Nem Tudo É De Primeira

20 Nem Tudo É De Primeira


Notas iniciais
Oi, pessoal. Primeiro, eu gostaria de me desculpar por essas duas semanas sem postagens. Eu tive algumas ocorrências pessoais que me deixaram... ocupada, por assim dizer, emocionalmente e psicologicamente e eu realmente esqueci completamente da história. Eu devo desculpas por isso, mas realmente tive um tempo complicado. Bom, aproveitem o capitulo!

Percy se lembrava bem de tudo como se tivesse sido ontem.

Eles haviam ganhado. Gaia havia sido impedida de se erguer, forçada a voltar ao seu sono completo e todos os gigantes foram destruídos quando Zeus/Júpiter finalmente se tocou do seu erro e os deuses foram permitidos ajudar seus heróis. A grande batalha travada na Grécia foi contida ao mínimo dano e a iminente segunda guerra civil entre os Acampamentos foi impedida com sucesso com a entrega da Estátua de Atenas.

Ele se lembrava de como tudo ocorreu. Todos estavam aliviados. Todos acharam que tudo havia acabado e que a Profecia dos Sete fora cumprida e que agora tudo poderia voltar ao normal, ou o quão normal a vida de um semideus pode ser. Ousaram respirar em fim, reunindo esperança e alegria. E eles estavam certos, porque a batalha havia acabado e a vitória estava ao lado deles.

Mas se esqueceram de que seu inimigo nunca morre e que eles vivem, respiram, riem sobre ele.

Então quando Gaia soltou seu último grito de fúria, sacudindo a superfície do planeta inteiro e erguendo poeira o suficiente para encobrir a luz do sol por alguns preciosos segundos, eles não deveria ter ficado tão chocados quanto ficaram. Não deveriam ter cometido o erro de baixar a guarda, porque o inimigo deles é a própria Terra que nunca morre e nos últimos segundos antes de ser adormecida, ela se vingou.

Todos cegos, ninguém viu um par de olhos ficar repentinamente vidrados e brilhantes.

Ninguém viu até que a poeira baixou o suficiente e a lâmina negra erguida foi revelada nas mãos de seu dono com um sorriso cruel nos lábios e uma aura fria ao seu redor. Todos se viraram um pouco tarde demais, a tempo somente de ver uns dos seus se erguer e ouvir as palavras serem pronunciadas pela voz ao mesmo tempo conhecida e desconhecida.

“Essa é a nossa vingança, semideuses.”

A espada negra foi virada e a ponta voltada contra o coração do seu dono, Nico di Angelo.

Annabeth, a mais próxima, foi a mais rápida.

E antes que ele pudesse dar um passo, ela disparou para frente e se jogou contra o jovem cuja lealdade foi duvidada mais de uma vez, no instante

[alguém gritou. Talvez tenha sido ele?]

em que a espada desceu em um arco mortal.

Percy lembrava do seu mundo congelar num segundo infernal, vermelho espirrando e pintando cada centímetro do universo. Ele lembrava de sentir seu interior virar gelo e era como se ele estivesse afogando de novo, mesmo isso sendo impossível. Sem oxigênio, seu ser reclamou naquela hora, sem oxigênio, sem ar. Você vai morrer. Observou os longos fios loiros mudarem de cor, assim como a camiseta laranja, os shorts jeans azuis enquanto ela caia no chão e quando ela caiu finalmente, batendo as costas contra o concreto duro, mas sem reagir, o cinza do chão também começou a mudar de cor rapidamente.

Stygian se soltou, fazendo mais sangue escorrer e foi mais uma vez erguida, mas alguém – Jason? – se jogou sobre Nico, pretendo-o ao chão, mas aquilo tudo não devia ser importante porque–

[porque–]

Seu cérebro travou num loop, recusando-se a processar o que seus olhos lhe mostravam e antes que qualquer coisa fizesse o mínimo sentido e ele finalmente entendesse o que tinha acontecido, ele correu. Disparou, deixando Contracorrente escorregar por entre seus dedos e cair ao chão com um tinido agudo. Uma única palavra se repetia infinitamente dentro da sua cabeça – não, não, não, não, não , não , não

NÃO!

