Neko...?!

9 5#Sexta-feira: O gato, o cão de guarda e o lobo.


Notas iniciais
Yo minna! Gomen a demora, mas é que alem de eu ter demorado pra digitar, meu Nii-san demorou DUAS SEMANAS para betar o cap esse preguiçoso. * E foi fazer isso hoje na aula de química*
Mas, bem, agradeço a ele, por me dar uma ajuda imensa com meus projetos e me apoias sempre.
Cap meio tenso (e grande) esse, espero que gostem.

Santas sextas onde eu só trabalho pela manhã... Se eu passasse mais uma hora naquela empresa hoje, juro que faria alguma besteira.

Acontece que hoje a Lenalee tinha resolvido dar uma passadinha lá. Até ai tudo bem, ela tinha vários amigos em todos os departamentos e nos éramos acostumados a visitar o local de trabalho um do outro. O problema foi apenas o propósito com o qual ela foi fazer a visita. Começando por um salto absurdamente alto e cinta-liga no lugar da sua confortável sapatilha e meias 7/8, uma saia bem justa, os cabelos presos em um coque e um batom vermelho.

Acho que só pela descrição já deu pra entender, agora adicione isso a um convite para um almoço anotado em um papel manchado de batom e deixado discretamente no bolso da minha calça.

É, tô fodido.

O que eu vou falar pra criatura?

Quando eu já tinha terminado o expediente, que por sinal tinha sido bem produtivo já que deu até para adiantar algumas coisas para segunda feira, e fui tomar um café, dou de cara com ela de costas para mim, soltando os longos cabelos, deixando-os cair até seus quadril e não pude deixar de imaginar como Kanda ficaria com o cabelo preso.

Ele sempre deixava os fios longos e escuros soltos, descendo pelas costas livremente, e às vezes cobrindo seu rosto quando dormia, era comum sua franja, que caia sobre suas sobrancelhas bem desenhadas, estar suavemente bagunçada, o que lhe dava um ar de travesso.

Ah, e só de imaginar que ele estava em casa me esperando eu...

– Allen? – Uma voz aguda me despertou e quando dei por mim percebi que estava parado na mesma posição de antes secando o cabelo da Lenalee descaradamente.

Só que pelo sorriso que ela deu, provavelmente pensou que eu estava olhando mais pra baixo...

Tô muito fodido.

Ela caminhou na minha direção um tanto desajeitada por causa dos saltos, mas aquilo era bonito nela. A falta de jeito ficava bem na Lena.

– Toma, coloquei bastante açúcar como você gosta. – Falou em um tom gentil, me entregando um dos dois copos de café que tinha em mãos.

– Obrigado. Aliás, você está linda de morrer esta manhã. – Comentei, vendo-a sorrir lindamente.

Ela era como uma irmã mais nova para mim, então vê-la sorrir sempre fazia meu dia mais bonito. Embora o sorrisinho de canto tímido e singelo de Kanda enquanto dormia hoje de manhã mais cedo conseguiu fazer meu dia praticamente brilhar ensolarado (mesmo estando chovendo agora) com direito a nuvens em formatos bonitinhos, sorrisos para todos os lados e estrelas flutuando pelo ar.

Acho que isso soou meio estranho, mas... Fazer o quê né?

– Eu que agradeço. – Murmurou a morena corando. – Vamos almoçar aonde hoje? – Perguntou certa de que eu tinha lido o bilhete.

Apenas suspirei pesadamente.

– Lenalee eu... – Comecei, e pela cara que ela fez, já tinha percebido onde ia dar.

– Já entendi. Você pelo menos pensou no que eu te disse? – Falou se aproximando lentamente.

– Sim, ainda estou pensando, na verdade.

Por Deus, que ela não perceba o tamanho da mentira.

– Sabe Allen, eu não consigo tirar aquele nosso beijo da cabe... aaaahhhhh!!! — Começou falando com um ar de “femme fatale”, mas no meio do discurso, ela tropeçou nos próprios saltos e só não caiu no chão por que eu a segurei a tempo, o que acabou encharcando nos dois de café.

– Sabe Lena, esse estilo secretaria sexy não combina muito com você... – Murmurei tentando não rir muito escandalosamente da cara da morena.

