Neighbors

4 Capítulo 4


Cansada de ficar na frente da TV vendo filmes românticos inúteis, resolvi ir me deitar, o relógio de minha mesa de cabeceira me informa que já se passavam das 4hrs da manhã. Bocejei involuntariamente e me enrosquei na cama fria, fechei os olhos e esperei que o sono me encontrasse.


Acordei assustada com o barulho de algo caindo no chão de madeira. Me sentei repentinamente na cama – rápido demais, fiquei tonta. Olhei a minha volta procurando a origem do barulho. Meu celular despencara de cima da mesa de cabeceira depois de vibrar devido a uma chamada. Me pendurei na cama de uma maneira que me permitisse pegar o celular no chão. 24 chamadas não atendidas de minha mãe. Se ela estivesse em Atlanta eu estaria morta. Disquei o número com cuidado e pressionei o celular contra minha orelha.

–Elena?! – Isobel berrou. Afastei o celular.

–Oi mãe – minha voz estava rouca devido ao sono.

–Onde você estava? – ela falava com urgência.

–Na cama – bocejei – dormindo.

–Mas já são 14hrs! – minha mãe exclamou do outro lado da linha.

–Bom aqui em Toronto é, aí deve ser... — sua voz foi sumindo.

–Toronto e Atlanta estão no mesmo fuso, mãe – disse calmamente.

–Então por que dormiu até agora? Você nunca foi de dormir até tarde – Isobel começou sua tagarelice – Você está bem? O que fez ontem? – ela despejava centenas de perguntas em cima de mim e não consegui guardar, ao menos escutar, todas.

–Estava cansada, fui dormir tarde – esfreguei os olhos enquanto falava – Ontem eu fui conhecer a cidade, um vizinho meu, Damon, me levou e me ajudou com as compras – disse resumidamente.

–Ah! Desculpa ter te acordado filha, eu só fiquei preocupada, você está longe agora, e não atendeu minhas ligações... – imaginei ela chegando na parte que já estava prestes a comprar passagens de avião para vir ver se eu estava viva. Isobel já fora menos histérica.

–Relaxa mãe, estou ótima – reprimi um bocejo.

–Então ta bom, se cuida e não deixa de dar notícias – ela deu uma pausa – me ligue assim que tiver novidades.

–Pode deixar.

–Eu te amo – ela sussurrou.

–Eu também te amo, mãe – disse sorrindo ao telefone e desliguei.

Depois de o súbito despertar resolvi que era hora de levantar. Suspirei pegando um dos travesseiros no chão e o colocando de volta em seu lugar, em cima da cama. Arrumei a cama de má vontade e entrei para o banheiro. Meu cabelo estava impossível, estava mais parecendo feno, desisti de pentear e entrei para a água morna deixando que a mesma fizesse o trabalho. Escovei os dentes duas vezes meticulosamente enquanto o condicionador dava jeito nos meus cabelos. Antes de sair do banho, fiquei parada com os olhos fechados debaixo do chuveiro, com a água caindo diretamente em meu rosto; uma tentativa de afastar o sono.

Depois de revirar a geladeira e acabar comendo as sobras da lasanha, resolvi ler um pouco. Não li nem dez páginas de A Última Música e já estava entediada. Não com a história, eu amava o livro, mas não queria ficar em casa o dia inteiro sem fazer porra nenhuma. Levantei do sofá num pulo e praticamente corri até o quarto. Vesti a primeira muda de roupas de vi pela frente que seria apresentável para sair e praticamente saltitei até a porta já com a bolsa na mão. Eu não era de açúcar, poderia muito bem ir de metrô até o cinema e atravessar a rua, onde era o shopping mais próximo.

E assim fiz. Estava meio ansiosa/nervosa temendo que me perdesse, mas não tinha erro, e qualquer coisa eu sabia como voltar para casa, isso que importava. Chegando lá, a chuva dera uma trégua, pude entrar seca dentro do centro comercial. Andei para baixo e pra cima, havia muita variedade e muitas lojas que eu gostava. Entrei em casa uma delas comprando apenas o essencial. Não. Comprando coisas desnecessárias que o tédio me fazia ver importante. Acabei por gastar o triplo do dinheiro que eu pretendia em menos de 3hrs dentro do shopping. Estava cheia de bolsas e mesmo assim não deixava de parar para admirar vitrines e comprar coisinhas bobas. Eu não era uma consumista, mas definitivamente estava agindo como uma, e foi pensando nisso que resolvi parar para lanchar antes de voltar para casa. Fui até o 3° piso e me sentei em uma das mesas ao lado de fora do Starbucks, dando-me uma vista privilegiada de todo o local. Pedi um Frappuccino e fui bebericando sem a menor pressa. Saquei meu celular da bolsa e chequei meu email, havia dias que não fazia isso. Havia mensagens de meus antigos colegas de Toronto, de minha tia que morava em Sófia, e uma de minha mãe, perguntando como estava meu dia. Respondi todas abrindo um sorriso bobo.

