Neko...?!

4 Cama de gato.


Notas iniciais
Cama de gato é um expressão que se usa para designar uma grande confusão, geralmente envolvendo várias pessoas.
* Aguardem. O fim. Do cap. Muah-ha-ha-ha*

Aos poucos o sol entrava pela minha janela, batendo exatamente no meu rosto de maneira cálida. Com preguiça de me levantar e fechar a janela, apenas me virei na cama sentindo algo quente e felpudo se enroscando nas minhas pernas.

A cauda de Kanda.

Abri um pouco os olhos e percebi que estava quase em cima do garoto que dormia profundamente. E aliás, como essa criatura conseguia dormir tanto?

Me afastei um pouco para não acordá-lo e fiquei a observar seu sono. Ele ficava realmente adorável enquanto dormia, e seria saudável eu ter um pouco mais de vergonha na cara ao realizar os meus comentários mentais sobre Kanda.

E por falar nele, desde ontem à noite nós não tínhamos tentado nos matar. Não sei se foi por causa do trato ou por que ele descontou sua ira em cima de Lavi durante toda a estadia do ruivo por aqui (bem feito para aquele tarado), mas aquela sua última frase antes de sair do banheiro realmente me surpreendeu.

Meu gato por uma semana?

Admito, minha mente bem que viajou naquela afirmação, mas eu sabia que ele era inocente demais para insinuar esse tipo de coisa propositalmente. Ele quis dizer apenas que me trataria de uma maneira mais parecida como a que tratava a Road. Com se fosse meu gato mesmo.

Eu não entendia nenhum pouco a forma como ele agia, às vezes como humano e às vezes como felino, mas mesmo sem saber o que isso significava para ele, eu gostei mais do que deveria da idéia.

Afastei um pouco de cabelo do seu pescoço, tendo cuidado de não despertá-lo, parando meu olhar na coleira que usava e resolvi tirá-la. Deve incomodar ficar com isso o tempo todo, não?

Corri os dedos rapidamente pela fivela, tirando o objeto, e perdendo todo o meu sono com o que vi gravado em sua pele. Kanda tinha uma terrível cicatriz que circundava todo o seu pescoço, e pelo seu formato parecia ter sido feita de forma excepcionalmente dolorosa.

Por Deus... Quem faria aquilo com algo tão puro?

Ok, certo que já fantasiei enforcá-lo com minhas próprias mãos milhares de vezes, mas sempre soube que nunca seria capaz. Sempre acreditei que animais eram melhores que pessoas, afinal, ao contrário de nós, eles nunca mentem, enganam ou ferem os sentimentos de alguém. Por isso sempre abominei quem cometia qualquer tipo de violência contra eles, e mesmo que Kanda não fosse completamente gato, a mesma regra valia para ele. Por mais que sempre estivesse arranhando os outros, ele nunca usara uma única palavra para ferir.

Lembro-me de que quando ele fora adotado pela Road tinha cinco anos (só agora eu entendia como ela podia dizer a idade exata do bichano naquela época sem um veterinário) e ela tinha dez, fora na época em que seu tio, Tikky, que era (e ainda é) advogado, resolvera tirar férias e assumir apenas pequenos casos, como um sobre maus tratos a animais que levara a adoção de um pequeno gatinho preto que fora uma das vítimas.

Nunca soube dos detalhes do caso ou quem era o criminoso, afinal não era como se um adulto conversasse sobre esse tipo de coisa com uma criança de onze anos mimada. Mas admito que joguei a culpa do temperamento insuportável do gato em relação a minha pessoa em cima desse caso por um bom tempo ate perceber que o problema era mesmo comigo.

- Hmmmnnnnn... – Kanda ronronou se espreguiçando, dobrando as orelhinhas para trás e desenroscando o rabo da minha perna.

- Bom dia bicho preguiça. – Cumprimentei coçando sua orelha, vendo-o ronronar ainda mais.

- Nyu... hmfmnhfrs. – Resmungou alguma coisa com a cara no travesseiro.

- O quê? – Indaguei em igual estado de falta de vontade de levantar.

- Que horas? – Perguntou abrindo uma pequena fresta dos intensos olhos azuis marinhos para me encarar.

- Er... – Me virei em direção a mesa de cabeceira para espiar o relógio. – Dez e meia da manhã e... O que foi? – Perguntei ao ver sua expressão assustada.

- Mas o que... – Ele pôs as mãos em volta do pescoço, como se escondesse a cicatriz, olhando assustado de mim para a coleira que estava na mesa. – POR QUE DIABOS VOCÊ TIROU? – Se sentou virado de costas para mim, ainda tentando disfarçar a marca.

