Nem Tudo É De Primeira
11 Nem Tudo É De Primeira
Notas iniciais
“Você está gelado.”
Lembrou-se da primeira vez que se encontrou com Nico, no pátio de uma perigosa festa escolar com um forte ressentimento contra Thalia ainda queimando dentro de si. Ele e Bianca, sentados sozinhos na arquibancada, o gorro verde caindo sobre o rosto bonito da jovem filha de Hades enquanto que o menor manuseava animadamente cartas de Mitomagia. Recordou também da onda de admiração pela coragem de tentar defender sua irmã mais velha de um monstro, mesmo tremendo visivelmente de medo e completamente confuso e sua profunda e absoluta diversão/irritação depois disso, enquanto era intensamente interrogado por uma voz alegre e um rosto completamente banhado em encantamento por motivos muito além da sua compreensão. Também reviveu sua descrença e raiva com Bianca, do seu comportamento insensível após ter resolvido se livrar do seu irmão, decidindo que não queria mais aquela responsabilidade como o gorro verde que largou no pátio da escola (aquilo nunca lhe desceu, mesmo após ter perdoado Bianca e ter sido perdoado por ela, ele ainda se lembrava da expressão quebrada que tomou conta do rosto de Nico quando ela lhe informou que ia embora para ser imortal).
Isso resumia muito bem sua primeira relação com e sua primeira impressão de Nico. O garoto tinha o dom de irrita-lo quando queria, mas era tão absolutamente animado que Percy não tinha como não gostar dele, principalmente quando o via deixar outra pessoa que não fosse ele desconcertado com sua eletricidade natural. Além disso, ele via e simpatizava com a sensação de magoa e ressentimento que o menor emanava toda vez que chegavam perto de Bianca apesar do seu óbvio carinho por ela, e isso meio que o fez tomar Nico sobre sua asa durante aqueles dias no Acampamento. E Nico não pareceu se importar como também parecia buscar sua presença, talvez por ter sentido alguém querendo protegê-lo ou talvez porque Percy era uma das poucas pessoas que ele conhecia naquele lugar novo – muito embora amizade não fosse algo que o menor tinha problema em fazer, como todas as garotas do Chalé de Afrodite podiam comprovar (embora se foi Nico que as atraiu ou elas foram atrás dele por ser irmão mais novo de uma Caçadora malvada, ele até hoje não sabia).
Ele era como um filhotinho de cachorro particularmente agitado, balançando o rabo e latindo incessantemente para todo lado, mas também impossivelmente fofo e, como havia dito Silena uma vez (e embora ele tivesse franzido o nariz quando ouviu isso, ele era obrigado admitir que ela estava certa até certo grau), completamente ‘apertável’. De certa forma ninguém sabia muito bem como lidar com ele, mas todos ganharam um instintivo gostar dele – pessoas felizes são assim, não são? Atraem-nos como um sol quente e brilhante, mesmo que às vezes esquentem demais ou nos ceguem com muita luz.
E Percy também pensou sobre quando esse sol virou eclipse, quando esse filhotinho de cachorro virou um lobo solitário arreganhando os dentes e expondo as garras para qualquer um que ousasse se aproximar.
Foi quando ele voltou com uma promessa quebrada e uma estatueta de ferro nas mãos. E Ah, como ele se lembrava bem daquele momento, com todas as suas curvas e bordas irregulares prontas para machucar. Afinal, não é todo dia que você destrói uma vida, certo?
Porque ele lembrava. Ele via. De um rosto alegre a uma pessoa de sorrisos escassos, de alguém animado e elétrico a alguém cuja companhia só era abençoada aos mortos, de uma criança inocentemente feliz a um semideus com cicatrizes iguais ao de um adulto. Tanto peso jogado sobre seus ombros de repente, tanto coisa lhe arrancada cedo demais. E Percy ali, perto do centro, quase ao lado da fonte daquela mudança.
Então sua relação com Nico virou de um modo que deveria pertencer somente em filmes e livros.
