veio a tona. Como ela adorava crianças! Dylan por outro lado questionava se as barras daquela janela seriam tão resistentes quantos os ossos daquele mini-ser humano.
A garotinha parecia assustada com Dylan, ele a fuzilava com o olhar enquanto segurava aquele estranha fuzil de assalto. Parecia que o ruivo encarava um saco de lixo inutil. Mia por outro lado tinha uma aura acolhedora e materna, ela sentia-se bem perto daquela estranha garota, como se ela fosse um anjo no meio daquilo tudo. Meio nervosa, a garotinha retornou para a escuridão daquele lugar, o barulho das trancas sendo abertas chegou aos ouvidos dos dois jovens, Mia suspirou aliviada ao saber que havia conquistado a confiança da pequena, enquanto Dylan simplesmente não havia gostado do que vira.
—Obrigada. — Mia disse calmamente enquanto entrava na creche, a garotinha segurando a porta para os dois entrarem. Dylan esbarrou propositalmente na menor, o que resultou num resmungo irritado. A garotinha fechou e trancou a porta assim que os dois entraram e pegou uma pequena vela num canto para iluminar o caminho.
—Me sigam. — Ela disse enquanto guiava os dois até uma pequena sala cheia de colchonetes aonde as crianças dormiam antes do fim de tudo.
—Você está bem? Eu não estou vendo ninguém aqui para cuidar de você...- Mia perguntou enquanto olhava ao redor a procura de alguém. -A propósito, qual é o seu nome, minha pequena? — Mia perguntou tentando mostrar que ela não faria mal a ela. Meio receosa quanto a isso, a garotinha colocou a vela no meio dos três.
—Sophia...eu tenho nove anos. — Ela disse timidamente. Esse gesto fez Mia querer abraça-la o mais forte possível. Como ela adorava crianças! Era tão fofa!
—Eu sou Mia, esse idiota com cabelo de fogo é o Dylan. — O ruivo mostrou a língua para ela ao ser apresentado, o que rendeu uma risadinha por parte da garotinha.
—Prazer! — Ela disse animada. Por fim, alguns gemidos e rosnados foram ouvidos do lado de fora. A loira se encolheu de medo ao ouvir aqueles sons, involuntariamente ela correu para o ruivo e o abraçou apertado. Ele parecia a coisa mais assustadora naquele lugar depois dos mortos-vivos. O garoto, irritado simplesmente jogou a menor para a morena que o repreendeu com o olhar a abraçou a menor.
—Está tudo bem, não tem nada que possa lhe machucar aqui dentro. — Mia disse acariciando os cabelos da garotinha. Porém, um barulho de copos quebrando foi ouvido vindo da cozinha.
—E-eu não estou com medo deles lá fora...a monitora...ela fica andando pela cozinha...eu tenho medo...fiquei escondida no banheiro esse tempo todo. Mas ela está presa lá dentro...- Sophia apertou mais forte a morena. Naquela hora o coração de Mia ficou mais pesado. A quanto tempo não sentia aquilo? Desde que ela apresentou sua priminha ao seu ex-noivo, talvez? Ela não sabia. Com um olhar suplicante, Mia olhou para Dylan que entendeu o recado.
—Cubra as orelhas querida. -Mia disse sacando sua pistola, apenas por segurança mesmo. Dylan suspirou enquanto ficava de pé, o mesmo andou até uma mesa no canto e pegou um velho cano de aquecimento. Feito isso ele andou até o corredor negro e escuro que levava para a cozinha. O rosnar do zumbi foi ouvido seguido de um barulho alto de algo partindo e um grito por parte da fera. Sophia escondeu seu rosto no peito da morena, que cantava alguma cantiga infantil para a menina. Um jato de sangue coloriu o chão até próximo de aonde elas estavam, a criatura gritou mais uma vez antes do som de algo esguichando e do baque surdo do corpo indo ao chão foi ouvido.
—Calma...está tudo bem agora...
