Nem Tudo É De Primeira
12 Nem Tudo É De Primeira
Notas iniciais
Ao entrar no local, Percy se deparou com uma frieza que o fez se arrepiar repentinamente. Seus olhos vagaram pelo grande chalé, observando o interior que lentamente escurecia e as janelas todas abertas, uma brisa fazendo as cortinas beges voarem. Seus olhos pousaram por um breve momento sobre a figura indistinta de Nico deitado na cama e apesar da penumbra do crepúsculo estar tomando os contornos do garoto mais novo, Percy ainda sim foi capaz de ver que ele estava encolhido sobre sua jaqueta – que por mais que fosse consideravelmente maior do que o filho de Hades, falhava em cobri-lo inteiramente.
Aproximou-se o mais silenciosamente que pode da cama ocupada e parou diante do baú de madeira (que tinha diante cada beliche do local). Abriu a tampa pesada com cuidado, mas mesmo assim as juntas de ferro rangeram estridentemente, alto o suficiente para acordar meio Acampamento. Encolheu instintivamente e parou. Olhou para Nico. Só relaxou ao ver o menor ainda ressoando contra o colchão, e não lhe lançando olhares ranzinzas cheios de sono.
Com um suspiro interno se voltou para o baú mais uma vez, observando seu conteúdo criticamente – colchas, lençóis, travesseiros extras e outras coisas assim. Escavacou entre o material macio por um tempo e com um golpe de satisfação, achou o que queria no fundo, abaixo de todo o resto.
Ergue-se e fechou o baú lentamente, que dessa vez não produziu nenhum grito agudo, e se encaminhou para a lateral da cama de Nico. Com um movimento prático de ambos os pulsos, abriu o cobertor cinza no ar que caiu suavemente sobre o corpo encolhido do semideus menor, encobrindo-o perfeitamente. Ajeitou gentilmente a coberta para que não ficasse sobre o rosto do mais novo e então se afastou, querendo evitar acordar o menor – era visível para todo mundo que olhasse que Nico não dormia muito, e se aquela era mesma uma rara ocasião de descanso do menor então logicamente Percy não a interromperia. A conversa podia esperar até de manhã.
Olhou para o chalé de Hades novamente, não conseguindo não se admirar pela terceira vez pela riqueza de detalhes e cuidados. Perguntou-se internamente se fora Nico sozinho que planejara todo aquele lugar ou se tivera ajuda de alguém, talvez algum arquiteto-fantasma ou mesmo o próprio Hades.
Observou um quadro pendurado na parede da direita de uma paródia do O Grito, com a imagem do Homer Simpson no lugar da figura original, diante uma placa do McDonald´s escrito fechado.
Nah, aquele lugar era maneiro demais para Hades.
Andou pelo ambiente, olhando para os vários quadros distribuídos para todos os lados, rindo silenciosamente com frequência conforme via o desenho ou a pintura retratada. A maioria eram paródias de quadros famosos, outras imagens engraçadas ou frases estranhas que ele não podia deixar de imaginar a onde foi que o semideus mais novo havia as ouvido. Talvez no final das contas, Nico tivesse um senso de humor escondido. Seria divertido explorar isso mais tarde.
Por fim chegou ao final do chalé, parando entre o sofá e a poltrona vermelha. Seus olhos recaíram sobre a mesa estupidamente entupida de coisas e se aproximou para analisar melhor. Pegou um livro de capa dura verde, jogado aberto sobre a superfície de vidro, com várias frases e parágrafos grifados. Leu, curioso, uma das partes pintadas de marca-texto.
... no final de setembro de 1940, o Pacto reunia o Império do Japão, a Itália fascista e a Alemanha nazista para formalizar as Potências do Eixo.
... sob o estandarte desta ideologia autoritária e nacionalista, Mussolini foi capaz de explorar os medos perante o capitalismo numa era de depressão pós-guerra...
Ergue as sobrancelhas. Marcando a página com o polegar, fechou o livro para ler o título. “Segunda Guerra Mundial, Uma Análise.” Falou em tom baixo. Deu uma pausa e depositou o livro de volta a mesa, para então puxar uma revista amassada. O artigo principal, estampado em grande parte da capa, dizia Consequências Da Guerra Na Sociedade? Mas o artigo em si estava todo recortado. Após uma pequena pesquisada achou-o colado em um caderno de capa azul, cheio de anotações sobre história, além de outras reportagens todas com temas semelhantes.
Evolução Tecnológica Dos Últimos 70 anos.
Itália Fascista: Porque Mussolini caiu.
Guerra Fria e Suas Implicações no Mundo Moderno.