Percy ainda gostava de Nico. Não achava que em nenhum momento daqueles anos ele chegou a parar de gostar de Nico de verdade, no sentindo de se tornar indiferente ou repulsivo à vida daquele garoto, ou sequer administrou qualquer sentimento negativo em relação ao menor mais forte do que raiva momentânea e ansiedade desconfortável, mas ele não podia dizer que foi esse sentimento de gostar que impulsionou a relação dos dois por sua parte.
A maior parte do tempo em que lidava com Nico, qualquer sentimento de apreciação pela presença do menor era praticamente devorada pelo peso gigantesco da sua culpa, revirando o seu interior como uma criatura viva. E ele admitia que a maior parte das suas decisões em relação àquele garoto tiveram uma influência dessa culpa. Talvez isso o fizesse uma pessoa ruim, não saberia dizer. Nunca classificou isso como algo ruim, embora não pudesse dizer que era boa também, mas Percy preferia pensar que ele ainda mantinha um gostar relativo àquele menino.
Isso, claro, antes do incidente do rio Estige e as coisas complicarem de novo. Dai, como dizem os sábios ditados populares, a situação rolou ladeira a baixo.
Como se o seu pacote de sentimentos titulado Nico já não estivesse cheio, o gosto amargo e borbulhante da traição encheu-o até o topo. E Percy não gostava desse gosto. Na verdade, ele odiava, porque era mágoa e dor num lugar só, além do fato de Luke ser uma ferida ainda em processo de ser curada – apesar de não ter sido tão profunda quanto o golpe do filho de Hades foi. Porque por tudo, Percy o considerava como um amigo, alguém próximo o suficiente do seu coração para que a traição o atingisse feito picada de abelha – que arde, dói, depois piora e incha e para melhorar você deve tirar o ferrão envenenado, mas dói tanto sequer tocar na ferida que você tem que achar alguém pra tirar pra você, mas você tem um medo terrível de confiar esse machucado tão dolorido nas mãos de quem é que seja por um bom tempo. Então você xinga e amaldiçoa as abelhas e a natureza e tudo que tem haver com o motivo da sua dor com intensidade e raiva, até ódio. E é por isso que nos segundos fervorosos onde a ponta da sua espada encontrou a garganta de Nico e seu corpo inteiro tremia furiosamente pronto para lutar, ele odiava Nico também.
Mas então o tempo passa e a dor não é tão cegante quanto antes e você realiza que talvez tenha exagerado um pouco na sua reação e que não, você não quer que toda a natureza suma do planeta e nem que as abelhas sejam extintas, só que a ferida ainda pulsa dolorosamente e você não está pronto ainda para admitir isso em voz alta. E é por isso que Percy carregou um Nico semiconsciente por todo o castelo de Hades, mesmo quando ele já tinha passado do ponto onde ele precisava da ajuda daquele garoto e que abandona-lo para sofrer a fúria de seu pai teria sido bem mais fácil e simples do que seguir em frente carregando-o – porque com o tempo sua fúria esfriou o suficiente para que sua razão voltasse e ele entendesse de novo que, independente daquilo tudo, ele não queria que Nico morresse.
E mais pra frente, quando a raiva já havia sido substituída pelo terror absoluto da experiência de entrar nas águas do Estige e sua explosão com o exército de Hades, seu interior esfriou como lava virando pedra. Ainda quente do fogo que a moldou e inalterável pelo ambiente em que nasceu.
Percy podia não ter saído daquele dia odiando Nico, mas definitivamente tivera o pilar principal da sua amizade com ele destruído.
Confiança.
O que Nico disse naquela hora foi verdade: ‘Isso significa que você não confia mais em mim.’
Não é que ele parou de gostar daquele garoto ou que ele depois daquilo desenvolveu para ser indiferente, mas Percy não conseguia ser 100% aberto, 100% amigo de alguém em quem ele não confiava – era simplesmente sua natureza. As dúvidas e as incertezas nasciam dentro de si sem sua permissão e não é como se ele conseguisse ignorar isso.
