Nem Tudo É De Primeira
10 Nem Tudo É De Primeira
Notas iniciais
O lugar era uma série de colinas cobertas de grama verde e fresca, o cheiro da chuva impregnando o ar. Havia algumas poucas árvores espalhadas pelo local, os sinais do outono começando a sumir para dar espaço ao inverno, deixando as folhas coloridas como o desenho de uma criança voarem pelo chão. O sol se pondo lançava uma luz nebulosa sobre o local, deixando claro somente as lápides brancas espalhas de maneira organizada pelo gramado.
Talvez não fossem só os filmes de Hollywood. Talvez todo cemitério no mundo tivesse mesmo esse ar triste e calmo, como se aquele pedaço do universo soubesse que não trazia nada além de tristeza para as pessoas e soubesse também que nada podia fazer sobre isso. O mínimo que ele podia fazer era dar privacidade de um mundo isolado e uma brisa suave e fresca para levar o som dos soluços embora de ouvidos alheios.
Percy nunca visitou um cemitério na sua vida.
Isso deveria chocar? O fato era que ele nunca teve motivos para visitar um, já que seus avós mortais foram cremados e suas cinzas despejadas na terra natal da sua mãe (porque depois do acidente aéreo não havia muito que enterrar) e nunca tivera um amigo próximo que perdera alguém e o tivesse convidado para o enterro.
Claro que ele já tinha visto uma cerimônia funerária – o ano do seu aniversario de 16 e 17 ainda estava fresco na sua memória, mas aquilo foi diferente. Ele ajudou recuperar os corpos que podiam ser recuperados, ele ajudou o quanto suportou arrumar os restos mortais, ele auxiliou na queima das mortalhas, mas foi isso. Se o semideus falecido não tivesse sido levado magicamente pelo seu pai divino, então Quíron havia avisado a família mortal da criança que veio buscar o corpo. Nos casos onde não houve manifestação de nenhuma das partes, porque ou o semideus não tinha família humana e/ou seu pai divino não se deu o trabalho de homenagear o corpo do filho que morreu protegendo-o, Dionísio havia os transformado em videiras douradas e os colocados em uma campina no meio da floresta onde o deus do vinho assegurava pessoalmente que nada e nem ninguém com más intenções pudesse se aproximar (Ele não era o maior fã de Dionísio, mas depois que o pegou regando manualmente as videiras Percy parou de provocar o deus).
Mesmo depois da Batalha de Manhattan ele não foi convocado para um cemitério. As famílias mortais não convidaram ninguém do Acampamento para os enterros e os deuses todos imortalizaram os corpos de seus filhos de alguma forma – estrelas, plantas, outros símbolos do que eles foram durante a vida, de modo que não havia o que visitar.
E mesmo depois quando Gaia resolveu tentar acordar, surpreendentemente quase não havia tido baixas. E nenhuma próxima a si.
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[Quase nenhuma.]
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Percy nunca conseguiu ir a um cemitério antes.
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Suspirou, sentindo o cheiro de chuva entrando no seu corpo enquanto observava o caminho de pedra em que estava se transformar lentamente em grama. Deu um passo para frente e sentiu seu tênis afundar de leve contra a superfície mole, quase sem ruído nenhum.
Nenhum problema, certo? Nenhum, só que seu corpo não queria dar o outro passo.
Travou a mandíbula e fechou as mãos em punhos, desejando poder fazê-las parar de tremer com força de vontade.
Do nada sentiu seu bolso mexer violentamente.
Pulou de susto e olhou para o local do distúrbio, mas antes que pudesse reagir um pequeno Animus chamado Sacha pulou para fora velozmente.
“Ei, garota!” Exclamou surpreso e tentou segurar o peixinho, mas ela habilmente desviou dos seus dedos. Quando piscou os olhos, havia longos rastros de neblina verde circulando sua cabeça com a criaturinha do rio Lete liderando. “Sacha! O que você esta fazendo? Sacha!”
Por instinto começou a tentar segui-la, mas num flash se lembrou.