Com cuidado, colocou o caderno de volta a onde havia o achado. Olhou os outros cadernos espalhados sobre a mesa, vários, e notou que todos tinham um titulo de caneta preta rabiscado na capa: Matemática, Geografia, Inglês, Biologia, Química, Física, etc... E geralmente cada um estava perto de um livro do determinado assunto, com outros materiais de pesquisa ao redor também.
Com tudo aquilo, até mesmo ele não pode não entender. Nico estava estudando sozinho?
“Sim, ele está.”
Saltou no lugar e quase derrubou o caderno de Biologia que segurava. Olhou sobressaltado para frente, o coração acelerado e a mão já automaticamente no bolso de Contracorrente.
Foi surpreendido pelo calor da lareira acesa, crepitando um som calmante.
E uma garota de oito anos de olhos vermelhos e cabelos cor-terra sentada na frente, vestindo um vestido marrom com um cachecol de mesma cor envolvendo a cabeça e um cajado de ferro sobre seu colo.
Piscou surpreso. “Héstia?”
A deusa do lar sorriu, seus olhos mornos e brilhantes faiscando com divertimento. “Percy Jackson, fico feliz em revê-lo.”
Lentamente tirou a mão do bolso e voltou a se sentar no sofá, ainda com o caderno de Nico nas mãos. “Hm... olá?”
“Olá.” Ela falou com suavidade.
Seguiu-se o silêncio, com o único som sendo o da lareira repentinamente acesa e queimando com uma madeira que não existia um segundo atrás. Pigarrou e desviou o olhar, quebrando o contato visual continuou que a deusa o infligia sem piscar, e colocou o caderno da capa preta delicadamente sobre a mesa. Deu uma pausa e arriscou olhar de volta. Héstia sorriu e inclinou a cabeça. Percy sentiu o rosto queimar e olhou de volta para baixo, esfregando nervosamente as mãos nas coxas.
A pausa constrangera se estendeu até que a voz infantil da deusa a quebrou. “Timidez nunca foi um problema seu, Sr. Jackson.”
Percy encolheu como se Héstia tivesse gritado ofensas, em vez de uma calma afirmação. Sua mão achou o caminho da sua nuca e ele olhou de maneira embaraçada para a eterna criança diante de si. “Você... estava aqui o tempo... todo?”
“O tempo todo? Você quer dizer enquanto você trazia Nico di Angelo dormindo em seus braços, o depositava na cama para depois conversar sobre ele com Jason Grace do lado de fora e então entrar, por um cobertor sobre o garoto e vir até aqui mexer em suas coisas?” A deusa do lar e da lareira sorriu inocentemente. “Não, mas é claro que não, meu rapaz. Eu só vim visitar Nico di Angelo em seus estudos.”
O calor ao redor do seu pescoço se intensificou e ele parou, encarando um ponto redondo no tapete. “Você... hm... está ajudando o Nico... a estudar?” Tentou mudar o assunto deploravelmente, pondo uma mão gelada de suor no rosto numa tentativa de diminuir o calor.
Héstia pareceu considerar sua pergunta. A garota-deusa ergueu o cajado de ferro do colo e o apoiou sobre o ombro, com a ponta redonda raspando no chão de madeira. “Eu diria guiar ao em vez de ajudar, pois apesar de tirar algumas de suas dúvidas eu venho aqui muito raramente. Mas acho que eu posso me intitular como sua professora substituta.”
A curiosidade conseguiu fazê-lo erguer os olhos do chão. “Substituta?” Repetiu indagador.
“Sim.” Afirmou a deusa do lar e seu sorriso de repente ganhou um tom mais triste. “Afinal, a professora original de di Angelo foi-se embora já faz alguns anos.” E com o cajado, ela apontou para a parte de cima da lareira.
Percy seguiu o movimento com os olhos e notou pela primeira vez que tinha uma foto acima da lareira. Ergueu-se do sofá e se encaminhou para frente, contornando a mesa entupida de coisa e parando ao lado de Héstia com o calor do fogo aquecendo seu corpo. Olhou para a foto.
Era a imagem preta e branca de uma mulher nos seus trinta anos, linda, com o cabelo preso em um coque solto e um chapéu daqueles com uma aba enorme sobre a cabeça, um vestido de cintura fina justo sobre o peito e uma saia que ia até abaixo dos joelhos, expondo pernas de meia-calça e sapatilhas polidas. Ao seu lado havia duas crianças, uma menina mais velha de vestido de bolinhas e um garotinho mais novo, vestindo uma versão infantil do uniforme italiano da Segunda Guerra Mundial. Apesar de ser da época que para tirar foto você quase ficava cego com o flash, os três sorriam abertamente.
Percy sentiu um aperto violento em seu peito enquanto observava a fotografia desbotada dos di Angelos.
Héstia se ergueu ao seu lado. “Meu irmão era paranoico o suficiente naquela época para não querer enviar seus filhos para uma escola, com medo que fossem assassinados. Assim, enquanto estava viva a própria Maria di Angelo providenciou a maior parte da educação de ambos os seus filhos, mas como deve imaginar a educação de Nico está...”
