Notas iniciais
Narração de Sophie

—Eu sou Ophelia, e bem, vim de uma cidade da costa que é bem pequena, e eu vivia com o meu pai, e não sei quem é minha mãe olimpiana mas eu não ligo para isso, quero fazer boas amizades aqui! — ela disse parecendo animada, e eu acenei positivamente para ela.

—Ouviram isso? Ela não quer saber da mãe olimpiana! Vai ficar como não proclamada pelo resto da vida! — Gritou uma voz feminina ao fundo, e a menina se encolheu, envergonhada. A maioria dos campistas riu, e eu fiquei indignada.

Trinquei os dentes, imaginando que devia ser Amanda, e que ela pretendia implicar conosco até naquele instante.

—Eu sou Sophie, não Sophia — eu disse, e lancei um olhar para a mesa de Afrodite. -E espero que os outros campistas sejam menos idiotas que essa menina que comentou.

A maioria das bocas ficaram entreabertas, e eu me sentei irritada. Senhor D bateu algumas palmas para chamar atenção.

—Vamos todos comer — ele disse, e se sentou, não demorando muito para atacar as uvas frescas.

Quiron se levantou, e parecia inconformado.

—Não quero saber de brigas nesse Acampamento — ele disse, lançando um olhar para a mesa de Afrodite. Então ele sabia quem era, o que me aliviou.

Olhei para Dexter, e ele sorria para tentar me animar, mas o máximo que eu consegui foi engolir o pão a minha frente e beber de meu suco estranho. Ophelia ainda parecia desanimada, e ficamos conversando pelo resto do horário do café da manhã.

Depois descobrimos que tínhamos aulas ao longo do dia. O que me desanimou um pouco, pois pra mim aquilo deveria ser férias.

—Não deveriam por grego antigo como a primeira aula do dia — eu falei para Ophelia enquanto saímos de lá. — Isso da mais vontade ainda de voltar para a cama, mas até que é uma aula intrigante.

Conclui, e ela assentiu, e voltou a tagarelar sobre a matéria, como sempre. Encontramos Dexter, e fomos juntos para a aula de polir armadura.

Bem estranha, tenho de dizer, e Ophelia praticamente ficou nadando dentro de sua armadura, diferente de Dexter que parecia um verdadeiro soldado grego.

Depois nos despedimos de Dexter para irmos à aula de mitologia grega, e essa foi a melhor aula do dia. Saber que tudo é real a deixa muito mais interessante.

—Amei a aula de mitologia — comentei com Ophelia ao sairmos de lá, e a menina assentiu.

—Incrível né, será que no futuro escreverão sobre nós lutando com os filhos de Licaon? — Seu tom foi alto e suave, como se estivesse imaginando.

—Certeza que não — falei, e ela fez bico. Ri com ela, e seguimos para a próxima aula.

Na aula de equitação de Pegasus, tivemos muitos problemas. Principalmente porque Ophelia tentava montar em um, toda vez que eu tirava os olhos dela, mas a nossa aula era apenas para olhar os outros e aprender, já que éramos novatas.

Eu tinha de segurá-la enquanto Quiron explicava, e tinha de quase me desdobrar pra aprender algo e mantê-la segura. Dexter viu a cena lá do céu, e apenas gritou um incentivo para nós. Belo amigo ele.

Almoçamos juntos novamente, dessa vez rápido porque Ophelia ainda estava incomodada com o fato de não poder subir em um pégasos.

No vôlei, nem participamos. Digamos que as filhas de Afrodite dominavam tudo, e tivemos de ficar sentadas por longos e tediosos minutos, junto de outros campistas, enquanto o Senhor D fazia vista grossa.

Perdi a conta de quantas vezes revirei os olhos com aquele jogo patético, e saímos rápido de lá para a aula de fogos de artifício.

Essa foi a melhor aula do dia, pois os filhos de Hermes, quero dizer, apenas os proclamados, porque nós não somos, tinham cara de incendiários.

Mais que o pessoal de Hefesto, o que manteve os valentões longe de nós e conseguimos produzir bombinhas, que viriam a calhar depois.

No tempo livre, eu segui Dexter até o local da fogueira do dia anterior, junto de Ophelia, e nos sentamos perto do rio. Ficamos em silêncio por algum tempo, embora a menina parecesse querer dizer algo a todo instante, mas estava se controlando porque nós não falamos nada.

—Pode falar Ophelia — disse para ela que tanto me encarava.

—Você tem um pai ou uma mãe olimpiano? — Ela perguntou alto e ansiosa, e eu ri.

—Um pai, minha mãe era cantora lírica — respondi simples, e ela murchou. Senti meu coração se apertar quando me lembrei de minha mãe, mas fiz de tudo para esconder o que estava sentindo dos outros.

—Entendi... — Murmurou ela, e eu fiquei sem entender.

—O meu também é pai — respondeu Dexter, sorrindo. — Mas fui criado mais pelo meu avô.

Ophelia pareceu desconfortável, e Dexter franziu o cenho.

—O que foi Op? — Ele perguntou, e a menina balançou a cabeça.

—Eu estava esperando que de vocês fossem mães também, sabe? Podíamos ser irmãos ou algo assim — ela falou em um tom baixo, formando um bico em seus lábios.

—Mas todos nós somos irmãos aqui! — Ele disse, se levantando e tentando animá-la. -Estamos na mesma causa aqui, e você pode contar conosco!

Ele olhou pra mim, e eu assenti. O rosto da garota se iluminou, e ela se levantou, totalmente animada e com um sorriso largo.

—Bem, está dando a hora do jantar — disse Dexter, e eu me levantei preguiçosa.

—Estou morrendo de fome! — Anunciou Ophelia, dando até alguns pulinhos.

—Temos que ir cedo para pegar um bom lugar — ele aconselhou, e deu alguns passos, antes de parar e nos encarar. — Ah, lembrei que dia é hoje.

Eu e Ophelia nos encaramos, e ele suspirou, passando a mão por seus fios claros.

—Hoje é dia da Captura da Bandeira — explicou, e nós duas continuamos sem entender. -Não queria que vocês duas participassem tão cedo dela, mas acho que não tem jeito.

Seu tom era pesado, e ele parecia desanimado ao mesmo tempo em que parecia preocupado. Senti-me agitada por dentro, sem entender o porquê.

—Vocês não sabem o que é, né? — Negamos com a cabeça, e ele prosseguiu. — É o dia mais importante da semana. O acampamento se divide em duas equipes, e então fazemos uma mini-guerra para pegar a bandeira do outro time.

Os olhos de Ophelia brilharam, mas Dexter balançou a cabeça em negação, o que a desanimou.

—É muito violento, e muitos daqui saem machucados, principalmente quando batemos de frente com alguém de Ares — ele explicou, e eu arregalei os olhos ao pensar naqueles brutamontes lutando contra nós. -Mas é obrigatório, o Senhor D adora, e Quiron diz que é para nós prepararmos para o futuro, mas eu acho totalmente desnecessário.

Ficamos em silêncio, e Ophelia se remexeu inquieta, mordendo o lábio inferior e parecendo ansiosa.

—Mas nós iremos ficar bem! Sophie é muito boa com a espada — ela disse e sorriu para mim. Ela deve achar que sou uma guerreira, né? Sinto que vou ter mais que proteger ela do que caçar uma bandeira estúpida.

Fomos em silêncio para as mesas, e a todo instante eu sentia que os outros campistas nos lançavam olhares intimidantes, e eu sentia meu coração disparar em expectativa. Não estava a fim de jogar, mas como não havia escolha...

Espero que ao menos não nos machuquemos.