Claro que com o tempo e a significativa ajuda do filho de Hades na batalha pelo Olimpo, seus sentimentos começaram a esfriar lentamente, mas então veio Hera e seu plano estúpido e ele se esbarrando com Nico no Acampamento Júpiter e, ok, ele entendia a lógica de não conta-lo a verdade, mas mesmo assim sua raiva pinicou as bordas da sua desconfiança na época.
E depois de toda essa aventura pelo campo da raiva e incerteza, ele voltou a cair direto no poço espinhento chamado culpa mais uma vez, metaforicamente e literalmente falando. A criatura feroz acordando dentro de si e piorando ainda mais conforme vinha à realização de que cada passo vivo seu dentro do Tártaro era graças a um ato de gentileza genuína de Nico para consigo da qual ele nunca soube e que nunca foi destinado para ele saber, pois era na realidade focado para alguém cuja vida Percy mudou completamente de uma maneira arrepiante e que ele nunca deu um segundo pensamento – do mesmo jeito que ele fez com o filho de Hades e mesmo assim o menor distribuiu palavras gentis sobre si que, no final do dia, não só salvaram sua vida como a vida do mundo também.
Mas isso não restaurou a amizade dos dois imediatamente – esse castelo de cartas já tinha caído – e mesmo com a realização do quão estúpido ele podia ser e que Nico era na realidade alguém em que ele podia confiar plenamente, Percy simplesmente não sabia como se aproximar do menor sem sentir que estava interpretando tudo errado. Era como andar num campo minado de emoções e, para ser justo, na época ele realmente não tinha tempo para desvendar um caminho seguro nessa guerra.
Mais tarde, surpreendentemente (ou não) essa inclinação cresceu naturalmente e pacientemente dentro de si depois da dor.
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[Sempre depois da dor.]
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Não sabia se essa decisão de tentar desvendar aquele menino assustadoramente poderoso e impossivelmente gentil fora o melhor ou a mais saudável da sua vida. Se a dor nas suas costas e os últimos dias de pura recriminação e depressão diziam algo, provavelmente não.
Mas...
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Sentiu os dedos finos se fecharem com força na parte de trás do seu casaco. “Eu sei, é que eu tive que... deixar minha jaqueta pra lavar hoje de manhã.” Nico falou, a voz abafada de onde ele pressionava o rosto contra seu ombro.
Uma risada explodiu do seu peito antes que ele pudesse conte-la e apoiou a bochecha em cima da cabeça do menor por um momento, sentindo o cheiro cítrico que desprendia dos cabelos negros. Então se afastou gentilmente e tirou seu casaco num movimento suave, um sorriso divertido ainda em seus lábios.
“Percy?” Nico perguntou, hesitante. “O que...?”
“Aqui.” Falou e jogou a vestimenta sobre os ombros magros. O casaco caiu soltou, obviamente dois ou três números maior do que deveria, chegando até quase o meio das coxas do menor.
O filho de Hades recuou de susto numa reação automática. “Você não precisa...!”
“De boa, Nico.” Interrompeu e quando viu, suas mãos já estavam ajeitando o tecido quente, fazendo-o fechar sobre o peito encoberto por uma camiseta preta com um slogan de uma caveira. Ergueu a gola e no ato, seus olhos deslizaram do que fazia para o rosto do mais novo e notou que ele corava, trazendo um tom vermelho para a pele branca. Sorriu, achando graça que o outro semideus se embaraçasse só com isso.
Estendeu a mão e bagunçou os cabelos escuros. Nico imediatamente encolheu e soltou um grunhido irritado, batendo para longe sua mão. “Não faça isso.”
Percy riu. Sentia seu peito leve como nunca, o coração batendo ritmadamente dentro dele enquanto respirava profundamente, achando o movimento mais fácil do que jamais tinha experimentado.
Estava feliz.
Viu Nico observa-lo com uma ruga confusa entre as sobrancelhas, mas a linha tensa dos seus ombros desapareceu.