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[Você nunca vai conseguir assim, Percy. Animus são criaturas agitadas, pra você ver um você deve ficar parado.]
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Apertou os lábios e respirou fundo. Recompôs-se, trazendo os pés perto um do outro e descansando suas mãos dentro dos bolsos da sua jaqueta. Esperou pacientemente. Observou uma brisa gelada soprar, levando embora as trilhas esverdeadas no ar que sumiram junto às folhas de outonos de vários tons de vermelho e marrom e notou que não surgiu outro traço de nevoa no lugar.
Após um minuto inteiro parado, sentiu um toque macio e suave em sua nuca. E como sempre sentiu logo em seguida um calor morno se espalhar do ponto de contato para o resto do seu corpo enquanto mil e uma imagens começaram a surgir em sua mente feito um filme sem som ou cores.
Nico sorrindo timidamente para sua mãe, comendo um cookie azul. Nico conversando com Hazel com uma expressão tranquila no rosto. A risada dele ecoou, seguida da gargalhada sem fôlego, um flash rápido dele caído no chão segurando a barriga. Um Nico de dez correndo loucamente pelo Acampamento, a armadura grande demais em seu corpo. O seu olhar sério, ao lado do seu divertido. O sorriso de lado sardônico, o sarcástico e o falso, todos fracos se comparados ao sorriso pequeno e honesto. O rosto pálido de vários ângulos, segurando diversas expressões, de medo à alegria, de carinho para desprezo. Nico ficando tenso ao vê-lo. Nico relaxando ao vê-lo.
E mais vieram, enchendo sua cabeça até que o tremor do seu corpo sumiu e o peso que segurava seus pés o soltou e respirar era mais fácil e seu peito não parecia mais feito de espinhos furando seu coração a cada batida.
Com um sorriso pequeno inconsciente, Percy ergueu a mão para sua nuca e gentilmente segurou Sacha, trazendo-a para frente do seu rosto. “Já entendi, garota.” Falou suavemente e deslizou seu dedão pela espinha do animal, quase sem senti-lo direito. Seu bichinho de estimação rolou pela sua palma, de modo que ficasse de frente um do outro e ele poderia jurar de pés juntos que havia um tom satisfeito no abanar daquela calda minúscula.
Com um riso e um suspiro, guardou Sacha delicadamente em seu bolso, deixando-a deslizar para dentro ao seu modo. Então olhou para frente, encarando aquele lugar triste com olhos mais firmes, pois o Animus estava certo.
Ele tinha uma missão aqui, não podia se deixar distrair.
Deu um passo para frente e então começou a caminhar.
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Os seus passos quase não faziam som contra a grama molhada e como ele havia desligado o seu poder de impermeabilidade quando saiu do trem, quase uma hora atrás, seus tênis estavam encharcados. Embora ele estivesse trapaceando um pouco e mantendo suas meias secas e protegidas da água. De tempo em tempo ele também trocava a caixinha da Sacha de mãos, para aquecer os dedos com o calor do objeto, enquanto caminhava lentamente por entre as lápides olhando de nome em nome cuidadosamente.
Apesar de ele saber que a mãe de Nico havia sido enterrada ali e que ela havia ganhado um caixão vazio ao seu lado com o nome de sua filha (porque ele havia feito à questão de decorar o nome de todos os lugares onde os seus amigos foram supostamente enterrados), Percy não tinha ideia de onde exatamente era o túmulo. E ele não havia achado ninguém para perguntar se havia algum tipo de registro desse tipo de coisa.
Suspirou silenciosamente e passou o cubo para a outra mão, aliviando os dedos congelados com o vento frio. Então ele ergueu os olhos e observou o horizonte, tentando contar quantas lápides ainda faltavam.
Foi quando uma figura solitária capturou sua atenção.
Estava em pé a uns cinquenta metros dali, parada diante de uma das pedras arredondada e vestida completamente de branco, carregando um buquê de flores extremamente coloridas que pareciam gritar de vida naquele lugar cinzento e triste. A figura se agachou diante a lápide suavemente.