Ouviu Piper gritar, horrorizada e furiosa. “Vocês juraram pelo rio Estige!”

Em algum momento ele caiu, mas mesmo assim ele se arrastou para perto. Perto. Sangue estava quente contra sua pele e a palavra continuou ecoando, ecoando, e ele estava começando a processar, mas ele não queria. Não podia. Seu corpo tremia tão violentamente que ele mal conseguiu erguer suas mãos e pressionar contra o ferimento que atravessava o corpo dela, tentando impedir inutilmente que o sangue escorresse.

“Annabeth-” Falou, o nome saindo num sussurro sem ar. Era como se alguém estivesse tentando arrancar seu coração a força pela sua garganta, com garras de aço e gelo se enfincando na carne frágil cruelmente e começando a puxar sem cerimônias, arrebentando e cortando tudo no caminho. Era como se estivesse com os pulmões furados e a cada vez que puxava, o ar vazava e ele ficava sem conseguir respirar. “Annabeth- deuses, deuses- Annabeth.”

Sem oxigênio.

“Juramos sobre seus preciosos tripulantes, mas ele não é um tripulante, não é? Só um convidado, alguém que vocês toleram! E por sua ignorância agora irão pagar!” Alguém disse ao longe, alguém.

Os olhos cinzas se abriram frágeis por alguns segundos. Uma mão que ainda conseguia ser delicada mesmo depois de anos lidando com armas e lutas pousou sobre o seu rosto, manchando-o de sangue ainda morno. Sem pensar, sua própria mão pousou sobre a dela, tentando mantendo-a ali.

Tentando mante-la consigo.

“Annabeth.” Ele conseguia sentir o choque pela sua voz e ele sabia que o inferno não seria comparação justa para o que viria depois que seu corpo superasse o choque, mas ele não conseguia se importar porque-

[porque ela estava-]

“... ercy...” Ela falou entre arquejos pesados. Ele apertou a mão menor contra seu rosto e encostou sua testa contra a dela. O mundo estava nublado e ele não conseguia dizer se as gotas transparentes que escorriam pelo rosto pálido da filha de Atenas eram lágrimas suas ou delas. E talvez fossem de ambos, mas não importava. Os dedos delicados e quase sem força deslizaram gentilmente pela sua pele, deixando um traço morno de sangue.

Ouve um soluço. De quem, ele não se importava.

Annabeth olhou-o nos olhos, o cinza já fraco, mas ainda sim brilhante como sempre fora e ela sussurrou.

“... em frente...”

[Siga em frente.]

E então a tempestade suavemente foi-se embora, deixando o oceano para sempre solitário, sem nunca mais ser capaz de se mexer.

Percy se lembrava bem de como o seu mundo ruiu como se tivesse sido ontem.

A água do mar espirrou ao bater numa ponta da pedra e choveu pequenas gotículas salgadas, enquanto que as ondas continuavam a ir e vir acariciando gentilmente a areia, causando um som suave e sonolento. A brisa soprava forte de quase todos os lados e dava para ouvir um cardume de cavalos-marinhos brincando perto dali. O sol nascia devagar no horizonte, soltando seus raios vermelhos e amarelos e laranjas timidamente por cima das nuvens brancas no céu, como pinceladas brancas.

Foi com essa memória na cabeça e nesse inicio de dia perfeito que Percy sentiu Nico, mergulhado em culpa e dor e desespero e a necessidade de ajudar, se inclinar trêmulo em sua direção e pressionar os lábios contra os seus.

E foi com essa memória na cabeça e com a sensação de que estava se afogando que Percy se inclinou também e retornou o beijo.

.

*

.

Ele estava de olhos fechados quando sentiu o primeiro toque.

