Neko...?!

1 Gato preto dá azar...


Notas iniciais
Os gatos eram considerados sagrados no Egito antigo, graças a boa ajuda dos felinos na caça aos ratos e outros roedores. No entanto, na Idade Média, os gatos, especialmente os pretos, foram associados à bruxaria. Praticantes de religiões ancestrais europeias praticavam rituais de magia que foram considerados demoníacos pela Igreja Católica, e muitos gatos pretos foram para a fogueira, junto com seus donos.

Ah... O pôr do sol.

Acho que era uma das coisas que eu mais gostava de apreciar na vida.

Respirei fundo, me sentindo presenteado com a bela vista da varanda do meu apartamento, apreciando-a tranquilamente tomando meu café.

Poderia dizer que... Não há nada melhor do que sexta-feira. Primeiro, nesse dia eu só trabalhava pela manhã, e segundo, no dia seguinte não tinha que trabalhar. Não que eu seja algum tipo de vagabundo nem nada, mas conviver no mesmo ambiente de trabalho que o meu tio Cross Marian e ainda aturar todo tipo brutal de cobrança que o desgraçado fazia era de matar. E fora as fofocas de que eu só assumiria a empresa por causa da influência do meu pai.

Droga, quem mais sofre naquela desgraça sou eu!

- Fazendo o quê, Allen-kun? – A voz doce da Lenalee soou atrás de mim.

- Remoendo a vida e apreciando o pôr do sol. – Respondi tomando mais um gole de café enquanto ela vinha se sentar do meu lado rindo.

- Adoraria te acompanhar se pudesse. – Comentou calçando as botas de salto.

- E eu adoraria que você me acompanhasse, mas não quero apanhar da Road por ficar monopolizando você de novo. – Respondi fazendo-a sorrir gentilmente me dando um beijo no rosto.

- Own, eu tenho o noivo mais fofo do mundo...

Ah não mencionei? Vamos nos casar próxima semana.

Ok, eu não estava digamos... Entusiasmado com a idéia, mas eu também não discordava.

Eu e Lenalee éramos amigos de infância, e desde pequenos nossas famílias praticamente nos empurravam para cima um do outro. É aquela velha história de famílias donas de empresas poderosas, casamentos arranjados e blá blá blá. Bom, pelo menos eu gostava da minha noiva.

Tá certo, eu não amava a Lena como um homem deveria amar uma mulher, e ela também estava na mesma em relação a mim, mas pelo menos éramos bons amigos e não era nenhum sacrifício convivermos. Aliás, já morávamos juntos há um ano (é o que ela chama de fingimento de relacionamento amoroso level hard) e já nos pegamos umas duas vezes (tão bêbados que eu nem sei se rolou “algo a mais” ou não) mas... Nunca passou disso.

- Você diz tanto que eu sou fofo que às vezes me sinto um bicho de pelúcia. – Murmurei falsamente irritado, fazendo-a rir da minha cara.

- E quem falou que você não parece? – Comentou apertando minha bochecha.

- E você é um cosplay da Black Rock Shooter. – Respondi fazendo bico, lembrando dos animes que a gente via na adolescência. E ainda vemos.

- E você é o Shion. – Respondeu empenhada em continuar aquela discussão até não termos mais personagens para citar, porém seus planos foram frustrados pelo toque da campainha.

- Ah, a Road chegou. – Falou pegando a bolsa em cima do sofá e indo abrir a porta.

Acontece que hoje à noite as duas iriam fazer um “programa de garotas”, já que a Road iria viajar e só voltaria no dia do nosso casamento, e eu ficaria em casa tomando conta do gato da Road. E acreditem, eu estou MUITO feliz com isso. Por que se eu não tivesse uma desculpa para ficar quieto em casa hoje (mesmo que fosse ser babá daquele gato estúpido), Lavi e Krory iriam aparecer por aqui e quando a Lenalee chegasse, o apartamento estaria lotado de strippers e pessoas desconhecidas e eu iria estar acordando pelado na cama, junto aos dois, no mesmo estado que eu, e sem lembrar de nada.

E sim, isso já aconteceu uma vez.

Ela me bateu com uma chave inglesa e sumiu por uma semana.

- Yo Road! – Cumprimentei-a com um abraço apertado.

- Yo Allen! – Respondeu bagunçando meu cabelo. – Enfim, estou seqüestrando sua noiva até amanhã, mas em compensação vou te deixar tomando conta do meu gato de guarda até que eu volte de viagem.

Olhei para a cara de “vou te matar” que o gato fazia para mim. Sério, um pitbull faminto parecia mais dócil.

- Pode deixar. – Respondi sorrindo confiante.

- Ah, só uma coisa. – Lembrou – Se acontecer alguma coisa ao Kanda... Allen Walker, eu vou te pregar na parede, furar seus olhos, e cortar todos os seus tendões. Entendeu? – Completou com um sorriso psicótico.

