Nem Tudo É De Primeira
19 Nem Tudo É De Primeira
Notas iniciais
Ele estava numa colina deserta, o vento soprava ao seu redor frio e violento enquanto o céu acima de si vibrava com a fúria dos deuses. Não estava chovendo, mas nem por isso a tempestade era menos forte. Piscou os olhos confusos, sem entender direito o que estava acontecendo. Mas ao olhar para cima logo reconheceu as montanhas que cercavam o Acampamento romano.
“Você se descuidou.”
Percy se virou em direção à voz e recuou horrorizado.
O Acampamento Júpiter estava mergulhado em chamas, com pilares de fumaça negra subindo aos céus e prédios sendo consumidos a cinzas pelo fogo. Pessoas corriam desesperadas, fugindo do calor sem pensar, tropeçando e trombando numas nas outras, pisando sobre os que caiam e ignorando os gritos de socorro que chegavam visceralmente audíveis até Percy. Explosões. Destruição. Um choro de uma criança. Viu Reyna surgir pela porta de um bunker, carregando um romano desfalecido nos braços. Frank gritava tentando controlar as pessoas em pânico, sangue o encobrindo dos pés a cabeça, um ferimento em sua perna o impedindo de andar. Jason arrastava o corpo de Hazel para fora das chamas.
Jogou-se para frente, o terror daquela visão o impelindo cegamente, mas nem mesmo dois passos depois algo se enroscou em ambos os seus braços e o parou com violência, puxando-o para trás. Soltou um grito de dor ao sentir a sua pele rasgar e olhou chocado para as correntes que o prendiam como cobras vivas.
“Acreditou que poderia ter paz, mas se esqueceu de um detalhe vital.”
Tentou se voltar para a voz que falava mais uma vez, mas as correntes o envolveram, prendendo-o completamente.
Então, diante de si, Nova Roma explodiu.
Um cogumelo de cinzas e destroços e fogo se ergueu aos céus e o grito que se desprendeu da sua garganta foi engolido pelo som da explosão enquanto uma violenta ventania subiu pelo terreno até a colina onde estava e o atingiu. Percy caiu no chão com força, batendo as costas e a cabeça, mas a sua dor física não foi registrada.
“Quem é você?!” Gritou, se contorcendo no chão, tentando se erguer a todo custo, tentando se soltar das suas amarras que o apertavam cada vez mais, tentando olhar para frente porque não podia, não podia ser–
Seu coração pareceu se rasgar dentro de si enquanto escutava ao nada e o silêncio nunca lhe foi mais aterrorizante quanto agora.
Algo o agarrou pelos cabelos e imediatamente as correntes caíram do seu corpo. Assim, desse modo foi erguido brutalmente do chão e um grito de dor escapou dos seus lábios. Imediatamente tentou soltar o que o segurava enquanto desesperadamente se erguia com as pernas, mas era como se estivesse lutando contra mármore frio.
Então a voz falou novamente, bem no seu ouvido, como o estalido das presas de mil aranhas juntas e era como se o calor fosse roubado do seu corpo com as palavras.
“Para um semideus, a guerra nunca acaba.”
E sua cabeça foi forçada a se virar para o lado oposto de Nova Roma.
Foi quando o Acampamento Meio-Sangue surgiu do outro lado da colina.
Estava inundado de pessoas, lutando uns contras os outros ferozmente e a cada segundo que seus olhos viam mais um corpo caia sobre a pilha que recobria o chão. A floresta não mais existia, um terreno negro e queimado no seu lugar, e as cabines eram, uma por uma, derrubadas ao chão. O corpo de Quíron estava pendurado na varanda da Grande Casa, enforcado e mutilado, com um grande lobo deitado aos seus pés que antes seria branco se não fosse o seu próprio sangue o manchando, vindo das diversas espadas, adagas e aches enfincadas em seu corpo – Lupa só tendo sido derrubada após ter matado milhares com suas garras e dentes.
Uma lança de ouro imperial atravessou um garoto de camiseta laranja e uma adaga de bronze atingiu a garganta de uma menina de camiseta roxa.
O mar rugiu e o céu ecoou imperdoável.
Roma e Grécia nunca deveriam ter se misturado.
“No final, o medo sempre irá vencer e as armas irão se erguer. É assim que a história se iniciou. É assim que a história irá terminar.”