Primeiro eram os braços que o envolviam com uma força esmagadora, segundo era o rosto de Nico pressionado contra o seu pescoço. Alguém tremia tão violentamente que fazia o outro tremer também. Percy não tinha certeza de quem. Lágrimas quentes começaram a escorrer pelo seu pescoço.

“Percy– Percy, eu sinto muito– Eu– Percy, eu, eu– “ Ele soluçou, apertando-o cada vez com mais força.

Percy abriu os olhos e encarou a longa praia por cima do ombro de Nico por um momento antes de fecha-los de novo e encostar o rosto contra o pescoço do menor, deixando um longo suspiro escapar. Não retornou o abraço. Não tinha energia, força ou mesmo à vontade para faze-lo. Só queria dormir e nunca mais acordar.

Queria parar de respirar o suficiente para nunca mais abrir os olhos.

Suavemente mãos trêmulas o suficiente para que mesmo Percy, desligado de sensações e emoções, conseguisse sentir ocuparam as laterais do seu rosto. “Deuses- deuses, me perdoe, Percy- Percy–“

E então uma pressão, inconsciente contra o canto da sua boca.

Nico se afastou um pouco por um segundo, sua respiração quente contra seus lábios. “Eu sinto muito, eu não devia- eu não-“ Falou em meio a um soluço, engasgando com as palavras sem ar e era como se estivesse fisicamente incapaz de falar e todo o seu corpo tremia contra o seu tão violentamente.

Nico voltou a se inclinar e dessa vez ele sentiu-o pressionar com mais intensidade os lábios contra os seus num movimento doloroso.

Abrir os olhos foi o único sinal de surpresa que o seu corpo deu. Em algum lugar, uma parte de si o avisou suavemente do que estava acontecendo e que aquela não era uma boa ideia. Nada de curiosidade. Nada de choque. Apenas uma voz gentil em meio ao mar de dor em que estava afogando dizendo: Isso não é uma boa ideia.

Ergueu uma mão e a pousou sobre o peito magro diante de si, pensando em escutar o bom senso.

Isso não é uma boa ideia.

Isso não é uma boa-

Nico deslizou as mãos pelo seu cabelo e agarrou os fios negros, soluçando. “Eu- Percy, eu- eu sinto muito.” Falou num arquejo sem ar.

Ele queria se importar. Ele realmente queria, mas era como se estivesse amortecido de sentimentos. Não sentia nada além da sensação de vazio do qual ele havia se distraído com tanto sucesso naquele ano. Um buraco no seu peito, bem no meio, engolindo tudo o que ele sabia que ele deveria sentir.

E Percy queria dizer, queria poder se afastar gentilmente e dizer para Nico: Não vale a pena se machucar assim, não por mim. Ele queria dizer: Obrigado. Queria poder dizer: Eu sinto muito. E repetir mais uma vez como ele nunca deveria ter parado: A culpa não é sua.

Eu não te culpo mais, Nico.

.

[O mundo era estática e dor e fogo e um corpo frio entre seus braços. Ele quis gritar com todas as suas forças, então ele gritou. Lágrimas queimavam como lava. Ele gritou.

Ele viu em algum ponto, sentiu talvez alguém, alguém. Não. Ele. Ele se aproximar, o rosto pálido e cabelos negros, olhos negros delineados por olheiras e uma aura pesada demais, uma criança com o peso de um adulto nos ombros e tantatantantantantanta dor e culpa e desespero e horror que–

“Percy, eu-“

Algo se rompeu dentro de si. Ele não queria ouvir aquilo. Não queria. Não queria. Não queria que ela estivesse morta. Annabeth. Como podia? Como podia? Olhos cinzas como uma tempestade que nunca mais iriam-

“Vá embora!” Gritou, ódio e raiva, dor, tanta dor. Viu Nico recuar como se tivesse sido queimado e não se importou. Nenhuma parte sua deu a mínima e ele voltou a gritar. “Como pode? Depois de tudo que– Vá embora!”

