Notas iniciais
Narração de Dexter. Cada capítulo um narrador, sim?

Ao abrir os olhos e sentir a brisa que vinha da praia, meus olhos se enchiam de lagrimas. Não muitas, mas o suficiente para ela notar.

—Saudades do seu avô não é?- Falou a garota de longos cabelos marrons e cacheados que voavam com a ventania. Lys sempre me conheceu muito bem e desde que eu cheguei no acampamento ela sempre foi uma excelente companhia.

—Vir a praia sempre me faz bem, e ao mesmo tempo mal. Ah, você sabe como é, aquela relação de amor e ódio de sempre. — Desde pequeno meu avô praticava esportes aquáticos. Ele amava o mar, e surfar era algo que ele adora fazer. Se eu não tivesse a confirmação de que ele é completamente humano, diria até que ele é filho de Tritão, ou de qualquer divindade do mar que gostasse subir em uma prancha. Tanto tempo sem ver ele cultivava um vazio tão grande que era difícil controlar qualquer tipo de sentimento que resolvesse aparecer na minha cabeça que ja era muito confusa.

—Eu sei que não sou seu avô, e nem sua mãe, mas você sabe que eu gosto muito de você, fora que tem varias pessoas aqui que gostam de você. Logan por exemplo... –

—Ah, por favor Lys, você realmente quis tentar me animar citando esse garoto? De mim esse energúmeno só quer o corpo. Meu precioso corpinho! – E nós dois nos entreolhamos seguido por um pequeno momento de silêncio, mas esse silêncio se perdeu com a explosão de nossas risadas que ecoaram pela praia. Continuamos caminhando, só que dessa vez pisando na areia fofa, nos limites do acampamento.

—Ok, com a exceção do querido admirador do seu corpinho e de toda a renca do chalé de Ares, muita gente aqui gosta de você e somos todos uma família. Podemos não ser a família que você deixou fora do acampamento e nem a mais perfeita, mas você é parte de nós. Você é especial Dex. – Sorri, sentido o sangue se concentrar no meu rosto e as bochechas corarem. Eu podia não estar me sentindo completo, mas me sentia bem e feliz ao lado dela.

—Obrigado Lys, por tudo.-

—Ah, que isso. Quer saber de uma?- E ela estendeu a mão no ar, olhando para a imagem atrás de onde víamos. De repente um pequeno galho esverdeado saiu de dentro da terra um pouco longe de onde tínhamos parado, se contorcendo e crescendo com folhas em um tom intenso. Ele girou em espirais mas algumas vezes e pairou sobre a palma da mão dela que ainda estava estendida no ar. Uma forma redonda e verde começou a crescer, depois mudando de cor e ficando vermelho vivo.

—Eu sei que você adora maçãs. –

—Para os outros filhos de Deméter, você está ficando ótima com isso, hein?- Falei surpreso. Ela era uma semideusa muito poderosa, e o domínio sobre a natureza que ela tinha as vezes chegava a me espantar.

—Eu não gosto muito de me mostrar né, mas quando o motivo é animar um amigo, vale a pena o esforço. –

Retirei a maçã do galho e dei uma mordida. O aroma era incrível e o sabor era misto entre um leve cítrico que perdia seu destaque diante do doce na mesma. Eu realmente adorava maçãs, não tanto quanto morangos, mas chegava a ser minha segunda fruta predileta.

—Agora você fala de minhas capacidades em criar frutas do nada, com esse tom de “nossa como ela é poderosa”, mas convenhamos né? Fazer ilusões é bem legal também. –

—Uma coisinha boba, que perto do poder de qualquer outro semideus aqui, parece uma grande porcaria. Ainda mais que não consigo fazer nada tão grandioso aparecer.-

—Coisas que com a prática você consegue.- Ela sempre muito otimista, sorriu, e passou os cachos que ainda voavam por de trás da orelha.

—Chega de falar de poderes. Isso me faz lembrar que, por mais família que tenha aqui. Meu possível pai olimpiano ainda não deu o ar da graça. –

—A lista de Deuses que fazem ilusões não é muito grande, sabe?- Ah, sim, lógico! Até porque também são poucos os Deuses gregos com histórico em fazer ilusões, “enganações” e miragens. Eu só sei que por mais que meu pai não tenha aparecido, eu não consigo sentir ódio nem raiva dele. É como se de alguma forma fossemos próximos ou qualquer coisa do tipo. Não sei explicar o que eu sinto exatamente, porém, me incomoda o fato de eu estar aqui nesse lugar a tanto tempo e ele nem ao menos fez um “Oi, tudo bem garoto? Eu sou seu pai, toma o seu sinal e seja proclamado.”