Algo se rompeu dentro de si ao ver aquilo. “Quem é você?!” Gritou enfurecido, alto o suficiente para se erguer sobre o som da guerra diante de si e arreganhou os dentes, pulou e se contorceu, tentando se virar
[ tentando tirar os olhos daquela cena]
“Quem é você?!”
mas falhando porque era como tentar lutar contra uma pedra, fria e lisa, imóvel mesmo diante as maiores forças.
Grover surgiu por entre os gregos e o seu coração se contorceu dentro do seu peito, horror e desespero impregnando seu ser, quando viu o seu melhor amigo com a faixa verde de Juniper amarrada ao braço pular ferozmente sobre um romano, com uma violência que Percy nunca pode imaginar partindo do sátiro. Connor Stoll lutando enlouquecido sobre o corpo de seu irmão, morto e desfigurado. Piper como um corpo sem vida no chão, a pele pálida e o rosto encoberto de sangue, mas a beleza intacta mesmo na morte.
A voz voltou, mil estalidos de aranhas sussurrando suavemente.
“Eu sou o seu pesadelo, Percy.”
Clarisse pisou errado e uma mina terrestre explodiu sobre seus pés. Leo sendo arrastado até o lago e afogado por cinco romanos, atiçando fogo em dois deles antes de parar de se mexer.
Percy gritou, um som animalesco e furioso que estourou da sua garganta, e numa onda de força se soltou do que o segurava. Contracorrente surgiu em suas mãos vinda do nada e ele girou o corpo, abrindo um arco mortal com a lâmina de bronze em direção a voz inumana e-
Olhos cinza tempestuosos o encararam, emoldurados por longos fios dourados.
Contracorrente caiu de suas mãos.
“Annabeth?”
A filha de Atena não sorriu.
Ela apenas se inclinou. E falou na sua voz firme e suave:
“Não se esqueça de que Nico me matou.”
Uma jaqueta de aviador manchada de sangue surgiu aos seus pés.
Percy acordou gritando.
.
*
.
“Percy, se acalme!”
Abriu os olhos, o pânico percorrendo suas veias como fogo. Por um momento alucinante não sabia onde estava e achou que o que o segurava eram as correntes de cobras, o prendendo para ver o seu mundo ser queimado as cinzas lentamente, seus amigos mortos um por um numa fila diante seus olhos. Então Percy lutou furiosamente, sentindo o coração trombando contra sua caixa torácica e suas mãos buscaram Contracorrente em seu bolso instintivamente enquanto se debatia com força-
De repente algo bateu com violência contra seu rosto, a pele começando a arder segundos depois.
Repentinamente o mundo parou de girar. E o barulho estridente ao fundo sumiu. Piscou os olhos e um garoto de cabelo areia e olhos claros entrou em foco bem em cima de si, segurando-o com um dos braços enquanto que o outro estava erguido, a palma aberta e pronta.
Ah, havia levado um tapa do...
“Dean?” Chamou hesitante, a voz trêmula.
Dean o olhou com uma expressão assustada por um segundo, mas então suspirou aliviado e recuou da sua posição de cima dele, soltando-o de seu peso. “Você não acordava! Eu achei que estivesse tendo um treco ou alguma coisa!” Exclamou ele, o tom de voz preocupado.
“Eu...” Parou, sentindo sua garganta doer e foi nesse momento que realizou que o som estridente fora ele gritando.
Seu corpo inteiro estava ensopado em suor e ele tremia violentamente. Engoliu em seco, tentando empurrar as imagens do seu sonho para longe – os sons, as visões, o cheiro – mas tudo veio como uma represa sendo demolida.
O Acampamento Júpiter, o Acampamento Meio-Sangue...
Hazel, Frank, Reyna...
Quiron e Lupa...
Grover, Jason...
O sangue e o cheiro de fumaça.
Piper, Leo e-
[... e-]
Seu estômago embrulhou repentinamente e Percy se jogou para fora da cama, talvez derrubando Dean no processo considerando o barulho que ele ouviu vagamente, mas sinceramente ele não conseguiu se importar naquela hora. Disparou para o banheiro e mal teve tempo de cair de joelhos diante do vaso sanitário antes de vomitar, a bile e a comida abrindo caminho pela sua garganta violentamente.