Ao ver isso, o filho do mar não pode evitar passar o braço pela nuca do menor e puxa-lo para um abraço de lado. O garoto cambaleou de leve, pego de surpresa pelo seu movimento e teve que se apoiar no seu tronco, indo de cara ao seu peito.
O menor congelou e então olhou para cima, para si. Percy sorriu de lado. Com uma nota ligeiramente confusa, viu Nico corar violentamente para então desviar o olhar para o lado rapidamente e se ajeitar sobre seu braço. Resolveu não comentar nada, em vez disso falou: “Já tá ficando tarde, é melhor sairmos daqui.”
O mais novo não disse nada, apenas acenou se escondendo embaixo da longa franja bagunçada.
Percy olhou para o céu e calculou a distância em que estavam. Então assoviou três vezes, bem alto.
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... Mas aquela provavelmente era a decisão da qual ele mais se orgulhava.
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*
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Mais ou menos dez minutos depois ele viu uma figura negra surgir no céu. Sorriu. “A carona já está chegando.” Se virou para Nico, completamente quieto nos últimos momentos.
Foi então que viu que o menor encarava o buquê de flores, deitado delicadamente entre os túmulos da sua mãe e da sua irmã.
O buquê colorido.
Seu sorriso morreu, a imagem da figura loira dançando em sua cabeça. “Nico?”
“Foi você que trouxe?” O garoto perguntou num tom baixo. Como ele ainda olhava para o outro lado, Percy não podia ver seu rosto.
Ficou quieto por um momento antes de responder. “Não.”
Nico não perguntou se ele sabia quem havia sido, apenas se adiantou saindo do seu lado e agarrando as bordas da jaqueta em frente do corpo, evitando que saísse voando por conta do vento. O filho do mar observou o menor se agachar diante do buquê e tocar com a ponta dos dedos o plástico transparente. “Garofani” Falou quase num sussurro.
Apesar de não falou italiano, aquela palavra ele conseguiu entender. “Cravos?”
“Os favoritos das duas.” Nico replicou, ainda de costas para si e sua voz estava tão controlada que denunciava melhor seu estado do que se tivesse tremido.
Percy deu um passo para frente e depositou uma mão sobre um ombro magro e trêmulo. Após um momento de resistência, o menor cedeu e colocou sua mão sobre seus dedos, segurando-os com força.
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[Está tudo bem, vocês dois.]
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[Não precisam ficar tristes.]
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[É assim que a vida funciona.]
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[Está tudo bem.]
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De repente houve um alto relincho e o barulho de cascos batendo no chão, uma ventania forte vindo de trás.
E ai, chefe?
Percy virou e se deparou com o longo focinho preto de Blackjack, parado a alguns metros com as asas ainda meio abertas. Sorriu ao rever o amigo pegasus, tirando o mão do ombro de Nico ao senti-lo se erguer ao seu lado. “Como vai a crina, Blackjack?”
Sedosa e limpa, como sempre. O cavalo alado balançou a cabeça como se para demonstrar, os longos fios escuros ondulando no ar. Então bateu o casco no chão e esticou o focinho de maneira contemplativa. Em uma missão, chefe? Precisando de uma montaria de confiança? Porque eu estou totalmente pronto!
“Eu não duvido.” Respondeu e se aproximou, ponto a mão na testa do garanhão negro. “Mas hoje eu só preciso de uma carona até o Acampamento.”
Hu-hun, aquele ali também vai? Perguntou o pegasus, fazendo uma menção com a cabeça em direção a Nico que observava a conversa unilateral para todo mundo que não fosse filho de Poseidon em silêncio. Percy não se voltou para trás, continuou olhando firmemente para Blackjack e respondeu numa voz que não deixava espaço para protesto. “Sim.”
Wow, relaxa, chefe! Só confirmando, eu não tenho problema com os filhotes do cara lá de baixo, só o cheiro de morte que– Mas o cavalo alado logo se calou quando o filho do mar tirou a mão da sua cabeça para cruzar os braços e encara-lo com uma sobrancelha erguida. O animal soltou um som que equivaleria a um pigarro embaraçado humano e sacudiu a calda. Algum lugar específico do Acampamento que você queira parar, chefe? É só dizer!
