Nem Tão Sozinha Assim
3 Chapter III - Deixe-a Ir
Notas iniciais
Deixe-a Ir
Então, os miolos daquele ser explodiram pelos ares. O sangue coloriu as paredes daquele cômodo, antes branco, de um vermelho podre com pedaços cinza espalhados por aqui, e ali. O ar retornou aos pulmões de Mia ao ver o corpo do infectado cair morto aos seus pés, e, atrás do corpo caído do cádaver, Dylan apontava a estranha arma de pregos para as duas.
—Eu disse que estava funcionando. — Gabou-se o ruivo enquanto ajeitava os cabelos vermelhos pintados. Mia gritou alguma coisa com ele enquanto apertava forte a mão da pequena Sophia. A loira encarava o corpo morto com um olhar vidrado, a mão do infectado ainda esticada na sua direção
Iria fechar uma semana que Sophia estava com os dois. Não foi a melhor semana de sua vida, afinal, ouviu milhares de novos palavrões por parte do ruivo ,- e por causa disso, Mia disse que ele só poderia xingar em italiano. Bem, dito e feito -, e viu cenas igualmente grotescas, que ainda assombravam sua mente. Mas, sábia que Mia estava tentando deixa-la o mais alegre possível! Porém, apesar de tentar, nem sempre os bons momentos superavam os horrores daquele mundo, e isso fazia a pequena repensar se devia ter deixado aqueles dois entrarem.
Mesmo assim, andava com eles. Na verdade, andava com Dylan. Ela sabia que ele a odiava ,- mesmo sem saber o porque -, mesmo assim, se sentia segura perto dele. Ele era grande e de aparência intimidadora, sempre com aquele sorriso arrogante que fazia a garota rir sem motivo. Porém, ela já vira o ruivo em ação, e sabia que, independente do inimigo, ele iria destruir sem dó nem piedade, e isso a fazia a garota se sentir mais segura e chama-la de "irmãozão".
Mia, por outro lado, era decidida e sábia. Sempre sabendo o que fazer em momentos de desespero. Ela conseguia acalmar qualquer um, e deixava momentos tristes alegres apenas com seus raros sorrisos. E para Sophia, ela era como uma mãe, sempre a levando de um lugar para o outro de mãos dada e advertindo sobre o que era perigoso ou não. Ela era grata por isso, mesmo assim, sentia como se Mia também temesse os infectados. Ela apenas atirava se estivessem de longe, e se estivessem muito perto, ela corria, e isso cansava demais a garotinha, ela não sabia porque sua protetora temia tanto aqueles seres quanto ela, mas não podia deixar de se sentir em perigo quando estava longe do ruivo.
—Dylan! — Sophia disse alegre enquanto corria para abraça-lo. Seus bracinhos pequenos não conseguiam dar a volta no corpo do mais velho. Dylan revirou os olhos enquanto empurrava a garotinha para longe.
—Vaza pirralha. — O ruivo disse seco enquanto se virava para Mia. Ela o repreendia com o olhar, o garoto apenas suspirou enquanto puxava um saco com alguns medicamentos. -Aqui ta praticamente vazio. Vamos embora daqui antes que mais daquelas coisas apareçam. — Mia não ficou satisfeita com a resposta, mas tinha que admitir, era verdade. Já passava muito do por do sol, e isso deixava os infectados mais ativos, sem contar, que sem a eletricidade, elas ficavam limitadas a lanterna de Mia.
Antes deles acharem Sophia, Mia e Dylan raramente se arriscavam a noite por motivos óbvios, mas principalmente, porque Dylan não conseguia mirar e segurar uma lanterna. Eles já havia tentado amarrar a lanterna na arma de Dylan, mesmo assim, o balanceamento ficava horrível para o ruivo. Então, Mia andava com a lanterna, iluminando o caminho para Dylan atirar.
Isso nunca deu certo
Depois de alguns minutos andando por aquela farmácia, o pequeno grupo chegou até o pátio dos fundos da loja. Era um espaço amplo e coberto com cercas de metal, os dois jovens haviam colocado algumas telhas nas cercas para a luz da fogueira não aparecer. A noite estava fria, o vento soprava ameaçando apagar a fonte do pequeno fogo ali, não que o clima incomodasse a Dylan, que, novamente, estava isolado em um canto, mexendo em seu queimador e tentando descobrir o motivo daquela "cazzo" não funcionar.
