Notas iniciais
Narração de Ophelia

O jantar foi cheio de provocações. Dexter não se sentou tão perto de nós, o que me fez ficar mais agarrada a Sophie do que o normal. Os filhos de Ares passavam nos encarando, e só seus olhares já eram ameaças.

Mal consegui comer, e sai o mais rápido possível com Sophie para já irmos nos preparado. Dexter nos explicou como era o jogo, e que nossos aliados eram: Afrodite — mas elas nunca faziam nada -, Dionísio e Deméter, enquanto do outro lado estava Ares, Atena, Apolo.

Claramente estávamos em desvantagem, por isso ele sugeriu para que ficássemos afastadas da luta, e que nos rendêssemos caso alguém aparecesse.

Claro que não faríamos isso, eu vim aqui pra ser semideusa e não uma ratinha! Sophie parecia gostar da ideia de não ter de lutar, mas eu não podia fazer aquilo sozinha, né?

Assim que deu a hora, o Senhor D convocou os dois times à beira da floresta, e explicou as regras. As regras eram simples: nada de matar, e apenas isso. O resto estava permitido, o que me deixou com medo, tenho de confessar.

Eu via aqueles brutamontes do outro lado e apenas tremia na base. Esperava que minha mãe fosse algum tipo de lutadora, porque eu iria precisar muito naquele instante.

Formamos filas, e os primeiros a entrar lá fomos nós. Os filhos de Hermes comandavam o nosso plano, e fomos mandados para o punho de Zeus com o pessoal de Afrodite, enquanto os filhos proclamados, com os dois garotos de Dionísio e os de Deméter ficavam no caminho, para impedir que avançassem.

Eu já disse que tenho esse dom de poder ver o caminho? Então, eu estava literalmente "vendo" se pode se dizer assim. Eu conseguia ver onde estavam, e aquilo meio que me tranquilizava para não surtar ali.

O capacete era maior que eu, mas Sophie disse que era melhor eu manter do que tirar, e mesmo relutante, eu fiquei com ele.

Me deram uma espada para usar, muito maior do que o punhal que anSenhora Tiff havia me dado, o que era um problema. Era muito pesada é difícil de manusear, o que me deixava com medo.

Sophie se mantinha neutra, mas eu sabia que ela não estava. As filhas de Afrodite estavam de braços cruzados, e lançavam olhares estranhos para nós. Sabe quando a pessoa quer aprontar alguma coisa, e não sabe esconder? Era essa a cara que elas faziam.

Sophie pareceu perceber, e ela me puxou pelo braço para que ficássemos mais à frente, e sussurrou em meu ouvido.

—Elas vão aprontar alguma coisa — disse tão baixo que eu tive de me concentrar para ouvir. -Eu vi a Amanda falando alguma coisa pra elas, então, acho melhor nos afastarmos.

Eu concordei com a cabeça, mordendo o lábio inferior. Estava muito nervosa para dizer algo, mas os outros ainda não haviam se movido.

Dexter havia sido chamado por uma garota de Deméter, e ele não voltou até agora, o que deve significar que ficaremos sozinhas de agora em diante.

Assim que ouvimos os gritos, eu me encolhi, e apertei o cabo da espada com as duas mãos. Sophie me imitou, e mesmo que eu não "visse" nada, agora eu sabia que havia começado.

Foi quando nós ouvimos o barulho de armaduras caindo atras de nós, o que nos fez encarar as filhas de Afrodite. Elas tiraram a armadura, e agora riam enquanto nos lançavam olhares.

—O que estão fazendo? — Perguntou Sophie em um tom mais alto, e elas tiram.

—O que acha? Estamos nos rendendo — disse Amanda, e ela cruzou os braços. -Até parece que vamos tentar alguma coisa contra eles. Nascemos para sermos lindas, não fazer esse trabalho de ogros.

Ela apontou para nós com desdém, e eu me encolhi, sentindo-me por algum motivo inferiorizada. Sophie trincou os dentes, e eu me agarrei a ela.

—Então ao menos saiam do caminho, porque de peso morto a gente não precisa — O tom que Sophie usou fora grosso, e até eu me assustei.

As garotas de Afrodite pareceram se ofender, e Sophie se aproximou delas, e retirou a bandeira de perto delas.

—Vamos Op, acho que conseguimos arranjar um lugar melhor para essas garotas não nos delatarem — seu tom era de repulsa, e eu assenti, acompanhando-a e vendo as garotas nos olharem irritadas.

Agora sim éramos apenas nos, e eu usava o máximo da minha visão para guiar Sophie, desviando de tudo que parecia uma ameaça à nossa segurança. Sabíamos que não podíamos ir muito longe e que o rio cortava os dois territórios, então acabamos por escolher uma árvore razoavelmente grande.

Sophie se ofereceu para subir, e eu concordei, visto que com aquela armadura eu mal podia me mover. Foi quando senti que havia alguém se aproximando.

