Neighbors
35 Capítulo 35
Notas iniciais
Um silêncio doloroso se plantou entre nós durante o trajeto até o aeroporto, e as coisas não melhoraram durante a viajem. Estávamos sentados um do lado do outro, mas tão distantes que poderíamos estar em vôos diferentes. Chegamos à cidade luz ainda na madrugada da véspera de ano novo, o aeroporto estava um caos, turistas chegando de todas as partes do mundo. O murmúrio de vozes só acentuava a dor de cabeça.
Ainda sem dizer uma palavra, seguimos para o hotel que não ficava muito distante dali. Mal havia percebido que pulamos uma localidade, Mônaco, era para onde deveríamos estar indo hoje, porém não perguntei o porquê do cancelamento. Mas no fim das contas, qual graça teria ir para um paraíso daqueles no inverno?
Já no quarto do hotel, fui me trocar para dormir. Quando já estava usando uma de minhas camisolas preferidas, percebi que Damon estava esperando que eu terminasse de me trocar na pequena varanda de nossa suíte.
-Quer que eu vá para outro quarto ou durma em outro lugar? – sua expressão era ilegível.
-Claro que não — tentei dizer de maneira agradável. – Se você não quiser que eu durma com você, eu vou.
-Não, para mim está tudo bem – murmurou.
Abaixei a cabeça e andei vagarosamente até a cama.
-Damon?
-Hm?
-Amanhã mesmo eu vou fazer comprar o teste de gravidez, pode ficar tranqüilo – mordi o lábio. Ele deu um rápido sorriso torto antes de vir se deitar ao meu lado.
Mantínhamos a maior distancia possível entre nos na cama. Sophie podia se esticar entre nós e não encostar nem em mim nem em Damon. Abracei meu travesseiro com força e fechei os olhos tentando não chorar e ao mesmo tempo pegar no sono.
Foi difícil, mas eu consegui, dormi um sono sem sonhos. Quando abri os olhos havia uma claridade invadindo a janela e eu estava sozinha na cama. E pelo visto, também não estava no quarto. Tomei um banho demorado e vesti um agasalho, planejando sair. Deixei Sophie sozinha no quarto com a comida e a água, do jeito que ela era preguiçosa, a encontraria dormindo quando voltasse.
Saí do hotel e caminhei pelas ruas da cidade absorvendo o máximo de luz solar possível. O tempo ainda estava frio, mas parecia mais agradável ali. Segui o fluxo de pedestres até chegar a praça que se encontrava de frente ao museu do Louvre. Sentei em um dos bancos úmidos e admirei o lugar, maravilhada. Deixei meus olhos vasculharem os arredores procurando por coisas novas e acabei por ver o que eu não queria.
Damon estava dentro de uma padaria na esquina a minha frente. Seu rosto estava iluminado num sorriso estonteante e seus braços estavam em volta de uma morena com longos cabelos cacheados.
Meu queixo caiu em choque. Forcei minhas pernas a se moveram, mas continuei sentada do outro lado da rua observando a cena. Não me parecia nada demais, mas não queria dizer que não seria. Engoli a seco e me coloquei de pé. Em vez de atravessar a rua, andei na direção oposta a procura de uma farmácia. Não me demorei e peguei o primeiro teste de gravidez que vi pela frente e fui até o caixa.
- Bonne chance – a mulher do balcão disse com um sorriso no rosto.
- Merci – tentei ser educada ao sorrir de volta.
A temperatura havia despencado em questão de minutos, estava batendo dentes do caminho de volta ao hotel. Quando cheguei no quarto mal cumprimentei Damon e corri para o banheiro. Ele sabia exatamente o que eu ia fazer. Respirei fundo e contei de um a dez antes de fazer o teste. Percebi que minhas mãos estavam tremendo enquanto esperava o tempo necessário para o teste dar o resultado. Ouvi uma batida tímida na porta.
-Entra – sussurrei.
-Ei – disse e sentou-se no chão do banheiro ao meu lado. – Já sabe o resultado?
-Não – suspirei. Damon passou seus braços a minha volta. Cedi e deitei a cabeça em seu ombro vendo os minutos se arrastarem.
-Rosa?
-Aham – abri um sorriso largo.
-Significa...?
-Deu negativo – disse aliviada.
-Seria considerada uma má pessoa se ficar feliz? – ele riu.