Tossiu, tentando respirar, mas outra onda de espasmos no seu estômago o impeliu a se inclinar de novo. Sentia o frio abraçar o seu corpo, o suor escorrendo e pingando da sua testa. As visões do que tinha sonhado pairavam pela sua cabeça e Percy se forçou para frente mais uma vez, vomitando basicamente suco gástrico. Ficou lá por deus sabe quanto tempo, até que não tivesse mais o que sair e só restasse a dor dos músculos da sua barriga que ainda impeliam para fora o que não mais tinha e o gosto horrível na sua boca. Cuspiu e então respirou fundo, tremulamente, deixando-se cair contra a parede ao lado da privada.
Gemeu e fechou os olhos, descansando a cabeça contra o azulejo frio. Seu corpo estava gelado, o suor que colava a roupa ao corpo roubando o seu calor. O cheiro metálico ainda o impregnava visceralmente vivido e o som do metal cortando carne ainda ecoava como um filme particularmente alto dentro do seu crânio.
Sentiu um enjoo no seu âmago e se pudesse, teria vomitado de novo.
O barulho da descarga o fez saltar de susto e abriu os olhos a tempo de ver Dean se afastar do vaso sanitário. O jovem rapaz se agachou diante de si, uma expressão cautelosa e preocupada no rosto. “Percy? Você esta se sentindo mal?” Quando cansado balançou a cabeça uma vez negativamente o outro rapaz ganhou um ar cético. “Tem certeza?” Indagou e esticou a mão, encostando-a contra sua testa.
Os dedos de Dean queimaram sua pele de tão quente que estavam em comparação a si e Percy notou pela primeira vez que ele estava tremendo, porque o rapaz mortal estava absolutamente imóvel. Sacudiu de novo a cabeça e afastou a mão do amigo do seu rosto. “Tá tudo bem, só... um pesadelo.” Respondeu fracamente.
O jogador de futebol franziu as sobrancelhas, parecendo incrédulo e preocupado ao mesmo tempo. “Percy, eu já te vi tendo pesadelos antes, mas você nunca vomitou por causa deles.”
“Esse foi... pior do que os outros.” Fechou os olhos e respirou fundo, tentando manter as imagens longe da sua cabeça. E era verdade. Nunca antes um sonho seu fora tão... nítido e gráfico como aquele, as cores fortes e o cheiro real como se estivesse mesmo acontecendo. Mesmo seus sonhos como semideus, em essência desagradáveis e assustadores, nunca nenhum deles chegou a esse ponto.
Estremeceu, encolhendo o corpo.
E nunca, em nenhum deles, alguém que ele [... amava] conhecia surgiu daquele modo.
Como o vilão.
Quis rir e chorar ao mesmo tempo, desejando poder ficar ali parado para sempre para que não tivesse mais que pensar sobre nada.
Dean pareceu ainda mais preocupado. “Não é melhor você procurar um médico sobre esses pesadelos?” Ele indagou, já tendo desistido de perguntar sobre o conteúdo dos sonhos de Percy meses atrás. O filho do mar nunca respondia. “Se eles estão ficando piores...”
“Não adiantaria.” Replicou, um sorriso autodepreciativo nos lábios. “É parte de quem eu sou.”
Um semideus.
“Isso não faz sentindo!”
Para um semideus, a guerra nunca acaba.
Percy fechou os olhos com força.
“Eu sei.”
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*
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Voltar a dormir estava fora de cogitação quando Dean conseguiu faze-lo sair do banheiro, mesmo quando o rapaz mortal se ofereceu para ajuda-lo a virar o colchão e a trocar os lençóis que estavam ensopados do seu suor. Percy apenas negou com a cabeça e começou a se trocar, pondo qualquer coisa quente do seu armário sem pensar direito.
Ele tinha que sair dali. Sua própria mente já estava fechada e abafada demais, ele não precisava ficar dentro de um cubículo para ajudar na sensação.
“Pra onde você vai?”
“Eu não sei.”
“Sãos três da manhã.”
“Não se preocupe com isso.”
“Percy...”
“Eu estou bem.”
Ouviu Dean bufar incrédulo, de algum ponto atrás de si. Não se virou e nem reconheceu o som, fingindo estar ocupado em fechar sua jaqueta. Houve uma pausa na qual ele aproveitou para se arrumar rapidamente e se dirigiu para a porta, querendo sair logo antes que seu amigo conseguisse convence-lo a ficar. Não iria fazer bem para nenhum deles.
Quando sua mão envolveu a maçaneta, Dean falou.