***
—Dylan! Chega! — Mia gritou segurando os braços do garoto numa espécie de abraço. Seus olhos brilhavam com um brilho insano, as palpebras estavam dilatadas e seu rosto coberto de sangue. Ao seu redor, dezenas de corpos jaziam mortos ao seus pés enquanto ele segurava um machado pingando sangue. O mesmo ficou parado, apenas recebendo aquele abraço estranho, seu olhar lentamente voltava ao normal. Ao olhar o que fez, ele adquiriu um semblante assustado e soltou o machado na hora.
—E-Eu não...
—Sim...de novo... — A garota respondeu num sussurro. Dylan encarou as próprias mãos, ensopadas de sangue. Ele tremia de medo, e, para a surpresa da garota, Dylan lhe abraçou apertado. Ela nem se importou de estar ficando suja de sangue, aquele era o gesto mais humano que ela já vira o garoto expressar.
—Me diga que eu não lhe machuquei de novo...
—Não...eu to bem...- Ela sorriu de canto, enquanto evitava olhar para os corpos empalados no chão.
—Me desculpe...- O Ruivo sussurrou baixo. -Me prometa que vai me matar caso eu faça isso de novo...
—Dylan! Não diga tolices! Eu não poderia! Eu não...
—Me prometa...
—...Tudo bem...Eu prometo...
***
Já era de manhã. Dessa vez, Mia puxava Sophia pela mão enquanto tentava entrete-la. Dylan estava ficando irritado com aquilo, para ele já era ruim ter que diminuir o passo por causa de Mia, mas ter que quase parar por causa daquela garotinha? A tentação de mata-la naquele momento era tão grande...
—Mia, será que podemos conversar a sós? — Ele perguntou enquanto segurava o antebraço da morena. Mia entendeu o recado e pediu para que Sophia a esperasse em uma carcaça de carro, a garotinha assentiu com a cabeça enquanto se sentava no chão e cantava alguma cantiga. Dylan a puxou para um canto em um beco, aonde a colocou ,- sem querer -, contra a parede.
—O que foi dessa vez? — Mia perguntou sem paciência. Não queria perder tempo com as cantadas tolas de Dylan, mas não iria negar que ficou envergonhada com o jeito que Dylan havia lhe prensado contra a parede.
—Essa garotinha. Temos que nos livrar dela. — O ruivo foi direto enquanto tentava se mostrar o mais sério possivel. Mia arregalou os olhos com aquilo, não podia acreditar na frieza do garoto. Sabia que Dylan podia ser frio quando queria, mas abandonar uma garotinha indefesa no meio de uma cidade cheia de mortos, era mais que maldade! Irritada, a garota empurrou o ruivo para longe e bateu o pé.
—Está doido?! Ela é só uma criança!
—Exato! — Dylan disse erguendo os braços. -Ela é fraca, lerda, e irritante! E pior, você vai se apegar a ela! — Dylan disse gesticulando.
—Isso é problema meu! — Rebateu a garota. Ela sabia aonde Dylan queria chegar, e não gostava nenhum pouco porque sabia que era verdade.
—Não. É problema nosso, porque se você ficar deprimida por culpa desse peso-morto, quem vai se ferrar junto vai ser EU! Temos que acabar com essa palhaçada o quanto antes!
A garota nada disse. Sabia que Dylan estava certo, mas ia se recusar a abandonar essa garota. Ela sabia como era estar sozinha, sabia o medo que sentia. Dylan não era de longe o melhor amigo/humano da terra, e queria se livrar dele o quanto antes, mas sabia que era mais da boca pra fora do que literalmente, e mesmo que ele a odiasse e já tivesse tentado a matar diversas vezes, ela apreciava as vezes em que ele a tentava animar com suas cantadas horriveis ,- ou com coisas mais ousadas -, ou quando simplesmente saia matando qualquer coisa apenas para protege-la. E mesmo que esses momentos fossem raros, ela admirava esses minutos altruistas que Dylan tinha.
Mesmo assim, aquela menina era mais importante. Não só porque ela adorava crianças, mas porque Sophia seria o nome que ela daria a sua filha.
—Garota idiota...- Resmungou Dylan. Ele serrou os punhos.
Seria mais dificil esconder dois corpos
Fale com o autor