Percy então olhou para trás e encontrou o olhar de Nico, a expressão cuidadosamente neutra que ele sempre usava quando queria esconder o que estava pensando e absorveu melhor o estado do mais novo. Ele parecia esfomeado, como se não tivesse comido direito a semana inteira e com olheiras duas vezes mais profundas do que o normal, o corpo curvado para frente numa demonstração de cansaço inconsciente. As mãos brancas agarravam-se firmemente a parte da frente da sua jaqueta, puxando-a para mais perto do corpo, o que ele tomou como um sinal de frio.
Tomou rapidamente uma decisão e olhou de volta para Blackjack. “Pode nos deixar na frente do Chalé de Hades?”
Claro, chefe. Podem subir! O pegasus relinchou animadamente e se virou de lado, erguendo as asas para dar espaço para os dois subirem. Virou-se de volta para Nico. “Vamos?”
O garoto olhou dele para o cavalo alado e uma expressão meio nauseada tomou conta do seu rosto, os dedos finos se agarrando mais ainda ao casaco sobre seus ombros. “Eu não acho que isso seja uma boa ideia, Percy.”
“Ei, eu estou tão animado com a ideia de voar quanto você, mas o Acampamento é só uma meia hora de pegasus daqui. A pé vai demorar o dobro.” Retrucou.
Nico engoliu em seco e hesitou mais um pouco, mas logo se adiantou para perto do cavalo alado. Parou diante de Percy, as mãos magras agarrando-se incertas no pelo negro. “Só não vai me jogar pra fora da sela, ok?” Falou nervosamente para Blackjack.
O pegasus relinchou indignado. Eu não sou o Ednoseo, tá legal? Se eu deixo montar, a pessoa continua montada até querer descer. Senão nem sobe. Obviamente filho de Hades não ouviu nada disso, mas Percy se adiantou e deu um tapinha incentivador nas costas do mais novo. “Não se preocupe, Blackjack não é dessas coisas.”
Nico ainda parecia incerto, mas suspirou fundo e se içou para cima, deitando de barriga sobre as costas do cavalo até conseguir jogar a perna para o outro lado e terminar montado. O filho de Poseidon logo o imitou, subindo num movimento mil vezes mais suave e experiente e sentou atrás do italiano. Sentiu o mais novo incrivelmente tenso quando se inclinou para frente para dar bater de leve no pescoço de Blackjack e se perguntou internamente quando foi que Nico foi lançado de um cavalo para estar tão nervoso assim agora.
Resolveu então segura-lo pela cintura com um braço, para dar uma sensação de mais firmeza ao semideus mais novo. “Relaxa, se você cair eu te seguro.” Falou suavemente e esticou o outro braço para segurar de leve a crina de Blackjack. “Vamos?”
Nico soltou um som estrangulado como resposta, não parecendo relaxar nem um pouco diante sua afirmação, ao mesmo tempo em que o pegasus relinchou animadamente. Vamos lá, chefe!
E então o cavalo disparou batendo as asas e os três subiram velozmente ao céu.
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Para alguém que estava tão tenso como uma pedra, Nico dormiu bem rápido. Se bem que Percy sabia os milagres que o cansaço faz com nossa capacidade de desabar nos lugares mais estranhos, como sua experiência no Mar dos Monstros lhe mostrou.
Ajeitou cuidadosamente o menor contra o seu corpo, de modo que a cabeça de fios negros ficasse apoiada na curva do seu pescoço e os braços dentro da sua jaqueta, que ele conseguiu fechar com uma mão só. Então trocou o braço que circulava a cintura do mais novo, porque estava começando a doer de ficar tanto tempo na mesma posição e puxou delicadamente o corpo menor para mais perto.
Conseguia sentir a respiração quente e tranquila de Nico contra o seu pescoço, cortando o frio terrível do vento daquela altura nauseante, e todos os seus músculos relaxados, moles contra si como um cobertor de calor humano.