“Não faça nada estúpido.”
Parou, ainda sem se virar. Então lançou um sorriso de lado para o jogador por de cima do ombro.
“Eu não vou.”
E girou a maçaneta, saindo do quarto. Suspirou silenciosamente, encostando-se contra a porta.
Pelo modo como Dean havia travado a mandíbula, Percy sabia que não havia conseguindo enganar o rapaz.
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*
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A primeira coisa que fez foi roubar um carro. Ele não fazia de um hábito seu quebrar a lei e não gostava de fazê-lo, mas sua cabeça não estava sintonizando no lugar certo e ele também não podia estar ligando menos na hora. Nem pensou em escolher qual carro, pegou o primeiro que viu na rua. Só queria sair dali.
“Dali” aonde era a questão.
Ele só queria sair.
Após ligar o carro com um truque que Leo havia o ensinado e após empurrar com violencia o sonho para longe assim que a imagem do filho de Hefesto surgiu na sua cabeça, pisou fundo no acelerador e disparou pela rua completamente escura. Era bom que estava tudo vazio, porque com toda a concentração que ele conseguiu reunir na direção, ele provavelmente teria atropelado alguém.
As luzes dos postos eram periódicas e surgiam para iluminar o seu caminho de tempos em tempos. Os faróis ele ignorava completamente. Não sabia para onde estava indo.
Só queria sair dali.
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*
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O cheiro do mar e a presença fria e calma dele o atraíram imediatamente. Virou o carro num movimento brusco e entrou numa rua que ele nunca havia estado antes, seguindo a sensação fresca como um cego num deserto seguindo o cheiro de água.
Não tem cheiro de verdade, mas você segue de qualquer forma.
É melhor do que sentar e esperar morrer.
Um muro branco surgiu no seu caminho e Percy brecou tão repentinamente quanto acelerou. Os pneus fizeram um som agudo de borracha contra concreto enquanto o carro começava a girar. Assim que parou, desceu do veiculo e começou a caminha em direção ao obstáculo de tijolos. Sem dignar um pensamento sobre o que estava fazendo, pulou o muro, ignorando a placa de “propriedade privada” pendurada.
Seus pés atingiram chão sólido quando caiu do outro lado, mas ele conseguia ouvir o som do mar ao longe. Então começou a caminhar silenciosamente, cabeça baixa, mãos nos bolsos.
Um.
Dois.
Um.
Dois.
Um.
Um passo de cada vez, um pé diante do outro. Seguindo o ritmo sem parar, algo contínuo e eterno para ocupar sua mente. Algo insignificante e monótono, sem riscos, sem lembranças. Seguro. Covarde que fosse, ele não queria pensar. Não. Porque pensar ainda era um pouco cedo demais, atingia uma ferida ainda em processo de cicatrização já que ele fazia o mínimo exigido para cuidar dela. Colocar uma atadura e ignorar a dor era mais fácil do que encara-la e relembrar como ele havia se ferido em primeiro lugar.
Mas feridas podem infecionar. Comentou aquela voz irritante.
Percy rangeu os dentes. “Cala a boca.”
Continuou andando.
Dois.
Um.
Dois.
Um.
Dois.
Mas depois do que lhe pareceu apenas alguns minutos, seu cérebro começou a se entediar e se distrair do que fazia. Dois- não, agora é o um. Maldição. Uma pedra no chão, inofensiva em sua simplicidade e de um cinza sujo – a culpa não era dela, mas chutou-a mesmo assim. Ouviu ela quicar e bater em algo, mas não ergueu os olhos do chão e tentou continuar a contar, manter o ritmo.
Um.
Dois.
Um-
Mas o dano já estava feito e o cinza sujo e inofensivo da pedra invadiu sua cabeça, modificando-se até se tornar a cor do céu tempestuoso, do ferro que ninguém pode entortar a seu favor e do diamante brilhante de valor inestimável.
Percy quebrou o ritmo e parou, cambaleou para frente. Caiu de joelhos no chão.
E tudo veio de uma vez só, como o oceano que não pode ser contido.
Loiro. Amarelo do ouro. Uma mecha branca e cinza, cinzacinzacinzacinzacinza – era como ele imaginava uma garota da Califórnia, com os cabelos amarelos como o sol em cachos e a pele morena e o rosto fino, mas os olhos acabavam com a imagem. Cinzas. Cinzas como uma tempestade sobre a terra. Cinzas que acabavam com o comum, com o esperado e essa deveria ser a prova do quão única era aquela menina diante de si e ele-
[e ele a ama-...]