Depois de terminar, dei uma ultima volta para comprar chocolate – afinal, se eu tivesse chocolate em casa não estaria aqui, poderia ter ficado lá jogada no sofá lendo romances melosos me encharcando de chocolate, e não, não era do tipo melosa. Entrei na primeira lojinha que vi, comprei 2 caixas de bombom e 5 barras de KitKat. Estava saindo pela porta quando trombei com alguém.

–Ai! – disse sentindo algo bater em minha cabeça.

–Descul- ergui a cabeça no instante que reconheci a voz.

–Ah pelo amor de Deus – tive uma crise de risos. – Resolveu me seguir?

–Ia te fazer a mesma pergunta – Damon riu ajeitando sua câmera. Era isso que tinha batido na minha testa. – Machucou? – ele perguntou tocando de leve minha testa. Corei.

–Não. – sussurrei. – O que ta fazendo aqui?

–O mesmo que você – Damon sorriu torto – gastando. – Eu ri. – Já está indo para casa?

–Aham – assenti.

–Ah, então espera que eu só vou por umas fotos para revelar e eu te levo – ele disse casualmente. Aceitei o convite e o acompanhei até onde ele iria, em seguida ele pagou o estacionamento e se dirigiu ao elevador, saímos de lá já no estacionamento. Voltara a chover, mas não como antes. Caminhamos com certa pressa tentando não nos molhar, mas algo chamou minha atenção.

–Ta ouvindo isso? – perguntei segurando a porta aberta da Ferrari de Damon.

–É você que miando? – ele arqueou uma sobrancelha.

–Não seu escrota – revirei os olhos e olhei a minha volta em busca no miado. Esperei um instante e abaixei ao lado do carro. Meus cabelos já estavam encharcados devido a exposição a chuva que aumentava gradativamente. Olhei para debaixo do carro. Uma bola de neve com enormes olhos azuis me encarava, suja e escondida atrás da roda traseira do carro, seus longos pelos pingavam água.

–Ah, meu Deus! – exclamei estendendo a mão para o pequeno animal que miou e veio em minha direção, cheirando minha mão.

–Cuidado, ele pode te arranhar – Damon disse quando já estava com a pequena bola de pelos na palma da mão.

–É só um filhotinho.

–Eu sei, mas pode te passar doenças, você não sabe onde ele estava – seu tom era preocupado.

–Tem algum pano seco no carro? – eu o ignorei.

–Você não vai levar isso pra casa!

–Não vou deixar ela aqui – enfatizei o ela. – é uma gata.

–Elena... – ele começou balançando a cabeça de desaprovação – Eu adoro bichos, mas não vou deixar você levá-la para casa. – ele veio em minha direção. – Você quer uma gata? Eu compro uma gata para você...

–Eu não quero uma gata, eu quero essa gata – disse ranzinza cerrando os olhos na tentativa de enxergar através da cortina de chuva.

–Ela pode estar doente...

–E vai morrer se ninguém cuidar dela! – a gatinha miava em meu colo se escondendo da água – Ela ta com frio porra! Dá para você me responder, tem ou não um pano seco no seu carro? – em vez de responder Damon bufou e pegou uma antiga toalha no porta malas e a jogou em cima de mim, assustando o bicho que cravou as unhas em meu braço.

–Ai! – arfei.

–Eu te avisei!

–Não foi nada, e aliás, culpa sua você que a assustou – disse acariciando o pelo da gata.

–Deixa eu ver. – sua voz era exigente.

–Não – escondi o braço onde crescia pequenas gotas de sangue onde a felina enfiara as unhas.

–Deixa eu ver porra! – ele puxou meu braço com certa violência, o que me assustou. – Desculpa – Damon murmurou com os olhos cheios de culpa.

–Não machucou – senti minhas bochechas arderem em cor. Damon passou a mão sobre o lugar arranhado.

