Neighbors

3 Capítulo 3


–Não vai rir de mim, né? – Perguntei já imaginando a resposta.

–Que isso! Imagina, eu ia rir de você?! – sua voz era debochada. Exatamente como eu pensei.

–Então não vou.

–Estou brincando – ele riu – não adianta fazer essa cara de bravinha não, só está parecendo uma gata manhosa implorando por um pouco de leite. – Senti minhas bochechas arderem em cor. Suavizei minha expressão e caminhei ao seu lado até o restaurante.

–Posso pedir para você? – Damon perguntou quando já estávamos sentados a mesa.

–Fique a vontade, não entendo nada de comida japonesa mesmo – suspirei. Assim ele fez e nos continuamos nossa conversa descontraída que começamos no carro rindo feitos dois idiotas de coisas extremamente idiotas até que nossa comida chegasse.

–Eu não sei como se come isso — choraminguei.

–É simples – Damon pegou minhas mãos para segurar o hashi e a conduziu para que eu pegasse o que parecia um enroladinho de arroz. E depois o deixei cair no prato. Fiquei séria. Damon reprimia uma risada. – Tenta outra vez – ele me encorajou. E assim eu fiz. E assim caiu de novo. Dessa vez ele não reprimiu o riso.

–Ah, foda-se os pauzinhos. – disse pegando o enroladinho com a mão. Mastiguei com cuidado analisando o sabor. Não era ruim, um tanto diferente, exótico, mas gostoso. – Gostei – peguei outro e coloquei na boca. Esse tinha o gosto diferente, amargo, ai eca – desse não – fiz uma careta. Damon parecia que teria convulsões de tanto rir. – E você disse que não iria rir. – o encarei seria, o que só o fez rir mais.

–Des... – ele tentou dizer mais outra gargalhada fez todo o seu corpo tremer. O encarei com a cabeça apoiada em minhas mãos, sustentadas por meu cotovelo na mesa. – Você é hilária.

–Devo acrescentar isso na minha lista de talentos? – arqueei uma sobrancelha.

–Ah não fique chateada – ele disse apertando minha bochecha de uma maneira que de certa forma era carinhosa. – Isso foi um elogio – ele fez um biquinho. Meu Deus que vontade de morder.

–O que vamos fazer depois? – o ignorei e coloquei outro dos enroladinhos na boca, dessa fez ficando o hashi.

–Ah não sei, tem tantos lugares que acho que você ia gostar de conhecer... – ele começou e depois olhou a janela – mas acho que teria de ficar para outro dia, ao que parece vai chover.

–Que merda – reclamei.

–Podemos ir ao cinema? – sua sugestão mais parecia uma pergunta.

–Não é uma má idéia – disse limpando a boca com o guardanapo.

–Quando estiver pronta para ir, é só falar – ele gesticulou para meu copo de coca intocado. Dei um grande gole.

–Estou pronta. – disse e bebi o restante. Ele gesticulou para que trouxessem a conta. – Eu pago a conta.

–Não.

–Sim, eu pago a conta – disse seria – Você está fazendo um favor para mim me mostrando a cidade e ainda me trouxe para almoçar, eu que tenho que pagar.

–Mas eu te convidei.

–Não interessa, eu pago.

–Não, você não vai pagar.

–Vou pagar sim – disse cerrando os olhos.

–Eu não vou deixar – ele sorriu torto.

–Pelo amor de Deus, eu vou pagar essa porra e pronto – disse batendo na mesa.

–O máximo que eu deixo você pagar é a bebida.

–Nada feito.

–Meio a meio então.

–Hm, pode ser – relaxei a expressão.

Saímos do restaurante rindo de nossa discussão sobre quem pagaria a conta – eu que deveria pagar, mas ele era machista demais. Odeio homens machistas. Ele ter me convidado não queria dizer que ele tinha que me sustentar.

–Você é mais feminista do que eu imaginei – ele reclamou.

–Você que é machista. – revidei.

–Claro que n- eu o interrompi:

–Quando se discute comigo só há duas opções: ou eu estou certa ou você está errado, então chega. – Damon me encarou e depois riu.

–Que filme vamos assistir? – entravamos no carro outra vez quando as primeiras gotas de chuva começaram a cair.

–Você escolhe – ele me respondeu dando de ombros.

–Sabe quais filmes estão em exibição?