Sophia tremia de frio. Seu pequeno vestido era fino demais para aquelas condições climáticas, ela não havia pedido um casaco a Mia, na verdade, a loira ficava em silêncio na maior parte do tempo. O jeito frio e malvado de Dylan estava começando a deprimir a garotinha, e Mia notava isso. Sophia, no inicio daquela semana era uma garotinha alegre e otimista que adorava cantar e perseguir borboletas. Agora ela mal sorria!
Dylan não se importava com ela. Apenas não havia a matado por insistência da morena. Ele via Sophia como um erro em seu plano, todas as provisões, as balas contadas, tudo já era. Ele nunca havia gastado tanto com munição para proteger aquelas duas, Mia mal acertava seus tiros! E aquilo irritava o garoto, que tinha que matar os infectados pela falta de atitude da parceira. Mas não era só isso! Era como se Sophia lhe trouxesse algum sentimento ruim, algum sentimento de dever de proteção, e sabia que se fosse gentil com ela, iria acabar se apegando, e ele não iria se apegar a alguém novamente.
—Dylan...- Gemeu a garotinha baixinho, como se não quisesse atrapalhar o trabalho do mais velho. O ruivo levantou o olhar para a menor como se dissesse "fala logo". -E-Eu estou com frio... — Ela disse meio envergonhada, mais por saber que havia atrapalhado o trabalho do ruivo.
—Que morra de frio. — Disse o garoto de um jeito maldoso. Por dentro, Sophia quis chorar, mas não podia, sabia que a Cuidadora não ia querer, ela havia dito que chorar só fazia mal a alma, e ela não queria isso.
—Porque você é tão mal comigo? Eu te fiz alguma coisa? — Sophia perguntou timidamente enquanto ficava de pé e tentava entender algum gesto ou ação que pudesse ter despertado o ódio do mais velho. Dylan bufou irritado enquanto soltava o queimador na bancada e fuzilava garota com os olhos, gesto que fez Sophia se esconder.
—Quer mesmo saber? Então lá vai: Você é uma baixa descenessária, gasta comida a toa, atrasa a gente, nos faz perder a atenção a todo momento, e pior, faz a gente se apegar ao lixo que é você. — As palavras foram ditas com um ódio tão intenso que fez as lágrimas descerem pelos olhos da loira e molharem o vestido. Mentalmente, Sophia pediu desculpas a Cuidadora, não havia cumprido a sua promessa, ela chorou.
Derrotada, a garota abaixou a cabeça e chorou. Esperou que as lágrimas levassem suas tristezas e problemas embora. Queria que quando ela abrisse os olhos novamente aquele mundo sumisse. Ela estaria novamente em sua creche brincando de esconde-esconde com a Cuidadora.
—Agora. Cala a boca e dorme. — Terminou Dylan antes de voltar a atenção ao seu projeto. Sophia engoliu o choro para não acordar a morena que dormia calmamente ao lado da fogueira. E sem que ninguém notasse, a loira voltou para dentro da farmácia e saiu pela porta da frente.
Ninguém a impediu porque ninguém viu
***
Algumas horas mais tarde, Dylan acordou ao sentir o peso do chão sobre si. Rapidamente seus instintos lhe disseram para levantar e olhar ao redor. Tudo estava certo, Mia dormia calmamente ao lado da fogueira já apagada. Sua vista correu o pátio a procura da jovem loira, e quando não encontrou, sorriu.
—Então ela realmente se foi...- Ele sussurrou para si enquanto tateava o chão, a procura do seu queimador. Porém, o barulho acabou por arrancar um resmungo de irritação por parte da morena. Rapidamente os olhos coloridos de Dylan se voltaram a sua parceira que dormia calmamente, o peito subindo e descendo em uma respiração irregular.
Estava tendo um pesadelo
Dylan sorriu maldoso enquanto as sombras dançavam ao seu redor, num piscar de olhos, sentiu sua visão ficar mais avermelhada, como se o sangue lhe cobrisse a visão. Os sussurros que ele normalmente ouvia aumentaram, se tornando vozes bradando coisas malignas
Mate-a
Mate-a
Mate-a Agora!