Serio, eu tenho medo da Road.

- S-S-Sim! – Respondi de imediato.

- Se é assim... Pega, são as coisas dele. – Me entregou uma mala ENORME. Sério, dava pra guardar meu quarto inteiro ali. – E esse é um pequeno guia de como cuidar dele. – Continuou me entregando um livro que fazia a bíblia parecer um folheto. – E essa é a gaiolinha. – Me entregou a gaiola, tirando o gato de dentro dela e o abraçando junto ao peito.

Era um gato bem bonito na verdade. Tinha uma pelagem negra como ônix, olhos azuis escuros como o céu noturno e era levemente felpudo. Só um problema... Era o demônio.

Não estou brincando. Aquele gato tinha bem uns dezesseis anos e parecia novinho! E fora o humor horrível e o fato de que ele simplesmente me odiava e tentava me arranhar sempre que eu chegava perto.

-Nee Kanda, se o Allen-chan for mau com você, pode espancá-lo, viu? – Falou para o gato lhe dando um beijo na testa. – Mamãe volta logo, tá? Se comporte. – Falou por fim, soltando o gato que entrou calmamente no apartamento e se sentou no sofá.

- Você fala como se eu fosse um psicopata assassino de animais. – Comentei irritado recebendo um olhar acusador da baixinha.

- Você quase enforcou ele uma vez. – Respondeu séria.

- Foi sem querer! Eu estava tentando tirar aquele bicho do meu pescoço! Ele me deixou uma cicatriz com aquela mordida, sabia? – Protestei.

- Você comeu o sobá dele.

- Como diabos eu iria saber que o gato come sobá?! – Insisti impressionado como ela ainda jogava a culpa de ter um gato psicopata em mim.

- Nee gente, vamos acalmar os ânimos aqui... – A Lenalle se intrometeu me dando outro beijo no rosto. – Thau Allen-kun!

- Até mais, Allen! – Se despediu também a Road, já de bom humor, me beijando do outro lado.

- Iterasshai!* – Falei me sentindo uma dona de casa quando os filhos vão embora.

- Ittekimasu! ** – Responderam animadas e eu fechei a porta.

Olhei para trás e vi o gato com o controle mudando os canais da televisão.

Sério, esse bicho não é de Deus.

E para piorar, a criatura para num canal onde passava um documentário sobre os maiores Serial Killers da história e começa a assistir com uma expressão muito interessada.

Esse bicho definitivamente não é de deus.

Fui até o quarto de hospedes, onde larguei a mala e me joguei na cama, começando a folhear o livro de instruções de como cuidar de um gato maníaco atrás de algo para dar para aquele troço comer. Afinal, eu tinha dois peixinhos dourados em casa e gostava muito deles, então era melhor não arriscar.

Índice:

Introdução

Regras de Convivência .......... 10

Cardápio ............. 103

Cuidados especiais ............... 150

Avisos ............. 220

Sério que aquela coisa tinha até índice?

E caramba, 93 paginas só sobre convivência? E ainda mais, o que diabos eram esses “avisos”?

Eu não me surpreenderia se encontrasse algo como: “Durma com as portas janelas bem fechadas” ou “meu gato é a reencarnação do Hannibal Lecter”...

Ok, é melhor eu ir ao que interessa.

Dei uma olhada na página de cardápio, vendo que era praticamente um livro de receitas com as comidas preferidas do bichano. Sorri animado, afinal eu amava cozinhar e os pratos pareciam deliciosos.

Corri para a cozinha e passei um bom tempo preparando um Peixe ao Gengibre e Maracujá ***, que ficou realmente bom, e depois fui chamar o monstro para jantar e o encontrei dormindo no sofá. Mas não dormindo enroladinho como um gato normal, ele abraçava uma almofada e dormia com a boca levemente aberta, respirando suavemente.

- Kawaii... – Comentei realmente besta com a cena.

Pena que eu tinha que acordá-lo.

- Hey... – Chamei baixinho e ele nem se mexeu.

— Hey. – Chamei de novo cutucando sua pata.

– Hey, Kanda. – Cutuquei sua barriga dessa vez, mas ele apenas se remexeu. Gato preguiçoso.

- ACORDA BAKANDA! – Gritei já sem paciência, fazendo o bicho pular uns trinta centímetros e depois cair espatifado no tapete.

Puts... Fazia tempo que eu não ria tanto!

Sério, parecia até uma daquelas situações que se vê naqueles vídeos na internet de gatinhos se ferrando ou fazendo coisas fofinhas.

E é claro, nem tive tempo de aproveitar a risada, e aquela coisa pulou no meu pescoço, enterrando as unhas lá.

- Aaaaahhhh! Sai de mim desgraça! – Gritei puxando o gato pelo rabo antes que ele continuasse cavando até achar uma veia letal.