Fechou os olhos e voltou a chorar e a gritar e a sofrer e a querer sumir e a querer parar de respirar.

Nico foi embora.

E não voltou por 21 dias.]

.

Ele devia dizer: Eu nunca deveria ter te culpado.

Mas ele não disse.

Em vez disso, seus braços se ergueram sozinhos e envolveram a cintura magra do garoto diante de si. E quando Nico se inclinou de novo, sem saber porque estava fazendo aquilo, Percy se inclinou também e pressionou seus lábios juntos mais uma vez.

Houve um arquejo sem fôlego de Nico no mesmo instante que ele sentiu o aperto de ferro do outro garoto vacilar de leve, mas no momento seguinte Nico voltou a agarra-lo com força e Percy sentiu os lábios pressionados aos seus se entreabrirem de leve.

Ele deslizou a língua e o primeiro toque foi estranho e tentativo, porque fazia tanto tempo que ele não fazia isso e Nico lhe parecia inexperiente em si próprio e Percy se perguntou se aquele era o primeiro beijo dele. Envolveu-o para mais perto antes pressiona-lo para trás, fazendo-o deitar na areia. Apoiou-se em ambos os cotovelos, cada um de um lado do rosto de Nico, antes de soltar o peso do seu corpo e então aprofundar o beijo.

Era certo dizer que ele já não estava pensando.

[Em certo sentindo, ele não queria.]

Nico soltou um som baixo contra seus lábios, como um gemido de desespero, antes de Percy senti-lo agarrar sua camiseta com uma violência que provavelmente acabaria rasgando-a e puxa-lo para mais perto ainda até que não houvesse fisicamente espaço nenhum entre os dois. E o filho do mar sentia um coração acelerado sobre o seu, tão frenético e delicado.

Fechou os olhos.

.

*

.

A gritaria aumentou e de repente ele e Annabeth foram erguidos por vários braços e começaram a ser carregados em direção ao lago do acampamento. E mesmo quando estavam erguidos no ar, eles ainda estavam perto o suficiente para manterem os dedos entrelaçados.

Quando chegaram ao lago, balançaram três vezes os dois numa contagem que ecoou por todo acampamento antes de serem lançados em direção a água. Percy conseguiu envolve-la nos braços antes de atingirem a superfície do lago e afundarem num 'splash!'

E foi assim que seu primeiro amor foi declarado, no melhor beijo subaquático do mundo.

.

*

.

Era sim o primeiro beijo de Nico e Percy sabia, sem ter que perguntar nada.

Era óbvio pelo som desesperado que ele soltou quando Percy começou a beija-lo.

Era óbvio pelo modo como o garoto estremeceu entre seus braços no primeiro contato de suas línguas.

Era óbvio pelo jeito que ele parecia esquecer-se de respirar durante o beijo e às vezes separava os lábios deles por alguns segundos para recobrar o fôlego, mas somente alguns poucos milímetros como se temesse que Percy se afastasse.

Era óbvio pelo modo que não sabia direito o que fazer, onde tocar, para onde mexer.

Era óbvio pelo jeito acanhado com que se deixou ser guiado por Percy.

Era simplesmente óbvio e Percy sabia disso.

.

*

.

Percy sabia porque ele estava fazendo isso.

Porque por ironia da vida Nico era a melhor anestesia do mundo e naqueles poucos momentos em que eles estavam se beijando Percy não sentiu nada – nenhuma dor, nenhum vazio, nenhuma maldita sensação de estar se afogando lentamente dentro de si mesmo e ele sabia que era por causa daquele garoto entre ele e a areia.

E ele foi egoísta o suficiente para se agarrar a isso com unhas e dentes, querendo desesperadamente que aquela absoluta sensação de não dor continuasse por mais um pouco, só mais um pouco. Mesmo que ao fazer isso ele estivesse jogando fora todo aquele ano tentando ser o melhor possível para aquele garoto mal-educado e ranzinza e com um sorriso raro e gentil de um modo que não deveria existir na vida real.