– Nem vem, metade da população masculina praticamente me comeu com os olhos esta manhã. – Falou rindo junto comigo enquanto se levantava. – E você mesmo disse que eu estava “linda de morrer” – Tentou sem sucesso imitar minha voz.

– Você sempre tá linda sua besta. – Comentei apertando suas bochechas. – Só que dá preguiça ficar falando e... Merda Lenalee! – Exclamei vendo o que o café tinha feito a ela.

– O quê? – Murmurou confusa.

– Tua blusa ficou transparente! E eu nem vim de terno pra te emprestar... Já sei! Tem uma secadora no banheiro. – Lembrei arrastando ela até o banheiro misto.

Enquanto eu lavava sua blusa na pia pra depois secá-la na secadora de mãos, ela esperava dentro de um dos box.

– Toma. – Falei lhe entregando a camisa por cima da porta, mas antes que eu me afastasse, senti o toque quente da sua mão na minha.

– Não quer me ajudar a vestir...? – Sua voz soou rouca e arrastada lá de dentro enquanto a porta do box fazia menção de abrir.

– Eu tenho que ir. Até mais Lena. – Falei rapidamente, saindo do banheiro logo em seguida.

Toda aquela situação com a Lena estava me deixando péssimo.

Por deus, ela era minha melhor amiga! Era minha irmãzinha, era aquela eu sempre queria ter sorrindo ao meu lado. Mas não como uma mulher, como ela queria. Simplesmente não conseguia enxergá-la dessa maneira e sabia que isso a machucava.

Mas não tinha como evitar.

Eu já pertencia à outra pessoa.

A pessoa que ocupou meus pensamentos o dia inteiro e que agora me fazia ter vontade de correr nos 180km/h até em casa.

Acho que se eu soubesse o que encontraria lá, teria ignorado as possíveis multas e feito isso mesmo.

Quando abri a porta do apartamento, a visão que tive me deixou tão, mas tão chocado que eu larguei a pasta no chão e fiquei encarando o moreno no sofá fixamente, sem nem ao menos piscar.

Acontece que Kanda usava um suéter cinza claro tão absurdamente grande para si que um de seus ombros ficava a mostra, revelando uma sutil marca arroxeada que eu havia lhe deixando na tarde de ontem. Seus longos cabelos estavam presos para trás em um rabo de cavalo baixo, deixando os lindos contornos do seu rosto mais a mostra (ele parece que leu meus pensamentos desta manhã) e suas mãos se ocupavam em agarrar um objeto cilíndrico que sua língua percorria avidamente.

Kanda segurava o picolé com as duas mãos, por onde escoriam um liquido branco, fruto do derretimento deste, que também descia pelo seu queixo, melava sua bochecha e pingava nas suas coxas. Sua língua deslizava da base até a ponta do picolé com todo o gosto do mundo, circundando a ponta e depois abocanhando todo o gelado de uma vez, o chupando com força, dobrando as orelhinhas para trás e gemendo roucamente no processo, para depois voltar a chupá-lo, e depois lambê-lo...

Ai meu Deus como eu queria ser aquele picolé...!!

O modo como seus lábios subiam e desciam pela extensão cilíndrica era extremamente erótico, e isso sem contar os movimentos habilidosos de sua língua macia e quente e os gemidos emitidos durante o ato.

Pode parecer piada, mas eu fiquei parado na porta de casa babando Kanda chupar um picolé até que este terminasse e começasse a chupar os próprios dedinhos com uma vontade de dar inveja... Ai minha sanidade já era.

– Vai passar a vida parado ai? – Indagou me lançando um olhar divertido, ainda lambendo a mão.

– Ta-tadaima. – Falei a primeira coisa que me veio na cabeça de tão abobalhado que eu estava.

– Okaeri. – Respondeu lambendo os lábios, e eu só não o ataquei naquele exato segundo por que um vulto ruivo saiu da cozinha e pulou em cima de mim.

– Yo Allen-chan! – Me cumprimentou o ruivo de tapa-olho e...

Espera um segundo.

– Lavi? Você tá vivo? – Indaguei completamente pasmo, olhando-o de cima abaixo para ver se não tinha nenhum pedaço faltando.

– É, o Yuu-chan me deixou viver quando eu comecei a falar sobre os picolés de atum... – Falou com um sorriso de canto.