Era agradável.
Sentiu-se satisfeito ao ver Nico descansando finalmente, não tendo ideia de quantas horas o menor se permitiu dormir naquela semana inteira. Não muitas, se ele tivesse que adivinhar, já que a exaustão do filho de Hades era óbvia no momento em que deitou os olhos nele, reconhecendo uma irritação naquelas feições que ele sabia ser resultado do estressa da falta de sono. Já vira milhões de vezes no espelho.
A culpa o invadiu e pela centésima vez desejou ter vindo mais cedo falar com Nico. Talvez tivesse poupado um pouco o menino disso tudo se ele fosse mais maduro com suas próprias incertezas.
Suspirou. Pelo menos ele estava aqui e sem planos de ir embora. Não sem antes ajudar aquele menino nos seus braços.
Já estamos chegando, chefe.
Olhou para baixo e viu o Acampamento Meio-Sangue surgir por entre as nuvens.
“Ok, vai devagar que tem passageiro dormindo.” Falou, inclinando-se para frente de leve, se preparando para a descida.
´Xá comigo, chefe! Manobra de aterrissagem 23.
Então as longas asas negras se expandiram no seu tamanho total e o pegasus inclinou seu corpo para o lado, logo iniciando uma lenta e tranquila descida em longos círculos pelo ar.
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Quando alcançaram o chão, se depararam com Jason.
O romano estava parado perto de onde eles aterrissaram com sua espada dourada reluzindo na luz do crepúsculo. Ele provavelmente deve ter visto-os se aproximar pelo céu e saiu para averiguar se eles eram um perigo ou não, a julgar pela espada. Vestia uma calça moletom marrom toda surrada, com pés descalços e uma camiseta branca larga, obviamente destinado para dormir e Percy se perguntou que tipo de ser humano se prepara para dormir às sete da noite.
Blackjack resfolegou diante a visão da arma. Abaixa isso, cara. Viemos em paz!
Claro que Jason não ouviu o cavalo alado e se dirigiu diretamente para Percy, as sobrancelhas loiras franzidas. “O que você está fazendo?” Perguntou em voz alta.
O filho do mar imediatamente fez um movimente rápido na frente do corpo com o braço livre, soltando um ‘shhh’ agudo que provavelmente foi mais alto do que a voz do outro semideus. Jason ergueu uma sobrancelha e se aproximou, guardando a espada no processo. Ao mesmo tempo Percy habilmente deslizou das costas do garanhão negro, mantendo Nico apoiado no seu ombro até o meio da ação, depois rapidamente passou o braço por debaixo dos joelhos do menor e quando se viu no chão, já segurava seguramente o filho de Hades nos braços. “Valeu, Blackjack.” Disse num sussurro.
Disponha, chefe. Qualquer coisa é só assoviar. O pegasus disse, balançando a cabeça animadamente, antes de se virar e levantar voo em direção aos estábulos.
“Aconteceu alguma coisa? Nico está ferido?” Veio de repente a voz frenética de Jason ao seu lado e se virou para encontrar o rapaz mais alto extremamente perto, olhando preocupado para o garoto filho de Hades.
Percy recuou instintivamente, surpreso. “Hey, hoy! Calma ai, cara. Nico só está dormindo.”
O loiro olhou do semideus mais novo para si e só relaxou quando viu que dizia a verdade, mas manteve a expressão curiosa e preocupada. “O que aconteceu?” Perguntou.
O filho de Poseidon fez uma menção com a cabeça em direção ao Chalé de Hades e Jason hesitou por um momento antes de se adiantar e abrir a porta. Ajeitando o garoto adormecido em seus braços incrivelmente leve (até demais, em sua opinião e fez uma nota mental de levar Nico a uma lanchonete decente na próxima vez que tivesse uma chance) caminhou para a cabine de mármore negro, mas parou ao se deparar com a total escuridão do lugar.