O perdão seria riscado da sua vida e ele se afundaria em culpa, ele sabia, mas mesmo assim continuou.

Ele poderia ter parado.

.

[Ele tentou uma vez, quando a culpa o atingiu como um golpe físico e tudo voltou ao que era e a dor e a culpa o rasgaram por dentro. Ele tentou, mas quando fez a menção de se afastar Nico imediatamente o segurou de maneira desesperada e Percy mais sentiu do que ouviu a súplica sussurrada contra seus lábios. “Por favor, Percy...”. De repente pareceu que seu peito estava encolhendo mil vezes mais.

Sem pensar, se inclinou de volta e beijou Nico de novo.

E de novo.

E de novo.

E de novo.]

.

Mas mais do que ele não conseguiu, ele não quis.

.

*

.

De olhos ainda fechados, encostou sua testa ao do outro garoto. Sentia a respiração ofegante e quente do menor sobre seus lábios e dedos gentis acariciando seu rosto com uma delicadeza tão suave e uma ternura tão explicita. Ele deslizou o polegar pela sua pele sensível e limpou lágrimas que Percy não havia notado que ainda transbordavam por seus olhos.

Sem abrir os olhos, se inclinou sobre o toque. Imediatamente os dedos suaves se esticaram e uma palma fria e cheia de calos ocupou sua bochecha.

“Percy.” Nico sussurrou.

O mundo pausou por um segundo e então algo se quebrou.

[Percy nunca quis chorar tanto como agora por simplesmente ouvir seu nome.]

Não era um chamado, não era Nico querendo chamar sua atenção. Era apenas... o seu nome. Com cada sílaba sendo pronunciada cuidadosamente, curvando-se na vogal e deslizando nas consoantes como num estudo cauteloso de como pronunciar Percy o mais perfeitamente possível. Cheio de uma maciez, mesmo que na última sílaba o som sempre saísse afiado com o sibilo de uma cobra, mas que agora, saindo dos lábios de Nico, soava tão confortável.

Um soluço subiu por sua garganta e ele não conseguiu conte-lo a tempo. No mesmo momento sentiu a mão em seu rosto tremer.

“... Percy?”

Abriu a boca para responder, mas não achou sua voz. Era como se algo tivesse dado um nó nas suas cordas vocais. Fechou a boca e engoliu em seco.

Nico sempre dissera seu nome assim? Tão... devotado? Tão-

Abriu os olhos, sentindo-os queimarem.

Olhos castanhos o olharam abertos e conscientes e úmido das lágrimas que ainda não caíram – se por pouco. Nico ainda mantinha a tonalidade pálida e as olheiras, escuras como seus fios espalhados pela areia, denunciavam mais noites em claro do que Percy sabia ser saudável. Ele vestia uma camiseta preta simples e jeans escuras, semelhante ao que ele usava no cemitério com os braços nus e sem algo mais quente mais protege-lo do frio. Mesmo assim, sua pele estava quente contra a de Percy.

E ele se perguntou se Nico havia passado as duas semanas desde a última vez que tinha se visto inquieto, incapaz de descansar devido a data se aproximando cada vez mais. Ou se o garoto foi como ele – relembrado da vida por um pesadelo com talvez [provavelmente] uma outra pessoa para lhe dizer coisas horríveis?

Uma pessoa terrível e desprezível.

[Como ele?]

“Eu–“ Tentou, mas teve que parar porque ele não conseguia falar. Era como se sua boca estivesse cheia de areia. Não conseguia.

Nico o encarou sem desviar os olhos, suas mãos ainda acariciando seu rosto com cuidado. Com carinho, mas com uma noção dolorosa que fez o nó em sua garganta descer até seu peito. Ainda havia tanta culpa e amargura e angústia em cada nuança daquele rosto a poucos centímetros do seu, mas agora- agora ele conseguia ver com mais clareza.

Em cada linha, em cada nuança gentil, mil e um sentimentos se fragmentando rapidamente diante seus olhos agora mais abertos, mais próximos e ele conseguia ver em uma sucessão– Devoção.