– Isso deveria ser a oitava maravilha do mundo! – Comentou o gato atacando outro picolé. – Deveria provar. – Sugeriu.

– Dispenso... – Respondi distraidamente tentando virar o olhar na direção contrária, para não acabar hipnotizado pelo moreno mais uma vez.

– Mas é realmente bom! – Insistiu o ruivo com um risinho que me fez ter certeza que estava mentindo descaradamente. – Bem, pelo menos o gato gostou... – Deu de ombros. – Mas eu vim falar de uma coisa séria com você. – Falou assumindo uma expressão grave, que era completamente o oposto a sua usual brincalhona e pervertida.

– O quê? – Indaguei preocupado, seguindo-o até a cozinha.

– Na terça, quando o Yuu-chan foi atrás de mim até quase a portaria com aquela espada gigante, afiada e assassina na mão, não tinha ninguém na rua, nem o porteiro estava lá, então nem me preocupei. Mas... – Parou respirando fundo, como se estivesse se decidindo se me contava ou não.

– Mas o quê, Lavi? – Pressionei. Eu tinha um mau pressentimento quanto aquilo.

– Tinha alguém lá fora, em cima de uma árvore e com um binóculo. Primeiro eu pensei que era um paparazzo, ou algo do tipo, provavelmente atrás de alguma fofoca sobre os moradores do prédio, tem rolado muitas desde que aquela cantora loira se mudou pro 503. – Prosseguiu parecendo realmente incomodado com alguma coisa.

– O que te faz acreditar que não era? – Perguntei pegando um copo de água para mim.

– Quando eu estava prestes a ser fatiado, o Yuu parou do nada com uma carinha de espanto muito fofa por sinal. Mas o tenso é que ele estava olhando bem para a árvore onde o cara do binóculo estava e disse que estava sentindo um cheiro familiar. Na hora eu nem dei tanta importância, tava mais preocupado em salvar meu pescoço, e foi ai que eu falei dos picolés.

Suspirei preocupadamente, quem seria familiar para o Kanda?

Bem, isso é difícil de dizer, já que como gato ele já deve ter sentido o cheiro de muitas pessoas por ai. Mas eu tinha certeza que não era algum conhecido nosso, ou então Lavi saberia, ele nunca esquece um rosto. E também não era uma pessoa qualquer, ou então Kanda, puto do jeito que estava, nunca teria parado um ataque para reparar nela.

– Mas a pior parte vem agora. – Continuou o ruivo. – Quando saí, eu sentia o olhar dessa pessoa nas minhas costas, e vou te falar, aquilo ali não era coisa boa de jeito nenhum. Era como se ele, seja lá quem for, estivesse pensando em varias maneiras de me destripar vivo enquanto me olhava, ficou até difícil de respirar. Foi uma sensação horrível. Era como ser caçado. E hoje de manhã quando voltei para cá, eu trouxe meu binóculo e resolvi dar uma olhada de onde ele estava pra saber quem estava bisbilhotando... – Ele me lançou um olhar tão recheado de preocupação no final da frase que eu gelei.

– Não me diga que...

Antes que eu terminasse a sentença ele completou.

– Ele tinha uma vista perfeita de toda a varanda e a sala do seu apartamento. – Concluiu a com um ar aflito que fez tremer por dentro.

Quem quer que fosse, já sabia da verdadeira natureza de Kanda, e definitivamente estava interessado. O que não era bom de jeito nenhum, pelo que ele me contou da fazenda onde nasceu , os da sua espécie não eram considerados humanos, eram vendidos, usados e mal tratados como se fossem objetos. E eu não duvidava que seja lá quem fosse que o estivesse espiando tivesse exatamente esse tipo de intenção, e isso sem contar que...

– Quero água.

Dei um pulo astronômico, indo para quase do outro lado da cozinha junto com Lavi quando a voz de Kanda soou bem de trás da gente. Desde quando ele estava ali?

– Y-Yuuu-chan??! – Berrou Lavi assustado com o único olho do tamanho de um prato.

– Quero água. – Repetiu ignorando o ruivo e me olhando seriamente.

– S-S-Sim, claro. – Respondi engolindo em seco e sofrendo para desviar o olhar do garoto em cima da mesa e ir buscar sua água.