Engoliu um caroço dolorido em sua garganta e se virou para a deusa ao seu lado. Héstia encostou o rosto contra o seu cajado de ferro. “... incompleta.” Terminou após parecer experimentar a palavra mentalmente. “Nico é um garoto adorável, mas ser uma deusa ocupa grande parte do seu tempo, infelizmente. Eu faço o que posso.”
Então ela se voltou para trás por um breve momento e falou. “Afinal, todo mundo precisa de alguém para tirar suas dúvidas e parabeniza-los quando acertam.” A Deusa do Lar e da Lareira olhou para ele novamente, seus olhos de chamas brilhando e faiscando calorosamente. “Assim como para corrigi-los quando eles erram em suas conclusões.”
Encarou-a, ouvindo o crepitar suave do fogo, a brisa suave entrando pela janela. Então olhou para trás.
Olhou para Nico.
O garoto deitado no beliche mais longe não passava de um vulto escuro sem contornos definidos, mas mesmo daquela distância Percy conseguiu identificar o cabelo bagunçado natural do semideus mais novo que, aparentemente, havia rolado de lado de modo que agora estava voltado para a sua direção. Ele não parecia mais estar encolhido, o cobertor tendo feito o seu trabalho, e após um momento de concentração, o filho do mar conseguiu ver o movimento suave do corpo pequeno, subindo e descendo lentamente com a respiração silenciosa.
Aquela visão aqueceu o aperto frio no seu peito e um violento sentimento de querer proteger aquela imagem o dominou.
Talvez isso fosse estranho, levando em conta que nem 48 horas atrás ele não tinha ideia do que fazer com aquele garoto complicado diante de si e a relação dos dois, que estava terminando de abandonar o terreno dos silêncios estranhos e magoas passadas para uma amizade real, só para desabar sobre cacos de vidro afiados que Percy nunca soube que existiam. E também considerando que há pouco tempo atrás os dois estavam arreganhando garras e dentes no cemitério, era surpreendente que ele já se sentisse desse modo.
Talvez fosse estranho mesmo, mas Percy decidiu que não se importava, porque ele iria fazê-lo de qualquer forma.
Porque ele podia não ser a melhor pessoa do mundo para cuidar de alguém, mas fazia parte do seu próprio ser proteger.
Sentiu um sorriso se abrir lentamente em seu rosto e se virou para Héstia. “Obrigad...”
Não tinha ninguém.
O fogo sacudiu com o vento e cresceu, soltando estalos suaves. Uma brisa balançou as cortinas cor de creme.
Percy olhou para Maria di Angelo, sorrindo carinhosamente para si. “Desculpe.” Falou.
E então.
“Obrigado.”
.
*
.
Percy não dormiu aquela noite. Em vez disso, ele ficou sentado no chão diante a lareira, com as costas descansando contra o sofá vermelho e encarando o fogo que nunca diminuiu ou vacilou durante todas aquelas horas.
Ele queria poder dizer que passou todo esse tempo refletindo e pensando profundamente sobre todos os problemas da sua vida e que após grandes debates filosóficos internos ele chegou à solução perfeita de cada um com um retoque elegante e uma grande e poderosa revelação pessoal, mas a verdade é que Percy, após os primeiros cinco minutos tentando, desistiu e passou a noite inteira em claro desvaindo inutilmente sobre coisas inúteis.
A prova disso é que quando Nico acordou às seis da manhã e o chamou sonolentamente da cama, ele estava refletindo sobre porque leito estragado fica azedo. E Percy estava começando a ter uma dor de cabeça, porque ele não conseguia se lembrar se da última vez que isso aconteceu ele estava em casa ou na escola e esse incrível debate interno já estava durando mais ou menos uma meia hora quando a voz do filho de Hades o interrompeu.
“Percy?”
Imediatamente se endireitou da sua pose relaxada, o que não foi uma boa ideia, pois estava com as pernas esticadas para debaixo da mesa e no momento em que tentou se erguer, bateu violentamente ambos os joelhos contra o vidro grosso.
Soltou um palavrão de dor e agarrou suas pernas.
“Percy?” Veio à voz de Nico, dessa vez mais desperta e com um toque de hesitação alarmada. “Percy, onde...?”
“Aqui.” Gemeu, massageando a região dolorida com as palmas das mãos. Com um grunhido queixoso, escorregou pelo sofá até estar sentado nas almofadas vermelhas e ergueu um braço acima do encosto, balançando-o fracamente. “Eu estou aqui, Nico.”