Parou de andar.
Era loira, um longo cabelo volumoso voando pelo ar.
Antes de se tocar do que estava fazendo, voltou a andar ainda mais rápido, seus passos agora causando baques surdos contra o chão molhado. Seus dedos apertaram inconscientemente o cubo de Sacha enquanto seu coração acelerava conforme aumentava a velocidade. “Ei!” Gritou, o som sendo levado pelo vento até mais adiante.
Viu a figura se virar para si.
Nessa hora o vento soprou violentamente de trás e Percy tropeçou para frente, desiquilibrando em passos desengonçados e quase caindo de cara no chão. Conseguiu se apoiar numa das pedras brancas, evitando desabar na última hora e ralando a mão no processo, os dois joelhos afundando na terra mole.
Soltou um palavrão de dor. Então parou e olhou para o lado, tirando sua mão da lápide. O nome Emily W. Gregson surgiu esculpido perfeitamente embaixo da foto antiga de uma garota morena, sorrindo inocentemente para si. Percy engoliu a saliva da sua boca. “Desculpe.” Falou num tom baixo. “Eu não... não quis cair em cima de você. Desculpe.”
Emily W. Gregson continuou a sorrir.
Percy se ergueu, limpando as mãos na jeans que estava imunda de terra do joelho para baixo. Olhou para o horizonte de montes cobertos de grama e pontilhados de pedras brancas idênticas em todos os sentidos, quase sem arvores e com folhas vermelhas e marrons voando.
Não havia ninguém lá.
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Quando ele se aproximou do local, ele imediatamente viu o buquê de flores coloridas deitado gentilmente no chão. O filho do mar parou por um momento, suas mãos enfiadas no fundo dos bolsos da sua jaqueta e o vento fazendo seu cabelo chicotear no seu rosto. Uma folha alaranjada ficou presa no seu pé, balançando freneticamente querendo ser livre com suas amigas.
O buquê continuou lá, seu plástico transparente fazendo um ruído suave.
Com o seu coração palpitando nos seus ouvidos, Percy ergue o pé e libertou a folha que saiu voando. Caminhou em silêncio até estar diante do buquê e se agachou, tocando com a ponta dos dedos o plástico limpo e perfeitamente dobrado envolvendo os ramos das flores. Estava frio.
Ergueu a cabeça e notou que havia parado num ponto entre duas lápides, mais próximas uma da outra do que as restantes.
Maria e Bianca di Angelo sorriam para si em preto e branco.
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Maria di Angelo
Amada mãe, filha e mulher
“Dos anjos para nós.”
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Bianca di Angelo
Amada e querida irmã e filha
“Coragem e amor são tudo o que temos.”
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Cruzou os braços sobre os joelhos e olhou as fotos antigas e bem cuidadas, presas através de um vidro arredondado pequeno em uma pedra de mármore branco. Os nomes italianos estavam esculpidos em linhas perfeitas, leves covas na pedra e pintados do mais leve dourado, realçando as palavras para serem possíveis de ler. Não havia datas.
Ainda era tão desconcertante ver o quanto Bianca e sua mãe eram idênticas quanto foi a primeira vez. A única coisa que separava as duas pessoas naquelas fotos era a idade, uma criança e outra adulta. Podiam muito bem ser fotos da mesma pessoa em épocas diferentes. Os mesmos cabelos negros ondulados perfeitamente, caindo pelos ombros como uma cascata no caso de Bianca e presos num coque solto com um elegante chapéu estilo anos 40 no caso de Maria. A mesma mandíbula elegante e pescoço fino, com a maça das bochechas afiadas e charmosas. O exato mesmo sorriso, grande e natural.
Com um aperto doloroso no peito Percy viu o quão linda Bianca teria sido caso tivesse sobrevivido.
Caso ele tivesse feito seu trabalho e a protegida.