- MEEEEEOOOOOOWWWW!!! — A fera chiou furiosa tentando arranhar meu rosto enquanto eu tentava imobilizá-lo.

No fim de uma luta realmente trabalhosa, de onde eu saí completamente arranhado e com os braços em carne viva, nós estávamos a mesa, jantando tranquilamente.

Bem, tranquilamente só por que eu havia escondido todas as facas no armário, já que ele ainda me encarava parecendo me torturar mentalmente.

- Você é um bichinho muito mal humorado, heim? – Comentei depois que terminarmos de jantar e ele continuava me olhando como se fosse me matar.

- Bem, só vou dizer que é melhor você melhorar essa sua atitude se quiser sobreviver nessa casa, por que a Road só volta daqui a uma semana. – Continuei me servindo uma taça de vinho e ele continuava com a mesma cara.

- Ok, você tem problemas. – Conclui deixando a taça em cima da mesa e indo até a sala colocar um CD.

E eu devo ter mais problemas ainda por estar tentando conversar com um gato.

Voltei à cozinha, balançando suavemente a cabeça no ritmo envolvente da música, para pegar minha taça e tomar um porre que me deixaria alegrinho a noite toda e com uma dor de cabeça miserável amanhã... Mas a taça estava vazia.

Olhei para o gato em cima da mesa que olhava distraidamente para a luminária da cozinha com uma cara de quem aprontou.

Que bichano safado.

- Você não quer que eu acredite que o vinho simplesmente evaporou não é? – Indaguei e ele apenas me olhou desentendido.

Sorri divertido.

Ah, eu vou sacanear esse bicho...

Enchi a taça vazia e depois peguei outra pra mim, enchendo-a também.

- Um brinde ao começo de uma semana de convivência próspera e divertida, o que acha? – Comentei ironicamente, brindando com a sua taça e bebendo logo em seguida.

Fiquei observando o gato beber também com um sorriso malvado.

Ah, eu ia me divertir muito postando vídeos desse gato bêbado no You tube.

------------- Dia seguinte ---------------

Fui acordando ao poucos sentindo minha cabeça latejando e algo quentinho em cima da minha barriga. Me assustei inicialmente, mas depois lembrei que poderia ser o gato e voltei a relaxar.

Droga, por falar em lembrar, eu não tinha a mínima idéia do que tinha acontecido noite passada.

Bem, pelo menos eu estava sozinho em casa. Não tem como ter acontecido nada demais.

E com esse pensamento reconfortante, eu já me preparava para dormir de novo... Mas o barulho da porta do quarto batendo com toda a força na parede me despertou de uma vez por todas.

- ALLEN WALKER O QUE SIGNIFICA ISSO?! — A voz da Lenalee soou tão alta que eu quase fiquei surdo.

Abri os olhos rapidamente me sentando assustado na cama, fazendo o que estava deitado na minha barriga cair no meu colo e... EITA PORRA O QUE É ISSO?!

Olhei para o meu colo assombrado encontrando um garoto, aparentando ter uns dezesseis anos, de longos cabelos escuros, pele levemente pálida e aveludada, completamente nu, exceto por uma coleira, e com duas orelhas de gato no topo da cabeça.

- Nyuuu, que gritaria maldita é essa? – Indagou com uma vozinha manhosa, abrindo preguiçosamente os olhos azuis-marinhos.

- C-C-Como... – Tentei formular uma frase, mas minha mente estava confusa demais para isso.

- NUNCA MAIS FALE COMIGO SEU PERVERTIDO PEDÓFILO SAFADO! EU TE ODEIO! – Ela gritou parecendo realmente transtornada, e antes que minha mente lerda pela enxaqueca e pelo susto pudesse ordenar meu corpo a ter alguma reação além de choque, ela saiu do apartamento batendo a porta.

Ai, eu tô ferrado.

- Tch, bando de malucos. – Comentou o moreno se virando para dormir de novo, mas eu o puxei pelo braço antes que voltasse a se deitar.

- E-Espera um instante, quem é você e de onde você saiu? – Perguntei com a voz trêmula e ele ergueu as duas orelhas, as virando na minha direção.

Ok, como diabos essas coisas se mexem?

- Alguém aqui andou bebendo mais do que podia... – Comentou com um sorriso sarcástico, fazendo meu sangue ferver. – Mas eu vou te fazer esse favor. – Completou, se deitando de novo no meu colo e apontando para o pingente na coleira.

Yuu Kanda

9990-3232

Meu cérebro quase se desintegrou quando reconheci ali o número da Road.

Oh droga... Eu estava muito ferrado.

Notas finais
* Se diz ao se despedir que alguém que vai sair, significa algo como " Vai com cuidado" ou "boa viagem".
** Se diz ao se despedir de quem fica, significa ao como vou indo.
*** http://cybercook.terra.com.br/receita-de-peixe-ao-gengibre-e-maracuja-r-6-6598.html
# Então? O que acharam? Devo continuar?
Kisus