Nem Tudo São Rosas
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Quando me disseram que eu era uma semideusa, eu consegui entender um pouco melhor do porquê eu sempre me sentir tão deslocada em meio aos outros da minha idade. Meu único amigo era na verdade um sátiro, o que não foi uma notícia tão estranha, considerando que eu, bem, sou eu...
Doug tinha cabelo preto e cacheado, sua pele era bronzeada, ele era razoavelmente alto, me pergunto como conseguia se equilibrar em dois cascos. Ele explicou para eu e Ophelia, a menina tagarela que quase foi atingida pelos lobos, que estava quase na hora da fogueira, e que dado ao número de campistas curiosos, seria melhor que conhecêssemos o acampamento inteiro ao amanhecer.
Nós parecíamos atrizes de cinema em um evento importante, confesso que isso me deixou um pouco receosa, culpa da minha timidez. A tagarela, por sua vez, pareceu bem animada ao ver todos intrigados conosco. Ao menos a mesa era farta de comidas e Doug fez com que tivéssemos trégua enquanto comíamos.
Ao chegar na fogueira, fiquei admirada com a beleza, talvez seja minha preferência pela noite. A praia não era muito grande, mas tinha seu encanto, queria eu que os campistas ficassem mais interessados nela do que em nós.
— Sério que eram 50? – Um dos campistas do chalé de Ares perguntou animado, eu nunca li muito sobre mitologia grega, apenas o suficiente para que ele era filho do deus da guerra.
— Sim, mas não enfrentamos todos. Demorei para pegar o ritmo da batalha, Sophie me salvou. – Ophelia contou animada, fazendo todos olharem para mim. Quis dar-lhe um tapão na cabeça.
— Sério? Como que você fez isso? – Perguntou outro menino, dessa vez do chalé de Hermes, o deus mensageiro.
— É... Bom... Eu apenas usei a espada. – Respondi receosa com tantos olhares.
— Ela atravessou a espada nele, então outro atacou ela e ela repetiu. – A tagarela contou novamente animada. Onde estava o botão de desligar dela?
— Até parece que nunca lutaram antes. – Uma das meninas de Afrodite respondeu com desdém. Ela e suas irmãs não pareciam felizes com nossa chegada, tampouco com a história.
— Verdade, aposto aquela nanica ali gritou como uma garotinha. – Outra das meninas debochou olhando na direção da Ophelia, o que me fez sentir um pouco de raiva.
— Bom, talvez um pouco. – A pequena confessou com inocência.
— Você gritou? – Um dos campistas que não consegui identificar devido a distância perguntou em tom de deboche.
— Elas não vão durar 1 semana aqui. – Novamente a menina de Afrodite falou com desdém. Essa menina com certeza vai ser um problema.
Com certeza o que Amanda tem de bonita, tem de arrogante. Seus cabelos louros longos, seu nariz pontudo e empinado, seus olhos azuis, nada disso vale se os usa para diminuir os outros.
— Pessoal, já chega. – Disse um dos meninos mais velhos. O nome dele eu não sei, apenas que era o representante do chalé de Hermes. Ele era alto, cabelos castanho claros, que nem seus cabelos.
Seu corpo era atlético, mas diferente das meninas, o garoto não parecia ser intimidador, muito pelo contrário, me passou uma sensação familiar, e por incrível que pareça, Ophelia também.
— Larga de ser chato, Holphin. – Uma das meninas gritou irritada, outra filha de Ares, que pareciam não se dar muito bem com ele, diga-se de passagem.
— Chato? Elas são novas campistas, não um saco de pancadas. – O menino respondeu indignado.
— Para não ser saco de pancadas tem que ter no mínimo essa altura. – A menina disse apontando para seu ombro, o que fez Ophelia arregalar os olhos. Eu queria argumentar, mas tinha medo de ser mal interpretada, tampouco fé de que adiantaria.
— Eu acho que chega de apresentações por hoje. – Doug disse indo até a roda perto da fogueira ao ver o clima esquentando. Onde foi que aquele sátiro tinha se metido?
— Viu só, estragou a diversão. – Um dos meninos resmungou. Confesso que aquela situação fazia eu me lembrar da minha escola, me fazendo perder a pouca vontade que eu tinha em socializar com eles.
De gente assim eu só tinha um sentimento: Sono. Sim, para mim sono é um sentimento. Quando estou chateada, nervosa, triste, ou simplesmente cansada, dormir é minha melhor solução.
— Como sempre. – A menina disse se retirando em passos pesados e empurrando o peito do representante com raiva, deixando ele em um misto de indignação e tristeza.
— Eu não vou discutir com você. – Ele disse desviando o olhar e vindo até nós com um sorriso solidário. – Hey, não liguem para elas.
— Elas são sempre assim, não é mesmo? – Perguntei enquanto me levantava do tronco que estava sentada.
— Sim, são. – Respondeu em um suspiro. — Principalmente os de Ares, o Bolinho e o Mário nem se fala.
— Que gente grossa. – A tagarela observou com uma expressão que não consegui entender. – Espera, tem um valentão chamado bolinho?
— Sim, qual o problema? – Perguntou confuso, mas até que soava irônico, algo tão fofo fazer algo tão “não fofo”.
— Nada. – A tagarela respondeu mordendo os lábios a fim de não rir.
— Você deveria ter cuidado com as palavras, porque eles não tem nenhum. – O menino disse colocando a mão no ombro da menina, que ainda estava sentada, mas sem deixar de ser calmo. – Meu nome é Dexter, vocês querem que eu mostre o chalé de Hermes?
— Adoraríamos. – A pequena disse levantando em um pulo e me puxando pelo braço.
— Por que não? – Respondi sem graça, mas um tanto intrigada com a animação da menina.
— Me sigam. – Respondeu sorridente assim que todos deixaram a fogueira.
Voltamos até o pavilhão do refeitório e ficamos esperando até que todos os campistas estivessem em seus respectivos chalés. Dexter nos explicou que o chalé de Hermes era o mais cheio, justamente por ser do deus mensageiro, ele acolhia todos os que não foram proclamados pelos seus pais, ou seja, nós.
— Você é proclamado? – Ophelia perguntou enquanto estreitava os olhos para Amanda, que estava a encarando de longe. – Aquela nojenta não para de me olhar.
— Para de olhar para ela. – Falei a puxando para que se virasse de frente para mim. — Garotas assim gostam quando recebem atenção.
— Sophie tem razão. – Ele disse revirando os olhos antes da menina finalmente entrar em seu chalé. — Não, eu não sei meu pai.
— É por isso que não deixou eles nos zoarem? – Perguntei intrigada.
— Sim, não quero que vocês tenham que passar pela mesma situação que eu. Podem contar comigo. – Respondeu com um sorriso amigo, fazendo Ophelia abraça-lo pela cintura, que era basicamente onde ela conseguia alcança-lo.
— Gostei dele, onde compra mais? – A tagarela perguntou em tão brincalhão.
— Edição limitada, querida. – Ele respondeu no mesmo tom.
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