–Não – ele fez que sim com a cabeça dando a resposta negativa.

–Quero ver Madagascar, eu ia, mas não tive tempo essa semana.

–Que maduro de sua parte.

–Algo contra?

–Não – ele riu. – Eu gosto.

–Que maduro da sua parte – eu ri.

–Posso fazer uma pergunta?

–Já fez.

–Não idiota você entendeu – ele riu.

–Diga.

–Quantos anos você tem?

–Que falta de educação – olhei atrás da janela a fina chuva que caía. Ele não disse nada. – 23. – suspirei.

–Só?

–Está querendo dizer que tenho cara de velha? – perguntei fingindo estar irritada.

–Não! – ele disse como se desculpasse. Eu ri.

–E você?

– 33 – ele sorriu de maneira debochada. Nossa, eu diria que ele tinha 13.

–Isso tudo? – arqueei uma sobrancelha.

–Ah eu sei que eu tenho cara de neném.

Dei-lhe um soco no ombro.

–Para de ser convencido. – ele riu como resposta.

Depois daquilo um silêncio foi plantado entre nós, exceto pelo barulho das gotas de chuva batendo no teto de sua Ferrari. Eu olhava através da janela absorta em pensamentos. Devido a chuva o transito estava impossível, o trajeto que levaria uns vinte minutos – eu acho, não sabia onde ficava o cinema – estava se arrastando pela segunda hora, e já não restava mais esmalte nas minhas unhas.

–Importa-se se eu ligar o rádio? – Damon perguntou quebrando meus devaneios.

–Não, até agradeço. – ele ligou e eu automaticamente reconheci a música, Paradise do Coldplay. Não me contive, comecei a cantarolar.

–Gosta de Coldplay? – Damon perguntou.

–Escuto músicas aleatórias de artistas aleatórios – respondi distraída pela música.

–O cinema é na próxima esquina – ele comentou.

–Não é tão longe do nosso prédio, hm, ou é?

–Não se você vir de carro – ele balançou a cabeça positivamente.

Damon deixou o carro no estacionamento e nós andamos até o cinema, estava lotado. Parece que todas as pessoas que iam passar o dia ao ar livre tiveram a mesma idéia que a nossa de ir ao cinema. Entrei na fila para comprar as entradas esperando Damon, que havia ido ao banheiro. Achei que fosse levar horas na fila devido a demanda de pessoas na minha frente, mas tudo correu rápido demais, e amém, ainda tinha ingressos para a sessão seguinte de Madagascar 3.


Saímos do cinema já ao entardecer, a chuva não dava trégua. Resolvemos, por fim, ir para casa, e deixar para conhecer o resto da cidade outro dia. Passamos o caminho todo ouvindo música e falando sobre elas, o que fez o tempo passar rápido demais, quando me dei conta já estávamos entrando na garagem do prédio. Saímos do carro e entramos no elevador em silêncio, só o quebrando quando chegamos a minha porta.

–Espero que eu tenha sido útil. – Damon disse dando um sorriso torto.

–Foi sim, muito útil. – sorri – Obrigada, mesmo.

–Que nada – Damon corou, não tem palavras que descrevesse como ele ficava fofo daquele jeito – Quando o tempo melhorar te levo para conhecer os lugares abertos.

–Claro. – dei uma pausa – Quer ficar para o jantar?

Ele ergueu uma sobrancelha.

–Vou fazer lasanha, se quiser você pode ficar e jantar comigo.

–Eu recusaria por educação, mas lasanha é o meu ponto fraco.

Eu ri.

–Ignora a bagunça, não tive tempo para arrumar nada ainda – disse abrindo a porta.

–Onde ponho isso? – ele perguntou segurando as sacolas com as compras que havia feito mais cedo. Já havia me esquecido delas.

–Ah! Pode por aqui! – gesticulei para a mesa da cozinha. Ele as pôs em cima da mesa e ficou parado me encarando.

–Não vou falar que você pode sentar aqui ou ali por que se não pudesse não estaria no meu apartamento – disse de maneira amigável.

–Ok – ele riu e se sentou no sofá da sala.