Esticou a mão e tocou de leve a moldura de ferro da foto, sentindo o frio cortante pinicar sua pele. “Vocês sabiam?” Perguntou num sussurro sem volume, só para seus ouvidos. O vento soprou violentamente, frio como uma geada e Percy teve que recolher de volta o braço. Olhou do rosto de Bianca para o rosto de Maria. “Vocês sabiam? Por que ele tem tanto medo?”
Ele sentiu alguém surgindo atrás de si e se virou.
Vocês o ensinaram a ter medo? Bianca?
Vestindo jeans e camiseta preta, sem sinal nenhum de algum agasalho mais apropriado, Nico di Angelo o cumprimentou de olhos arregalados.
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Houve um momento em que o mundo pareceu parar. O vento, o frio, as folhas dançantes. Tudo. Até seu coração ficou silencioso por um segundo inteiro. Só os dois, um agachado e outro em pé, se encarando em medidas desproporcionais de choque e apreensão.
Então uma folha vermelha voou e o encanto foi quebrado.
O vento uivou.
Seu coração voltou a bater.
E Nico se virou e correu.
Mas dessa vez Percy estava preparado e assim que o menino deu um passo na direção oposta, ele pulou.
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Seu corpo chocou com violência contra o menor e os dois caíram no chão molhado sem elegância nenhuma, desabando de lado e enterrando os cotovelos na terra. Mas Percy não teve tempo para assimilar a dor nos seus braços, porque imediatamente após cair ele sentiu Nico tentar escapar de si e foi obrigado a agarrar o menor pela cintura. “Nico, espera!”
“Me larga!” Ele gritou, esperneando violentamente. Sentiu uma mão gélida tentar soltar o seu braço com força que o surpreendeu e ele teve que rolar sobre o outro semideus para impedi-lo de fugir, ficando meio por cima do menor. Nico soltou um grunhido furioso e redobrou os esforços para escapar, quase acertando sua cara no processo. “Me larga, Percy!”
“Não, Nico, me escuta-!”
“Escutar o que?! Me deixe em paz!” Um cotovelo rápido acertou o seu estômago, encravando sem dó ou piedade e Percy teve que conter um palavrão de dor. Sem poder evitar, seus braços afrouxaram o aperto momentaneamente e Nico imediatamente esperneou para frente.
Mas ele já havia aprendido esse truque no Acampamento e conseguiu reagir a tempo, avançando junto do outro garoto e recuperando a força perdida nos braços. Dessa vez caiu completamente em cima do menor, circulando mais o peito do filho de Hades do que a cintura e com o seu rosto enterrado nas costas magras, na região entre as omoplatas. O semideus menor soltou um soluço surpreso e sem ar quando desabou de volta ao chão, com Percy Jackson nas costas.
Dessa vez o garoto parou de se mexer, respirando pesadamente fazendo seus ombros subirem e descerem. Com todo esse contato humano, Percy não pode não notar que Nico estava congelando e tremendo. Ele sentiu o coração do mais novo batendo rapidamente contra sua palma, presa entre o corpo menor e o chão.
“O que você quer?” O filho de Hades perguntou, a voz baixa e quebrada. Implorando sem palavras Me deixe ir.
Inconscientemente Percy apertou o mais novo ainda mais contra si. Apoiou a testa na região abaixo da nuca de Nico, encarando sem ver a camiseta preta que ele usava. “Eu quero conversar.”
“Sobre o que?” Ele indagou com uma indiscutível nota de desafio, afronta.
Não se atreva.
Mas ele tinha. Essa era questão dessa coisa toda. Ele tinha que fazer aquilo, porque abandonar as pessoas que precisavam dele era um hábito seu que ele ia arrancar de si mesmo, nem que fosse a força. Fechou os olhos. “Me desculpe, Nico.”
Ouve um momento de silêncio e então o filho de Hades riu, um som completamente desprovido de humor e vida. Foi como uma facada no seu peito. “Me solte.” Ordenou, a voz fria. Dedos gelados se enterraram nos braços, tentando faze-lo soltar.
“Nico-“
“Me solte.”
“Não.”