Coloquei uma tigela com água em cima da mesa, tentando não surtar quando o moreno resolveu ficar de quatro e beber com a língua (ai minha sanidade...). Lancei um olhar fulminante para Lavi que estava a um passo de avançar em cima do gato.

– Nem pense nisso. – Avisei fazendo o caolho pervertido tomar consciência de que estava babando as pernas do meu Kanda sem a mínima vergonha na cara.

– Nem pensei. Jur... – Antes que ele terminasse a mentira, um ronronado manhoso ecoou pela cozinha, e quando nos viramos para ver o que era...

– Nyuuu, tô todo melado... – Murmurou começando a lamber a própria coxa que estava suja de um líquido branco, proveniente do derretimento do picolé.

Sério, Kanda tinha o dom de reproduzir aquelas cenas dignas de romances eróticos tão inocentemente que chegava a ser um pecado.

Ele quer me matar desse jeito. Só pode.

– Allen, eu vou no banheiro. –Falou um Lavi desesperado tentando conter a hemorragia nasal.

E agora aqui estou eu, sozinho na cozinha com a tentação em pessoa.

Ai meu juízo não agüenta...

– As vezes você me olha como se fosse me comer. – Comentou Kanda, ainda lambendo uma das coxas, sem tirar os olhos de mim.

Era impossível controlar meus pensamentos naquela situação. A língua macia e avermelhada passeando pela tez pálida das suas coxas perfeitas, o olhar vibrante focando na minha direção, as orelhas sutilmente dobradas para trás, as mãozinhas pequenas apoiadas na mesa...

Santo Deus!

E depois diz que não provoca.

– Talvez você tenha um gosto bom. – Respondi me aproximando com um olhar predador.

– Você nunca me comeu para saber. – Deu de ombros como de não tivesse dito nada demais.

– Então... Por que não me deixa experimentar? – Sussurrei mordiscando sua orelhinha, sentindo todo o seu corpo arrepiar em resposta.

Juízo? Que coisa é essa mesmo?

– C-Como assim “experimentar”? – Indagou verdadeiramente confuso, deixando a cabeça cair levemente para o lado.

Tão pecaminosamente adorável.

– Vou te provar inteiro. – Sussurrei na sua orelhinha, vendo-o me lançar um olhar curioso.

Ah Yuu, a curiosidade matou o gato sabia?

Subi uma das minhas mãos por baixo da sua camisa, fazendo um carinho suave na sua barriguinha, vendo-o se arrepiar por inteiro, mordendo o lábio inferior.

– N-Nyuu... O que vai fazer? – Murmurou baixinho com o rosto extremamente corado.

Depois é atacado e não sabe por quê.

Comecei a lamber sua outra coxa, subindo com a língua até ela estar perigosamente próxima ao seu quadril, arrancando um gemido deliciado do meu pequeno. Sem conseguir me conter, acabei sugando com força sua pele delicada, apreciando o sabor único do meu neko, beirando a insanidade quando suas mãozinhas me puxaram pelo cabelo para um beijo nada inocente.

Pode me chamar de zoófilo, pedófilo ou do que você quiser, mas nada me tirava a certeza de que Kanda era minha metade nesse mundo solitário. O modo como minha pele se arrepiava quando suas mãos me tocavam, a maneira como nossos corpos se encaixavam perfeitamente, o sentimento ardente que tomava meu peito a cada beijo trocado...

Desde sempre eu nunca acreditei nessa coisa de “amor” ou “paixão avassaladora”, para mim isso era coisa de filmes e livros e ainda assim tratada de maneira exagerada para iludir os leitores. O máximo que eu já cheguei a esperar foi encontrar alguém que eu gostasse significativamente, que tivesse uma boa personalidade e fosse bom de cama. Então viveríamos uma vidinha normal, feliz e sem graça.

Mas como a vida é uma coisa sacana, me aparece Kanda, jogando qualquer conceito pré estabelecido que eu tinha para um lugar qualquer sem importância e me provando que sim, você pode passar horas encantado observando alguém dormir, que é perfeitamente possível sofrer de taquicardia com apenas um olhar, e que um simples roçar de lábios pode te deixar a beira de perder o juízo.

– Hnnnmmmm... – Gemeu baixinho roçando o corpo tortuosamente no meu. — Quente... – Sussurrou em um suspiro deliciado, passando as pernas em volta da minha cintura.