Eu liguei a TV e deixei o controle nas mãos dele. Em seguida fui até meu quarto, deixei minha bolsa e tirei minhas sapatilhas que acabavam com meus pés, entrei no banheiro e escovei meus cabelos rapidamente os prendendo em um coque mal feito. Segui até a cozinha colocando as compras em seus devidos lugares no armário, exceto as coisas que eu usaria na lasanha. Coloquei a massa para cozinhar em fogo baixo enquanto preparava lentamente as coisas para o molho branco.

–Quer ajuda? – Damon perguntou em pé me encarando encostado na meia parede que dividia a sala da cozinha.

–Pelo que você me disse não sabe cozinhar.

–Eu disse ajudar, não cozinhar para você.

–Então ta, espalhe o queijo no tabuleiro. – disse e virei as costas para ver como estava a massa. Só mais alguns minutinhos... – Eu disse para você espalhar o queijo no tabuleiro, não comer ele.

–Só um – mastiga — não vai fazer falta.

–Só um. – me virei mais uma vez e liguei o forno, depois abri a geladeira, checando se havia algum refrigerante ou cerveja gelados. – Hm, não tem cerveja, mas tem coca, e tequila.

–Você – ele apontou – bebe tequila?

–Algum problema? – Coloquei uma de minhas mãos na cintura e ergui uma sobrancelha ao dizer.

–Porra – ele riu. – Me surpreendeu, Elena cachaceira.

–Eu não sou cachaceira, eu só gosto de beber uma vez ou outra...

–Aham, sei.

–Agora me dá esse tabuleiro aqui – disse estendendo as mãos, assim que ele me passou coloquei a massa quente de lasanha no mesmo e cobri com molho, jogando queijo ralado e orégano por cima; em seguida levei ao forno. – Agora é só esperar.

Me joguei no sofá e vi Damon me acompanhar, sentando-se imóvel ao meu lado. Eu ri.

–Sinta-se em casa. – disse jogando minhas pernas em cima dele. Funcionou, ele riu.

–O que vamos ver?

–Ah sei lá, qualquer coisa – disse passando os canais rápido demais. Até que um seriado me prendeu a atenção.

–CSI?

–Gosta?

–Aham – ele respondeu.

–Então é isso mesmo.

Ficamos ali por uns trinta minutos, vidrados no seriado tentando descobrir quem era o assassino. Minhas hipóteses eram inúteis, Damon acertou de primeira, sem ao menos assistir o seriado por 3 minutos.

–Não é justo. – disse – você já viu esse episódio.

–Não, esse é novo. – ele deu seu sorriso torto. Fiquei séria.

–Leu na sinopse – eu o acusei.

–Eu li a sinopse não spoilers do episódio, nem se eu quisesse teria ali...

–Ah ta, não quero mais ver isso – fiquei de pé e marchei até a cozinha. A lasanha estava no ponto, espalhando cheiro por toda a casa. Peguei minha luva e a retirei do forno. Arrumei a mesa rapidamente e nem precisei chamar Damon.

–Está cheirosa.

–Claro, fui eu que fiz.

Ele me deu um soco no ombro.

–Para se ser convencida – ele disse numa voz de falsete me imitando.

Sentamos e comemos em silêncio, bebemos sem exagero, o primeiro comportamento adulto do dia. É, eu tinha que admitir, tinha me divertido, e sem querer ser muito precoce, mas de certa forma sendo, eu tinha um amigo. Alguém que não me deixaria perdida se eu não soubesse voltar para casa no meio dessa cidade enorme, alguém que queria ser escravizado por mim, me levando e buscando na faculdade que começaria na próxima semana, alguém que me pediria açúcar de vez em quando na minha porta.

–Está tarde, e eu estou te incomodando – Damon disse enquanto me ajudava a lavar a louça.

–Eu não durmo cedo, e não está me incomodando. – falava e secava aos pratos ao mesmo tempo. Enfim, a cozinha estava limpa.

–Obrigada – ele disse andando em direção a porta.

–Eu que tenho que agradecer – não pude deixar de sorrir.

–Assim que fazer sol venho te tirar da cama – Damon brincou.

–Não sou a pessoa mais agradável do mundo antes das 8 da manhã, principalmente quando sou tirada da cama. – admiti.

–Não costumo acordar antes das 10 – ele riu.

–Tchau Elena – ele disse e me deu um rápido abraço depositando um beijo no alto de minha bochecha. Fiz o mesmo.

–Tchau. – disse e esperei que ele entrasse em seu apartamento ao lado do meu para que eu fechasse a porta.