“Annabeth.” Falou, o nome saindo tão facilmente da sua boca, mas parecendo entalar na sua garganta de qualquer forma. Um sabor doce e amargo sobre sua língua. Soluçou e se inclinou, escondendo o rosto entre as mãos. ‘Annabeth.”
Porque ela havia aparecido naquele pesadelo? No meio da visão de uma guerra que ele não podia acreditar que aconteceria, onde tudo o que ele amava, seus lares, seus amigos – tudo – era destruído por eles mesmos. Onde laranja e roxo se manchavam de vermelho. Onde Roma e Grécia, apesar de tudo o que haviam feito e passado, erguiam sobre seus descendentes como uma verdade inquestionável de que não adiantava.
Aquilo não podia ser uma visão. Aquilo não podia ser um sonho de semideus, tentando lhe mostrar um futuro inevitável. Não podia. Não podia.
[No final, o medo sempre irá vencer e as armas irão se erguer.
É assim que a história se iniciou.
É assim que a história irá terminar.]
Um embrulho se formou no seu estômago e ele quis vomitar de novo, mas não podia. Então gritou. Gritou agarrando os seus próprios fios de cabelo. Gritou querendo calar as vozes, os sons da sua cabeça. Tentou empurrar a tristeza com raiva, o desespero com fúria.
“Depois de tudo! Depois de todos que perdemos, não me venha dizer isso! Não me venha dizer isso!” Gritou contra os céus o mais alto que podia, sentindo sua garganta doer. Olhou acusador para as nuvens, para os deuses que ele sabia que estavam ali, para os deuses que ele sabia que o ignoravam como ele ignorava as formigas no chão. “Eu não vou permitir! Ouviu bem?Eu não vou! Quem é você?!”
[Eu sou o seu pesadelo, Percy.]
Um raio de dor atravessou o seu peito de repente quando a voz horripilante se tornou firme e suave e o demônio contra qual ele lutava, o monstro que o ameaçava no sonho se dissolvia e uma imagem que não se encaixava surgia no seu lugar. Uma imagem para o qual ele jamais seria capaz de erguer sua espada.
Percy desabou de novo, caindo contra a parede mais próxima. Ele nem sabia onde estava, mas mesmo assim apoiou o rosto nas mãos e sentiu seus olhos queimarem com lágrimas. Sentia o seu corpo inteiro tremer.
“Não, você não é.” Sussurrou para ninguém. “O meu pesadelo...”
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[Não se esqueça de que Nico me matou.]
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Olhou para cima e oceano o cumprimentou suavemente, quase sumindo contra a escuridão do céu, o barulho suave das ondas indo e voltando. Um vento frio soprava.
Soluçou, ouvindo o som quebrado que foi.
“... foi como você morreu.”
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*
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É claro que ele lembrava.
Ele ainda podia ver dentro da sua cabeça, um filme de loop infinito da mesma cena.
Uma batalha sangrenta acabando ao seu redor.
O uivo furioso de Gaia.
E o som estridente da sua voz quando Stygian, fria e negra, se ergueu.
“NÃO!”
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*
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“Ah, oi! Desculpe em incomodar, mas você sabe onde está Percy Jackson?”
“Percy?”
“Sim, sim, um adolescente de cabelo preto e olhos verdes. A mãe dele me disse que ele estava estudando aqui...”
“Bom, eu não confirmar ou negar até você me dizer quem é você e o que você quer.”
“Oh, m-me desculpe, falta de educação minha! Eu me chamo Grover, um amigo do Percy.”
“Ho-oh! Calminha ai, Grover, tipo Grover Underwood? Bestie, BFF do Senhor Cabeça de Peixe Eterno da Piscina, Percy Jackson?”
“...”
“Wow! É você mesmo! Nada haver com o que eu tinha imaginado, sem ofensa. Você deveria ter um facebook ou um insta, cara. Mas se você é o melhor amigo da Ariel, então provavelmente também deve achar que vive na idade das pedras e não deve ter nem mesmo um celular.”
“... Ariel?”
“Hun? Ah, eu o chamava de Sr. Netuno, mas ele insistiu que eu parasse, então comecei a chama-lo de Ariel. Anyway! O que posso fazer pelo senhor, Mr. Underwood?”