Houve o som de alguém se erguendo da cama e então silêncio por alguns segundos, até que de repente a cabeça de fios totalmente bagunçados de Nico surgiu por de cima do encosto do sofá. O garoto o encarou por um longo momento sem dizer nada e então perguntou. “O que você esta fazendo aqui?”
“Eu bati os joelhos.” Ganiu de dor.
O filho de Hades franziu o cenho, seus olhos analisando rapidamente o modo como ele segurava os próprios joelhos antes de voltar a encara-lo, parecendo confuso. “Não... não é isso que eu quis dizer, eu quis dizer o que... você está fazendo aqui, no meu chalé.”
Mesmo em dor, Percy teve a presença de espirito o suficiente para erguer uma mão ao lado do ombro de maneira ofendida. “Desculpe ai, quer dizer que não posso entrar no seu chalé?”
“Não, eu não quis...” O menor corou, desviando os olhos para o lado. Houve uma pausa constrangedora e então o menor deu a volta no sofá e se sentou na poltrona, pernas juntas e as mãos sobre o colo. Sem dizer nada, olhos fixos no chão.
Percy se ergueu desajeitadamente do sofá, preocupado, apoiando-se sobre um dos braços e ainda com uma mão sobre um dos joelhos doloridos. “Ei, cara, eu só estava zoando.” Falou. Quando Nico não reagiu, pegou a almofada mais próxima e a tacou no outro garoto. “Ei.”
O semideus mais novo olhou bem a tempo de receber o objeto no rosto. Perdeu a compostura envergonhada ao ser lançado ligeiramente para trás com o golpe. Tirou a almofada da cara imediatamente, olhando-o irritado. “Seu...” Ergueu o braço com o travesseiro na mão.
Percy ergueu ambas as mãos ao lado do corpo, sorrindo. “Paz! Não há necessidade de violência.”
“Imbecil.” Grunhiu mal-humorado Nico. Baixou o braço e trouxe a almofada para o próprio colo.
Riu, sem se ofender. “Em carne e osso.”
O menor o encarou do canto do olho e falou com um sorrisinho de lado, a raiva sendo esquecida. “Mais carne do que osso, ultimamente.”
Soltou um som exageradamente ofendido. “Eu não engordei tanto assim! Só uns... dois quilinhos.”
“Tá, acredita nisso que é legal.”
Percy encheu as bochechas de maneira petulante para a curva sarcástica dos lábios de Nico, do modo que Lina lhe ensinou. “Falou o Sr. Sarado.”
“Mais do que você.” Ele estava adorando aquilo, o maldito.
“Só que não!” Exclamou, tacando outra almofada da qual o filho de Hades desviou facilmente, rindo. “Você só não saiu voando com o vento ontem porque-“
De repente um travesseiro preto acertou com tudo sua cara, com um esbravejar indignado de Nico, misturado a sua risada. Tirou o objeto do rosto determinadamente e terminou apressadamente sua fala, antes que o menor o interrompesse de novo. “Você só não saiu voando com o vento ontem porque eu estava te carregando, senão pode ter certeza que seria o primeiro homem a voar!”
Encolheu imediatamente contra o sofá, envolvendo protetoramente sua cabeça com as mãos ao ver o filho de Hades se erguer no meio da sua fala com duas almofadas não tão fofas e esperou o violento golpe.
Passou-se dez segundos e nenhuma parte sua estava repentinamente dolorida.
Confuso, espiou por entre suas mãos.
Nico estava de pé, um braço erguido e pronto para acerta-lo com o travesseiro, mas ele estava congelado e encarando-o de olhos arregalados e uma boca aberta num pequeno ‘O’. E, observou com um aumento na sua confusão, o rosto completamente e inteiramente vermelho.
Sentou-se no sofá de novo. “Nico?” Chamou, meio preocupado.
O menor fechou a boca numa estalido e abaixou a mão erguida, seus dedos se afundando no tecido mole com certa violência. Ele continuou a olha-lo fixamente pelo que jurou ser um minuto inteiro, até que então abriu a boca para falar. Mas ai fechou de novo. E abriu. E fechou. E abriu. E repetiu esse processo várias vezes, como um peixe fora d´água, sem parecer saber o que falar.
Por fim, quando Percy estava pensando em dizer algo, a voz estranhamente estrangulada e baixa como um sussurro de Nico veio. “Você... quando foi que... você... m-me carre... gou?” Disse, com um ‘quê’ de dificuldade em fazer as palavras saírem.
Oh, então era isso? Nico estava embaraçado por ter sido carregado? Sorriu, agora que havia entendido, e falou num tom tranquilo. “Você tinha dormido e eu não quis te acordar, então te carreguei até a cama. Não se preocupe.” Sentiu seu sorriso ganhar um ar de divertimento. “Como eu disse, você quase não pesa. Eu poderia muito bem só estar com os braços esticados por todo o esforço que eu fiz.”