- Desculpe, só achei que você ficaria melhor sem. – Expliquei me sentindo levemente culpado.

- Achou errado! – Exclamou tentando parecer puto, mas estava verdadeiramente abalado.

- Kanda... Quem te fez isso...? – Perguntei com cuidado, tocando seu ombro de leve, fazendo-o se encolher mais, abraçando os joelhos.

- Não vou contar. – Respondeu sério.

- Então façamos assim... Eu te falo como consegui a minha e você me diz como conseguiu a sua. – Sugeri me referindo a cicatriz nenhum pouco discreta que eu tinha no rosto.

A maioria das pessoas me perguntavam sobre ela, mas, assim como o moreno, eu sempre costumava me esquivar. Isso ate aprender que devemos enfrentar as coisas que nos perturbam de frente para poder nos libertar desse trauma.

Ele virou o rosto lentamente, encarando minha cicatriz pela primeira vez, já que ao contrario dos outros, ele sempre me olhava nos olhos ao invés de reparar nela.

Se aproximou sorrateiramente, traçando a linha em meu rosto com curiosidade, tentando entender como ela surgiu assim como eu fizera com a sua enquanto dormia.

- Você não a tinha quando te vi pela primeira vez. – Comentou distraído.

- Você tem boa memória. – Respondi sorrindo.

Ele ainda se lembrava do meu eu de onze anos atrás... Nem eu mesmo lembrava direito de como eu era.

- Foi quando eu tinha doze. – Comecei a explicar, trazendo-o para sentar no meu colo como se fosse contar uma historinha de contos de fadas. – Criança bobinha, família influente... Alvo perfeito.

- Alvo? – Questionou pendendo a cabeça de lado.

- Sim. Aos doze eu fui seqüestrado e torturado para extorquir dinheiro do meu pai. Eles fizeram essa marca no meu rosto com um estilete só para se divertir, mas acabaram achando a idéia boa e mandaram fotos disso para ele. – Engoli em seco por um momento, lembrando de como a história terminava. – E Mana, protetor como era, percebeu que eu seria morto mesmo se pagasse o resgate, e decidiu ir pessoalmente atrás de mim. Por causa do GPS do seu celular, o encontraram, acharam meu cativeiro e me tiraram de lá. Só que... Meu pai não saiu com vida. – Concluí sem resistir em abraçá-lo, escondendo o rosto no seu pescoço.

Contar tudo aquilo em voz alta não me afetava tanto quanto antigamente, porém a falta que Mana fazia era algo que eu nunca conseguiria superar. Mas por algum motivo a presença de Kanda diminuía minha angústia, o calor do seu corpo em meus braços parecia esquentar meu coração que de repente parecia tão frio.

- Não me lembro da já ter tido mãe ou pai, mas onde eu vivia tinha muitos outros como eu. Meio humano e meio animal. – Começou depois de alguns minutos de silêncio, me fazendo levantar o olhar para encará-lo, mesmo estando de costas para mim. – E não eram apenas gatos. Tinham meio cachorros, coelhos, ovelhas... Enfim, era um zoológico. – Comentou com uma nota de sarcasmo. – Os muito pequenos ficavam presos em gaiolas no porão, os um pouco mais velhos ficavam expostos no jardim, e os mais velhos, aqueles que tinham mais ou menos a minha idade atual, eram vestidos com roupas curtas e estranhas e ficavam pela casa recebendo os clientes.

- Clientes? – Perguntei me assustando com o rumo que aquela história tomava.

- Era assim que o mestre chamava as pessoas que visitavam a fazenda. Eu nunca soube que tipo de pessoa ele era, mas por algum motivo eu confiava cegamente nele e fazia tudo que ele mandava. Mesmo que fosse relativamente pouca coisa, já que eu mal saia daquele porão. Porém eu era o único que não ficava amarrado lá embaixo. Quero dizer... Sempre pensei que ele confiava em mim também ou algo parecido. Não sei qual é a palavra para isso, mas eu me sentia importante.

O que mais me surpreendia era que mesmo com memórias tão horríveis na minha opinião, ele não as relembrava com tristeza, raiva, nem nada do tipo. Até agora, ele usara um tom ameno e nostálgico que só se alterava quando se referia ao tal mestre.

- E o que aconteceu? – Perguntei o puxando para mais perto e apoiando meu queixo no seu ombro.