Dylan sorriu com a ideia. Se deleitar com o sangue de sua parceira, simplesmente poder fazer o que quisesse com seu corpo era algo que ele questionava desde que ele a conheceu. Num movimento rápido, o ruivo sacou uma faca de açougueiro da manga de seu casaco e segurou fortemente o cabo. A lâmina brilhava sobre a fraca luz da lua, assim como o sorriso psicótico do garoto. O ruivo ergueu seu pulso, seria apenas um golpe, na garganta. Pouco sangue, mas o bastante para ele se divertir ao ve-la se engasgar no próprio líquido vital.
Ele estava tremendo, estaria finalmente realizando aquele sonho. As vozes agora berravam as ordens, e ele sentiria muito prazer em obedece-las.
Então, ele baixou o pulso. Com a mão tremendo
Ele havia ouvido ela. Lá no fundo, no meio de todas as outras vozes, bem baixinho, porque ela sabia que apenas ele poderia ouvi-la.
Ela gostava de provoca-lo
Dylan virou a cabeça instintivamente, como se sentisse observado. E atrás dele, sentada de pernas cruzadas, a silhueta de uma mulher o encarava, quase como se ela estivesse esperando ele fazer algo. O ruivo se estapeou ao ver aquilo. Não era real, ele murmurou para si mesmo enquanto piscava varias vezes, olhando para aonde a figura esteve uma vez.
Então, ele percebeu o que havia feito. Havia expulsado uma garota sozinha no meio da noite num mundo cheio de seres canibais e que a devorariam sem nem pensar. Estou fraco, ele pensou. Odiava quando tinha suas "recaídas", ele ficava sensível, ficava humano. e isso era visto como uma fraqueza para o garoto, havia demorado muito tempo para enlouquecer daquela forma para alguns fantasmas idiotas simplesmente aparecerem e destruírem tudo.
Resmungando com sigo mesmo, Dylan tirou seu moletom vermelho e o colocou sobre a morena adormecida ao seu lado. Sabia que, quando voltasse ao normal, não iria voltar para ela, simplesmente por que não iria querer ouvir sermões dela ,- no momento, ele voltaria porque era a coisa certa a se fazer. Mas em breve, iria ignorar o que é certo -, então iria colocar seu moletom favorito com ela, como um jeito de se convencer a retornar.
Sem se importar, Dylan deixou sua mochila e suas armas ali, sabia que não iria demorar, e silenciosamente saiu da farmácia protegida e segura ,- coisa que nenhum ser racional faria -, e se aventurou naquela escuridão, que ele conhecia tão bem.
***
Sophia chorava. E chorava porque sabia que ninguém veria ,- ou melhor, ninguém se importaria -, e isso era, ao mesmo tempo, triste e reconfortante.
A loira se lembrava quando ela saiu da zona de quarentena pela primeira vez. Havia se perdido de seus amigos e achou um buraco nos enormes muros que protegiam um pouco da cidade de Ordon. Curiosa, a garotinha se aventurou lá fora, e ficou impressionada ao ver tanta coisa nova.
As horas passaram com ela admirando os destroços de um antigo mundo. Porém, ela havia andado tanto que se perdeu. Não se lembrava o caminho de volta e os muros de Ordon já haviam ficado para trás a muito tempo. Assustada com um anoitecer eminente, Sophia andou e andou até encontrar a creche "Pônei Saltitante", na qual foi aceita de braços abertos por uma doce mulher de cabelos grisalhos e olhar bondoso.
E ela se arrependia de nunca ter perguntado seu nome
A mulher, a qual Sophia se referia como "Cuidadora", era uma mulher em seus sessenta e poucos anos e muito amável. A vida fora injusta com ela, uma mulher cujo o maior sonho era ter filhos, era a unica coisa que não podia fazer. Por isso ela começou a trabalhar em uma creche, ela adorava ver aqueles pequenos adultos correndo de um lado para o outro com um sorriso no rosto, gostava de conforta-los quando eles caiam no chão e se ralavam. Ela gostava de ser mãe.
Com o tempo, a solidão de ficar sozinha naquela creche, se protegendo dos mordedores ,- assim que Sophia aprendeu a chamar os infectados -, deu lugar a sensação de satisfação e alegria em ter a pequena loira como companhia, e Sophia adorava ter alguém que pudesse chamar de mãe.