–Entra no carro, sai da chuva, vai acabar pegando um resfriado – ele disse mais calmo – vou comprar alguma coisa para ela – seu indicador apontava para a gata em meus braços – comer. – Sorri espontaneamente e entrei no carro sem discutir. Coloquei a toalha sobre o banco para não molhar o banco de couro com minhas roupas ensopadas. Envolvi a gata com minha blusa. Podia sentir o coraçãozinho da pequenina pulando devido ao susto, eu a acariciava tentando acalmá-la. Por fim ela se enroscou no meu colo ocupando um espaço mínimo, coberta por minha blusa e usando minha mão de travesseiro. Não se passaram 15min e Damon estava de volta. Ele entrou no carro e sentou sem se preocupar em molhar o banco, em seguida me passou um saquinho com as coisas necessárias para a pequena felina: um laçinho cor de rosa, uma pequena manta lilás e um pacotinho de comida especial para filhotes. Coloquei alguns grãos na palma de minha mão e deixei que ela comesse.

–Coitadinha, devia estar morrendo de fome – ele disse e levou a mão para tocar a gata em meu colo.

–Não mexe com ela, você queria deixar ela lá, na chuva – resmunguei. Ele riu.

–Eu amo gatos Elena – ele disse acariciando a gata.

–Então por que não queria que eu a pegasse? – fiquei séria.

–Por causa disso – seus olhos estavam na estrada, mas suas mãos em meus braços. Corei e fiquei contente por ele não estar olhando, não entendia a preocupação dele comigo. – Me dá ela aqui – ele deu uma rápida olhada e pegou a felina em meu colo. A bola de pelos escalava sua camisa miando, implorando por carinho. Ele sorriu e colocou a gata em seu ombro, passando a dirigir com uma mão só, para acariciá-la.

–Que nome vou dá para você neném? – disse brincando com a gata em seu colo.

–Elena – Damon riu.

–Oi?

–Não, o nome dela pode ser Elena. – eu o encarei. – Uma gata merece o nome de uma gata. – ele riu de novo. Senti meu rosto se aquecer. Se tivesse um buraco ali, enfiaria minha cabeça nele. Mesmo com o tom de brincadeira fiquei extremamente sem graça.

–Eu sei que sou uma gata, mas não – disse tentando parecer convencida. Damon teve uma crise de risos. –Hmm – pensei por um curto período. – Sophie.

–Sophie? Gostei – ele aprovou. – Ai! – ele gritou. – não pode arranhar o papai neném.

–Papai? – eu ri e peguei Sophie e sua mão. – Ela é minha. – ele abriu um sorriso largo.

–Ela gosta mais de mim.

–Ela acabou de te arranhar – arqueei uma sobrancelha. –E fui eu que te encontrei, não é, bebê? – Sophie miou como resposta. – Awn, vem cá com a mamãe – disse abraçando a gata ainda suja. Sophie ronronava.

–Ah para, ela gosta mais de mim. – ele fez um bico. Senti como se tivesse 5 anos de novo.

–Não gosta nada – disse afastando a gata dele para que ele não pudesse tocá-la.

–Ai deixa de ser criança – ele disse me dando uma tapa de leve no braço. Deixa eu adivinhar, a próxima coisa seria me dar língua. – Me dá ela aqui, ela vai ficar comigo, na minha casa. Não é princesa?

–Rá-rá – dei uma tapa na sua mão quando ele a esticou para acariciar a gata. – Porra nenhuma. Preste atenção no transito. – ele fez o que eu disse e continuamos nossa discussão por tudo caminho até nosso prédio.

–Ela ta seca? – Damon perguntou quando já estávamos dentro do elevador, deixando o tom de brincadeira de lado.

–Ao que parece sim – dei uma ultima checada – mas ainda está suja.

–Acho que ela precisa de um banho – ele sugeriu.

–E se ela adoecer?

–Ela tem você para cuidar dela. – ele deu uma piscadela. Abaixei a cabeça corando. Já estávamos em minha porta a essa altura. Entramos e coloquei minhas bolsas em cima do sofá de qualquer jeito dando prioridade a minha nova companhia felina.

–E então?

–O que? –Damon perguntou.

–Vai me ajudar a dar banho nela ou não? – perguntei irônica.

–Claro – ele riu. – Vem cá com o papai meu amor – ele disse tomando a gata de mim.

–Não começa – fechei a cara.

–Por favor, Elena me deixa ser um pai presente na vida da minha filha – ele disse beijando a gata. Comecei a rir.

–Esta bem – ri alto – vou lá pegar uma toalha – dei uma pausa – uma para ela, e outra para você – disse analisando o estado de suas roupas.

–Agradeço – ele sorriu.