“... E-eu queria saber se você sabe onde ele está, senhorita...”
“Lina McCoy, mas pode me chamar só de Lina! Se eu fosse você, procuraria no dormitório masculino logo ali, terceiro andar, décimo quinto quarto.”
“Obrigado... L-Lina.”
“Disponha.”
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*
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O céu estava limpo.
O oceano calmo.
Percy quis puxar Contracorrente e ferir algo tão seriamente quanto ele estava, de modo que existisse pelo menos algo tão miserável quanto ele no universo.
Porque o mundo estava zombando dele da forma mais cruel.
Mostrando sem palavras.
Ou gestos.
Que ele continua independente de quem para.
“Isso não é justo!”
Contracorrente tiniu contra uma pedra, cortando-a em dois. As criaturas marinhas que ali moravam fugiram apavoradas, sumindo dentro do reino de seu pai.
O filho de Poseidon estava furioso, diriam, sozinho numa praia qualquer ao sul.
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*
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“Percy, onde voc- Oh, olá?”
“H-hun. Oi, eu estava procurando pelo Percy.”
“E você é?”
“Grover Underwood.”
“Prazer, Grover Underwood, eu sou Dean Wilson. Solteiro e meu signo é Leão, adoro macarrão e comida vegetariana.”
“O-oi?”
“Infelizmente, meu colega de quarto não está, mas se você quiser esperar por ele comigo aqui-“
“Como assim, ele não está? São cinco da manhã de sábado, Percy nunca acorda antes do meio-dia nos finais de semana.”
“... ele meio que saiu duas horas atrás.”
“Oh... pesadelo?”
“Como você sabe?”
.
*
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Sentou-se na areia e observou o mar.
Contracorrente jazia em sua forma de espada enfincada em uma pedra a dez metros de distancia. Percy havia lançado a tampa nas ondas meia hora atrás.
Ele havia se acalmado, mas nem por isso estava melhor.
Sua cabeça pulsava tão dolorosamente quanto o seu coração, que parecia esmagado dentro do seu peito cheio de espinhos, furando-o a cada batida. Era como um osso deslocado dentro de si, num ângulo errado que rasgava o seu interior a cada movimento inconsequente seu. Sentia seus olhos cansados, inchado de lágrimas ainda não exatamente secas e todo o seu corpo parecia tremer como uma folha.
O sonho se reproduzia na sua mente sem parar. Parte por parte. Segundo por segundo. Morte por morte. Não queria, mas não podia evitar rever cada detalhe, cada nuança daquele sonho e começar a pensar sobre ele, mesmo contra sua vontade.
Em sua crise, ele havia negado fervorosamente que aquilo era uma visão do futuro e agora que estava mais calmo – agora que não mais gritava aos céus e nem sacudia sua espada para o mar, tentando matar um inimigo que não morria – ele podia confirmar que, realmente, não podia ser uma visão. Primeiro porque ele não era vidente e muito menos um Oraculo, não tinha dom nenhum para isso, então pelo próximo passo da lógica, Percy não podia ter tido uma visão do futuro.
Mas ele sabia que era um semideus e havia perdido noites de sono o suficiente nesses cinco anos de vida para saber que sonhos assim não eram simples pesadelos. Talvez não fosse uma visão propriamente dita, mas podia ser uma premonição, um aviso.
Ou talvez, pensou engolindo seco e fechando os olhos, uma ameaça.
Um novo inimigo surgindo ou um velho se reerguendo?
Ou...
“É você mesmo, Annabeth?” Perguntou num sussurro de voz, que foi carregado pelo vento.
Annabeth o estava ameaçando, era isso? Mas porque ela-
Ah.
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*
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Grover Underwood sorriu um sorriso triste que fez algo se quebrar dentro de Dean.
“Grover?”
“Posso te fazer uma pergunta?”
“... Claro.”
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*
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Dor.
Como um gás escorrendo por debaixo da porta, lentamente preenchendo o quarto inteiro, sem cor, sem odor. Apenas um gás comprimindo tudo, roubando tudo até que não restasse mais oxigênio nenhum e ele engasgasse, sem conseguir respirar, sem conseguir puxar o ar para dentro sem senti-lo se entalar na sua garganta e bloquear tudo, fazendo-o tossir e tentar tudo de novo só para ter o mesmo resultado.