Era um retângulo de 4x2 metros absolutamente negro, sem sinal nenhum de luz ou claridade no interior, mesmo com as seis janelas da cada lado da cabine. Um arrepio subiu sua espinha. Parecia uma boca esperando para engoli-lo inteiro.
“Mnercy...” Nico suspirou de repente contra o seu pescoço, seu hálito quente acariciando sua pele. Saltou surpreso e olhou para baixo.
Nico tinha a expressão mais tranquila que ele já vira o menor sustentar, sem as sobrancelhas franzidas dando mais peso aos olhos escuros ou a boca na linha fina de sempre. Ele ainda mantinha a pele pálida e as olheiras profundas de várias noites em claro, mas não havia traços de preocupações no seu rosto.
Nico claramente tinha muitas preocupações.
Ignorou decididamente o nó frio no seu estômago e entrou com passos firmes, sem hesitar.
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No momento em que transpassou o batente da porta de madeira esculpida, Percy sentiu como se tivesse acabado de passar por uma cachoeira de água fria e por um segundo inteiro procurou por sinais de roupas molhadas em si mesmo, mas não achou nada.
Então ele ergueu os olhos e viu o interior do Chalé de Hades pela primeira vez.
Dizer que sentiu choque seria dizer pouco, porque aquele lugar era o ambiente mais confortável e aconchegante que Percy já havia encontrado na vida.
O chão era daqueles carpetes felpudos bege, onde daria para imaginar você pisando e afundando uns dois metros e só deixava a mostra o chão de madeira num semicírculo diante da lareira gigantesca do outro lado do lugar, com um sofá e duas poltronas de veludo vermelho cheios de almofadas macias até de onde ele estava. Na frente, uma mesa de vidro cheio de livros e papeis no meio. De ambos os lados da lareira haviam estantes cheias de livros das mais diversas cores e tamanhos e ao longo das paredes se estendiam várias beliches, todas com pano branco impecável. E, ok, as paredes eram negras e até poderiam dar um ar sombrio se não estivessem encobertas pela maior coleção de quadros fora de um museu que ele já vira. As janelas tinham cortinas de um tom creme suave que permitia a passagem da luz do lado de fora, iluminando gentilmente o local de um modo tão aconchegante que deva sono só de estar ali.
Poderia ser um pouco preconceituoso da sua parte, mas isso definitivamente não tinha nada haver mesmo com o que tinha imaginado. Tá certo que ninguém decoraria o lugar onde iria dormir com esqueletos e correntes e usaria tochas como iluminação, mas mesmo assim.
Aquele lugar era incrível.
Ouviu um assoviou admirado do seu lado e se virou para encontrar Jason de braços cruzados, observando o ambiente. “Isso que é um chalé de férias.”
Percy fez um som com o nariz, concordando. “Nico sabe bem como decorar um lugar.”
Então se adiantou para a beliche mais próxima. Depositou cuidadosamente o garoto adormecido em seus braços sobre os lençóis brancos, deitando a cabeça de fios negros gentilmente sobre o travesseiro e esticando as pernas sobre a cama. Tirou os tênis sem cadarços do menor e os depositou no chão silenciosamente, antes de arrumar sua jaqueta sobre o corpo pequeno.
Nico soltou um suspiro alto e Percy congelou, achando ter acordado o mais novo, mas quando ele apenas virou o rosto contra o travesseiro e não soltou mais nenhum som, voltou a relaxar.
Olhou para o poderoso filho do deus dos mortos, dormindo tranquilamente como um filhotinho de gato e sorriu. Sem poder se conter, deslizou uma mão pelos fios negros tirando-os do rosto pálido do mais novo. Ele mantinha uma expressão tão relaxada, sem a ruga estressada quase permanente entre as sobrancelhas e com a boca ligeiramente aberta, o que fazia sua respiração sair num rom suave e baixo.
Parecia um garoto de quinze anos normal, sem traços do semideus filho de Hades.
O que não daria para que Nico pudesse manter essa paz, mesmo acordado?