– Te deixa mais quente... – Comecei murmurando na sua orelhinha trêmula – Quando eu faço isso? – Finalizei subindo minha mão até um de seus mamilos, apertando-o entre os dedos e começando a estimulá-lo, vendo o meu doce gatinho fechar os olhos e jogar a cabeça para trás, em um gemido longo e totalmente entregue.

Ele era extremamente sensível. E isso era de enlouquecer qualquer um.

– Nhmmm... S-Simm... – Respondeu me encarando com uma expressão acanhada. Tão lindo.

– Você quer mais? – Indaguei roçando os lábios no seu pescoço, já sem o mínimo controle de mim mesmo.

– Quero... – Falou baixinho, roçando os lábios nos meus em um pedido mudo que foi mais do que imediatamente atendido.

Puxei-o para mim envolvendo seus lábios com os meus desesperadamente, sentindo seu coração palpitar descompassadamente contra meu peito e sua pele entrar em ebulição como se seu corpo estivesse fervendo. Mas acontece que no meio do beijo, eu ouço um barulho de vidraça se quebrando, e só tive tempo de abraçar ainda mais Kanda e me jogar debaixo da mesa antes da explosão que ocorreu na sala.

Sim, uma explosão. Na minha sala.

Tinha algo muito errado ai.

Me pegando de surpresa, Kanda se desvencilhou dos meus braços e correu até a sala parecendo possesso. Sem pensar, eu fui atrás, topando com um Lavi atordoado no meio do caminho e ficando paralisado com a cena que encontrei.

A sala estava completamente destruída, a varanda estava a um passo de desabar e a parede que separava o alpendre do interior da sala tinha sido praticamente demolida. Grande coisa, era só mandar concertar depois. O surpreendente da cena era o olhar de Kanda em direção a um homem alto de cabelos escuros que estava parado no meio da rua.

De onde eu estava, podia apenas ver a silhueta do cara, mas não seu rosto. Porem a reação de Kanda me explicava tudo. O garoto estava tão pálido quanto um cadáver, com o olhar perturbado, as pernas trêmulas e as mãos sobre o pescoço, como se sua cicatriz estivesse doendo.

Não podia ser aquele cara... Ou será que podia?

Não, não podia. Era ele.

Por um segundo meu sangue ferveu. E em uma rapidez tamanha que minha mente não conseguiu acompanhar com exatidão, eu alcancei a minha pasta de trabalho que estava perto da porta, tirando de lá a minha pistola calibre 40 e começando a disparar na direção do desgraçado. Os dois primeiros tiros acertaram em cheio no braço e no ombro, e por mais incrível que pareça, ele conseguiu desviar do resto e quando seus olhos se encontraram com os meus, meu estômago revirou por um segundo.

Seus olhos eram de um negro absoluto e cruel, como os de uma besta demoníaca.

E quando aqueles malditos olhos se voltaram da direção do meu neko, recarreguei a arma e puxei Kanda para os meus braços.

– Você não vai tocar um dedo nele. – Sussurrei sabendo que ele entenderia pelo movimento dos meus lábios, e tive certeza que compreendeu quando um sorriso maldoso e deturpado surgiu em seu rosto.

Veremos.

Aquela sentença ficou suspensa no ar por alguns segundos, até ele se virar para ir embora.

Quando fiz menção de descer para correr atrás dele Lavi me parou.

– Deixa que eu cuido disso, já liguei para a portaria e a polícia logo estará aqui. – Falou o ruivo com o semblante sério. – Eu não deixaria ele sozinho se fosse você. – Continuou se referindo a Kanda antes de correr até a porta.

Olhei para baixo encontrando um Kanda praticamente em estado de choque. O pequeno estava assustadoramente gelado e tremia compulsivamente como se tivesse levado um balde de água fria. Me abaixei para ficar da sua altura e poder encarar melhor seu rosto, encontrando um vazio em seus olhos que me assustou.

– Kanda... Fala comigo. – Sussurrei gentilmente afagando seu rosto sem obter nenhuma reação. – Kanda...? Hey Kanda! Você está bem?! Droga, mas é claro que não! — Comecei a me desesperar com a falta de reação do neko que apenas fitava o nada. – Kanda por favor, não fica assim. Eu vou te proteger, eu juro! – Sussurrei apertando-o em um abraço forte e ficando assim por um bom tempo, até sentir sua temperatura começar a se normalizar aos poucos.