Nico não replicou a provocação. Em vez disso, pareceu engolir em seco fazendo seu pomo-de-adão se mexer, ainda de olhos arregalados, antes de abaixar a cabeça para o chão escondendo o rosto corado com a franja longa.
Percy sabia que o outro garoto era do tipo mais recluso emocionalmente e sempre assumiu que isso tinha haver com ele ser meio que antissocial, mas talvez ele tivesse errado em certo grau. Porque Nico estava se revelando como tímido nesses últimos tempos.
Huh, quem diria?
O menor se sentou na poltrona, quase que na ponta, com a almofada apertada entre seus dedos e ombros tensos. “Então ontem... não foi...” Falou num tom baixo, encarando o chão entre seus pés. Deixou a frase morrer, parecendo se embaraçar mais ainda com o que ia dizer.
“Não foi...?” Repetiu devagar, olhando curioso para o menor.
Os dedos magros se encravaram mais ainda no travesseiro e Percy temeu que aquilo fosse acabar rasgando. Nico não ergueu os olhos quando respondeu, tão baixo quanto era humanamente possível. “... um... um sonho?”
Ele teve a impressão de que o mais novo corou ainda mais.
Uma sensação estranha surgiu e se contorceu dentro de si, fazendo-o ficar repentinamente consciente dos seus próprios batimentos cardíacos. Não soube o que fazer com aquilo. Resolveu ignorar, pois o que mais ele podia fazer? “Eu sou um sonho de pessoa, eu sei.” Brincou em vez disso e logo recebeu uma travesseirada na cara – o que o trouxe de volta a um terreno familiar de brincadeiras.
Brincadeiras ele conseguia lidar.
“Deixa eu reformular: então ontem não foi um pesadelo?” Disse Nico com frieza.
Imitou a ação de uma facada no coração, uma careta de dor exagerada. “Ouch! Meus sentimentos!”
Isso lhe rendeu outra travesseirada.
Os dois riram por um tempo, descontraindo-se da tensão por um breve momento de paz.
“Eu só não pensei que...” Parou e de repente como veio, sua diversão se foi. O menor desviou o olhar para o chão mais uma vez.
O filho do mar abaixou as mãos, seu sorriso sumindo do seu rosto. Saltou de onde estava no sofá para a ponta mais perto de Nico, esquecendo-se completamente da sua dor nos joelhos. “Não pensou o que?” Indagou, trazendo junto suas sobrancelhas no meio da testa.
Ele deu de ombros, de maneira quase tensa e não o encarou de volta. “Eu só não... eu achei que ontem- quero dizer, mesmo que não... eu achei que você teria... você ficou aqui... a noite inteira?”
Dessa vez ergueu só uma sobrancelha. “Claro que fiquei. Por que não ficaria?”
Percy pegou um vislumbre dos olhos castanhos por trás da cortina de fios negros, antes do menor dar de ombros de novo fracamente. O filho do mar supôs que talvez isso devesse magoa-lo, essa pouca fé de Nico, isso é claro se ele já não tivesse adivinhado que essa pouca confiança não tinha nada haver consigo e sim com o próprio Nico.
O garoto não confiava em si mesmo para ser um motivo suficiente.
“Ei, Nico.” Sentou-se na ponta do sofá e esticou a mão, tocando de leve o braço do filho de Hades, puxando-o de leve para que virasse em sua direção. O garoto resistiu por um momento, mas quando Percy continuou insistindo ele cedeu, virando levemente para o seu lado. Mas continuou de olhos abaixados.
Segurou um suspiro frustrado. “Nico.” Chamou com mais firmeza.
Viu o mais novo respirar fundo sem emitir nenhum som e então finalmente os orbes castanho-escuros se ergueram para encarar o par verde-mar, em um rosto ainda avermelhado. Percy devolveu o olhar hesitante do menor com um seu próprio, sério e sem medo. “Eu disse que iria te ajudar, não disse? E eu vou.”
Nico abriu a boca como se fosse falar algo, mas parou, e então engoliu em seco. Emoções se fragmentaram por todo o seu rosto, um bilhão de coisas diferentes por segundo transpassando pelos olhos castanhos – tão rápido, tão inesperadamente que Percy quis por um segundo segurar aquele rosto entre ambas as suas mãos, na honesta ansiedade de querer evitar que algo se quebrasse ali. Mas então o menor abaixou a cabeça e levou consigo o momento, escondendo-o atrás de suas mãos pálidas.
“Me ajudar no que, Percy? Não tem o que ajudar aqui.” Ele falou com uma voz descompassada, cheia de absoluta e irremediável crença no que dizia.
Aquilo tinha que mudar.