“Percy, me solta!” Ele exclamou e esperneou, tentando escapar.
Desviou da cotovelada e não soltou. “Eu preciso te falar uma coisa-“
Nico enrijeceu o corpo inteiro com uma fúria e raiva tão intensas, uma aura de poder negro que Percy sentiu como um golpe físico no seu interior e então o menino socou o chão com violência. Imediatamente uma onda de tremor vibrou daquele ponto para o resto do cemitério, sacudindo as árvores e fazendo todas as folhas voarem para longe. Um bando de pássaros levantou voo, soltando sons assustados.
“Eu não preciso da sua pena!”.
Então uma onda de poder negro ergueu-se violentamente do menor como um manto de noite e Percy foi lançado para trás. Atingiu o chão com uma força que lhe tirou o fôlego e rolou várias vezes até bater contra algo que o fez parar. Sentiu uma dor agoniante se espalhar das suas costas para o resto do seu corpo e por um segundo ele não conseguiu abrir os olhos, sem a capacidade de gritar de dor.
Cerrou os dentes, talvez mordendo o lábio ou a língua no processo porque o gosto metálico invadiu a sua boca, e se virou apoiando-se sem firmeza no chão. Olhou para cima.
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Olhou para Nico.
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Nico ajoelhado no chão com os dedos agarrados a terra, a roupa escura e os cabelos negros balançando violentamente devido à ventania ao seu redor. Ventania causada por conta do seu poder, negro e impossivelmente forte infestando o ar daquele lugar, como um furacão de escuridão varrendo tudo num raio de vinte metros sem piedade ou controle. Era incrivelmente opressor, intimidador. Perigoso. Era como andar nos Campos de Punição. Era como olhar para a boca do Tártaro.
E Percy sentiu medo. Sentiu medo por si mesmo.
Sentiu medo de Nico.
Não dá, implorou seu instinto, simplesmente não dá. Fuja.
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Mas então o garoto se virou para si e os olhos dos dois se encontraram.
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[Você já encontrou uma criança perdida no shopping ou em qualquer outro lugar? Você olhou para a expressão dela? Uma expressão completamente aberta, vulnerável demais, expondo tudo sem pensar. Medo, confusão, temor, um pedido de socorro sem palavras? E você já sentiu a intensa necessidade de querer proteger porque isso é muito perigoso e mesmo que crianças sejam assim, e todo mundo saiba, o mundo é afiado demais para que alguém possa se deixar exposto assim, com sentimentos macios e suaves prontos para serem cicatrizados e feridos?
E você não pode deixar isso. Crianças não sabem usar máscaras ainda. Elas ainda não sabem o que é se esconder. Tem que ter alguém segurando a mão delas para guia-las nesse mar de pessoas, elas têm que ter uma sombra na qual se esconder por enquanto e uma figura que saiba dos perigos do mundo para protegê-las das pontas afiadas.
Só que a criança está perdida. Ela não tem ninguém ali. O que você faz?]
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Todo o resto sumiu como se nunca tivesse existido em primeiro lugar. Percy se ergueu do chão, já não sentindo a dor e nem o frio e começou a caminha em direção ao furacão negro, lutando firmemente contra a ventania forte açoitando o seu corpo e querendo fazê-lo cair. Mas ele não ia. Um pé atrás do outro sobre a grama molhada e o chão mole. Mãos para protegê-lo e braços para equilibra-lo. Ele avançou sem medo nenhum.
Nico o viu e o menino se ergueu, as mãos fechando-se em punhos cerrados e com os nós dos dedos esbranquiçados. Olhou-o com raiva e fúria, todo o seu corpo tenso em uma pose defensiva. “Me deixe em paz!” Gritou ele e mais ondas escuras explodiram. “Eu não preciso da sua pena! Eu não preciso da sua culpa! Vá embora!”
Uma torrente de poder o atingiu violentamente e ele vacilou um passo para trás. Mas logo se recuperou com um grunhido de força, lutando contra o fluxo do vento. “Não, você não precisa! Eu sei disso! Me desculpe!” Gritou de volta, protegendo seus olhos com o braço. Forçou-se a dar outro passo, quase escorregando no processo. “Me desculpe, Nico, me perdoe!".
