Nebulosa Cristalis: Parte 2
2 Capítulo 2: Solaris
— Ushio… — disse a voz, calmamente. "Ushio? Consegue abrir os olhos?"
— Papai? — Respondeu a menina, ainda imóvel.
— Como você veio parar aqui? Já falei que um dia vai fugir, e eu não a encontrarei mais...
— Eu queria ver as estrelas. — O fluxo de sangue que saía da testa da menina não diminuía, e os paramédicos ficavam assustados.
— Mas, filha, este antigo observatório foi fechado há cinquenta anos! Você já tem um telescópio no seu quarto, e pode usar o meu sempre que quiser! — Seu tom de voz ficava mais inconstante, comforme seu nervosismo com as feridas da menina aumentava.
— Mas eu quero aqui. — Teimou.
Pode-se dizer que Ushio é uma daquelas crianças solitárias, que possuem problemas em manter qualquer tipo de contato com outras crianças. Quando menor, a menina já enfiara um lápis pela língua de um coleguinha de classe, e quando indagada o motivo, sua resposta direta e desprovida de culpa assustou aos pais e ao orientador:
"Ele não calava a boca."
Mas aquela noite foi a gota d'água para seus pais. Ushio tinha o costume de fugir, normalmente durante a madrugada e só voltar pela manhã, deixando-os aflitos. Eram duas e meia da manhã, e o telefone tocou na casa dos Sorata. Eram os bombeiros. Um homem que morava na casa ao lado havia visto alguém invadir o velho observatório, minutos antes de parte da estrutura já gasta ruir. Em minutos, lá estavam os bombeiros, e graças ao aviso, uma ambulância.
— Ushio, por pouco você não ficou presa nos escombros! E se o vizinho não tivesse lhe visto por aqui, o que aconteceria? Você não faz idéia de como passou dos limites hoje, minha filha… — O homem não conseguia parar de chorar, transformando toda a briga em apenas um desabafo sincero. Tudo isso enquanto seus olhos negros como uma noite de inverno focavam nos olhos da menina.
— Eu viraria uma estrela tão linda quanto todas as outras ali no céu, Papai. — Respondeu a menina, sorrindo. Não haviam lágrimas em seus olhos, apesar da expressão de dor, e de certo desconforto, provavelmente com os paramédicos tocando seu corpo.
— Filha, eu sei do seu amor por tudo isto, mas você sabe que não há como eu permitir que continue assim. Sua mãe e eu teremos de lhe proibir de saír de casa por um bom tempo. — O homem respirava com certa dificuldade. Seus cabelos já grisalhos estavam bagunçados de tanto esfregar seus dedos.
Um dos paramédicos chamou o homem, tentando distraí-lo, para que não mais atrapalhasse os curativos.
— Sua filha vai ficar bem, senhor…
— Sorata. Sorata Hitoshi.
— Senhor Sorata, então. Ela ficará muito bem. O corte é bem superficial, apesar de ela aparentemente ter sangrado muito, já já o corpo jovem dela se recupera. Mas, eu devo lhe pedir uma coisa. Ela bateu a cabeça, e está sobre um estresse muito grande. Para que ela se recupere — O homem dá mais uma baforada em seu cigarro, e oferece o final a Hitoshi, que o traga como se não fumasse há dias. — eu preciso que o senhor e sua família a tratem com muito cuidado, sem brigas por enquanto, pelo menos até o corpo dela ter se recuperado totalmente. Houve também uma pequena fratura na perna, que estamos engessando agora. Em alguns minutos, ela poderá ir para casa, já que os robôs de diagnósticos não detectaram nada além destes ferimentos leves.
E o paramédico estava certo. Em menos de uma hora, Ushio já estava em casa, dormindo. No dia seguinte, não foi à escola. Nem no outro. E isto continuou por um mês. Mês este em que a jovem desenvolveu o interesse pela química, e decidiu por largar finalmente a escola, aos 11 anos.
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— Você acha que é uma estupidez passar o dia lendo os relatos escritos sobre mim no computador, Lucy?
— Se a senhorita deseja aprender mais sobre si mesma, creio que não. Mas, não creio que a opinião de uma IA iria realmente influenciar alguma atitude sua.
— Não mesmo. Foi uma pergunta retórica. Mas acho que lhe programei para responder até as perguntas idiotas, não?
— Somente as suas. Sou programada para zombar do Ibrahim, e para ignorar as ordens desnecessárias de Natasha. Inclusive, senhorita, preciso lhe perguntar algo.
— Diga. — Respondi, talvez um pouco espantada. Era a primeira vez que via Lucy mudar de assunto ou falar algo que lembre uma opinião verdadeira.
— Quando acordar o Capitão Ibrahim, o recebo com uma piada sobre cabras, ou sobre religião?
— Não conhece nenhuma sobre religião e cabras? — Sorri.
— Dois Judeus entram num bar e…
Acho que não devo registrar esta parte aqui… Mas enfim, o que importa é que eu estou começando a me sentir orgulhosa de Lucy. Uma inteligência artificial capaz de me entreter, e ao mesmo tempo ter opinião própria… E óbviamente, como todo o resto do universo, me achar mais inteligente que ela mesma! É algo formidável. Apesar de que sinto um pouco de falta da ingenuidade de Ibrahim e do veneno de Natasha, acho que vou esperar mais um tempo para acordá-los. Passei o resto do dia fazendo as manutenções na nave, e conversando com a IA, até a hora de finalmente ir descansar um pouco. Me deitei na cama, e apesar do sono, fiquei me revirando um pouco, relembrando aquela noite em que eu poderia ter virado uma estrela.
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