“Ai que você se engana.” Disse com uma feroz firmeza que poderia se passar por raiva. Ergue-se do sofá e em um único passo parou diante de Nico, sentando-se na mesa de vidro. Suas mãos acharam o caminho dos ombros magros do menor e o seguraram, impedindo que ele fugisse ou se esquivasse ou o que fosse. Quando falou de novo, Percy colocou intensidade toda a sua convicção, toda sua fé em suas palavras, como se assim ele conseguisse por pura força de vontade colocar isso na cabeça de Nico. “Eu quero e eu vou te ajudar a entender que, assim como eu não me importo, você não tem que se importar também, porque não tem com o que se importar, Nico.”
O outro garoto tentou recuar e quando Percy não soltou seus ombros, ele tirou as mãos de seu rosto e as usou para segurar seus braços tentando fazê-lo solta-lo, embora não tivesse real força no movimento. O filho de Hades balançou a cabeça furiosamente, recusando-se a encara-lo. “É claro que tem! É claro que tem! Não bastasse eu ser filho do deus dos mortos, eu tinha que ser um-“ Ele se calou, negando-se a dizer.
Percy sentiu os dedos magros se enfincarem em seu braço e ignorou a dor aguda que isso provocou. Sabia que Nico não estava tentando machuca-lo.
Deslizou suas mãos dos ombros do menor para a linha da mandíbula e o obrigou a erguer a cabeça. Não ficou surpreso ao encontra-lo com os olhos fechados com força, e os dentes cerrados como se estivesse lutando contra algo.
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[Lagrimas?]
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Quando falou, sua voz estava incrivelmente calma. “Nico, você tem vergonha de seu pai?”
O choque fez o menor abrir os olhos finalmente, revelando seu brilho úmido. “O que?! Não- não é isso!”
“Então o que é?” Replicou, ainda num tom sério e controlado. “Porque pelo o que você disse...”
“Não! Não é isso, não tem nada haver!” Ele exclamou, juntando as sobrancelhas em uma expressão desesperada. Quando Percy não disse nada, o menor soltou um som frustrado e desviou o olhar. Os dedos magros apertaram seus braços enquanto Nico lutava contra suas próprias palavras. “As pessoas que- elas simplesmente me julgam por isso e a última, última coisa que eu preciso é de outra- outra coisa pra que elas me evitem como se eu fosse lixo!” Gritou afinal – com raiva, com mágoa – e se encolheu para frente, escondendo de vez seu rosto.
Percy sentiu uma dor violenta invadir seu peito ao ver aquilo. Uma imagem quebrada, rachando-se de dentro para fora, tentando esconder suas rachaduras ao máximo que podia.
Ajoelhou-se no chão e tentou encontrar os olhos castanhos mais uma vez, mas o menor recusava-se encara-lo com ferocidade. Por fim desistiu e apenas falou. “Elas estão erradas, pessoas são estúpidas. Eu achei que você saberia disso.”
O menor soltou um som que talvez fosse destinado a ser uma risada, mas acabou soando mais como um soluço para si. Afora isso, Nico não respondeu.
Pôs uma mão sobre os dedos encravados na sua pele, não para fazê-los soltar, mas sim para segura-los gentilmente. “A opinião delas não importa. A opinião que importa é de quem está ao seu lado, quem te conhece.”
Dessa vez o filho de Hades conseguiu produzir uma risada gélida, suas unhas arranhando-o conforme o menor fechava suas mãos em punhos. “Ah é? E quem seriam essas pessoas? Pois eu tenho quase certeza que todo mundo assim já está a sete palmos do chão.”
Percy recuou, as palavras de Nico vindo como chicotadas contra uma ferida ainda não cicatrizada, mas rangeu os dentes e não se deixou afetar. Já tinha notado que esse tipo de coisa era um mecanismo de defesa do mais novo, não ia cair nela. Falou com convicção. “Jason, eu, Frank, Hazel-“
Tudo isso sumiu quando Nico se ergueu repentinamente da poltrona, soltando-o no processo e encarando-o com uma expressão tão absolutamente perdida entre raiva e dor que por um segundo Percy achou sinceramente que o incidente do cemitério iria começar de novo. Mas então o filho de Hades falou num tom baixo e trêmulo de tão contido e totalmente oposto do que tinha imaginado que aconteceria. “Não. Me. Fale. Da Hazel.”
Franziu o cenho, confuso e alarmado com o tom de voz do outro rapaz, cortante de frio, ardente de fúria. “Hazel? Por quê?”
Nico não respondeu e ele praticamente vibrava com uma dezena de emoções contidas, agarrando-se a si mesmo como se achasse que fosse explodir de novo a qualquer momento. O filho do mar se ergueu devagar do chão, braços estendidos num gesto de paz. “Nico?” Chamou delicadamente.
O garoto ergueu a cabeça de maneira afiada para encara-lo, os olhos castanhos escurecidos num quase negro e naquele momento ele entendeu porque é que ele nunca percebeu a real cor dos olhos do filho de Hades. Engoliu em seco. “Nico...”