—Tudo bem!- Levantou as mãos como se estivesse se rendendo. – Não vamos falar mais de poderes. Fica tranquilo. Mas e então, já sabe um bom lugar para a fogueira? Eu acho que Quíron não vai querer esperar muito mais. –

Quase todos os dias nós nos reuníamos ao redor de uma fogueira, para cantar, ouvir histórias e nos conhecer mais. Era algo de costume, e uma vez em cada duas semanas um chalé era escolhido para decidir um lugar diferente onde montar a fogueira. E naquele dia era a vez do chalé de Hermes. Mesmo eu não sendo filho de Hermes, o líder do chalé confiou a mim a tarefa de ver um bom lugar já que morei boa parte da minha infância na praia, fora que eu conhecia bastante da estrutura do lugar e tudo mais. (Sim eu frequentava muito a praia do acampamento.) Segundo ele “Eu era a pessoa mais indicada para isso, já que a maioria queria na praia” , e não vou mentir, me senti importante já que o chalé era abarrotado de gente não proclamada louca por um pouco de reconhecimento, seja qualquer que fosse ele.

Podia parecer perfeita e maravilhosa a vida ali, mas não é a verdade. Principalmente quando você não sabe quem são seus pais divinos. Isso dificulta muito a vida em questões de reconhecimento e designações. Só para se ter uma ideia, nunca na historia daquele lugar (Até onde eu vi.) Um semideus não reconhecido foi em uma missão, ou realizou algo grande. Se reconhecimento já não brotava em árvores para os outros que já tinham suas camas cativas em seus respectivos chalés, para adolescentes como eu... Quase inexistente.

Tive a grande sorte de ter essa oportunidade. Vai que aquilo era um começo de nova de vida, vai que foi meu pai que resolveu mexer os pauzinhos para mim.

“Valeu aí em pai!” , pensei e ri mentalmente. Por mais que eu quisesse ser realista, era difícil encarar certos fatos quando se é tão positivo!

—Não se preocupa Lys, eu já sei um lugar perfeito. O melhor lugar.-

—Acho bom mesmo. Não quero levar patada de centauro!- Falou ela usando um tom irônico.

—Ele é tão “amorzinho”, jamais faria isso.-

—Você entendeu que eu não falei no sentido literal não é?- E rimos novamente.

A ideia de um centauro tão bondoso como Quíron dando uma patada em um campista apesar de aterrorizante, era engraçada. “Você não trouxe o local da fogueira no horário? Toma aqui seu coice meio humaninho qualquer.”

—Provavelmente ele não vai se irritar se o representante do chalé demorar um pouquinho. E olha para lá!- Falei apontando para o horizonte, o sol estava lindo, sujando o céu com tons de rosa, laranja e lilás. – O por do sol está tão lindo, e já está acabando. Podíamos curtir um pouco mais não é?-

—Acho que vocês podem aproveitar o por do sol depois não é?- Gritou uma voz atrás de nós, meio tremula, provavelmente por conta do dono dela vir correndo. Trevis vinha correndo até nós, todo desengonçado.

—Esse garoto tem ouvido de tuberculoso, como minha tia fala. Como é que ele ouviu a gente falando do por-do-sol, hein?-

—Vai saber Lys...-

—Oi gente.- Falou ele chegando perto e colocando a mão no meu ombro, se apoiando, mais ofegante ainda.

—Posso saber porque não vamos poder aproveitar o final dessa belíssima paisagem, moço?-

— Pôr-do-sol tem todo dia, agora duas campistas novatas, recém chegadas que foram atadas por lobos famintos não é sempre que se vê!-

—Na verdade, existe uma certa frequência sim, mas não é tão grande quanto pôr-do-sois. – Raciocinou Lys.

Com certeza a novidade despertou mais meu interesse, apesar deu amar aquela paisagem pacifica, combinada em mar, pôr-do-sol, céu colorido, caçar a lugar para uma fogueira .

—Bem, e o que estamos esperando? Você aguenta correr mais Trevis?- Perguntei, abrindo os dentes e ele acenou com a cabeça que sim, ainda se recuperando. Então nós Três corremos de volta, e nos enfiamos no meio da multidão de semideuses de laranja, próximos a entrada do acampamento.