-Não – também ri.
Coloquei-me de pé num movimento desajeitado e sentei-me no balcão da pia. Mordi o lábio.
-Damon?
-Hm?
-Quem era aquela? – sussurrei.
-Ah não – ele passou a mão no rosto. Respirei fundo. – Você me viu beijando a Charlotte.
-Você o que?
-Então você não viu?
-Eu vi vocês juntos, e... – meu rosto foi adquirindo uma tonalidade de vermelho escuro.
-Ela me beijou, eu não queira, desculpa...
-Eu vi vocês juntos e achei que não era nada demais e fui embora – disse atordoada.
-Elena, ela não sabia que eu estou comprometido, nós namoramos há muito tempo atrás quando eu morava em Nova York.
-É assim que você cumprimenta suas ex-namoradas? – arqueei uma sobrancelha.
-Não! – Damon se colocou de pé. – Só que a Charlotte sempre foi assim.
- Ah sim – entrelacei minhas mãos em meu colo.
-Você não está dando importância a isso – não foi uma pergunta.
-Não – admiti.
-Qual é o seu problema?
-Quantos anos ela tem? – perguntei pensativa.
-Hã? – seu rosto expressava a confusão que sentia – 29. Por quê?
-Ela tem alguém?
-Não – Damon estava com a expressão como a de quem está fazendo uma prova de matemática no fim do ensino médio – Eu beijei outra mulher e você quer saber da vida dela?
-Claro – disse seca.
-Não entendi.
-Só estava juntando as coisas.
-Elena?
-Vocês têm muito em comum, ambos solteiros, idades próximas... Tenho certeza de que ela pode te dar o que você quer. – pausa – Ela é muito bonita Damon, meus parabéns.
-Eu não estou solteiro, Elena. – disse urgente.
-Sim está – disse calmamente – Eu que tenho que pedir desculpas por todas essas minhas reações exageradas. Sim, eu ia foder minha vida se realmente estivesse grávida agora, você estava certo, como sempre, só estava querendo o melhor para mim e a única coisa que eu fiz foi arrumar problemas para gente. – ele abriu a boca para falar, mas fingi não ver – Você não ia deixar sozinha, eu entendi, não precisa me explicar isso de novo, quem não estava entendo as coisas direito era eu.
-Então porque está terminando comigo?
-Não estou terminando com você, eu não quero te privar de ter a vida que você quer. – respirei fundo – Você tem 34 anos, quando eu tiver 29, a idade que eu pretendo ter filhos, você já vai estar com 40... Não é justo que eu deixe você esperando por tanto tempo. Vá viver sua vida – dei um sorriso fraco.
-Eu quero viver a vida ao seu lado Elena, você não está me privando de nada.
-Estou sim! Isso não é justo Damon! – desci da bancada. – E eu não sei por que eu demorei tanto tempo para ver isso. Estamos vivendo fases diferentes da nossa vida, você mesmo disse isso quando pediu para casar comigo. E bom, quando você ama uma pessoa você quer que ela seja feliz, então, seja feliz com alguém que possa te dar o que você quer.
-Você acha que não me faz feliz?
-Se eu te fizesse feliz você não estaria beijando outra mulher – dei de ombros e saí do banheiro.
Minha frieza me assustou. Passei meus braços envolta de meu corpo e respirei fundo antes de pegar minha bolsa e sair do quarto novamente. Enquanto estava dentro do elevador, esperei por minha crise de choro, porém isso não me ocorreu. Já na rua, entrei no primeiro táxi que vi decidida ir até o aeroporto. O trajeto serviu para que eu pensasse e repensasse em meus atos da ultima hora, e descobri que não me arrependia de absolutamente nada. Assim que desci do carro, percebi que o tempo mudara, começava a cair uma fina chuva e o vento gelado sobrava com vigor.
Dentro do saguão, turistas andavam com bagagens de um lado para o outro, fiz o meu máximo para não esbarrar em ninguém. Depois, finalmente, finalmente encontrei o que eu queria.
-Passagem? Para hoje? – a mulher perguntou com uma sobrancelha erguida depois de ouvir meu pedido.
-Sim – cerrei os lábios.
-Vai passar a virada de ano dentro do avião, e...
-Não tem problema – dei um sorriso fraco.
-Ok, hm, e para onde?
-Nova York. – suspirei.
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