O moreno desviou o olhar para o lado, a mandíbula travando-se visivelmente. Mesmo assim, o brilho úmido de seus olhos estava crescendo, quase transbordando e Percy viu uma única lagrima escorrer ousadamente. No mesmo instante Nico a limpou abruptamente, quase com raiva.
Adiantou-se. “O que... o que aconteceu?” Tocou com ambas as mãos à região acima do cotovelo do menor e ele recuou como se tivesse sido queimado pelo seu toque. Parou e deixou seus braços caírem inúteis ao lado do seu corpo. Tentou pensar sobre Hazel, sobre os dois e o que poderia ter acontecido para que Nico estivesse com essa expressão tão quebrada no rosto.
E ah.
“Foi aquilo que você disse na minha festa? Foi por isso que você... foi até o Acampamento Júpiter nas férias?”
O outro semideus fechou os olhos com força por um momento, balançando a cabeça e ele parecia tão no limite que Percy quase decidiu deixar esse assunto de lado. Mas aquilo lhe parecia mais uma recusa em responder do que uma negação e se fosse esse o caso, ele não podia deixar o assunto de lado.
Ele queria ajudar, de verdade, e para isso ele tinha que quebrar essa mania de Nico de guardar tudo dentro de si. Porque isso não fazia bem.
Não fazia, ele sabia.
“O que aconteceu?” Repetiu, baixo e quieto.
O filho de Hades olhou para cima, sem encara-lo. “Ela simplesmente não...” Ele começou com a voz suave, mas que logo descompassou, tremendo em seu tom e o mais novo parou de falar, engolindo suas palavras com dificuldade.
Deu uma leve pausa, refletindo internamente e então estendeu a mão através do ar entre os dois e gentilmente envolveu o punho cerrado do menor. Viu Nico olha-lo rapidamente com olhos quase transbordando antes ele desviar para o lado com uma expressão endurecida. Teria tomado isso negativamente se não tivesse sentido a ponta dos dedos magros apertando sua mão de volta.
Quando ele voltou a falar, ainda sem encara-lo, sua voz tremia enquanto pequenas gotas transparentes descendo pelo rosto pálido. “Ela simplesmente não conseguia mais... me olhar no rosto, simplesmente não- simplesmente não...” E Percy sentiu uma dor violenta no coração enquanto assistia sem nada poder fazer.
Estendeu a outra mão e envolveu o outro punho cerrado, que imediatamente segurou de volta. E o filho do deus dos mortos e da escuridão riu uma risada sem vida que não deveria existir, pois era tão...
... errada.
“Nico...”
O garoto o olhou com lágrimas em um rosto contorcido de angústia.
“Por que eu tinha que ser assim?” Nico perguntou, soltando a última fala como se fosse uma suplicia, um apelo desesperado vindo diretamente de dentro e arreganhado de espinhos ensanguentados. Ele desabou de volta para a poltrona, arrastando Percy consigo que acabou de joelhos no chão, enterrando as unhas curtas contra suas palmas e abrindo dez feridas na sua pele.
Por que eu tinha que ser assim?
Seu cérebro registrou a dor e parte dele se encolheu instintivamente com ela, mas o resto se adiantou para abraçar a figura trêmula diante de si. E embora dessa vez Nico tivesse deslizado o aperto para seus braços, impedindo com seus próprios braços que os dois se encontrassem de verdade, Percy ocupou a nuca do menor sobre os fios negros e o puxou para baixo, fazendo-o descansar a testa contra seu ombro. Encostou seu próprio rosto contra a cabeça do mais novo, envolvendo a cintura magra o melhor que podia com o braço livre, enquanto sua mão na nuca do menor começava a acariciar os cabelos cor de ébano gentilmente.
No mesmo instante Nico desatou a chorar pela primeira vez que o conhecera.
Não apenas lagrimas como o do cemitério.
Não como algo que lhe escapou ao controle como quando ele veio se desculpar na sua cabine, após Gaia e tudo mais, afogado demais em culpa para se achar merecedor de um desabafo verdadeiro.
Esse foi um som que quebrou através das barreiras de Nico, não só um mero eco do que estava batendo machucado ali e veio arrastando tudo com ele, como uma represa sendo demolida. Era um choro com soluços altos e violentos, que faziam seu corpo tenso tremer e lágrimas pesadas molharem seu ombro – lagrimas que ele não duvidava que o menor segurava e continha e engolia fazia anos, porque não era só tristeza que havia naquele som. Era uma frustração sem limites, ao lado de uma confusão tão dolorosamente complexa, mais medo e terror, anseio, desespero.
Solidão.