Engoliu em seco. "Mas eu não estou aqui só por causa disso, eu estou porque eu quero te ajudar!”
Nico riu sem alegria nenhuma. “Não tem o que ajudar, eu-...!” Parou e pareceu engolir palavras dolorosas, amargas antes de gritar em raiva de novo. “Apenas me deixe em paz!”
Desequilibrou para o lado. “Olha, Nico, eu entendo-“
“Não, você não entende!” O garoto agarrou seus próprios cabelos, tampando os ouvidos com seus braços. “Ninguém entende! Me deixe sozinho!”
“Eu sou seu amigo, me deixa te ajudar!” Implorou, quase sem forças já.
Houve um lampejo de dor em meio ao mar de cólera naqueles olhos negros e Nico cerrou os dentes. “Eu não tenho amigos! Vá embora!” Berrou e fez um amplo movimento com o braço, que lançou uma ventania negra em sua direção. Percy recebeu o golpe que quase o lançou ao chão e para evitar cair foi obrigado a por um pé atrás, ficando de joelhos na terra.
Dessa vez em vez de mágoa, as palavras do outro semideus despertaram uma chama de raiva dentro de si.
Olhou para cima e sentiu seu interior explodir.
Ao mesmo tempo água rompeu de todos os lados, erguendo-se violentamente do chão e condensando-se do ar úmido, escorrendo de superfícies molhadas e escapando dos encanamentos embaixo daquele lugar. Ergueu-se pura e feroz e em segundos, Percy tinha seu próprio furacão envolvendo seu corpo com vento e água rodando velozmente. Seu próprio poder emanou em ondas invisíveis pelo local, competindo contra o do Nico em pé de igualdade.
Ergueu-se do chão sem dificuldades e encarou o outro semideus diretamente nos olhos, sentindo sua expressão dura de raiva. E quando falou, apesar de Percy não ter notado, sua ecoou mais do que deveria carregada de poder e fúria. “Sim, você tem. Se você descesse da droga do seu pedestal, você veria.”
Nico o encarou de olhos arregalados e deu um passo inconsciente para trás quando ele avançou. Ignorou isso. Ignorou como estava saindo do controle. Ignorou tudo. A represa havia sido rompida e ele não conseguia parar mais a inundação.
Ele não queria.
“Talvez eu não entenda perfeitamente o que você está passando, talvez ninguém que você conheça entenda! Pode ser que as coisas sejam piores pra você do que jamais foi pra mim!” Percy gritou, as mãos em punhos enquanto caminhava, se aproximando incessantemente do outro semideus, repelindo as ondas de poder como seu próprio sem nem ao menos pensar. “Mas você não se atreva a desprezar o que eu passei, o que todo semideus já passou, o que todo semideus está passando! Não se atreva a olhar nos meus olhos e desprezar os seus amigos só porque você não consegue confiar neles!”.
Então o choque sumiu das feições de Nico e a fúria voltou com força total, renovando o poder a sua volta o suficiente para chocar contra o seu e para-lo. “Amigos?! Que amigos que eu tenho para confiar?! Os mesmos que recuam toda vez que eu chego perto?! Os mesmos que me ignoram por causa do meu pai?! Os que me chama de estranho e aberração toda vez que eu viro as costas?!” Ele riu um som impossivelmente ácido. “É, tantos amigos maravilhosos que eu estou desprezando!”
Isso foi como um tapa no seu rosto e Percy teve que parar por um segundo, tentando recuperar o fôlego. “Não!” Ele gritou e sua garganta doeu com a força, com a intensidade que ele pronunciou essa palavra. "Eu estou falando daqueles que já arriscaram suas vidas para te salvar!" Arranhando as cordas do seu coração.