– Já odiou alguém o suficiente para achar que arrancar seu coração ainda batendo do peito seria muito pouco? – Sussurrou em um tom que me deu calafrios.

Não parecia meu Kanda ali.


– Kanda... Voc...

– Eu preciso matá-lo. – Murmurou quase inaudívelmente e eu me afastei para mirar seus olhos.

Estavam frios, sem emoção alguma.

– Kanda, você não precisa matar ninguém... – Comecei a dizer, mas fui interrompido.

– VOCÊ É IDIOTA? NÃO ENTENDE QUE ELE TAMBÉM VAI TE PERSEGUIR AGORA?! – Surtou o moreno parecendo desesperado.

– Não se preocupe comigo, eu sei me cuidar. – Tentei tranquilizá-lo, mas acabou sendo pior.

– Você não tá entendendo... Ele disse que...

– Eu não vou deixá-lo fazer nada, entendeu? — Assegurei pegando o moreno no colo e começando a subir até o quarto. O apertando fortemente contra o meu peito.

– Foda-se o que ele vai fazer. Eu só não quero você nisso. É tão difícil assim de entender? – Murmurou ainda tremendo, escondendo o rosto no meu pescoço.

– Kanda...

– Não quero que morra por minha causa. – Sussurrou e eu senti algo quente e molhado no meu pescoço.

– Kanda você está...? – Parei no meio da pergunta quando ele puxou meu rosto na direção do seu.

Seus lindos olhos estavam vermelhos e marejados enquanto grossas lágrimas desciam pelas suas bochechas e seu olhar parecia aflito.

– Você vai me prometer que vai ficar longe dele. – Falou com um tom de quem não aceita um não como resposta.

– Kanda eu não...

– Por favor.

E tinha como negar alguma coisa àquele gato quando ele pede parecendo frágil como nunca e com aqueles olhinhos pidões ?

– Tá eu prometo. Mas só se você não sair do meu lado nenhum segundo. – Respondi me sentando na cama com ele aninhado no meu colo.

– Nyu. – Afirmou com a cabeça, parecendo mais calmo, voltando a agir mais como ele mesmo.

Eu me perguntava como Kanda conseguia viver normalmente todo esse tempo estando ciente que aquele louco estava a solta por aí. Só alguns segundos que passei na mira daqueles olhos foram suficientes para fazer minha espinha ficar gelada de medo até agora, então imagino como Kanda que já passou por tudo aquilo na mão daquele psicopata não deve estar se sentindo.

– Yuu... – Chamei beijando uma de suas orelhinhas.

– Eu vou ficar bem. – Respondeu deitando a cabeça no meu peito.

– Mesmo?

– Mesmo.

Me deitei na cama trazendo-o junto comigo e fiquei fazendo carinho no seu cabelo até que ele pegasse no sono. Ele parecia um anjo quando dormia... Seu rosto adquiria uma calma tão rara para si, que por mais turbulenta que minha mente estivesse, meus pensamentos se acalmavam só de observá-lo sereno daquela maneira.

E eu não permitiria que ninguém perturbasse essa paz.

Esperei um bom tempo para ter certeza que minha decisão era a melhor a ser tomada no momento, para depois pegar meu celular e discar o número com o máximo de cuidado para não acordá-lo.

– Alô Tikky? Preciso de duas passagens para o Japão. E para hoje de preferência.

Eu nunca mais veria Kanda perturbado dessa maneira. Nem nunca mais queria vê-lo chorar por mais bonitinho que fosse.

Eu protegeria Kanda custe o que custar.


Notas finais
Então, chegamos ao penultimo especial... Como eu disse, eu chamo os caps da semana de "especiais" por que a história vai realmente começar a se desenrolar no domingo. De segunda á sábado foi pura preparação de terreno.
E quem já tem suspeita de quem é o antigo mestre do Kanda?
Bom, tenho que ir *buaa, meu tempo de vai muito rápido-chora*
mas volto com My Guardian Angel.
Kissus, vejo vocês no face (www.facebook.com/ByTsukiSensei) ou nos reviews~
Até mais~