Dor.

Ressentimento.

Carinho.

Desejo.

Medo.

E aquele brilho, aquele sentimento que ele nunca conseguiu descobrir o que era nos olhos de Nico toda vez que eles se entreolhavam e agora ele–

Como ele nunca notou isso?

“Percy.” De novo, aquele modo cuidadoso de pronunciar o seu nome. Foi um esforço olha-lo de volta e Nico pareceu notar. O filho de Hades parou, encarando-o com a culpa transbordando todas as suas bordas e quando deslizou as mãos pelo seu cabelo, ele não perdeu o tremor que as abalava. O menor pousou então ambas na linha da sua mandíbula e ergueu a cabeça da areia, pressionando os lábios de leve na região. Viu que durante o movimento, Nico fechou os olhos fazendo pequenas gotas transparentes deslizarem pelo seu rosto. Ouve um suspiro trêmulo perto do seu ouvido, quase um soluço e sem pensar, Percy pressionou o rosto no pescoço de Nico e deslizou o melhor que pode os braços ao redor do corpo abaixo do seu, apertando-o. Nico voltou a abraça-lo com força, tremendo tanto quanto ele. “Eu sinto muito.” Repetiu pela milésima vez naquela meia hora e pela milésima vez, Percy não respondeu. “Eu- eu sinto muito.”

Não sinta, ele quis dizer, não por mim.

E essa frase tinha tantos mais significados do que deveria. Porque agora ele via e entendia, mas isso não mudava as coisas.

Não vale a pena.

Eu não valho a pena.

Fechou os olhos e se deixou levar pela escuridão.

.

*

.

Quando Percy abriu os olhos, ele estava deitado na sua cama no apartamento de sua mãe.

O lugar estava vazio.

E a janela para a escada de incêndio aberta.

Olhos verdes miraram o céu visível pelo retângulo de madeira e notou que o sol havia sumido por entre as nuvens cinzas e carregadas. Uma tempestade estava a caminho.

Entretanto o mar, solitário e vazio, não se importou.

Hey, little Seaman! Little Seaman!

Where´s the Wise Owl? Where´s the Wise Owl?

She went away to never come back.

But why? But why?

I don´t know.

And the buried treasure in the Earth? And the buried treasure in the Earth?

The Black Wolf was protecting it.

What happened? What happened?

He helped me.

And? And?

I hurt him.

Why? Why?

Because I didn´t know

Didn´t know what? Didn´t know what?

That he loved me.

That he loved me.

Percy fechou os olhos.

Notas finais
A letra em inglês é meio que uma continuação da "música" do cap. 13. Aqui a tradução: Ei, pequeno Homem do Mar! Ei, pequeno Homem do Mar! Onde está a Coruja Sábia? Onde está a Coruja Sábia? Ela foi embora para nunca mais voltar. Mas porque? Mas porque? Eu não sei. E o tesouro enterrado na Terra? E o tesouro enterrado na Terra? O Lobo Preto estava protegendo-o. O que aconteceu? O que aconteceu? Ele me ajudou. E? E? Eu o machuquei. Por que? Por que? Porque eu não sabia. Não sabia o que? Não sabia o que? Que ele me amava. Que ele me amava. Um capitulo inteiro para descrever uma cena de beijo. Não me arrependo de nada X3 Se alguém tiver alguma dúvida, não tenha medo de perguntar, porque eu sinto que esse capitulo possa ter saído um pouco confuso. Foi um pesadelo escreve-lo já que eu seu o ser humano mais anti pratico da existência e em vez de fazer um simples "Meu Deus! Nico me beijou! E eu correspondi! Mas eu não sou gay!" eu resolvi enfiar culpa, luto, medo, confusão e mais mil e uma coisas nesse momento e quase morri de estresse escrevendo isso. E ainda não estou satisfeita! Urgh! Bom, obrigada por terem lido! Bjs e até!