Era doloroso como esse último ano, esses trezentos e sessenta e cinco dias e cinco horas e quarenta e oito minutos e quarenta e oito segundos. Sete décimos a mais ou a menos. Era doloroso como esse ano que se completava, inteiro entalado, esmagado num só momento nesse exato segundo. Todos os trezentos e sessenta e cinco dias e cinco horas e quarenta e oito minutos e quarenta e oito segundos comprimidos de uma vez dentro do seu peito e ele não conseguia respirar.
Você está perdendo a cabeça, informou uma parte sua que não estava engasgando, mas ele não se importava, não conseguia se importar porque-
porque era como gás, como o tempo no relógio, como um veneno que ele havia ingerido e ignorado os sintomas até agora. Até o momento que ele realizou o que tinha feito e não conseguisse mais respirar. Porque Percy havia feito o que ele fazia melhor: ele havia se distraído. Ele havia baixado a guarda, havia deixado outros assuntos invadirem a sua cabeça de modo que ele esqueceu
[desistiu]
de contar os dias, esqueceu de olhar para o calendário e realizar que os números mudando significavam alguma coisa e que o tempo passa e que o mundo não para, não para não importa o que acontece dentro dele e isso era injusto, tão injusto que um ano inteiro havia se completado e-
ele não conseguia respirar.
Sua mão estava agarrada a gola da sua jaqueta, puxando, enquanto que sua outra mão estava fechada em um punho na areia, os dedos escavando os grãos beges. Seu peito e sua garganta pareciam arder enquanto ele tentava puxar ar que não existia mais para ele, não mais, nunca mais e tudo estava girando cada vez mais rápido e ele queria- gritar, apenas gritar: Pare! Por favor pare, só por um momento, pare!
Mas o universo não para e a bolha de ignorância que ele havia criado para si mesmo, ignorando o fato de que o tempo ainda passa dentro dela, havia encolhido até começar a sufoca-lo e ele notar que-
“Percy?”
Olhou para trás e viu Nico parado sobre a areia, hesitante, angustiado e preocupado (parecendo não ter dormido nada nos últimos dias) e muito, muito cansado, exausto. E uma parte sua deveria se acender por aquele garoto, como havia acendido naqueles últimos meses, perguntar sobre Hazel e se alguma coisa havia mudado desde a sua visita duas semanas atrás, mas ele não conseguia se preocupar com ele, não conseguia se preocupar com nada quando ele não conseguia respirar.
[Não se esqueça de que Nico me matou.]
Então abriu a boca e perguntou.
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“Você sabe que dia é hoje?”
Dean franziu o cenho e respondeu.
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Nico pareceu empalidecer mais do que nunca, mas a expressão angustiada em seu rosto não sumiu quando ele respondeu numa voz baixa que Percy só entendeu porque ele já sabia a resposta.
“1° de Dezembro.”
E o gás preencheu todo o local, ocupando o que antes deveria ser oxigênio.
Ele não mais queria respirar.
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“E o que é que tem de especial hoje?” Indagou o mortal sem entender.
Grover o encarou com olhos nozes tristes e o mundo pareceu ficar mais escuro.
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Ele não registrou exatamente o modo como o rosto de Nico se transformou de angustia para culpa e dor, porque seus olhos estavam repentinamente queimando e nublando.
Ele não notou quando Nico encolheu quando ele soluçou um som quebrado, porque estava ocupado em sentir algo remendado dentro de si voltar a quebrar de novo.
[ele havia esquecido que hoje era-]
Ele não viu quando Nico disparou do ponto onde ele estava congelado, com medo demais para chegar perto de si, porque ele fechou os olhos e sentiu as lágrimas quentes e pesadas como lava escorrerem pelo seu rosto.
Mas ele distinguiu quando Nico caiu ao seu lado e o abraçou com força, enterrando o rosto no seu pescoço e trazendo-o para o peito menor e mais magro.
E ele ouviu quando o menor falou baixo, numa voz desesperada e angustiada:
“Percy, eu sinto muito.”
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Dean sentiu o coração parar por um momento ao ouvir a resposta.
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“Eu sinto muito.”
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“O que?! Repete o que você disse!”
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E sentiu quando, de repente, Nico o beijou.
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Grover suspirou e repetiu tristemente.
“Hoje completa um ano que a namorada do Percy morreu.”
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