Todas as emoções derreteram do rosto gélido de Nico e ele o encarou de maneira fragmentada, surpresa com um golpe que ele não esperava sentir. O garoto cambaleou para trás e se virou, desviando o olhar para o chão. Ele fragilmente se abraçou, envolvendo o próprio corpo com seus braços magros.
De repente o furacão negro parou.
Percy engoliu o sangue na sua boca e fechou os olhos.
Um segundo depois o seu redemoinho de água também morreu.
Seus dedos se relaxaram dos punhos cerrados, deixando quatro ferimentos em cada palma. Suspirou fundo, sentindo o ar entrando profundamente no seu peito e então soltou a respiração devagar. Olhou para Nico e ele já sabia melhor do que tentar manter sua raiva acessa.
Sua paciência podia ter pavio curto, mas sua fúria também.
“Ela era sua amiga, Nico.” Falou num tom baixo, sem confiar muito na sua voz para ser estável. O vento soprou gentilmente, balançando seu cabelo e acariciando o seu rosto. Fechou os olhos por um momento, sentindo o toque da brisa, antes de abri-los de novo. “Você não está sozinho, você tem amigos.”
Nico não havia se mexido de onde havia parado.
“E apesar de eu ter errado muito com você, eu também...” Parou, ouvindo sua própria voz vacilar. Molhou os lábios uma vez antes de morder o inferior levemente, ao mesmo tempo em que deslizou os dedos pelo seu cabelo. Tentou relembrar as palavras que havia planejado dizer, as coisas que na sua cabeça iriam resolver toda a situação na noite anterior. Mas sua cabeça estava em branco, como a primeira pagina de um caderno novo.
Soltou um grunhido frustrado e deslizou sua mão pelo rosto, como se pudesse varrer todo aquele mar de sentimentos de dentro de si com aquele ato simples.
“Percy.”
Olhou de volta para Nico e notou que o menor havia se voltado ligeiramente para a sua direção, ainda abraçando a si mesmo. Ele olhava para onde estava, mas os orbes escuros pareciam se focar num ponto perto dos seus pés por de trás da franja negra. “Percy, eu...”
Adiantou-se para frente rapidamente, gesticulando as mãos na frente do seu corpo. “Olha, eu sei que eu já... dei muito mancado com você. Que eu já passei da minha segunda chance, mas eu realmente... realmente quero ser seu amigo, de verdade.” Falou na beirada da imploração, suas mãos se juntando como numa prece. Olhou para Nico, vendo-o encara-lo de debaixo para cima de modo incerto, dolorido, ainda encolhido contra si mesmo. Engoliu em seco. “Se você puder me dar mais uma chance, só... só mais uma, eu gostaria de te ajudar. Se você... me ajudar a entender, porque eu realmente- eu não sei o que é estar na sua pele, eu realmente não sei. Mas...” Parou, seus pés pousando sem som contra a grama molhada. Olhou firmemente naqueles olhos escuros cheios de hesitação e medo que só agora ele era capaz de entender. “... mas eu sei o que é se sentir o estranho e o deslocado dos lugares, Nico. Eu sei o que é sentir que todo mundo está falando de si pelas costas e a sensação de nunca ser exatamente aceito, se apenas tolerado. Eu sei. E esse mínimo que eu sei, se você deixar... eu queria poder usar para te ajudar.”
Nico arregalou levemente os olhos para si, encarando-o enquanto sua boca tremia com palavras não ditas ou formuladas. O garoto parecia completamente perdido, olhando-o como se nunca tivesse visto-o antes, com o mar de emoções em seu rosto tempestuando e fragmentando e quebrando tudo pelo caminho.
Até que tudo transbordou e Percy viu os olhos escuros se encherem de lágrimas enquanto o menino soltava uma risada molhada e frágil. “Isso foi tão meloso, Percy.”
Sorriu e no segundo em que levou para dar um passo para frente, o sol surgiu por entre as nuvens e iluminou momentaneamente onde eles estavam, e antes de circular o menor com os seus braços e abraça-lo firmemente, Percy realizou uma coisa que nunca tinha notado.
Nico tinha olhos castanhos.
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