A comida era pouca e o espaço limitado, mesmo assim elas não deixaram esses pequenos problemas abalar a felicidade momentânea das duas. A Cuidadora tentou ensinar Sophia a dançar valsa, cantar, pintar e desenhar, e Sophia amava isso! Era a coisa mais próxima que teve de uma familia ,- Tirando seu irmão, mas ela queria esquece-lo -.
Mas nem tudo é um mar de rosas
Um dia, enquanto a Cuidadora cozinhava alguma sopa, Sophia ouviu alguém bater na porta. Curiosa, a loira nem pensou duas vezes em abrir a porta. E do lado de fora, um mordedor saltou e tentou morde-la, desesperada a garotinha tentou se espernear e berrar em busca de ajuda, essa que não demorou a chegar vinda na forma da cuidadora, que acertou o infectado com sua colher de pau. A criatura soltou a loira e pulou encima da mulher, começando uma luta que demorou alguns segundos até Sophia pegar uma faca e cravar na cabeça do ser. A garota sentia suas mãos sujas de sangue enquanto sua mãe se levantava e via uma mordida em seu braço.
—M-Mãe...? — A loira perguntou com a voz tremula e os olhos marejados. Ela sabia o que aquilo queria dizer, e não queria que acontecesse de novo. A Cuidadora nada disse, ela trancou a porta e deu a chave para Sophia.
A hora seguinte se seguiu uma zona. Aquela doce mulher fazia o máximo de comida possível para Sophia e colocou em algumas panelas. Depois, indicou a Sophia um pequeno quarto na qual ela deveria ficar e apenas sair caso alguém que não fosse um mordedor aparecesse. Ao final, a Cuidadora deu um beijo suave na testa de Sophia, o que arrancou algumas lágrimas da menor. Eu não quero que você vá! Por favor! Pensava, a garotinha. É tudo minha culpa! A culpa é toda minha! Chorava a garota enquanto tentava segurar o vestido de sua "mãe". A despedida foi selada com um, "Fique segura minha querida, eu te amo. Nunca se esqueça disso."
Então, Sophia ficou naquele quarto durante um mês, ouvindo aquela que um dia amou se transformar num mordedor. Durante dias ela chorou em silêncio, culpando-se, por tudo que aconteceu. Quando a comida já havia acabado e a água estava no fim.
Ela viu uma cabeleira ruiva artificial
***
Enquanto ela chorava naquele canto escuro da rua, os infectados rondavam ali perto, e não demorou até que um deles seguisse o choro e a encontrasse. Com medo, a loira correu pelos becos e vielas, apenas chamando mais atenção para si, até chegar em uma caçamba de lixo, na qual adentrou e começou a cantar uma musica ensinada pela sua antiga cuidadora.
—Socorro...- A Garota sussurrou esperando que alguém a ouvisse. -Deus, me ajude...
Então, alguém gritou algo. Algo em italiano provavelmente. E não demorou muito para ela ouvir os berros de pura dor e agonia daqueles seres, como se algo os estivesse massacrando. A garota sorriu ao imaginar que Deus mandou alguma espécie de anjo para ajuda-la. Com cuidado, a garota levantou a tampa da lixeira para ver o seu salvador, porém, ela viu o garoto de cabelos de fogo segurando aquela faca pingando sangue sobre uma montanha de corpos abertos ao meio com a barriga exposta.
—Sophia? — O garoto disse com olhos preocupados enquanto corria até ela e a abraçava com força. O gesto fui inusitado para a garotinha, surpresa, a garota apenas retribuiu o gesto, afundando o rosto no peito ensanguentado do garoto.
—Sinto muito por tudo. Eu apenas sou um idiota...cem por cento do tempo! — Ele disse soltando uma risada baixa. -Vamos para a base antes que a Mia acorde e grite conosco. — Dylan disse a colocando sentada sobre os ombros enquanto voltavam pela trilha de corpos causada pelo ruivo.
Os dois andaram em silencio de volta para a base, não havia necessidade de algo ser dito. Dylan havia sentido que aquela garota não seria apenas um peso, sentia algo a mais nela. Talvez fosse efeito de seus problemas mentais, ou sangue em seus olhos, mas ele sentia que ela gostava dele, e queria ficar perto dele, por algum motivo.
E se alguém gostasse dele, por quem ele era.
Então essa seria a pessoa mais importante do mundo, para ele
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