- Eu completei cinco anos e sai do porão para o jardim. Pela primeira vez eu vi outros humanos além do mestre, e sinceramente eles eram uns retardados. – Comentou revoltado, me arrancando uma risada pelo tom indignado. – Uns ficavam me mandando dar a pata, ou rolar no chão, e outros ficavam me olhando esquisito ou gritando “kawaii” tão alto que meus ouvidos doíam. Obviamente eu metia a mão em todo mundo, e o mestre não me repreendia por isso, mas no dia que ele me disse que existem pervertidos que adoram ser arranhados eu decidi ficar quieto. – Falou abraçando os joelhos com mais força.

- Entendo de onde veio esse seu hábito de brincar de Freddy Krueger*. – Comentei ironicamente.

- A coisa começou a desandar quando ele me apresentou um velho repulsivo, que segundo ele daria uma fortuna por mim. Nunca entendi o que significava uma fortuna, mas se significava que eu tinha que ir embora, eu recusaria quantas fossem. Não queria abandonar aquele lugar, nem o mestre, e nem os pequeninos do porão. E quando fiquei a sós pela primeira vez com aquele traste, minha vontade de ir embora diminuiu mais ainda. Ele era um daqueles pervertidos que gostavam de ser arranhados, e não importava o quando eu batesse nele, aquele ser asqueroso não me soltava, nem parava de ficar me tocando de maneiras estranhas, e mexendo em mim daquela maneira nojenta.

Ele falava franzindo o cenho em uma expressão de repulsa e asco que me faziam compreender bem o quão horrível fora.

- Depois de algum tempo, eu consegui fazer um rasgo feio no seu pescoço, obrigando-o a me soltar, e fugi dali o mais rápido possível, correndo até o mestre e contando toda história, dizendo também que eu não queria ir embora dali, que queria ficar ao lado dele e tudo o mais... Mas ao invés de um olhar aprovador ele me lançou um tão frio que eu quase não o reconheci.

“Ao invés de me abraçar, ele me puxou por uma das orelhas e me jogou dentro do canil dos cães de guarda, onde haviam uns três dobermans e cinco pittbulls, treinados para atacar, desmembrar e destroçar. Me lembro apenas de ter passado todo o dia lá até escurecer, lutando incessantemente para não ser morto, e só sendo removido quando um meio-cachorro entrou lá e me levou até o quarto do mestre.

Como de manhã, seu olhar continuava frio, mas agora haviam mais coisas nele, inclusive uma pontada de sadismo. Finalmente me dirigiu a palavra, dizendo que eu tinha matado aquele homem, que lhe trouxera problemas e que fora desobediente. Por isso precisava ser castigado. E a cada palavra dita, ele enrolava um arame farpado com cada vez mais força no meu pescoço, para depois começar a girá-lo, esfolando minha pele, me fazendo urrar de dor pela primeira vez durante toda aquela tortura. E para encerrar o castigo, ele me bateu ate que eu perdesse a consciência.

Provavelmente o assassinato chamara atenção, já que pelo que fiquei sabendo depois pela mamãe, foi naquela noite que invadiram a fazenda e prenderam o mestre. A maioria dos meio humanos simplesmente mudou de forma e deu o fora. E como eu estava desacordado e fora de condições de voltar a forma de gato, posso dizer que tive sorte de ser encontrado por uma certa garotinha intrometida que havia ido escondido à investigação.”

- Road. – Afirmei e ele confirmou com a cabeça.

A cada palavra dita, eu percebi o quanto aquela cicatriz significava para Kanda, que tipo de lembranças ela trazia a toda, e sinceramente, me arrependi de ter perguntado. Tão jovem e já passara por tanta coisa... Não me refiro apenas a crescer tratado como escravo e a tortura, mas principalmente a ser traído e ferido daquela forma por alguém que considerava tão importante para si.

Senti meus olhos encherem de água, mas me controlei, fiquei em silêncio por um momento, apenas fazendo carinho nas suas orelhas que estavam baixas.

- Eu vou confiar em você... – Começou depois de algum tempo, com a voz ainda meio trêmula. – Mas eu vou avisando que aprimorei minha técnica de arranhões na jugular. – Tentou ameaçar, mas ainda não conseguia usar seu tom psicopata ameaçador.

O abracei mais forte, acomodando-o melhor em meu colo enquanto ele ainda permanecia encolhido, abraçando os joelhos.

- Eu nunca machucaria você... – Respondi beijando a sua cicatriz ternamente, para depois beijar-lhe o rosto, recolocando sua coleira no lugar.

- É estranho quando você me beija. – Comentou virando de lado em meu colo, visivelmente mais confortável sem a cicatriz a mostra. – Eu fico quente. – Completou deitando a cabeça no meu peito e fechando os olhos como se nem tivesse dito nada demais.

Mas para mim era.

Juro que nunca fiquei tão corado com um simples comentário em toda minha vida.