E Percy deveria estar entrando em absoluto pânico nesse exato momento, porque era esse exato tipo de situação tão delicada da qual ele tinha pavor, porque era só pisar um piso em falso que podia danificar algo para sempre e ele reconhecia que não era a descrição perfeita da delicadeza, mas por algum motivo ele estava calmo.
Ele sabia aonde pôr cada movimento, onde podia exigir e onde não podia e exatamente o quão inútil era tudo o que ele falava, mas impossivelmente e incrivelmente necessário.
Talvez fosse porque ele já vira isso antes.
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[No espelho.]
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“Shh, está tudo bem.”
Guiou os braços pálidos ao redor do seu pescoço e Nico o abraçou com força, obedecendo-o sem protestar e então trocou os movimentos, deixando a mão da cabeça parar sobre a têmpora do menor enquanto que a mão na cintura começava a massagear lentamente as costas do mais novo.
“Vai ficar tudo bem.”
Ele conseguia sentir os ossos das costelas do filho de Hades, mostrando-o porquê Nico era tão leve. Com um movimento suave dos braços, trouxe o corpo menor para mais perto.
“Pessoas são estúpidas, o mundo faz tudo errado, não ligue para eles.”
Fechou os olhos e sentiu o filho de Hades circular o seu pescoço com mais força, enterrando o rosto contra a curva do seu pescoço. Aquilo era desconfortável, mas era como a dor nos seus antebraços: ele conseguia ignorar.
“Você está certo, você pode chorar. Não se preocupe.”
Eu estou aqui.
“Percy...” Nico soluçou, o som saindo abafado, agoniado. “Eu...” Mas ele não conseguiu falar, o choro engolindo-o inteiramente e tomando-lhe até a capacidade de falar.
“Shhh, não se preocupe com nada, ok? Só você e eu, só nós dois, não tem ninguém além de nós dois aqui. Não se preocupe.”
“Por que eu... por que eu tinha que ser assim, Percy?”
“Porque você é Nico di Angelo, uma das pessoas mais gentis e boas que eu já conheci e que eu tenho orgulho de chamar de amigo. Porque você é perfeitamente você e não tem nada de errado com você, além de viver num mundo que deveria existir só em livros de mitologia e pro qual nós nunca fomos preparados. Porque você nasceu como você é e deveria ser o mundo a chorar por pensar do modo que pensa e fazer pessoas que nascem diferentes acharem que isso é errado, quando na verdade deveriam achar que isso é raro e, portanto, valioso.”
Virou o rosto e pressionou os lábios contra a região acima da orelha de Nico, voltando a acariciar a cabeça pressionada contra seu ombro carinhosamente.
“Você é incrível, Nico, e único. Não deixe ninguém lhe tirar o que você é, o mundo já tirou demais do resto.”
Eram só palavras. Só isso. Palavras, sons específicos que os humanos da região norte do continente americano copiaram de uma ilha alguns quilômetros de distância, mudaram e acentuarem, pondo regras para como pronuncia-las e alguns significados num livro grosso que só estudantes da terceira série usam. Não tinham poderes ocultos como algumas escritas e se não fossem gravadas, se perdiam no ar para sempre, sem que ninguém mais no mundo as escutasse.
Eram ruídos que sua boca e sua garganta faziam. Só isso. Nada demais. Ele poderia dizê-las de novo, quando quisesse, porque quisesse, para quem quisesse. E teriam o exato mesmo significado – como os discursos de Martin Luther King, traduzidos para as páginas e disponíveis para qualquer um ler e dizer em voz alta as mesmas palavras que um dos homens mais influentes do mundo disse.
Teriam o mesmo significado, passariam a mesma mensagem.
Só que não se surpreenda se você não atrair uma multidão como o Sr. King fez, pois apesar de serem repetíveis não são mágicas. Não são potes ocos que contém em seu interior um brilho incrível capaz de envolver quem as escuta infalivelmente, sempre que são pronunciadas.
Não é assim que funciona. O que importa não são as palavras, pois elas somem ao ar, não duram sequer um segundo no mundo. Elas são só sons sem valores, repetíveis.
O que importa mesmo é a voz.
Se a pessoa que as disser pôr, imprimir com vontade e determinação a sua mensagem, o seu sentimento em cada sílaba, cada tom que falar e expressar verdadeiramente, honestamente o que ela quer, o que ela significa, então o que ela quer dizer pode ganhar vida. Não as palavras, mas a voz, que pode ecoar eternamente se pronunciadas com força o suficiente.
A voz, que pode atingir anos depois alguém que sequer viveu na mesma época que o interlocutor.
A voz, que pode atravessar culturas e sociedades.
Que pode inspirar e mudar.
Emocionar e ajudar.
Mas apenas...
[... Se você acreditar no que diz.]
“Você é perfeito e eu nunca mais vou te abandonar.”
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