Suspirou e se ergueu, voltando-se para Jason em silêncio perto do batente da porta. O jovem romano o observava sem dizer nada, os olhos azuis eletrizantes analisando-os numa expressão indecifrável.
Percy abriu os braços num convite. “O que dizia?”
O loiro olhou-o por um momento e então desviou os azuis brilhantes para o garoto adormecido na cama. Sem responder sua pergunta, o filho de Júpiter indicou com a cabeça o lado de fora antes de se virar e sair.
O filho de Poseidon o seguiu silenciosamente.
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Quando Percy terminou de contar tudo o que tinha acontecido, Jason ficou em silêncio por um bom tempo antes de falar. “Que... confusão.”
Riu uma vez pelo nariz, encostando a cabeça no mármore negro. “Diga algo que eu não sei.”
O loiro não falou nada, parecendo absorver as noticias seriamente enquanto encarava algo no chão entre os dois. Percy inclinou a cabeça, contemplando a reação do romano. “Você já sabia?” Falou e ele sabia que havia soado mais como uma afirmação do que com uma pergunta.
Os olhos azuis se ergueram repentinamente de volta para si. O filho do céu não respondeu de imediato, parecendo mastigar suas palavras com cuidado.
Percy não precisava realmente de uma resposta, pois o comportamento do outro rapaz já tinha lhe dito tudo. Não havia traços de surpresa no rosto de Jason, somente preocupação. E embora se focar mais no problema de um dos seus amigos do que qualquer notícia surpreendente sobre eles fosse a cara do filho de Júpiter, era humano esperar ao menos um pouco de sobressalto com as novidades.
Só que Jason foi direto para preocupação.
O rapaz mais alto por fim respondeu. “Sim.”
Percy deslizou uma das pernas, deixando-a esticada no chão enquanto apoiava o braço em cima do joelho da que ainda estava dobrada. “O Nico, ele te...”
“Não, foi sem querer.” O loiro o cortou, descruzando os braços e apoiando-os na murada do chalé. “Acho que se dependesse de Nico, nenhum de nós saberia.”
Essa era uma verdade que pesava.
“Como foi que você descobriu?” Perguntou em um tom baixo.
Jason o encarou antes de desviar os olhos para o céu. “Aconteceram alguma coisas quando estávamos no Argo II, problemas. Nico foi obrigado a admitir isso em voz alto e deu de eu estar lá na hora pra ouvir. Não foi uma decisão dele.” Respondeu em uma voz quieta, parecendo estar relembrando memórias da época enquanto falava.
Franziu a tesa. “Mas o que...” Começou, mas o loiro logo o interrompeu. “Se você quiser mesmo saber a história toda, você vai ter que perguntar ao Nico. Ela não é minha pra eu contar.” Disse Jason num tom firme, os olhos azuis elétricos como os de seu pai voltando-se para si de novo.
Suas sobrancelhas se juntaram mais ainda, cheias de preocupação e confusão. “Aconteceu mais alguma coisa?”
“Por que diz isso?”
“Porque você não estaria me dizendo isso, nesse tom de voz, se não tivesse mais nessa história que eu não estou sabendo.”
Jason não respondeu.
Percy lançou os braços para cima, num ato de desistência. “Ok, já entendi, já entendi.” Se ergueu do chão com um grunhido, sentindo os músculos doloridos depois dessa meia hora cavalgando, e se virou para a porta.
Mas antes de entrar de novo, parou, seus pés parando de soar no chão de pedra polida. Olhou de novo para o semideus romano, sentindo o nó gelado em seu estômago “Você não se importa, certo?” E sua voz tinha um tom neutro que até mesmo ele achou falso.
Mas Jason não pareceu se ofender, apenas o encarou calmamente de volta com o azul de seus olhos queimando lentamente feito uma vela solitária. “Nico é meu amigo.” Falou simplesmente, como se aquilo respondesse todas as perguntas do mundo perfeitamente.
E respondia, para Percy.
O semideus grego sorriu de lado antes de se voltar para a porta e entrar de novo no chalé de Hades.
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