- Eu também. – Admiti com um sorriso bobo, fazendo carinho no seu cabelo enquanto ele parecia tentar a voltar a dormir no meu colo.

Me deitei, deixando-o mais aconchegado em meus braços, beijando o topo da sua cabeça carinhosamente, apreciando a textura macia de seus cabelos escuros...

Eu provavelmente não sairia de lá nunca mais se não fosse a campainha.

Maldita hora para essa porcaria tocar!

- Vai atender, é a Lenalee. – Murmurou o gato me empurrando da cama. – Vai logo antes que ela suba aqui e dê outro piti daqueles.

Desci me arrastando pela escada, sem a mínima vontade de sair de perto do moreno, desejando passar o domingo inteiro com ele cochilando em meus braços. Fato que começava a me deixar realmente confuso.

Eu não insistira tanto para falar com ela?

Sim claro. Ela era minha melhor amiga afinal, ela tinha direito de saber que eu não a traíra.

Mas, porque de repente eu queria que tivesse sido verdade?

Não que eu quisesse realmente machucá-la, mas acontece que as palavras “eu não tenho nada com ele” simplesmente não saiam.

Abri a porta, percebendo a postura cansada da morena. Sem mais nem menos ela apenas se atirou em meus braços e eu a abracei como sempre fizera. Seus olhos estavam inchados, seus cabelos desgrenhados, sua pele mais pálida que o normal e marcada por olheiras.

- Lena... – Murmurei em tom calmo, esperando ela começar a soluçar. – O que... – Tentei perguntar, mas fui interrompido por um beijo inesperado.

Eu sentia os lábios dela sobre os meus, porém não conseguia reagir. Não só pela surpresa, mas também por que eu não queria, nem de corpo nem de coração, beijá-la de volta.

Afastei-a com toda a delicadeza que pude, começando a entender finalmente os motivos dela.

- Lenalee, eu... – Comecei a falar e ela me calou com o indicador.

- Eu preciso de um tempo, e sei que você também precisa. Mas quando eu voltar, quero que me dê uma resposta. – Falou seriamente, indo embora logo em seguida sem nem ao menos esperar alguma reação da minha parte.

- E quando você pensa que não dá pra ficar mais confuso... – Resmunguei para o nada, desconcertado, voltando a subir para o quarto.

Kanda estava sentado na cama me observando com uma expressão de curiosidade que deixava claro que tinha visto tudo. Só não tinha entendido.

- O que foi aquilo? – Perguntou pendendo a cabeça para o lado quando me sentei na cama, puxando-o de volta para mim.

- O que?

- Você é amigo da mamãe e da Lenalle, mas você e a mamãe nunca se beijaram assim. – Comentou explicando o que lhe confundia.

É osso se acostumar a ouvir alguém se referir a Road como “mamãe”...

- Correção: Eu fui atacado. – Por algum motivo confuso decidi deixar aquilo claro. – E esse tipo de beijo você só da em pessoas por quem você sente algo além de amizade.

- Como assim? – Perguntou franzindo as sobrancelhas confuso.

Realmente adorável.

- Algo mais... Intenso. Por assim dizer. Que bagunça as suas idéias. – Tentei explicar da melhor forma possível, e pelo brilho de entendimento em seus olhos, parecia ter funcionado.

- Algo mais... Quente? – Indagou se aproximando.

- Isso. – Afirmei com meus olhos presos aos seus como se estivessem conectados.

Suas mãos subiam pelo meu tórax até o meu ombro, espalhando descargas elétricas pelo meu corpo, só me fazendo perceber que havia sido empurrado quando senti o colchão nas minhas costas. Seus joelhos macios roçavam na minha cintura enquanto ele subia em cima de mim, aproximando absurdamente nossos rostos para sussurrar:

- Então tem muita gente queimando por você, Walker. – Sua voz soou baixa, como se estivesse partilhando um segredo, e ao mesmo tempo terrivelmente sexy, me arrepiando por inteiro.

E como se atraídos por algum magnetismo irresistível, como se tivéssemos esperado toda uma vida para isso... Seus lábios finalmente tocaram os meus.

Notas finais
Sinceramente, alguém além de mim também ficou queimando com esse final?
* Freddy Krueger: Apenas olhe para as mãos dele e você entenderá:
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Gomem a demora, mas é que internet no interior é foda. O nyah simplesmente não tava abrindo aqui. ~IwannaDie.
Depois desse cap virão seis especiais, que são meio que mostrando o que rolou durante a semana (seg-sáb) até o acontecimento do domingo (aguarde uma confusão enoooormeee por ai).
Obrigada por acompanharem!
Kissu~