Alertei Sophie, e me afastei da árvore, imaginando que seria mais fácil se eu pegasse a pessoa de surpresa. Eu conhecia o caminho mais rápido, e tirei meu capacete que apenas me atrasava.

Assim como minha armadura, e fui apenas com minha espada até a pessoa. Logo percebi que eram duas, e que um era inimigo enquanto a outra era, ugh, Amanda-Traidora.

Me escondi entre os arbustos enquanto a garota dizia o caminho para o garoto de Ares que mais parecia uma montanha.

Não tinha como eu ganhar, mas eu podia enrolar até achar alguém para me ajudar. Fiz a primeira coisa que me veio à mente, peguei uma pedra e joguei, mirando no capacete dele.

Funcionou a princípio, e ele olhou em minha direção com os olhos brilhando em fúria.

—Amanda sua traidora! — Gritei, mais porque queria que alguém me ouvisse do que por ter necessidade mesmo.

—Eu só não gosto de trabalhar com não-proclamados — ela respondeu com desdém, e eu trinquei os dentes.

—Aposto que ela nunca vai ser proclamada! — Disse o garoto-muro, e eu apenas apontei a espada em sua direção.

—Então venha ganhar de mim! — Provoquei, e ele correu em minha direção.

Ao menos eu tinha alguma vantagem, pois sabia exatamente onde tinha que ir para me afastar, enquanto o filho de Ares parecia totalmente insano atrás de mim.

Só me dei mal porque cheguei no pequeno rio que havia ali, e queria passar para o outro lado de qualquer forma, visto que se eu parasse, era morte certa.

Esperava que Sophie não tenha problemas enquanto eu estou aqui fugindo.

Pulei tentando chegar a uma pedra, e meu pé escorregou. Cai com tudo no rio, soltando um gemido pelo meu tornozelo, que eu acho que torci — rezo muito para que seja uma torção e não algo pior.

Me seguro na pedra pra não afundar, e a espada passa a centímetro de meu rosto, caindo na água. Arregalei os olhos, e olhei rapidamente para o garoto, que agora descia a margem e vinha em minha direção.

Forcei-me a subir, e meu cérebro entrou em ação. Já disse que sou muito movida a intuição, né? Assim como posso ver caminho, eu não sofro da mesma coisa duas vezes.

Não sei explicar exatamente como, mas se eu caio uma vez por escorregar em uma banana, eu nunca mais escorregaria em uma, deu pra entender?

De qualquer forma, mesmo manca eu consegui usar a perna boa para cair com perfeição, se assim posso dizer, e chegar a outra margem.

Suspirei aliviado enquanto o garoto ainda nadava em minha direção, e vi que eu não podia vacilar. Corri como pude, mas meu pé machucado não me ajudava em nada.

Segui por mais um tempo pela margem do rio, sentindo que mais à frente era mais estreito e eu poderia voltar, quando ouvi o grunhido atras de mim.

Ele não desistia, e parecia mais nervoso do que antes, o que me desesperou. Não sei de onde ele tirou um punhal, mas me ameaçava com o mesmo, e eu no susto acabei caindo.

Meu tornozelo doeu como o inferno, e eu senti meus olhos lacrimejarem. Me virei de frente para ele, a tempo de desviar do primeiro corte.

Senti o ar fugir de meus pulmões, e me arrastei para trás, arregalando os olhos. Quando pensei que era meu fim, e recebi um corte em um ombro, ouvimos o apito de Quiron.

Mas não pareceu ser o fim, pois o filho de Ares abaixou o punhal, e eu sentia meu coração parar. De alguma forma ele errou, e começou a golpear o ar, o que chegava a ser bizarro, sendo que eu estava à frente dele.

—Op! -Ouvi Dexter me chamar, e eu virei em sua direção, grata por ser socorrida.

Acabei por chorar sem perceber, até que o garoto-muro parou de tentar acertar o ar e olhou feio para Dexter.

—Você fez isso! Me fez de bobo! — Grunhiu ele, apontando o punhal para ele.

—Você está quebrando uma regra Bolinho! — Retrucou Dex, apontando sua espada para ele. — Quiron já deu o sinal da nossa vitória, você não tem mais motivos para atacar um campista! Ainda mais um indefeso assim!

Bolinho pareceu pensar, e eu rapidamente me sentei melhor, apoiando em uma árvore para tentar me levantar. Logo outros campistas apareceram para ver o que estava acontecendo, e Sophie surgiu de algum canto também.

Dexter me ajudou quando Bolinho pareceu desistir, e eu consegui ficar em pé graças a ele. Respirei aliviada, mas sorri ao ver que nosso time, mesmo sendo o traído e o com os "não-proclamados", fomos os vencedores.

—Vamos levá-la para a Grande Casa! — Disse alguém do chalé de Deméter, e eu apenas assenti.

Olhei em volta e percebi que as filhas de Afrodite me olhavam com ódio, o que era bom, de certa forma. Depois iriamos contar sobre elas, e quero ver quem vai querer ser aliado delas após o que houve hoje.